Caminhos do mercosul – 2008 variedade e hibridismo cultural na bolívia: tesouros de potosí e sucre



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CAMINHOS DO MERCOSUL – 2008

VARIEDADE E HIBRIDISMO CULTURAL NA BOLÍVIA: TESOUROS DE POTOSÍ E SUCRE

Janelso Rodrigues Sousa



Resumo

A questão cultural na Bolívia sempre foi uma questão de relevância nacional, pois há uma variedade muito grande de tribos indígenas no território que, embora tenham muito em comum, às vezes têm conflitos entre si e com outros povos que ocuparam a região.

Nasceu uma diversidade étnica, cultural, religiosa ímpar em toda a América Latina, mas que ainda enfrenta alguns problemas que impedem a consolidação da unidade nacional, pois até pouco tempo atrás ainda havia muitos povos que não tinham seus direitos reconhecidos. Depois de problemas com gás e água, o Estado boliviano ficou enfraquecido perante a sociedade, e agora a Bolívia procura um meio de se reerguer como um todo.

As cidades de Potosí e Sucre, como cidades históricas, acolheram habitantes de muitas regiões do globo durante o período de seus auges, sendo a primeira uma cidade rica em minérios e a segunda, a sede da Igreja Católica na região. As duas cidades cresceram e desenvolveram uma cultura híbrida, anda não muito bem afirmada. Conseguir reunir tantos povos indígenas diferentes, sem contar todos os imigrantes que chegaram à Bolívia desde o período colonial, realmente abriu um leque de opções culturais, e todas passaram a fazer parte da Bolívia, que ainda sofre com conflitos étnico-culturais e com questões nacionalistas.

Mesmo assim, a cultura da Bolívia é uma e muitas ao mesmo tempo, mas ainda faltam o reconhecimento e a valorização de boa parte delas, principalmente as indígenas, que foram reprimidas e desvalorizadas por muito tempo.
Introdução

Nascida de vários conflitos, revoluções e sonhos, a Bolívia foi berço e, hoje, é lar para muitas culturas diferentes. Os povos indígenas, originários da América, já estavam aqui quando os Espanhóis chegaram à região e iniciaram a colonização. Assim, movidos pelo anseio de obter riquezas, os estrangeiros encontraram a prata, e dela nasceu uma das primeiras cidades bolivianas: Potosí, um oásis de riqueza em meio à Cordilheira dos Andes. Isso foi em 1545, sete anos depois da fundação de La Plata, vila fundada na região de Charcas. Com a independência, esta se tornou capital da Bolívia e passou a se chamar Chuquisaca. Atualmente, chama-se Sucre.

A ocupação do território pelos europeus se deu em meio a muitas revoltas, pois os indígenas queriam manter suar características e tradições e isso significava resistir ao imperialismo de sua metrópole, que queria impor seu sistema e sua língua. Logo, ambos os mundos começaram a se misturar. As línguas locais e a espanhola coexistiram, costumes e sistemas ajudaram os espanhóis a organizar o trabalho, novos produtos invadiram a região. A riqueza econômica transformou-se em um imã que atraiu muitas pessoas diferentes, movidas pela vontade de viver melhor.

Essa variedade de tipos humanos reuniu várias peças de um quebra-cabeça cultural, que foram se encaixando ou se desencaixando ao longo da história. Novas peças começaram a chegar de todas as partes do mundo, de acordo com novas possibilidades e novas idéias. Os povos indígenas, depois de se virem inferiorizados por tanto tempo, também começaram a lutar por seu espaço na sociedade, e se tornaram uma ferramenta de transformação ainda mais ativa, retirando as peças que não lhes convinham, ou lutando por isso, e trazendo novas peças.

