Capítulo 01 Os Annales



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Capítulo 01

Os Annales
A França foi o berço de uma tendência historiográfica muito forte no século XX e, provavelmente, muito influente em todo o mundo nos dias de hoje.

Estamos falando de intelectuais, que fizeram parte de um movimento iniciado a partir da fundação de uma revista histórica chamada inicialmente Annales d’histoire économique et sociale.1

Segundo Peter Burke, “o modelo dos Annales tinha como base a revista Annales de Géographie de Paul Vidal de la Blache”.2

Seus principais fundadores foram Marc Bloch e Lucien Febvre e, seu primeiro número datava de 15 de janeiro de 1929.

Mas, antes de entrarmos nas questões propriamente da revista, temos que conhecer algo sobre seus fundadores e, sobre o momento anterior a 1929 para analisarmos o que representou esse movimento.

Lucien Fabvre: Nascido em 1878, filho de um professor universitário e filólogo. Em 1897 é admitido na Escola Normal Superior, local onde fará amizade com profissionais das mais diversas áreas do conhecimento e, que irão influenciá-lo de modo significativo. Posteriormente é admitido na Sorbonne.

Exemplo disso foi à aproximação com Paul Vidal de la Blache, que era geógrafo e, segundo Burke, estava disposto a colaborar com historiadores e sociólogos. Após esse exemplo, podemos citar nomes como Lucien Lévy-Bruhl, filólogo criador do conceito de “mentalidade primitiva”; o historiador da arte Émile Mâle, pioneiro em iconografia e, o lingüista Antoine Meillet. Febvre reconhecia influências de Michelet, Burckhardt e até do político de esquerda Jean Jaurès.3

Porém, sobre esse aspecto esquerdista, Febvre fora classificado como “socialista fervoroso” e, seu posicionamento causaria espanto quando relacionado com as posições futuras adotadas por ele.4

Lucien Febvre muito cedo se juntou às iniciativas do filósofo Henri Berr, que por ver a história como um “balanço das experiências humanas” foi um dos primeiros a contestar o modelo de história então vigente: a da escola metódica.5



Marc Bloch: Nascido em 1886, numa família da burguesia judia, também freqüentou a École Normale. Segue cursos de pensadores como F. Lot, P. Vidal de la Blache na Sorbonne. Aprendeu igualmente com Meillet e Lévy-Bruhl, mas as influências mais perceptíveis foram de Émile Durkheim, o que fará com que seu compromisso fosse maior com a sociologia do que com a geografia, como era e Febvre. Bloch se especializa em história medieval mesmo tendo grande interesse pela política contemporânea.6

Bloch passa um certo tempo em universidades alemãs e, de acordo com Martin e Bourdé sofrerá influências do marxismo.

Foi oficial na Primeira Guerra Mundial e, no período da Segunda Guerra foi torturado e morto por ocasião do nazismo. Fato esse que, lhe conferiu imagem de “herói da Resistência francesa”.7

Os anos anteriores a fundação da revista: Existem vários posicionamentos teóricos sobre a relação que criação da revista teve com o período que se passava, sobretudo na economia mundial.

Segundo Jacques Le Goff, “não é por acaso que os Annales nascem em 1929, ano da grande crise”.8

François Dosse afirma que

“A criação dos Annales resulta da dupla mutação que perturbou tanto a situação mundial no pós-1914-1918 quanto o campo das ciências sociais” (DOSSE, 1994, p. 21).


Dosse ainda afirma que, o traumatismo e os efeitos da guerra de 1914-1918 encontram-se nas origens dos Annales, pois a história-batalha havia falido e não conseguiu impedir a barbárie.

Nas palavras de José Carlos Reis, seria a “crise do sujeito” que surge no início do século XX, “o homem deixou de ser considerado como “sujeito”e tornou-se “objeto”” das ciências sociais.9

Le Goff discorrendo sobre as originalidades da Nova História10, afirma que ela nasceu de uma revolta contra a história positivista (de Langlois e Seignobos que, era baseada essencialmente em textos escritos) do século XIX.
A Fundação da Revista:
No ano de 1920, Marc Bloch e Lucien Febvre tornam-se amigos após serem nomeados professores maîtres de conférences em Estrasburgo que, há pouco tempo havia sido desanexada da Alemanha. O que fará com que o ambiente ficasse favorável à inovação intelectual.11

E muito antes de 1929, Febvre já havia idealizado uma revista internacional destinada à história econômica, porém por dificuldades da época abandonou o plano. Em 1928, Marc Bloch ressuscitou esse plano, onde o historiador belga Henri Pirenne foi o diretor e, Bloch e Febvre foram os editores.

