Caminhos Cruzados



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Chegam novos pratos. A feijoada e o assado criam um ambiente de paraíso para o coronel. Ele esquece tudo e é com uma alegria quase infantil que trincha a carne tostada e suculenta.

Mas D. Maria Luísa se sentiria supinamente infeliz se não tivesse motivos para ser infeliz. Por isso rumina todo o seu ressentimento, recorda, compara, imagina...

5

Em Jacarecanga a vida da família Pedrosa era quase patriarcal. Moravam numa casa modesta de porta e qua­tro janelas. Tinham um jardim com flores, um quintal com laranjeiras e pessegueiros: na horta, D. Maria Luísa cuidava com carinho das couves e dos repolhos. (Quando a peste bateu nos pessegueiros ela achou um motivo ad­mirável para se sentir desgraçada.) Os vizinhos — o Zenóbio Pinto, escrivão, e a mulher, dum lado; o Carvalho da Farmácia, viúvo com duas filhas solteironas, do outro — eram gente boa e serviçal. Quando se apertava pela falta de açúcar ou de batatas, D. Maria Luísa ia até a cerca, gritava: Vizinha! e tudo se arranjava com facili­dade.



Zé Maria trabalhava de dia, voltava às oito, lavava os pés e depois jantava em mangas de camisa. De noite Chi­nita ia ao cinema com as filhas do coletor. Manuel ia jogar bilhar no café.

O serão começava. Zé Maria ficava na cadeira pre­guiçosa, lendo os jornais. Às vezes aparecia seu Carvalho e jogava-se escova ou sete-belo. D. Maria Luísa fazia tra­balhos de tricô: uma gravata para o Manuel, uma manta para o marido, uma blusa para a Chinita, um casaquinho para o bebê da D. Almira...

Mas o fim do mês era uma tortura: cada conta que aparecia doía como uma punhalada. A cada pagamento D. Maria Luísa tinha a impressão de que lhe arrancavam do corpo uma nesga de carne.

Sofria. Zé Maria queixava-se de que os negócios iam mal. Às vezes as horas de refeições eram pontilhadas de suspiros. Os meninos, esses conversavam, indiferentes. Ah! como a mocidade de hoje é diferente da do meu tem­po!

Chinita queria ser artista de cinema. Manuel tinha vontade de conhecer a capital. Zé Maria afogava as suas preocupações no pratarrão de feijoada.

E a vida ia passando. Todos unidos. Graças a Deus eram só quatro! — pensava D. Maria Luísa. Seria pior se houvesse oito bocas para alimentar... Mesmo assim a preocupação de economia era permanente. Chegava a pensar numa situação ideal em que as pessoas não pre­cisassem de comer nem de vestir. Assim todo o dinheiro iria para um cofre, ficava ali aumentando dia a dia. E seria um gosto olhar para ele todas as manhãs.

Zé Maria passava o dia atrás do balcão. Dois quilos de açúcar! Três metros de morim! Um pacote de alfinetes! E o fantasma dos papagaios de banco avisando o venci­mento das duplicatas.

Às vezes o Madruga passava pela loja. Era um sujeito alto, magro, desdentado, calva enorme, olho malvado, voz dura. Andava sempre de palito na boca. Vivia a discutir com Zé Maria. No fundo, bons e velhos amigos. Mas era uma camaradagem que precisava ser alimentada com rusgas. Dentro de um ambiente de paz perfeita não floresce­ria... Zé Maria e Quirino Madruga discordavam sempre. Em política, em religião, em assuntos cotidianos, em tudo. As apostas se repetiam em torno das coisas mais triviais.

— Amanhã chove.

— Não chove.

— Chove, não vê o céu?

— Céu não regula.

— Quer apostar como chove?

— Topo! Vinte mil-réis.

— Feito! Vintão.

Se chovia Zé Maria fazia um hê-hê-hê gostoso, passa­va o dia alegre (“Quero só ver a cara do Madruga”) e no fim perdoava ao outro o pagamento da aposta.

Só uma coisa lhe doía na alma. Madruga não perdia ocasião de lhe dizer:

— Deus quando fez o porco foi pensando no chiquei­ro. Você, Zé Maria, nasceu pra viver em mangas de ca­misa atrás dum balcão, vendendo bacalhau e manteiga... Não posso imaginar você de casaca, bebendo champanha. Cavalo pode morar em palácio? Claro que não.

E ria a sua risada áspera.