Assim, se formou a Bolívia de hoje: uma região dividida entre vários grupos étnicos e, ao mesmo tempo, unida por laços culturais e históricos. Ainda existem desentendimentos, mas foi com eles que a Bolívia cresceu social e culturalmente no passado. Afinal, não se pode encaixar qualquer peça em qualquer lugar, e, às vezes, os erros que foram cometidos ou medidas ultrapassadas que precisam ser mudadas levam todas as peças a se reorganizarem. Horas se unindo, horas se rompendo, o país trilhou seu caminho e guardou as lembranças de cada mudança, marcas que ficaram registradas em seu povo e em suas cidades. No entanto, o processo continua, e a nação cresce com ele.
Contexto histórico: Os primeiros contatos

Não é possível desvincular as riquezas da colonização da América, mas também há questões religiosas de relevância que impulsionaram o surgimento das vilas e cidades na América. Antes da chegada de qualquer europeu, os povos locais não viam a natureza como recurso natural, mas como um dos fundamentos da sociedade. Os metais não eram meios de obter riqueza, mas ferramentas para venerar os deuses, e o que produziam não era para obter lucro, mas para se usar ou comer. O contato com povos estranhos à terra, então, iniciou a ruptura de partes dos povos com essa idéia.

A Espanha, que se movia aos comandos dos reis católicos, era completamente subordinada à Igreja Católica, e esta passava por tempos difíceis. No fim da Idade Média, grande parte do clero era corrupta e várias medidas religiosas pareciam sem fundamento, o que motivou as reformas protestantes. A perda de fiéis apenas deu um impulso a mais para que os espanhóis se lançassem sobre os índios, procurando catequizá-los. “As bulas do Papa tinham feito apostólica concessão da África à coroa de Portugal, e à coroa de Castela outorgaram as terras “desconhecidas como as até aqui descobertas por vossos enviados e as que se hão de descobrir no futuro”: a América fora doada à Rainha Isabel.” 1.

Os diferentes grupos étnicos foram aglomerados nesses povoados, e as diferenças começaram a ser ressaltadas, como meio de enfraquecer a resistência da região às políticas imperialistas. Em muitas regiões, as vilas surgiram como missões, onde padres ensinavam sua doutrina aos índios do local. No entanto, paralelamente a isso, a Espanha procurava satisfazer seu outro interesse e, assim, começou a escravizar os índios, mesmo com o papa confirmando que os nativos tinham alma, não eram animais. Logo que encontraram metais, os estrangeiros montaram grandes esquemas de produção, às vezes baseados em sistemas locais, outras ao modo já conhecido pela metrópole. Onde se encontrava algo, uma vila se formava, e o núcleo crescia.

Em 1545, um índio, que perseguia uma lhama, teve que acampar próximo ao monte Potojsi, e fez fogo para não morrer de frio. O fogo iluminou um fio de prata, e logo surgiu um núcleo espanhol na região. Nascia Potosí, a cidade mais alta do mundo, e isso trouxe benefícios para La Plata, cidade próxima, cujo clima foi preferido pelos espanhóis. A primeira tornou-se uma vasta mina e a segunda foi o lar das famílias ricas e a sede da Igreja na região.

Sucre foi uma cidade construída no estilo andaluz, com grandes casas, conventos e igrejas ricamente ornamentadas com a prata de sua vizinha, além da primeira universidade da Bolívia e uma das primeiras do mundo. Quanto a Potosí, esta fervilhava com festas e bailes sustentados pelo trabalho escravo dos índios, e logo atingiu um contingente populacional assombroso para a época. 30 anos após seu surgimento, sua população já ultrapassava a de várias cidades importantes da Europa, e havia indígenas, negros, espanhóis e várias outros de todas as partes do mundo e de diversas condições diferentes. Tal cidade teve uma ocupação muito rápida e completamente desordenada.