Mas, o que representou a fundação dessa revista de história para o campo das ciências humanas?

Qual seu projeto? Como se deu esse movimento ao longo de sua existência e, quais suas principais características?

De acordo com Peter Burke, a revista foi fundada para promover uma nova espécie de história, baseada em três premissas básicas:

Em primeiro lugar, substituir a tradicional narrativa de acontecimentos por uma história-problema. Em segundo, fazer a história de todas as atividades humanas e não apenas a história política e, em terceiro lugar, colaborar com outras disciplinas, tais como a sociologia, a geografia, a psicologia, a economia, etc. Configurando assim uma Revolução Francesa da Historiografia.12

Martin e Bourdé sintetizaram melhor esses principais objetivos:
1) eliminar o espírito de especialidade, promover a pluridisciplinaridade, favorecer a união das ciências humanas, 2) passar da fase dos debates teóricos (os da Revista de Síntese) para a fase das realizações concretas, nomeadamente inquéritos coletivos no terreno da história contemporânea (MARTIN e BOURDE, 1990, p.121).
Ciro Flamarion Cardoso, irá propor que os Annales de 1929 a 1969 representaram de fato uma Historia Nova, basicamente pelas premissas apresentadas acima, podendo apenas serem complementadas com: Crença no caráter cientifico da História; preferência por aspectos coletivos em detrimento aos fatos isolados; ampliação do conceito de fontes históricas; a história-problema ou uma interrogação do passado a partir do presente.13

Assim como Martin e Bourdé, Cardoso vai concordar que os Annales sofreram uma forte influência marxista, sobretudo por questões como: reconhecimento de necessidade de uma síntese global; Respeito pelas especificidades históricas; aceitação de inexistência de fronteiras estritas entre as ciências sociais; a vinculação da pesquisa histórica com as preocupações do presente; a consciência que os homens de determinada época tem de sua sociedade não corresponde à realidade social dessa época; atribuição de importância ao nível econômico como forte determinante na vida social. Etc.

Sobre a tentativa de se fazer uma Nova História, mais social e menos política, Burke afirmará que, não fora inaugurada pelo grupo dos Annales, pois, em meados de século XVIII intelectuais da Alemanha, França, Itália e Escócia já se preocupavam em fazer uma “história da sociedade” e, não só de guerras e política. Voltaire é um exemplo desse momento com o seu Essai sur moeurs.

Todavia, no século XIX a “Revolução Copernicana” na história, iniciada por Leopold von Ranke, apesar de não rejeitar a história social por completa, deu ênfase muito grande as fontes de arquivos, arruinando ou re-marginalizando a história sociocultural. Mas mesmo nesse contexto havia vozes discordantes como Michelet e Burckhardt, “que escreveram suas histórias sobre o Renascimento mais ou menos na mesma época...” .14

Mais para o fim do século XIX, a história política começou a ser contestada. Exemplo disso foram trabalhos como o de Karl Lamprecht na Alemanha, definindo a história como uma ciência “sociopsicologica”. E do norteamericano Frederick Jackson Turner, com um trabalho sobre “o significado da fronteira na história americana”, que será considerado uma ruptura com a história dos acontecimentos.

De acordo com José Carlos Reis, entre 1900 e 1929 houve um debate entre história e ciências sociais que será decisivo para os Annales e que, portanto, “o projeto de uma nouvelle histoire não partiu de historiadores, mas de sociólogos durkheimianos”.15

A adoção desse projeto por parte dos historiadores, traduzindo-o para o discurso histórico é que afastará a influência da filosofia sobre a história, trazendo o caráter de “Revolução epistemológica” a partir da nova concepção de tempo.16

Pois, mesmo que a “história científica” do século XIX se esforçasse para se afastar das filosofias da história, ainda continuava impregnada delas. Os historicistas mesmo aceitando a idéia de singularidade dos fatos históricos, acabavam por possuir princípios intemporais, inserindo a história em continuidades subjetivas. Os positivistas inspirados nas ciências naturais (juntamente com os metódicos) caiam nas filosofias da história. Os marxistas eram teleológicos. Em todos esses modelos de história havia um “sujeito humano” dotado de uma “consciência cívica”, uma “consciência de si”, “consciência de classe”, ou seja, um sujeito que realiza projetos antecipados à história.17

