Caminhos Cruzados



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39 Idem, p. 30.

40 Verissimo, Erico. Incidente em Antares. p. 285.

Depois, na hora da despedida extrema, a derradeira mesmo, a resplandescência deste halo de inigualável ter­nura :

“— Erotildes, tu já viste Deus?

A morta se volta:

— Ainda não. Decerto, só vou ver Ele quando me enterrarem como cristão.

Rosinha limpa tremulamente as lágrimas do rosto com as pontas dos dedos.

— Vou te pedir um favor...

— Qual é?

— Diz pra Deus que me dê uma boa morte, já que não me deu uma boa vida”.41

10. Alegoria.

Erico Verissimo, ao retratar com sarcasmo, e por vezes com crueldade, alguns tipos regressivos e tirânicos, como aquele seu Coronel Chicuta Campolargo, calcado num conhecido caudilho serrano, expressou, sob forma alegó­rica, todo o seu horror ao mandonismo, à opressão e à prepotência, do mesmo modo como falou simbolicamente de sua fome de compreensão, tolerância e solidariedade, ao retratar tantas mulheres aureoladas pelo heroísmo sem alarde.




41 Idem, p. 287.


CAMINHOS


CRUZADOS

sábado


1

Madrugada — a cerração empresta à Travessa das Acácias um mistério de cidade submersa. A ruazinha de subúrbio se desfigura. A luz dos combustores, que a névoa embaça, sugere vagos monstros submarinos. As árvores que debruam as calçadas são como blocos compactos de algas. Todas as formas parecem diluídas.

Cinco horas da manhã.

Que peixe estranho é aquele que lá vem?

A carroça do padeiro passa estrondando, fazendo tremer a quietude da cidade afundada; mas um instante depois o seu vulto e o seu ruído se dissolvem de novo na cerração.

O silêncio torna a cair sobre o fundo do mar.

Agora nas fachadas escuras começam a brotar olhos quadrados e luminosos. D. Veva acendeu o lampião e vai acordar o marido que tem de tomar o primeiro bonde. No mercadinho de frutas, Said Maluf abre a porta dos fundos para apanhar a garrafa do leite. Na casa do alfaiate espanhol chora o filho mais moço. Na meia-água vizinha, o Cap. Mota toma chimarrão na varanda, em mangas de camisa (está fazendo frio, mas não se deve quebrar um hábito de vinte anos). Fiorello já abriu a sapataria e, enquanto ferve a água para o café, o italiano bate sola, bate sola, bate sola; na litogravura da folhinha, na pa­rede, Mussolini em cima do seu cavalo, berra marcialmente: “Camicie nere!”

Um trem apita. Um galo canta.

Quase invisível dentro da névoa, um gato cinzento passeia sobre o telhado da casa da viúva Mendonça. Debaixo desse telhado fica o quarto do Prof. Clarimundo. A umidade desenha figuras indecifráveis nas paredes caiadas. Em cima da mesa de pinho — de mistura com os restos da merenda da noite — vê-se um papel cheio dos rabiscos com que o professor tentou inutilmente meter na cabeça do sapateiro Fiorello noções da Relatividade de Einstein. Um despertador niquelado está dizendo tique-taque, tique-taque com a voz dura e regular. A cabeça des­cansando no travesseiro de fronha grosseira, o Prof. Clari­mundo Roxo dorme de ventre para o ar, ronca e bufa, pro­curando uma sincronia impossível com o tique-taque do relógio. A cada bufido, voam-lhe as falripas do bigode.

Um rato mete a cabeça para fora dum buraco do rodapé. Espia, fica parado por alguns segundos e depois deita a correr, sobe pela perna da cadeira, chega ao assento de palhinha, detém-se um segundo e em seguida continua a subir pela guarda, salta para cima da mesa e avança sobre os restos da merenda. Queijo e pão. O seu rabinho fino se confunde com os riscos do papel.

Os roncos do professor e o tique-taque do relógio prosseguem no seu concerto. Estrala uma viga no teto. Lá fora mia o gato madrugador. O professor se remexe, a cama guincha, o rato se assusta e foge para o buraco.

Dentro destas quatro paredes, deste pequeno mundo tridimensional cabe agora o mundo infinitamente mais vasto dentro do qual o Prof. Clarimundo anda perdido.