A essas cidades, que não viviam de nada mais além da prata, chegavam “sedas e tecidos de Granada, Flandres e Calábria; chapéus de Paris e Londres; diamantes do Ceilão;pedras preciosas da Índia; pérolas do Panamá; meias de Nápoles; cristais de Veneza; tapetes da Pérsia; perfumes da Arábia e porcelana da China” 2. O mundo se encontrou na Bolívia, um grande centro cultural nesse tempo.

Algum tempo depois de esgotada a prata, a Bolívia ganhou mais um presente da natureza: se descobriu uma mina de estanho gigantesca no território. O descobridor Simón Patiño, no entanto, tomou logo posse da mina e começou as explorá-la tão rápido quanto pôde. O minério gerou lucros para as mãos de seu dono, e nada mais. Ele se mudou para a Europa, e passou a usar a riqueza para manipular o poder da Bolívia. Quando a mina já estava quase vazia, o governo conseguiu nacionalizá-la, pagando uma indenização muito grande a um dos descendentes de Patiño. Hoje, “das 156 mil toneladas de rocha que saem mensalmente pelas bocas-dec-minas só se recuperam 400” 3.

Entretanto, os lucros que a mesma podia proporcionar já eram praticamente nulos, quando comparados ao que já tinham sido, ou pelo menos não se sabia ainda ali existia muito mais prata do que se imaginava. Essa foi mais um caso em que as riquezas da região acabaram exploradas e drenadas para fora, deixando muito pouco ao país.
A questão indígena, a herança colonial e o ressurgimento

Apesar de grande parte da população de Potosí ser indígena, essa maioria não tinha seus direitos reconhecidos. Era explorada por meio da mita ou da encomienda e não tinha voz politicamente ativa. Durante o auge do período de exploração da prata, os indígenas eram maioria na cidade, estima-se que eram 60% da população. Havia alguns escravos africanos e uma boa quantidade de colonos espanhóis, mas havia gente do mundo inteiro naquela cidade, que era uma das mais importantes da América.

No entanto, a colônia espanhola, que sobrevivia da prata, sofria há tempos com uma riqueza apenas aparente. O país não havia desenvolvido sua indústria, pois era muito mais fácil comprar todas as manufaturas da França ou da Inglaterra. A colônia também não tinha chances de desenvolver a indústria, pois seguia as idéias da Espanha: era muito mais fácil usar a prata para o que quer que fosse. No entanto, esse foi o fator que condenou as duas regiões ao declínio. Sem conseguir manter todos os pormenores do pacto colonial, a Espanha acabou abrindo o mercado americano para a Inglaterra em troca de alguns benefícios comerciais.

A Inglaterra viu um grande mercado se abrir. Ela “organizava um sistema universal e se convertia na prodigiosa fábrica abastecedora do planeta: do mundo inteiro provinham as matérias-primas e sobre o mundo inteiro se derramavam as mercadorias elaboradas.” 4. As riquezas da América estavam agora ao seu alcance, e somente as metrópoles originais poderiam causar algum problema. Primeiramente, a Inglaterra pressionou toda a América a abolir a escravidão, pois o interesse seu verdadeiro interesse era expandir seu mercado em todas as direções, e escravos não faziam compras. Foi assim que os índios conseguiram recuperar sua liberdade, mesmo depois de o papa defender a idéia de que os índios tinham alma, não deviam ser tratados como animais. Afinal, a Igreja Católica buscava mais fiéis depois das perdas durante o período de reforma e contra-reforma.

A independência da Bolívia, assim como a de muitos outros países, também pode ser vista como um pacto entre as elites locais ou estrangeiras, pois não existiram rebeliões consistentes contra o governo. Essa foi uma manobra apoiada pela Inglaterra também, pois assim ocorreria o “rompimento” real entre a metrópole espanhola e a colônia americana, e assim a nova potência européia poderia explorar os mercados e as matérias-primas da América com total liberdade. Era apenas isso que se podia esperar, e foi isso que ocorreu.

