Caminhos Cruzados



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A melodia vai morrendo. Bem como madrinha An­gélica no fim do serão, falando atrapalhado porque está começando a cochilar. A última nota se dissolve no ar e fica agora só o coro longínquo dos sapos, insistente, igual, imperturbável. Parece madrinha Angélica a roncar, com a cabeça caída para o peito, enquanto Noel, de olhos arre­galados, está ainda sob a influência do sortilégio da história.

Dindinha Angélica morreu, sua voz desapareceu do mundo, ninguém a gravou em disco. (Só no fundo, bem no fundo da memória de Noel, ela se repete num sonido muito vago, muito incolor, muito frágil que o tempo um dia apagará.) Mas a melodia de Debussy está presa na chapa negra... Basta erguer o diafragma e recomeçar.

Noel caminha para a vitrola.

E Debussy reconta em sua língua as histórias da dindinha preta.

12

Teotônio Leitão Leiria dá um chupão mais forte no charuto e solta para o ar uma fumarada espessa. Como é bom o aroma de charuto, tão sugestivo de conforto e prosperidade. . .



Os ruídos lá da loja (hoje é sábado, dia de grande movimento) chegam abafados até o escritório. O terno de couro (da Rússia, legítimo), um sofá e duas poltronas acham-se a um canto do compartimento e são bojudos e tesos como o seu florido dono, que agora fuma e medita, com uma idéia fixa na cabeça. Tapete fofo no chão. Às vezes Teotônio Leitão Leiria caminha dum lado para outro só para sentir que seus pés afundam, como se ele caminhasse num campo de neve. (Até já pensou na com­paração mais de uma vez. A princípio rejeitou-a como absurda. Era preciso que a neve fosse verde como o ta­pete. Mas enfim, com um pouco de audácia, a imagem não ficava mal.)

As paredes do escritório estão cobertas de telas, paisagens firmadas por pintores nacionais renomados. É uma volúpia ver o cartão da gente cravado no canto duma tela cara, numa exposição de pintura.

A espiral de fumaça sobe e se espraia no teto.

Teotônio Leitão Leiria está inquieto. Consulta o re­lógio a cada passo, tão nervoso que é com dificuldade que acerta o bolso do colete quando procura meter nele o ômega de ouro.

Na outra sala as datilógrafas trabalham, as máqui­nas de escrever tamborilam num ra-ta-ta sincopado de metralhadora.

Teotônio pensa (é estranho, absurdo, um homem de negócios, um businessman pensar estas coisas) na última novela que leu. Edgar Wallace. Os gangsters de Chicago, tiroteios de metralhadoras, crimes monstruosos, o dia­bo...

Por sinal a leitura lhe valeu uma repreensão da Dodó:

— Teotônio, com efeito! Lendo essas coisas meu filho...

Ele ficara vermelho.

— Ora, Dodó isto distrai tanto...

Com que ar maternal ela segurara com uma das mãos o livro e com a outra o queixo do seu Teotônio!

Mas meu bem, tu compreendes... Se alguém te visse com esse livro, que é que ia dizer?

— Eu até nem sei por que peguei essa droga...

E então, com a mão no peito, muito compenetrada, ela abrira a porta da biblioteca e apontara para as pra­teleiras grandes, cheias de livros encadernados em couro, com títulos dourados nos lombos: Divina Comédia, Poe­mas de S. Francisco de Assis; e obras sobre sociologia, publicidade, eficiência comercial, romances recomendados pela Igreja... Dodó ficou apontando para as prateleiras como S. Miguel Arcanjo com a sua espada de fogo. Ele ficara encalistrado, muito encalistrado mesmo. E então, para provar que estava sinceramente arrependido, jogara para o cesto de papéis velhos a brochura de capa amare­la. (Mas no fim de contas, o mocinho morria peneirado pela metralhadora ou acabava ficando com a chinesa?) Dodó caminhara para ele e beijara-lhe a testa, num agra­decimento eloqüentemente mudo.

Caminhando agora dum lado para outro, Teotônio Leitão Leiria simplesmente não compreende como é que um homem, só por causa do barulho das máquinas de escrever, fica a recordar coisas passadas, tolas, sem a menor importância...

