Capítulo 3 LÍngua e identidade no início da itália moderna



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BURKE, Peter. A arte da conversação. São Paulo, Unesp, 1995.

CAPÍTULO 3



LÍNGUA E IDENTIDADE NO INÍCIO DA ITÁLIA MODERNA

"A língua é um dos laços mais fortes que nos ligam à pátria."

Conde Galeani Napione1

O problema da identidade é um assunto atual, na verdade atual demais, por sua associação com o chamado "renascimento étnico" que se estende dos catalães aos curdos, de Paisley a Khomeini, do Quênia à Bósnia. A proximidade do problema contribuiu para gerar alguns estudos antropológicos e sociológicos extremamente interessantes, que suscitam questões e empregam conceitos que podem muito bem ser úteis para os historiadores em seu audacioso empreendimento de reconstrução das identidades passadas. Os rótulos impostos por forasteiros são bastante fáceis de estudar. Mas o sentimento íntimo de pertencer a determinado lugar é muito mais indefinível, e a relação entre ambos é, no mínimo, mais difícil de identificar.


l Epígrafe de Napione em 1791, citado em Puppo, 1957, p.493.

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A identidade nacional é um importante campo de estudos e tem recebido bastante atenção nos últimos tempos, tanto de sociólogos quanto de historiadores sociais.2 No entanto, até mesmo no mundo moderno das nações, é bastante óbvio que outros tipos de identidade cultural continuam sendo significativos. No fim da Europa medieval, e no início da moderna, as rivais da identidade nacional foram até mais importantes: identidades regionais, identidades étnicas, identidades civis e identidades religiosas, para não mencionar aquelas relacionadas ao gênero, à família ou às identidades clericais ou nobiliárquicas (quer estas fossem descritas em termos de "classe" ou não).

Essa multiplicidade, quando reconhecida, é às vezes percebida como um fenômeno "pós-moderno". Entretanto, para um historiador como eu, parece não haver nada peculiarmente pós-moderno, ou mesmo moderno, a esse respeito. Eu até mesmo estaria pronto a sugerir que a pós-modernidade surge facilmente para alguns povos, como os italianos, exatamente pelo fato de possuírem tradições pré-modernas tão fortes, tendo investido muito pouco de suas energias naquilo que se tornou uma antiquada identidade nacional "moderna".

O que exatamente torna possível um forte senso de identidade? Ele é sempre, ou geralmente, "reativo", isto é, uma reação ao contato com outras culturas e a ameaça de nelas nos perdermos?3 Será que ele se desenvolve, como afirmaram dois historiadores da moderna classe média suíça, "tanto em dependência de outras unidades sociais quanto em oposição a elas"?4

Um historiador que trabalha com o início da Europa moderna pode atestar que nessa cultura (ou agrupamento de culturas), a identidade de uma comunidade era freqüentemente definida por oposição, assumindo a forma da rejeição dos costumes do "outro",


2 Armstrong, 1982; Breuilly, 1982; Anderson, 1983; Gellner, 1983; Hobsbawm, 1990; Smith, 1986.

3 Cohen, 1982; cf. Carneiro da Cunha, 1986.

4 Frykman & Löfgren, 1987.

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como no caso dos huguenotes na França, cuja identidade baseava-se, de maneira significativa, em sua rejeição ao catolicismo.5 Algo semelhante poderia ser dito sobre o protestantismo popular inglês, com seu lema "No Popery" (Abaixo o Papismo), do final do século XVI ao início do século XIX, e também sobre o protestantismo irlandês do norte até hoje. De tal forma, no Japão - um país sem muita experiência direta com estrangeiros entre meados dos séculos XVII e XIX -, as visitas das embaixadas coreanas causaram grande impressão e foram reencenadas nos festivais populares por terem colaborado na construção de uma identidade japonesa.6



