Capítulo 1 – As fronteiras do paraíso As paisagens literárias



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A invenção da América no Ocidente

Em seu livro A invenção da América [1958], o mexicano Edmundo O'gorman sugere que o continente americano foi inventado e não descoberto, como resultado de uma intensa negociação simbólica em torno do trabalho e da imaginação de dois navegadores, Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio, ainda que apenas o segundo tenha tido o reconhecimento impresso no nome que se deu ao continente. Para além do percurso realizado na investigação e do didatismo das explicações sugeridas, ali se revelam os meios pelos quais América foi incorporada ao Ocidente, bem os caminhos pelos quais as tradicionais narrativas de sua fundação foram deslocadas de seus antigos marcos referenciais.

Num breve resumo: o que pretendia Colombo com o projeto da viagem apresentado aos reis espanhóis era encontrar os litorais da Ásia navegando para o ocidente, uma vez que a forma esférica do mundo, imposta a partir da física aristotélica, autorizava tal projeto. O que não sabia o navegador genovês era o tamanho preciso da Ilha da Terra, o que significava desconhecer o tempo exato da viagem que realizaria. Ao encontrar o conjunto de ilhas que acreditava serem as Índias, nada mais fez que reafirmar a hipótese que havia elaborado sobre seu achado: acreditava ter tocado as costas do Quersoneso Áureo, as ilhas de Cathay e Cipango, terras do Grande Khan. Ainda que a falta de provas materiais que justificassem sua hipótese o levassem a sucessivos arranjos teóricos para tentar harmonizá-la com as novas descobertas, Colombo morrerá acreditando que descobriu o caminho para o oriente navegando para o Ocidente.

Américo Vespúcio, de regresso de sua terceira viagem à América, em 1503, afirmou serem aquelas terras distintas das até então conhecidas, notícia que ficou celebrizada na famosa carta "Mundus Novus", dirigida a Lorenzo de Médici.36 Sua afirmação introduziu uma novidade: as terras achadas formavam não o litoral da Ásia, mas as costas de um extenso e desconhecido continente, que ele chamou de Novo Mundo, por perceber que as terras encontradas formavam um mundo distinto e separado do orbis terrarum, de extensão continental e povoada "de mais povos e animais que a nossa Europa e a Ásia ou África",37 afirmação que a tese de Colombo rejeitava, por acreditar na contiguidade de todas as terras. Essa diferença, segundo O'gorman, é que abre o "caminho com promessa histórica" e que valerá a Vespúcio o reconhecimento daquela massa de terra com seu nome, pois é ele quem consegue romper o "marco das concepções e premissas tradicionais" com que, até então, se analisava a questão e jogar por terra o antigo desenho cartográfico da Terra.38

Estamos perante um daqueles momentos em que a exclusão ou inclusão de uma tese à história deixa à mostra a violência subjacente ao campo das disputas simbólicas, onde os postulados enfrentam as circunstâncias nas quais se produzem. O que está em disputa é a determinação da natureza de uma entidade, à qual se busca atribuir "um ser específico e um nome próprio que a individualize": uma identidade, antes de mais nada. Ao justificar a escolha da tese de Vespúcio sobre a natureza das terras encontradas por abrir um "caminho com promessa histórica", o pensador mexicano está conectando o curso do acontecimento de 1492 com o pensamento teleológico do projeto ocidental, oferecendo um local e um devir na história para a entidade que investiga, como afirma no Prólogo de seu livro:

É claro que o leitor deve estar preparado para observar, sem surpresa, que os problemas que aqui se estudam ultrapassam por todos os lados os limites concretos do tema americano, para acabar oferecendo uma idéia da marcha e dos progressos da Cultura do Ocidente, que assim se revela como o único projeto vital da história realmente promissor, em virtude da dialética interna que vivifica.39


