Cap III – saber cotidiano X conhecimento científico



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CAPÍTULO III

SABER COTIDIANO X CONHECIMENTO CIENTÍFICO

“Professora Terezinha, eu li o texto várias vezes, mas não entendi muito bem a mensagem da escritora Adélia Prado.

O que ela quis dizer de verdade, quero ter mais informações da minha mestra, para melhores explicações sobre o texto, a mim parece de bom conteúdo, talvez a minha ignorância seja a culpa de tudo isso, mais importante é a minha vontade de aprender analisar texto como este, por esta razão peço ajuda à minha professora de Produção de Texto para ajudar-me num conteúdo como esse de Adélia Prado. Na sua simplicidade ela escreve coisas maravilhosas numa simplicidade que só ela tem.

Só que eu, aluno da 3ª Idade, estou tendo dificuldade de analisar e entender melhor, conteúdos como esses, mas sei também que depende de mim, para isso quero-me esforçar até o final deste segundo semestre, ou quem sabe nos anos vindouros. Talvez me falte um pouco de humildade para entender os textos e a própria vida diária. Eu gostei quando a escritora Adélia Prado na sua escrita alguém lhe interrogou e disse assim outro dia. ‘Será que você não dá conta de escrever sem falar em Deus e ela respondeu não?’

Gosto mais quando você escreve sem falar em Deus...

Eu achei uma resposta humildemente que só Adélia Prado poderia dar na sua escrita”12.

“Râmios, o mais importante é a sua vontade de aprender. Não desista. Acho que você entendeu o texto da Adélia Prado. Cada pessoa entende de um jeito próprio e você entendeu do seu jeito. Ela escreve as dúvidas que ela tem quando é obrigada a fazer uma escolha. Nós também somos assim. Se pudéssemos fazer tudo o que desejamos seria melhor, mas não é possível”.13

O sentimento de angústia, revelado em forma de resumo e expresso por Râmios Nascimento identifica o estado de tensão e muitas vezes de conflito interno com que se defrontam os estudantes da Terceira Idade. É o significado na prática de que a estrada para atingir o nível de conhecimento a que se propõe é árdua e sofrível. E esse sofrimento se acentua ainda mais quando se está diante de sujeitos que abrem mão de suas experiências no passado, na luta por um progresso pessoal como meio de construir o futuro. É expressamente significativa a alegação de Râmios, em primeiro plano, de que sua dificuldade de entendimento de um texto simples é pela ignorância, ou mais precisamente por uma culpa que principia pela sua história em Saúde, cidade onde nasceu no interior baiano. Se pertencesse desde o nascimento a uma outra estrutura social, certamente decifraria o texto com mais simplicidade ou teria outros critérios mais “profundos” de análise.

O depoimento é uma auto-análise e precisa ser estendida à problemática social. “Talvez a minha ignorância seja a culpa de tudo isso” é o indicativo mais forte desse estado de aflição tomado pelo estudante. O confronto se apresenta de forma clara. Ao reconhecer a simplicidade em Adélia Prado na interpretação do texto Solte os Cachorros, o autônomo reconhece o quanto está distante desse universo. E na impossibilidade, não de entender, mas de analisar o conteúdo simples, todo o seu plano existencial é colocado em discussão. Até porque a universidade aberta tem exatamente esse significado para Râmios e muitos outros estudantes: é o mais importante instrumento para poderem continuar existindo como sujeitos históricos e construir uma realidade de forma diferente da qual vivenciam.

Mas há um outro valor expresso pelo autônomo em seu depoimento que conduz a outra forma de interpretação. Não se pode negar que Râmios atravessa um período de angústia e ao mesmo tempo se defronta com uma forma de saber, em vez de conhecimento, do qual nem ele mesmo tem a percepção. Ao procurar atingir o nível acadêmico com a mesma velocidade com que sonha em mudar de emprego, para alterar o ritmo de seu presente, Râmios deixa de compreender conscientemente que está passando por um período de rica experiência.