Uma vez que, o tempo histórico da historiografia tradicional estava sob a influência da filosofia, a história estava enfraquecida epistemologicamente, pois não respondia aos problemas desse momento de crise. As ciências sociais estavam mais próximas deles, sobretudo com a concepção de estrutura social. A aproximação da história com o projeto dos durkheimianos18 ocorreu e, em seu início foi fértil para as duas disciplinas, pois a história calcada na filosofia, estava sem legitimidade diante dos problemas existentes no início do século XX e, as ciências sociais os respondiam melhor. Porém não ocupava espaços de instituições de ensino e pesquisa, que eram controlados pela história tradicional.19

Existe uma discussão muito corrente entre os teóricos sobre os Annales, se eles podem ser considerados como um grupo homogêneo, ou, até que período se estendeu essa homogeneidade que dava caráter de grupo, escola ou movimento?

Peter Burke irá propor que, a Escola dos Annales existiu por um período de 60 anos (1929-1989) e, que nesse período de existência passará por três fases onde o movimento, a partir de uma perspectiva global, pode ser percebido não como um único paradigma, mas sim como um conjunto de vários paradigmas. Pois, apesar da contribuição dos Annales ter sido profunda, foi igualmente irregular.20

Guriêvitch afirma que, ao estudar as obras dos dois fundadores da Nova História, conclui que eles eram profundamente diferentes. Tanto que na dissertação de Febvre: Phillipe II e Franche-Comté (1911), sua atenção estava nas relações entre nobreza e burguesia, o estilo de vida de cada grupo, sendo o estudo sob aspectos político, social e religioso. Isso então revela seu interesse pela “psicologia social”.21

Outro ponto que Febvre traz nesse livro é, o meio geográfico e à interação do homem com ele.

Paralelamente a Febvre, Bloch traz para os Annales uma nova concepção de história social. O autor de um artigo sobre o surgimento de novas formas de arreio na baixa idade média irá analisar o camponês e as áreas camponesas de uma maneira diferente, onde os mais diversos fatores eram influenciáveis, como os sociais, políticos, ideológicos, psicológicos.

Para Bloch as forças produtivas não eram artefatos mortos, mas sim componentes das relações sociais. A história da técnica como aspecto da história social é uma nova concepção inserida por Bloch. Um dos pontos que mais os aproximavam era a definição de que, para o exame teórico do processo histórico; a “filosofia da história” não era o seu elemento.22

Mas, apesar das diferenças surgidas dentro das fases dos Annales, certas características foram mantidas em ralação aos seus fundadores. A interdisciplinaridade, aproximação com as ciências sociais, recusa da história política e das biografias de reis, busca por uma legitimação da história como uma ciência social (as três ultimas serão revistos na terceira)....

A primeira fase seria aquela que se caracterizava por ser um grupo pequeno e radical a história tradicional, onde os temas econômicos predominavam nas obras de seus seguidores e, a interdisciplinaridade foi o ponto de consolidação dessa revolução, fazendo com que a história das ciências humanas jamais fosse a mesma.23

No combate a história tradicional, criticada por ser superficial aos acontecimentos, “há uma concentração das analises em pequenos grupos, nos quais se incluem realmente os indivíduos”, e que “permite atingir maior profundidade na investigação”.24

Neste período inicial dos Annales, que de acordo com Burke vai até 1947-1949, ocorre um fator que demonstrará o sucesso da história dos Annales e, será decisivo para a expansão do novo modelo, que foi a dispersão do grupo de Estrasburgo e, a devida institucionalização dos Annales, onde Febvre em 1933 ocupa uma cátedra no prestigioso Collége de France, Enquanto Bloch, em 1936 sucede Hauser na cadeira de história econômica da Sorbonne.25

Burke leva em consideração o período da Segunda Guerra Mundial, mas de acordo com Le Goff, o combate dos Annales contra a história política ocorrera no período de 1924 a 1939.26

A segunda fase dos Annales é tratada por Burke, como a era Braudel. Tal definição parece se justificar pela dimensão que tomou a principal obra de Fernand Braudel, O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II, que originalmente foi projeta para ser um estudo sobre a política externa do soberano Felipe II e o Mediterrâneo, muito próximo aos moldes da história metódica.27

As divisões em fases pensadas para os Annales, nem sempre são aceitas por teóricos, quando tratadas sob os aspectos de continuidades ou rupturas.