O'Gorman refaz o caminho das especulações de Colombo e Vespúcio sobre as terras encontradas, confrontando cartas e documentos, além de examinar as teses históricas que se elaboraram sobre a idéia do Descobrimento.40 Suas conclusões retiram o acontecimento de 1492 da galeria de eventos associados ao macro-relato cuja narração estava se gestando dentro da política de confirmação ideológica da natureza imperial dos Estados ibéricos no século 16. A este macro-relato, ou totalidade, Walter Mignolo chamaria "Ocidentalismo" e o definiria como "parte integrante da ideologia da expansão colonial", pois se apresenta como "o discurso da anexação da diferença, e não o da criação de um oposto irredutível"; sua face visível como programa de Estado se materializa na política delineada sob a denominação "Índias Ocidentais", nome que permanecerá até a caída do império espanhol, quando as expressões "Novo Mundo" e "América" passam a se colocar como discurso da cultura e não mais do Estado.41

A partir de outra cadeia de raciocínio, Silviano Santiago afirma que o Descobrimento significou, antes de mais nada, a entrada do continente americano em um sistema discursivo que assegurava aos países centrais o privilégio do enunciado histórico e a demarcação em seu entorno do perímetro regulador desse privilégio: o Ocidente.42 A periferia latino-americana poderia se explicar menos pela natureza dependente das relações econômicas que sustentam a posição privilegiada dos países centrais, e mais por sua posicionalidade discursiva, o que a deixaria "guardando seu lugar na segunda fila", porém atenta aos movimentos para assinalar uma diferença e marcar sua presença: "A América Latina institui seu lugar no mapa do Ocidente graças ao movimento de desvio da norma, ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo."43

A investigação de O'Gorman, ao retirar o véu que recobria a narrativa do Descobrimento e desmontá-la como um discurso de expropriação, reinscreve o evento em outra totalidade, a "Cultura do Ocidente", "único projeto vital da história realmente promissor", segundo suas palavras. A expressão "promessa histórica" começa a desfazer, assim, suas nuances, pois se para a ciência significava naquele momento a implosão da visão medieval do orbis terrarum, com a conseqüente exigência da proposição em seu lugar de um novo modelo teórico, para a América, ela confirmaria sua entrada ao que Richard Morse chamou de o "Grande Desígnio Ocidental".44 Segundo Morse, o programa ocidental, "uma cadeia de formulações logicamente intervinculadas de variada ênfase filosófica e científica", tem seu começo por volta dos séculos 11 e 12 da era cristã e, em uma de suas versões, sua construção junta "os fios da filosofia natural e da moral greco-romana, a doutrina cristã, a ciência e a tecnologia de origem mediterrânea e asiática e um elemento de pura observação que foi se tornando cada vez mais sistemático."45 A tese polêmica defendida por Morse sustenta que a América Latina reuniria melhores possibilidades que a América anglo-saxônica para a culminância ou a plena realização do projeto ocidental.46

A partir das três categorias vistas anteriormente, ou seja, o Ocidente como categoria de anexação (Mignolo), de inscrição (Santiago) e de pertencimento (Morse), é possível juntar os fios dessa argumentação para pensar um sentido para a projeção da América no Ocidente, e o que isso resulta para o continente, a partir da ótica latino-americana que revê o processo de invenção de sua terra. Fazer parte do Ocidente não significou para América Latina a partilha do privilégio do enunciado, o que suporia o reconhecimento da sua capacidade de contribuir para o progresso do próprio Ocidente, pois apesar da penetração do "desígnio ocidental" ter ocorrido nessa região de maneira "indubitável", segundo Morse, esta não interiorizou completamente a razão ocidental, ou a "intelectualização 'objetiva' do mundo", como o fez sua vizinha do norte, a América Anglo-saxônica.47 Em outras palavras, a América Latina importou o veículo da racionalidade ocidental, acompanhado de todos os acessórios necessários, mas se esqueceu de adquirir o manual com as instruções para dirigi-lo. Isso conferiu elevado grau de inautenticidade às suas estruturas sociais e políticas, e passou a exigir respostas que a "imaginação literária" não tardaria em oferecer. É emblemático, para Morse, o caso específico do fenômeno editorial conhecido como "realismo mágico", nos anos 60, que se colocou como resposta à mensagem da "eterna e triste dependência" com que as ciências sociais condenavam o Terceiro Mundo, o que "deslocou para os romancistas, poetas e artistas ibero-americanos o peso da responsabilidade de expressar seu mundo como centro e não como periferia."48