Uma extensão verde e plana como a dos campos da fronteira onde ele passou a primeira infância. Clarimun­do corre, aflito, porque um touro vermelho o persegue, bufando. As suas pernas pesam como chumbo. Ele quer gritar, pedir socorro, mas a voz lhe falta. O touro se apro­xima, Clarimundo já sente na nuca o seu bafo quente e úmido. Por fim consegue arrancar da garganta algumas palavras: “Acudam! Ataquem o touro! Socorro!” Mas as palavras lhe saem da boca em símbolos matemáticos. Passam perto tropeiros a cavalo. Olham e parecem não enxergar... Clarimundo continua a gritar, mas ninguém o entende. O touro o alcança e, cheio de pavor, Clarimundo sente no sexo (estranho, pois o touro vinha por trás) uma dor dilacerante. As aspas pontudas lhe rasgam as carnes, o sangue começa a escorrer e Clarimundo sente um desfalecimento mortal e inexplicavelmente cheio de gozo. De súbito a paisagem se transforma. Agora ele está nas montanhas nevadas da Suíça, passeando com Einstein, de braços dados, numa grande intimidade. Tenta em vão explicar ao sábio a Teoria da Relatividade. Fala, gesticula, risca sinais complicados na neve, grita, ameaça até, mas Einstein sacode a cabeça negativamente. Ao mesmo tempo Einstein não é mais Einstein mas sim o sapateiro Fiorello...

A paisagem branca se estende a perder de vista. Lá no horizonte longínquo, uma casa. Clarimundo sabe que dentro dela encontrará luz, calor, aconchego e pão. Está com fome, com frio e sozinho, pois todos os homens do mundo o abandonaram na solidão branca. E ele caminha, caminha... Mas à medida que avança a casa vai re­cuando.

Agora não é mais a paisagem suíça. Clarimundo anda flutuando no éter, viajando pelo infinito.

(No outro mundo, no de quatro paredes, o despertador continua a tiquetaquear. O rato tenta uma nova incursão. O armário range. O rato recua.)

Clarimundo continua a vagar pelo espaço sem limi­tes.

(O despertador começa a tilintar.)

Que ruído será este, tão longínquo e misterioso? Deve ser a tão falada música das esferas...

Clarimundo se deixa ir ao sabor das ondas, porque agora ele bóia à superfície do Pacífico. A música cresce de intensidade, mas à medida que aumenta vai perdendo a melodia até ganhar a evidência dum sinal de alarma.

O professor aos poucos abre os olhos. Por um instan­te, emergindo das profundezas do sonho, fica pairando numa região de lusco-fusco, entre os dois mundos.

O relógio continua a tilintar.

Cinco segundos. O milagre acontece: o infinito é devorado pelo finito: o mundo ilimitado do sonho desa­parece dentro do mundinho de quatro paredes que o des­pertador enche com sua voz metálica.

Clarimundo desperta. Lança um olhar torvo para o relógio. Cinco e meia. Com alguma relutância joga as pernas para fora da cama, com o camisolão de dormir sungado até as coxas. O contato do chão frio na sola dos pés é um novo chamado à realidade. Clarimundo se ergue, coçando a cabeça, olha em torno, estremunhado, como quem não sabe ainda onde se acha. Ainda estonteado, acende a luz e faz calar o despertador.

Vai ao lavatório de ferro, emborca o jarro sobre a bacia e a água fria apaga o último vestígio do outro mundo. Clarimundo coordena idéias: sábado, Francês para a fi­lha do Cel. Pedrosa, Matemática e Latim no curso noturno e... — com as mãos suspensas, úmidas, pingando, apro­xima-se para o horário que está colado à parede — ... Português para o filho do Desembargador Floriano. Bom.

Veste-se. Alisa a franja eriçada: o pente se emara­nha e verga na maçaroca dos cabelos. O espelho de moldurinha dourada reflete uma cara amassada, de barba azulando, olhos mansos de criança, o tufo agressivo do bigode negrejando abaixo do nariz curto.

Clarimundo ajusta os óculos e, religiosamente, como tem feito todas as manhãs de sua vida, vai ao calendário arrancar a folhinha.

Sorri. Sorri porque sabe que o Tempo realmente não é o que a viúva Mendonça ou o sapateiro Fiorello pensam...

