Caminhos Cruzados



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Estas palavras vêm acompanhadas duma imagem: um rosto fino, dois olhos grandes de criança febril, lábios delgados, testa larga constantemente cortada de rugas de concentração. Noel...

Fernanda sorri. A memória viaja mais longe. É um dia de abril. À porta, mamãe recomenda:

— Cuidado com os automóveis e os bondes. Vá di­reitinho, não dê conversa pra ninguém.

A menina Fernanda lá vai sob o sol, com a mochila de livros às costas. O mesmo caminho de todas as manhãs. A vitrina da “Confeitaria Alemã”, com doces coloridos, cucas e potes de geléia. No jardim da casa grande de torreão pontudo, o anjo gorducho de cimento segura o pescoço dum cisne, de cujo bico voltado para o céu esgui­cha água... Todos os dias quando vai para o colégio, a menina Fernanda fica um instantinho olhando o repuxo. Quase sempre o cachorrão preto da casa grande corre até o muro, do jardim, ladrando, mete o focinho por entre as grades e ali fica resfolgando, com a língua rosada para fora.

Fernanda segue. Passa pela casa de seu Honorato. Noel já está ao portão, junto da negra velha. (Por que será que a gente nunca vê a mãe dele?) Noel é pálido, louro e não gosta de brincar com os outros meninos. Fer­nanda toma-lhe a mão.

— Vamos?

Noel faz que sim sacudindo a cabeça. E vão...

Ela tem a impressão de levar pela mão um bebê que ainda está aprendendo a caminhar. No entanto Noel tem dez anos como ela. Mas é tão triste, tão fraco, tão sozinho, que ela se sente contente por poder guiá-lo assim, como se fosse uma irmãzinha mais velha.

— Fernanda!

Um quase grito de alarma. Ela sobe instantanea­mente à tona de seu devaneio. Turbou-se a superfície do lago calmo. A visão do passado sumiu-se.

— Fernanda, minha filha, depressa! Já deve ser tarde, o vizinho já saiu pro emprego.

— Que susto a senhora me deu, mamãe! Pensei que fosse alguma coisa muito séria.

Contra o quadrado luminoso da janela, recorta-se o busto de D. Eudóxia. Seus cabelos grisalhos estão debruados de ouro.

— Minha filha, quem é pobre não pode se descuidar.

Fernanda pensa em se abandonar de novo às recor­dações. Mas lá no alto da casa da viúva Mendonça, no ou­tro lado da rua, aparece o Prof. Clarimundo.

Uma imagem vem instantaneamente ao espírito de Fernanda: um relógio marcando meio-dia e cinqüenta.

Num salto, ela se põe de pé e vai acordar o irmão que dorme no quarto contíguo.

8

Da sua janela, ponto culminante da Travessa das Acácias, o Prof. Clarimundo viaja o olhar pela paisagem. No pátio de D. Veva um cachorro magro fuça na lata do lixo. Mais no fundo, um pomar com bergamoteiras e la­ranjeiras pontilhadas de frutos dum amarelo de gemada. Quintais e telhados, fachadas cinzentas com a boca aberta das janelas. Na frente da sapataria do Fiorello, dois ho­mens conversam em voz alta. A fileira das acácias se estende rua afora. As sombras são dum violeta profundo. O céu está levemente enfumaçado e a luz do sol é de um amarelo oleoso e fluido. Vem de outras ruas a trovoada dos bondes atenuada pela distância. Grasnar de buzinas. Num trecho do Guaíba que se avista longe, entre duas paredes caiadas, passa um veleiro.



Para Clarimundo tudo é novidade. Esta hora é uma espécie de parêntese que ele abre em sua vida in­terior, para contemplar o mundo chamado real. E ele verifica, com divertida surpresa, que continuam a existir os cães e as latas de lixo, apesar de Einstein. O sol brilha e os veleiros passam sobre as águas, não obstante Aristó­teles.

Fiorello e seus amigos não conhecem os segredos dá Matemática, mas apesar disso vivem com uma plenitude animal que deixa o professor um tanto perturbado. Seus olhos contemplam a paisagem com a alegria meio inibida duma criança que, vendo-se de repente solta num bazar de brinquedos maravilhosos, recusa-se no primeiro mo­mento a acreditar no testemunho de seus próprios olhos.

