Caminhos Cruzados



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Tudo aqui é triste — pensa ela — a luz do lampião (cortaram a elétrica por falta de pagamento), o soalho velho e sujo, as paredes desbotadas, os móveis encardidos, a cara do Janjoca, tudo é triste e dá vontade de chorar.

João Benévolo pensa no dia perdido. O seu amigo “doutor”, muito delicado, repetiu as promessas de sempre: o senhor espere, tenha paciência que eu lhe arranjo um emprego — e foi estendendo a mão como quem diz: dê o fora!

Na rua, as crianças da vizinhança gritam e correm. Dum gramofone fanhoso sai uma voz a cantar uma mo­dinha sentimental.

Sentados, um de cada lado da mesa, marido e mu­lher se entreolham.

— Se o Poleãozinho não sara — balbucia ela — temos de chamar um doutor.

João Benévolo diz sim com a cabeça, e leva à boca uma colherada de sopa. Faz uma careta involuntária: água morna sem gosto, sem tempero. Olha com olho triste para os pratos sobre a toalha grosseira: arroz pastoso, feijão aguado e carne magra.

Silêncio.

— Tomara que o veranico de maio dure — conversa João Benévolo. — Quando vier o frio, vou me ver mal...

Para uns tanto, para outros nada.

Os olhos de Laurentina se voltam para o alto. O marido compreende. Lá em cima mora o Prof. Clarimun­do. Sozinho, econômico, não gasta, não precisa gastar. E ganha bem. Ao passo que ele...

O gramofone pára. No meio do silêncio vem de lon­ge, de outras ruas, o ruído dos bondes. De quando em quando guincha uma buzina de automóvel. Na brisa da noite nova, vem um cheiro de folhas secas queimadas.

— Hoje apareceu um senhor aqui na porta — conta Laurentina. — Bem vestido, todo cheiroso, flor no pei­to. . .

— Flor no peito me lembra o Leitão Leiria...

— Aquele ordinário...

Os olhos de Tina brilham por um instante. Raiva surda, uma raiva angustiosa porque não conhece a ima­gem do homem odiado. Se acaso ela conhecesse Leitão Leiria, haveria de odiá-lo mais?

— Mas que era que esse senhor queria?

— Ora...

Tina faz uma cara de nojo, acentuam-se as duas rugas que lhe fecham a boca num parêntese de aborre­cimento e cansaço.

— Um freguês da viúva?

— Acho... Perguntou por ela. Estava todo atrapa­lhado.

João Benévolo faz um gesto de contrariedade.

— Isto é uma indecência, Tina. Felizmente não te­mos filha. Se a polícia soubesse...

— Por que não nos mudamos? — zomba a mulher.

Mudarem-se... eles? Havia de ter graça. Para onde levar os tarecos? Pelo menos por ora, enquanto ele não arranja emprego, não podem sair daqui. Paciência.

— Se o professor soubesse, acho que ele ia embora, — comenta João Benévolo.

Tina sacode a cabeça. Qual! O professor vive no mundo da lua.

O gramofone recomeça. Um tango argentino que fez furor em 1920. Do quarto contíguo vem uma vozinha fina:

— Mamãe!


Tina se ergue. João Benévolo afasta o prato, levanta-se e vai buscar o chapéu.

— Vou sair.

— Aonde vais?

— Por aí...

Laurentina encolhe os ombros. Agora nada mais importa. Tudo está bem. Se ele der para beber, para andar com mulheres, para freqüentar pensões de gente à-toa, que é que ela vai fazer? Nada mais tem importân­cia.

— Não voltes tarde que fico com medo.

É o mais que pede. João Benévolo sacode a cabeça afirmativamente e sai.

No corredor escuro dá com um vulto de contorno familiar.

— Boa noite.

A voz asmática do Ponciano. João Benévolo sente o mal-estar de sempre, um calafrio desagradável: como se houvesse passado a mão pelo dorso duma cobra.

Ponciano... Uma criatura que lhe causa náusea.

— Vais sair?

— Pois é.

Silêncio. Na sombra a figura odiosa se define. Ali estão os olhinhos frios, o rosto furado de bexigas, o nariz achatado de boxeador, o dente de ouro brilhante. João Benévolo pigarreia.

— Bom...

A voz asmática:

— A Tina está?

— Está. O Napoleão anda meio encrencado da bar­riga ...

— Bueno, até já.

— Até já.