Existirá mesmo o Tempo? Como foi que disse Laplace? “Le temps est pour nous (Clarimundo pronuncia mentalmente as palavras, com um refinamento inocente­mente pedante) 1’impression que laisse dans Ia mémoire une suite d’événements dont nous sommes certains que 1’existence a été successive.” Vinte e dois séculos antes, Aristóteles tinha afirmado quase a mesma coisa. Engra­çado... (Clarimundo olha da folhinha para o relógio.) A gente vive escravizada ao Tempo. Ele, por exemplo... Vivia assombrado pelo relógio e pelo horário. Se chega dois minutos atrasado para uma aula, entra, os olhos no chão e um sentimento de culpa que o perturba e hu­milha. No entanto, pensando bem, que é o Tempo? Ho­mero só admitia duas divisões do Tempo: a manhã e a tarde. Assim mesmo escreveu a Ilíada. E ele, Clarimundo, o homem do relógio, o escravo fiel das horas, que fez nos seus quarenta e oito anos de vida? Preparou espíritos, estudou e compreendeu Einstein, escreveu artigos para jornais, notas sobre Filosofia, Matemática, Física e As­tronomia recreativa... E, por falar em Astronomia recreativa, estão ali na gaveta da mesa as notas para o seu futuro livro, para sua obra. Clarimundo pensa nela com carinho. Vai ser um trabalho grande e sólido em que há de pôr todo o seu talento, toda a sua cultura. Será como que a coroa dourada de sua vida de solteirão solitá­rio. Nesse livro de fundo científico, fazendo uma con­cessão magnânima à fauna representada pela viúva Mendonça e pelo sapateiro Fiorello, ele respingará aqui e ali algumas gotinhas de fantasia.

Pensando nisto o professor sorri com a condescen­dência dum gigante truculento que resolve uma vez na vida ser amável para com as crianças.

Mas enfim os ponteiros se movem, os minutos pas­sam e a gente não pode ficar uma hora inteira assim a revirar entre os dedos a folhinha e a pensar na vida...

Clarimundo acende o fogareiro Primus e põe sobre ele a chaleira dágua.

Esfregando as mãos numa antecipação feliz, como um homem prestes a saborear o seu prato predileto, senta-se à mesa e abre um livro. Como de costume: quarenta minutos rigorosos de leitura.

ÜBER DIE SPEZIELLE UND DIE ALLGEMEINE RELATIVITÄTS-THEORIE GEMEINVERSTÄNDLICH, VON A. EINSTEIN.

O espírito do professor monta na vassoura mágica e vai fazer uma excursão pelo país das maravilhas.

Outra vez os dois mundos: o infinito dentro do finito.

No mundo menor o fogareiro, com o seu chiar grosso e contínuo, canta um dueto com o relógio.
2

Sete da manhã.

Honorato Madeira acorda e lembra-se: a mulher lhe pediu que a chamasse cedo.

— Gina! — exclama ele com voz amarga e sono­lenta. Volta-se para a mulher que dorme a seu lado, sacode-a de leve. — Gina!

Torna a sacudi-la, agora com mais força.

Virgínia abre os olhos. Primeiro vê o teto... Pisca, enruga a testa e a seguir volta a cabeça para a direita. Esfumada, indistinta como que mergulhada num aquário — aparece-lhe no campo da visão a cara redonda do marido. Por alguns instantes Virgínia é ainda a menina de vinte anos que andava correndo e cantando nos sonhos da noite. Pouco a pouco, porém, se vai integrando na realidade irremediável. Tem quarenta anos e é casada com este homem de cara gordalhufa e flácida, olhos empapuçados, calva lustrosa e ar bovino. Está ele a sor­rir-lhe com a mesma ternura dorminhoca de todas as manhãs. Seus cabelos ralos se espalham esvoaçantes sobre o crânio polido e rosado, e vem dele um cheiro todo particular: uma mistura de Jicky (perfume a que Honorato se mantém fiel há mais de vinte anos) com sarro de charuto.

O pijama de listras roxas se dobra em rugas múlti­plas em cima do corpo roliço. Honorato Madeira solta um bocejo cantado e feliz de quem tem a vida em ordem.

Virgínia fica a contemplá-lo com uma fixidez absurda que tem origem neste desejo esquisito que ela sente de olhar longamente para o marido, só para poder aborre­cê-lo mais e mais ainda.