Como era importante que os gastos fossem mínimos para que a oligarquia pudesse obter lucros no comércio exterior, a exploração dos indígenas se renovou, surgiu sob um novo prisma. Havia muitos índios prontos para trabalhar, e isso geraria muita disputa pelas vagas. As leis de mercado também são válidas para a mão-de-obra: quando a oferta é maior que a procura, o preço despenca. Assim, os salários dos trabalhadores existiam, mas eram tão miseráveis que entre aquilo e a escravidão não havia muita diferença.

Os indígenas seguiram sem nenhum direito social ou político reconhecido, trabalhando nas minas de prata ou estanho quase vazias ou nos grandes latifúndios. Os oligarcas ou viviam na Europa ou deixavam a região assim que as riquezas acabavam, e assim os ativos acabaram ajudando os outros a levarem embora as suas riquezas.

No entanto, o crescimento populacional das massas acabou forçando o êxodo rural, e logo começaram a se formar regiões de pobreza ao redor das cidades. “Por um longo tempo a questão indígena se manteve presa de um pensamento populista e romântico, que identificou o índio com o mesmo, e este, por sua vez, com o primitivo.” 5. Finalmente, esta visão dava sinais de mudança. Embora os próprios nativos não percebessem, eles haviam se tornado um grupo tão grande que nenhum governo conseguiria trabalhar direito sem o apoio deles.

Assim, fortalecia-se a idéia de democracia, que já era exportada pelos Estados Unidos, a nova “metrópole” dos países americanos, há algum tempo. Governos populistas tentaram trazer o povo para dentro das estruturas de governo, e só então os indígenas ganharam alguma representatividade política. A questão é que os indígenas eram maioria no país, e mesmo assim sempre foram governados por brancos.

Muitas organizações e movimentos se articularam durante o século XX, todas defendendo uma maior representatividade dos indígenas na política. Com o passar do tempo, contudo, essas organizações passaram a ser influenciadas por empresas multinacionais ou organizações internacionais, mas conseguiram obter uma boa base social nos anos de 70 e 80 e então conseguiram se integrar a movimentos e partidos políticos.

A constituição boliviana é um problema de longa data, já que ela quase não mudou, mesmo depois de tantas lutas e conflitos, e, sendo assim, ainda não reconhece os direitos dos indígenas. Outros problemas atuais têm ligação muito forte com o passado também. O povo viu a prata e o estanho bolivianos deixarem o país com quase nenhum benefício, e, portanto, temem que seus recursos fiquem em mãos estrangeiras. Foi assim quando o governo quis privatizar a distribuição de água, entregando-a a uma empresa estrangeira. Ainda é assim com o gás natural e com o petróleo.

Outra questão é o reconhecimento das terras. Os indígenas, segundo estimativas, ocupam por volta de 70% do território do país. Até 1996, só tinham documentos de propriedade grupos que mantinham fazendas nas áreas andinas mais favorecidas. “Com a marcha indígena de 1996(14) e a aprovação de uma nova lei agrária (INRA), que estabelece um novo regime de propriedade coletiva de territórios indígenas e dispõe a titulação das terras comunitárias de origem da população indígena do país, iniciou-se um programa de titulação massiva, que chegou a titular até o ano de 2001, cerca de 8% das superfícies demandadas” 6. A lei tem encontrado dificuldades para ser aplicada, logo tem agido devagar, mas sempre sob os olhos atenciosos das organizações locais.

Como se pode perceber, muitos povos indígenas têm lutado para manter seus costumes e tradições, ao mesmo tempo em que lutam para melhorar as condições sociais, serem reconhecidos como cidadãos com voz ativa na sociedade e preservarem a Bolívia para que eles possam fazer o melhor uso de seus recursos sem deixar que eles lhe escapem por entre as mãos novamente. Esse povo está contra qualquer tentativa de privatização, pois eles querem atingir uma identidade para que possam evoluir de uma maneira própria.

