Caminhos Cruzados



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— Tu vais ver — promete. — Hoje volto emprega­do ou então não volto mais.

Quisera dizer estas últimas palavras com energia, como as personagens de romance nos momentos bem dramáticos. Mas não pode, falta-lhe força, falta-lhe von­tade.

Laurentina e Napoleão continuam a chorar.

João Benévolo joga o chapéu e sai para a rua em silêncio.

86

Quando, ao despertar, encontra à cabeceira uma enorme corbelha em forma de coração, D. Dodó tem um sustinho agradável. Olha para o lado. O marido não está na cama. E num instante ela compreende que hoje é o dia de seu aniversário e que aquele coração florido é uma delicadeza do seu Teotônio. Que lindo!



Ergue-se e vai acariciar as flores. No cesto há um pacotinho feito com papel de seda cor-de-rosa e amarrado com uma fitinha da mesma cor. D. Dodó desata a fita, desdobra o papel e descobre um estojo de veludo azul. Abre-o. Uma faiscação multicor contra um fundo de seda branco... Uma cruz de brilhantes! Ai! O que ela tanto desejava! Pregado ao forro da tampa, um cartãozinho pe­queno com estes dizeres:

Para a minha querida Dodó, companheira fiel de vinte e oito anos, esta humilde lembrança daquele que a tem guardada no escrínio do coração.

Teotônio

Uma onda de ternura a arrebata, fazendo-a esquecer o frio do soalho sob os pés descalços.

E, toda alvoroçada, corre para o banheiro a fazer-se bonita para esperar o beijo matinal do marido.

Vera toma café na cama e passa os olhos pelos jor­nais da manhã. Nada de novo. Discursos de Mussolini, discursos de Hitler. Um reide aéreo fracassado. Explode uma fábrica de munições na Bélgica. Os reis de Sião vi­sitam Londres. Na quinta página, com títulos graúdos:

A “Gazeta” entrevista uma das nossas damas

de caridade

E pouco abaixo, o retrato de D. Dodó, sorridente, em clichê de retícula grossa, quase irreconhecível. Vera sor­ri ironicamente para a entrevista da mãe e passa adiante. (Essa velha — é o seu pensamento mais íntimo e mais sincero — essa velha não cria juízo. Gosta de exibições, dá um dente por um retratinho no jornal. Depois faz ares de surpresa e modéstia quando vê a sua cara nas folhas...) Na sexta página, um crime. Os cabeçalhos são berrantes.

lavando o seu nome com o sangue dos adúlteros

É a história de sempre: marido, mulher e amante. As fotografias são impressionantes. Vera franze a testa e examina: o cadáver da esposa infiel é uma massa in­forme no segundo plano da fotografia. Mas já o amante aparece em primeiro plano, noutro clichê. Está no leito do hospital onde morreu, e parece sorrir: dentes muito brancos, cara morena, um fio de sangue que lhe corre no canto do olho esquerdo e vem terminar no pescoço. A história é simples: O marido desconfiava da mulher, o amante lhe rondava a casa. Um dia saiu, voltou inesperadamente e encontrou mulher e amante’ aos beijos. Dois tiros na mulher e três no amante. Os nomes são desconhecidos para Vera. Mas a fotografia do rapaz, o seu sorriso branco e fixo, o fio de sangue... Repugnada, Vera volta a página depressa.

Chega-se a perder o apetite com estas histórias de crime. Não devia ser permitido publicar reportagens as­sim...

Levanta-se cantarolando. E como a manhã é clara e límpida ela esquece a tragédia e pensa em Chinita.

Sentada à mesa do café, D. Dodó relê com delícia a sua entrevista. Por trás dela, com as mãos nos ombros fofos da esposa, Teotônio lê também. De quando em quando assobia baixinho.

Quando Dodó termina a leitura, ficam ambos com­binando providências para o almoço e para a recepção da noite. Monsenhor Gross aceitou o convite para almoçar. O Dr. Armênio — que moço atencioso! — virá também. À noite só aparecerão os íntimos e a comissão das Damas Piedosas, que vai prestar uma homenagem à sua incan­sável presidenta.

Quando Vera desce e, cumprimentando os pais com indiferença, se esquece de que a mãe está fazendo anos, a felicidade de D. Dodó se turva por um instante. Leitão Leiria pigarreia repetidamente, e o seu pigarro insisten­te quer dizer: “Vera, minha filha! Que é isso? Não sabes que tua mãe está de aniversário?”

— Noêmia! — D. Dodó grita para a criada. — Tra­ga a corbelha para a sala.

Então de súbito Vera compreende. E salta cheia de desculpas:

— Ora, mamãe, me perdoe. Que cabeça a minha! — E abraça-a, beijando-lhe o rosto. — Muitas felicida­des.

De novo brilha o sol na alma de D. Dodó.

Ah! estas meninas modernas! — pensa Leitão Lei­ria, sacudindo a cabeça.

E acende um charuto.


87

Chinita abre os olhos e a primeira imagem que lhe vem à mente se relaciona com aquela tarde inesquecível. Debaixo das cobertas quentes ela como que tornou a sen­tir de novo as carícias reveladoras de Salu. Já não há mais lugar para remorsos, escrúpulos, cuidados. Porque ela conheceu finalmente o gozo misterioso de cuja existência sabia por intuição. Agora deseja a repetição da­quele instante convulsivo que a projetou no paraíso.

A fita de sol que entra pela fresta da janela se es­tende até a cama. A manhã deve estar linda. Chinita toca a campainha, a criada aparece e ela pede:

— Chocolate.

A rapariga torna a sair. Chinita se espreguiça. Um bocejo cantado. Outra vez Joan Crawford. O seu mundo do cinema renasce. O resto, que importa? Salu já lhe fez a grande revelação. E ela tem a impressão de ouvir as suas palavras: A vida é curta, a gente morre mesmo. Por que não aproveitar? Deixa de bobagem!

E a vida acaba mesmo.

Chinita fica pensando em Salu. Quando será que vai vê-lo de novo? Se fossem casados...

Mas não. Casamento é tolice. Primeiros meses, aquela fúria — como ele explicou. Depois — aborreci­mento, frieza. Tudo fica visto, igual, repetido. Ao passo que dois amantes (apesar da palavra feia — amante) podem continuar a achar sempre no amor uma coisa gos­tosa, proibida, esquisita.

Minutos depois a criada entra com o chocolate.

— Que tal está o dia?

— Lindo.

Quando a mulata torna a sair, Chinita fica pensan­do: Será que ela também já...?

88

De pé, firme, junto da cama do marido, a mulher do tuberculoso espera o fim. A agonia começou. De olhos arregalados, agarrados às saias da mãe os dois guris olham sem compreender.



Maximiliano está com uma vela na mão. Alguns vi­zinhos foram chamados. D. Veva veio, de avental, enxu­gando as mãos. O Cap. Mota apareceu de chinelos. O sapateiro italiano. O empregado do açougue. Todos ago­ra esperam em silêncio. (O médico olhou, disse que era o fim e foi embora.)

A vela treme. Maximiliano está de olhos revirados, respiração difícil. Os segundos se arrastam. O gramofo­ne do vizinho começa a tocar a sua valsa de todos os dias.

— Mande parar essa gaita! — diz o capitão para o empregado do açougue, com voz indignada e trêmula.

Depois que o capitão termina de falar, o silêncio de novo cai. A respiração do moribundo é tão fraca que às vezes parece que cessa por completo. Todos sentem a pre­sença da morte.

O rosto lívido de Maximiliano é uma máscara trans­parente dolorosamente tranqüila e ele agora está imóvel.

— Se finou — diz o capitão.

O rosto de pedra da mulher do morto não tem a menor contração.

— Vão lá para dentro — pede ela aos filhos.

E muito tranqüila tira a vela das mãos do marido, põe-lhe os braços debaixo das cobertas e puxa o lençol, cobrindo-lhe a cabeça.

De repente o gramofone se cala. Do peito da viúva de Maximiliano escapa-se um suspiro de alívio.

89

João Benévolo caminha sem rumo. Já esqueceu a cena que teve em casa, esqueceu que está desempregado e que a sua gente hoje não tem dinheiro para comprar comida.



O sol brilha. Os bondes passam trovejando. As pes­soas caminham e se cruzam com caras indiferentes. Pa­rece que reina paz no mundo. Não há dores nem necessi­dades. Num café um rádio despeja a música de uma banda. Um vendedor de frutas canta o seu pregão. Um velho de sobretudo por cima do pijama cultiva o seu jar­dim. Na janela duma casa grande uma rapariga de cabe­los quase brancos de tão claros sacode um tapete, can­tando. Cheiro de café torrado no ar. Buzinas grasnam. No meio da rua os guardas estendem as mãos, dirigindo o tráfego.

João Benévolo segue. De repente seus passos come­çam a levá-lo para um rumo familiar e antigo. Janjoca volta para a sua infância. Obscuramente ele conhece o seu destino, e sabe que não deve ir... As esperanças de trabalho estão para outras bandas. Mas ele vai... Faz de conta que não sabe. Entrega tudo ao acaso...O acaso sempre é que tem culpa. Quando cai em si, está na Rua da Margem. O seu coração se aperta. (Será o coração ou é o estômago vazio que dói?) Estas pedras, esta terra, estas árvores, este ar são para ele imagens queridas e familiares. João Benévolo tem a impressão de que ouve vozes amigas, distantes e apagadas; vislumbra acenos... De repente se surpreende a olhar de frente para o Jan­joca magriço e pálido de doze anos que brinca na frente da Padaria Trípoli. Mas, reparando bem, percebe que quem ele está vendo é um menino desconhecido que pas­sa pela rua carregando um cesto.

Ali ficava a Padaria Trípoli. Hoje é um armazém de secos e molhados. A casa não mudou, só a pintura é que é nova. Que fim levaram os gringuinhos? João Benévolo dirige-se para a ponte do Riacho. Um cachorro morto e inchado bóia à flor da água parda. João Benévolo olha “seu mar”. Aqui ele vinha brincar de guerra. Tinha feito um cruzador de madeira e lata. Chamava-se “Minas Ge­rais”. Travavam-se batalhas navais. Os guris da padaria tinham torpedeiros com nomes italianos. Brigavam. Mas depois faziam as pazes. João Benévolo dizia que ia ser almirante quando ficasse homem. Ou general, ou explo­rador na China, ou na Índia.

No entanto aqui está, simplesmente um pobre-diabo sem eira nem beira, com mulher e filho, sem dinheiro e sem emprego — olhando a água do riacho onde antiga­mente singravam os seus couraçados e os seus sonhos.

