Capitulo II



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Introdução
O presente trabalho tem como intuito de realizar uma pesquisa critica de alguns estudiosos rastreando na Fortuna Critica da obra de Clarice Lispector, os textos que abordam o romance A Paixão segundo G.H. e suas visões significativas e interpretativas, que sinalizam um salto primordial ao entendimento dos escritos de Lispector.

Faz-se necessário ao entendimento do romance A Paixão Segundo G.H., uma atenta leitura dos principais estudos constituídos a partir da obra, que desvendam e digerem o real significado do romance, tido como obra máxima de Clarice Lispector. Assim, a leitura da fortuna crítica do romance é tão importante quanto a leitura do próprio texto clariceano, uma vez que fornece subsídios teóricos indispensáveis ao leitor.

O que movemos a escrevê-lo foi e é um desafio que pretendo dar a continuidade e levar em meus estudos de especialização acadêmica, pois esta pesquisa, na verdade resenho alguns textos que exerce um levantamento de preparação para assim poder melhor entender a linguagem e a forma de ensinar o leitor clariceano a refletir sobre si mesmo, influenciando a ótica de ver o mundo e assim conquistar o mundo e saber viver com sabedoria.

Uma vez que sempre consideramos a obra de Lispector fascinante e principalmente PSGH, é o renascimento do homem pelo homem; mas confesso é de difícil análise, tratando a nosso ver de umas das obras mais complexas e sedutoras de nossa literatura. Sendo que ao mesmo tempo uma das obras menos ancoráveis de discursos críticos que rastreiam, examinam toda características existentes, ou seja, pela riqueza de elementos existentes em toda sua obra.

No capítulo um, que divide em dois subtítulos, sendo que o primeiro é uma breve biografia da vida da autora aqui estudada e na seqüência um percurso crítico de toda sua obra, a fim de contextualizar tal afirmação e alguns de seus desdobramentos.

No segundo capítulo abordaremos a forma e características de Clarice Lispector em suas obras, e em seguida faremos um breve conceito e termo da epifania, tão presente em sua obra.

No seguinte capitulo e último, segue um relato de estudo da obra A paixão segundo G.H., sob a visão de alguns críticos, e na seqüência a recepção critica de PSGH que na verdade como já dito acima resenho alguns textos fundamentais, na qual privilegiando certos aspectos do romance que tem considerado conflitante, já que o mesmo provoca até os dias de hoje levantamentos de estudos que propõe a dar conta de sua complexidade.


CAPÍTULO I

Introdução

Este capítulo elucida em qual universo teórico insere esta pesquisa, e está divido em duas partes, sendo a primeira apresentamos a biografia da escritora e em seguida um percurso critico de suas obras percorrendo o tempo seguido pela criticas de estudiosos sobre as suas obras.


1.1. Biografia de Clarice Lispector
Clarice nasce em Tchelchenik, na Ucrânia, em 1920. Chega ao Brasil com os pais e as duas irmãs aos dois meses de idade, instalando-se em Recife. A infância é envolta em sérias dificuldades financeiras. A mãe morre quando ela conta 9 anos de idade. A família então se transfere para o Rio de Janeiro, onde Clarice começa a trabalhar como professora particular de português. A relação professor/aluno seria um dos temas preferidos e recorrentes em toda a sua obra - desde o primeiro romance: Perto do Coração Selvagem.

Ela estuda Direito, por contingência. Em seguida, começa a trabalhar na Agência Nacional, como redatora. No jornalismo, conhece e se aproxima de escritores e jornalistas como Antônio Callado, Hélio Pelegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Alberto Dines e Rubem Braga. Os passos seguintes são o jornal A Noite e o início do livro Perto do Coração Selvagem - segundo ela, um processo cercado pela angústia. O romance a persegue. As idéias surgem a qualquer hora, em qualquer lugar. Nasce aí uma das características do seu método de escrita - anotar as idéias a qualquer hora, em qualquer pedaço de papel.