Mas um dia Zé Maria sonhou que a casa do coletor tinha prendido fogo e que o Madruga havia morrido quei­mado. Levantou-se, impressionado. Estava-se em véspera de Natal, a Loteria do Estado anunciava uma extração de dois mil contos. Zé Maria foi olhar a casa do coletor. Tinha o número 1063. Tomou uma resolução heróica. Uma vez na vida e outra na morte não fazia mal arriscar... Desgraça pouca é bobagem. Juntou a féria de três dias e foi à Agência de Loteria do Bianchi.

— O 1063 não tem... — disse o italiano.

Zé Maria ficou amolado.

— Encomende. Pago telegrama, pago tudo.

Estava nervoso. O Bianchi telegrafou. A resposta veio. O 1063 já estava vendido, mas o 3601 estava livre. Servia?

— Servia! Mande buscar urgente.

Em casa ninguém sabia de nada. O 3601 veio. Zé Maria andava preocupado. Algumas firmas ameaçavam protestar duplicatas vencidas e não pagas. O negócio es­tava meio parado.

Um dia Zé Maria não agüentou aquela coisa esquisita que se lhe avolumava no peito, aquela angústia, aquele peso. Contou tudo à mulher. Tinha comprado um bilhete!

— Um bilhete inteiro? Inteiro?

D. Maria Luísa levou as mãos à cabeça. Zé Maria estava aniquilado.

— Quanto custou?

— Trezentos...

D. Maria Luísa enxergava, via com nitidez os tre­zentos mil-réis diante dos olhos. Sentiu uma tontura. Foi para o quarto e chorou toda a tarde.

Na véspera de Natal ao anoitecer estralaram fogue­tes lá para as bandas da praça.

Zé Maria apareceu à porta da loja.

— É na agência do Bianchi — disse uma voz.

Assomavam cabeças às janelas. Corria gente para a rua. Contra o céu claro faiscavam os foguetes que ex­plodiam, e as pequenas nuvens de fumaça ficavam no ar por alguns instantes...

O coração de Zé Maria começou a bater com mais força. Enfiou o chapéu na cabeça e saiu.

— Deve ser a bruta! — gritou-lhe alguém.

Zé Maria caminhava como um ébrio, os olhos turvos, a cabeça tão tonta que nem podia pensar. A uma esquina encontrou o Madruga.

Onde vais com tanta pressa, homem?

Zé Maria afastou-o com a mão.

— Me deixa.

Madruga ficou rindo, o palito tremeu-lhe nos lábios.

— Pensas que tiraste a sorte grande, animal?

Na frente da agência do italiano Bianchi havia gente amontoada, procurando ler o número escrito no quadro-negro. Bianchi, rindo com toda a cara vermelha e enru­gada, emergiu da maçaroca humana e correu para Zé Maria, de braços abertos:

— Felizardo! Felizardo! A bruta!

Zé Maria negava-se a compreender, a acreditar. Era demais. Aquilo não lhe podia acontecer. Ah! Não podia.

— Mas é a bruta. Dois mil contos! Eu mandei na loja lhe avisar!

Diante dos olhos do coronel tudo dançava: o italiano, as árvores, as pessoas... Os foguetes continuavam a su­bir para o céu e estouravam lá em cima, provocando ecos atrás da igreja. Agora em torno de Zé Maria havia muitas pessoas, conhecidas umas, desconhecidas outras. Ele ti­nha vontade de gritar. Sons confusos lhe chegavam aos ouvidos: — Parabéns! Felizardo! Qual foi o número? Nasceu empelicado! Sim senhor!

Depois que se livrou dos abraços da primeira hora, examinando com os próprios olhos s telegrama que trou­xera o resultado da extração; depois que bebeu um copo dágua fria é que Zé Maria começou a se habituar à reali­dade maravilhosa. Quando serenou, o seu primeiro pen­samento foi para o amigo: “Eu só quero é ver a cara do Madruga.” E viu. Madruga chegou, fingindo indiferença.

— Ouvi dizer que tiraste a sorte grande.

O sorriso largo de Zé Maria era uma confirmação. Madruga segurou o palito, fleumático, fez uma ca­reta de dúvida e disse:

— Não sei se te felicito... Bem diz o ditado que a fortuna é cega. Deus às vezes dá osso pra cachorro sem dente. Dentro de dois anos não tens mais um miserável níquel. Por falar nisto, me empresta vinte mil-réis.

Zé Maria tirou do bolso uma cédula de cinqüenta.

— Leva cinqüenta! Estou louco da vida.