O texto de Adélia Prado tem o mesmo vigor causal em sua vida em relação às perguntas feitas pelo repórter, quando tentava entrar no curso de oratória, citado no primeiro capítulo. “Chorei. Você sabe o que é sair lágrimas dos olhos. Eu chorei. Porque eu não soube responder as perguntas”. (Râmios, Entrevista: 12/2000). As lágrimas que correram pelo seu rosto não foram em vão. Elas se tornaram à demonstração de que só é possível se transformar e mudar a própria realidade quando todo o ser é envolvido, provocado e levado a um sentimento de plenitude humana. A angústia instigada pelo texto de Adélia Prado incide nesse mesmo valor: ele provoca um outro estado de comportamento de Râmios no qual ele busca incessantemente se identificar.

Só que é nessa busca incessante que se corre o risco da pobreza da experiência e todo o poder da memória no futuro. Em momento algum esse problema pode ser deixado de lado, até porque o significado da experiência começa a ser vinculado artificialmente à duração da permanência na universidade e não na intensidade que se vivencia. Essa preocupação consumou-se durante um dos diálogos fora da sala de aula, em que Râmios descrevia sua participação em um dos seminários e que considera fundamental para se sair bem nas próximas apresentações. Disse que os integrantes de seu grupo foram bem porque já estudam há anos na USP e, em tom de conselho de quem já compreendeu como se estrutura essa nova realidade, disse a outro companheiro da Terceira Idade. “Se nós ficarmos quatro anos aqui estudando vamos poder estar do mesmo jeito”. (Râmios, Anotações, 11/2000).

Há uma confusão que se faz entre tempo de aprendizagem e intensidade de experiência. A segunda é sempre interpretada como resultante da primeira, como se no decorrer de determinado período ou pelo fato de ter passado por diversas disciplinas na universidade se conquista automaticamente uma experiência de vida. Além desse automatismo falacioso, há outro agravante que torna esse sentimento de conquista automática deslocado: é o de quanto mais os estudantes buscam avançar no processo de conhecimento, mais incorporam uma prática de ação de se distanciar cada vez mais das experiências de seu passado. É como se parte de sua vida ficasse em uma outra estrutura da qual hoje já não tem mais nenhum significado.

É isso o que pode ser interpretado na resposta de Râmios sobre sua cidade natal. “Eu nem sei quantos habitantes têm porque quando eu saí de lá, sinceramente, nem fiquei sabendo a situação daquela cidade”. (Râmios, Entrevista: 12/2000). Se a pergunta fosse feita em 1960, dois anos depois de ele ter migrado para São Paulo, talvez a resposta tivesse um outro significado. Porém, quatro décadas depois de ter deixado Saúde, a enunciação adquire um peso de desprezo. Não se sabia nada quando ele decidiu deixar a cidade, e em nome do desenvolvimento pessoal, o que foi construído ou destruído em Saúde foi esquecido ou sequer faz parte de sua preocupação. O fato de ser filho de uma família analfabeta teve dois pesos em sua vida: ao mesmo tempo em que o instigou a mudar sua realidade no presente, em nome de um futuro promissor, o fez abandonar as vivências do passado. “Eu não posso continuar no mesmo ritmo de lá. Tenho que fazer alguma coisa” foi o condutor da sua vida.

A idéia que se projeta em todo esse comentário é o da possibilidade de mudar a realidade por meio de seu próprio esforço. E o conhecimento científico, a ser adquirido na universidade, será o diferencial como ser humano em uma sociedade onde o principal referencial é quem tem maior capacidade de análise da informação. É um paradoxo típico da sociedade contemporânea: quanto mais o individualismo se fortalece, e o homem se distancia de suas origens, mais ele perde seu espaço de influência social.

(...) a individualidade é prejudicada quando cada homem decide cuidar de si mesmo. À medida que o homem comum se retira da participação nos assuntos políticos, a sociedade tende a regredir à lei da selva, que esmaga todos os vestígios da individualidade. O indivíduo absolutamente isolado foi sempre uma ilusão. As qualidades pessoais mais estimadas, tais como independência, o desejo de liberdade, a simpatia e o senso de justiça, são virtudes tão sociais quanto individuais”. (HORKHEIMER, 1976: 143).


