Caminhos Cruzados



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Encontro29.11.2017
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— Bom dia, meu filho.

— Bom dia.

— Dormiste bem?

(Esta voz quase cariciosa, este tom de interesse paternal só é possível na ausência de Virgínia.)

— Muito bem.

O olho triste do rapaz fita a cara corada e feliz.

De novo a voz branda e líquida:

— Querubina, o meu café. A criada serve-o.

Virgínia desce também. Quando ela chega, a solidão aumenta. Faz-se um silêncio demorado. Ela é a primeira a falar:

— Noel, me disseram ontem na casa das Assunção que tu andas de agarramentos com a Fernanda...

A face lisa e clara do rapaz se tinge de vermelho. Seus olhos castanhos ganham uma tonalidade quente.

— Mamãe!


Esta palavra, pronunciada com uma veemência tí­mida, é o protesto máximo que ele ousa formular. Virgínia sorri com malícia.

— Eu quero só ver se isso dá em casamento...

— Tu não compreendes...

— Ah! — Virgínia solta uma risada rascante, seca, desafinada. — Tu não compreendes — repete ela, paro­diando a voz do filho. — Não. Não compreendo. O único inteligente da casa és tu... Só tu sabes as coisas...

Honorato descerra os lábios polpudos para proferir uma palavrinha de protesto. Mas a expressão do rosto da mulher o desencoraja.

— Eu quero só ver — continua ela — como é que vais casar...

Noel desvia os olhos dos olhos da mãe. Uma ruga de contrariedade lhe vinca a testa. A expressão de seu ros­to é dolorosa, mas Virgínia continua a falar, irônica, com uma raiva fininha, sentindo um prazer miúdo e perverso em alfinetar... Porque é assim que ela se vinga. Nela a necessidade de agredir os outros é uma força irresistível. Tem agora diante de si os seus guardas, os homens que lhe tiraram os movimentos, que consciente ou incons­cientemente lhe tolhem a liberdade. Por causa do marido ela não tem a liberdade de gozar da companhia de outros homens mais brilhantes, mais moços e mais agradáveis. Por causa do filho é forçada a uma atitude insuportável de mãe de família, de senhora respeitável. São limitações que ela não pode tolerar. Se põe mais rouge nas faces, mais bâton nos lábios, lá estão os olhos do rapaz fixos nela, numa censura contida, lá está a cara desconsolada do marido que, não dizendo nada, diz tudo. Os seus de­sejos de boa companhia, festas, ruídos e elogios são rece­bidos com desagrado por aqueles dois homens. E o pior é que esse desagrado não se exprime em palavras: ela o sente nos olhares, nas atitudes e no bojo mesmo do si­lêncio que se fecha sobre os três, quando estão juntos.

— Onde é que o doutor vai arranjar dinheiro pro casamento?

Noel, que só tomou um gole de café, levanta-se de­vagar e, sem olhar para a mãe, retira-se da sala.

Virgínia fica sorrindo.

Com a boca cheia de pão, as bochechas trêmulas, Honorato reúne toda a coragem que lhe resta, para dizer:

— Ora, Virgínia!

3

A luz da manhã alaga o quarto de dormir do aparta­mento n.° 140, no 10.° andar do Edifício Colombo.



Sobem da rua ruídos surdos e gritos destacados — vozes das criaturas de aço e das criaturas de carne.

Os minutos passam. Os ruídos aumentam. O sol bate em cheio no rosto de Salustiano Rosa, uma máscara morena de traços nítidos: pálpebras lustrosas caídas, so­brancelhas grossas e eriçadas, nariz reto a destacar-se decisivo, do rosto onde a, barba começa a aparecer em pontinhos azulados. A boca entreaberta mostra dentes cla­ros e regulares, que faíscam.

Salustiano desperta, mal abrindo os olhos e sentindo a quentura do sol. Está com os braços estendidos em cruz e aos poucos vai tendo consciência do contato de um corpo estranho, mole e arfante, sob o dorso de sua mão esquerda. Volta a cabeça e olha. A seu lado urna rapa­riga loura dorme mansamente. Sua mão está aninhada entre os seios dela. Durante alguns segundos Salustiano procura compreender aquilo, chamando as recordações da noite. E, numa síntese mágica, a história lhe vem à mente...