Vai até a janela e olha para baixo. A rua fervilha no vaivém dos transeuntes: um mar encapelado de cabe­ças multicores. Uma onda quente de sons sobe para as nuvens. O sol já se escondeu por trás dos edifícios mais altos. Seis horas. Teotônio tira do bolso interno do paletó (que coincidência, bem de cima do coração) a carteira, e de dentro da carteira um papelucho amarfanhado com um endereço escrito a lápis. Como um colegial que lê às escondidas o primeiro bilhete da namorada, olha, nervoso, para o papelucho procurando gravar o endereço na me­mória. Travessa das Acácias, 143. Repete baixinho o no­me da rua e o número da casa. Depois rasga o papel em pedaços miúdos e joga-os no cesto.

Uma dúvida terrível o assalta. Será uma casa dis­creta? A Travessa ele conhece, sabe onde fica, já passou até por lá. .. Mas se aparecerem caras conhecidas às janelas?

Teotônio imagina desculpas.

— Boa tarde, Sr. Leitão Leiria, então, aqui pela nossa zona?

Ele fará o seu sorriso mais indiferente e com um gesto vago responderá:

— Flanando um pouco. Estou pensando em comprar uma casa aqui na sua rua...

Teotônio senta-se à mesa, pega da caneta e começa a rabiscar nervosamente no papel. Escreve nomes à toa — precípuo, flósculo (palavra bonita que ele não conhe­cia e aprendeu ontem, folheando por acaso o Cândido de Figueiredo) — e ao mesmo tempo fica a refletir.

Bom. A Dodó aparece, vem no Chrysler, diz duas palavras, segue para casa e manda o carro de volta. Ah! Mas ele não vai entrar na Travessa com o Imperial. O carro pode chamar a atenção. Seria o mesmo que ser levado num andor, com trombetas e fanfarras, como o Radamés no segundo ato da Aida. Não. Numa esquina, ele disfarça. — Jacinto, vá dar umas voltas, quero fazer um pouco de exercício. Me espere daqui a três quartos de hora ali na pracinha... — E entra na Travessa a pé. 143. Será no primeiro andar?

Teotônio se ergue, desinquieto. Pensa em Dodó e na sua cara de anjo bom e sente-se miserável, pecador, indig­no. (Não muito, muito...) Mas que é que vai fazer? A culpa não é sua. Enfim, Dodó está com cinqüenta anos, não é nenhuma menina... Um homem, mesmo aos cin­qüenta e dois, está no cerne, é diferente. Deus, na sua infinita sabedoria...

A porta se abre. D. Branca aparece, num relampejar de óculos. Sobressalto.

— D. Branca, já lhe disse, nunca entre sem bater.

Branquinha baixa os olhos, desconcertada.

— Desculpe. A sua senhora está lá embaixo na loja.

Teotônio faz um gesto de perdão.

— Está bem. Obrigado. Já vou.

Os óculos tornam a fuzilar e Branca, com o seu tris­te vestido marrom, desaparece por trás da porta que se fecha.

Deus há de compreender — reflete Leitão Leiria. — Ele que fez o homem, que o conhece como um bom mecânico conhece o mais íntimo parafuso da máquina que construiu (Teotônio sorri interiormente diante da comparação bonita, nascida espontaneamente) — Deus há de saber que a carne é fraca. Enfim, um homem de negócios, um businessman, como dizem os americanos, precisa de distrações, de derivativos. Não é só trabalhar como um burro, que isso não dá certo. E, ademais, quan­do ele entra no prédio n.° 143 (será o primeiro ou o segundo andar?) há de deixar a alma na porta. Quem vai prevaricar é a carcaça mortal. A alma de Teotônio Leitão Leiria pertence à sua Dodó e a Deus. Para a vida e para a morte.

Pensando em Santa Maria Egipcíaca, Teotônio mira-se no espelho do porta-chapéus, conserta o plastron e sai.

As máquinas ainda metralham. Leitão Leiria olha de viés para as pernas de Fernanda e um pensamento mau (quem é que pode governar os pensamentos?) lhe cruza a mente: Se essa menina quisesse, eu arranjava um apartamento discreto, uma baratinha Chevrolet... Mas o Anjo da Guarda particular de Teotônio comparece com a esponja da purificação e apaga-lhe da mente a idéia suja.

