Capítulo 1 – As fronteiras do paraíso As paisagens literárias



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A invenção da América no Ocidente
Na multissecular e alucinante história das viagens que realizou o homem sob impulsos e pressões as mais diversas, a que empreendeu Colombo em 1492 brilha com um esplendor espetacular. Não apenas admiraram a ousadia, a imensa habilidade e a fibra do célebre navegante, como também o inesperado desenlace acrescentou tanto brilho ao legítimo assombro, que a façanha converteu-se no mais espetacular dos acontecimentos históricos. Um belo dia, assim se costuma relatar o acontecimento, por obra de inexplicada e inexplicável premonição profética, de magia, ou de milagre, ou do que quer que seja, o rival de Ulisses na fama, o príncipe dos navegantes e descobridor por antonomásia, revelou ao mundo atônito a existência de um imenso e imprevisível continente chamado América, mas sobre o qual admite-se que nem Colombo nem ninguém sabia o que era.

(Edmundo O'gorman, A invenção da América)




Nos han dado la tierra

No conto de abertura do livro El llano en llamas [1953] do mexicano Juan Rulfo, "Nos han dado la tierra", um grupo de homens caminha debaixo de um sol tórrido para tomar posse de uma terra que lhes foi dada pelo governo. Esta terra, o llano [planalto] grande, está numa região alta e se constitui de uma extensa planície de terra ressecada. Eles caminham calados há horas, desde a alvorada, por uma estrada seca e poeirenta, sem uma referência qualquer que lhes desse a certeza de chegar a algum lugar. Mas apesar disso caminham determinados. O grupo de caminhantes já foi maior maior, diz o que narra: "Hace rato, como a eso de las once éramos veintitantos; pero puñito a puñito se han ido desperdigando hasta quedar nada más este nudo que somos nosotros."1 Restaram quatro: Faustino, Esteban, Melitón e o que narra, sem nome conhecido. Como sujeitos sem rosto, sem voz, magros de referências, eles poderiam ser tomados como um daqueles personagens que Mariano Azuela retratou em Los de abajo [1916], principal romance do movimento conhecido como "novela da revolução mexicana". Mas algo no texto sugere que têm linhagem distinta.

A cena poderia ser comum num país e numa região acostumada a procissões de desterrados em busca de uma porção de terra. Porém, algo estranho acontece: eles chegam à terra que receberam, o llano, mas por alguma razão não entram nela para tomar posse. O que narra, ao relembrar o curto diálogo que o grupo manteve com o delegado que lhes entregou o papel de posse do terreno, pensa na impossibilidade de utilização da terra ao cruzarem por ela. Uma terra árida, tão imprópria para o cultivo, que até os animais a abandonaram: "No, el Llano no es cosa que sirva. No hay ni conejos, ni pájaros. No hay nada".2 Sua paciência parece se esgotar ao ouvir um de seus companheiros afirmar que aquela era a terra que tinham dado a eles e lhe devolve mentalmente a pergunta, "¿Cuál tierra nos han dado, Melitón?", como se fosse difícil acreditar ser aquela a terra prometida.

A pergunta feita a Melitón não se refere à terra ruim que receberam, mas fala de uma promessa não cumprida, de uma entrega frustrada. A reforma agrária, mote da revolução iniciada em Anenecuilco por Emiliano Zapata em 1910, revela-se um engodo refletido na própria caminhada dos personagens: eles passam pela terra, que está allá arriba, e vão direto para a cidade, donde la tierra se hace buena. A terra, cuja posse confere ao homem autonomia sobre os meios de produção, promovendo sua emancipação, deixa de ser instrumento de modernização para tornar-se símbolo do arremedo em que se transformaram as relações engendradas pela mesma revolta que colocou o México de frente para o século 20. Num pedaço de papel a letra despedia seu significado inerte, já que o referente a que aludia não existia como realidade possível: tratava-se de uma terra completamente improdutiva. Por sua vez, a terra infértil tornava a letra morta, ao esvaziar sua referencialidade e esterilizar sua capacidade significante dentro de uma relação unívoca que a reduzia a um único significado, o vazio. O vazio se constituía assim não como resultado, ausência ou equívoco, mas como princípio, presença e certeza do vínculo que brotava do papel com a terra. Entre a resignação e a revolta, antigas senhas que regiam os comportamentos naquelas situações, o grupo de caminhantes, no entanto, decide ir para a cidade, somando-se à imensa corrente de migrantes que abandonaram o campo em meados do século passado.3 Se uma das razões para essa atitude pode ser encontrada no fracasso da mediação realizada pela letra, uma outra será proposta por um corte radical que a atitude das personagens impõe ao horizonte de leitura que se usava fazer desses episódios.