Por um lado, essa incorporação ainda que descentrada da América Latina ao Ocidente, uma posição bastante excêntrica na verdade, conferiu-lhe o direito à participação no legado da herança ocidental, a qual Rama sustenta que foi interiorizada como uma estrutura da mente e uma hierarquia de valores,49 e onde Todorov encontra uma descendência e uma genealogia.50 Por outro lado, como presença não de todo desejada, encontrou seu lugar à sombra do paradigma da "dependência", termo que lhe nega qualquer pretensão passada, presente e futura de originalidade pela assimetria irredutível que comporta, e informa seu estar no Ocidente como síntese precária de uma cópia importada, a se debater entre crises sucessivas e um irremediável pendor para a instabilidade.51

Ainda assim, a partir dessa paradoxal posição de estar e não-estar, o latino-americano interage pela apropriação e pela refração distorcida da norma, insistindo na busca de uma expressão autêntica. A leitura menardiana de Jorge Luis Borges, a traição da memória de Mário de Andrade, a mirada estrábica de Ricardo Piglia, ou os festins antropofágicos de Oswald de Andrade são, entre outras, estratégias discursivas que buscam tomar a margem a partir de uma perspectiva criadora, negando-se simplesmente a reproduzir a imagem invertida da alteridade que lhe foi negada pelo discurso colonial. Por isso sua palavra investe contra a inscrição forçada na mesma herança ocidental da qual sugere haver nascido: "Falar, escrever, significa: falar contra, escrever contra", afirma Silviano Santiago,52 consciente do desafio de construir sua imagem com a língua do outro, revelado pela leitura calibanesca de Franz Fanon: "Todo povo colonizado (...) se encontra face a face com a língua da nação civilizadora."53

No entanto, estas estratégias discursivas continuam falando de um desfalque, de um descolamento que se produz dentro do próprio Ocidente e origina em seu interior um espaço marginal, um "oriente" do Ocidente, lugar que a razão ocidental não reconhece como familiar e passa a designar como periferia do sistema. O discurso filosófico da modernidade européia54 se encarregou de separar entre centro e margem o que deveria ser uma unidade, apagando, sob a égide da história universal, os rastros de tal operação para que o centro passasse a ocupar o espaço da totalidade universalizante. Instituído o centro, a margem se configura como tudo o que não é ele mesmo, como seu negativo, sem conseguir expressar essa diferença como positividade em razão da rigidez conceitual que a produz como mera negação. A dependência, em suas várias aparências, é o termo que verticaliza a distância entre centro e margem, ao nomear como tempo o que entre eles era espaço e tornar-se um elo iniludível na mediação entre suas partes, estando presente mesmo quando a margem deixa de se opor ao centro para se tornar um lugar produtor de suas próprias contradições.

A pergunta que pede resposta, então, é como escapar do pensamento da dependência, um raciocínio que se organiza sobre polaridades que já não respondem mais dialeticamente, enrijecidas por generalizações e determinismos de toda natureza; um raciocínio de matiz colonial que, como a serpente de Voltaire,55 se reproduz incessantemente no interior do mesmo pensamento que procura sua própria descolonização, constrangendo suas boas intenções a um mal dissimulado torcicolo conceitual, já que retorna cada vez e sempre ao mesmo ponto em sua argumentação; um raciocínio que condicionou de tal forma o pensamento que se torna impossível pensar fora dele, para além de seu perímetro!?


O pensamento dependente: o diálogo interrompido

A teoria da dependência,56 proposta por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, surge nas águas da teoria do subdesenvolvimento a partir da percepção de que suas teses não levavam em conta as especificidades internas da organização das forças de produção dos países não desenvolvidos nas formulações sobre o atraso e seus fatores condicionantes. Menos uma teoria e sim "a expressão política, na periferia, do modo de produção capitalista quando este é levado à expansão internacional",57 segundo Cardoso, a dependência é resultante de duas variáveis: por um lado, a dependência externa do sistema capitalista internacional, que se funda na acumulação monopolista e na divisão imperialista do mundo, e, por outro, a dependência estrutural, que aparece como a resposta no âmbito interno das relações de produção e das classes sociais aos efeitos dessa relação externa. No reconhecimento dessa ambigüidade, que não deixa claro se o fator determinante da dependência é o mercado externo ou a articulação interna das forças produtivas, Francisco Weffort encontra a deixa para postular a incapacidade do Estado-Nação de acomodar um projeto nacional, alegando que "é a este nível [das relações de produção] que seria possível encontrar algum lugar teórico definido para o 'problema nacional'",58 que nada mais que é o acordo político que se encarrega de dar forma a estas relações.