Quando souberam a notícia, Chinita e Manuel solta­ram urros de prazer. O rapaz quebrou uma compoteira de vidro amarelo. Tinha raiva daquela coisa. Havia muito que refreava uma vontade insuportável de quebrar aquele objeto que lhe irritava os nervos. Agora que estavam ricos tudo se podia fazer.

D. Maria Luísa, ao saber do grande acontecimento, teve um desmaio. Chamaram o Carvalho da Farmácia, que veio com o vidrinho de amoníaco e com uma delicadeza e uma solicitude desusadas. Depois que voltou a si, lem­brando-se dos dois mil contos, D. Maria Luísa começou a chorar baixinho. Zé Maria veio para a cabeceira da cama.

— Mas que é isso, Maria Luísa? Não vê que nós estamos ricos? Agora tudo vai ser bom, a gente tem tudo o que quer...

Mas a mulher continuava a choramingar. Já estava pensando, com uma dor enorme, no muito que tinham de gastar dali para o futuro. Todo aquele dinheiro seria um pesadelo. Os ladrões, os pedinchões, os vendedores ambu­lantes. Depois, os bancos não estavam livres de quebrar. Teriam de mudar de casa, e fazer casa nova custava di­nheiro, mobiliar casa custava dinheiro. Agora os meninos iam pensar que estavam milionários e desandariam a gas­tar, a gastar, a gastar...

Todo o mundo então passou a cumprimentar sorrindo a família do Cel. Zé Maria. Nos primeiros dias choviam pedidos de dinheiro. O coronel estava sempre inclinado a dar, a ceder... Mas a mulher intervinha:

— O Zé Maria não é pai de ninguém, está ouvindo? Toca pra fora, seu explorador!

Quando se tratava de defender o seu rico dinheiro, ela tinha assomos insuspeitados de energia. Era capaz de brigar, de dar bordoada, de enfrentar todos os perigos. Mas vencida a dificuldade, caía de novo na melancolia e levava a ruminar tristezas, a pensar em possíveis desas­tres, a esforçar-se por descobrir motivos de infelicidade.

Um dia o coronel resolveu mudar de terra e de vida.

— Isto aqui é bom pra o Madruga que gosta de vege­tar. (Não sabia bem a significação de vegetar, mas tinha a certeza de que não era boa coisa.) Vamos pra Porto Alegre. O Manuel precisa seguir uma carreira, a Chinita precisa casar bem. E nós, minha velha, também temos direito de gozar um pouquinho. Só burro é que passa a vida inteira puxando carroça.

Chinita e Manuel exultaram. Para ela, Porto Alegre significava uma vida nova: sociedade fina, automóveis, passeios, cinemas, bailes, ruas muito movimentadas, luxo e gozo. Manuel sonhava com farras homéricas.

Quando o coronel anunciou que ia embora, houve protesto na cidade. Foram comissões à casa dele. “Fique. Nós queremos que o coronel seja presidente do Recreio Jacarecanguense. Desista da viagem, Jacarecanga precisa de homens como o senhor. Ora, não vá, coronel, não vá que nós somos capazes de fazê-lo prefeito.” Prefeito? Aqui o coronel titubeou. Mas a promessa era muito vaga, e a casa da família e a loja estavam vendidas...

No dia da despedida, a plataforma da estação se encheu de gente. Banda de música. O promotor público fez um discurso em que lamentava a perda dum dos filhos mais ilustres de Jacarecanga. (O coronel sentiu um es­tremecimento.) D. Maria Luísa chorava copiosamente. Quanto iam gastar na nova vida? Que sorte lhes estaria reservada?

A locomotiva apitou. O trem começou a se movimen­tar. Na plataforma deram vivas ao Cel. Pedrosa e Exma. família. Lenços abanavam. O Carvalho da Farmácia enxugou uma lágrima sincera. As filhas do coletor tam­bém choravam. Por cima das cabeças agitadas erguia-se o estandarte vermelho e verde do Recreio. A estação foi ficando para trás, cada vez mais minguada. A velocidade do trem aumentava. Ruas de Jacarecanga, subúrbios, casinholas com crianças nuas à porta... Quando vislum­brou, rapidamente, lá no fim da rua, a fachada branca da casa em que tinham morado, D. Maria Luísa desandou a chorar abandonadamente, como quem volta do enterro de uma criatura amada. Chinita fazia projetos mirabolan­tes. O coronel pitava um charuto caro. Manuel estava no vagão vizinho, onde já tinha arranjado uma namorada. O trem entrou no campo. Jacarecanga dentro de alguns minutos era apenas uma mancha claro-escura perdida entre o verde de duas coxilhas.