A noite que ameaçava terminar sem uma aventu­ra... Os efeitos do uísque. A lua, a rua deserta, o vulto do guarda, na esquina... A rapariga loura que passava sozinha... Psst! Os olhos verdes que se fixaram nele, o sorriso animador... Depois, as palavras sem sentido e os gestos que diziam mais que as palavras. O elevador subindo — 1.°, 2.°, 3.° andar... A rapariga sorrindo em silêncio... A parada brusca no 10.° andar. O corredor, com uma lâmpada acesa lá no fundo, o tapete abafando os passos, a pressão tépida das mãos dela... O n.° 140 pintado na porta em algarismos brancos. Dentro do quar­to, a quietude e o luar. Pouco depois as roupas — as dele e as dela — uma a uma caíram misturadas sobre a poltro­na. Por fim aquela rapariga de pernas esbeltas, deitada na cama, imóvel, à sua espera...

Agora a mulher também está de olhos abertos, ca­çando lembranças.

Salustiano senta-se na cama e olha tranqüilo para a companheira da noite. Uma mecha de cabelos lhe cai sobre a testa. Os olhos de ambos se encontram. A rapa­riga sorri. Salustiano faz o mesmo. Ergue-se. O pijama de seda (“Como foi que eu tive a lembrança de vestir o pijama?”) dança-lhe frouxo e amarfanhado no corpo mus­culoso.

Salustiano dá alguns passos no quarto, sem propósito certo. O sorriso da rapariga se alarga.

Que homem engraçado! — pensa ela.

De braços cruzados Salustiano examina a compa­nheira da noite.

Só agora é que vê direito a cara da mulher com quem dormiu. É uma moça de narizinho redondo, olhos dum verde esquisito, seios pontudos, cabelos louros. Bem bonita! O sol da manhã podia ter-lhe revelado a caranto­nha intumescida e pintada duma megera. Salu verifica com alegria que a sua boa estrela ainda continua a bri­lhar.

A desconhecida contempla-o ainda a sorrir. Contra a luz desenha-se a silhueta firme do rapaz dentro do pijama num raio-x tão nítido que ela pode ver até os fios de cabelo que dão àquelas pernas a aparência dum bicho peludo.

— Como é o teu nome, meu bem?

A rapariga tem um leve sobressalto ao ouvir o som daquela voz metálica e autoritária.

— Cacilda.

Por alguns segundos Salustiano fica olhando para a coxa branca e bem torneada que emerge da colcha ama­rela, coberta duma penugem que o sol doura.

Procura espantar um desejo traiçoeiro que vem ne­gaceando, de longe, procurando tomar-lhe conta do corpo e da vontade. Olha o relógio, que está sobre a mesinha-de-cabeceira. Nove horas. Os inquilinos do 10.° andar têm os seus princípios e os seus escrúpulos... Cacilda precisa sair sem ser vista.

— Pois é, minha nega — diz ele com delicadeza — agora vai dando o forinha, sim?

Ela faz um gesto de aquiescência, atira as pernas para fora da cama, coça a cabeça e pergunta, entre dois bocejos:

— E o teu nome, como é?

— Salustiano... Se tiver preguiça de dizer todo o nome, diga só Salu. É a mesma coisa.

Cacilda começa a enfiar as meias.

Salu debruça-se à janela. Lá embaixo na rua movi­menta-se um exército de bichos minúsculos. Correm os bondes de capota parda; chatos e rastejantes, parecem escaravelhos. Uma confusão de cores e formas móveis, um entrebalançamento de fios de aço e de sons. Verme­lhos e pardos, os telhados se estendem ao sol. Coruscam vidraças. Flutua no ar uma névoa azulada.

Longe se estende o casario raso dos Navegantes, com as suas chaminés a darem a impressão de troncos desgalhados duma floresta depois do incêndio.

Salu respira, contente. Enfim, mais um dia começa. Só a idéia de estar vivo, são e íntegro lhe causa uma ale­gria intensa. A vida é boa e a gente nunca deve voltar-lhe o rosto. É preciso aceitar todas as coisas. Tudo o que Deus fez é bom. (Ele aceita Deus por comodismo: pensar demais faz mal e rouba um tempo precioso que pode ser aproveitado numa atividade mais útil.) Tudo o que o corpo reclama é legítimo. O sol brilha: vamos gozar o sol. As mulheres passam: vamos amar as mulheres!