Assim, as lutas dos indígenas permitiram que sua cultura ressurgisse na Bolívia, e esses povos têm cultura bem diversificada, mesmo que sejam povos de origens comuns. A união se deu por meio de vários movimentos, como a Confederación de Pueblos Indígenas de Bolivia, que reúne 34 povos diferentes, atualmente. A divergência mais clara ainda é a lingüística, que se evidencia pelo fato de a Bolívia ter três línguas oficiais: o Aimará, o Quíchua e o Espanhol. São essas as oficiais, mas há outras.


Cidades históricas e centros culturais

Potosí é hoje uma cidade com, aproximadamente, 120 mil habitantes, sendo que a maioria deles é de índios de origem Quéchua. A maioria desses habitantes não tem acesso a tecnologias modernas ou segurança social, mas a cidade é considerada um Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO, assim como a montanha da mina. A questão é que pesquisas recentes perceberam que ainda há muita prata no interior da mina, embora esteja mais difícil de achar. O governo tem procurado empresas estrangeiras para explorarem a região, mas a população tem seus receios.

O jeito mais fácil de explorar a montanha seria retirar o topo, desfigurando a montanha completamente e fazendo-a perder seu estado de patrimônio histórico. Também existe o temor de que empresas multinacionais, nacionais ou mesmo estatais levem toda a riqueza da prata para outras regiões e Potosí continue na miséria. “Não conheço nenhuma pessoa rica que more nessa cidade”, disse o historiador Valentin Abecia. Os casarões antigos, que representam o esplendor colonial, hoje estão vazios e mal cuidados. Abecia é o curador de um Museu fundado no antigo prédio da casa da moeda, uma das mais bem preservadas construções da cidade. Uma pequena classe média ainda sobrevive no antigo centro da cidade.

Mesmo assim, 80% da população da cidade são de trabalhadores pobres da região, do norte da província ou de outros que quiseram tentar a sorte nas minas. Sendo assim, ainda existe muita esperança de que Potosí possa se reerguer, mas aqueles que, no passado, usurparam a riqueza da cidade, já não vivem mais nela.

“Aquela sociedade potosina, enferma de ostentação e desperdício, só deixou na Bolívia a vaga memória de seus esplendores, as ruínas de seus templos e palácios, e oito milhões de cadáveres de índios” 7. Estas palavras de Eduardo Galeano representam o que foi Potosí, e, apesar de tudo, ainda há meios de voltar a ser o que era. A UNESCO tem contribuído para a restauração de 2000 monumentos históricos e monitorado a montanha que ainda se levanta majestosa no horizonte da cidade, sendo que toda a estrutura e as ferramentas dos mineiros do período colonial foram preservadas ao redor dela. Também está pressionando o governo para que preserve o que já foi chamado pelos espanhóis de oitava maravilha do mundo, não que ainda o seja.

O turismo nessa cidade histórica tem ajudado a população a sobreviver, já que a prata nunca mais foi tão importante desde que sofreu uma queda brusca de preços no meio do século XIX. Empresas fazem tours por dentro das minas, o museu da casa da moeda exibe, além de moedas da época colonial forjadas em ouro e prata, pinturas do mesmo período. A catedral, construída no século XIV, atrai muitos turistas, assim como outras igrejas e conventos que sobreviveram às revoluções que desembocaram na independência, sendo que alguns conventos também foram convertidos em museus.