6

Agora, nesta varanda coruscante, cada objeto é para D. Maria Luísa a evidência duma despesa: uma alfinetada desagradável.



Zé Maria come com alegria, ruidoso, como nos ve­lhos tempos. Os mesmos olhinhos miúdos, a mesma cara tostada, de maçãs salientes, o mesmo cabelo preto e duro de bugre. Mas no fundo ele mudou. — D. Maria Luísa tem dolorosamente consciência disso — no fundo ele é outro. De resto, tudo está diferente, o filho, a filha, a vida...

— Não comes, Maria Luísa?

Zé Maria ergue os olhos, garfo suspenso (um pedaço de charque gordo espetado na ponta, embebido em caldo de feijão), um interesse súbito e muito forçado a mostrar-se-lhe na cara larga.

— Estou sem apetite...

No alto da escada aparece Chinita vestida de branco, vaporosa, cabelos úmidos e muito lambidos, franja colada à testa. Fica imóvel por alguns instantes: sua silhueta se recorta contra o violeta profundo da parede. Olha para baixo languidamente. (Greta Garbo.) A boca grande se parte num sorriso. (Joan Crawford.)

— Bom dia, papai, bom dia, mamãe.

É um cumprimento desusado. Mas Chinita ama ouvir o som da própria voz. Pronuncia as palavras destacando bem as sílabas.

Lá embaixo, papai e mamãe erguem os olhos. Chi­nita põe as mãos na cintura.

— Não vens comer, menina?

A voz de D. Maria Luísa, chorosa e arrastada, chega aos ouvidos de Chinita. Ela tem a impressão de que, pas­sando por uma esquina, ouviu um mendigo dizer, lamu­riente: Uma esmola pr’um pobre cego!

Chinita bem pode descer a escada com naturalidade e ir para a mesa. Mas ela quer gozar inteirinho o prazer de morar numa casa rica como esta, numa vivenda “de cinema”. Vai descendo devagar. (Na sua cabeça soa uma melodia lindíssima ao ritmo da qual ela se move...) Passa a mão pelo corrimão polido. O trilho de desenho confuso e multicor lhe abafa os passos. Chinita respira forte: o cheiro da comida se mistura ao das flores. A cabeça de papai se destaca contra o vitral iluminado — uma ceia de Cristo em tamanho natural. (Cinco contos e oitocentos.)

Chinita senta-se à mesa.

Zé Maria se anima.

— Então? E a festança, hein? — pergunta.

— Se Deus quiser, papai.

— Vou fazer correr champanha como água.

A cara do coronel reluz de gozo. D. Maria Luísa sus­pira.

— Que é que tu achas, mamãe, fazemos sanduíches, croquetes e... que mais?

D. Maria Luísa ergue os olhos de mártir:

— Não sei... — geme ela — eu não mando nada aqui, não sou ninguém nesta casa.

— Ora, mãe, não seja boba!

Chinita e o pai discutem pormenores. O coronel quer que haja muita comida. Manda-se matar um, dois ou três porcos e uma dúzia de galinhas. Nada de misérias. Todo o mundo deve voltar para casa com a pança cheia.

O coronel quer que tudo esteja muito claro.

— Vamos botar luz em todo o quintal...

Chinita se escandaliza:

— Quintal? Oh! papai, diga parque... é mais bonito e no fim de contas é verdade.

— Pois é... parque. Mandei botar muitos bicos grandes. Vai ficar claro que nem circo de cavalinhos.

E ao pronunciar esta última palavra, Zé Maria sente uma saudade vaga e suave de um espetáculo de burlantins. Lembra-se do último a que assistiu, uma companhia muito boa, com palhaços muito engraçados, um. malaba­rista japonês, a moça do arame (pernas grossas), aquele cheiro de jaula, o leão magro e, o fim, a pantomima. Uma nuvenzinha leve e breve de tristeza passa pelo rosto dele.

— O Leitão Leiria vem com a família...

— Claro! — diz Chinita.

— O Moreira com a mulher...

— Prometi ir buscar a Vera no meu carro...

A palavra carro vale por uma punhalada no coração de D. Maria Luísa. Carro: automóvel: a baratinha bege de Chinita: trinta contos de réis. Para que esse desperdí­cio? Têm um Auburn grande, chega bem para todos, já é até demais. E a gasolina? É o empregado para cuidar do carro? E os consertos?