João Benévolo desce a escada. No último degrau pára. Não, é um desaforo! Estas visitas insistentes, esta intimidade... Como se fosse um parente, uma pessoa do mesmo sangue. Não. É preciso acabar. A casa já é sus­peita. Tina, no fim de contas, é mulher, não das mais bonitas, mas ainda serve. Podem falar. Depois, o desafo­ro maior é a importunação. O dono da casa sai e o outro homem fica conversando com sua mulher. É direito? Claro que não.

João Benévolo começa a caminhar, ruminando a velha raiva. Aquilo já dura uma boa dúzia de meses. Quase todas as noites, a visita indesejável. Ponciano fica num canto, os olhinhos com um brilho de gelo, a respi­ração difícil. Tina costura e ele, João Benévolo, lê. O relógio bate horas, oito, nove, dez... O tempo passa. O olho de Ponciano sempre chocando Laurentina... João Benévolo olhando para os dois com o rabo dos olhos, com uma raiva impotente a ferver-lhe no peito. Vontade de gritar. “Isto também é demais, seu Ponciano, que é que o senhor quer? Explique-se ou ponha-se na rua!” Mas Ponciano é um homem de físico forte e tem dinheiro. Ninguém está livre dum aperto. Sempre é bom ter um amigo a quem recorrer. Amigo. Toda esta vergonha por causa da miséria, da falta de emprego...

João Benévolo dobra a primeira esquina e sobe ru­mo da parte alta da cidade. A fila de combustores se estende como um colar de luas. Lá no alto, o Edifício Imperial se recorta contra o céu da noite: em cima dele o grande letreiro luminoso brilha — num apaga e acende vermelho e azul — diz: fique rico. loteria federal.

João Benévolo caminha e vai aos poucos esquecendo Ponciano, a mulher, o seu drama. O letreiro colorido evo­cou-lhe um conto das Mil e Uma Noites. Agora ele cami­nha por uma rua de Bagdá. O perfil das mesquitas se desenha contra o céu oriental. Ele é Aladim, que achou a lâmpada maravilhosa. Sim. Fique rico. Basta esfregar a lâmpada, o gênio aparece. Eu quero um palácio, eu que­ro um reino, eu quero muito ouro, escravos e odaliscas.

João Benévolo agora é feliz. E como não tem outro meio para exprimir o seu contentamento, põe-se a asso­biar com bravura o Carnaval de Veneza.

14

Fernanda traz para a sala de jantar a bandeja com a cafeteira, os sanduíches de pão e carne fria e o prato de mingau para a mãe.



Pedrinho está desinquieto.

— Apura com isso, mana, estou com uma fome do tamanho dum bonde.

Fernanda sorri por trás da fumaça que sai do bule:

— Já vai, rapaizinho!

Dizer rapazinho não tem graça. Rapaizinho é mais terno, mais familiar, mais de acordo com a gramática sentimental da casa.

D. Eudóxia suspira.

— Cuidado, Fernanda, esse bule cai e te queima toda...

Fernanda arruma os pratos, e depois despeja café em duas xícaras. Senta-se também à mesa e o jantar começa. Pedrinho conta histórias da loja, de boca cheia, animado:

— Hoje chegou lá um cara gozado que queria com­prar Elixir de Nogueira. Isto aqui não é farmácia, digo. O homem ficou com cara de besta... Mas que sanduí­che gostoso, mana! Então, moço, me ensine onde é que fica uma farmácia. — Pedrinho solta uma risada engas­gada. — Mandei ele na Casa Sloper. Que cara gozado! Me passa o açúcar!

Fernanda empurra o açucareiro na direção do ra­paz.

— E a senhora não come o seu mingau, mãe?

— Não estou me sentindo bem. Acho que piorei da asma.

— Já tomou o remédio?

— Pra quê? É melhor que eu morra.

— Vamos, que história é essa? Coma logo esse mingau e deixe de fitinha.

Fernanda toma da colher e leva um bocado de min­gau à boca da mãe. Mas D. Eudóxia aperta os lábios, desvia o rosto, com a obstinação duma criança mimada.

— Pois está bem! — exclama Fernanda, fingindo zanga. — Não coma, não me interessa, pode morrer.

Diz isto e começa a tomar o seu café. Só ela sabe o quanto lhe custa portar-se assim, a abafar a cada instante seus ímpetos de ternura. Se em vez de reagir com energia contra o pessimismo da mãe e a vadiagem do irmão ela se condoesse de ambos, enchendo-os de mimos — tudo naquela casa iria águas abaixo.