Em casos como esses, as fronteiras são fundamentais - fronteiras culturais ou, em outras palavras, fronteiras simbólicas. As identidades geralmente dependem de estereótipos do self e também de estereótipos dos outros, como o estereótipo protestante do católico ou "papista", ou os estereótipos cristãos dos muçulmanos e dos judeus. As identidades apóiam-se naquilo que certa vez Freud, em uma expressão famosa, chamou de "o narcisismo de pequenas diferenças", exagerando qualquer aspecto que faz uma comunidade ser diferente da outra.7 As definições de identidade freqüentemente tentativas de apresentar a cultura como se fosse natureza, como no caso do difundido mito do sangue especial: sangue inglês, sangue azul, "puro" sangue católico (limpieza de sangre) etc.

No entanto, para um historiador, é óbvio que as identidades culturais (dadas as formas que assumiram ao longo do tempo) podem ser produtos ou até mesmo invenções.8 "Invenção" pode ser um termo por demais insólito, implicando uma autoconsciência que freqüentemente parece inexistir na prática, mas o processo de formação de identidade tem de ser visto como uma construção coletiva. Um notável historiador literário da Inglaterra renascentista escreveu um estudo sobre aquilo que chama de "auto-adaptação"


5 Joutard, 1977, p.40.

6 Toby, 1986.

7 Freud, 1930, p.90.

8 Hobsbawm & Ranger, 1983.




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de importantes escritores como Sir Thomas More e Sir Thomas Wyatt, e sobre os heróis de Marlowe e Shakespeare.9 As identidades coletivas podem ser analisadas - e estão sendo analisadas - de maneira semelhante. Por exemplo, a conclusão de um recente estudo antropológico sobre o Marrocos é que, apesar das tentativas de torná-las rígidas e bem definidas, as identidades com freqüência parecem ser fluidas, frágeis e "negociáveis".10 Elas também apresentam uma especificidade contextual, no sentido de que as mesmas pessoas mostram-se de maneira diferente em situações diferentes.

A relativa importância de cada uma dessas múltiplas identidades para determinados grupos e indivíduos, suas prioridades, ou, em outras palavras, a hierarquia de identidades, é uma questão que os historiadores deveriam levar a sério, não importando a dificuldade de sua discussão. Outro problema que eles certamente precisam analisar é se essas identidades foram expressas ou se foram construídas por meios como a língua ou o rito. Os historiadores culturais costumavam supor que as formas aparentes de cultura "expressavam" ou "refletiam" alguma realidade intrínseca mais profunda. Hoje em dia essa suposição é com freqüência criticada como excessivamente reducionista ou determinista, e a atual metáfora mais usada não é "reflexo" e sim "construção". A reação foi saudável, mas pode ter ido longe demais, a fim de nos encorajar a esquecer as coerções sobre a criatividade coletiva. O registro histórico não sugere que as identidades coletivas possam ser inventadas ou construídas à vontade. Algumas tentativas de construção são bem-sucedidas, outras falham, e são os historiadores que têm de descobrir os motivos de uma ou outra ocorrência.

As identidades também estão "incorporadas" - para empregar uma metáfora mais neutra - em veículos, tais como: ritos, mitos e cultura material. No caso dos mitos, exemplos óbvios são as


9 Greenblatt, 1980.

10 Rosen,1984,cap.2.



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narrativas acerca da origem de uma determinada comunidade, como as histórias de descendência troiana tão comuns no século XVI na Inglaterra, na França e em outros lugares (a cidade de Pádua, por exemplo, afirmava-se ter sido fundada pelo troiano Antenor).11 Os ritos também podem ajudar a definir a identidade de um grupo, não só pela exclusão de não-membros da participação, mas também por ataques simbólicos aos inimigos da comunidade. Em algumas partes da Europa, nas antigas fronteiras entre a cristandade e o islamismo, da Espanha à Croácia, batalhas rituais entre "mouros" e "cristãos" ainda são encenadas todos os anos. Na Inglaterra, a comemoração do dia de Guy Fawkes (5 de novembro) assumiu, e em alguns lugares ainda assume, a forma de queima do papa, um ritual que expressa valores protestantes tradicionais.