“Junto com Potosí, decaiu Sucre. (...) Antes, foi a capital cultural de dois vice-reinados, a sede da principal arquidiocese da América e do mais poderoso tribunal de justiça da colônia, a cidade mais brilhante e culta do Sul” 8. Muito desta riqueza está presente na cidade, que ainda é sede da Suprema Corte de Justiça, ou seja, capital legal do país, e que ainda tem muitas histórias para contar para o mundo, sem contar outros atrativos: “Sucre conta ainda com uma Torre Eiffel e com seus próprios Arcos do Triunfo; dizem que com as jóias de sua Virgem poder-se-ia pagar toda a gigantesca dívida externa da Bolívia.” 9

Sucre, como sede da Igreja católica, hoje também sobrevive de turismo, mas lá o principal são as igrejas. A Catedral metropolitana abriga obras primas da arte sacra, e a Igreja de São Francisco guarda o Sino da Liberdade, aquele que invocou a revolução de 25 de Maio de 1809. A casa da liberdade, onde foi assinado o documento de independência, se tornou um museu e hoje abriga artefatos históricos. Há diversos museus pela cidade, desde Museus de História Natural a Museus de Arte Moderna. Também está lá o Palácio de la Glorieta, que pertenceu a uma família espanhola e hoje é escola militar. Assim como Potosí, Sucre também foi convertida em Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, sendo a primeira capital da Bolívia.


Evo Morales: problema ou solução?

Evo Morales, representante do grupo indígena cocalero da Bolívia, foi candidato à presidência da Bolívia em 2002. Numa eleição muito concorrida, tanto ele quanto Manfred e Gonzalo Sánchez de Lozada, ou Goni, que foi eleito, ficaram com quase 20% dos votos. Foram eleições difíceis e de resultados um tanto complicados, pois demonstraram que nenhum dos candidatos tinha o apoio da maioria.

No entanto, Goni, que era conhecido por já ter sido presidente, sem trazer muitos avanços, e também por ter passado quase a vida inteira nos Estados Unidos, foi derrubado por uma revolução durante o episódio da Guerra do Gás. Um dos líderes revolucionários foi Evo, descendente dos Aimarás, estes que o apoiavam. O vice de Goni, que também havia se voltado contra ele, assumiu, e fez um plebiscito onde se tomaram as decisões sobre o gás. Nas eleições seguintes, Evo Morales foi eleito. A Bolívia tem, hoje, seu primeiro presidente indígena.

Evo deu grande valor às riquezas o território e nacionalizou os hidrocarbonetos, mas desde sua entrada triunfal no governo, muito mudou. Plebiscitos foram realizados por províncias que desejavam se tornar autônomas, muitas das quais eram governadas por opositores do presidente.

Mesmo se vendo em tal situação, Morales se submeteu a um plebiscito, realizado em 10 de agosto de 2008, no qual a população boliviana decidiria se o presidente e os governadores de oito dos estados permaneceriam no poder. Evo conseguiu permanecer no poder, assim como quatro governadores de oposição, mas os outros tiveram que abandonar seu cargo.

Assim, o atual presidente da Bolívia tem se mostrado realmente um fator a ser considerado. Num país de maioria indígena, com diversas etnias a serem consideradas, Ele conseguiu agradar, até agora, às maiorias de forma notável. Embora nem todas as etnias sejam atingidas de maneira uniforme pelas políticas de governo, pelo menos o reconhecimento dos nativos já melhorou bastante. Talvez Evo não tenha esse destaque pelo que faz, mas pelo que representa: a ascensão de um povo ignorado até pouco tempo, e que agora mostra que quer ser dono do próprio destino.


Riquezas específicas: todas as partes representam o todo

A identidade cultural de um país pode ser formada de duas formas: “Onde a diferença cultural é grande e incontornável, a originalidade é deslocada e projetada sobre o conjunto da Nação. Onde a diferença não é tão “grande” a ponto de constituir-se como patrimônio nacional, ela será folclorizada.” 10. A Bolívia sempre apresentou vários povos diferentes, mas sua cultura, no início, tinha uma origem comum, o que implica em semelhanças em costumes, em festas, na religião e em outros aspectos.