No espelho pardo refletem-se os vultos das árvores. Passa uma catraia por baixo da ponte. João Benévolo esquece a infância e a realidade presente e projeta-se num outro mundo. Viaja pelas florestas virgens da Áfri­ca, à caça de diamantes. O cachorro morto à flor da água é um hipopótamo. Então, o heróico explorador leva o seu rifle à cara e faz pontaria...

Dois moleques que passam ficam rindo daquele ho­mem que fala sozinho e levanta as mãos assim com o jeito de quem está dando um tiro de espingarda...

90

Virginia prefere tomar o café no quarto. Ver a cara do marido seria estragar a manhã, que está bonita.



Toma uma pérola Juventus, e espera que Honorato vá para o escritório.

Na varanda Honorato toma café, pensando no tra­balho do dia. É preciso providenciar para dar um desti­no àquela mercadoria que ficou à disposição no Rio Grande. Noel aparece à porta.

— Bom dia!

Honorato nota logo que o filho está com a fisiono­mia mais alegre.

— Bom dia! Como passaste a noite?

— Esplendidamente.

Noel senta-se. A criada serve-lhe chá.

— Que dia! — comenta o pai.

— Notável.

Honorato estranha o entusiasmo. Noel mexe o chá animadamente. Acordou alegre e decidido. Teve durante a noite um sonho bom. Ia caminhando por uma estrada junto com Fernanda. Era primavera e — estranho — ao mesmo tempo caia neve. O sol brilhava sobre a neve e dava uma sensação boa de calor. Eles estavam casados e eram muito felizes. Até sua mãe sorria um sorriso bon­doso e inédito. Ao acordar viu que fazia sol, bem como no sonho e sentiu uma saudade toda especial de Fernan­da.

— Papai.

— Que é?


— Lembra-se da proposta que me fez ontem?

— Da sociedade no negócio?

— Sim.

— ...


— Não esqueça que eu disse que aceitava.

O rosto de Honorato se abre como se um sol de re­pente tivesse brilhado sobre ele.

— Não diga! É mesmo?

Noel sacode a cabeça, cara alegre.

— Vai ser muito bom! — Honorato não encontra palavras. — Tu vais ver... Sim, senhor... Vai ser uma coisa... uma coisa... — Não encontra o adjetivo. — Quando é que queres começar?

Quando o marido sai de casa, Virgínia desce.

Caminha até a janela. Na calçada fronteira — nin­guém. Foi uma esperança tola a que ela teve. Ele nunca aparece pela manhã... Mas por que não teria vindo ontem?

Virgínia volta para a sala de jantar. Senta-se no di­vã, toma duma revista, vê as figuras, larga-a, pega do jornal da manhã, passa os olhos pelos títulos e torna a atirá-lo depois para cima da mesa.

Encolhida a um canto, como um bicho arisco, Noca contempla a patroa com olhos apaixonados.

— Que é que estás fazendo aí, sua china sem ser­ventia?

Noca solta uma risada gutural.

— Vá já pra cozinha!

Noca retira-se resmungando.

Virgínia vai de novo até a janela. Sol nos montes de Teresópolis, nas ruas, nos jardins. Que vontade de sair! Sair à toa, sem rumo, de automóvel ou a pé, para a cida­de ou para os subúrbios — simplesmente sair, deixar es­ta prisão enervante...

Virgínia percorre mentalmente a lista das amigas. Vai ao telefone, faz girar o disco.

— Alô? — Pausa. — Alô? É da casa do Dr. Savério? A Sílvia está? Não? Saiu? — Pausa. — Muito bem. Depois eu torno a telefonar.

Com uma ruga de aborrecimento na testa, volta pa­ra o divã. Pega de novo no jornal. Duas gravuras cha­mam-lhe a atenção. Uma mulher caída no chão... E de repente Virgínia sente um choque. Aquela cara ali no ou­tro clichê — santo Deus! — aquela cara morena, os den­tes brilhando... Não é possível! Não é possível! Não é possível! Seus olhos se agrandam, seu coração pulsa rá­pido, ela fica por alguns segundos, estonteada, incapaz dum pensamento, de um gesto. Suas mãos tremem.

Ela lê... As letras primeiro estão baralhadas, mas depois se desenham, nítidas... A legenda do clichê não deixa dúvidas:

Alcides Portela no seu leito de morte.”

E então tudo de repente escurece. Os sons que vêm da cozinha parecem saídos dum outro mundo remoto, as figuras da página do jornal se esfumam, confusas. E por muito tempo Virgínia fica como que suspensa no ar, ten­do apenas consciência das batidas dolorosas de seu cora­ção. Um vulto passa pela varanda: alguma criada ou Noel? Ela não sabe, não vê, não ouve.

Passam-se os minutos. Depois vem uma sensação desconfortante de febre. E de novo Virgínia pega no jor­nal, olha o retrato, relê a legenda, procura os pormenores do drama. Não há dúvida. É Alcides mesmo. O que acon­teceu com aquela outra mulher que o retrato mostra caída de borco, lavada em sangue, podia ter acontecido com ela... Não. Não podia. Honorato seria incapaz, não teria coragem. E de súbito, inexplicavelmente, Virgínia se des­cobre a odiar o marido com mais força, como se ele fosse o culpado de tudo.

E durante alguns instantes ela odeia Honorato. De­pois o ódio morre para dar lugar a uma sensação de ciú­me, a uma impressão de quem foi logrado, traído. Então Alcides fazia com outra mulher o que fazia com ela? Fi­cava à esquina, olhando para a outra, esperando a oportu­nidade para entrar na casa... E a sensação de ciúme dura apenas alguns segundos para dar lugar à impressão maior, mais forte, mais dolorosa — à sensação da perda irreparável, da morte. A morte...

Virgínia dá dois passos às tontas. Tudo isto parece um sonho, um pesadelo, um... O seu mal-estar aumen­ta. Um círculo de ferro lhe aperta a garganta. Se ela ao menos pudesse chorar!

Sobe para o quarto, fecha-se a chave e atira-se na cama. Ah! Se pudesse derramar lágrimas... Seria um alí­vio, um conforto. Não lhe sai da mente aquela cara es­cura de dentes arreganhados num sorriso defunto, o filete de sangue, os detalhes do crime “surpreendendo os adúl­teros...” “a bala atravessou-lhe a testa, indo alojar-se...” “o marido tresloucado...” E a estas imagens se misturam outras — os olhos brilhando, o sorriso vivo, o cigarro fu­megando, a aglomeração no Bar Metrópole, a música, os perfumes...

E de repente, como se se rompesse uma represa gi­gantesca, as lágrimas lhe brotam nos olhos aos borbo­tões.

Virgínia chora incessantemente durante largo tempo.

Depois, mais calma, se levanta, enxuga os olhos e sente uma vontade absurda de chamar Noel e de, pela primeira vez na sua vida, acariciar-lhe maternalmente a cabeça.

91

Ao despertar, Salu verifica com certo alarma que seu primeiro pensamento é para Chinita. O desejo dela é ago­ra como uma doença de sua carne. Um dia há de acabar — ele sabe — como acabaram outros desejos, mas por enquanto é imperioso, exclusivo, dominador.



Embaixo da porta há uma carta. Salu se inclina pa­ra apanhá-la. E dá mãe e está cheia de recomendações. Ela lhe pergunta:

Meu filho, quando é que te resolves a trabalhar? O Pereira que veio daí me disse que contaram para ele que tu vives na pândega e não estudas nem fazes nada. Por quê?”



A carta termina com novas recomendações e beijos. Salu dobra-a com carinho, sorrindo.

No espelho do quarto de banho mira-se com amor. Descobre um fio de cabelo branco nas têmporas. Vinte e oito anos! Não é tempo de cabelos brancos. Incômodos? Não. Ele nunca se amofina. Sempre alegre, mantendo o sorriso. A vida é fácil, as mesadas gordas. As mulheres o procuram. Que diabo! Que quererá dizer este cabelo bran­co?

Salu pensa nos tempos de colégio. Tinha projetos tão sérios... Queria ser homem famoso, banqueiro ou industrialista. Atleta que fosse. Mas famoso. Nome nos jornais. Falado, discutido, querido ou odiado. O que não lhe servia era o esquecimento, o anonimato.

No entanto agora... A vida rola sem projetos maio­res. Uma mulher como centro de suas atenções, e a sua vida toda se desenrolando em função da conquista. De­pois, a posse, noites e dias de delírio, até o dia em que ao despertar ele descobre que está achando tudo muito aborrecido e sem imprevisto.

Mas Chinita — reflete Salu tirando a roupa para en­trar para baixo da ducha do chuveiro — Chinita ainda é senhora... Que surpresa! A provinciana tola lhe apare­ce agora sob um aspecto novo. Despida de roupas e de atitudes falsas, ela apenas é uma fêmea deliciosa, encantadora na sua inexperiência, submissa, paciente, dócil...

Salu tem uma idéia... O dia está bonito. Podiam combinar um passeio de automóvel... Nu e alvoroçado, corre para o telefone.

92

O sol do meio-dia elimina as sombras.



João Benévolo caminha à toa. Não tem coragem de tornar à casa com as mãos vazias. Desde que saiu pela manhã ainda não aconteceu nada fora de sua cabeça. Dentro dela ele já achou emprego, salvou uma criança que se afogava no lago do parque, ganhou uma recompen­sa em dinheiro... Fora, só o dia luminoso, os ruídos da rua: nada mais.

João Benévolo senta-se no banco duma praça e fica pensando. O chão está cheio de folhas secas. As árvores desgalhadas recortam contra o céu o rendilhado de seus ramos. Um cachorro se deita num canteiro de relva.

Acariciado pelo sol, João Benévolo vai ficando numa dormência preguiçosa, esquecido de tudo, nem feliz nem infeliz — simplesmente esquecido.

93

O corpo de Maximiliano está agora em cima da mesa da sala maior, coberto com algumas flores. Quatro velas ardem. A mulher continua firme, perto do defunto, como esteve firme perto do doente. De vez em quando chega um conhecido. O cheiro da sala é nauseante. O rosto de cera do morto está levemente azulado.



D. Eudóxia, enrolada no seu xale, abraça a viúva e dá-lhe pêsames. Fica por um instante olhando para o ca­dáver e depois vai sentar-se a um canto.

Um velório! Dum modo obscuro e subterrâneo esta cena não deixa de constituir para ela uma alegria. Sempre vai aos velórios, quando pode, embora não conheça a fa­mília do morto. Um hábito. Também não perde agonia de doente. Sentiu muito não assistir à de Maximiliano. (Também não sei por que não me chamaram...)