Quanto à cultura material, a abstinência católica de carne, especialmente em países protestantes, e a preocupação - ou, como diriam os estrangeiros, a obsessão - dos holandeses para com a limpeza foram recentemente interpretadas por historiadores como afirmações da diferença em relação aos outros, ou seja, símbolos de identidade.12 Algo semelhante poder-se-ia afirmar, e de fato o foi por Pierre Bourdieu, a respeito do consumo conspícuo como meio para uma pessoa distinguir-se das outras.13

Um outro fator que não deve ser omitido no estudo da identidade coletiva é aquilo que poderia ser chamado de "memória social", a imagem do passado de um grupo que é compartilhada pêlos membros desse grupo.14 Quem somos depende de quem fomos. No entanto, há uma circularidade importante envolvida aqui: quem pensamos que fomos depende de quem pensamos ser.

Por esse motivo, os historiadores com freqüência têm tido um papel importante na afirmação de solidariedades nacionais, entre outras.
11 Giovanni da Nono, 1934-1939.

12 Douglas, 1966; Bossy, 1975, p.109; Schama, 1987, p.375ss.

13 Bourdieu, 1979.

14 Nora, 1984-1986, v.l; Burke, 1989; Fentress St Wickham, 1992.



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"A posse de uma história que não é compartilhada dá ao grupo sua identidade."15 Na criação da nação holandesa nos séculos XVI e XVII, por exemplo, o mito dos antigos batavos e de sua resistência a Roma foi de importância considerável, e é interessante descobrir que os holandeses atribuíam a virtude da limpeza a seus ancestrais batavos.16

Uma das manifestações mais importantes de identidade cole-tiva é a língua. Falar a mesma língua, ou variedade de língua, que uma outra pessoa é uma maneira simples e eficiente de indicar solidariedade; falar uma língua diferente ou variedade de língua é uma forma igualmente eficiente de distinguir-se entre outros indivíduos ou grupos. Diversos estudos sociolingüísticos examinaram a língua com base nesse ponto de vista.17

Para J. G. Herder, em seu ensaio "Über den Ursprung der Sprache" ["Sobre a origem da língua"] (1772) e também para os românticos, a língua era, sem dúvida, o símbolo da identidade par excellence. Um ensaio histórico recente sobre o nacionalismo romântico sugere com alguma plausibilidade que não por acaso esse movimento surgiu mais ou menos na mesma época que a nova filosofia da linguagem ligada a Humboldt, Grimm e outros, que enfatizava a maneira pela qual as línguas influenciavam seus usuários.18 A pesquisa sociolingüística confirmou a importância dos laços entre a língua e a consciência de grupo. Por exemplo, em um famoso estudo sobre Martha's Vineyard, uma ilha na costa de Massachusetts, William Labov investigou aquilo que viria a chamar de "a motivação social de uma mudança sonora", demonstrando que as pessoas que eram mais ligadas à comunidade local eram as mesmas que mantinham a pronúncia tradicional.19


15 Zonabend, 1980, p.203. Cf. Pina Cabral, 1987.

16 Schama, 1987, p.78.

17 Gumperz, 1982b; Edwards, 1985; Lê Page &. Tabouret-Keller, 1985.

18 Nipperdey, 1983.

19 Labov, 1972a, p.1-42.

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No entanto, a idéia romântica de um laço necessário entre língua e consciência nacional foi contestada pêlos sociolingüistas, por um lado, e pêlos estudantes do nacionalismo, por outro. Por exemplo, um estudo recente sobre comunidades étnicas declarava com segurança que a língua "não é decisiva para a constituição da identidade", ao passo que outro lançava um ataque aos estudiosos que "persistem em considerar a língua marca característica de etnicidade" e em ignorar o fato de que o sentido de comunidade entre os escoceses, por exemplo, ou entre os galeses tem pouco a ver com a capacidade de falar gaélico.20 Algo semelhante foi dito sobre os bascos na atualidade. "Uma pessoa é basca por descendência; é ótimo se ela souber falar basco, mas se não souber, ainda assim há muitas razões para que seja basca e não qualquer outra coisa."21 Um estudo antropológico recente sobre os bretões enfatizou a "incompatibilidade" entre língua e patriotismo.22