Aaron Guriêvitch afirma que, a segunda geração de “annalenses” é identificada com Fernad Braudel. E que de fato, sua figura domina na Ciência Histórica francesa entre fins dos anos cinqüenta e os anos setenta. Todavia, a análise de suas obras leva a conclusão de que, tanto no plano da metodologia científica quanto no plano do desenvolvimento das tradições alicerçadas por Bloch e Febvre, Braudel dificilmente pode ser considerado um herdeiro dos dois e as tradições de estudo das mentalidades tiveram continuidade na França sem a participação dele.28

Le Goff propõe que, a obra prima de Fernand Braudel (O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de FelipeII) trará rumo a uma “outra história” para os Annales.

Essa outra História seria aquela que apresentará talvez, a noção de temporalidade a ciência histórica com maior clareza.

Para Braudel, existem na história, três temporalidades. Primeiramente há uma história “quase que sem tempo”, que seria a da relação do homem com o seu tempo. Na primeira parte do Mediterrâneo, Braudel irá dedicar aproximadamente trezentas páginas, descrevendo montanhas, planícies, rotas terrestres e outras partes do meio geográfico. Seu objetivo maior era demonstrar que a história não podia ser entendida fora das características geográficas, pois essas eram parte da história.

A segunda temporalidade foi tratada em seu trabalho, na parte denominada “Destinos coletivos e movimentos de conjuto, onde são tratadas as questões relativas a história das estruturas- sistemas econômicos, estados, sociedades, civilizações e formas mutantes de guerra. As mudanças ocorrem no tempo das gerações e, por isso os contemporâneos nem sempre se apercebem delas. E a ultima temporalidade é, a da história dos eventos, muito rica em interesse humana, todavia mais superficial.29

José Carlos Reis, discorrendo sobre as fases dos Annales, afirma que, a partir de 1946 a história ganhou outro campo de objetos de experimentação: “Civilizações que, a partir de Braudel torna se um termo, aliado a “psicologia coletiva”, para designar as “mentalidades coletivas”. As civilizações se caracterizavam por um território, um relevo, um clima e, na relação com esse meio o homem recebe desafios para realizarem seus feitos.

Portanto, o olhar do historiador sobre as civilizações deve levar em consideração o tempo da longa-duração e os tempos articulados, de modo que a geo–história possa localizar em mapas essas civilizações (nesse período dos Annales, as ciências mais próximas eram a geografia, demografia, mas não significa que os temas econômicos tivessem desaparecido).30

Sobre os aspectos de mentalidades e civilizações, Ciro Flamarion Cardoso fará uma crítica aos Annales, pois segundo ele, esse grupo se apegando ao primeiro conceito, vai produzir uma história com pouca preocupação em discussão teórica31, desde os fundadores até os posteriores seguidores. As análises de civilizações na perspectiva do longo-prazo mostra um outro problema no grupo, que era a falta de uma teoria da mudança social, sugerindo uma continuidade radical, destruindo por sua vez as sínteses explicativas globais, em favor de uma visão segmentada e eclética.

O mesmo autor afirma que, esses problemas estarão presentes também na fase intitulada de “Nova História”, que reivindicou herança com os Annales de Bloch, Febvre e Braudel, que Cardoso não acredita, por motivos que esporemos nos próximos parágrafos, analisando essa que, de acordo com Burke fora a terceira fase dos Annales.32

Para analisar a terceira fase dos Annales, Ciro Flamarion Cardoso, levanta uma questão: “Como se passou das tendências resumidas acima a uma Nova História, abundantemente autoproclamada, autopomovida e autoelogiada a parti de 1974? (CARDOSO, 1988, p. 98).

Ele aponta para a herança que a Nova História teve: a revista dos Annales; as posições criadas e controladas por Fernand Braudel na école des Hautes étutes e, na Maison des Sciences de l`Homme.