Agora ela contempla detidamente a mulher de Ma­ximiliano. Ela está magra, pálida, abatida. Naturalmente já pegou a doença; o micróbio é danado... Esta não se escapa. Quando muito tem alguns meses de vida. E os guris? Dificilmente filho de tuberculoso escapa...

D. Eudóxia suspira e fica gozando o seu velório co­mo quem saboreia um prato raro.

94

O almoço dos Leitão Leiria se prolonga.



Monsenhor Gross come peito de peru. É um homem vermelho e forte, sorridente e simpático, de grandes mãos onde os fios louros de cabelo parecem faíscas de fogo. Vera come ervilhas com arroz. Leitão Leiria, muito teso na sua cadeira, elogia o vinho. O Dr. Armênio, ao lado de Vera, não sabe que fazer nem que dizer para parecer mais distinto, mais simpático, mais polido e brilhante. Já falou em religião (para agradar Monsenhor e D. Dodó), já fa­lou em política e em comércio (para agradar Leitão Lei­ria) e agora está falando em figurinos, convencido de que assim agradará Vera.

Junto de D. Dodó um senhor de cabelos grisalhos e cara escanhoada sorri em silêncio. Uma senhora magra, que está ao lado de Leitão Leiria, olha fixamente para uma rodela de limão.

— Então — diz ela, com uma voz grossa e pausada — quando é que a nossa Verinha se decide a ficar Filha de Maria?

D. Dodó suspira.

— Ai, D. Camila! Chego até a perder o sono por cau­sa dessa menina... — Dirige-se a Monsenhor Gross. — Monsenhor, veja se o senhor consegue converter a Vera.

O pedido é metade troça, metade sério.

Monsenhor desvia a atenção da carne branca do pe­ru e sacode no ar na direção de Vera um dedo repreen­sivo:

— Deixe estar, deixe estar... Um dia eu chamo ao rebanho essa Ofelinha tresmalhata.

Sua voz é aguda e de quando em quando pontilhada de gritinhos desafinados.

— Não sei, Monsenhor — comenta Leitão Leiria — como é que dum casal religioso foi possível sair uma fi­lha tão avessa às coisas da alma...

— Caprichos da natureza... — sorri o senhor gri­salho, em cima dum gole de vinho.

— Caprichos da natureza — concorda Armênio, de­dicado. E pensa: Délicieux caprice!



A senhora magra torna a falar:

— Quem sabe se algum moço bonito não é capaz de convencer Vera?

E dizendo isto olha intencionalmente para Armênio, que cora de leve e sorri, num agradável constrangimento. Vera olha para o teto, indiferente. Que turma cretina! — pensa ela.

Felizmente o homem de cabelos brancos começa a falar de política. Monsenhor diz do papel da Igreja na política. D. Dodó e o marido escutam com atenção.

Armênio olha para Vera: seus olhos são uma súpli­ca.

Os criados vêm e trocam os pratos. Tinem cristais.

As conversas se animam.

E depois — pensa D. Dodó — o som destas vozes, o barulho dos pratos, o reflexo dos cristais — tudo parece deixar o ar ainda mais luminoso. Mas de repente, no meio de toda esta claridade, um pensamento horrível lhe ocorre. Uma lembrança que lhe dá um desfalecimento muito suave. Meu Deus! Como é que fui esquecer?

— Que é que tens, Dodó? — pergunta o marido, so­lícito.

— Oh! Mas é uma coisa horrível... Imaginem que eu me esqueci de mandar levar aquele doente da Traves­sa das Acácias...

(Ao som de “Travessa das Acácias” Leitão Leiria tem um sobressalto. Os olhos verdes. A velhota gorda e odiosa. A cama que rangia. Oh!)

— ... para o hospital — termina D. Dodó.

E toda trêmula e azafamada, com as bolsinhas dos olhos a se balouçarem piedosamente, ela pede licença, le­vanta-se e vai ao telefone dar uma ordem ao hospital.

Retornando à mesa, explica:

— É um doente muito grave. Coitadinho! A mulher está que é um fantasma. Dois filhinhos. Deixei-lhes lá uns dinheiros no sábado passado. — Suspira de novo. — Às vezes a gente não compreende por que é que há ricos e pobres. Por que será Monsenhor?

Volta-se para ele como para um oráculo que deve dizer a última palavra. Monsenhor encolhe os ombros: in­timamente só sabe que o peru está delicioso e o vinho é velho e generoso.

Leitão Leiria socorre o hóspede de honra:

— Existem pobres porque Deus, na sua infinita sa­bedoria, quis experimentar os homens. Deu dinheiro aos ricos para ver se eles no meio da opulência não esquecem os desgraçados. Deu miséria aos pobres para ver se eles na sua desolação sabem guardar os seus santos manda­mentos. Aí está.

E arruma o plastrão, contente consigo mesmo.

Existem pobres — explica Vera mentalmente — por­que existem ricos como papai que gastam mais do que deviam, e querem ganhar mais do que precisam.

E Armênio, também interiormente, responde à sua maneira:

— Há pobres porque deve haver contrastes: luz e sombra, alegria e tristeza, riqueza e miséria. Desse dese­quilíbrio é que nascem os poemas e os romances. Que belo assunto para uma crônica! Ou para uma palestra num baile! Ou num almoço.. .

E, aceitando a própria sugestão, dá voz aos seus pen­samentos :

— Existem pobres porque deve haver contrastes...

Vera fixa nele um olhar de censura. Armênio, des­concertado, corta o discurso.

C’est dommage!

95

Mal deixa a mesa, D. Eudóxia quer voltar para o ve­lório.



— Espere um pouco, mamãe — pede Fernanda. — A senhora acabou de almoçar. Passou toda a manhã lá. Vá mais tarde...

— Me deixa, Fernanda, que mal há nisso?

Atira uma ponta do xale por cima do ombro e sai na direção da porta. Fernanda compreende que toda a resistência é inútil. Ela vai mesmo, digam o que disserem. Passou o mês inteiro a agourar a morte do vizinho e ago­ra quer ter a sua recompensa, a sua parte naquele divi­dendo de miséria e desgraça.

— Pois então vá e tire bom proveito.

D. Eudóxia na porta se detém, resmunga qualquer coisa e some-se no corredor.

Fernanda vai lavar os pratos. Como a água está fria! Os pratos nadam na pia. No pequeno mostrador do relógio de pulso os ponteiros fazem a sua viagem circular. Pare­cem imóveis, mas no entanto o tempo passa. Daqui a pou­co é hora de voltar para o trabalho. No escritório, o mes­mo quadro baço. Branquinha por trás do seu vaso de flo­res, as cartas cacetes de Leitão Leiria, o cheiro de sarro de charuto no escritório dele, os ruídos da loja. E o pior é que já se passou um dia e ela não viu ainda esperança de arranjar emprego. Se lhe dessem uma nomeação de professora, seria ideal. Ir para um colégio tranqüilo e li­dar só com as crianças... Mas qual! É inútil. O remédio é continuar no comércio. Escritórios... Não será difícil. Em quase todos os patrões que ela tem conhecido mora um conquistador em potência. Eles olham: se a cara não lhes desagrada, o emprego está garantido. Mas depois vêm os olhares insistentes, as perguntas, as insinuações; os outros empregados tomam liberdades; as empregadas cochicham.

Fernanda termina de enxugar os pratos e vai sentar-se na cadeira de balanço. Pega dum livro e abre-o no lu­gar onde terminou a última leitura.

No quarto contíguo, Pedrinho abre a sua caixa de charutos e conta o dinheiro. Aqui estão os seis mil-réis para o colar. Cacilda vai ficar contente. Contas coloridas. Senta bem com o vestido vermelho que ela tem...

Mete o dinheiro no bolso e vai enfiar o casaco. Pas­sa pela varanda:

— Então, seu Maximiliano esticou mesmo?

E Fernanda, sem erguer os olhos do livro responde:

— Esticou.

— Eu já vou. Quero chegar mais cedo.

— Pois sim. Passa pela casa do morto. Mamãe está no velório, diz a ela que venha antes de eu sair. Não pos­so deixar a casa sozinha.

— Ahan.

Fernanda continua a ler. Olivia é a heroína do ro­mance. Amanhece no dia do seu aniversário, recebe os beijos e os presentes. Dão-lhe um corte de vestido cor de chama. Olivia está pensando com insistência num baile que se vai realizar dentro de poucos dias. Agora ela e a irmã, Kate, lutam com grande dificuldade: a falta dum par para o baile. Não há rapazes na vizinhança. Que angústia!



Fernanda ri do “problema” de Olivia. Como o seu draminha é inocente! Ela tem um lar, pai e mãe, vida tranqüila e só se julga infeliz por não achar um par para o baile! Olivia não tem de cuidar duma casa, de fazer as vezes de mãe de sua mãe. Olivia não tem de se preocupar com um emprego, com as contas do fim do mês. A sua vida toda está concentrada no baile. Como vai ficar lindo o seu vestido cor de chama! Os rapazes virão tirá-la para dançar? Ah! Olivia, menina boba, tu não sabes como és feliz! Tudo isso passa, bailes e vestidos, rapazes para dan­çar e o mais que agora te preocupa!

Um dia te encontrarás face a face com a vida... e que será de ti?

Fernanda lê mas não pode evitar os comentários mentais. O livro, no entanto, é encantador. E então ela procura meter-se dentro dele o mais que pode.

Mas a maquinazinha implicante palpita e cochicha em seu pulso. Faltam dez minutos para uma hora. Já é tempo de ir andando. Fernanda se ergue e olha para fora. O professor já está como de costume à sua janela.

96

Clarimundo contempla os seus domínios. As pombas de D. Veva voam no ar luminoso. Na casa fronteira a moça bonita está botando a boina para sair. Por que será que o gramofone hoje está calado?



O professor debruça-se à janela. Passam pessoas pe­las calçadas. Fiorello lhe faz um sinal com a mão, da porta de sua sapataria. Clarimundo responde com outro aceno.

Comunicação interplanetária. Clarimundo pensa no seu homem de Sírio. Só ele enxerga a verdade das coisas. Todos os outros homens da Terra estão iludidos. O obser­vador de Sírio vai falar, contar o que vê. As criaturas vul­gares do mundo ficarão surpreendidas. O livro será um sucesso, os jornais falarão no nome do Prof. Clarimundo Roxo e no seu notável livro científico-literário. Clarimun­do esfrega as mãos numa antecipação feliz.