Na galeria, Teotônio detém-se e baixa o olhar para o salão grande da loja. Longas, longas prateleiras de vidro, mostradores faiscantes com frascos coloridos — Guerlain, Coty, Myrurgia, Lubin, Caron — sedas, roupas feitas, gravatas, colarinhos. O pavimento é de ladrilho colorido. Burburinho, mulheres de vestidos de muitas cores, confu­são de vozes. Os caixeiros passam apressados dum lado para outro. Um pretinho vestido de groom (idéia de D. Dodó) passa sobraçando caixas brancas e compridas. A registradora da caixa tilinta, a gaveta salta. Chegam até os ouvidos de Teotônio farrapos de diálogos:

— ...não temos mais... — ...muito caro...

— ...bondade de examinar...

— ...vinte mil-réis...

— ... seda para...

— ... estrangeiro legítimo...

— ...que lindo!

Teotônio esfrega as mãos, chupa forte o charuto. Onde estará a Dodó? Seus olhos procuram no meio do formigamento. Lá embaixo uma mão enluvada se ergue para ele. Ah! Dodó! Teotônio desce, rapidamente, as es­cadas.

— Minha querida.

Beija-lhe a testa.

— O meu filho está muito cansadinho?...

Teotônio suspira. Um inferno! Faturas, agentes de publicidade cacete, comissões, consultas, conselhos, pedi­dos. E o seu jeito é de quem quer dar a entender: “Quem tem importância na vida está sujeito a todos estes incô­modos.”

— Pobrezinho...

As bolsinhas de carne sob os olhos de D. Dodó tre­mem, de pura pena.

— E se nós fôssemos para casa agora?

Teotônio recusa veementemente, diz que não com a cabeça, com os olhos, com as mãos. E de súbito percebe que foi enfático demais na recusa:

— Não é por nada, Dodó. Acontece apenas que eu não gosto de quebrar o horário. Tu sabes como eu sou nestes assuntos. O meu método é americano, ali no rigor.

— Está bem — concorda ela, orgulhosa do marido. Aqui está um homem. Não é como muitos. Este tem fibra e há de vencer, se Deus e Santa Teresinha quiserem. — Depois então eu te mando o automóvel.

— Sim, meu bem.

— Não te esqueças da nossa festa hoje no Metrópole.

— Que festa?

D. Dodó fica desolada. Será possível que ele não se lembre?

— A festa das Damas Piedosas, filho.

— Ah! É verdade. Que cabeça, a minha!

— Então às sete sem falta em casa, hein?

— Inadiavelmente.

Beijam-se. Dodó se some no meio dos fregueses. A registradora tilinta. Teotônio olha: 250$000. Um pequeno choque. Quem teria feito uma compra tão grande? Seus olhos dão com uma figura conhecida: O Cel. Zé Maria Pedrosa. Teotônio aproxima-se dele:

— Oooooh! Bons olhos o vejam, coronel!

O coronel sorri, estendendo a mão; as maçãs do rosto tostado saltam, os olhinhos mongólicos se entrecerram.

— Como le vai?

— Então, fazendo compras?

— É verdade.

— Como está a família?

— Tudo bem, graças a Deus.

— Naturalmente vão à festa hoje...

O sorriso de Teotônio é de quem não admite uma negativa. Não, por força que o coronel tem de ir à festa. Como é que uma família tão representativa pode faltar a uma festa de caridade? Teotônio pensa em Dodó que confia no resultado financeiro de seu chá de caridade.

Zé Maria coça o queixo, faz uma careta:

— Pois é... A velha não vai, não gosta de festa. Mas a menina está acesa. Não fala noutra coisa...

A mocidade, coronel! O nosso tempo é que já passou.

— É verdade... Semos carta fora do baralho...

O “semos” não agrada muito a Teotônio, que espera­va elogio, ou pelo menos a exclusão da sua pessoa do nú­mero dos velhos. Mas, cortês, acrescenta:

— O senhor ainda está conservadão. Quantos?

— Cinqüenta e cinco na cacunda... Raça de cabo­clo.

Um silêncio. Zé Maria passeia o olhar em torno. Teotônio procura assunto mas só atina com murmurar:

— Sim senhor.

E o coronel:

— Senhor sim.

E, depois de uma pausa, olhando o relógio (só por hábito, porque nem fica sabendo que horas são) diz:

— Bueno, vou andando...

— Muito bem. Havemos de nos encontrar hoje à noite...

— Não tem dúvida.

Apertam-se as mãos. O coronel sai no seu andar pe­sado e tardo de paquiderme.

Seguindo-o com os olhos, Teotônio tem a certeza, como nunca, da sua imensa superioridade, da sua condi­ção privilegiada de homem de espírito e talento.