É exatamente por isso que a proposta inicial da Universidade Aberta da USP não é desejar que os estudantes tenham simplesmente um semestre feliz, nem que permaneçam em casa, ranzinzas. Mas que saiam às ruas e façam protesto para combater os maus políticos que estão destruindo a terra. Entretanto, um dos parâmetros mais utilizados pela coordenadora Ecléa Bosi está na interrogação: Afinal, para que serve termos um passado, memória e experiência? Lê-se aqui experiência de vida e não estritamente conhecimento científico.

Pode-se dizer que o mesmo sentimento que toma conta de Râmios, de um avanço particular na aquisição de conhecimento irreversível, está vivenciando o estudante David Barbosa de Menezes. A noite do dia 30 de novembro de 2000 foi especial para o autônomo. Pela primeira vez em seus 71 anos de vida, David apresentou um seminário14. Com as mãos trêmulas, a voz ainda tímida e se esquivando de olhar para o público – uma técnica utilizada para não se perder na leitura -, o autônomo vivenciou uma emoção que há tempos sonha em atingir: se comunicar com o povo. Naquele momento ele se sentiu como uma pessoa esclarecida.

Ao terminar o seminário ele contou aos alunos sua história de vida e explicou como a ignorância, por achar que depois de uma certa idade não se poderia mais estudar, o manteve afastado do que acredita ser a essência da vida. Dessa vez não era mais uma representação de um ser esclarecido, como quando trabalhava como remarcador de preços em supermercado. “O serviço de reposição eu gostava porque eu só vivia com o carimbo na mão. Você vestia um avental branco, aquilo parecia que a gente era médico. Igual um médico no meio do povo”. (David, Entrevista: 12/2000 - 02/2002). No seminário ele tinha a certeza que estava passando um conhecimento, ou mais precisamente, uma informação aos mais jovens.

Esse fato o instigou com mais força a seguir o caminho para realizar o seu desejo de ser um homem formado para se comunicar com o povo. “É comunicar. Tem uma reunião aí fora, num lugar aí, você ser chamado para ir lá, dar um depoimento; falar com um repórter”. (David, Entrevista: 12/2000-02/2002) O que representa ser um homem formado, com conhecimento científico? A essência da resposta está contida mais na identificação do que o autônomo não é, do que aquilo que deseja ser. “Eu tenho certeza que eu vou chegar naquilo que toda vida eu tive vontade de fazer. Mas hoje, como eu te falei, não sou uma pessoa formada é por causa das dificuldades e também por ignorância. Mas se não fosse isso eu já era um homem formado. Era um homem da sociedade, no meio dos homens”. (David, Entrevista: 12/2000-02/2002).

Embora a saudade o mantivesse vinculado a Amargosa, onde nasceu, David parece não encontrar mais sentido nas experiências do passado. Há algo além do desenraizamento. As lembranças claras das festas, da antiga namorada Dionilia, das canções e do companheirismo na construção da casa e da vida de lavoura daquele lugar, não amenizam uma frase de auto-incentivo que poderia ser colocada na mesma tônica de Râmios: “não posso mais continuar no ritmo de lá”. Como David mesmo confessa: “Eu sinto muita saudade de lá, mas hoje eu estou satisfeito aqui em São Paulo; é porque naquela época, você via o que acontecia com as pessoas, como é que falavam, era tudo serviço. Era de pessoas que não tinham o esclarecimento, pessoas que não tinham estudo, não tinham nada”. (David, Entrevista:12/2000-02/2002). A possibilidade de estudar na USP o faz crer ainda mais na realização de seu desejo e de escrever sua vida em uma folha em branco ao virar a página do passado. “Eu não sei, mas eu tenho muita vontade de fazer muita coisa daqui para a frente”.

Essas são afirmações do que hoje se denomina como sociedade da informação e da comunicação. Sempre se remete esse termo às novas tecnologias de informação como ponto inicial de análise e em seguida se prolonga para a cultura. A proposta desta pesquisa é exatamente o contrário. Procura-se partir dos conceitos incorporados pelos estudantes como identidade para entender se esse movimento implica em uma construção da história pelos homens ou se eles são conduzidos por ela. Há de certa forma uma preocupação com os desenvolvimentos individuais, acompanhados de um discurso de que todo esse aprendizado se reverta para o social. Só que em um sistema social em que o aprendizado se estabelece de forma contínua, no infinito, delegada ao plano da informação, essa ação é sempre deslocada para um futuro mantido como estático: ou porque o idoso se considera jovem e, portanto precisa estar na “crista da onda”, ou porque atingiu a velhice, e sem esse poder de manter-se ativo, sente-se a frustração de estar só, de não mudar mais a realidade.