O dia está bom e se eu continuar assim disposto, ho­je à noite meto mãos à obra e começo o Prefácio.

De repente uma agitação quebra a paz da paisagem. Outra vez o negro filho da cozinheira do Cap. Mota toca uma pedrada na vidraça da casa de D. Veva e quebra um vidro. Num relâmpago o moleque se esconde, D. Ve­va aparece à janela, vermelha e indignada:

— Quem foi o sem-vergonha?

Ninguém viu. Só o homem de Sírio que mora num ângulo privilegiado é que pode contar a verdade a todos os homens.

Clarimundo sorri interiormente e vai fazer um café na cafeteira nova.

97

O relógio da casa de João Benévolo bate uma panca­da, que fica pairando longamente no ar. E estaca de sú­bito, com um ruído seco.



Falta corda — pensa Laurentina.

Mas agora na sua vida falta tudo. Por onde andará João Benévolo que não veio à hora do almoço?

A viúva Mendonça entra, já nem bate mais, não tem a menor consideração. E nem pode ter. Eles devem alu­guéis atrasados. São como cachorros. Qualquer um lhes dá pontapés.

A velha está parada no meio da sala.

— Então?

— Nada ainda... — responde Laurentina, fraca­mente.

— E o seu marido?

— Anda na rua procurando emprego.

A viúva Mendonça sorri, e o seu sorriso está dizen­do: Essa eu não como, ele anda mas é na vadiação.

Silêncio. A dona da casa suspira, queixa-se da vida. Tudo muito ruim, muito caro, pela hora da morte.

Fica esfregando as mãos, olhando para o soalho, en­quanto Laurentina procura algo para dizer. De repente a viúva fita com insistência os olhinhos miúdos no rosto da outra e pergunta, com uma voz em que se esconde um mundo de intenções:

— E o seu Ponciano, hein?

Pescoço esticado para a frente, o rosto fixo numa expressão de interrogação — olhinhos brilhando, muito abertos, testa pregueada de rugas, sobrancelhas alçadas, a velha repete:

— Hein?


Laurentina fica por um momento sem compreender.

98

João Benévolo tem a impressão de que criou asas e anda voando. Uma dor contínua no estômago, fome, cabe­ça oca, moleza no corpo.



O relógio do edifício dos Correios e Telégrafos diz que são quatro horas e vinte. O sol brilha, as pessoas, os automóveis e os bondes passam indiferentes. Os edifícios sobem para o céu e o céu parece não ver a desgraça dos homens.

João Benévolo pára na frente da vitrina dum restau­rante: empadas, croquetes, perdizes assadas, um peru enorme pelado e temperado, pronto para ir para o forno; presuntos cor-de-rosa, frutas...

João Benévolo olha e come mentalmente. O Rei Bal­tasar está no seu festim. Os pajens entram trazendo enor­mes travessas onde os faisões assados fumegam. Os mo­lhos vêm em terrinas de prata, perfumados e brilhantes. Mas a gente não pode ficar a vida inteira parado diante duma vitrina...

João Benévolo continua a andar. Que estará aconte­cendo lá em casa? Faz... — ele conta nos dedos, uma, duas, três... — faz oito horas que saiu. Decerto não co­meram nada. Ou comeram: D. Veva ficou com pena e mandou um prato. Ninguém morre de fome no Brasil. Já ouviu dizerem isto...

O sol bate em cheio nas fachadas. Os edifícios do outro lado já vão projetando uma sombra violeta sobre o calçamento da rua.

Muita gente que vai e vem. Parece que ninguém me enxerga. Chegam a dar encontrões na gente. Fraco como estou...

Os bondes passam num trovão, amarelos e hostis. João Benévolo pensa em Xangai. Será que em Xangai há bondes? Deve haver.

Mas, que fazer? Voltar para casa com as mãos aba­nando? Não. Com que cara ele vai se apresentar à mu­lher? Ora, pode inventar que encontrou um amigo de in­fância, muito rico e muito bom que lhe prometeu um em­prego. Pode inventar outras coisas... Não propriamente mentiras, — porque nada é impossível... Suponhamos que de repente surge um conhecido bem arranjado na vi­da: “João Benévolo, que é isso, rapaz? Queres um empre­go? Vem comigo.”

Mas não aparece ninguém. As pessoas passam sem olhar. As vitrinas mostram comidas que ele não pode com­prar. João Benévolo de repente começa a sentir uma ver­gonha muito grande, pois lhe ocorre que todos podem sa­ber da sua história, ler na sua cara e na sua roupa que ele deixou abandonados em casa, sem dinheiro e sem na­da, uma mulher e um filho.

Não. E preciso voltar. João Benévolo contínua a an­dar, procurando as ruas de mais movimento, mas os seus passos o levam para direção oposta à da Travessa das Acácias.

Melhor é ir distrair-se no cais, olhar o rio. Deve estar bonito. Ficar triste não adianta. Tristeza não mata a fo­me de ninguém.

Fome. Muito engraçado este mundo. Fartura na maioria das casas, os restaurantes até botando comida fora... E no entanto ele aqui, de barriga roncando e do­endo, cabeça oca, burlequeando sem rumo, louco de fome. Bastava-lhe chegar e pedir: “Estou com fome, me dêem um prato de comida”. Davam. Brasileiro tem bom coração. Não se nega nada a ninguém nesta terra, graças a Deus. Deus. Deus bem podia dar à gente outra sorte. Autos. Palacetes. Por que é que só eu é que não tenho? Ora, no fim quem sabe se não é assim que está certo?

Cansado, senta-se num banco da praça e fica olhan­do para o céu: nuvens contra o azul resplendente.

Cinco minutos. Vontade de deitar e dormir, dormir e esquecer. Esquecer de que é casado e que está sem em­prego, esquecer a mulher, o filho, as dívidas, a vida...

Uma vez, num conto, um homem dormiu num banco da praça e ao despertar deu com um velho de barbas bran­cas que o levou para um palácio, dizendo: “Toma, ho­mem, tudo isto é teu. Passei a vida acumulando riquezas à custa da desgraça alheia. Hoje quero me redimir. Dou­te este palácio.” E o vagabundo ficou morando no palácio. Vida de príncipe, dinheiro, criados, comidas saborosas, divãs fofos, mulheres. Mas o pobre-diabo acordou e viu que tudo tinha sido sonho.

João Benévolo acha melhor não dormir. Sonhar... também se sonha de olhos abertos.

Segue na direção do caís.

O rio fulgura, grandes navios de cascos negros estão atracados no porto. Guindastes e armazéns. As ilhas ver­des, lá longe. Catraias, dragas, veleiros.

João Benévolo caminha. Tem o cuidado de evitar a beira do caís. Tonto como está, é perigoso perder o equi­líbrio e cair nágua. O pior é que não sabe nadar...

Envolve-o um vento que cheira a peixe e a umidade. Marinheiros pintam o casco dum navio.

Viajar. João Benévolo pára e sonha. Vai na proa, o vento do mar é como este, fresco e cheirando a distância. Céu e água. Simbad, para onde vais? Onde ficam as ilhas dos tesouros escondidos? Onde?

— Olha o guindaste, moço!

João Benévolo dá um salto, assustado. O guindaste geme, pega as cargas à porta dum armazém e as leva pa­ra o porão do navio.

João Benévolo continua a andar. Outros navios, escotilhas debruadas de latão — Afastem-se das hélices — mastros, salva-vidas, botes, cordas grossas, cheiro de tinta fresca.

A claridade é tão forte que João Benévolo tem de olhar com olhos semicerrados. Dois biguás passam voan­do bem baixo, quase a tocar a água. As chaminés e as casas dos Navegantes se recortam ao longe em silhuetas dum azul enfumaçado e vago contra o céu claríssimo.

João Benévolo tem a impressão de que já não é mais deste mundo, já não tem mais corpo. Agora até a dor do estômago desapareceu. Se de repente ele saísse voando por cima dágua como os biguás, não era de admirar. Fez a última refeição na tarde de ontem: mais de vinte ho­ras sem comer.

E de súbito — olhando para uma lancha que passa no meio do rio a toda velocidade — João Benévolo pensa em fugir. A idéia lhe brinca no espírito por alguns segun­dos. Fugir... Não ser mais João Benévolo, não ouvir mais chamarem-lhe Janjoca com voz chorona, não ser mais pai dum filho tristonho, um pobre-diabo... Fu­gir... Outras terras, outras gentes, outra vida, vida de herói. Fugir... João Benévolo imagina o que pode, será uma nova personalidade. O esquecimento completo de tu­do que ficou para trás, de tudo que é triste, pobre, feio, sujo...

Mas a fuga dura apenas um minuto. A lancha já vai longe, quase diluída contra o fundo escuro das ilhas.

Com que cara eu vou chegar em casa?

João Benévolo pensa até mesmo na possibilidade de não voltar mais. Ele já está sentindo mesmo a sensação de que é um fugitivo, um desertor. Se ficar na rua, no ou­tro dia os jornais falarão no desaparecimento, dando os sinais: baixo, magro, encolhido, cara de menino medroso, mal vestido, barba de dois dias... É assim que a no­tícia do jornal vai dizer. Mas não é assim que ele se vê, não é assim que ele realmente é. Não!

O estômago lhe dói de novo. O dia é belo mas ele está com fome. Os veleiros vogam no rio mas a sua ca­beça está oca.

João Benévolo volta para a cidade.

Nem pensar vale a pena, não adianta, o melhor é entregar-se. Há de acontecer alguma coisa de bom. Assim de repente, como nos livros...

Sai assobiando baixinho, tremido, o Carnaval de Ve­neza.

E para se distrair brinca de pisar na própria sombra.

99

Enquanto a água na banheira escorre, Armênio lê As Memórias de Casanova. De quando em quando a imagem de Vera se mistura com as letras do livro e ele não com­preende o que lê.



Diabinha! A mesma esfinge de yeux verts, durante todo o almoço, indiferente e distante. De nada valeram as frases que ele preparou. Tudo perdido. Monsenhor Gross comia e bebia, rindo. D. Dodó era um anjo de solicitude e delicadeza. Leitão Leiria, teso e discreto como um gen­tleman. Os outros dois convidados, simplesmente ignora­dos, apagados, inexistentes. Sim, o peru estava delicioso, mas Vera não lhe dera o menor sorriso.

Armênio fecha o volume e atira-o para cima da me­sa-de-cabeceira. Ergue-se da cama, tira o pijama e mete-se num roupão de banho. (Très chic, igual ao que ele vi­ra no Vogue, edição francesa: todo em marrom, bege e vermelho.) A aspereza do tecido felpudo contra a pele. Cheiro de roupa limpa.