Encolhido e apreensivo, Teotônio Leitão Leiria entra na Travessa das Acácias. Sua mente é uma tela de cine­ma em que três imagens — a de Dodó, a de Monsenhor Gross e a da menina de olhos verdes — se sucedem em close-ups assustadores. Tumulto de sentimentos. Impres­são de culpa e pecado, perspectiva de gozo, alvoroço, te­mor, remorso antecipado... Teotônio caminha, rente à parede. Felizmente os combustores ainda não se acende­ram. Dentro do crepúsculo cinzento que caiu sobre a rua suburbana, as árvores oferecem ainda uma sombra mais funda e protetora. Teotônio olha os números das casas, sem parar. As faces lhe ardem. Tem vontade de levantar a gola do casaco, como um criminoso que não quer ser re­conhecido. Mas não: isso seria chamar mais a atenção das pessoas... Há gente às janelas. Teotônio prossegue teso, sem olhar para os lados.

Dodó, Dodó, Dodó, como eu me sinto sujo, Dodó, como sou porco! Monsenhor Gross, haverá perdão para o meu pecado?

Mas no cineminha do cérebro a figura da pequena de olhos verdes apaga as outras duas imagens. Teotônio imagina o quarto. Deve ser como todos: uma cama de casal, janela dando para o pátio, lavatório de ferro com sabonete barato. A um canto a menina se despe em silêncio, ergue o vestido, a saia sobe, as coxas aparecem, brancas, macias... Mas a imagem de Dodó vai se defi­nindo sobre a tela como um espectro, ficando mais forte, mais nítida, e lá está ela agora tirando o vestido, mos­trando as coxas gordas e flácidas, as coxas enormes que tremem como gelatina, levemente cinzentas... um cin­zento de decomposição e velhice.

Dodó! Dodó! Tu não me compreendes, um businessman precisa de derivativos. Tu me perdoarás, Cristo perdoou e Madalena era mais pecadora que eu porque, enfim, ela era mulher. 75. Santo Deus, quando é que che­ga o 143? Terei errado a rua? Dodó! Esta é a última, te juro, meu anjo!

Na frente dum muro longo — provem os biscoi­tos aimoré — brinca um grupo de crianças, gritando e cantando. Teotônio passa pelo meio do bando, ergue a mão para acariciar a cabeça dum dos pequenos. Mas não, Teotônio, não! A tua alma ficou ali na esquina, na entra­da da rua. Quem caminha aqui é a matéria, a carne vil que tem necessidades sujas, Não macules a cabecinha inocente! Pensa estas coisas, mas sem nenhuma convic­ção. Seu espírito continua dolorosamente dividido.

Teotônio procura torturar-se chamando-se de nomes feios. Adúltero, horizontal (recordações das leituras de Rui Barbosa), prevaricador, iníquo, alma inquinada (Eu­clides da Cunha), ofelhinha tresmalhata (Monsenhor Gross)... E julga-se menos culpado e menos miserável por se julgar assim miserável e culpado.

Um automóvel passa. As duas portas dum armazém de molhados projetam na calçada longas faixas de luz. Lá dentro, atrás dum balcão, um sujeito de cara verme­lha e lustrosa faz embrulhos. Sentado sobre um barril, um preto mal vestido empina um copo de cachaça. Uma menina magra de pés descalços sai do armazém, carre­gada de pacotes.

Leitão Leiria pensa num artigo: Menores Desampara­dos. Monsenhor Gross vai gostar. A incursão à Travessa das Acácias não ficará perdida. Deus escreve direito por linhas tortas. Ele vai chamar a atenção do juiz de me­nores para fatos abusivos quais sejam (Teotônio compõe mentalmente o artigo) o de pobres rapariguitas raquíticas e cloróticas que, sem instrução e sem higiene, são empre­gadas por pais inconscientes no serviço diuturno da rua com o perigo de se prostituírem...

Mas a palavra “prostituírem” invoca magicamente a imagem da menina de olhos verdes. Outra vez as coxas macias. Um gozo raro, morno e proibido. Apertar um corpo moço, penetrar um corpo moço. Cheiros diferentes, voz diferente, cara diferente, tudo diferente...

Teotônio olha para as portas: 139... Caminha mais alguns passos: 143. É aqui. Ergue os olhos. Uma casa de dois andares. Duas janelas iluminadas. Teotônio hesi­ta, imóvel.