Em 43, conhece e casa-se com Maury Gurgel Valente, futuro diplomata. O casamento dura 15 anos. Dele nascem Pedro e Paulo. No ano seguinte, ela publica Perto do Coração Selvagem. Em plena Segunda Guerra Mundial, o casal vai para a Europa. Perto do Coração Selvagem desnorteia a crítica literária. Já no primeiro livro, identifica-se o estilo muito pessoal da escritora. Nas páginas, Clarice explora pela primeira vez a solidão e a incomunicabilidade humana, através de uma prosa inquieta, próxima da poesia em determinados momentos.

Rumo à Europa, os Gurgel Valentes passam por Natal. De lá para Nápoles. Já na saída do Brasil, Clarice mostra-se dividida entre a obrigação de acompanhar o marido e ter de deixar a família e os amigos. Quando chega à Itália, depois de um mês de viagem, escreve: "Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar".

Clarice permanece em Nápoles até 1946. Durante a II Guerra, presta ajuda num hospital de soldados brasileiros. Uma dúvida: um serviço prestado como cidadã brasileira ou como mulher de um diplomata brasileiro? Como escritora, ela sente a presença do sucesso. Por telegrama, sabe do prêmio recebido pelo romance deixado no Brasil. Mantém uma correspondência constante com os amigos que deixara para trás. Em Nápoles, em 44, conclui O Lustre, livro iniciado no Brasil e que seria publicado em 1946. Nessa época, Clarice Lispector se corresponde com Lúcio Cardoso, que não gosta do título do livro: acha-o "mansfieldiano" e um pouco pobre para pessoa tão rica como Clarice.

No fim da guerra, Clarice é retratada por De Chirico. Em maio de 45, ela manda uma carta às irmãs Elisa e Tânia, contando o encontro com o artista e falando sobre o final da guerra na Europa.

Quando O Lustre é lançado, Clarice está no Brasil, onde passa um mês. De volta à Europa, transfere-se para a Suiça, "um cemitério de sensações", segundo a escritora. Durante três anos, passa por dificuldades em relação à escrita e à vida pessoal. Em 46, tenta iniciar A Cidade Sitiada, livro que sairia em 49. Vendo-se impossibilitada de escrever, coleciona frases de Kafka, referentes a preguiça, impaciência e inspiração.

Para Clarice, a vida em Berna é de miséria existencial. A Cidade Sitiada acaba sendo escrito na Suíça. Na crônica "Lembrança de uma fonte, de uma cidade", Clarice afirma que, em Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho Pedro e por ter escrito um dos livros "menos gostados". Terminado o último capítulo, dá à luz. Nasce então um complemento ao método de trabalho. Ela escreve com a máquina no colo, para cuidar do filho.

O período na Suíça caracteriza-se pela saudade do Brasil, dos amigos e das irmãs. A correspondência que recebe não lhe parece suficiente. Até 52, escreveria contos, gênero em que Clarice Lispector talvez não tenha sido alcançada na literatura brasileira. Alguns Contos foi publicado em 52, quando ela já tinha deixado Berna, passado seis meses na Inglaterra e partido para os Estados Unidos, acompanhando o marido.

Em carta às irmãs, em janeiro de 47, de Paris, Clarice expõe seu estado de espírito... Em 95, o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista do jornal. O Estado de São Paulo, publicou uma carta que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira. Ele comenta, no artigo, que não há nada que comprove sua autenticidade, a não ser o estilo-não estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A beleza e o conteúdo de humanidade que a carta contém valem a pena a publicação...”.