Salu entra no quarto de banho, despe-se, salta para baixo do chuveiro e põe a água a jorrar. O leque líquido lhe envolve o corpo. Salu canta nem ele mesmo sabe quê. Uma melodia exótica, toda feita de fragmentos de várias canções, entrecortada de gritos e assobios.

Do outro compartimento, vem a voz da rapariga:

— Quero entrar... Como vai ser?

— Pois entra, menina — responde Salu. E continua a cantar.

Cacilda entra. Contra o verde dos ladrilhos do ba­nheiro destaca-se o vulto moreno-claro do rapaz, que está completamente nu... Cacilda fica parada, a sorrir sem malícia. A primeira imagem que lhe vem à mente é a de um cartaz que viu recentemente: — Tarzan, o Filho das Selvas. Mas a figura do cartaz de cinema tinha uma tan­ga, ao passo que Salu...

— Nunca viste um homem pelado?

Ela solta uma risada e aproxima-se do espelho da pia.

— Sai, bobo!

Agora Salu está à janela, metido no seu roupão fel­pudo. Neste momento Cacilda sai do Edifício Colombo. Ele reconhece o vestido vermelho e o chapéu preto de feltro. Uma figura pequenina que caminha sobre a cal­çada clara de mosaicos, na qual se projeta sua sombra. A mancha vermelha move-se. Outras manchas se agitam. Cacilda se perde no tumulto da rua.

Cacilda de quê? Quantos anos tem? De onde veio? Para onde irá?

Lá vai a rapariguinha loura que subiu sem protestar ao quarto do rapaz desconhecido, meteu-se na cama dele, deu-lhe alguns momentos de prazer e no dia seguinte ergueu-se sem pedir explicações, vestiu-se e saiu na ponta dos pés para não chamar a atenção dos outros inquilinos do 10.° andar. Não contou histórias sentimentais nem olhou para a cédula que o homem lhe meteu com alguma discrição na bolsa.

A manhã é clara. Bondes, autos e gentes passam. Garotos gritam nomes de jornais. A cidade vive o seu no­vo dia.

Mas a Cacilda do vestido vermelho lá vai caminhan­do com aquelas pernas que Salu viu nuas ali na cama; vai sacudindo os braços que o apertaram, e olhando as coisas e as pessoas com os olhos que viram há pouco o corpo nu do seu amante de uma noite.

Talvez ele não torne a vê-la nunca mais. É por coisa como essa que ele acha a vida absurda e bela.

Está tudo certo — conclui.

Em paz com o mundo, veste-se e sai.

Na rua há largas zonas de sombra e de luz. Anda no ar, de mistura com a luz enfumaçada, um cheiro ati­vo de café torrado.

Salu caminha a olhar os transeuntes e de repente se lembra do tempo em que era ginasiano... O pai vinha visitá-lo duas vezes por ano. Morava no interior e era um homem alegre e despreocupado. Saíam muitas vezes a passear. O velho mostrava os passantes e dizia:

— Olhe, meu filho, os homens são como formigas...

Torcia contente o bigode fino, lustroso de cosmético. Orgulhava-se de ter a sua filosofia da vida. Era um mão-aberta e achava que primeiro vinha o prazer, depois o trabalho. A mulher era rica, ele não tinha razão para se preocupar com o futuro.

Salu olhava para o pai com admiração e escutava...

São como formigas — repetia ele. — Caminham, caminham e caminham. Sempre preocupados com o tra­balho, os burros! Os formigueiros (e o velho fazia um gesto que abrangia a cidade) sobem para as nuvens...

Expunha a sua teoria. Cada homem era urna formi­ga que levava nas costas um peso morto, um peso esma­gador, mas absurdo, de cuidados. Uns pensavam nas contas que tinham a pagar. Aquele sujeito amarelo e en­curvado decerto tinha uma promissória vencida em vés­peras de ser protestada. O homem de óculos escuros e bengala de castão de prata ia pensando talvez na filha trintona que não achava marido. Quase todos os passan­tes levavam uma carga invisível de cuidados. E os que não tinham cuidados, mas eram imaginosos, inventavam incômodos fantásticos, só para se autoflagelarem porque não tinham a coragem de aceitar a vida pura e simples­mente como ela é...

— Os homens são formigas! — repetia o velho. — Formigas que levam às costas fardos cem vezes maiores que elas. Devemos ser mas é cigarras, meu filho!

Salu revê mentalmente o pai, sorri para o fantas­ma...