Parece que a vida em torno parou. Em todo o uni­verso agora só uma coisa pulsa e vive: seu coração que bate como um louco — medo mesclado com contenta­mento, dúvida e alvoroço...

Num relâmpago duas imagens visitam-lhe a mente:

Dodó e Monsenhor Gross. Mas se apagam logo. E Teotônio resolve fazer frente à fatalidade. Entra, sobe a escada, que é velha e range. Junto da primeira porta bate. Abrem. Uma mulher magra e alta surge, olhos interrogadores, ar de quem não conhece e está surpreen­dida. Teotônio sente o sangue subir-lhe ao rosto.

— A viúva Mendonça?

De quem é, donde saiu esta voz fraca, desbotada que mais parece um cochicho? Teotônio Leitão Leiria não reconhece a voz do orador que encheu o Teatro S. Pedro naquela noite cívica. Oh! Esta comoção...

— O senhor bate na outra porta...

— Perdão, minha senhora...

A cara da mulher continua impassível. Teotônio vol­ta-se, todo perturbado, sentindo aqueles olhos pálidos e assustados ainda cravados nele.

Olha em torno: lá está a outra porta. Mais cinco passos. Bate. A porta se abre. Aparece uma velha baixa e roliça, de cabelos grisalhos, xale xadrez às costas, cara risonha. Está de luto. As dúvidas de Teotônio se dissipam. Deve ser a viúva.

— Às suas ordens, cavalheiro...

É uma voz áspera como se a criatura tivesse areão na garganta, mas uma voz que se esforça por se fazer doce. Os olhinhos miúdos brilham.

— É a viúva Mendonça?

— Sou, sim senhor.

— Pois o Sr. Tito...

O sorriso da velha gorda se alarga.

— Ah! O senhor! Ele me falou... Venha por aqui, doutor...

Caminha, remexendo num molho de chaves que traz à cintura. Leitão Leiria a segue, de chapéu na mão, sob o peso de uma terrível sensação de ridículo. A mulherzi­nha vai falando:

— Pois a gente fica satisfeita, não é? Quando gentes direitas querem-me dar a honra...

Teotônio aguarda em silêncio. O corredor está escuro. Lá no fundo, uma janelinha.

— Não repare. O bico de luz queimou. Amanhã vou botar outro, não é?

A velha pára diante duma porta e começa a procu­rar a fechadura, às apalpadelas.

— O senhor não terá um fósforo? Não enxergo.

Teotônio tira o isqueiro do bolso, levanta-lhe a tampa, tenta, mas em vão, acendê-lo. Nova tentativa: outro fracasso. A velha escarafuncha na porta. Por fim, Teotônio consegue provocar a chama que fica a brilhar-lhe na mão trêmula. A viúva introduz a chave na fecha­dura.

— Pronto!

Teotônio sente que as orelhas estão em fogo.

— Entre, não é?

Leitão Leiria entra. A viúva acende a lâmpada elé­trica. Mas ele preferia mil vezes que a escuridão conti­nuasse para esconder o seu rubor e a sua confusão. Dodó! Dodó! Como eu sou indecente! Como sou ridículo!

Esfregando as mãos, a mulherzinha sorri.

— Ela ainda não veio, doutor, mas não demora, não é? O Tito marcou às seis e meia. Falta cinco. Pode ficar à vontade. A casa é sua.

Teotônio olha em torno. Quarto pequeno, de paredes caiadas com um único quadro: uma mulher nua a dor­mir na praia, os seios bicudos voltados para as nuvens. Uma cama esmaltada de branco, cobertas brancas, uma janela fechada, um lavatório de ferro, duas cadeiras, uma mesa com revistas velhas.

Teotônio está aniquilado. Tenta recompor-se, assumir ares patronais, mas aquela velha ali, senhora do seu segredo e da sua fraqueza, o desarmam por completo.

— Muitas pessoas da primeira sociedade — a voz de areão continua — procuram a minha casa, sabem que é quieta, não tem perigo...

A velha diz nomes de fregueses ilustres. Parece um herói a discriminar suas condecorações. Teotônio senta-se teso na beira da cama, a qual lhe sugere imagens anima­doras. Agora a premonição do gozo começa a dominar o sentimento do medo e da culpa. A viúva Mendonça conti­nua a falar. Doutores, comerciantes, senhores da melhor — todos procuram esta casa... Teotônio torna a pensar em Dodó e de novo sente medo. Ergue-se (agora já é de novo o businessman que se concedeu um feriado inocente) e diz, circunspecto:

— Conto com a sua discrição...