No artigo "A economia brasileira: crítica à razão dualista", Francisco de Oliveira diverge do sub-desenvolvimentismo por entender que sua linha de raciocínio, ao operar com a dependência como produto apenas das relações externas a que estão sujeitos os países não desenvolvidos, engendra um cálculo do tipo dual não-dialético, próprio do pensamento produzido no âmbito da CEPAL. Reitera que "antes de oposição entre nações, o desenvolvimento ou crescimento é um problema que diz respeito à oposição entre classes sociais internas", e também reconhece que na ambigüidade proposta pela teoria da dependência reside sua possibilidade de renovação do pensamento crítico e o distanciamento do pensamento dual cepalino. Seu ensaio sobre a economia brasileira, tomando como ponto de partida o período posterior à crise do capital de 1930, inova ao considerar certas formas de produção arcaicas, especialmente as que se encontram no campo, como parte integrante do modelo capitalista adotado pelo país, e não simplesmente como herança colonial maldita, o que sugeriria a possibilidade de sua inserção num modelo mais amplo que redefinisse seu lugar e as promovesse com políticas econômicas e sociais.59 Mas sua afirmação mais contundente, onde diverge com o pensamento da dependência, é sobre o local onde se dá a estruturação do modelo capitalista brasileiro:

Aqui perfila-se um ponto essencial da tese: a de que, tomando como um dado a inserção e a filiação da economia brasileira ao sistema capitalista, sua transformação estrutural, nos moldes do processo pós-anos 30, passa a ser, predominantemente, uma possibilidade definida dentro dela mesma; isto é, as relações de produção vigentes continham em si a possibilidade de reestruturação global do sistema, aprofundando a estruturação capitalista, ainda quando o esquema da divisão internacional do trabalho no próprio sistema capitalista mundial fosse adverso.60


Ou seja, o vácuo no sistema internacional, produzido pela crise dos anos 30, propiciou uma das maiores oportunidades históricas para o capitalismo nacional rever sua estrutura produtiva, o que segundo Oliveira, deixa no próprio país a responsabilidade pelo modelo de desenvolvimento adotado daí em diante: "a expansão capitalista no Brasil foi muito mais o resultado concreto do tipo e do estilo da luta de classes interna que um mero reflexo das condições imperantes no capitalismo mundial."61

Ao assumir a mudança da base capitalista no Brasil da agricultura para a indústria, mediante políticas que transferiam recursos de um setor para o outro, a expansão do capitalismo no Brasil sustenta, no entanto, a paradoxal novidade de preservar formas arcaicas de exploração capitalista convivendo lado a lado com a tecnologia importada dos países desenvolvidos. Esta será, de acordo com Oliveira, a "especificidade particular" pela qual responderá a sociedade brasileira desde então, que é a criação de uma "larga periferia onde predominam padrões não-capitalísticos de relações de produção, como forma e meio de sustentação e alimentação do crescimento dos setores estratégicos nitidamente capitalísticos, que são a longo prazo a garantia das estruturas de dominação e reprodução do sistema."62 O novo se alimenta do velho e o mantém vivo numa região de sombra, periférica, o que concorre para a finalidade maior, a acumulação capitalista, às custas de um pacto político que o Estado tratará de costurar, através de uma série de medidas trabalhistas de caráter populista.

A recuperação da "Crítica" de Francisco de Oliveira oferece um elemento novo para pensar o lugar da América Latina no Ocidente, a partir da relação entre as três teses esboçadas anteriormente. Uma vez que o atraso passa a se explicar, após os anos 30, como conseqüência da opção feita pelas elites dos países não desenvolvidos e não mais como efeito de sua posição no sistema capitalista internacional, perde força qualquer conceito que defina o mesmo atraso como função direta de sua inserção periférica no mercado mundial. A periferia deixa de ser um elemento determinado de fora, do exterior, para se tornar um produto interno, resultado das articulações sobre as quais se reorganizaram as forças de produção e dirigiram a expansão capitalista local, constituindo por fim a totalidade social sobre a qual pesam suas contradições.63