Em 1950, na Inglaterra, Clarice inicia o esboço do que viria a ser A Maçã no Escuro, livro publicado em 61. Antes de se fixar em Washington ela passa pelo Brasil. Trabalha novamente em jornais, entre maio e setembro de 52, assinando a página "Entre Mulheres", no jornal. O Comício, no Rio, sob o pseudônimo de Tereza Quadros. Em setembro vai para os Estados Unidos, grávida. Durante os oito anos de permanência no país, vem ao Brasil várias vezes. Em fevereiro de 53, nasce Paulo. Ela continua a escrever A Maçã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os contos de Laços de Família e a literatura infantil. O primeiro livro para crianças seria O Mistério do Coelhinho Pensante , uma exigência do filho Paulo. A obra ganharia o prêmio Calunga, em 67, da Campanha Nacional da Criança. Ela ainda escreveria três livros infantis: A Mulher que Matou os Peixes, A Vida Íntima de Laura e Quase de Verdade. Nos Estados Unidos, Clarice Lispector conhece Érico e Mafalda Veríssimo, dos quais torna-se grande amiga.

Veríssimo e família retornam ao Brasil em 56. Entre os escritores, inicia-se uma vasta correspondência. No primeiro semestre de 59, o casal Gurgel Valente decide-se pela separação. Clarice volta a morar no Rio de Janeiro, com os filhos. Sobre o "conciliar" casamento/literatura, afirmava que escrevia de qualquer maneira, mas o fato de cumprir o seu papel como mulher de diplomata sempre a enjoou muito. Cumpria a obrigação. Nada além. Na volta ao país, mais um período de dificuldades afetivas e financeiras. Ela prefere a solidão ao círculo que tinha relação com o ex-marido. O dinheiro que recebia como pensão não era suficiente, nem os recursos arrecadados com direitos autorais. Clarice retorna ao jornalismo. Escreve contos para revista Senhor, torna-se colunista do Correio da Manhã, em 59, e, no ano seguinte, começa a assinar a coluna Só para Mulheres, como "ghost writer" da atriz Ilka Soares no Diário da Noite. A atividade jornalística seria exercida até 1975. No final dos anos 60, Clarice faz entrevistas para a revista Manchete. Entre 67 e 73 mantém uma crônica semanal no Jornal do Brasil, e, entre 75 e 77, realiza entrevistas para a Fatos & Fotos.

A década de 60 principia com a publicação do livro de contos Laços de Família. Seguiriam-se as publicações de A Maçã no Escuro, em 61, livro que recebeu o Prêmio Carmen Dolores Barbosa, A Legião Estrangeira, em 62, e A Paixão Segundo G.H., em 64.

Entre 65 e 67, Clarice dedica-se à educação dos filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos idiomas e da republicação de diversos livros, a situação econômica de Clarice é muito difícil. Em setembro de 67, acontece o acidente que deixa marcas no corpo e na alma da escritora - um incêndio no quarto que ela tenta apagar com as mãos. Fica gravemente ferida, passa 3 dias entre a vida e a morte. Três dias definidos por ela como "estar no inferno.”

Em 69, publica o romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Em 71, a coletânea de contos Felicidade Clandestina, volume que inclui O Ovo e a Galinha, escrito sob o impacto da morte do bandido Mineirinho, assassinado pela polícia com treze tiros, no Rio de Janeiro.

Os últimos anos de vida são de intensa produção: A Imitação da Rosa (contos) e Água Viva (ficção), em 1973; A Via Crucis do Corpo (contos) e Onde Estivestes de Noite, também contos, em 74. Visão do Esplendor (crônicas), em 75. Nesse ano, é convidada a participar, em Bogotá, do Congresso Mundial de Bruxaria. Sua participação limita-se à leitura do conto O Ovo e a Galinha. No ano seguinte, Clarice Lispector recebe o 1° prêmio do X Concurso Literário Nacional, pelo conjunto da obra.

Em 77, concede entrevista à TV Cultura, com o compromisso de só ser transmitida após a sua morte. Ela antecipa a publicação de um novo livro, que viria a se chamar A Hora da Estrela, adaptado para o cinema nos anos 80 por Suzana Amaral.

Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário. Queria ser enterrada no Cemitério São João Batista, mas era judia. O enterro aconteceu no Cemitério Israelita do Caju. Postumamente, foram publicados Um Sopro de Vida, Para Não Esquecer e A Bela e a Fera.