Clarimundo debruça-se à janela... Então tudo isto existia antes, enquanto ele passava as horas às voltas com números e teorias e cogitações, tudo isto tinha rea­lidade? (Este pensamento é de todas as tardes à mesma hora: mas a surpresa é sempre nova.) E depois, quando ele voltar para os livros, para as aulas, para dentro de si mesmo, a vida ali fora continuará assim, sem o menor hiato, sem o menor colapso?

No pátio da casa do Cap. Mota o pretinho, filho da cozinheira, arremessa com o seu bodoque uma pedrada contra o pombal de D. Veva. As pombas saem em pânico numa revoada cinzenta, e vão pousar, disciplinadas, no telhado da casa vizinha. Aparece numa janela o carão gordo de D. Veva:

— Negrinho desgraçado! Vou fazer queixa pra o teu patrão, infeliz.

A papada de D. Veva treme de indignação. No meio do pátio o moleque arreganha os dentes muito alvos e começa uma dança de boneco desengonçado, numa pro­vocação.

Um galo canta num quintal. Roupas brancas se balouçam ao vento, pendentes de cordas.

Clarimundo ali está como um deus onipresente que tudo vê e ouve. A impressão que lhe causam aquelas ce­nas domésticas o levam a pensar no seu livro.

A sua obra... Agora ele já não enxerga mais a paisagem. O mundo objetivo se esvaeceu misteriosamente. Os olhos do professor estão fitos na fachada amarela da casa fronteira, mas o que ele agora são as suas pró­prias teorias e idéias. Imagina o livro já impresso... Sorri, exterior e interiormente. O leitor (a palavra leitor corresponde, na mente de Clarimundo, à imagem dum homem debruçado sobre um livro aberto: e esse homem — extraordinário! — é sempre o sapateiro Fiorello) — o leitor vai se ver diante dum assunto inédito, diferente, original. Tomemos por exemplo uma estrela remotíssi­ma; digamos... Sírio. Coloquemos lá um ser dotado da faculdade do raciocínio e senhor de um telescópio possan­te com o auxílio do qual possa enxergar a Terra... Como seria a visão do mundo e da vida surpreendida do ângulo desse observador privilegiado? Igual à dos habi­tantes da Terra? Igual à da viúva Mendonça ou mesmo à de Paul Valéry? Clarimundo antegoza as coisas novas que há de dizer na sua obra. Porque naturalmente o seu Homem de Sírio há de fazer revelações assombrosas. Ele mesmo agora não sabe com clareza que revelações pos­sam ser... tem apenas uma vaga idéia... Adivinha-se assim como às vezes, em dias de tempestade a gente entrevê o sol a brilhar além das nuvens carregadas. Que orgia embriagadora para o espírito! Que grandes paisa­gens desconhecidas e raras! Clarimundo sorri, admirado da própria audácia... Mas um Ford antigo passa pela rua, estertorosamente, produzindo um ruído desconjun­tado de ferros velhos. Clarimundo acorda para o mundo real, com a impressão de que caiu de Sírio... Vertigem.

Lá vai a máquina odiosa aos solavancos, e gemendo, rolando por cima do calçamento irregular, dobra a es­quina, com um guincho de buzina e se some. Clarimundo aceita Einstein, conhece Mecânica, louva o Progresso em teoria, mas aborrece-o na prática e tem um grande horror às máquinas. E as máquinas lhe são tanto mais horroro­sas, quanto maiores forem os perigos que elas oferecem à vida do Prof. Clarimundo Roxo e dos outros humanos. Admira a Aeronáutica em teoria, mas jamais entra num avião. Detesta o bonde mas utiliza-se dele com uma cau­telosa relutância. E apesar de já estar quase convencido das vantagens do rádio, ainda não se decidiu a comprar um receptor.

Agora que despertou e as paisagens espirituais se fanaram, Clarimundo não tem outro remédio no mo­mento senão tomar conhecimento das coisas que estão sob os seus olhos. E como a realidade lhe é incômoda, ele se vinga da realidade, depreciando-a. A vida é chata e igual. Não tem as harmonias, o encanto e as surpresas da Matemática. Aquela casa ali da frente, por exemplo, é uma prova inapagável da chatice da vida. A fachada? Invariavelmente amarela, invariavelmente nua, irreme­diavelmente feia. As criaturas que habitam a casa? Sem­pre as mesmas. A moça bonita, a velha de preto, o me­nino estabanado. (Clarimundo não vai além destes característicos gerais, jamais desce a detalhes.) A vida ali é sempre igual. Todos os dias exatamente a esta hora, a moça que está recostada na cama se levanta, vai para a frente do espelho, ajeita o chapéu na cabeça, beija a mãe e sai. O rapaz sai também, mas sem beijar a mãe. Depois a velha fica caminhando dum lado para outro, e por fim senta-se na cadeira de balanço e, ali fica parada, de braços cruzados... Assim todos os dias, todos os dias, todos os dias...