O sol bate em cheio num cartaz vermelho em que um mandarim de roupa amarela recomenda em letras brancas que todo o mundo tome “Chá Pequim”. Os olhos de Salu pousam no cartaz. E ele imediatamente pensa em Chinita.

— Sou tua!

As palavras dela lhe soam agora na mente com sur­preendente nitidez. A voz musical, o ceceio esquisitamente excitante. . . Na penumbra do cinema as mãos deles se encontraram aquela noite. Mickey Mouse fazia proezas na tela branca. Ao lado de Chinita, o vulto escuro da mãe, os vastos seios arfando. Mais adiante, o pai cochilava, a cabeça caída, a papada derramada sobre o colarinho du­ro. Um trinado da flauta de Mickey Mouse acordou-o. Os dedos de Salu viajavam de leve pelo braço de Chinita. Os olhos dela fulguravam na sombra.

O sol brilha mais forte. As formigas passam carre­gando os seus fardos.

Devemos ser mas é cigarras, meu filho!

Salu começa a assobiar um samba.

4

O relógio grande da varanda (custou três contos, tem um pêndulo dourado, enorme) bate onze horas.



Chinita pensa em Salu. A água de duas torneiras escorre para dentro da banheira de ladrilho amarelo e preto. Chinita tira o roupão e fica toda nua, namorando-se na frente do espelho.

Se ele me visse assim?

Chinita apalpa os braços (quantas vezes os dedos dele apertaram estas carnes!), pousa as mãos dobradas em concha sobre ambos os seios (que sensação esqui­sita e boa, que cócega invade o corpo e põe o coração a bater com mais força quando os dedos dele lhe tocam de leve nos bicos dos seios, mesmo por cima do vesti­do...).

De lá debaixo, do hall (Chinita faz questão de pro­nunciar hól, com h aspirado, bem como lhe ensinou o Prof. Clarimundo) vêm rumores confusos. Devem ser os decoradores. Vozes. Batidas de martelos.

Chinita toma a temperatura da água com a ponta dos dedos. Tépida. Fecha a torneira da água fria e deixa a outra aberta mais alguns instantes.

Entra na banheira e a água se fecha sobre ela, num abraço morno. Chinita cerra os olhos. Um calor adormentador convida-a ao abandono, à sonolência. Chinita pensa em Salu. É tépido assim o corpo dele quando am­bos dançam, colados um ao outro. Hoje à noite vão se encontrar de novo no chá-dançante do Metrópole. Chinita sorri a este pensamento. Um pensamento malicioso lhe ocorre: a única utilidade de D. Dodó Leitão Leiria é a de inventar festas de caridade onde a gente pode dançar e conversar com o namorado. . .

Chinita ensaboa as pernas, as coxas e o ventre, nu­ma carícia demorada. E agora, dentro deste banheiro es­paçoso de ladrilhos coloridos — um armário a um canto com perfumes, sais de banho, cremes e água-de-colônia — ela pensa no quartinho de tábua da sua casa de Jacarecanga, um cubículo estreito e cheio de frinchas. No inverno era um pavor; o vento entrava uivando, frio e cortante como uma navalha. O banheiro de folha com pintura descascada tinha pés cambaios, rangia quando a gente saltava para dentro dele, vazava água por um bu­raco que ninguém nunca conseguiu descobrir. Sabonete de mil e quinhentos. (Papai prometia melhoramentos, mas a loja ia mal, havia até promissórias protestadas.) Às vezes o ralo do chuveiro se desprendia caindo na ca­beça do banhista...

Chinita sorri. Mergulha todo o corpo na água e fica só com a cabeça para fora. Nadam na superfície espumas brancas coroadas de bolhas irisadas. A água agora vai tomando uma cor leitosa, palidamente azulada.

Isto parece um sonho comparado com aquela vi­da... O colégio da Prof.a Ana Augusta. Os bilhetinhos de amor do farmacêutico. As meninas do seu Boeira, coletor estadual. De noite, o cinema do seu Mirandolino, o Britinho da Barbearia Fígaro soprando na flauta, o filho do delegado batendo no piano. Foi naquele cinema sombrio e feio que ela começou a amar os artistas de Hollywood...

Tinha dez anos quando Valentino morreu. Mesmo assim pôde sentir a perda irreparável. Chorou muito e o pai teve de dar-lhe uma boneca nova para a consolar. Depois os anos passaram, ela cresceu, o cinema progre­diu, ganhou voz. Mas em Jacarecanga, continuava mudo. (“Não sou besta de comprar um aparelho falante” — di­zia o Mirandolino — “essa geringonça não vai longe...”) E assim o barbeiro e o filho do delegado continuaram a arranhar na flauta e no piano valsas impossíveis.