 
1.2. Um Percurso crítico
Ao publicar seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, Clarice Lispector provoca nos críticos da época reações de estranhamento, surpresa e satisfação. Num patamar isolado, a obra não dialogava com combativas experimentações do vanguardismo modernista, muito menos com o romance regionalista da década anterior. Assim o romance, recebido e lido pelo cenário das letras nacionais, estabeleceu-se num degrau de destaque.

Como uma das primeiras críticas acerca da obra de Clarice Lispector, o ensaio “No raiar de Clarice Lispector”, escrito em 1943 por Antonio Candido, ressoa como um voto de “boas-vindas” aos textos até então anônimos da escritora. Para Candido, numa época em que os romances publicados não encontravam a verdadeira exploração vocabular, a verdadeira aventura da expressão, o choque ao ler Perto do coração selvagem, ficção de estréia de Lispector, fora inevitável.

Ainda sob o olhar desse crítico, Perto do coração selvagem significou uma impressionante tentativa de levar a língua a domínios pouco explorados, forçando-a a se adaptar a um pensamento cheio de mistérios, fazendo da literatura uma aventura afetiva capaz de nos fazer penetrar nos labirintos retorcidos da mente: “É desta maneira que Clarice Lispector procura situar o seu romance. (...) O seu campo ainda é a alma, são ainda as paixões. (...) O seu ritmo é um ritmo de procura, de penetração que permite uma tensão psicológica poucas vezes alcançada (...)”.

Fazer da linguagem o seu máximo uso, dando vazão aos “labirintos retorcidos da mente” por meio do estilo e da expressão são os trunfos de Lispector elencados por Antonio Candido. Segundo o crítico, existe na escritora uma certa densidade afetiva e intelectual que não é possível exprimir se não procurarmos quebrar os quadros da rotina e criar imagens novas, novos torneios, associações diferentes das comuns e mais fundamentalmente sentidas.

Vemos, na linha de pensamento proposta por Candido, que em Perto do coração selvagem os vocábulos são obrigados a perder o seu sentido corrente, para se amoldarem às necessidades de uma expressão sutil e tensa, de tal modo que a língua adquire o mesmo caráter dramático que o entrecho. Ao fim do ensaio, o crítico sentencia o fazer literário da então estreante Lispector: “...porque a sua obra soube criar o estilo conveniente para o que tinha a dizer. Soube transformar em valores as palavras nas quais muitos não vêem mais do que sons ou sinais. A intensidade com que sabe escrever e a rara capacidade de vida interior poderão fazer dessa jovem escritora um dos valores mais sólidos e, sobretudo, mais originais da nossa literatura, porque esta experiência já é uma nobre realização.”

Na mesma esteira de Antonio Candido, o crítico Sérgio Milliet, em 1944, publica o que seria a confirmação de estilo e valor literário de Clarice Lispector, afirmando que ela tem:



Uma linguagem pessoal, de boa carnação e musculatura, de adjetivação segura e aguda, que acompanha a originalidade e a fortaleza do pensamento, que os veste adequadamente. (...) Essa harmonia preciosa e precisa entre a expressão e o fundo, a autora alcançou magistralmente. De uma maneira que só observamos até agora em certos escritores franceses e ingleses (...) o romance de estréia de Clarice Lispector a eleva de chofre a um plano de absoluto destaque em nossa literatura.
Segundo Milliet, pela primeira vez um autor nacional penetra até o fundo a complexidade psicológica da alma moderna. O crítico, quase visionariamente, aponta no romance de estréia qualidades posteriormente reconhecidas e reforçadas no correr dos anos. Em meio ao tom confessional – permitido pelo estilo impressionista do “diário” – que denuncia certo enfado frente ao exercício da crítica, Milliet expressa a “alegria da descoberta” da jovem escritora “de nome estranho e até desagradável, pseudônimo sem dúvida”, cujo romance o “enche de satisfação”. A leitura isolada de um único trecho já denuncia no “estilo nu” de Lispector traços marcados de “sobriedade” e “riqueza psicológica”, e a protagonista do romance – Joana – desperta no ensaísta um “interesse que não decai”, graças a seu evidente poder de invenção e expressão, “heroína de olhos fixos nos menores, nos mais tênues movimentos da vida”.