Vai para o banheiro, experimenta a água com a pon­ta dos dedos, fecha a torneira de água quente e deixa jorrar a de água fria. Tira o roupão e mete-se no banho, com um oh! prolongado de prazer.

Epicurismo — pensa ele. Epicurismo temperado com forte dose de idealismo. Gostar dos bons perfumes, das mulheres bonitas, do conforto e da boa mesa — gostar de tudo isto sem desprezar a alma, sem esquecer o espíri­to. Eis o verdadeiro ideal do homem moderno.

Armênio estende o braço e tira da prateleira aberta um frasco de sais para banho. Despeja uma boa pitada na água e infla as narinas para sentir o suave perfume. E com um ai de abandonado gozo, ele remergulha nágua, ficando só com o rosto de fora.

E se entrega aos pensamentos mais agradáveis do mundo.

Vera capitula, marca-se o casamento. Grand évenement social. Demoiselles d’honneur. O dote, uma promes­sa de deputação. Aaaah!

100


De sua mesa Fernanda vê a monótona paisagem de telhados escuros e uma pálida nesga de céu. Cinco horas. Humores de vozes sobem lá debaixo, do salão da loja.

Por trás de suas flores, Branquinha está batendo no teclado da Royal.

Fernanda sente uma lassidão boa. Vontade de sair para a rua, livre de preocupações, e misturar-se na mul­tidão, entrar nas casas de chá, ser como as outras rapa­rigas, esquecer. . . Vontade de ter sobre o corpo um ves­tido bonito, de ser mais feminina, pensar menos na sua condição; vontade de ter a liberdade de ao menos sonhar sonhos bons.

Do escritório de Leitão Leiria vem o zunzum de vozes animadas. Entraram dois cavalheiros há mais de vinte minutos. Deve ser alguma conferência importante. De quando em quando a voz de Teotônio se levanta, domi­nando as outras.

Fernanda vai até a janela, respira forte. Sombras e sol sobre os telhados, vento fresco, um aeroplano verme­lho passa lá no alto, soltando boletins.

Branquinha pára por um instante de datilografar, le­vanta os olhos:

— Lindo dia, hein?

— Muito — responde Fernanda.

Branquinha baixa a cabeça: seus dedos tornam a dançar sobre o teclado.

Fernanda pensa em Noel. Naturalmente hoje à noi­te ele tornará a aparecer. Conversas na escada, como sem­pre: livros, discos... Silêncios longos. O ruído da cadei­ra de balanço na varanda. De quando em quando, a voz de D. Eudóxia, saindo da escuridão. E o rosto pálido de Noel, os seus olhos tristes, e aquela coisa que ela pressen­te, enorme e reveladora, aquela confissão que ele não tem coragem de fazer, que talvez não faça nunca.

Outra vez a voz pastosa:

— Fernanda, você já aprontaste aquela carta para o diretor do Correio do Povo?

Fernanda se volta, contrariada. Não aprontaste. Vai fazer agora.

Senta-se à mesa.

Quando acabará esta situação? Não se terá direito nem a um pouquinho de felicidade?

101


Virgínia abre os olhos dentro da penumbra do quar­to.

Quanto tempo dormiu? Duas horas? Três? Nem sa­be... Só tem certeza de que dormiu porque se recorda va­gamente de que houve um período de esquecimento absolu­to, de repouso e de treva.

Haverá sol lá fora? Ou já terá caído a noite?

Alcides já deve estar enterrado. Tudo acabou... ou foi tudo um pesadelo?

Virgínia não tem coragem de se levantar. Corpo do­lorido, lábios ressequidos. Impressão de febre, opressão no peito, gotas frias de suor na testa, na ponta do nariz, no buço.

Os objetos familiares se vão definindo aos poucos dentro da sombra do quarto.

E ela sente vontade de dormir de novo, dormir muito para não acordar mais ou despertar num mundo diferente.

Passam-se os minutos.

E de repente a velha sensação de sufocamento e o velho medo da solidão tomam conta dela.

Virgínia salta da cama apressada e vai abrir a jane­la. A luz da tarde jorra para dentro do quarto.

O céu, o sol, as casas, as pessoas, os bondes, movi­mento, ruído... Sim, graças a Deus está viva. Viva!

E para ter uma certeza mais funda de que tudo não acabou, abre a porta do quarto e grita para baixo:

— Querubina! Noca! Venham cá. Depressa!

102


— Até que enfim! — exclama o coronel, olhando pa­ra o filho que vem descendo a escada.

Três dias sem aparecer em casa. Com efeito!

— Onde é que andou, menino? — pergunta.

Manuel coça a cabeça, testa enrugada, a boca torcida, um ar de cansaço e aborrecimento. E diz num tom sono­lento:

— Por aí...

Vai até a cristaleira e despeja num copo a água da jarra de prata.

— Por aí, onde?

— Por aí...

Bebe com sofreguidão, até a última gota.

Zé Maria contempla o filho. Nos seus olhos não há a menor reprimenda. Quando se é rapaz... E depois, mesmo quando se está começando a envelhecer, todos fa­zem das suas...

— Pai, estou precisando duns cobres...

— Ai-ai-ai...

— Deixa disso, passa o dinheiro...

— Mas...


Manuel estende a mão. Zé Maria vai fazer uma ob­servação, tentar um sermão. Mas nos olhos do rapaz ele vê que o filho sabe de tudo. Não pode deixar de saber. Talvez já tenha dormido com Nanette.

— Quanto queres, maroto?

— Quero a cara do Zé Bonifácio...

— Uma pelega de quinhentos?

Manuel sacode a cabeça afirmativamente.

Não há remédio. Estes meninos agora tomam conta da gente. Anda tudo de pernas para o ar. Antigamente, lá em Jacarecanga, eles tinham respeito. Papai, posso ir ao cinema? Papai, me dá cinco mil-réis? Papai, o senhor deixa eu sair com a Ernesta? Papai isto, papai aquilo... Hoje Chinita sai sem dizer aonde vai, Manuel passa três dias sem aparecer em casa... E preciso ajeitar esta dro­ga de novo. Assim não está direito.

E interiormente Zé Maria faz planos de botar a casa nos eixos, fazer voltar o antigo respeito, restabelecer a autoridade paterna. Mas hoje não. Fica para amanhã. Tem tempo.

— Toma, safardana — diz sorrindo e passando para o filho uma cédula de quinhentos mil-réis.

Manuel contempla com simpatia o retrato do Patriar­ca. Depois, amarrotando a nota, mete-a no bolso e se vai.

103


Pedrinho consegue licença para sair mais cedo da loja.

Vai agora abrindo caminho por meio da multidão que formiga nas calçadas e no centro da rua.

Depois que a gente trabalha um dia inteiro e que sai para a rua, de tardezinha, fica tonto no meio do tumulto. Parece que tudo gira. As pessoas dizem as coisas e a gen­te fica por um momento sem compreender, com ar de palerma.

Apalpa o bolso. Ali estão as seis moedas de mil-réis. Vai escolher o colar mais bonito.

No meio da multidão passam mulheres bem vestidas e perfumadas. Nenhuma tão bonita como Cacilda. Oh! Se ela não fosse uma mulher da vida... Bom, não há de ser nada. Um dia tudo melhora, aparece um emprego de maior ordenado, a vida muda. Então ele vai arranjar uma casinha para Cacilda num arrabalde. Ninguém ficará sa­bendo.

Casa Sloper. Pedrinho olha as vitrinas: ali está o colar, parece uma cobra de brinquedo. Entra, caminha para o balcão.

— Já foi atendido?

É uma caixeirinha de preto, bonitinha, mas não tan­to como Cacilda.

— Eu queria ver um colar ali da vitrina...

Fala meio tremido, a comoção a apertar-lhe a gargan­ta. Que bobo que sou! A coisa mais simples do mundo: comprar um colar de seis mil-réis...

No entanto ele mal sabe se exprimir, está todo con­fuso, com as orelhas em fogo.

104


Noel avisa em casa que não vai ficar para a ceia, e sai para a rua.

Contente! mas dum contentamento inexplicável, que ele não sabe se vem da tarde bonita e calma, do fato de ter resolvido mudar de vida ou se tudo o que sente de alegria lhe nasce de saber que se aproxima a hora em que ele vai ver Fernanda de novo.

Tomar o bonde numa hora como esta é tolice. Me­lhor seguir a pé.

A luz da tarde é uma carícia. Os jardins a esta hora têm um perfume todo particular. As luzes ainda não se acenderam. O céu no alto é desbotado e igual. O horizon­te, uma poeira vermelha e dourada.

O ar está frio. Num jardim, sobre um canteiro de relva uma criança loura vestida de verde brinca com uma bola vermelha. No alpendre uma nurse uniformizada e muito branca faz tricô sentada numa cadeira de vime.

Um dia ele e Fernanda poderão ter um bangalô as­sim.

Talvez mesmo um garoto louro brincando sobre a grama...

Um garoto que há de ser alegre e vivo como ele não foi. Um garoto que será criado ao ar livre, quase nu, e não terá a cabecinha cheia de fadas e mentiras. Sim, Fer­nanda há de dar-lhe uma educação exemplar.

Mãos nos bolsos do sobretudo, cabeça erguida, Noel caminha, sentindo-se um homem novo. Uma vida diferen­te vai começar para ele.

Há de ter forças para suportar o escritório, as fatu­ras, as cartas comerciais, os algarismos e os assuntos áridos. Por amor de Fernanda, por amor de si mesmo. Fa­rá o possível para descobrir na vida pura, sem as menti­ras literárias, a poesia e a aventura de que Fernanda lhe falou.

Pára a uma esquina. Vem da praça uma fragrância fresca de folhagens. A noite cai. Brotam janelas ilumina­das em várias fachadas.

Noel retoma o seu caminho. Os combustores se acen­dem de repente. Piscam estrelas no céu.

105

Vera desce para a varanda.



Azáfarna na casa toda. D. Dodó prepara-se para re­ceber as visitas da noite. A diretoria das Damas Piedosas vai comparecer com representantes dos jornais, famílias amigas. Um mundo de gente. Ela não queria... Preferia uma festinha íntima... Pouca gente... Mas que é que se vai fazer?

D. Dodó anda dum lado para outro, ofegante, a car­ne flácida do rosto balouçando-se tremulamente, como ge­latina.

— Limpem bem os móveis! Não deixem nem um po­zinho!