No primeiro momento há uma mera adaptação em relação a um determinismo tecnológico. No segundo momento não há como se esquivar do exemplo de Donana. Por outro lado, o conhecimento científico, que contribui para alguns estudantes reafirmar o significado de suas vivências, atua de modo negativo, como o desmoronamento das experiências do próprio passado. É uma incoerência que se identifica ao se analisar os idosos na universidade aberta. E a análise que implica em todo esse processo pode ser visualizada no modo como cada estudante enfrenta as situações no cotidiano.

A tensão entre esses dois pólos se mantém pelo progressivo aumento de intensidade que se busca em acordo com o pressuposto, contido na proposta inicial do projeto USP, de possibilitar aos jovens e velhos trocarem experiências em sala de aula. O objetivo é claro: contar a experiência vivenciada em diferentes contextos históricos-sociais por cada pessoa. O problema é que o entrar na universidade traz como concorrente paralelo à experiência de vida e com ela a necessidade de encontrar justificativas por meio do conhecimento científico. Os exemplos mais práticos da vida cotidiana, antes entendidos sobre um saber, agora são revertidos para outra instância argumentativa. A educação dada aos filhos não pode ser mais expressa na simplicidade do saber cotidiano e sim numa construção de argumentos estabelecidos por autores, mesmo que eles estejam ligados à auto-ajuda. A reafirmação de que se está educando dentro dos princípios atuais e isso representará sucesso no futuro é delineado por critérios vinculados ao que se entende por pensamento moderno.

Até mesmo a descoberta da importância de ouvir os outros durante as conversas no cotidiano só é compreendida quando se participa das aulas na faculdade. “Até os 50 anos eu era meio ‘tapada’ nessa área. Depois que eu fui estudando, fui descobrindo. Fui descobrindo: “você tem direito também”, “você tem que viver”. Não é só viver para o marido, para os filhos, pra sociedade ou para a família. E os seus netos, cadê os seus netos? Então descobri que você tem que ter seu tempo. Pelo menos uma hora por dia, você tem que dedicar para você”. (Esther, Entrevista: 11/2001). O conhecimento que adquiriu na universidade atinge até a descoberta de expressões de sentimentos que consideraríamos como fora do plano da universidade. “Se você está nervoso ou alguma coisa, vá dar uma caminhada. Daí o seu organismo vai liberar a endorfina, que é o hormônio da alegria. Se você não fizer um exercício físico ou uma caminhada, o organismo não produz esse hormônio que é da alegria, da felicidade”. (Esther, Entrevista: 11/2001).

Tem-se a impressão de que quanto mais o grupo é instigado a expor suas vivências aos jovens, mais eles colocam as experiências do passado em segundo plano e creditam que com isso seguem o rumo certo da transformação. A questão não está em desconsiderar completamente o papel do conhecimento na vida dessas pessoas. Mas em criticar esse movimento de substituição de um saber cotidiano pelo conhecimento científico. E nesse movimento pode ser identificado um desvio do que se concebe como experiência.

O desafio proposto pela universidade, de troca de experiências entre jovens e velhos em sala de aula, é sintomático: há na proposta a clareza de que a sociedade atravessa um momento do que o então cardeal Dom Paulo Evaristo Arns chegou a chamar de incomunicação. “A incomunicação se torna particularmente dolorosa em nossos tempos, por ser sentida na área em que ela é mais intolerável: no convívio. Ainda mais quando ela nos impede de sermos plenamente homens. E, afinal, quando se torna o obstáculo principal à convivência dos homens”. (MELO, 1979:54). Há uma ausência de comunicação que se contradiz ao período em que atravessamos. E é exatamente esse o teor do problema. Vinculam-se os avanços tecnológicos como se eles fossem conduzir automaticamente uma melhoria nas relações sociais, mais especificamente no exercício de comunicação. Assusta-se que em pleno século XXI, na era que poderia ser chamada da robótica, da realidade virtual, nos escandalizamos ainda com essa ausência de comunicação. O que se apresenta como crise da experiência é provocado exatamente por esse deslocamento do desenvolvimento humano à máquina.