O que ocorreu, de fato, com os povos da América espanhola foi uma intensificação das diferenças, por parte dos estrangeiros, para espalhar os indígenas em grupos cada vez menores. Todos conviviam até que bem, até que os espanhóis passaram a usar a tática de “dividir para conquistar”. “Das lutas pela independência até a reorganização do imperialismo no começo do século XX, a dinâmica básica foi de fragmentação e dispersão: o rompimento quase permanente das precárias formações nacionais a partir de conflitos internos ou de estratégias de divisão promovidas pelas novas metrópoles” 11Isso teve grande impacto na sociedade e na cultura bolivianas, pois foi o que possibilitou a escravidão indígena e sua supressão, pelo menos em termos políticos.

No entanto, desde que surgiram os nacionalismos, a América Latina inteira tem buscado uma reconstrução de sua identidade. Enquanto Estados são uma unidade de governo, Nações são unidades ideológicas e de tradição, e assim nenhum dos Estados, no início do século XX, constituíam Nação verdadeira ao mesmo tempo. “A Nação incorpora o povo, transformando “a multiplicidade dos desejos das diversas culturas (...) num único desejo: participar do sentimento nacional.” Sob esta forma, a diversidade legitima a insubstituível unidade da Nação” 12.

Isso tudo significa que vários povos, sabendo valorizar suas diferenças, podem usá-las para um bem comum. A Bolívia foi é o palco da luta dos seus indígenas pela verdadeira unidade nacional, pois tudo o que eles querem é participar do todo. Ninguém quer ser excluído dos processos históricos de desenvolvimento, e uma cultura nacional reuniria Nação e Estado num mesmo ideal.

A industrialização foi tida, a princípio, como um meio de beneficiar a sociedade. No entanto, a cultura de um povo, quando é única, se torna um atrativo turístico que pode atrair riquezas muito maiores para um povo. Quando é uma cultura muito diversificada, mas ainda assim harmoniosa, ocorre o mesmo. Sendo assim, a chamada globalização poderia trazer muitos benefícios para toda a população boliviana, que incorporou elementos culturais de diversas nações indígenas, da nação espanhola e de diversas outras nações em menor quantidade. Por enquanto, isso tudo é parte do Estado boliviano, mas pode fazer parte de uma nação.

O povo afro-boliviano, que descende dos poucos escravos africanos que trabalharam nas minas de prata, trouxe consigo tradições, línguas e religiões africanas, que se misturaram às tradições indígenas. Surgiram estilos de dança e música. Os aimarás são conhecidos na Bolívia por tradições em produção de cestos, cerâmicas e esculturas, além de conservarem músicas e danças do período pré-colonial, assim como os Quéchuas. A cultura espanhola trouxe estilos arquitetônicos novos, além da religião católica. Esses valores, juntos, ergueram igrejas enormes e riquíssimas em termos histórico-culturais.

Tudo isso era produzido, e ainda é, de maneira única, pois há matérias-primas típicas da região, como a lã de lhama ou alpaca. A diversidade atrai, mas devido à falta de reconhecimento e às tensões constantes, a Bolívia tem sofrido muito. Todavia, processos atuais têm integrado culturas internacionalmente, e isso pode trazer mais riqueza e desenvolvimento para a Bolívia.

Também há mecanismos e tradições que se universalizaram, chamados de “conhecimentos tradicionais”, que se incorporaram a outras culturas e passaram a ser utilizadas em outras partes do mundo. “Os índios aimarás, habitantes do planalto boliviano, possuíam habilidades em conservar produtos alimentícios, de modo que o Exército americano utilizou o processo de desidratação desenvolvido por essa comunidade, para transportar quantidades enormes de purês de batatas desidratados para alimentar seus soldados a volumes muito pequenos.” 13.

Esse país está, então, em vias de se tornar uma nação verdadeira, consolidando-se sobre o reconhecimento de todos e tudo aquilo que pode trazer benefícios para todos. Não se pode dizer que seja um caminho fácil, o que se evidencia por episódios como a guerra do gás. Era uma escolha entre proporcionar lucros ao vender para o mercado externo e usar o que o país tem para desenvolver a própria economia. Haverá mais conflitos, mas já houve quem dissesse que a principal riqueza de um povo é a sua diversidade, e não é necessário muito para se acreditar nisso.