Nos anos de 1969, quando jovens historiadores como André Burguiére e Jacques Revel envolvem-se na administração dos Annales; 1972, quando Jacques Le Goff assume a presidência da VI seção em decorrência da aposentadoria de Braudel e, em 1975, quando o mesmo Le Goff reorganiza a école des Hautes étutes em Sciences Sociales, o surgimento de uma terceira geração torna-se mais óbvio.33

Porém as mudanças intelectuais foram mais significativas que as administrativas nessa nova fase. O perfil dela por sua vez é mais complicado de ser traçado, pois surgem tantos nomes importantes e com perspectivas às vezes diversas no próprio grupo, dando até a idéia de fragmentação.34

A História Nova foi definida pelo aparecimento de novas problemáticas, que antes estavam relegadas somente ao campo da antropologia, tais como: alimentação, corpo, gestos, imagem, sexo, mito e outros (LE GOFF, 1990).

Na segunda fase dos Annales as tendências de se buscar uma história-global como pregava Braudel, será abandonada na terceira geração dos Annales, pela busca de uma história-geral e, inspirados em Michel Foucault, irão buscar elaborações de séries e limites, especificidades cronológicas e sua articulação em séries de séries. Portanto, a pesquisa da descontinuidade se impõe sobre a pesquisa da continuidade, que era bastante comum nas outras fases dos Annales.

A História multiplica suas curiosidades, tudo torna-se histórico e nada se a nada. Resultado: a fragmentação e a especialização extrema do objeto de análise (REIS, 1996, p.82).

Portanto, as características principais dessa nova fase são em certos momentos, parecidas com as das fases anteriores, em outros, um tanto quanto distantes até das principais bandeiras dos Annales.

Exemplo disso foi o renascimento da narrativa e da biografia, na história. Todavia, com formas bastante diferentes das biografias feitas no século XIX. A biografia histórica agora servia para entender a mentalidade de um grupo.35

O retorno à política36 , que também está ligada ao renascimento da narrativa, é outra novidade que a Nova História resgata, mas assim como a biografia, a política retorna aos debates dos Annales, bastante modificada, agora estava relacionada ao advento das massas ao invés de grandes indivíduos ou do Estado. A política não será mais moral e psicológica, mas sim sociológica e praxiológica.37

Julliard afirmava que,

Pode-se fazer uma história dentro dos parâmetros dos Annales: estudos políticos de longa duração, quantitativos, seriais, comparativos, e não mais narrativos, mas problematizantes. Uma história do poder e de sua distribuição em uma rede de micropoderes, como propõe Foucault, onde o Estado seria apenas um caso particular desta história e não toda a história política. (JULLIARD apud REIS, 1996, p. 74).


José Carlos Reis, referindo-se ao tempo da Nouvelle Histoire afirma que, essa não situará suas pesquisas em grandes cortes geográficos, optarão na verdade por uma monografia regional. Todavia, se o quadro espacial diminui, o mesmo não se pode falar do quadro temporal, pois a hipótese dos fundadores de que a verdadeira historia era a que se passava nas profundezas e no inconsciente coletivo, foi bem assimilada pela Nouvelle Histoire. O tempo humano tende a se naturalizar. Deixa de ser percebido como mudança para ser tratado como movimento.38

Um fator que será algo que talvez possa colocar uma imagem de continuidade nos Annales foi, a interdisciplinaridade. Não que cada fase seguisse as mesmas tendências dos fundadores, pois nessa ultima fase dos Annales a antropologia foi uma interlocutora privilegiada, pelo interesse que os pensadores desse período tiveram para com os temas que até então lhe eram particulares, enquanto nas duas primeiras fases foram privilegiadas demografia, geografia, e a história-econômica.39

Todavia, a partir dos anos 80, esse privilégio da antropologia e, toda a aproximação que os Annales fizeram com as outras ciências humanas, começaram a ser revisto pelos que se dizem seguidores do grupo. O marxismo, que era adversário no período áureo da Nouvelle Histoire e uma outra corrente historiográfica de nome indefinido, começam a resistir a ela.

Mas para C. Arnaud os anos 80, vão significar o fim do domínio das ciências humanas, da antropologia, do estruturalismo, da psicanálise, do marxismo e também da escola do Annales. Com as mortes dos formuladores da morte do homem, há uma revisão no sentido de questionar quem o formulou. Assim o refluxo da Nouvelle Histoire liberou o gosto por pequenos dados e aventuras individuais. A história milenar do Mediterrâneo não impedia mais os que se interessasse pelo destino de Felipe II.40


Referências:


BURKE, Peter. A Escola dos Annales, 1929-1989: a revolução francesa da historiografia/ Peter Burke; tradução Nilo Odália. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1991.