Por outro lado, um importante sociólogo da linguagem questionou a generalização de que "a manutenção da língua é uma função de associação a um grupo ou de lealdade a esse grupo".23 No entanto, meu propósito aqui é explorar o lugar da língua entre outros sinais de identidade (ou suportes para a identidade), e não discutir quais deles são os mais importantes. A associação entre língua e identidade que os românticos acreditavam ser universal parece estar sujeita - tal como os assim chamados universais da natureza humana - à mudança ao longo do tempo.

O restante deste ensaio irá tratar da Itália entre 1500 e 1800 ou, mais exatamente, se estamos buscando limites mais naturais (como Marc Bloch recomendou que os historiadores o fizessem), da Itália desde a época de Dante, quando a questione della lingua tornou-se assunto de intensa polêmica, até o Risorgimento, quando alguns dos líderes do movimento por uma Itália unida argumen-

20 Armstrong, 1982, p.241ss.; Smith, 1986, p.27.

21 Wardhaugh,1987,p.l25.

22 McDonald, 1989.

23 Fishman, 1972, p.96.



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tavam; como Massimo d'Azeglio, que a língua "constitui a nacionalidade" ("costituisce la nazionalita"). Entretanto, mais de 10 milhões de italianos viveram durante este longo período, e pouco sabemos das atitudes da maioria deles. O leitor deve ter em mente que as evidências são desiguais, limitadas quase que inteiramente a uma minoria de adultos do sexo masculino vivendo nas cidades.

Vamos começar com a pergunta mais óbvia, a mais controversa de todas, aquela que tem sido discutida com maior freqüência: em que medida as pessoas desse período consideravam-se "italianas"? Já no início do século XIV, uns poucos escritores identificavam-se como italianos em determinados contextos. O cronista-mercador Giovanni Villani expressou um certo senso de superioridade italiana em relação ao norte. O mesmo o fez o humanista Coluccio Salutati, que mostrou desprezo pela "frivolidade francesa" ("Gallicam levitatem"), preocupando-se com a libertas Italiae. Salutati certa vez descreveu-se, com precisão fascinante, como "um italiano por raça, um florentino por pátria" ("gente Italicus, patria Florentinus").24 Em um famoso poema, Petrarca escreveu sobre a tradicional coragem dos Italici e também da "minha Itália", Italia mia.

Expressões desse tipo tornam-se mais freqüentes a partir do século XVI. Essa demarcação sugere que a invasão francesa de 1494 criou, ou pelo menos incentivou, um tipo dê união contra os estrangeiros, os "bárbaros", exemplificando dessa forma uma idéia apresentada pelos sociólogos sobre a importância da identidade "reativa". O rei da Franca, Carlos VIII, foi acusado de aspirar ao "domínio de toda a Itália" ("il dominio di tutta Itália"), e logo houve tentativas de formar uma "liga italiana" (unione di Italia) contra ele. O poeta Boiardo lamentou a visão da Itália em chamas ("La Italia tutta a fiamma e a foco"). A obra de Maquiavel, O Príncipe, citava o poema de Petrarca sobre a coragem dos Italici e exortava os
24 De Rosa,1980,p.87-99.
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governantes a expulsarem os "bárbaros" estrangeiros, na mesma época em que o papa Júlio II lançava seu famoso grito, "fora com os bárbaros" ("fuori i barbari”).