O pronome Nos que encabeça o título, Nos han dado la tierra, sugere um problema e pode ser o lugar onde reside o núcleo trágico da relação disjuntiva anunciada no texto: uma terra foi dada por alguém, os que deram, para os que não a escolheram, mas a receberam. A polaridade instaurada pelo onipresente "eles" reivindica seu oposto, um "nós" ou um "outros", como agente da operação discursiva que reclama um destinatário, um complemento. Esse agente, frustrado com o que recebera, deveria funcionar como um elo passivo da relação que ao ter a consciência iluminada pelo sentido da exploração, se revoltaria, tal como propõe a dialética marxista ao explicar os fenômenos sociais através da luta de classes. No entanto, como esse agente é também a contra-cara do poder hegemônico que opera sobre a relação que se estabelece entre quem dá e quem recebe a terra, ele atua de maneira complementar, mas também independente no interior dessa mesma relação. Por isso decide não tomar posse da terra e ir para a cidade. Ao fazê-lo, rompe com a circularidade prevista pelo romance social, substrato contra o qual escreve Rulfo segundo Rama,4 anunciando o fracasso das demandas de emancipação pretendida pela revolução, expressa na lacônica declaração do caminhante narrador: "Y a mí se me ocurre que hemos caminado más de lo que llevamos andado".5

A migração aparece como a saída possível do círculo vicioso em que se acham os desterrados, ao liberá-los de um dos pólos da relação de poder que os mantinha aprisionados, já que a revolta apenas os devolve ao outro termo da equação. Tomar o caminho da cidade significa, além de uma ruptura pessoal, a busca de uma nova subjetividade social através da retomada da capacidade significante da letra, que no campo tinha sido reduzida a instrumento de domínio político.6 Eles seguem por um camino sin orillas, sem margens, sem referências, sem o elemento que separa o lado de lá do lado de cá. Entre o governo que dá a terra e o latifúndio que as toma, as únicas margens que conhecem bem, eles caminham pelo lugar que sobra, esta llanura rajada de grietas y de arroyos secos, tratando de se agarrar ao que resta de esperança: o latido dos cachorros, o pó do desfiladeiro, o cheiro de gente, a galinha de Esteban. No bolso, o papel e a letra sem vida. Atrás, o vazio e a terra deserta.



Nos han dado la tierra retoma na caminhada de seus personagens o tópico do continente em movimento e reflete sobre dois de seus problemas capitais: a posse da terra e a letra que sustenta a posse da terra. Problemas que vieram nas naus que trouxeram os navegadores ibéricos ao continente americano, reafirmando o preceito de Antonio de Nebrija de que "la lengua fue compañera del imperio: de tal manera lo siguió: que junta mente començaron",7 mas que já haviam sido prescritos antes mesmo de seu descobrimento; que tiveram no imaginário europeu o terreno fértil onde desenhar as paisagens que viriam a recobrir as terras encontradas, inventando recursos discursivos, entre eles os decires tecnológicos8 de Walter Mignolo, para se apossar do que não lhes pertencia; problemas que, por fim, se cristalizaram nas estruturas sociais plantadas pelos regimes coloniais através de seu corpo letrado, tal como sugeriu Rama em La ciudad letrada [1984], e encontraram seu fundamento moderno no pensamento dependente que, ao figurar a representação da América Latina no Ocidente sob a ótica do atraso, condenou o continente ao eterno trabalho da importação de modelos culturais, econômicos e políticos, já que não demonstrava capacidade de produzir algo próprio e autêntico.
A escrituração do Novo Mundo