— Então, Pedrinho como vai o curso?

— Ah!


Pedrinho faz uma careta como se lhe tivessem fa­lado em óleo de rícino.

— Que troço pau é a tal de Matemática. Cruzes! Sai um pó.

— Mas é preciso, rapaizinho, no fim vais acabar gostando.

D. Eudóxia intervém:

— Eu já disse que o Pedrinho vai ser como o pai. Não quer aprender nada, não quer ser homem de bem. Um dia me trazem ele pra casa com uma bala no peito, como o Fidêncio...

Fernanda volta bruscamente para a mãe uma enér­gica máscara de repreensão:

— Mamãe! Não diga mais isso! A senhora bem sabe que papai não era assim.

— Está bem, não falo, não tenho direito de falar, não posso dizer nada, não sou ninguém nesta casa...

— Então, Pedrinho, qual é a matéria que gostas mais?

— Ah! Eu é a História. Depois o professor, o seu Dias, é um bamba. Aquele cabra da Matemática... — e Pedrinho aponta com o dedo para a janela do professor, lá no outro lado da rua — aquele cara é chato...

— Não diga assim. O Prof. Clarimundo é um homem decente e muito instruído.

Pedrinho toma um gole de café, pega outro sanduí­che.

— Não digo que não seja decente. Mas é chato. Fala pra dentro. Ninguém entende ele. Às vezes se distrai. Anteontem apareceu sem gravata. Depois se esqueceu da lição e começou a falar em Astronomia, num tal Nistai.

— Einstein — corrige Fernanda.

— Sei lá... Bota mais café aqui que é melhor.

Fernanda despeja mais café na xícara do irmão. D. Eudóxia começa a comer com certa relutância, devaga­rinho, com o ar de quem diz: “Não adianta... Ninguém faz caso de mim. Estou morrendo e ninguém se impor­ta...”

Batem à porta.

— Entre!


Entra um menino. Terá quando muito sete anos, é magro, amarelo e está descalço e sujo. Fica perto da porta parado, olhando.

— Que é que queres, Bidinho? — pergunta Fernan­da.

— A mamãe mandou dizê se a senhora não tem uma vela pr’emprestá pr’ela.

Monótona e lisa, a voz é um fio fino.

— Espere um pouquinho.

Fernanda vai até seu quarto e volta de lá com uma vela.

— Tome. Como vai o papai?

— Melhor.

— Bom. Vá direitinho.

Bidinho se vai. D. Eudóxia suspira. Os olhos de Fernanda por um momento ficam velados de tristeza.

— Credo! — diz Pedrinho. — Quase nem conheci o filho do seu Maximiliano!

As palavras caem no silêncio.

D. Eudóxia faz a sua profecia de morte:

— Qualquer dia fica órfão de pai, o coitadinho. Seu Maximiliano não dura uma semana...

— Que agouro, mãe!

— Eu sei, meu filho, sua mãe sabe, já viveu muito, já viu muito velório.

Um pensamento desagradável passa pela cabeça de Fernanda. Com que prazer sua mãe assiste aos velórios! Como gosta de ver defuntos, falar em morte, imaginar desastres...

— Bem! Não se fala mais em morte e doença hoje! Então, Pedrinho, gostas de Francês?

O rapaz empurra a xícara vazia, com uma careta de aborrecimento.

— Ora, mana. Não vamos falar em estudos, sim?

Ela sorri.

O gramofone da vizinhança toca uma música alegre. Fernanda pensa em Noel.

15

Teotônío Leitão Leiria entra em casa e encontra a filha no hall. Vera está sentada numa poltrona, a ler uma brochura. As luzes do lustre estão apagadas. Junto da pol­trona uma lâmpada de quebra-luz verde (para sintonizar com o verde das paredes e do gobelim) cria uma área luminosa dentro da qual se desenha a cabeça de Vera: cabelo à la homme, boca grande, olhos graúdos, um nariz levemente arrebitado. Teotônio contempla a filha com afeição. Aqui tudo é diferente. Respira-se um ambiente familiar, puro e insuspeito. A madeira dos móveis, os ta­petes, os gobelins despedem um cheiro característico, cheiro de lar confortável, cheiro doméstico, cheiro tran­qüilizador. Teotônio pendura o chapéu no cabide e entra. Vera ergue os olhos:



— Olá! — Tem uma voz de contralto. — Vieste tarde, Mamãe está aflita.