Põe flores nos vasos. Zínias e margaridas, rosas e malmequeres. Ajeita-as com amor, depois se afasta um passo para admirá-las. Dá ordens, faz recomendações, es­creve bilhetes.

Vera olha tudo com indiferença, incapaz de um mo­vimento para ajudar a mãe. Sem entusiasmo, sem inte­resse.

Pouco se me dá! Não sou obrigada a acompanhar todas as cretinices da família.

— Vera, minha filha, tu não te entusiasmas?

Vera encolhe os ombros.

— A troco de quê? Amanhã a gente está estafada, tudo passou, vieram algumas pessoas, comeram e beberam como animais, disseram asneiras e se foram...

D. Dodó sacode a cabeça, penalizada.

Vera aproxima-se do telefone, comunica-se com a casa de Chinita.

— És tu, querida? Como estás? — Pausa. — Por que não apareceste hoje? Quero que venhas à nossa festi­nha... Sim. Às nove. Sim. Posso contar contigo? Sim... Adeusinho.

Larga do fone. Chinita vem... Ao menos hoje pode­rão conversar sem que o idiota do Salu as interrompa. Ele não tem relações na casa e será o maior dos cínicos se aparecer sem ser convidado...

Os outros podem ficar na varanda. Ela levará Chini­ta para o quarto. Mais liberdade para conversar. É preciso tirar do corpo daquela bobinha a paixão por Salu. Ele é perigoso, por força tudo acabará mal. É preciso falar fran­camente a Chinita, antes que seja tarde.

D. Dodó está sentada numa poltrona, olhos fechados, mão no peito, cansada.

— Ai, minha filha, que trabalheira...

Vera sacode a cabeça e sobe para o quarto em silên­cio.

106


Então, como não há outro remédio, João Benévolo resolve voltar para casa. Está mais morto que vivo. O estômago continua a roncar e a doer. Sensação de vazio. Tontura.

Vai caminhando devagar. A rua está escura, lá em casa a luz do lampião é fraca, ninguém poderá ver direito a vergonha estampada na cara dele.

O dia perdido. Nenhuma esperança. Que irá aconte­cer?

João Benévolo chora. Um ventinho frio lhe bate no rosto. Bem lá no fim da rua, contra o céu azul fundo, uma grande lua cheia.

A subida é forte, mas ele prossegue, gola do casaco levantada, tiritando de frio, mãos metidas nos bolsos.

Seus olhos continuam fixos no disco claro da lua.

Tem a impressão de que vai subindo para o céu, tem quase certeza (nesta tontura que sente, nesta sensação de irrealidade) de que quando chegar lá em cima no fim da subida, ele poderá pegar a lua. E caminha...

Agora tudo vai ficando esfumado. Ele já não se lem­bra de que tem uma mulher e um filho que o esperam, já nem sabe mais que rumo leva. Só tem consciência de três coisas: do frio, da dor aguda no estômago, e daquele cla­rão branco contra o céu. Caminha e as forças lhe vão fal­tando, seus joelhos se dobram.

O frio cresce, a dor aumenta, o clarão cega.

Sem força, João Benévolo cai de joelhos sobre a cal­çada, com ambas as mãos apertando o estômago. Depois vai se estirando no chão de mansinho. E a última impres­são que ele tem antes de perder os sentidos é a do contato gelado das pedras.

107

Honorato Madeira janta sozinho, muito triste. Que diabo!



A gente chega do escritório cansado e com vontade de conversar e ver os seus, e no entanto não enxerga nin­guém. A mulher mandou dizer que estava com dor de ca­beça e não ia descer. O filho saiu, dizendo que só voltaria às dez.

Que pena!

A criada entra, trazendo os pratos. Honorato serve-se. À vista da comida fica alegre. Afrouxa o nó da gravata, desabotoa o colete, enfia o guardanapo no colarinho e co­meça a comer.

Noca espia pela fresta da porta.

— Querubina, onde é que vocês estão comprando carne agora?

— No seu Militão.

— Esta carne anda muito dura. Por que não mudam de açougue?

A criada dá de ombros.

— Mudem. Comprem no Açougue Humanidade. Eu me dou muito com o proprietário.

Mete uma garfada de comida na boca. E entra no paraíso.

108

O carro da Assistência chega.



Um guarda-civil abre caminho na multidão. Erguem João Benévolo numa maca e o levam para dentro da am­bulância.

Comentários. Coitado! Bebedeira na certa.. . Quem sabe se foi briga? Eu acho que o homem sofria do coração. Qual, isso é carraspana...

E um senhor de sobretudo cinzento e chapéu preto diz para o companheiro:

— É bem como disse D. Dodó Leitão Leiria na sua entrevista hoje para a Gazeta. Se todo o dinheiro que se gasta com o vício fosse juntado para construir sanatórios, hospitais, asilos...

— É verdade.

O carro da Assistência arranca e sai rua em fora, a grande velocidade. Sua buzina é um gemido longo, deses­perado que se vai sumindo até perder-se no meio dos rumores da noite.

109

Laurentina está com os olhos inchados de tanto cho­rar.



Passou o dia inteiro esperando o marido e, como ele não aparecia, ficou imaginando mil coisas. Não fossem os amigos eles estariam até agora sem comer.

O relógio parado. A luz do lampião morrendo. O gra­mofone do vizinho tocando a valsa enjoativa de todos os dias.

E ali no canto, palito na boca, olho cravado nela com insistência, Ponciano está sentado, esperando, esperan­do...

Laurentina tenta fazer alguma coisa, cerzir uma meia, pregar botões. Mas não consegue. Vista turva. In­disposição. Que teria acontecido a João Benévolo? Decer­to ficou debaixo dum bonde, ou foi preso como vagabun­do. Ou caiu no rio. Qualquer coisa de ruim.

E a voz de Ponciano, áspera e sem cor.

— Ele não presta...

Ela fica olhando para o homem com olhos espanta­dos. Sem se perturbar, o olhinho frio brilhando, Ponciano prossegue:

— Eu sabia que ele não prestava. Nunca se impor­tou com você.

Laurentina de novo desata a chorar baixinho, e as lágrimas lhe correm pelo rosto maltratado. A voz de Pon­ciano insiste:

— Olha... — agora é um cochicho baixo, imoral. — Por que não vai viver comigo? Han?

Ela continua a chorar. A proposta veio finalmente. Tinha custado. Ela tremia só em pensar que um dia ele lhe pudesse fazer este convite. Aceitava o homem por de­licadeza, porque ele nunca tinha faltado com o respeito. Vinha, ficava ali quase sem falar; quando falava era do tempo, da política... Mas ela sentia que Ponciano anda­va procurando outra coisa. Os olhinhos dele contavam. E por isso ela vivera em sobressaltos. No entanto agora que o convite foi feito, Laurentina não tem coragem nem para reagir, para se revoltar.

— Ele não vale nada. Garanto que ficou bebendo por aí, ou metido com mulheres. Você vai morrer de tanto se incomodar, Tina. O guri está doente. Quem é que vai comprar remédio?

Pausa. Laurentina tem o rosto escondido nas mãos.

O gramofone continua a berrar a sua valsa. Não de­mora o querosene se acaba e o lampião se apaga. Que bom se João Benévolo aparecesse de repente na porta. Que bom!

Ponciano tira a carteira do bolso.

— Olhe aqui... — Sua voz não denuncia a menor comoção. — Veja só... — Ele ergue os olhos. A carteira está recheada de notas. — Tudo isto vai ser teu. Eu estou bem. Vá morar comigo, ele não presta, caiu na farra, não se importa com a família.

Laurentina continua a chorar. Ponciano espera. Não faz mal — pensa ele — se não é hoje, é amanhã. Se não é amanhã, é depois. Quem esperou dez anos...

E seus olhos despem Laurentina. Apesar da magreza ela ainda é bonita. Apesar dos maus tratos. Bonita e ape­titosa como no tempo do noivado, na sala das titias soltei­ronas, as mobílias de rodinha, o gato cinzento...

Ponciano pigarreia.

De novo a voz asmática:

— Ele não presta. Venha comigo.

Os olhinhos brilhando com uma sensualidade fria, Ponciano espera.

110

Lado a lado, sentados no mesmo degrau da escada, Noel e Fernanda se contemplam em silêncio.



O coração dele bate com mais força, porque chegou a hora de dizer tudo. Ele sente que, se não disser agora, não dirá nunca mais...

— Fernanda...

A voz lhe sai abafada. Fernanda o interroga com os olhos. Noel chega a sentir no rosto o bafo morno da res­piração dela. E esta proximidade o perturba tanto, que ele perde a fala.

Pausa longa. Vem de fora, pela porta aberta, uma golfada de vento gelado. Fernanda estremece e se encolhe toda. Lá na sala de jantar, no escuro, D. Eudóxia resmun­ga, conversando com os seus mortos. E a sua cadeira de balanço segue num ban-ban ritmado e surdo.

Os dois amigos continuam a se olhar em silêncio.

Noel torna a falar.

— Fernanda, quando nós éramos meninos, tu sem­pre adivinhavas os meus pensamentos...

Fernanda sacode a cabeça afirmativamente.

Ele prossegue:

— Não podes adivinhar agora o que eu tenho pra te dizer o que há muito te quero dizer?

Cala-se. A comoção lhe torna a respiração difícil. Fernanda sorri na sombra, compreendendo tudo. Sem dizer palavra, pega na mão do amigo e se aproxima mais dele.

Todo trêmulo, admirado da própria ousadia, Noel abraça-a com suavidade.

Com as cabeças encostadas, silenciosos e comovidos, os dois ficam olhando para o pedaço de rua que a porta enquadra. Mas cada um vê uma paisagem diferente.

Noel tem a impressão de que está pairando no ar, liberto da condição humana. Tudo parece um sonho. Pe­la primeira vez a vida se parece com os contos de fadas de sua infância, as histórias maravilhosas que terminavam assim: “E os dois se casaram, tiveram muitos filhos e vi­veram felizes longos anos.”

Fernanda deixa-se ficar passivamente sob o abraço leve e tímido de Noel. Sente-se ao mesmo tempo feliz e apreensiva. Compreende que as suas responsabilidades maternais agora vão ficar maiores. De hoje em diante terá mais um filho para cuidar. Um filho louro de olhos tris­tes, um menino que precisa ser acariciado e repreendido. Mas que importa? Este é o seu destino.

Noel tem medo de falar porque sua voz pode quebrar o sortilégio. É que ele sabe que os sonhos do mundo são tão tênues, tão frágeis, que ao menor sopro se esboroam para sempre.