Chinita teve muitos namorados, recebeu muitos bi­lhetinhos perfumados com flores secas. Uma vez, como os pais se opusessem ao seu namoro com um forasteiro, que toda gente apontava como vigarista, Chinita pensou em fugir. (Não que o amasse de verdade. O que a tentava na causa era o que ela tinha de cinematográfica. Adorava as situações românticas. Elas faziam que a vidinha sem graça de Jacarecanga se parecesse, pelo menos um ti­quinho assim, com a das figuras de Hollywood.) Mas o Cap. Moreira, delegado de polícia, não ia nunca ao ci­nema e não compreendia os romances. Recebeu uma denúncia, obteve provas e trancafiou o galã de Chinita no xadrez.

Chinita passou vários dias vestida de escuro, olhos pisados (bem como Pola Negri numa fita trágica), pen­sando no bem-amado. Mas os cartazes do Cinema Ideal saíram pára a rua anunciando uma “superprodução” de Ramon Novarro. Chinita criou alma nova e esqueceu o seu drama. Foi ao cinema e naquela mesma noite arran­jou outro namorado.

A vida em Jacarecanga rolava, sempre igual. Chinita vivia com o pensamento em Hollywood. Imaginava-se Greta Garbo, Joan Crawford, ou Constance Bennet. Imi­tava gestos e penteados. (Nos bailes do Recreio todos riam dela. Pura inveja!)

O ambiente familiar não a encorajava. As paredes da casa, cheias de retratos de avós, gente antiga, mu­lheres de penteados monumentais, homens de barba... Guardanapinhos de croché. Mamãe gorducha, fazendo tricô, falando em fazer economias, suspirando e queixan­do-se da vida. Papai, de barba crescida, comentando a alta dos gêneros, a política, as partidinhas de pôquer...

Chinita sonhava com outro ambiente mais moderno, mais fino, mais limpo: alta-roda, homens de casaca, mulheres com vestidos decotados, perfumes, jóias...

Agora ela faz uma excursão ao passado, só porque se lembrou do banheiro pobre da sua terra natal...

Brrr! Chinita agita os braços, segura as bordas da banheira, tosse, ergue a cabeça... Brr! A água quase lhe desceu goela abaixo.

O relógio começa a bater. Que horas serão?

Chinita sai da banheira, enrola-se numa toalha felpuda, que lhe provoca arrepios e torna a pensar em Salu.

No hall os decoradores trabalham, terminando as pinturas da parede. O Cel. Pedrosa insiste em pedir en­feites dourados, muitos enfeites dourados. A mulher, D. Maria Luísa, suspira tristonha, pensando nas despesas. Mas o marido está com a mania de grandeza na cabeça: quer por força ter a melhor vivenda dos Moinhos de Vento.

O ar está cheio dum cheiro penetrante de tinta a óleo. Os móveis novos (também com dourados, estilo Luís XV) acham-se cobertos por uma lona. Um mulato gordo encera o soalho.

Sentado numa poltrona fofa, o Cel. Zé Maria Pedrosa lê o jornal da manhã. Política nacional. Um ministro que pede demissão. Rumores de revolução. En­trevistas, discursos, um manifesto.

Zé Maria baixa o jornal.

— Seu Willy!

O homem ruivo, cuja cara branca e inexpressiva parece um desenho de linhas simples que o desenhista se esqueceu de encher, volta-se no alto da escada.

— Pronto, coronel.

— Mas o senhor acha mesmo que terminam o ser­viço depois d’amanhã?

— Och! Como não, coronel!

— Percisamos inaugurar a casa na terça-feira sem falta.

O coronel pensa nos convites. A redação é de Chinita, mas quem escolheu o papel e as letras foi ele: um papel grosso, chamalotado, letras douradas, um buquê de flores coloridas a um canto:

A família José Maria Pedrosa tem a subida honra de convidar V. Ex.a e Ex.ma família para o baile com que inaugurará o seu palacete...”