A criada entra com a sobremesa.

Zé Maria palita os dentes, feliz. Chinita estuda no espelho uma pose cinematográfica. Disseram-lhe uma vez que ela era parecida com Ana May Wong. No outro dia ela começou a usar franja.

— Severina, guarde um prato pro seu Manuel.

— Sim senhora.

Chinita se levanta, vai ao hall e põe o rádio a fun­cionar. Fraca e remota a princípio, mas definindo-se aos poucos, a melodia de um fox invade a sala. Chinita come­ça a dançar.

Willy, de cima da escada, olha para ela com o rabo dos olhos. Da varanda vem a voz de D. Maria Luísa:

— Chinita, olha que faz mal a gente fazer exercício depois da comida.

— Ora, mamãe! Bobagens!

E agita-se ao ritmo do fox, os seios lhe tremem como gelatina, os braços como que riscam desordenadamente o ar, os pés ágeis se movem sobre o parquê. O coronel, da porta, lhe sorri, o guardanapo ainda amarrado ao pesco­ço. Chinita salta — oh boy! reboleia as nádegas, cada vez mais tomada pelo frenesi da dança. Faz de conta que o pintor e papai são uma platéia, faz de conta que ela é Ruby Keeler. Faz de conta...

Sentada ainda à mesa, Maria Luísa pensa num dia de Jacarecanga: Zé Maria jogando paciência e pitando um crioulo, ela fazendo croché, Manuel no bilhar, Chinita passeando na frente da casa com as filhas do coletor.

Zé Maria contempla a filha que dança, depois olha em torno e pensa, com a alma banhada de felicidade: “Eu só queria era ver a cara do Madruga!”

7

O mesmo sol que faz faiscar o grande vitral do refei­tório do Cel. Zé Maria Pedrosa entra pela janela do quarto de Fernanda, na Travessa das Acácias.



Fernanda descansa. Mais alguns minutos e chegará a hora de sair de novo para o trabalho.

Recostada na cama ela vê, do outro lado da travessa, o quarto do Prof. Clarimundo. Quando ele aparecer ali na janela, de palito na boca, a vizinhança toda pode ter a certeza de que faltam dez minutos para uma hora, tão pontual como o melhor, relógio do mundo. Chova ou bri­lhe o sol, domingo ou dia útil — sempre à mesma hora o professor vai ruminar à sua janela, lá no alto da casa da viúva Mendonça.

Num torpor bom, Fernanda deixa-se estar deitada, agora com os olhos voltados para o teto. Se ela pudesse ficar assim neste abandono, sempre e sempre, deixando a vida correr como um rio...

Duma casa da vizinhança chegam aos seus ouvidos rumores de vozes, tinidos de copos e batidas de talheres em pratos. Um automóvel passa na rua.

Fernanda pensa... A vida podia ter sido bem dife­rente para ela. Se o pai não tivesse morrido daquela ma­neira desastrosa... ou se, morrendo, deixasse a família amparada: um seguro, uma pensão... Se ela tivesse conseguido ser nomeada professora...

Fernanda lança um olhar para o diploma que está pendurado na parede, num quadro (idéia da mãe, porque ela não liga a essas coisas...) Sorri. De que lhe serve aquilo? Anos e anos de estudo e de sonhos. Sustos: nas vésperas dos exames, vigílias ansiosas, olhos cansados, palidez. Pedagogia, Álgebra, Psicologia, Física... quanta coisa mais! Para quê? Para acabar taquigrafando as car­tas idiotas de Leitão Leiria “Acusamos recebido o seu es­timado favor de 23 último...” E faturas, duplicatas, guias...

Fernanda pensa no escritório. Na frente de sua mesa, o lugar de Branquinha, a datilógrafa, — magricela, gran­des óculos escuros, pele amarelenta, cabelos crespos. Tem sempre em cima da mesa um vaso com flores e não cansa de repetir com a voz cantada: “Tenho loucura por flores!”

Por trás de Branquinha, uma paisagem opressiva emoldurada pela janela: telhados, telhados e mais telha­dos; paredes cinzentas, chaminés, roupas secando e lon­ge, como que esmagada entre duas paredes duras, uma nesguinha de céu.

Fernanda afugenta as imagens desagradáveis.

O sol bate-lhe no rosto numa carícia morna e pre­guiçosa. É bom ficar assim, sempre assim, poder esquecer que existe a necessidade de trabalhar, ganhar dinheiro para pagar o aluguel da casa, o armazém, o padeiro, a farmácia...