Então ele se cala sabiamente e fecha os olhos para prolongar a ilusão.

111


O palacete de Leitão Leiria está cheio de luzes e vo­zes, parece um viveiro de pássaros assanhados.

Chegam mais convidados. Abraços em D. Dodó, risos. Entram as comissões com flores e presentes.

D. Dodó sente-se transportada ao céu. Correndo dum lado para outro procura agradar a todos os amigos.

Servem guaraná em taças de champanha. Uma mo­cinha nariguda, de óculos de tartaruga, canta ao piano uma canção de Tosti. Aplausos.

Armênio pergunta a Vera:

— Qual é a sua opinião sobre a música italiana?

E Vera:

— Chata.


Armênio sorri amarelo, tenta outro assunto.

— Que livro está lendo agora? — E mentalmente acrescenta — Ditesmoi, ma chérie!

— Nenhum — responde Vera.

A um canto da sala, Teotônio conversa com dois ami­gos. — Eu sou pela indissolubilidade do matrimônio — afirma.

Discutem. Teotônio expõe teorias, anima-se, chupa o charuto com ferocidade.

Noutro canto, D. Dodó procura converter ao catolicis­mo uma amiga que anda inclinada para o espiritismo.

Chegam novos convidados. D. Dodó se ergue, ágil, como se tivesse asas. Cumprimentos, abraços, beijinhos.

— Cante de novo outra canção, D. Leontina — pede alguém.

Onde estará Chinita que não vem? — pergunta Ve­ra a si mesma.

A seu lado fiel como um cachorrinho, Armênio cavouca no cérebro à procura dum assunto.

112

Pedrinho entra no beco. Coração batendo.



Pensa no que vai dizer: “Boa noite. Como vais? Olha aqui uma coisa que eu te trouxe. Adivinha só o que é...” Ela pensa que é chocolate. Então ele tira o colar e mostra... Não. Melhor é dizer diferente: “Uma lembrancinha pra ti” e ir dando logo o presente. Mas se tiver gen­te? Se ela estiver ocupada? Nesse caso ele espera... Não pode deixar de entregar hoje. Passou a semana inteira pensando nesta hora, desejando este momento.

Pedrinho avança... Sim, Cacilda vai ficar contente e decerto há de tratá-lo com mais carinho. E ele como que já sente o sabor do beijo dela, antevê a expressão feliz daquele rosto, o brilho daqueles lindos olhos verdes.

Lá no fundo da rua, bem perto da casa de Cacilda, nota-se uma desusada aglomeração de gente. Vozes, cor­rerias, confusão. De repente o carro da Assistência passa a toda velocidade, com a sereia gemendo.

Pedrinho acelera o passo. Cabeças curiosas assomam às janelas.

Passam pessoas comentando. Pedrinho ouve frases soltas. “Uma facada no peito...” “... o amásio fugiu...”

De repente sente um amolecimento de pernas, uma opressão estranha no peito. Meu Deus, foi a Cacilda! Quer perguntar a alguém... Mas lhe falta coragem.

Não há dúvida, a aglomeração é na frente da casa em que Cacilda mora. Vozes desencontradas, ordens gri­tadas. O carro da Assistência começa a gritar de novo, a multidão se parte, se afasta para os lados, como laranjas que rolam dum cesto que emborca. E o automóvel sai aos solavancos sobre o calçamento irregular.

A multidão se dispersa. Parado a uma esquina, encos­tado a um muro, Pedrinho aperta no bolso o colar. O ven­to frio encanado no beco lhe chicoteia a cara.

Um guarda passa calmamente, as mãos metidas no capote de mescla.

Pedrinho caminha para ele:

— Que foi que houve?

O guarda, sem parar, responde seco:

— Esfaquearam uma mulher.

A voz de Pedrinho é um fio fino quando ele indaga, lábios trêmulos:

— Como é o nome dela?

O guarda dá de ombros e se vai.

Pedrinho continua parado. A multidão se dispersa.

Foi Cacilda — pensa ele. Ela sempre falava no amigo. Dizia que ele era ciumento, violento, mau. Foi Cacilda quem levou a facada. Decerto vai morrer. Morren­do, tudo acaba... O mundo não tem mais graça...

Apertando no bolso o colar de seis mil-réis, Pedrinho começa a andar devagarinho. Psius e vozes abafadas bro­tam das janelas. A vida do beco recomeçou dentro da nor­malidade.

Pedrinho vai seguindo como num sonho. Janelas com luzes vermelhas, caras pintadas, o vento, os homens que passam rindo e conversando alto.

Finalmente — a casa de Cacilda. À porta, três mu­lheres conversam, comentando. Falam todas ao mesmo tempo, desencontradamente. Eu dizia sempre pra ela... Quando ouvi o grito corri e... Foi um susto... ela estava lavada em sangue... Eu sempre dizia... Homem comigo não tira farinha... Coitada, pegou o pormão...

Pedrinho pára na frente da janela. Vontade de cho­rar, as mãos geladas, coração batendo com força.

Na penumbra do quarto um vulto se agita. Um vul­to que se vai definindo, familiar, contra o fundo de som­bra. Uma figura calma que ali está com os olhos brilhan­do, a cabeça atirada para trás.

— Cacilda!

Os olhos de Pedrinho se turvam de lágrimas: outra vez a imagem imóvel fica toda trêmula e esfumada. Ele aperta o colar no bolso. Então não foi ela! Oh! Deus, que bom, que bom, que bom!

De dentro do quarto vem a voz tranqüila e macia:

— Entra nego, que está frio.

113


O velório de Maximiliano está concorrido: vizinhos curiosos.

Num canto, D. Eudóxia conversa com D. Veva. D. Veva se queixa do negrinho do Cap. Mota.

— Aquele desgraçado me mata. Toca pedra nas mi­nhas pombas, me quebra as vidraças.

— Faça queixa pro patrão — sugere D. Eudóxia, com os olhos no defunto.

— Não adianta. Já fiz. É o mesmo. O capitão acha graça.

— Dê parte na polícia.

— Ora qual...

D. Veva encolhe os ombros.

A varanda está escura. As conversas se animam. Fio­rello a um canto fala em Mussolini com o português da venda, que lhe responde com Salazar. A viúva do Maxi­miliano — uma cara de pedra, de olhos sem cor, parados, a que nem o sofrimento dá expressão — está calada per­to da mesa em que se acha estendido o corpo do marido.

D. Eudóxia puxa assuntos de morte e desastre.

— Outro que qualquer dia amanhece morto é o pro­fessor...

— O inquilino da viúva Mendonça? — indaga D. Ve­va, admirada.

— É. É o fim desses solteirões que vivem sozinhos. Um dia, quando acordam, estão mortos. Conheço casos.

D. Veva faz um gesto de dúvida.

— Mas é um homem forte, moço...

— Qual, vizinha, aquele tem cara de sofrer do co­ração...

— Não diga...

— E depois essa força que faz todos os dias pra su­bir a escada...

— Por falar em escada, o seu João Benévolo saiu de manhãzinha e não apareceu até agora...

Os olhos de D. Eudóxia brilham:

— No mínimo tomou uma bebedeira e caiu no rio...

— Eu acho que ficou na casa de alguma mulher...

— Boa coisa não foi, isso eu garanto...

Silêncio por alguns segundos. Uma das velas do cas­tiçal que fica ao lado do pé direito do defunto está morre-não-morre.

Perto da janela um homem magro e de cabeleira ro­mântica fala na imortalidade da alma e nos livros de Flammarion. O homem calvo e de barba crescida, que fuma tranqüilamente um cigarro de palha, não acredita na alma desde que leu um livro não se lembra de que autor.

De quando em quando estrala uma viga no teto. O gato aparece no vão duma porta, olhos verdes brilhando. D. Eudóxia se lembra de histórias de assombrações.

— Quando eu era menina, na revolução de noventa e três, degolaram um homem perto duma figueira gran­de no meio do campo. Diz que de noite...

D. Veva se encolhe toda, tem muito medo de almas do outro mundo. D. Eudóxia lembra-se de outros casos.

Fiorello e o bodegueiro discutem. O homem de ca­beleira insiste numa pergunta:

— Me diga então para onde vai a inteligência das criaturas, a sua bondade, a sua... a sua... beleza es­piritual. Será que morrem com o corpo?

O homem do cigarro de palha solta uma baforada de fumo e, muito calmo, aponta para o defunto:

— Olhe só... Isso é o fim.

Os outros conversam. A viúva se levanta para pedir a um vizinho que lhe vá arranjar uma vela.

Só Maximiliano continua silencioso, de olhos fecha­dos, cara tranqüila, como que mergulhado num sono do­ce e profundo.

114

As irmãs Bandeira tocaram uma sonatina a quatro mãos. Aplausos.



Leitão Leiria discorre sobre música. Monsenhor Gross fala de Palestrina. Um amigo da casa pede mais guaraná. D. Dodó vai à cozinha fazer recomendações.

Vera olha para o relógio de pulso. Nove e meia. Por que Chinita não apareceu ainda?

Armênio não se afasta do lado dela.

— Tem ido ao cinema? — pergunta.

— Não. — A resposta é seca. O assunto está morto. O remédio agora é procurar outro. Chercher un autre sujet.

Um cavalheiro bate palmas. Faz-se silêncio. Chegou a hora do discurso. As Damas Piedosas vão entregar uma lembrancinha a D. Dodó.

Os convidados cercam o homem que deu o sinal. Leitão Leiria ergue os olhos, procurando.

— Onde está a Dodó. Dodó! Dodó!

D. Dodó surge, toda afogueada, mão no peito, com cara de surpresa.

Silêncio. D. Maria da Glória Bento, com mãos trê­mulas, tira da bolsa uma folha de papel e começa a ler o discurso que o marido lhe escreveu:



Minha querida Dodó. Permite que eu te trate assim. Quem como tu tem a alma bem formada e o coração dos simples e dos bons, não pode ser amiga das cerimônias e dos protocolos. Por isto eu me dirijo a ti chamando-te Dodó. (E pronuncia as sílabas bem destacadamente. D. Dodó escuta, comovida. Leitão Leiria, muito teso, baixa os olhos com modéstia. Vera, junto da janela, olha para fora, fazendo o possível para não ouvir. Armênio sacode a ca­beça para Vera, como para lhe dizer que concorda com todos os elogios que a oradora fez e até com os que ainda vai dizer à virtuosa homenageada.) A Sociedade das Da­mas Piedosas — continua a oradora com voz tremida — que tanto deve à tua inteligência, à tua atividade, à tua dedicação sem par...