Em janeiro de 1454, exatos 38 anos antes que as naus de Colombo aportassem na ilha conhecida como Guanahaní, o Papa Nicolau V entregava à coroa portuguesa, através da Bula Romanus Pontifex, todas as terras que os navegantes portugueses porventura encontrassem em suas viagens pelos mares "em suas extensões orientais e meridionais". A expansão colonial portuguesa pelas costas da África e Ásia, iniciada no século 15 e tida como instrumento de expansão da cristandade européia, foi buscar amparo eclesiástico em Roma para "invadir, conquistar, subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes."9 O direito outorgado por esta bula papal assegurou a Portugal a possessão de todas as colônias conquistadas na costa africana, incluindo a Guiné.

A expansão colonial portuguesa esbarra, porém, no projeto expansionista espanhol cujo início se dará com a chegada ao novo continente de Cristóvão Colombo, em 13 de outubro de 1492. Um ano mais tarde, em maio de 1493, um papa de origem espanhola, Alexandre VI, dará aos Reis da Espanha a Bula Inter Coetera, cujos dizeres os autoriza a se apossarem de todas "(essas) ilhas e terras firmes achadas e por achar, descobertas ou por descobrir, para o Ocidente e o Meio-Dia, fazendo e construindo uma linha (...) quer sejam terras firmes e ilhas encontradas e por encontrar em direção à Índia, ou em direção a qualquer outra parte...".10 Um contencioso se estabelece então entre as duas coroas, já que a extensão da segunda bula praticamente revoga os dispositivos da primeira. De todos modos, fica claro que o destino das terras descobertas já estava decidido pela "sabedoria astuciosa de Papas e Reis que, maníacos da legalidade canônica, se mancomunaram para estabelecer, pela expropriação, as bases da expansão européia", nos dizeres de Darci Ribeiro.

Como resposta às demandas de Portugal que exigia a revogação da bula Inter Coetera, uma nova bula é expedida revogando as concessões anteriores e reafirmando os direitos da Espanha sobre as terras recém descobertas. Esta nova bula, porém, não desarmou os ânimos portugueses que reclamam perante os Reis da Espanha e se preparam para defender seus direitos ultramarinos pela força de sua esquadra naval. Uma série de negociações diplomáticas começa a ter lugar então entre as duas coroas, que chegam finalmente a um acordo celebrado na pequena vila de Tordesilhas, em junho de 1494. O Tratado de Tordesilhas é assim firmado estabelecendo que se trace uma "raia ou linha direta de pólo a pólo, (...) do pólo ártico ao pólo antártico, que é de norte a sul, (...) a trezentas e setenta léguas das Ilhas de Cabo Verde em direção à parte do poente",11 que abarca os domínios do Oceano Atlântico e passa a pertencer a Portugal, incluindo o Brasil ainda não oficialmente descoberto. Fica Espanha com a posse de todas as terras "conhecidas e por conhecer, descobertas e por descobrir" que estão na parte da raia que está na direção do levante, cujos domínios se estendem pelo Oceano Pacífico.

Se o Tratado de Tordesilhas representou uma vitória parcial de Portugal, pois apesar de reafirmar a possessão espanhola das extensões territoriais definidas pela Bula Inter Coetera, deslocou o meridiano em cerca de 100 para 370 léguas, por outro lado, se revelou na realidade um tratado de difícil aplicabilidade, já que estava fixado no plano das "fronteiras artificiais", sem os devidos conhecimentos astronômicos e geográficos.12 Tanto portugueses, quanto brasileiros e espanhóis, não reconheceram os limites de Tordesilhas, por se tratar de um "vago marco divisório", que não considerou a realidade americana em suas disposições territoriais. O período de unificação dos dois reinos, de 1580 a 1640, assistirá a uma ampliação do território brasileiro pelo trabalho incansável das Bandeiras, "verdadeiros empreendimentos econômicos, nos quais muitos comerciantes e senhores de terra, com objetivo de lucro, investiram grandes somas de capital."13 Motivados pela procura do Eldorado e das minas de ouro e prata de Potossi, bem como pela necessidade de capturar mão de obra para o florescente comércio de escravos indígenas, os bandeirantes avançam em direção às fronteiras do país nos séculos 16 e 17, alargando-as pela guerra, destruição e saqueio das comunidades de índios e cidades espanholas, provocando um despovoamento sem precedentes de extensas áreas na região da Bacia do Prata e em outras circunvizinhas.14