(...)


CAPÍTULO II

Introdução
Elucidaremos neste capitulo a forma e características da escritora em suas obras, histórias e contos aqui estudada, tem do sempre como marca a sensibilidade intuitiva, dando impressões em suas histórias. Em seguida um breve conceito de epifania tão presente em suas obras, pois em PSGH possui aspecto epifânico.

É um mistério. Quando penso numa história, eu só tenho uma vaga visão do conjunto, mas isso é uma coisa de momento, que depois se perde. Se houvesse premeditação, eu me desinteressaria pelo trabalho”.(Lispector)


2.1. A forma e Características de Clarice Lispector
A perspectiva teórica que insere este trabalho é a analise da obra, e segundo Abdala Junior as histórias de Clarice raramente têm um enredo, um começo, meio e fim, segundo os cânones narrativos tradicionais. Muitas vezes ela chamou atenção para isto, afirmando que, na verdade, não era uma escritora, mas sim uma sentidora, uma intuitiva: registrava o que sentia através da palavra escrita: um veículo, como outro qualquer. Daí a idéia de que seus livros, mais do que histórias contêm "impressões": "Isso mesmo frisava, os meus livros não se preocupam com os fatos em si, porque para mim o importante é a repercussão dos fatos no indivíduo". Muitas de suas obras apresentam, por isso mesmo, subtítulos explicativos, como, por exemplo, Pulsações de Um sopro de vida, como se estivessem indicando: não é um conto ou não é um romance. Deste modo, o estudo da produção literária de Clarice Lispector indica-nos um projeto crítico em relação aos padrões institucionalizados da escrita literária e da própria vida cotidiana em geral, podemos dizer que a literatura clariceana é voltada para si mesma, de modo que a ação narrada é a própria situação problemática das personagens em busca de si mesmas.

Diríamos, parodiando Borges, que Clarice, para construir sua escrita, se esquece para lembrar dos fatos pessoais como ficcionais, porque sempre partiu da premissa de que as coisas que lhe aconteciam tinham um sentido específico e oculto – como as humilhações, “Tortura e glória”, “Felicidade clandestina” etc. –, que pediam para serem reaproveitadas como artefatos para a ficção. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a arte não pode desvencilhar-se da vida. Não para Clarice. E com certeza os outros motivos foram o instrumento necessário para as outras tantas histórias claricianas.

Quanto á linguagem são formuladas, o mesmo diz que o estilo de Clarice permanece inalterado; todos os efeitos frásicos que conseguiu em Perto do Coração Selvagem repetem-se insistentemente nos demais romances e contos fazendo assim um modo de construção.

Essa repetição se dá, pelo menos, em dois níveis: num nível estilístico propriamente dito, pela utilização de anáforas, e no nível simbólico, reempregando as mesmas imagens convertidas em motivos recorrentes.

N a escritura de Clarice podemos definir que esta centrado no pólo metafórico da linguagem. Isto significa que predominam nelas operações situadas no eixo da seleção – substituição. A metáfora estranhada, oposta aos lugares na escritura de Clarice Lispector. Há, no seu texto, preferência pelos jogos metafóricos, em que se criam as associações de similaridade, em prejuízo das operações estilísticas, fundadas na contigüidade. É claro que as duas atitudes não se excluem, mas como diz Jakobson, manipulando nesse tipo de conexão, uma pessoa revela suas predileções espontâneas e seus esforços voluntários. Manifesta-se todo um modo pessoal de estruturar a frase e o discurso, de organizar a sintaxe, de dar relevo a certos aspectos de enunciação.