Expressões como Itala gens ou La stirpe italiana, em outras palavras a "raça" ou "família" italiana, tornaram-se mais freqüentes e talvez tenham adquirido maior ressonância do que nos dias de Salutati.25 No final do século XVI, um nobre genovês, Andrea Spinola, podia referir-se a si próprio como "um bom italiano" (buon italiano).26 Um tipo de evidência diferente, sugerindo que a identidade italiana estava de fato sendo levada mais a sério do que antes, é a existência da Storia d’Italia, de Guicciardini, escrita na década de 1540 e publicada na década seguinte, uma história que rompeu com a tradição de se escrever relatos separados das diferentes cidades-estado e reinos, apresentando a história italiana de 1494 em diante como um todo. Outra evidência que aponta nessa direção é o apelo de Girolamo Muzio em favor da união da Itália, publicado em 1572.27

Em suma, nos escritos de intelectuais depois de 1494 existem mais sinais de consciência do ser italiano do que havia até então. No entanto, interpretar essa mudança é mais difícil do que pode parecer. Essa consciência pan-italiana não deveria ser equacionada com o nacionalismo moderno (o que foi feito pêlos italianos do século XIX em busca de uma genealogia).28 Ela tendia a assumir a forma tradicional de xenofobia e geralmente não apresentava a reivindicação caracteristicamente nacionalista de que um "povo" deveria estar organizado em uma unidade política. Algo semelhante poderia ser dito a respeito dos escritores do início do século XVIII que começaram a usar o termo nazione em um novo sentido, "não mais étnico, mas cultural".29


25 Gilbert, 1954; llardi, 1956; Marcu, 1976, p.29ss.; Denis, 1979, p.!09ss.

26 Spinola, 1981, p.247.

27 Muzio, 1572.

28 Por exemplo, Pasquale Villari, discutido por Gilbert, 1954, p.38ss.

29 Folena, 1983, p.22.


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Sem dúvida, a Itália foi - e em certa medida ainda é - o espaço clássico do campanilismo. No início do período moderno, apesar do declínio da cidade-estado autônoma, a identidade local (especialmente a pública) continuou sendo importante. Parece que as pessoas viam-se como florentinos, venezianos, genoveses e assim por diante, e não como italianos. Como vimos, o humanista Salutati usava a palavra pátria emocionalmente carregada, para descrever sua lealdade a Florença, não à Itália. Para Maquiavel, "nossa nação" (nazione nostra) era Florença, a Itália simplesmente uma provincia.30

De forma semelhante, no final do século XVI, um alfaiate florentino, Sebastiano Arditi, usa o termo Itália ocasionalmente em seu diário, mas expressa certa emoção relativa a um lugar somente quando escreve sobre "A honra de minha pobre pátria, a cidade de Florença" ("l'onore della povera patria mia, citta di Fiorenza").31 A paróquia, o bairro (contrada) ou a vizinhança (vicinanza) também parecem ter sido um foco de lealdade em algumas cidades, como no caso de Florença, que tem sido estudado com especial atenção e intensidade nos últimos anos.32

Essas identidades locais múltiplas eram expressas - ou talvez criadas - por rituais públicos, imagens e mitos. Os mitos incluíam histórias das origens das cidades. Os venezianos, por exemplo, associavam sua liberdade à fundação da cidade pêlos refugiados das invasões bárbaras. Quanto aos florentinos, na época de Dante, estes acreditavam que sua cidade havia sido fundada por César. Por outro lado, na época de Salutati e Bruni, ca. 1400, eles argumentavam que a cidade fora fundada durante a república romana, uma mudança de posição que expressa a crescente ênfase em relação à liberdade republicana na época da luta florentina pela sobrevivência, ou seja, a tentativa de evitar ser absorvida por Milão,


31 Arditi, 1970, p.29,107,129, (Itália), p.50, (Firenze).

32 Kent, 1978; Kent &. Kent, 1982. Sobre a múltipla identidade na Itália da Renascença, Weissmann, 1985.


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uma luta que os tornou mais conscientes daquilo que defendiam, de quem eles eram.33 Mais uma vez a identidade reativa.