Os conflitos que passam a ser constantes entre as coroas portuguesa e espanhola, em razão das freqüentes disputas territoriais pelas terras americanas,15 só serão resolvidos com o Tratado de Madri, em 1750, que fixará o princípio fundamental de definição da posse da terra: o uti possidetis. Considerado por Álvaro Lins como o "mais importante documento diplomático do Brasil colonial", o Tratado de Madri vai definir o formato do Brasil contemporâneo e reivindicar a posse da terra por quem já a possuía antes: "Uti possidetis, ita possideatis, como possuís, continuais possuindo."16 Este princípio irá nortear as discussões em torno das futuras disputas políticas que envolverão as fronteiras brasileiras, no começo de sua incipiente vida independente e ao longo de sua vida republicana. O Tratado de Santo Ildefonso, último tratado assinado entre as duas coroas dispondo sobre conflitos de terras, apesar de revogar o Tratado de Madri por completo, não deixará de se apoiar neste princípio para definir seu corpus de demarcações.17

Se por um lado o princípio do uti possidetis, que poderia ser considerado um princípio de restituição, uma vez que reconhece os critério da ocupação e anterioridade no solo como prioritários nas contendas judiciais, resolveu, a partir de sua incorporação ao Tratado de Santo Ildefonso em 1777, as principais disputas territoriais entre as coroas ibéricas, por outro manteve-se silencioso, como os todos os outros tratados anteriores, sobre o reclamo de um extenso grupo social composto pelos antigos moradores daquelas terras, os indígenas.18
O desembarque da letra

A chegada dos conquistadores ibéricos ao Novo Mundo não representou, para Antonio Cornejo Polar, apenas o encontro de duas civilizações com dois sistemas distintos de registro: de um lado a oralidade, baseada no reconhecimento da voz como signo de prestígio, e de outro a letra, como registro gráfico de uma voz ausente que reclama sua autoridade.19 Significou, mais precisamente, no episódio inicial simbolizado no encontro entre Atahualpa e o padre Vicente Valverde em Cajamarca, em 16 de novembro de 1532, o requerimento do poder inflexível da palavra impressa sobre a oscilação cambiante da voz pronunciada. Este momento, que Cornejo Polar identifica como o "grau zero" da relação entre a cultura oral indígena e a cultura escrita hispânica, prenuncia um futuro de violências para as comunidades autóctones, além de advertir sobre o "fracasso do livro", que no continente americano deixa de ser instrumento de comunicação para se tornar veículo sacralizado de poder. Quando Atahualpa lança ao chão o livro que recebe de Valverde, uma bíblia ou um breviário, seu gesto é duplamente interpretado como recusa do cristianismo e insulta aos reis católicos, o que resultou no massacre de seus seguidores, seguido de seu posterior aprisionamento e morte. O que está em funcionamento nesse episódio, segundo Cornejo Polar, é menos a impossibilidade de comunicação, já que o tal livro estava certamente escrito em latim, língua incompreensível até mesmo para Pizarro e seus homens, e sim a fetichização de um objeto, o livro, que deixou de ser sinônimo de texto para incorporar uma construção imaginária "como símbolo explícito ou tácito da incomunicação substancial":


Deste modo, o essencial é que a escrita ingressa nos Andes não tanto como um sistema de comunicação, mas no horizonte da ordem e da autoridade, quase como se seu único significado possível fosse o Poder. O livro, concretamente, como se disse, é muito mais fetiche que texto, e muito mais gesto de domínio que ato de linguagem. (...) Em outras palavras: o triunfo inicial da letra é, nos Andes, a primeira derrota da voz.20
Se as palavras que ditariam o destino do Novo Mundo já haviam sido redigidas tempos atrás, nas bulas papais, sua chegada às terras encontradas por Colombo reveste o trabalho da Conquista de um aspecto novo, ainda que inconsciente para a maioria de seus cronistas: a imaginação medieval tem seu encontro com um mundo desconhecido e se prepara, não para descrevê-lo, mas para inscrevê-lo no horizonte do conhecimento ocidental. A conquista da terra se torna, assim, a um só tempo, a captura de um imaginário bárbaro e o cancelamento de uma voz local onde se reproduzem as estruturas desse imaginário, trabalho esse que se levou a cabo nos domínios da escrita e atende pelo nome de Crônica da Conquista, que incluía cartas, histórias, memoriais, relações e relatos de viajantes, além de outros textos dispersos.21