Digamos que o “estilo” de Clarice é pontuado de contrastes e analogias, que se traduzem, os primeiros, em oxímoros e paradoxos, e as segundas, em comparações e metáforas.

A retórica tradicional classifica o oxímoro e o paradoxo como variantes da antítese, refletindo uma realidade múltipla e contrastante, que corresponda, realidade múltipla e contrastante, que corresponda, no espírito humano, á necessidade de compreender uma idéia por oposição a outra. Dubois, na sua Retórica Geral, coloca o oxímoro no mesmo compartimento da antífrase, considerando sua aproximação da antítese como fantasia , pois esta é um metalogismo, por repetição , do tipo : A não é não – A.

Sua linguagem está cheio de estranhezas, de paradoxos, de expressões que, parecendo formular evidencias, manifestam a face chocante do óbvio:“e voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas” ( PSGH,p.8)

Os símiles ou comparações exprimem também essa atitude de estranhamento, que torna a sua imagem gética insólita e, por vezes, desafia a compreensão do leitor, que não pode entregar-se, diante de seu texto, a nenhuma espécie de fácil deleite.

Sua forma de linguagem se contorce em malabarismos sintáticos, torna-se de tal modo elástica, plástica, expressiva e exuberante, que pulsa como a vida. Por isso ainda o apelo do silêncio em sua obra. Por que quando a linguagem silencia, a pausa potencia todos os significados possíveis.

Segundo Oscar Mendes a frase clariceana adquire uma dimensão intocável, pois se tentar corrigi-la pela pauta do português corrente, teremos perdido a grande estilista que ela é. Ressaltando também a sua pontuação não obedece às normas da gramática portuguesa, nem os certos hábitos brasileiros de pontuar, tornando assim a pontuação umas das marcas singulares do seu estilo.

O monólogo interior assim com o discurso indireto livre são destinados a exprimir a sucessão irracional dos processos inconscientes ou a intercalar os pensamentos autônomos das personagens no discurso do narrador, conforme o caso, sem o aviso prévio de sinais gráficos.

A repetição a escritora utiliza como técnica e gosto pessoal, tomando para si a como redundância, visando porem a dizer alguma coisa, por meio da “cantilena enjoada”.

O discurso de Clarice aponta para o silêncio enquanto “grau zero” da escritora, porque, teoricamente, ela não acredita no poder da palavra. Aspirando a que a palavra diga o “ser” e concluindo que é impossível, Clarice vislumbra o silêncio, como única possibilidade de alcançar o indizível. No nível do discurso, o que ela mais se aproxima desse silêncio é a repetição, como corrosão do próprio significante. Assim, por uma espécie de paradoxo de desesperar tanto no signo verbal e votar-se a ele de maneira tão obsessiva e reiterante.

Clarice, em linguagem conotada, não questiona somente a literatura, isto é, a linguagem literária de si mesma ou a função social do escritor. Levando o questionamento da escritora, expresso em ficção. É o da própria linguagem, enquanto capaz de denotar o ser.

Utilizando novos significados retem como o epíteto de barroca, tendo constantemente o silêncio em mira, como único capaz de permitir a adesão ao ser.

Em suas obras a escritora sempre questiona a possibilidade subjetiva da linguagem e, portanto, a possibilidade do “eu” exprimir ‘a coisa “. Para Clarice a palavra é incapaz de atingir o inexpressivo. O indizível não é o inefável, mas o inexpressivo.

A literatura de Clarice Lispector responde a uma indagação vital, é uma volta às origens, uma meditação sobre a condição do homem.

As produções de Clarice Lispector não deixam de se referir à realidade concreta. É admirável sua consciência técnica, adequando forma e conteúdo. Por exemplo, dissocia as unidades narrativas para mostrar a falta de ligações mais profundas na sociedade. Organizada a narrativa em ritmo lento, para contrastar com o movimento da vida nas grandes cidades. Filtra todos os fatos através de uma consciência que se isola do conjunto - eis aí a solidão do homem moderno.