Conclusão

Potosí e Sucre foram grandes centros no passado. Ambas tiveram seu período de esplendor, sendo as portas que conectavam a Bolívia ao mundo durante séculos. Já foram duas das cidades mais importantes da América, mas hoje vivem períodos um tanto difíceis, se comparados ao passado.

No entanto, talvez essas cidades não apresentassem toda essa diversidade se esse período de exploração não tivesse existido. Poderia ter sido de outro jeito, é claro, mas não foi esse o curso da história. Mesmo que boa parte da prata tenha deixado seu lugar de origem, essa mesma riqueza atraiu o mundo inteiro, fazendo do país um território muito rico em experiências históricas e culturais.

A sociedade atual é resultado de um processo histórico. “Várias épocas, seus produtos culturais, homens de múltiplas tendências, orientados para o passado, presente ou futuro, logo com expectativas diferenciadas, se justapõem” 14 no mundo atual. Depois de muitos conflitos nos quais os nativos buscavam tanto o reconhecimento de seus direitos quanto a proteção de seu território, o que podemos ver é uma diversidade cultural muito grande, que pode ser uma nova base para a sociedade boliviana. Quando essa multiculturalidade se tornar algo que caracteriza todo o território, teremos uma união verdadeira.

Assim, a Bolívia tem tendências a um estado de equilíbrio, onde todos serão reconhecidos como cidadãos e terão direitos como tal. Será um quebra-cabeça montado e adaptado à realidade, colocando vários povos em harmonia e consolidando algo que já existe, mas sem que atinja um estado de maturidade. O passado não será apagado, mas será usado como ferramenta para moldar o futuro. Todos os países da América Latina tiveram um passado muito parecido, e talvez trocar experiências ajude.

Evo Morales tem cumprido seu papel, agindo de acordo com a população e representando bem seu povo. Ainda há muitos problemas internos, pois nem todos os povos indígenas conseguiram o mesmo reconhecimento, e externos, pois muitos países ainda não aceitam tradições como a que é a folha de coca para alguns desses povos. Mesmo assim, o que importa é que já houve grandes avanços, mesmo porque tentar ir além do possível poderia causar mais prejuízo que lucro.




Bibliografia
Livros

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GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

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http://www.evomorales.net/paginasEng/bolivia_Eng_puebl_quech.aspx, consultado em 25 de agosto de 2008.

1 Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, Rio de Janeiro, 1998, pág. 27

2 Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, Rio de Janeiro, 1998, pág. 33

3 Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, Rio de Janeiro, 1998, pág. 161

4 Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, Rio de Janeiro, 1998, pág. 196

5 Jesús Martin-Barbero, Dos meios às mediações, Rio de Janeiro, 2003, pág. 272

6 Maria Angela Comegna, Comunidades locais e proteção aos conhecimentos tradicionais na Bolívia, pág.7.

7 Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, Rio de Janeiro, 1998, pág. 44.

8 Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, Rio de Janeiro, 1998, pág. 47.

9 Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, Rio de Janeiro, 1998, pág. 47.

10 Jesús Martin-Barbero, Dos meios às mediações, Rio de Janeiro, 2003, pág. 230

11 Jesús Martin-Barbero, Dos meios às mediações, Rio de Janeiro, 2003, pág. 225

12 Jesús Martin-Barbero, Dos meios às mediações, Rio de Janeiro, 2003, pág. 229

13Maria Angela Comegna, Comunidades locais e proteção aos conhecimentos tradicionais na Bolívia, pág.17 e 18.

14 Benjamim Abdala Junior, Fronteiras múltiplas, identidades plurais: um ensaio sobre mestiçagem e hibridismo cultural, pág.17.


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