Honorato levantou-se. É baixote, pesado, ventrudo.

Virgínia cruza as mãos sob a nuca e fica olhando para o forro, calada. O sono faz a gente esquecer... Às vezes nos traz sonhos agradáveis. Dormindo ela esquece que tem um filho de vinte e dois anos e um marido obeso; torna a sentir a leveza juvenil dos velhos tempos. Quando acorda, é para se ver no mesmo quarto de paredes cinzentas: o espelho triangular do penteador, o guarda-roupa lustroso de imbuia, o teto de estuque... E ao lado dela, na cama, aquele corpanzil quente, aquele homem que ronca, que tem confiança nela, no mundo e na vida...

Do banheiro vem a voz dele:

— Não te esqueças, Gigina. Tens hora marcada no instituto...

A voz tem uma consistência de pomada. Virgínia resmunga um eu sei de má vontade e levanta-se bocejan­do.

— A manhã está tão bonita...

Honorato diz estas palavras com tanta ternura que parece um poeta enamorado das paisagens luminosas. No entanto vive preocupado com o feijão, com o arroz, com o milho... Por que não vende alfafa? Havia de ficar-lhe tão bem...

— O Noelzinho já está de pé?

A voz dele se faz ainda mais terna.

— Ó Honorato, deixa dessas bobagens... Noelzi­nho... Como se ele fosse um bebê...

O marido formula um tímido protesto:

— Ora, Gigina...

Tomada por uma sensação de sonolento tédio, Vir­gínia senta-se na banqueta do penteador. Do banheiro vem o ruído quase musical do gargarejo de Honorato. Até nisso ele é sempre igual todas as manhãs. O gargarejo é um gorjeio que dura sempre o mesmo tempo e tem sempre o mesmo tom.

Passam-se os minutos.

Honorato está agora atando a gravata, na frente do espelho.

— Vamos ou não vamos hoje ao baile do Metrópole?

Claro que vamos, homem.

Ele solta um grunhido lamentoso. A idéia de que hoje à noite tem de botar colarinho duro lhe é insuportá­vel. A mulher bem podia desistir da festa. Tão bom ficar em casa... A gente volta cansado do serviço e só tem vontade de se atirar na cama e pegar no sono.

Pelo espelho Virgínia vê o marido que luta com a gravata, fungando e gemendo, muito vermelho.

Afasta os olhos da imagem dele, com desgosto.

Noel está sentado à mesa do café.

O sol inunda a varanda. O vento agita os estores das janelas.

O céu está claro como naquelas manhãs da infância. Ele olha para fora e recorda...

A negra Angélica tomava conta da casa, de seu corpo e de sua alma. Tinha mais autoridade que a mãe ou o pai. Era uma preta velha de voz de paina, olhos de peixe morto, e dentes amarelados.

De manhã dava-lhe café com pão e geléia, penteava-lhe os cabelos crespos, limpava-lhe as orelhas e levava-o até a terceira esquina. (Manhãs de sol como esta, cheiro de sereno no vento, nuvens fantásticas no céu...) Na esquina estava Fernanda, toda limpinha, avental branco, mochila de livros às costas, perfilada e sorridente, à sua espera.

Tia Angélica chegava com ele pela mão, parava e dizia:

— Pronto, agora vão direitinho. Cuidado com os automóveis.

E os dois seguiam de mãos dadas, ele tímido e en­colhido, Fernanda a puxá-lo pela mão, decidida, cami­nhava na frente, em passadas largas.

D. Eufrásia Rojão, a professora, era uma senhora de voz masculinamente grossa, óculos escuros, gestos deci­didos. Quando ela gania: “Atenção!”, Noel estremecia, apavorado. Fernanda, sentada a seu lado no mesmo ban­co, encorajava-o com sorrisos.

Na hora dos exercícios de Aritmética, Noel suava frio. Os números lhe davam tonturas. Fernanda, porém, ajudava-o a vencê-los.

Quando a aula terminava, saíam juntos outra vez. Fernanda pulava e cantava, mas ele caminhava taciturno, de olho caído. Os outros rapazes lhe davam empurrões e gritavam: “Mariquinhas! Ai, mamãe!” Miavam e asso­biavam, porque Noel nunca brincava com eles, ficava metido no meio das meninas, enquanto os colegas joga­vam futebol ou bandeira.