Na outra casa mais adiante um homem bota um disco no gramofone — quase sempre a mesma música — fica sentado a ler um jornal, os filhos andam à roda dele, a mulher tira os pratos da mesa, o padeiro vem trazer o pão, o disco gira e a música continua. Depois o homem se levanta, os filhos algazarreiam, a música cessa. A mulher beija o marido e o marido sai acendendo um cigarro.

Já lhe disseram o nome daquela gente toda. Clari­mundo não se lembra muito bem. Ele é Pereira, ou Moreira... ou Batista, uma coisa assim. Funcionários dos Correios.

Chega até os ouvidos do professor um som metálico, cheio, prolongado, plangente. É o relógio da casa que fica por baixo de seu quarto. Bateu uma hora.

Clarimundo inclina a cabeça. Da janela que fica ime­diatamente por baixo da sua, emerge uma mão pálida que pende abandonada e sem sangue, como a mão dum morto.

9

É a mão direita de João Benévolo. A esquerda segura uma brochura amarelada. João Benévolo lê e esquece.



“O curto intervalo foi suficiente para que D’Artagnan visse que partido devia tomar. Foi um desses acontecimentos que decidem a vida de um homem; era a escolha entre o Rei e o Cardeal, feita essa escolha, devia-se persistir nela. Lutar era desobedecer à lei, era arriscar a cabeça, era fazer-se, de um golpe só, inimigo de um ministro mais poderoso que o próprio rei. Tudo isto o mancebo compreendeu e ainda assim, digamos em seu louvor, não hesitou um segundo. Voltando-se para Athos e seus compa­nheiros :

Cavalheiros disse ele queiram permitir que eu vos corrija as palavras. Vós dissestes que não passáveis de três, mas me parece que somos quatro.”

Opera-se a transposição mágica. João Benévolo salta da vida real e se projeta no domínio da ficção. Já não está mais em Porto Alegre, num sábado de maio, na Travessa das Acácias. Agora ele se encontra em plena Paris de 1626. O seu corpo fica aqui na salinha acanhada e pobre — pequenino, anguloso, fraco, ombros encolhidos, pele amarela — e o seu eu sonhador, o seu ideal, livre das contingências humanas, vai se encarnar em D’Artagnan.

João Benévolo se sente ágil, flexível e rijo como um florete. Desapareceu dele aquela sensação deprimente de ser fraco, de tudo temer e nada ousar.

Agora ele está vivendo uma grande aventura. A seu lado se ergue o monastério dos Carmes Deschaux, rodeado de extensões nuas de terras. Por cima — o céu brumoso de Paris, céu de romance, céu de mistério. É aqui que os homens de honra se encontram para ajustar diferenças ou duelos. É aqui que as espadas se chocam, tinem e rebrilham à luz do sol ou da lua...

— Mas vós sois um dos nossos — diz Porthos.

— É verdade — replica D’Artagnan — não tenho uniforme, mas tenho o espírito. Meu coração é o de um mosqueteiro; eu o sinto, monsieur, e é isto que me impele.

Jussac, o homem do Cardeal, recomenda a D’Artagnan — ou, antes, a João Benévolo — que procure salvar a pele. João Benévolo repele a insinuação insultuosa.

— Decididamente sois um bravo — disse Athos, aper­tando a mão do mancebo.

Depois os nove combatentes se precipitam uns con­tra os outros numa fúria metódica. Athos atraca-se com Cahucac, um favorito do Cardeal. Porthos enfrenta Bicaret e Aramis se vê à frente de dois adversários. João Benévolo terça armas com o próprio Jussac.

No pátio do capitão o moleque insidioso atirou outra pedra contra o pombal de D. Veva e as pombas voam de novo assustadas; D. Veva aparece para protestar, mas apesar de ouvir-lhe remotamente a voz estrídula, João Benévolo não volta à realidade, continua em Paris, metido na pele heróica de D’Artagnan, lutando pelos mosqueteiros do Rei contra os guardas do Cardeal.