— Aquele maldito escritório...

Vera sorri e torna a baixar os olhos para o livro.

No living-room Teotônio encontra a mulher.

— Meu filho, eu já estava em alas!

Dodó precipita-se para o marido e beija-lhe a testa.

Examina-o atentamente, com a cabeça inclinada pa­ra um lado. Coitadinho! Muito trabalho? Oh! Precisas mudar de vida, cuidar desse coraçãozinho!

Teotônio Leiria sorri com melancolia e se despreza mais uma vez. Como é que um homem casado com uma criatura como esta, meiga e santa, tem a coragem de freqüentar casas de tolerância? Como é, seu Teotônio?

O living-room está fartamente iluminado: móveis polidos, almofadas fofas, espelhos, cristais, vasos com flores. Oh! É preciso este deslumbramento, esta paz do­méstica para apagar a impressão daquela rua pobre, da­quele quarto sórdido. Mas nos olhos de Leitão Leiria brilha, muito tênue, a saudade do corpo de Cacilda. Enfim ninguém é piloto de seus pensamentos. Ai! As contingên­cias humanas...

— Dodó, minha querida, eu quero um banho.

Sim, um banho. Com o banho desaparecerá o último vestígio do pecado. A alma permaneceu pura, não parti­cipou do ato iníquo. Agora é preciso limpar o corpo.

— Mas, meu filho, anda ligeirinho, sim? O jantar está pronto...

— Não demoro.

— Temos de andar depressa porque às oito preciso estar no Metrópole, tu compreendes, tudo está nas minhas mãos, se eu não dirijo, não sai nada certo...

Teotônio compreende. Fiscalizar as tendas, ver se não falta nada, telefonar para o diretor da orquestra, pe­dindo que os músicos apareçam na hora, dar instruções aos garçons...

— Ah Dodó! Se não fosse você...

Teotônio rompe a elogiar a esposa. É uma maneira de se redimir um pouco do pecado que cometeu.

— Se houvesse duas Dodós nas Damas Piedosas, teríamos mais hospitais e asilos...

— Não diga isso, meu filho...

Dodó sorri com modéstia.

Teotônio olha para o espelho redondo que está por trás dela, na parede: o busto gordo, a cabeça grisalha, o cachaço nédio se refletem na superfície polida: os brincos de brilhantes soltam faíscas iridescentes.

Silêncio. Marido e mulher se contemplam.. Teotônio agora está reintegrado na velha personalidade: tem di­ante de si a sua Dodó de todos os dias, segura da sua fidelidade, amiga, bondosa e sempre preocupada com os seus pobrezinhos. Dodó contempla o seu Tônio, que é escravo da família e do trabalho, e que agora quer um banhozinho para tirar o cansaço.

— Bem, meu filho, vai tomar o teu banho. ..

— Até já.

— Deus te acompanhe.

Vera se ergue e vai para o quarto.

Sem acender a luz estende-se na cama, apertando as coxas e o peito contra a coberta de seda. Pela janela entra um vento morno, trazendo os ruídos da rua.

Vera se revolve... como é boa a moleza das cober­tas. Parece carne, dá um adormecimento no corpo, um arrepio estranho. ..

Uma sombra azul inunda o quarto. O penteador se ergue a um canto, com o seu espelho oblongo. O tapete tem arabescos caprichosos.

Vera antevê sua noite. A festa no Metrópole vai ser insípida como todas as outras. O Dr. Armênio, com seus óculos de aro de tartaruga, dentes muito brancos, carão moreno e lustroso, sorriso de anjo, virá com a sua velha chapa: “A senhorinha Vera parece uma silhueta do Vogue. Lembro-me de que uma vez no Bois de Boulogne...” (O Dr. Albuquerque foi uma vez à Europa.) O jazz tocará os foxes dos últimos filmes e tangos argentinos da idade da pedra lascada. As mesmas caras: num canto a D. Palmira Melo, de vestido preto, falando com D. Anunciata Bellini em cochichos, por trás do leque. As Mendes, as Assunção, a Ritinha Barbosa, com o seu eterno vestido cor de cham­panha... E aquela turma cretina do Macedo.

“Nunca amou, senhorita Vera?” — De novo a voz do Dr. Albuquerque, pegajosa e doce. “No seu coração­zinho de Miss Século xx não haverá lugar para um senti­mento de...”