Muitas vezes Fernanda tinha de intervir para livrá-lo duma surra certa. E com que energia agressiva ela fazia isso!

O relógio da varanda dá uma badalada.

Noel sobressalta-se. A visão do passado se esvai. A criada entra com o café. Pára na frente dele e começa a despejar o leite do bule na xícara. Noel fica olhando dis­traidamente para a chinoca. Os seios dela, fortes e pon­tudos, arfam ao compasso da respiração. Noel desvia os olhos deles com uma vaga sensação de repugnância, por­que os seios da criada, as suas ancas carnudas, os seus braços nus são para ele símbolo de coisas fascinantes e ao mesmo tempo repulsivas, indecentes, animais. Era me­lhor que Querubina (até o nome, santo Deus, que into­lerável) fosse lisa como uma tábua. Teria uma presença menos indecorosa, não estaria assim a lembrar duma ma­neira tão pungente a sua qualidade de fêmea...

As fêmeas pertencem a um mundo com que Noel não está familiarizado. A negra Angélica como que o educou dentro do reino da fantasia, com mimos, doces e contos de fadas. Aquela/madrinha preta, ao mesmo tempo bondosa e tirânica, era um muro que se erguia entre ele e a vida.

Tia Angé era a senhora da casa. À hora de dormir contava-lhe histórias... O Gato de Botas, Joãozinho e Ritinha perdidos na floresta encantada, a princesa que dormiu cem anos...

Noel cresceu com uma visão deformada da vida. Jamais conheceu a liberdade de correr descalço pelas ruas, ao sol. Davam-lhe livros com gravuras coloridas, bonecos, soldadinhos de chumbo: e as paredes do quarto dos brinquedos limitavam o seu mundo.

Virgínia um dia falou em pôr o filho num internato. Tia Angélica cresceu para ela numa fúria:

— Está louca? Quer judiar do menino? Não senhora! Não vai. Havia de ter graça...

Noel não foi. Mas no dia em que completou quinze anos vieram dizer-lhe que tia Angélica tinha amanhecido morta. A preta velha estava estatelada, em cima de sua cama de ferro, de braços abertos, com os olhos escanca­rados fitos no teto, como se ali estivesse enxergando uma visão pavorosa.

Noel sentiu um abalo tremendo. Não. Tia Angélica não podia morrer... Era uma espécie de fada, um gênio da floresta encantada, não podia acabar assim daquele jeito, como uma criatura vulgar...

Quando levaram o corpo da negra para o cemitério, o muro, que separava Noel da vida, caiu. Ficou, porém, a sombra dele, e Noel continuou na ilusão de que ainda era prisioneiro.

Ao entrar para a academia, um ano mais tarde, sentiu-se desambientado e sofreu. A vida não era, como ele esperava, um prolongamento daqueles contos de fa­das em que o lobo mau no fim era sempre castigado, ao passo que a menina do capuz vermelho continuava a vi­ver feliz por muitos anos em companhia de sua avó.

Noel encontrou a vida povoada de lobos maus.

Refugiou-se no seu quarto e nos seus pensamentos. Dentro das quatro paredes do primeiro — quadros, livros e uma eletrola com discos escolhidos — sentia-se num clima que de algum modo se assemelhava ao do reino das fadas.

Quando saía do quarto, era como um peixe fora dágua.

Aos dezessete anos os primeiros amigos lhe trouxe­ram a curiosidade sexual, que acabou gerando nele um desejo forte de mistura com uma dose não pequena de medo. Noel passou a desejar e ao mesmo tempo a temer as mulheres.

Sua primeira experiência sexual (um camarada levou-o quase de arrasto à casa duma prostituta) foi uma decepção.

Noel supervalorizara o ato do amor e no entanto Obti­vera dele apenas dor e uma espécie de náusea. Os ho­mens cercavam aquilo dum grande mistério, duma atmos­fera quase dramática; os livros fantasiavam; os moralistas ameaçavam... Tudo isso lhe excitara a imaginação, mas o primeiro contato sexual para ele fora uma coisa repug­nante, viscosa, violenta — e a dor, o susto e o constran­gimento lhe haviam matado o prazer.