O seu coração bate, não de medo — oh não! — bate de contentamento. Chega a sentir o ímpeto dos golpes que apara, vê, a três passos em sua frente, a face congestiona­da de Jussac... Dumas não se deu ao trabalho de descrever o beleguim do Cardeal, mas João Benévolo ima­gina-o com a cara antipática do homem do armazém que vem todos os dias cobrar a conta atrasada. Por isto a fúria de D’Artagnan redobra, seus golpes agora são mais ousados e violentos... João Benévolo sente o bafejo da glória. Tudo isto é uma aventura extraordinária. Apara este, Jussac! Cortei-te a cara, bodegueiro do diabo!

Pan! Pan! João Benévolo sente um golpe no ombro. E a visão se esfarela no ar.

— Janjoca!

Ele ergue os olhos e dá com a face reluzente da mulher. Brilha-lhe nos olhos cinzentos uma censura recal­cada.

— Hein?


A voz de Tina é lamurienta e desagradavelmente musical:

— O relógio já bateu uma. Tu não vais falar com o Dr. Pina por causa do emprego?

Emprego... Esta palavra traz a João Benévolo a recordação da sua tragediazinha. Desempregado. Seis meses de inatividade. As economias acabadas. A mulher costura para fora mas o pouco que ganha não dá nem para o aluguel. Os credores batem à porta. O leiteiro é bruto e diz desaforos. O homem do armazém se dá o luxo de cultivar a ironia e murmura coisinhas... Tina põe nele os seus olhos de convalescente e seu silêncio é agora a mais dolorosa e violenta das censuras.

— Já vou sair... — diz ele sem vontade. — Só mais cinco minutinhos...

É uma criança a pedir à mãe: “Me deixa brincar mais um pouco, só um pouquinho, sim?”

Onde estás, D’Artagnan, onde estás heróico mance­bo? Agora João Benévolo perdeu o seu mundo encantado, sabe que não passa dum pobre-diabo sem dinheiro e sem emprego, pai dum guri magro e chorão, achacado e tris­tonho.

As letras do livro se baralham diante de seus olhos. Nada mais do que elas dizem tem sentido. As palavras perderam a força mágica, já não sugerem mais nada. Paris é um vocábulo de cinco letras: pode ser uma marca de cigarro, o nome dum tango ou mesmo duma cidade muito grande, muito bonita e muito remota. Mas não evoca mais aquela Paris de verdade onde havia condes e barões, castelos e tavernas, masmorras e salões, duelos e correrias, mistério e romance.

João Benévolo fecha o livro devagarinho e levanta-se.

A máquina de costura de Laurentina começa a guinchar. E ela pedala, encurvada sobre a costura.

João Benévolo arrisca uma gentileza:

— Tina. faz mal trabalhar depois da bóia...

Estas palavras se apagam no ar mas ficam ecoando na mente de João Benévolo, estranhas, inadequadas, des­propositadas, como se alguém de repente no meio de um velório convidasse: “Minha gente, vamos dançar?” E ele compreende com tristeza que no seu ambiente familiar, tão modificado pelos últimos meses de provações, não há lugar nem mesmo para uma gentileza.

João Benévolo vai para o quarto de dormir. Pela fresta da janela semicerrada entra uma fita de sol que risca a coberta da cama e vai morrer do outro lado, no soalho gasto e cheio de negras manchas de queimaduras. Na penumbra os objetos familiares ganham um certo mistério. A imaginação de João Benévolo põe-se a traba­lhar. E ele pensa na terceira pessoa:

E o bravo mancebo penetrou na masmorra. Duma pequena janela gradeada que se abria no alto da parede de pedra, vinha um fio fino de luz que incidia sobre o chão em que se vislumbrava um vulto...”

— Janjoca!

— Que é, Tina? — responde a voz macia do homem abalado pelo soco da realidade, do homem que não é nem João Benévolo nem o mancebo heróico do romance, mas sim uma mistura muito estranha das duas personagens.

— Não faças barulho, o Napoleão está dormindo.

Ao som da palavra Napoleão trava-se uma luta rapi­díssima na mente de João Benévolo. Quem vencerá? A imaginação ou a realidade? Napoleão pode sugerir o que justamente Laurentina quis dizer: o filho que dorme no quarto. Mas pode também lembrar o Outro, o da História que levava seus exércitos à vitória, o Napoleão que João Benévolo ama também como ao filho... A luta dura uma fração de segundo. Vence a realidade. Os olhos de João Benévolo caem sobre o vulto que se agita na cama.