A enumeração vai num crescendo, subindo a escala cromática. Depois há uma pausa. Todas as caras estão atentas. O momento é grave.

Por que será que Chinita não vem? — pensa Vera.

115


Abraçados, Chinita e Salu, estão num paraíso de go­zo. Tudo em torno deles se esfumou e sumiu. O quarto com os seus móveis, o ruído duma torneira pingando na pia do banheiro, os ruídos abafados, que sobem da rua, os gritos destacados das buzinas dentro da noite, a vida com as suas criaturas, as suas convenções, as suas limi­tações .. . são coisas que agora não existem. Só este luxo de contatos.

Na sombra Salu murmura palavras sem sentido. Es­quece que as horas correm, os dias passam e que um dia a sua vida fácil terá de acabar. Esquece que não tem ru­mo, que nem sempre hão de durar as mesadas fartas. Es­quece que amanhã a sua ligação com Chinita lhe poderá trazer complicações e dissabores. Esquece porque este momento é bom, porque no fundo ele acha que a vida deve ser isto mesmo: despreocupação do bom animal que não se deixa perturbar por convenções absurdas. Agora só uma coisa o preocupa: prender Chinita, gozar Chinita e, gozando-a, inventar para a amante novas fontes de pra­zer, para que ela volte, para que se lembre dele, para que não se arrependa nem pense noutro homem.

Chinita recebe passivamente todas as carícias. E ca­da carícia para ela é uma revelação, maior, muito maior do que podia esperar. Abandonou-se a Salu como uma coi­sa inerte, mas secretamente confiada em que ele era se­nhor de todos os maravilhosos segredos do amor.

A torneira que pinga na pia é agora para eles o úni­co vestígio do outro mundo.

116

Alguns andares abaixo do apartamento de Salu, dei­tado de barriga para o ar numa larga cama de casal, Zé Maria respira com dificuldade, um braço pendendo para fora da cama, cansado e feliz.



Nanette, metida num roupão de veludo negro, senta-se ao lado do amigo e faz-lhe cócegas no queixo. O coro­nel desata a rir, numa convulsão que o deixa todo afo­gueado.

— Pare, seu diabo! Não vê que eu estou mais morto do que vivo?...

Mon joujou.

— Não diga essas coisas que eu não sei...

— Querido...

— Ah! Isso sim...

— Quando é que vai dar o automóvel que Nanette pediu?

— Sua interesseira! Amanhã vamos ver na agência.

Nanette se inclina e dá um beijo estralado na boca de Zé Maria.

Zé Maria exulta. Eu só queria ver a cara do Madruga!

117

A oradora perora:



...e peço-te que aceites, como prova de nossa gratidão e da nossa estima admirativa (pausa, nova entonação na voz), este humilde presente, que é o símbolo da nossa amizade reconhecida.

Palmas. D. Dodó recebe o presente, beija a oradora nas duas faces e começa a destilar lágrimas de comoção. Vêm as criadas, muito limpinhas e uniformizadas e ser­vem champanha.

Leitão Leiria pigarreia. Novo silêncio. O marido de D. Dodó faz o discurso de agradecimento. Fala na comoção do casal, diante desta prova de apreço e amizade du­ma sociedade distinta e limpa. E, olhando para dentro de sua taça, continua:

A nossa vida é de sacrifícios e renúncias. Horas e horas dedicadas à pobreza e à meditação religiosa. A mi­nha querida Dodó perde noites de sono pensando nos seus pobrezinhos! Refeições fora de horas, canseiras, cami­nhadas longas e tudo por que, senhores e senhoras? Tudo para que os seus pobrezinhos tenham o amparo que merecem. Quantas vezes ela não penetra, com o risco de sua própria saúde, na casa dum tuberculoso, para lhe le­var, de envolta com o auxílio pecuniário, uma palavra de consolo!?

Continua a enumerar os sacrifícios de dinheiro, e termina falando na honra da Família, na dissolução da Sociedade e na necessidade de se opor “um dique à onda de comunismo e ateísmo que ameaça tragar a civilização cristã”.

Palmas, abraços. Servem mais champanha.

Vera pede licença para Armênio e vai ao telefone perguntar por Chinita.

118


D. Maria Luísa responde:

— Mas ela saiu há duas horas para ir até aí... Não está? Não sei... — Pausa. — Está bem.

Larga do fone e vai sentar-se numa poltrona.

Chinita mentiu que ia à casa de Vera e não foi. Onde estará? Decerto com ele. No quarto dele. Como uma mu­lher da vida.

Zé Maria — nem há dúvida — está com a amásia...

D. Maria Luísa fica sentada, pensando. A casa enor­me está mergulhada num silêncio ainda maior. Os cria­dos foram dormir. Ninguém em torno, só ela, neste salão grande. Ela e as suas recordações do tempo em que tudo andava direito. A família unida e amiga. A vida tranqüila. Os meninos obedientes e bons.

Jacarecanga... Quando Chinita nasceu, ela passou mal, quase morreu. Chinita cresceu forte e bonita. Falou aos oito meses, todos gostavam dela. Manuel foi criado solto, mas sempre bonzinho. Zé Maria nunca saía de casa à noite. Tudo tão calmo, tão amigo... Até que um dia, aquele maldito dinheiro da loteria. ..

O tempo passa. D. Maria Luísa rumina recordações. E acha-se a criatura mais infeliz do mundo.

Mas duma maneira obscura, subterrânea e misterio­sa, por se sentir desgraçada, D. Maria Luísa sente-se qua­se feliz.

119


As últimas pessoas que ficaram no velório desertam às dez e meia. As chamas das velas estão morrendo.

A mulher de Maximiliano permanece sentada ao la­do do defunto.

Amanhã ao clarear do dia vão trazer o caixão. De­pois, às nove horas, aparece meia dúzia de vizinhos e co­nhecidos e levam o seu homem para o cemitério.

A vida vai mudar. Casa nova, cuidar mais dos guris, costurar e lavar para fora. Quem sabe se fornecer comi­da em marmita dá mais dinheiro?

Fazendo mentalmente os seus planos, a mulher se volta para o morto e por um instante tem vontade de lhe perguntar como fazia sempre que queria a opinião dele:

— Não achas bom, Maximiliano?

120

O Prof. Clarimundo volta da aula, sobe as escadas com um fósforo aceso na mão, abre a porta do quarto, entra, acende a luz e torna a fechar a porta com cuidado.



Um dia cheio. Boas aulas. Finalmente as equações de primeiro grau entraram na cabeça do filho do Dr. Flo­rindo.

Senta-se à mesa, abre um livro e torna a fechá-lo em seguida.

E se aproveitasse esta noite para começar o seu li­vro?

Sim, a idéia é tentadora, a noite está bonita, o silên­cio é absoluto.

Acende o fogareiro para aquentar água para o café. Café dá inspiração.

Tira da gaveta um maço de papéis. Bota uma pena nova na caneta e resolve começar o famoso prefácio de “O Observador de Sírio”.

Hesita um instante. Prefácio ou antelóquio? Melhor escrever antelóquio. É menos vulgar e fica mais sonoro. Escreve com letras de imprensa, graúdas e caprichadas: ANTELÓQUIO.

Olha para a lombada dos livros na prateleira para criar coragem, fica alguns segundos mordendo a ponta da caneta, pensativo. Depois escreve:

Apresentando este modesto livrinho, fruto...”

Mas fruto de quê? Não serve. Risca o que escreveu. Nova folha de papel. Repete o título e recomeça:

Antes de iniciar a narrativa...”

Qual! Também não presta. O livro tem de sair fora dos moldes comuns. O melhor é atacar o assunto direta­mente.

Crava a pena no papel, que geme. A pena desliza:

A vida, prezado leitor, é uma sucessão de acon­tecimentos monótonos, repetidos e sem imprevisto. Por isto alguns homens de imaginação foram obri­gados a inventar o romance.



O Homem, na Terra, nasce, vive e morre sem que lhe aconteça nenhuma dessas aventuras pitorescas de que os livros estão cheios.

Debalde os romancistas tentam nos convencer de que a vida é um romance. Quando saímos da leitura duma história de amor, ficamos surpreendidos ao nos encontrarmos na vida real diante de pessoas e coi­sas absolutamente diferentes das pessoas e coisas das fábulas livrescas.

Repito: a vida é monótona. Queres um exemplo frisante, vivido, observado, verificado? Ei-lo, leitor amigo: Moro numa rua suburbana cujo ponto cul­minante é a janela do meu quarto. E que vejo eu do meu posto de observador céptico? O mesmo ra­merrão cotidiano, os mesmos quadros monótonos. Na casa fronteira há sempre uma senhora vestida de preto que fica sentada na sua cadeira de balanço enquanto a filha anda dum lado para outro, fazendo eu nem sei quê. Mais adiante vejo um homem que se senta numa preguiçosa para ler o jornal, cercado dos filhos que berram, enquanto o seu gramofone toca uma música aborrecível que se repete todos os dias. No quintal próximo um moleque ladino joga pedras no pombal da casa vizinha.

São cenas de todo o dia. Nenhum acontecimento romântico quebra a calma desta rua e de seus habi­tantes. Onde os dramas de que falam os romancis­tas? Onde as angústias que cantam os poetas?

Foi depois de muito observar e meditar que eu cheguei à conclusão de que um observador colocado num ângulo especial poderá ter uma visão diferente e nova do Mundo.

Daí a idéia de escrever este opúsculo. Nele ciência e fantasia se combinam. Imagine-se um ser dotado da faculdade de raciocínio postado em Sírio e de lá olhando a Terra com um telescópio poderoso... Que visões terá ele do nosso planeta? Está claro que não poderia ver as criaturas e as coisas da vida co­mo nós, pobres terrenos, as vemos.

Pois eu te vou contar, leitor amigo, o que o meu observador de Sírio viu na Terra.”

Clarimundo pinga o ponto final com entusiasmo.

Olha para a chaleira e tem um sobressalto. A água ferve, a tampa dá pulinhos, ameaçando saltar, en­quanto pelo bico jorram pingos de água fervente. Cla­rimundo ergue-se num pincho e vai tirar a chaleira do fogo.

Quase me acontece um desastre! — pensa. E fica-se, muito alvorotado, a preparar o café.

Este livro foi composto nas oficinas gráficas da Livraria do Globo S. A. em Porto Alegre. Filiais: Santa Maria, Pelotas e Rio Grande.


artes gráficas guaru s/a

Impresso nas Oficinas da

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EDIÇÃO N° 2684

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