O pensamento contemporâneo que atualmente traduz avanços tecnológicos com avanços sociais está delineado em um processo, cuja metáfora foi apontada por Neil POSTMAN (1994). “A partir da proposição de que os humanos são em certos aspectos como as máquinas, passamos para a proposição de que os humanos são pouco mais que máquinas e, por fim, que os humanos são máquinas. E depois, como seria inevitável, (...) passamos para a proposição de que as máquinas são seres humanos”. (POSTMAN, 1994: 118). Ao se atribuir um valor cada vez mais vinculado às tecnologias, atrelou-se a ela a questão da cultura como conseqüência automática do evoluir dos investimentos econômicos. Só que nem sempre se atém ao tipo de comportamento e ao esforço imposto ao arbítrio na modernidade para os homens e mulheres continuarem a acompanhar esse avanço.

É exatamente esse contexto que está subscrito na análise da antropóloga Guita DEBERT sobre o que representam os novos estudantes. “A construção de uma imagem positiva do envelhecimento entre os alunos não tem como referência a idéia dos idosos como detentores de sabedoria e de experiência. É, antes, a disponibilidade para o aprendizado e para novas experiências que dá uma identidade aos estudantes e uma particularidade ao envelhecimento de cada um”. (DEBERT, 1999: 155). O envelhecimento positivo não se refere mais à idéia dos idosos como detentores de sabedoria e da experiência. Mas é preciso indagar: de que sabedoria e de que experiência se está analisando? Em uma sociedade em que se valoriza estritamente o saber científico, não seria de se admirar que o saber cotidiano fosse deslocado para segundo plano. Ora, então, o que se apresenta como novo comportamento de estudantes não é um processo natural da evolução da sociedade, mas o resultado de anos de exigência, de resistência e de disputa de forças do econômico sobre a cultura. O mesmo debate deve ser feito em relação ao termo experiência. A experiência de vida tem o mesmo impacto no sujeito do que a experiência mediada? Em uma realidade em que o novo é a todo o momento estabelecido como o ponto a ser alcançado, nada mais ilustrativo do que a análise de Debert descrita acima.

O que se reforça a todo o instante é o discurso da disponibilidade de novos desafios ser o que dá sentido positivo ao envelhecimento. Exemplo disso pode ser constatado na descrição de DEBERT sobre um trabalho desenvolvido em um asilo. Com o objetivo de aproveitar o interesse dos idosos de fazer leitura de textos, uma terapeuta ocupacional marcou o horário e iniciou as atividades. O conto relatado aos idosos trata de uma aldeia imaginária onde os jovens decidem, repentinamente, fazer uma revolução, eliminando todos os velhos. Os jovens assumem então o poder, e uma aldeia vizinha, percebendo a ausência de idosos no local, imediatamente declara guerra aos revolucionários. A situação é resolvida por um dos velhos, que, tendo sobrevivido ao massacre, ensina aos jovens uma frase misteriosa que deveria ser pronunciada diante dos inimigos. Ao ouvir a frase plena de sabedoria, os inimigos recuam, desistindo da guerra, certos de que nem todos os velhos foram eliminados. A paz é restabelecida. (DEBERT, 1999: 128).

Ninguém duvidaria que o conto é uma proposta de debate em que se procura valorizar a sabedoria e a experiência dos mais velhos. Há de certa forma o indicativo de que a destruição dos mais velhos indica a perda de algo tão precioso, um tesouro. Ao mesmo tempo em que se estabelece a destruição do passado, há automaticamente uma ameaça ao futuro. Os velhos preservam a aldeia não por sua força física, mas pelo saber cotidiano. Ocorre que todo o debate que poderia suscitar entre os idosos sobre essa questão não os instigou. Pior: a reação de silêncio após a exposição da terapeuta deixou um indicativo de que alguém estava em outra realidade. A resposta dada pelos residentes sobre a insistência da terapeuta é importante para o debate que se faz nesta pesquisa.