João Benévolo vai até o lavatório, despeja com cui­dado água na bacia e lava as mãos. Volta para a sala de jantar na ponta dos pés, sem conseguir dar à voz um tom de interesse, pergunta:

— Que é que o Poleãozinho tem?

— Está indisposto. Vomitou. Tens que passar na farmácia. A comadre me disse o nome dum remédio...

Um momento de medroso silêncio...

— E o dinheiro?

Os braços de Laurentina caem ao longo do corpo, num abandono. Cessa o ruído da máquina. Dinheiro... Pronunciado foi o nome tabu. Marido e mulher se entreolham em silêncio. A palavra encantada abriu um abismo intransponível entre ambos. É a palavra que nestes últimos meses vem corroendo, destruindo o restinho de afeição que ainda existe entre eles. Dinheiro... O fim do mês se aproxima, restam alguns mil-réis. João Benévolo tem promessas de emprego, mas apenas promessas... A dona da casa já olha para eles com raiva, uma raiva que ela tenta dissimular com sorrisos mas que se percebe no jeito de falar, de olhar, de agir.

Silenciosa, Laurentina se ergue e vai até a cômoda, abre a gaveta, tira uma moeda de dois mil-réis e entrega-a ao marido como se lhe estivesse a dar um ano de vida. João Benévolo mete a moeda no bolso.

Os olhos de Laurentina ganham um súbito brilho, seu rosto se inflama e ela grita:

— Mas Janjoca, tu não te mexes! Tu não fazes força! Vai pra rua! Fala! Pede! Que é que vai ser de nós assim sem dinheiro?

João Benévolo sente um desfalecimento. Encolhe-se todo como um aluno tímido diante da professora irritada.

E para dominar esta emoção esquisita que experi­menta — medo, vergonha, mal-estar e uma pontinha de raiva — começa a assobiar baixinho um trecho do Carna­val de Veneza.

Laurentina aos poucos se acalma. Volta para a má­quina de coser e começa a enfiar a linha na agulha. En­quanto faz isto, vai falando, mais mansa:

— Se tu quisesses, se tu fizesses empenho, arranjavas qualquer coisa, nem que fosse um emprego de cin­qüenta mil-réis por mês...

O tom de voz é tranqüilo mas persistem nele vestígios de censura.

João Benévolo continua a assobiar — agora men­talmente — o Carnaval de Veneza.

Da rua vem um ruído macio e ao mesmo tempo pesado. Soa uma buzina de automóvel. De automóvel fino...

Altera-se a expressão fisionômica de Laurentina, João Benévolo pára de assobiar e ambos se aproximam da janela.

Duas portas além da casa de Fernanda está parado junto da calçada um enorme Chrysler Imperial grená. Muito polido e rebrilhante de metais e espelhos, ali contra a fachada cinzenta da casa, escurecida de umidade, e com falhas no reboco, — o automóvel parece um objeto caído do céu. João Benévolo não pode deixar de pensar:

E a carruagem de ouro e prata da Condessa de Montmorency parou na rua suburbana diante da humilde mansão em que habitava o pintor pobre.”

Ah! Os romances de Gaboriau, Escrich, Ponson du Terrail! Uma saudade muito tênue turba por um instante a mente e os olhos de João Benévolo. A voz de Laurentina:

— É o auto da D. Dodó.

— Da mulher do Leitão Leiria? Mas que será que anda fazendo por estas bandas?

O chofer de uniforme azul com botões dourados desce de seu lugar, tira o chapéu e abre a porta. Um vulto salta para a calçada. É uma senhora gorda, vestida de seda azul com enfeites de renda bege; na cabeça, um chapéu que lembra uma grande rosca preta e lustrosa. Os seios bastos se projetam para a frente, como uma marquise a sobressair duma rotunda.

— É ela mesma! — confirma Laurentina.

— Imaginem... — diz João Benévolo. E, mal pro­nuncia a palavra, fica a perguntar a si mesmo a troco de que a pronunciou, pois ela não tem sentido, não quer dizer nada.

— Essa vaca gorda! — resmunga Laurentina.

— Quem, Tina?

— Essa D. Dodó...