A mulher o interrompe.

— Já lhe disse que não tenha medo, doutor...

— Porque a senhora compreende... eu...

— Não se amofine, doutor, aqui nunca acontece nada.

— Um homem da minha responsabilidade, da minha importância social...

— Já lhe disse. Pode sossegar o pito.

— Seria um desastre... eu nem sei... um...

Teotônio põe-se a andar dum lado para outro, impa­ciente num tumulto de sentimentos desencontrados. A imagem de Dodó lhe vem à mente, mas ele a exorciza, porque este lugar “é por demais infecto”. Só o pensar na­quele anjo aqui dentro é uma profanação.

Rumor de passos no corredor. A viúva se cala. Teo­tônio escuta... A porta se abre devagarinho. E a voz áspera:

— Eu não lhe disse que ela era boazinha?

É ela — pensa Teotônio. E uma sensação nova, formigante e dominadora, toma conta dele. Não ouve as palavras que a viúva lhe diz, nem a vê sair e fechar a porta. Agora só tem olhos e pensamentos para a rapariga vestida de vermelho que está diante dele. Ela diz um boa noite indiferente, tira o chapéu e o depõe com a bolsa em cima da mesa.

Teotônio não sabe como começar, não acha que dizer. Ela folheia uma revista com ar distraído.

— Como é o teu nome?

— Cacilda.

Teotônio sorri.

— Bonito nome.

Cacilda agora está voltada para ele, esperando. Teo­tônio começa a sentir-se mais à vontade.

— Então, não dá um beijinho pro seu amigo?

Ela sorri, aproxima-se e oferece o rosto. Teotônio agarra-lhe desajeitadamente a cabeça e chupa-lhe os lábios. Gosto de pó de arroz, úmido e morno. O contato destes seios, destas coxas dão a Teotônio a impressão de que ele está no ar, como um balão...

— Vamos depressinha, meu bem. Está anoitecendo e não tenho tempo a perder. Vá tirando a roupinha.

Sua voz esta levemente trêmula. À rapariga começa a despir-se. Teotônio volta-se para a parede, tira o casaco, depois senta-se na cama e tira as botinas. De quando em quando lança um olhar cúpido para Cacilda.

A moça puxa a saia para a cabeça. Tudo isto lhe é absolutamente indiferente. É o segundo homem a quem se entrega hoje. À noite terá outros, como sempre.

— Eu tenho uma sobrinha chamada Cacilda...

Teotônio diz isto porque sente que o silêncio começa a deixá-lo gelado.

Cacilda sorri. Ele lhe contempla as pernas esbeltas. Dobra as calças com todo o cuidado e vai colocá-las sobre a guarda da cadeira. Um pensamento horrendo o assalta. E se da janela pulasse um homem com uma Kodak e o fotografasse nesta atitude? Oh! Teotônio tem a impressão de que seu coração pára por uma fração de segundos.

Quando se volta, Cacilda está já estendida na cama. Trêmulo e confuso, Leitão Leiria aproxima-se na ponta dos pés, como quem caminha no quarto dum doente, e deita-se ao lado dela.

O calor do corpo moço, as carnes rijas, o cheiro de vida... Como podem dizer que isto é pecado?

Ao ver interpor-se, entre os seus olhos e o teto, a cara congestionada e lustrosa de Leitão Leiria, Cacilda pensa no rapagão moreno e bonito que ela teve a seu lado a noite passada, no 10.° andar do Edifício Colombo.

13

O jantar na casa de João Benévolo é fúnebre.



O relógio bate as horas — uma, duas, três, sete badaladas fanhosas, tristes, longas — e quando a sétima batida fica ecoando na varanda silenciosa e mal-alumiada, Laurentina começa a chorar.

— Não faça assim, Tina, por que é que está cho­rando? — João Benévolo põe ternura na voz. Aquele choro lhe dói. É uma acusação, uma queixa.

— Ora, eu sou assim... — responde ela.

E fica de olhos inchados e úmidos a olhar para o relógio velho. Quando ele bate, lento, e o som de sino fica dançando no ar como um choro, como a voz duma pessoa que está se queixando, Tina pensa na vida, na morte, no passado e acaba chorando, chorando desatada-mente.



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