A mulher sorrira da inexperiência do rapaz. Noel saiu apavorado dos braços dela, enfurnou-se no quarto e daí por diante (já que o apetite sexual era inevitável) passou a imaginar e a desejar um amor sem penetrações dolorosas, suave, seco, superficial, em resumo: uma união espiritual entre elfos e fadas.

Um dia, depois de reler os contos dos Irmãos Grimm, escreveu a lápis na branca página de guarda do volume:

O que há de mais encantador no mundo da fantasia é estar ele livre das complicações do sexo. Só por isso é que pode oferecer a seus habitantes felicidade e alegria pura.



Os gnomos, por exemplo. Joãozinho e Ritinha se perderam no mato e encontraram aquela colônia minia­tural de gnomos. Tudo nela era harmonioso e belo. Os homenzinhos trabalhavam em paz, carregavam grandes frutas em seus carros minúsculos, quebravam nozes, dan­çavam ou dormiam à sombra dos cogumelos...

Eram felizes por duas razões principais: entre eles não havia nem lojas nem mulheres.

A ausência do comércio e do amor era a principal força daquele mundo.

Se os gnomos tivessem sexo, como ficaria complicada e feia a história da Branca de Neve! Os anões encontra­ram em sua casa a linda e inesperada visitante, deram-lhe de comer, cantaram e dançaram para ela... Simples­mente. Se fossem homens de verdade haviam de se espedaçar para ver quem ficava com Branca de Neve. Feliz­mente eram gnomos e o resultado de tudo foi um conto limpo.

Se entre os homens da vida real fosse possível flo­rescer histórias como esta, eles não decorreriam tão fre­qüentemente ao mundo da fantasia.”

Os anos passaram. Os homens de verdade envelhe­ciam ao passo que as criaturas dos contos de tia Angélica permaneciam frescas e jovens.

Noel sentia um vazio em sua vida. Em casa os dias se arrastavam monótonos. O pai fazia com relação a ele tímidas tentativas de carinho que morriam a um olhar frio da mulher. Às vezes Noel se atrasava na rua de pro­pósito à hora das refeições, pois estas eram momentos de pouca ou nenhuma cordialidade. Honorato lia o jornal, enquanto as criadas traziam os pratos. Virgínia arreliava sem razão com o pessoal da casa. Os diálogos eram raros, difíceis, entrecortados.

— Hoje falei com o Leitão Leiria...

— Sim?

Este sim de Virgínia era a maior, a mais magnânima das concessões. O silêncio caía de novo. Honorato apro­ximava a cara gorda do prato de sopa de onde subia um fino vapor. Noel não podia deixar de pensar: a cara inex­pressiva dum Buda por trás duma nuvem de incenso.. . Sempre as imagens literárias! Por que não podia ele ser um bom animal, um homem simples e são que acha pra­zer na carne de gado e na carne das mulheres, na comida e no amor? Por que este medo da vida, esta distância dos homens, este apego aos livros, ao irreal, ao imaginado?



Virgínia explodia em censuras sem fim. Não tinha vestidos... (Noel, Honorato, as criadas — todos sabiam que seu guarda-roupa estava cheio de vestidos novos e caros.) Faltava-lhe uma geladeira maior, um aspirador de pó, um rádio... Os criados eram desatenciosos e ler­dos. E Honorato, um água-morna, um desmoralizado que não se fazia respeitar. E por falar em desmoralizado, quando era que o nosso mariquinhas, o Noelzinho do pa­pai, ia começar a trabalhar? Para que tinha um diploma de bacharel em Direito? Para que, se vivia de mesadas?

Noel comia em silêncio, quase sempre enfastiado. Finda a refeição ganhava a rua. Ao meio-dia e a tarde ia esperar Fernanda à saída da casa em que a moça tra­balhava. A amizade da companheira de infância era a coisa melhor que ele tinha.

Agora, nesta manhã de maio, Noel recorda o passa­do, mergulha nos próprios pensamentos, esquecendo os seios abundantes de Querubina, os seus braços gordos, a sua presença incômoda, e tudo mais que o cerca nesta sala hostil sem calor de lar.

— Seu Noel!

Ele ergue os olhos. De testa franzida Querubina re­pete a pergunta:

— Pouco café ou muito café? Credo! Já perguntei três vezes.

— Pouco.

Noel serve-se de açúcar, distraído. Honorato entra e senta-se à mesa.



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