Neste momento D. Dodó é para Laurentina, antes de mais nada, a esposa do comerciante Teotônio Leitão Lei­ria, proprietário do Bazar Continental, onde João Bené­volo trabalhava... E antes que a florida massa de carne desapareça por completo, tragada pela porta que se abre na fachada triste, João Benévolo lembra-se daquela tarde de pesadelo quando Leitão Leiria, com a sua voz de vaselina, mole e escorregadia, branca e insinuante, lhe disse, com o ar de quem dá boa notícia:

— Somos forçados a despedi-lo, Sr. João Benévolo, porque estamos fazendo economias. Os tempos andam difíceis, o senhor compreende, vende-se menos, os impos­tos são altos, de sorte que muito a contragosto nos vemos obrigados a medidas drásticas como esta. Acredite que isto me aborrece muito, me pesa no coração, mas...

Leitão Leiria pronunciou a palavra drásticas com visível satisfação. Ao declarar que aquilo lhe pesava no coração, botou a mão espalmada no peito.

— Essa vaca! Aquele porco! — continua Laurentina a resmungar. — Não têm dinheiro pra pagar um empre­gado mas têm pra comprar um bruto automóvel daquele tamanho...

João Benévolo mira o carro com olho triste. O que sente não é raiva. O Sebastião, que também está desem­pregado, tenta impingir-lhe idéias comunistas. Diz que o dinheiro está mal distribuído no mundo: uns têm demais, outros têm de menos; uns tomam banho em champanha, outros morrem de fome. Mas o sentimento que os ricos despertam em João Benévolo é de admiração e de inveja. Uma inveja passiva de quem sabe que nunca, por mais que faça e pense e grite, poderá atingir aquelas culminâncias de felicidade e conforto. João Benévolo admira os ricos como a criaturas dum mundo remoto completamente fora de seu alcance e aceita-os quase como os povos anti­gos aceitavam seus reis — por direito divino. Diante do Chrysler Imperial do homem que o deixou sem emprego, ele apenas consegue ficar nesta atitude calada e triste da criança pobre que achata o nariz contra o vidro da vitrina onde se expõem brinquedos caros. E só atina com dizer isto:

— Por que será que a D. Dodó entrou na casa do Maximiliano?

— Ora... fingimentos. O Maximiliano está tísico, a mulher em situação pior que a nossa, os filhos andam atirados... D. Dodó quer se exibir pros jornais darem o retrato dela amanhã. Entra aí, dá dez mil-réis, fala em Deus, e vai embora. De que serve? Eu conheço bem essas caridades!

Lá do outro lado da rua os filhos de Maximiliano cercam o carro. São crianças magras, encardidas e lívidas. Aproximam-se do Chrysler cheios dum deslumbramento tímido: a carroçaria brilhante reflete aqueles rostinhos maltratados e sujos. O chofer mete a cabeça para fora e grita:

— Cuidado, não botem a mão no carro.

Os guris recuam e ficam olhando de longe, meio bisonhos.

— Vaca gorda! — murmura Laurentina.

Para esquecer tudo — a sua vida, o automóvel de luxo, o vizinho tuberculoso e a mulher — João Benévolo começa a assobiar.



Carnaval de Veneza.

10

D. Dodó Leitão Leiria entra na casa do doente.



O soalho range a seus pés. O corredor tem um bafio de porão. Uma mulher mal vestida, de rosto esverdinhado e olhos sem cor lhe abre a porta.

D. Dodó sorri com doçura.

— Boa tarde. Dá licença?

Faz a pergunta com uma voz fininha e musical, doce e levemente trêmula. As bichas de brilhantes lhe faíscam nas orelhas, seus seios arfam e o broche de safira que os enfeita sobe e desce, ao compasso da respiração.

— Pois não...

A mulher examina, numa constrangida surpresa, esta criatura faiscante que exala perfumes finos, e seus olhos parecem perguntar: “Então é verdade que existe gente assim?”

A presença de D. Dodó responde com ênfase: “Existe: convença-se.”

Mme Leitão Leiria entra.

— Não repare, é casa de pobre... — desculpa-se a mulher lívida.

D. Dodó comove-se. A marquise arfa em ritmo mais acelerado. As bolsas de pele flácida, debaixo dos olhos miúdos, estremecem. E para tranqüilizar a outra mulher, para garantir-lhe que ser pobre não é vergonha, ela lhe diz com evangélica suavidade:



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