Zé Maria sorri. O alemão se volta de novo para a parede e continua a pintar com todo o capricho um ara­besco. Foi uma luta para conseguir que o coronel desistisse da idéia de ver cavalos, bois e anjos pintados nas paredes da casa. Por fim, cercado por Chinita, que queria parecer moderna pelo pintor, que apresentava razões técnicas, e pela mulher, que achava que quanto menos figuras hou­vesse “menas despesas haveriam” — desamparado e só, Zé Maria capitulou... Desistia dos cavalos, mas que lhe deixassem então os dourados, ao menos os dourados...

A criada vem dizer que o almoço está na mesa. É uma rapariga nova, vestida de preto, avental branco e touquinha na cabeça. Zé Maria sorri porque lhe vem à lembrança um quadro do passado: a negra Teresa, de cara inchada e pretusca, surgindo do fundo da cozinha para dizer com maus modos:

— “O almoço’tá na mesa, não embrome porqu’esfria!”

Zé Maria pensa em Nanette e nas beijocas boas que vai lhe dar hoje de tarde, se Deus quiser.

— Seu Willy, não é servido?

A cara sem cor parodia uma expressão amável.

— Muito obrigado, bom proveito!

O sol escorre para dentro da sala de refeições. Em cima da mesa faíscam, sobre a toalha branca, os cristais, as pratas, as louças. Os móveis são de jacarandá. Berra a pintura futurista das paredes. O soalho encerado é um espelho. A terrina de sopa fumega. Tudo fulge, menos a cara de D. Maria Luísa.

Sentada no seu lugar na frente do marido, ela tem os olhos baixos, os lábios apertados, o ar doloroso. Parece uma ré diante do juiz.

— Mas que é que você tem, Maria Luísa?

Zé Maria sabe o que é... Em vinte e oito anos de casados aprendeu a conhecer a mulher. Pergunta por perguntar.. .

— Não tenho nada. Eu nunca tenho nada.

A criada serve a sopa. Zé Maria desdobra o guarda­napo e ata-o em torno do pescoço. Faz-se silêncio.

Zé Maria, para melhorar o ambiente, faz humorismo:

— Pra que flor na mesa?

Olha para o vaso bojudo onde as zínias amarelas se misturam com as rosas.

— Eu não como flor!

É o seu grande achado, a sua proeza máxima como humorista. Goza com a própria piada: soltando uma risadinha seca e prolongada.

D. Maria Luísa permanece de cara fechada. Novo silêncio. Agora só se ouve o tantã dos trabalhadores, que estão a bater martelo no andar superior, e os sons quase musicais que Zé Maria produz ao sorver as Colheres de sopa.

— Onde é que está Chinita?— indagou ele.

— Recém levantou.

A voz de D. Maria Luísa é dolorida, arrastada — voz de quem tem prazer em se julgar mártir, voz de quem tem a preocupação de sempre representar na vida o papel de vítima.

— E o Manuel? — torna a perguntar o pai.

— Não dormiu em casa. (A voz é tão dolorosa que parece anunciar: “O Manuel amanheceu morto”.) Nunca dorme...

Zé Maria está arrependido de ter feito a pergunta. Agora nem tem coragem de fazer comentários.

— Veja só...

É a única coisa que encontra para dizer.

Mas D. Maria Luísa não está satisfeita. Ainda não esgotou o tema desgraça. É preciso descobrir nele mais motivos de tristeza.

— O Manuel anda magro...

Zé Maria sorve a última colherada de sopa.

— Está sem cor... — prossegue a mulher. Seguindo um velho hábito, Zé Maria afasta de si o prato vazio.

— Não quer estudar...

Zé Maria ensaia uma desculpa:

— Ora Maria Luísa, quando a gente é rapaz...

Mas nos olhos da mulher ele lê uma censura que não acha expressão verbal. A voz dolorida ganha intensi­dade.

— Severina, traga os outros pratos.

Mesmo dando ordens de caráter doméstico a sua voz é uma lamúria.

Pausa.

Zé Maria sente um alívio, julgando que as lamenta­ções findaram.



Os martelos continuam a bater, em golpes rítmicos que despertam ecos pela casa toda. E ao compasso das marteladas, a voz cansada (que o coronel há quase trinta anos ouve, todos os dias, todos os momentos, queixando-se sempre, sempre, sempre) a voz machucada vai dizendo:

— Agora tudo mudou. Eu já não tenho mais marido nem filhos...

Mas é melhor calar. Faz-se um silêncio pesado, um silêncio cheio de censuras recalcadas, um silêncio dentro do qual paira um enorme mal-estar.



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