A importância do processo de "identificação" com a Roma antiga na Renascença será bastante óbvia. Pessoas como o humanista Pomponio Leto, em Roma, ou o pintor Andrea Mantegna, em Mântua, e seus respectivos círculos sociais jocosamente adota-vam nomes e títulos romanos.34 Milaneses, florentinos e venezianos, todos afirmavam ser os "novos romanos". Havia esteios clássicos e bíblicos para a identidade. Os florentinos, por exemplo, viam-se como o povo escolhido e sua cidade como a Nova Jerusalém.35

O imagístico reforçava essa identificação, apresentando Florença na forma de Jerusalém em alguns manuscritos, ou apresentando a luta entre Florença e Milão, nas esculturas de Donatello, na forma do combate entre Davi e Golias ou entre São Jorge e o dragão. Os rituais públicos também deram sua contribuição à identidade civil, com a festa do santo guardião da cidade (São João Batista, em Florença; São Marcos, em Veneza) sendo um dos exemplos óbvios.

Em Veneza, especialmente, havia toda uma série de rituais urbanos que expressavam e criavam um sentido do que significava ser veneziano. Alguns celebravam a cidade como um todo, alguns invocavam a lealdade de algumas localidades, como no caso da famosa "guerra dos punhos" (guerra de’pugni) travada nos séculos XVI, XVII e XVIII entre os Castellani e os Nicolotti, disputas por pontes que simbolizavam o espaço liminar entre dois territórios urbanos. Houve uma disputa semelhante por uma ponte em Pisa, entre nortistas e sulistas, travada ainda no início do século XIX, remanescente de um grande número de lutas ritualistas no final da Idade Média entre os bairros de uma determinada cidade.
33 Baron, 1955.

34 Sobre Leto, Wardrop, 1963, p.20-3; sobre Mantegna, Saxl, 1957.

35 Sobre Veneza como a Nova Roma, Chambers, 1970, cap.l; Tafuri, 1984. Sobre Florença como a Nova Jerusalém, Chastel, 1954; Weinstein, 1968.


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Da mesma forma, até mesmo hoje em dia, o Palio sienense ainda expressa e reforça a rivalidade entre os diferentes contrade da cidade.3

Essas identidades civis coexistiam com outras identidades coletivas, que persistiram apesar da afirmação do historiador do século XIX, Jacob Burckhardt, de que teriam desaparecido no que ele chamou de a época do "desenvolvimento do individual".37 As cidades italianas continuaram repletas das compagnie, associações voluntárias que criavam suas próprias lealdades. As fraternidades religiosas provavelmente são as mais conhecidas dessas associações.38 Às vezes seus membros provinham de um grupo étnico, como nos casos das fraternidades dos gregos e dos eslavos em Veneza, que pareceriam estar expressando e defendendo uma identidade ameaçada pela submersão no caldeirão da cidade grande.

Não devemos nos esquecer também da existência de outros tipos de associação voluntária, tais como as academias mais ou menos letradas, com seus nomes e expedientes característicos, e outros tipos de agremiações, como a compagnie delle calze em Veneza, que usava roupas especiais e organizava representações teatrais amadoras. As identidades das guildas também eram fortes nas cidades italianas, e recentemente um historiador analisou os rituais dos jornaleiros na Veneza do século XVI como "um esforço para criar um sentido de comunidade".39

Passemos agora para a questão de classe social. O modelo mais conhecido de sociedade no início da Europa moderna foi o das três classes: os que oram, os que combatem e os que trabalham.40 No entanto, os italianos urbanos preferiam outro modelo ternário, bastante próximo do modelo de classes. Consistia nos ricos, ou
36 Detalhes em Burke, 1993b.