Vera se ergue de súbito, como para apagar a visão aborrecível. Positivamente: vai ser um enjôo... Melhor não ir, ficar em casa ou meter-se num cinema.

Batem à porta.

— Quem é?

— Sou eu, minha filha. Posso entrar?

— Pode.


D. Dodó entra.

— Verinha...

— Que é?

Vera volta o rosto para a mãe. Ela está ali de pé, muito ofegante, mão direita espalmada sobre o peito. Traz na esquerda um livro.

— Quer me fazer um favor?

— Conforme...

Deitada de costas, mãos entrelaçadas atrás da cabe­ça, Vera tem os olhos voltados para o teto.

— Diga se quer...

— Conforme, eu já disse.

A voz de D. Dodó é trêmula, suave, relutante.

— Quer atender um pedido de sua mãezinha?

— Ai-ai-ai...

— Minha filha, você sabe que eu só desejo o seu bem...

Vera continua calada.

— Há coisas que são impróprias para toda a gente, principalmente para uma moça solteira de vinte e quatro anos...

— Já sei, é o livro... Impróprio para menores... Pois é, agora eu vou ler as histórias da Carochinha...

Uma ruga de contrariedade vinca a testa de D. Dodó.

— Minha filha, não leia mais isto...

E ergueu o livro no ar, na ponta dos dedos, como se estivesse segurando uma proveta onde se agitasse uma colônia de micróbios.

Reconhecendo o volume que esteve a ler há pouco no hall, Vera sorri.



A Questão Sexual, de Forel.

16

A aula está inquieta, num zunzum de colmeia assa­nhada. O ar fresco da noite entra pelas janelas. As carteiras rangem. Numa das extremidades da sala, um rapaz cochila com a cabeça encostada à parede. Bem na frente, na primeira fila de bancos, as posturas são as mais di­versas. Um moço de óculos e buço cerrado escuta atento, de boca aberta. Um sargento do exército limpa as unhas com o canivete. Uma rapariga de boina azul boceja olhan­do para a estrelinha que brilha longe, no recorte do céu que a janela enquadra. Um homem de cabelos grisalhos escuta, de sobrancelhas alçadas, com uma atenção força­da e o ar vagamente imbecil de quem não compreende. De vários pontos brotam cochichos, resmungos, estalidos, cicios, bocejos abafados. A luz que escorre das lâmpadas nuas é amarela e cansada.



O Prof. Clarimundo disserta...

Sentado à mesa, em cima do estrado, as mãos enla­çadas entre as coxas, o busto curvado, o livro aberto sob os olhos, ele enumera as vantagens do estudo do Latim.

— Pode-se saber Português sem saber Latim?

Ele mesmo dá a resposta. Não. Sacode a cabeça: a franja eriçada se agita: os óculos reluzem.

— Pode-se estudar gramática histórica sem um bom conhecimento da língua latina?

Também não. Novo aceno de franja, novo fuzilar de óculos.

Um aluno abre a boca num bocejo sonoro. O profes­sor estica o pescoço, procurando o mal-educado.

— Quem foi que bocejou? — pergunta.

Movimento de cabeças. As abelhas se assanham: os zumbidos da colmeia crescem em ondas. Por fim, o si­lêncio.

— Não gosto nada disso!

Clarimundo diz estas palavras sem convicção. O protesto fica lançado. É preciso manter a moral. Mas o que importa agora é o Latim.

— Dizem os maus estudantes que Latim é língua difícil... — Clarimundo pronuncia caprichosamente o s do plural. — Mas os senhores vão ver que no fim de con­tas a matéria é duma facilidade absoluta. — Clarimundo fala pausadamente, destacando as sílabas. — Conheço muito (Clarimundo faz questão de dizer muito e não muinto) latinista de fama que não observa a quantida­de...

Segura as bordas da mesa, empertiga o corpo.

— Ora, a quantidade deve ser observada. — Ergue a mão direita, com a ponta do indicador a tocar a ponta do polegar, formando um círculo. A quantidade de uma vogai ou de uma sílaba é o tempo ocupado na sua pro­núncia. — E marca a cadência das palavras que pro­nuncia com um oscilar da mão. — Conhecem-se dois graus... (reparem os senhores que eu não digo absolu­tamente conhece-se mas sim conhecem-se porque o su­jeito graus é plural e portanto leva o verbo para o plural). Mas, como eu ia dizendo, conhecem-se dois graus de quantidade. A quantidade longa e a quantidade breve. Pois ora muito bem!