Um texto clássico no Brasil sobre o atraso e sua filha predileta, a dependência cultural, que explica o arranjo da contradição entre a organização das forças produtivas e a ideologia que a reflete, são as "Idéias fora do lugar" de Roberto Schwarz.64 Tributário do pensamento da dependência em suas formulações, o texto de Schwarz é esclarecedor quanto à maneira que encontram as elites nacionais para equacionar a disparidade entre o escravismo e a ideologia liberal. O "favor" é o termo que se encarregará de articular essas diferenças, cimentando a apropriação indébita de idéias que pertencem a outras paragens. Se a tese de Schwarz é correta em sua proposição, apesar da redução que aplica à ideologia ao torná-la mero espelho da atividade econômica e entender as apropriações e deslocamentos da linguagem como impropriedade, mais correto, no entanto, será considerá-la válida para o período republicano brasileiro que chega até os anos 30. Porque após essa data, a mudança da base capitalista no país retira do favor o elemento externo que lhe dava a sustentação para explicar a "especificidade particular", que é o novo formato da contradição brasileira, agora produto interno, segundo Oliveira.

Produto do pensamento dependente, o favor ratifica a irredutibilidade da distância entre o centro e a periferia, as idéias e sua propriedade, a economia e a cultura, confirmando ao mesmo tempo a anexação e o pertencimento como as únicas portas possíveis de entrada do continente latino-americano ao Ocidente, uma vez que a dinâmica que as impulsiona vem de fora, da assimetria que reconhecem como constitutivas do próprio Ocidente em seus processos de fagocitação de tudo o que não seja ele mesmo, naturalizando a dependência cultural como resultado de sua ação.65 Em sua representação, a dependência preserva a manutenção de espaços associados a valores, como a noção de "países-fonte" de Antonio Candido,66 que se presta ao jogo de poder que ronda a composição do cânone literário, etc.; no âmbito político, ratifica a instância letrada como única forma possível de racionalidade e, no econômico, oficializa a divisão do território em regiões de atraso e regiões de progresso, reproduzindo, em todos os casos, o modelo imposto pelo referente externo.

Por essa razão, o pensamento dependente é o pensamento de um diálogo interrompido: em sua articulação, os termos centro e periferia aparecem congelados em torno de significados rígidos, já não respondem dialogicamente, não conseguem opor um ao outro sua cota de negação, necessária para que os termos girem ao redor de si e da pergunta que os originou. Para que isso ocorra, é necessário desenrijecer os conceitos, o que supõe a liberação de contradições e oposições que estão retidas nos pólos, bem como a conseqüente dissolvição de cada conceito liberado no seu oposto, o que recoloca a negatividade no centro da questão, segundo Hegel:

O negativo que emerge do movimento dialético, em geral, consiste "na falta" que cada um dos opostos revela quando se defronta com o outro. Mas é exatamente essa "falta" que se revela como a mola que impele, para além da oposição, a uma síntese superior, que é o momento especulativo, ou seja, o momento culminante do processo dialético.67
O caminho da superação começa pela compreensão do limite que cada termo carrega, limite que não se reduz ao domínio do significado, mas da própria significação que só encontra sua completude na falta que reconhece no outro, para a partir daí construir um terceiro termo que contenha os dois anteriores, produzido não em algum dos pólos, mas no ermo que media entre eles, como uma unidade divisível, porém inseparável, em sua eterna propensão para a instabilidade.

Duas propostas de superação

Como resposta à anexação e ao pertencimento, o pós-ocidentalismo e os estudos subalternos se oferecem como alternativas capazes de promover a retomada do movimento dialógico entre os termos centro e periferia, redesenhando uma nova articulação epistêmica em torno da representação e das estratégias e locais de enunciação. O pós-ocidentalismo,68 que busca "pensar e construir pensamento a partir dos interstícios" das categorias ocidentais, reivindicando a "força da fronteira" como possibilidade de incorporação de vários outros sujeitos (homossexuais, mulheres, negros, etc.) a um discurso histórico que lhes negou expressão, encontra seu limite na localização que assume como local de intervenção:



Esto es, la generación de una epistemología de frontera DESDE varios espacios del Tercer Mundo configurado por diferentes legados coloniales, PARA el conocimiento y la civilización planetaria (o sea, no una epistemología sólo para los marginales, o "del Tercer Mundo para el Tercer Mundo", lo que mantiene la hegemonía y la universalidad del conocimiento producido en el no-lugar y en la objetividad de los proyectos imperiales).69
Ao assumir o lugar do outro espoliado em sua representação, o pós-ocidentalismo reconhece o caráter de restituição de seu projeto e assume conscientemente a distância como o limite que é colocado pela localização desse mesmo outro, o que no entanto mantém intacto o antagonismo que tornaria produtiva a rotação dos termos opostos. A restituição do espaço preconizada como possibilidade aberta no cenário imperial para a re-escritura de uma nova história, que leva em consideração as histórias locais, é tributária, no entanto, da manutenção dessa mesma distância que medeia entre o conhecimento que se produz "na" América Latina e "sobre" a América Latina, em razão, segundo Mignolo, do baixo nível de desenvolvimento econômico e social da região, repondo a dependência como elemento estruturante das relações entre o norte e o sul.70

De maneira diversa, porém concorrente, o subalternismo preconiza o sujeito redentor anunciado pelo pós-ocidentalismo, pois o subalterno, como "sujeito que emerge nos interstícios das disciplinas acadêmicas" é, em sua escorregadia irrepresentabilidade, o único capaz de transcender os limites de classe, gênero e raça na re-fundação do conhecimento que se elabora na América Latina.71 Porém, na justificativa expressa no Manifesto Subalternista sobre as condições de seu aparecimento, um problema vem à tona, quando afirma que "no campo da produção cultural, a emergência de formas documentais ou testemunhais deslocou os parâmetros da representação fundada na atividade dos escritores e das vanguardas."72 Ou seja, passam a ter primazia formas literárias cuja referência vem de sua capacidade de dar veracidade de algo que se narra, sobre o trabalho ficcional da linguagem, sob cujas propriedades se construiu o sujeito monolítico da modernidade ocidental. No deslocamento da ficção pela verdade, ou melhor, pelo desejo de verdade, que o componente ficcional do testemunho e do documento tampouco escondem, a representação se compromete ao transferir o foco de seu trabalho para uma das margens, utilizando a desconstrução como ferramenta de defecção que prepara o terreno para a negativa radical que aplica a essa mesma margem, cancelando qualquer possibilidade de conhecimento válido que não seja provido por ele mesmo.73 Mas o local em que fracassa o subalternismo é justamente na perspectiva a partir da qual toma a literatura, quando revela seu projeto e as condições para seu êxito:

Essa "normalidade" ou "naturalidade" da dependência cultural torna-se a questão decisiva sobre a qual o subalternismo latino-americano pode e deve construir sua reivindicação de redesenhar paradigmas críticos previamente articulados ou de se opor a eles. Em outras palavras, a "naturalidade" da dependência cultural e de sua interdependência corolária é o paradigma mestre contra o qual os estudos subalternos reagem. Além disso, a força histórica de tal reação subalternista depende do fracasso do paradigma anterior, e não do voluntarismo subalternista.
E ao explicar o fracasso do paradigma anterior, afirma:
O sucesso super-regionalista simultaneamente revela seu fracasso mais profundo ou sua incapacidade de operar a redenção cultural daqueles vastos segmentos da população latino-americana para a qual a interdependência se torna uma forma ainda mais extrema de dependência histórica.74
Ao reivindicar a redenção de vastos setores marginalizados, o subalternismo revela suas armas e abdica da distância teórica para entrar ao campo das disputas políticas não mais pelo sentido das práticas, ou da ação, mas pela própria prática em si, tornando-se elemento de proposição, o que salvaguarda o caráter redentorista do seu projeto.75 A crítica literária e cultural se torna, assim, cálculo e compromisso com a incorporação das massas subalternas, como afirma John Beverley ao final do artigo em que reivindica a presença da novela social dentro do cânon literário latino-americano, oferecendo estratégias que colocariam ao alcance dessas massas a possibilidade de um auto-reconhecimento de caráter identificatório: "A chave para mim é que estas estratégias sejam também caminhos para que os que têm sido excluídos da instituição da literatura na América Latina, cuja exploração e repressão ao nível do Estado e das relações de produção está anunciada em parte precisamente nesta mesma exclusão, a expropriem, a façam sua."76



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