“Eu tenho muita coisa para contar, para quem quiser ouvir. Mas tenho que aproveitar o dia de hoje. A velhice é viver a cada instante, para o velho não há futuro. Eu quero pôr uma pedra no passado” (DEBERT, 1999: 129). Quando a terapeuta invoca a importância da memória, vem outra resposta, desta vez de um senhor: “o velho assim não existe. Ele quer viver e aproveitar. Nós temos a mesma vontade de vocês, o físico às vezes não ajuda”. Outra senhora concorda: “A aparência às vezes é boa, mas o físico não ajuda”. Outro afirma: “Eu ainda estou aprendendo até hoje, estamos sempre na fase de aprender. Nós procuramos aprender com os mais jovens. Eles (os jovens) não procuram nos entender. O jovem acha que o velho só fala bobagem. O conflito dos jovens nós também tivemos” (DEBERT, 1999: 129-130).

Assim como DEBERT encerra esse texto, pode-se apontar que estamos aqui diante de duas realidades que se apresentam paralelas. Não são só esses velhos residentes do asilo e os estudantes da Terceira Idade, que Debert acompanhou nessa pesquisa cujo tempo se estendeu por 10 anos, que querem literalmente pôr uma pedra no passado. É o discurso que está mais ligado aos que se encaixam no que definimos como integrantes da Idade do Lazer. Eis a contradição apontada pela antropóloga:

Procura-se criar uma identidade positiva da velhice, como a memória, a sabedoria e a experiência vivida. É essa identidade, no entanto, que os residentes procuram dissolver, proclamando a cada momento as diferenças que separam cada um dos demais residentes e dos velhos em geral. A cada investida, em termos de criação de uma identidade positiva, eles reagem mostrando que a idade cronológica não é sinônimo de sabedoria nem experiência. Cada momento vivido é uma nova experiência e em qualquer idade há muito o que aprender. Os velhos também são tiranos, chatos e indiscretos. O avanço da idade cronológica não é garantia para um comportamento adequado” (DEBERT, 1999: 132).
A idade cronológica não é sinônima de sabedoria nem experiência. Essa expressão indica que o idoso exige que ele seja tratado como homem ou mulher. Como um ser humano. O diferencial entre os seres humanos não está teoricamente somente nos anos vividos. Esse reconhecimento, por si, tem um valor positivo porque se parte de uma constatação: o homem velho, na modernidade, está nu. E é isso que se compreende quando uma das senhoras diz que não se diferencia da pesquisadora jovem. O velho tratado restritamente como memória, como prisioneiro da recordação, sem que se valorize o seu presente, não existe, como bem realçou uma das senhoras. É preciso se deter primeiramente nesse discurso antes de prosseguir a análise.

Por que o velho somente enquanto memória não existe? A resposta parece estar na exigência com que somos levados a viver. A maioria dos depoimentos dos estudantes da Terceira Idade revela que houve um período em que se retiraram da vida, para vivenciarem uma outra vida da qual aparentemente não se tinha escolha. O significado disso, na prática, é que foi necessário abandonar um projeto de vida, um sonho, o princípio de prazer, para se adaptar à realidade. O retorno aos estudos, a possibilidade de fazer novas coisas no presente, além daquela realidade que se restringiu em sua vida, adquire um peso com dimensões existenciais. Talvez esteja aqui a compreensão do que Bosi nomina como reproposta. É a retomada da vida em que se defronta diante de projetos abandonados no futuro. É o que confessa a estudante Dalva Matoso Argoud ao dizer que saiu de casa no momento em que acabaram as suas obrigações com os filhos. E ela a todo instante procura deixar claro que em nenhum momento se anulou. “Enquanto os meus filhos estavam em casa eu não me anulei, a gente não se anula. A gente passa as informações, a gente educa os próximos cidadãos. Então eu acho que enquanto eles estavam em casa, eu fiz a minha obrigação de mãe. Eu criei meus filhos. Hoje são cidadãos maravilhosos. E já estão livres. Eu saí. Saí. Voltei para a vida. Voltei para a vida fora da minha casa”. (Dalva, Entrevista: 06/2001).