Esfrega as mãos. O sargento suspira. O aluno que cochilava acorda de repente e fica olhando em torno com os olhos piscos e o ar estúpido.

— Nas sílabas a quantidade é medida do princípio da vogai ou do ditongo para o fim da sílaba...

Ergue-se e caminha até o quadro-negro.

— Pois ora muito bem!

Pega do giz e risca as palavras via e nihil,

— Atenção, senhores. Uma vo-gal di-an-te de ou-tra vogai ou de um h é bre-ve. Não esqueçam! — E repete as palavras que escreveu. — Via... nihil Olhem que isto é muito importante, senhores! Poucos compreendem a importância da quantidade. A quantidade é uma das coisas mais sutis da língua latina. A observância da quan­tidade revela a finura do latinista...

Os seus olhos de anjo passeiam por cima das cabe­ças inquietas. Não lhe parece que a classe tenha compre­endido a gravidade do assunto. Estes moços de hoje não levam a sério as coisas respeitáveis do saber.

— Os senhores compreendem a importância da quantidade? Olhem que eu insisto porque conheço muito doutor que se tem na conta de bom latinista, que não observa a quantidade.

Põe o giz no rebordo do quadro-negro e limpa as mãos com o lenço.

— Pois ora muito bem. Vamos ver... o senhor... (aponta para o estudante de óculos e buço cerrado). Que vem a ser a quantidade?

O rapaz coça a cabeça, embaraçado, e seus olhos fitam o quadro-negro, vazios, inexpressivos, parados.

Vinte segundos de silêncio. O professor espera. Os olhos mortos continuam olhando...

Clarimundo torna a sentar-se à mesa. Os seus óculos refletem a lâmpada elétrica que pende do teto. Sua franja treme de indignação.

— Sim, senhor! Não sabe uma coisa que acabo de explicar. Pois todos sairão reprovados se não observarem a quantidade. As bancas são muito severas e a quantidade é uma coisa importantíssima!

Animado, põe-se a falar sobre a importância da quantidade. Esporeado pelas suas próprias palavras, em­briagado pelos próprios argumentos, Clarimundo parece não querer mais parar o discurso. O que importa nesta hora é a quantidade.

A aluna de boina azul entregou a sua virgindade ao namorado que agora recusa casar com ela. O sargento do exército sonha com os galões de tenente e sofre porque não pode compreender as equações de primeiro grau nem decorar as fórmulas da Química. O senhor de cabelos gri­salhos suporta em silêncio a vergonha de ter de freqüen­tar aos quarenta anos um curso de preparatórios porque precisa dum diploma e precisa do diploma porque lhe é imprescindível ter uma profissão liberal a fim de ganhar dinheiro para sustentar a família numerosa. Aquele rapaz pálido, que olha medroso para o professor, trabalha dez horas por dia e ganha um ordenado miserável. Seu com­panheiro de carteira pensa ansioso na namorada que o espera à janela para a prosa de todas as noites. Num dos cantos da sala agita-se inquieto um rapazola louro que não sabe como há de pagar a pensão no fim do mês, pois não encontrou ainda emprego e não quer interromper os estudos.

Mas neste instante só uma coisa importa: a quanti­dade. Todas as outras necessidades empalidecem, recuam para segundo plano. Lá fora a cidade vive, os bondes e os autos rolam, os homens caminham e lutam, os dramas acontecem, há angústias escondidas, gritos de dor e de contentamento, os poetas fazem versos à lua, os vaga­bundos passeiam pelos jardins, por onde vagam homens sem trabalho e sem rumo, nascem gênios e imbecis, mas o que importa agora para o Prof. Clarimundo é a quanti­dade. E ele se exalta, acalora e fala para lhe denunciar a gravidade. Argumenta com uma energia que não revela nas coisas práticas da vida. Há meses que pensa em pedir um aumento de ordenado ao diretor do curso, mas lhe faltam coragem e entusiasmo. Há duas semanas que anda precisando dum par de ligas novo: mas ainda não teve ânimo para entrar numa loja e enfrentar os caixeiros. Há vários dias que anda pensando em queixar-se no restau­rante da comida que lhe mandam, mas falta-lhe oportu­nidade, energia, determinação.



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