Longe de fazer uma literatura alienada, Clarice levanta justamente o cotidiano alienado. É a repercussão dele nas pessoas que a preocupa. Sob esse ponto de vista, seus livros são altamente comprometidos com o homem e com a realidade dele. Porque realidade não é um fenômeno puramente externo. E essa preocupação com a realidade interna se intensifica à medida que os problemas levantados tornam-se uma questão social, particularmente na década de 70. As soluções sensuais e místicas encontradas pelas personagens de Clarice representam o nível de concretização "possível" diante da agressividade social, que impede um maior nível de participação.

Clarice respeita o seu leitor: por isso ela cria, na "viagem" de suas personagens, um novo espaço de liberdade, dentro do jogo ficcional. É um jogo onde todos - narrador, personagens e leitor - devem participar de forma ativa.

O mundo pré-vegetal, anterior aos símbolos e à cultura: eis a busca de Clarice. Quando houvesse o rompimento do indivíduo com os laços sociais, com as convenções de qualquer espécie, estaria criando o especo de liberdade. A abertura da consciência para "momentos luminosos", aos quais se chega pela adivinhação ou intuição. Nesse sentido, Affonso Romano de Sant'Ana (Análise estrutural do romance brasileiro, 1973) interpretou a literatura de Clarice como momentos de "epifania". Esse termo, no sentido religioso, indica a presença de alguma entidade sagrada, que transmite uma mensagem ou indica um caminho. No sentido literário, a "epifania" é um momento privilegiado de revelação, quando acontece um evento ou incidente que "ilumina" a vida da personagem. Assim, segundo Sant'Ana, os romances ou contos de Clarice percorrem, via de regra, quatro passos:

1. A personagem é disposta numa determinada situação cotidiana;
2. Prepara-se para um evento que é pressentido discretamente;
3. Ocorre o evento, que lhe "ilumina" a vida;
4. Ocorre o desfecho, onde se considera a situação da vida da personagem, após o evento.

Nesse caso, é o conhecimento repentino da verdade o fator mais importante a ser considerado. É o que acontece com G.H., narradora e personagem do romance A paixão segundo G.H.: ela está em seu apartamento tomando café, como todos os dias. Dirige-se ao quarto da emprega, que acaba de deixar o emprego. Lá vê subitamente uma barata, saindo de um armário. Este evento provoca-lhe uma náusea impressionante, mas ao mesmo tempo, é o motivador de uma longa e difícil avaliação de sua própria existência, sempre resguardada, sempre muito acomodada. O aparecer é o seu momento de "iluminação", após o qual já não é a mesma, já não é a criatura alienada que tomava café distraidamente em seu apartamento.

As personagens de Clarice Lispector são construídas através de traços que caracterizam atitudes filosófico-existenciais. Têm consciência em termos desses valores e, por isso, são muito semelhantes algumas personagens que criou e situações típicas que têm que enfrentar em cada narrativa. Assim, Ana (do conto Amor) é muito parecida com G.H. (A paixão segundo G.H.) ou com Catarina (do conto Os laços de família). Elas vivem situações de conflito em maior ou menor grau, sempre em busca do momento de revelação, a indicar a verdade de cada uma. São freqüentes ainda os bichos (cavalo, galinha, barata, aranha, búfalo, gato, etc): neles temos o "coração selvagem" onde coexistem um "bem" que é a liberdade natural em interação dialética com o "mal", o instinto anti-social.

O espaço libertário que a ficção de Clarice Lispector procura construir; pressupõe a aventura que em termos de conhecimento ocorre na contínua (des) aprendizagem. E esta só será possível desestereotipando o conhecimento, de forma sistemática, no corpo-a-corpo com a vida. E o principal agente desse processo deve ser o próprio indivíduo.

Enfim narrativas de Clarice Lispector quase sempre focalizam a epifania, um momento de revelação, um momento especial em que a personagem defronta-se subitamente com a verdade.



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