O homem velho quer estar nu, luta para ser reconhecido como homem com capacidade de sentir e vivenciar novas experiências, entretanto a pedra que se quer pôr no passado descaracteriza o que parecia anunciar como uma nova identidade. Soma-se a isso a rejeição ao ser velho, já que o que se procura alcançar é a vitalidade da juventude. O desvio conceitual, em que a sabedoria e a experiência perdem sua força, aponta para outro discurso em que é preciso sobreviver nessa nova estrutura. Se o ato de relegar o passado a segundo plano trouxe uma conquista para o ser humano contribuir ativamente na sociedade, a questão já mereceria um debate. Mas a anulação do sujeito, em nome de um desvio da construção da subjetividade deve ser alvo de denúncia. Pois o que está em jogo é naturalizar a perda da sabedoria e da experiência.

O sujeito é preparado para esse desvio justamente no momento em que se abre a possibilidade de uma reproposta. Prova disso é o texto de Julio Simões em que ele analisa o aposentado como ator político. Não causa espanto que a proposta contida nos Programas de Preparação para a Aposentadoria, os chamados PPAs, se encarregam de atribuir esse mesmo critério identificado por DEBERT e que se estende por todos os setores da sociedade contemporânea.

Os PPAs (Programa de Preparação para a Aposentadoria) procuram, sobretudo, ressignificar o envelhecimento diluindo o sentido da velhice enquanto momento intrínseco de sabedoria proporcionada pela experiência, em favor da idéia de que esse é um momento propício ao aprendizado de novas coisas. A educação é ressaltada como necessária para que o indivíduo aproveite as vantagens criadas para a velhice na sociedade contemporânea. Os PPAs incentivam esse aprendizado através da idéia da preparação, que é seu objetivo expresso oferecer. Ao dissociarem a experiência dos anos vividos da sabedoria, valorizam a idéia de que educação deve ser uma atividade permanente na vida dos indivíduos, e não somente em sua fase inicial”. (LINS DE BARROS, 2000: 44-45).
Não há como dissociar a proposta do Programa de Preparação para a Aposentadoria do que se identifica como identidade positiva dos estudantes da Terceira Idade. Se nos detivéssemos estritamente nesse fato já teríamos um paralelo que não poderia se esquivar de uma análise aprofundada. Os PPAs são programas implantados pelas empresas, e não há dúvidas de que elas estejam sempre em sintonia com o atualizado. E a modernidade está ressignificando a velhice com uma prática excludente. Ao propor a inclusão do homem no contínuo da modernidade é preciso que ele se desfaça de algo substancial. E essa troca está em diluir o sentido da velhice como momento de sabedoria proporcionada pela experiência.

Na prática, isso implica que a sabedoria não tem mais consistência para o sujeito nessa nova realidade. O homem está liberto para o futuro da mesma forma que os jovens. Na busca da juventude, o caminho mais curto foi estabelecer como critério de sujeito histórico somente o fato de que todos passarão a vida inteira aprendendo.

O preparo que ela proporciona habilitaria o pré-aposentado ao desempenho de novos papéis, que podem estar ligados a atividades associativas, de lazer, familiares, artísticas, ou a uma nova carreira, se isso lhe trouxer prazer. O aprendizado que os PPAs divulgam deve possibilitar o resgate e a realização de antigos sonhos. Dá-se ênfase especial à idéia de que cada um deve ser preparado para a principal tarefa dessa fase: aprender a aproveitar suas vantagens e encontrar a satisfação pessoal almejada por todos”.(LINS DE BARROS, 2000: 44-45)
É difícil depois de encontrar nos PPAs a possibilidade de cada aposentado realizar antigos sonhos, dissociar o discurso de Dalva Argoud já descrito anteriormente. Ela é enfática de que não se anulou quando estava em casa. Mas sim, que saiu para a vida, fora de casa. O trabalhador é instigado a revalorizar seus sonhos, que por sinal também foi diluído em uma realidade conduzida pela norma industrial. Tanto que ele precisa ser preparado para voltar a viver novamente, sair para a vida fora da indústria. Mas o caminho já está preparado: você deve ter consciência de que não é o detentor da sabedoria. Para alcançar a satisfação pessoal almejada por todos é preciso que se oriente por essa nova identidade que se insurge: aprender continuamente, para não ficar preso a uma estrutura à margem da sociedade atual, da qual não se sabe se terá mais tempo suficiente de passar por outra preparação para voltar a viver.



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