37 Burckhardt, 1860,cap.2.

38 Weissmann, 1982.

39 Martin, 1987, p.208. Cf. Cerutti, 1988,1992, sobre a Turim do século XVU1.

40 Niccoli, 1979.


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mais exatamente os "opulentos", o popolo grasso; o "povo pequeno", ou popolo minuto; e aqueles que estavam no meio, os mediocri.41

Não é fácil avaliar a importância dessa forma de consciência social em relação a outras formas de identidade coletiva. Os patrícios tinham bastante consciência de serem patrícios, os homens das guildas tinham alguma consciência de serem homens das guildas (e também de serem membros de uma determinada guilda), e assim por diante. A dificuldade reside em descobrir até onde essas solidariedades horizontais atravessam os limites da cidade ou da região. Que patrícios e nobres tinham alguma consciência de pertencerem a um grupo comum é sugerido pelo fato de que freqüentemente casavam-se com pessoas de famílias de outras cidades; citando um exemplo famoso, Lorenzo de Medici casou-se com alguém da família baronial romana de Orsini. Já havia, portanto, um certo "sentimento transregional", que a invasão francesa conseguiu ativar e fortalecer.42

É difícil dizer se esse tipo de consciência de grupo foi expresso por formas lingüísticas. Talvez só mesmo um inglês fizesse esse tipo de pergunta, visto que a Inglaterra era e é um país onde as variedades lingüísticas estão bastante associadas às classes sociais. No entanto, é certamente importante descobrir alguns italianos do século XVI afirmando serem capazes de reconhecer camponeses toscanos por seu falar arcaico, explicando tais arcaísmos pelo fato de que "os camponeses falam menos com forasteiros do que os citadinos, e portanto mudam menos" ("i contadini conversano manco con forestieri che non fanno i cittadini, e però mutano manco").43 Um nobre napolitano do mesmo período, o Marchese Del Tufo, expressou seu desprezo pelo "falar grosseiro do povo" ("il parlar goffo della plebe"), e o arquivista de Nápoles, G. C. Capaccio,
41 Gilbert, 1965, p.23-8.

42 Ilardi, 1956,p.344.

43 Sobre os camponeses, Castiglione, 1528, l .31; Borghini, 1971, p.l 39. Cf. Brunet, 1976, esp. p.220ss.


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comparou o "napolitano na boca dos nobres" ("il parlare napoletano nelle bocche dei Nobili") com o da plebe.44

Ao discutir esse amplo espectro de identidades potenciais ou verdadeiras não quero dar a impressão de que os italianos do inicio do período moderno fossem invejados a esse respeito. É, no mínimo, igualmente possível que eles tivessem que desempenhar vários e diferentes papéis para garantir seu bem-estar material, e mais de um historiador descreveu-os como sofrendo de "crise de identidade", embora não seja fácil perceber quais seriam as evidências de tal crise.45

Agora seria finalmente possível tratar do problema da relação entre língua e identidade no início da Itália moderna. Curiosamente, a questão não tem sido estudada de maneira intensa, apesar do fato de os lingüistas italianos levarem a história bastante a sério. A história da língua italiana mais conhecida pouco diz sobre a sociedade. Embora exista uma boa história social do italiano, ela começa apenas em 1860.46

No que diz respeito ao início do período moderno, é razoável ter como ponto de partida o fato de que determinados grupos étnicos na Itália afirmaram sua identidade cultural separada, falando outras línguas que não o italiano. Havia falantes de alemão e "eslavo" (schiavo, ou seja, croata) no norte, e falantes alemães de um tipo de "italiano-pidgin" em todos os lugares em que os notórios mercenários alemães ou Lanzknechts fossem encontrados.47 Havia falantes de grego no sul e também em Veneza, onde é possível encontrar evidências de um homem ditando seu testamento nessa língua, e de mulheres como uma certa Serena ou "Marietta Greca", que impressionava seus clientes benzendo-os em grego.48 Havia falantes de hebraico e ladino entre as comunidades judaicas em toda parte.
44 Tagliareni, 1954; Capaccio, 1882, p.538.