Cerra os olhos. Contra a luz, suas pálpebras são campo de púrpura, com móveis manchas verdes e arroxeadas.

Agora um silêncio modorrento a narcotiza.

— Não durma, menina.

Sobressalto. Fernanda abre os olhos. Enquadrado pe­la porta, o vulto da mãe, toda de preto, D. Eudóxia é um fantasma doméstico. No fundo de suas órbitas ossu­das, luzem os olhinhos miúdos. A boca tem uma crispação dolorosa.

— Não vou dormir, mamãe.

O fantasma faz um gesto desalentado.

— Quem é pobre precisa se cuidar. A gente se dis­trai, dorme, chega tarde no emprego, o patrão reclama... Quando a gente menos espera está no olho da rua.

D. Eudóxia fala com uma voz tão queixosa e sen­tida, que dá a impressão perfeita de que a desgraça já aconteceu.

Fernanda olha para a mãe com um sentimento de má vontade que não consegue dominar. D. Eudóxia pôs-se a andar pelo quarto, toda encolhida:

— Que frio!

— Não diga, mamãe. Está até quente...

O fantasma se encolhe a um canto.

— É... — Um é tremido e choroso. Os olhos se velam. — A gente está ficando caduca. Mas não há de ser nada. Quando eu morrer vocês vão descansar.

Fernanda acha melhor ficar calada.

D. Eudóxia continua imóvel, pensando, tentando des­cobrir algum sinal de desgraça. É com uma facilidade pasmosa que ela cria uma atmosfera de desastre em torno dos assuntos mais trivialmente cotidianos.

Na véspera do último exame de Fernanda, passou a noite a caminhar por toda a casa, arrastando as chinelas e murmurando para si mesma:

— Vai sair reprovada, vai sair reprovada. Desgraça só acontece pra gente pobre, só pra gente pobre. Vai sair reprovada, dinheiro posto fora, tempo perdido.

Na sala de jantar, debaixo da lâmpada de luz ala­ranjada, as mãos segurando a cabeça, os cotovelos fin­cados na mesa, Fernanda estudava os pontos para exame. Era uma noite tépida e serena. Crianças cantavam e faziam roda no meio da rua. Pares de namorados caminhavam sob as acácias. Brilhava uma luzinha na janela do Prof. Clarimundo.

D. Eudóxia continuava a caminhar e a murmurar, agourenta:

— Vai sair reprovada, vai sair reprovada.

Fernanda continuava a estudar, com os olhos dolo­ridos, morta de sono e fadiga. De vez em quando, com o rabo dos olhos, via passar pela porta o fantasma domés­tico.

Agora, neste princípio de tarde, D. Eudóxia está ali no canto, de braços cruzados, calada, remexendo na memória, procurando encontrar alguma recordação triste, buscando um cadáver de desgraça para ressuscitar.

A atmosfera de paz que reina na casa lhe é quase insuportável. A calma da hora, Fernanda empregada, com um ordenado garantido no fim do mês, Pedrinho também já encaminhado na vida, caixeiro de uma loja de ferra­gens, estudando à noite na A.C.M. — tudo assim tran­qüilo, em ordem, quase feliz...

Quando não encontra alimento fácil para seu pessi­mismo, D. Eudóxia sente-se como que roubada, e a sensação de estar sendo vítima duma grande injustiça de certo modo lhe oferece um motivo para se julgar infeliz. — O que não deixa de ser uma compensação.

Aproxima-se da janela e começa a falar a meia voz, um pouco para Fernanda e um pouco para si mesma...

Sua voz é lisa, sem cor nem brilho.

— Não sei... Para uns a vida é tão fácil... Olha a viúva Mendonça. Tem todas as peças alugadas, é sozi­nha, não tem filhos, não se incomoda...

Olhos semicerrados, Fernanda sorri. É preciso opor à mãe uma resistência severa, retrucar-lhe com palavras enérgicas de repreensão ou então resistir assim passiva­mente, sorrir em silêncio, com ar indiferente, desliga­do...

O cantochão continua:

— O seu Fiorello sapateiro também não tem com que se incomodar... Bate sola, vai beber vinho na venda, nos domingos joga bocha. Mas a gente...

Fernanda esquece a presença da mãe. O seu pensa­mento voa. Uma frase lhe ecoa na memória: “No fundo, Fernanda, bem no fundo, todos nós vivemos irremedia­velmente solitários. Não há compreensão possível... en­tre as criaturas...”



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