Martin Lienhard encontra na relação que o Almirante Colombo pede que faça o escrivão real Rodrigo de Escobedo, dando conta aos reis católicos da tomada de posse das terras encontradas em seu nome, o "grau zero da literatura – ao estilo ocidental", momento em que a palavra encena, já no primeiro desembarque que fará em terra firme, sua capacidade performativa.22 Buscando no lingüista J. L. Austin o conceito de "performance" para fundamentar a importância que uma série de elementos contextuais contribuem para que a mensagem dependa menos de seu próprio conteúdo que dessas eventualidades circunstanciais, Lienhard assinala a cerimônia na praia como o cenário onde a palavra encena o requerimiento, instrumento que permitia, mediante leitura pública de documento real, a tomada de posse de terras e bens que pertenciam aos indígenas, incluindo suas vidas, em nome dos reis e da igreja católica.23

Segundo Lienhard, é essa capacidade de performar um poder, que se situa geograficamente longe do teatro das ações dos conquistadores, o que permite ao documento escrito atualizar/representar este mesmo poder perante as culturas recém dominadas, oferecendo, a posteriori, um padrão de colonização:

La práctica escriptural europea, exploradora, prospectiva y dominadora, proporciona una especie de modelo para la ocupación de un territorio nuevo. Como lo demuestran toda una serie de prácticas colonizadoras, los europeos proceden como si quisieran inscribir su poder en todas las "superficies" posibles del Nuevo Mundo.24
No gesto de Colombo de batizar as primeiras terras que encontra, um conjunto de ilhas, as quais acreditava serem as terras do Grande Khan, dando-lhes nomes cristãos como Sant Salvador, Santa María de Conçibición, Fernandina ou Ysavela, encontramos expresso o desejo de inscrever o poder, pela palavra escrita, na própria paisagem.25 Se acompanhamos o raciocínio de Mignolo de que o desarraigo do enunciador produz um enunciado de caráter tecnológico, e que esses enunciados tecnológicos se orientam à incorporação e controle do que é alheio ao horizonte simbólico onde esse enunciado é engendrado,26 então reconhecemos a escrituração do Novo Mundo como signo de apropriação não apenas lingüístico e cultural, mas também territorial.27 Descrever o Novo Mundo é, em síntese, dar uma "morada" apropriada à memória dos fatos que transcorreram naquelas terras, como advertia Nebrija sobre a utilidade da língua castelhana em sua Gramática: "I sera necessaria una de las dos cosas: o que la memoria de vuestras hazañas perezca con la lengua: o que ande peregrinando por las naciones estrangeras: pues que no tiene propia casa en que pueda morar."28
O encobrimento

Os dois documentos que levarão a Europa a nova do descobrimento das terras além dos limites do Bojador, a Carta a Luis de Santángel, de Cristóvão Colombo, em 15 de fevereiro de 1493, e a Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, serão superlativas ao relatar as belezas e riquezas tanto das terras como de seus habitantes. Ao descrever as terras recém encontradas, Colombo não se contém ao dizer que "son fertilísimas en demasiado grado", em que há "fartos ríos y buenos y grandes que es maravilla", onde "cantava el ruiseñor i otros paxaricos de mil maneras", chegando a afirmar que "los puertos de la mar, aquí no havría crehencia sin vista, y de los ríos muchos y grandes y buenas aguas, los más de los cuales traen oro"; sobre seus habitantes, conta que "andan todos desnudos, hombres y mugeres, así como sus madres los paren", "muestran tanto amor" e que "no conocían ninguna seta ni idolatría, salvo que todos creen que las fuerças y el bien es en el cielo".29