CARDOSO, Ciro Flamarion. Ensaios Racionalistas. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

DOSSE, François. A História em migalhas: dos “Annales” à “Nova História”/ François Dosse; tradução Dulce da Silva Ramos. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: Editora da Universidade de Campinas, 1992.

GURIÊVITCH, Aaron. A Síntese Histórica e a Escola dos Anais/ Aaron Guriêvitch; tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Perspectiva, 2003.

LE GOFF, Jacques. A História Nova/ Jacques Le Goff; tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

MARTIN, Hervé e BOURDé, guy. As Escolas históricas/ Hervé Martin e Guy Bourdé; tradução Ana Rabaça. Portugal: Publicações Europa-América,1990.

REIS, José Carlos. Nouvelle Histoire e tempo histórico.São Paulo: Ed. ática, 1994.

______________. A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo: Ed. ática, 1996.



______________. Escola dos Annales- a inovação em História. São Paulo: Paz e Terra, 2000.


1 REIS, José Carlos. A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo: Ed. ática, 1996

2 BURKE, Peter. A Escola dos Annales, 1929-1989: a revolução francesa da historiografia/ Peter Burke; tradução Nilo Odália. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1991. p. 33.


3 Idem, 1991

4 DOSSE, François. A História em migalhas: dos “Annales” à “Nova História”/ François Dosse; tradução Dulce da Silva Ramos. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: Editora da Universidade de Campinas, 1992.

5 MARTIN, Hervé e BOURDé, guy. As Escolas históricas/ Hervé Martin e Guy Bourdé; tradução Ana Rabaça. Portugal: Publicações Europa-América,1990.

6 Cf. BURKE, 1991; MARTIN E BOURDÉ, 1990

7 GURIÊVITCH, Aaron. A Síntese Histórica e a Escola dos Anais/ Aaron Guriêvitch; tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Perspectiva, 2003.


8 LE GOFF, Jacques. A História Nova/ Jacques Le Goff; tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1990. p, 30.

9REIS, José Carlos. Escola dos Annales- a inovação em História. São Paulo: Paz e Terra, 2000. p, 37.

10 Le Goff trata a fundação da revista dos Annales como o nascimento da Nova História.

11 BURKE, 1991

12 idem, 1991

13 CARDOSO, Ciro Flamarion. Ensaios Racionalistas. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

14 BURKE, 1991, p. 18

15 REIS, 2000, p. 37.

16 Segundo Reis, a história baseada na concepção filosófica de tempo levou à produção acelerada dos eventos, que se acreditava controlar, a partir do suposto conhecimento de seu sentido. A história dos Annales ao recusar o evento e a história política, inaugura uma nova fase na história das ciências sociais.(cf. José Carlos Reis. Nouvelle Histoire e o tempo histórico - a contribuição de Febvre, Bloch e Braudel. São Paulo: Ed. Ática, 1994.)

17 REIS, 2000.

18 Há na verdade uma aproximação/diferenciação, pois os Annales incorporaram a simultaneidade estrutural sem abrir mão da sucessão; a quantidade sem ignorar a qualidade, ou o movimento numerado considerando-se a mudança qualitativa. (cf. REIS, 1994).

19 REIS, 1996.

20 BURKE apud REIS, 1996.

21 GURIÊVITCH, 2003.

22 idem, 2003

23 BURKE, apud REIS, 1996.

24 GURIÊVITCH, 2003.

25 BURKE, 1991.

26 LE GOFF, 1990.

27 BURKE, 1991.

28 GURIÊVITCH, 2003.

29 BURKE, 1991.

30 REIS, 1996.

31 Talvez porque os debates tradicionais entre os teóricos da história e os filósofos eram permeados por intermináveis discussões abstratas, embasadas em filosofias da história. (Cf. CARDOSO, 1988).

32 Cf. CARDOSO, 1988; BURKE,1991

33 BURKE, 1991.

34 DOSSE apud BURKE, 1991.

35 BURKE, 1991.

36 Esse fato é bastante interessante, pois a crítica mais conhecida que os Annales fizeram, principalmente aos metódicos, era justamente a deficiência que a historia política tinha, pela sua superficialidade nos eventos (cf, BURKE, 1991).

37 REIS, 1996.

38 REIS, 1994.

39 LE GOFF, 1990.

40 ARNAUD apud REIS, 1994.





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