De semelhante modo, Caminha surpreende seus leitores com a descrição da nudez desconcertante dos habitantes da ilha que batizaram de Vera Cruz: "a feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto"; sobre as mulheres, acrescenta, "ali andavam entre eles três ou quatro moças (...) e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de a muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha." Reafirma a inocência daquele povo, "esta gente é boa e de boa simplicidade" e atesta que "nenhuma idolatria, nem adoração têm"; finalmente, ressalta a qualidade da terra encontrada, "é de muitos bons ares, assim frios e temperados" e "em tal maneira graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem."30

Estes relatos iniciais guardarão em comum a capacidade de produzir imagens fabulosas sobre a nova terra descoberta, gerando, por um lado, um imaginário desterrado, uma vez que seus referentes existiam como signos de algo ainda desconhecido (o próprio nome América virá 15 anos mais tarde), que "ainda não formavam memória", eram enunciados "sem solo ou fora de lugar";31 e por outro, o "tecido" discursivo com que se realizará o encubrimiento, em lugar de descobrimento, do Novo Mundo, segundo Roa Bastos:



En Guanahaní (y aun mucho antes) comienza el encubrimiento del continente que iba a llamarse América y de las sociedades indígenas que un día vendrían a ser "descubiertas". No sólo el Almirante, con el fanatismo de un iluminado, traslada y pone sobre ellas como una inmensa alfombra mágica regiones enteras del Oriente Asiático.32
Se todo descobrimento é fruto do um desejo, como afirma Carlos Fuentes ("O 'descobrimento' apenas prova que somente encontramos o que primeiro desejamos"), América foi assim uma utopia desejada e projetada no espaço, mas também rapidamente destruída por se referir a algo que por excelência não pode ter lugar em lugar algum: u-topia é o não lugar, o lugar que não existe. E a América existe, ainda que inicialmente como acidente geográfico. Como lhe falta o elemento tempo, algo genuinamente europeu, o novo continente é apenas natureza e espaço, sendo assim, portanto, desprovido de história; logo, o lugar perfeito para que Europa realize sua obra de regeneração longe dos escombros que a ruptura da ordem medieval deixou.33 No entanto, como se verá adiante, a mesma palavra que anuncia a novidade do descobrimento também prenuncia seu fim.

A violência do encobrimento realizado pela escrita se manifesta na tríplice negação do continente, segundo as palavras do jesuíta Bartolomeu Meliá, comentadas por Roa Bastos: a negação da economia, da religião e da língua (e cultura) indígena. Os dois textos acima mencionados levam, além das novidades das descobertas, expressas declarações sobre a pobreza dos índios, com seu conseqüente desapego aos bens materiais, esquecendo que é essa economia que sustenta os conquistadores em suas estadias em terra firme; ressalta sua falta aparente de religião, o que os tornaria facilmente conversíveis ao evangelho, e sua língua incompreensível, bárbara assim como sua cultura, imprópria para a comunicação. Sobre este último terreno, o da língua e da cultura, a Conquista se confirmará pela extinção física dos dois maiores sistemas de escrituração indígenas – os quipus na região andina e os glifos na área mesoamericana –34 e a imposição de um sistema gráfico, de todo desconhecido pelos autóctones, baseado na letra escrita. A Conquista se traduz, assim, como uma série de operações escriturais destinadas a negar as culturas nativas e a envolvê-las com uma retórica que se fundava na associação entre os interesses da Igreja Católica e dos Estados ibéricos, interesses esses que já apareciam profetizados na Introdução da Gramática de Nebrija:



El tercero provecho deste mi trabajo pues de ser aquel: que cuando en Salamanca di la muestra de aquesta obra a vuestra real majestad: me pregunto que para que podia aprovechar: el mui reverendo padre obispo de avila me arrebató la respuesta: respondiendo por mi dixo. Que despues que vuestra alteza metiesse debaxo de su iugo muchos pueblos barbaros naciones de peregrinas lenguas: con el vencimiento a quellos ternian necessidad de recebir las leies: quel vencedor pone al vencido con ellas nuestra lengua: entonces por esta mi arte podrian venir enel conocimiento della como agora nos otros deprendemos el arte dela gramatica latina para deprender el latin.35


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