45 Becker, 1971; Ascoli, 1987, p.43.

46 Migliorini, 1960; De Mauro, 1976.

47 Coates, 1969.

48 Burke,1987,p.213-4.

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No século XIII, o francês, em especial na forma agora chamada de franco-veneto, era falado e escrito regularmente no norte da Itália, como nos lembram a história de Veneza escrita por Martin da Canal (Les estoires de Venise) e as viagens de Marco Polo (originalmente conhecidas como Divisament dou monde), ao passo que mais tarde na Idade Média essa língua falada parecia estar associada àquilo que os sociolingüistas chamariam de "domínio de fala" da cavalaria, das apresentações na piazza feitas por cantadores de histórias até os lemas que acompanhavam os imprese ou emblemas usados nos torneios (como no caso do lema dos Medici, Le temps revient).49 No final do século XV, quando os catalães Calisto III e Alexandre VI eram papas, o catalão era falado na corte de Roma, até mesmo por castelhanos.50 Além disso, na Itália, como em outros lugares da Europa, o uso do latim pêlos letrados poderia ser analisado não só como língua de conveniência, uma língua franca, mas também como afirmação da identidade cultural separada dos acadêmicos (ver p.58).

No entanto, este ensaio irá se concentrar nas diferentes formas do italiano. Um caso óbvio da associação entre língua e identidade é o da língua secreta ou "jargão" (gergo, lingua zerga, furbesco) de mendigos e ladrões, registrada com certo detalhamento a partir do século XV mas indubitavelmente mais antiga. Segundo o Nuovo modo di intendere la lingua zerga (1545), por exemplo, ladrões eram "pescadores" (pescatori) ou "carpas" (carpioni), ao passo que falar era "cantar" (canzonare) e o próprio jargão era conhecido como "contraponto" (contrapunto).51

Uma língua secreta apresentava vantagens práticas para um grupo à margem da sociedade respeitável, mas o jargão também era um meio de identificação do grupo aos olhos (ou melhor, aos ouvidos) de intrusos. Também podemos suspeitar de que era um

símbolo de identidade para os membros do grupo.
49 Paccagnella, 1984,1987. Cf. Folena, 1964.

50 Badlori, 1983.

51 Camporesi, 1973. Cf. Aquilecchía, 1967.

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Menos exótico mas muito mais importante é o dialeto regional, porque foi a primeira e provavelmente a única língua da maioria da população. Já em 1860, quando a Itália estava oficialmente unificada, é provável que somente 3% da população entendesse o italiano, e um número menor ainda soubesse falá-lo.52 O dialeto regional identificava claramente os falantes aos forasteiros. A melhor evidência da prática de se rotular as pessoas por seu dialeto vem da comédia, mais especialmente a commedia dell’arte do século XVI, na qual aparecem diversas figuras ridículas com sotaques regionais, em especial o criado ou o porteiro proveniente de Bérgamo. Da mesma forma que os habitantes de outras áreas montanhosas, as pessoas de Bérgamo com freqüência migraram em busca de trabalho no inicio da Itália moderna, e seu principal objetivo parecia ser Veneza, uma cidade cosmopolita na qual a evidência das peças sugere que seus habitantes tinham uma consciência lingüística incomum.

Para decodificar as comédias de Andrea Calmo, como La Spagnolas, por exemplo, representadas em Veneza em meados do século XVI, é necessário familiaridade com quatro ou cinco versões de italiano coloquial, não só aquela do criado bergamasco, mas a do mercador veneziano, a do pedante bolonhês, a do ítalo-grego do stradtotto ou a do soldado mercenário dos Balcãs, e assim por diante. De maneira geral, esse "multilingüismo literário" tem sido analisado como exemplo de divertimento e autoconsciência literários.53 Talvez, também devesse ser interpretado como uma reação jocosa e hostil dos venezianos à invasão de sua cidade pêlos imigrantes.

Não se pode afirmar com certeza se o dialeto era um emblema de identidade para aqueles que faziam parte de um determinado grupo, porque não se esperava que as pessoas comuns falassem qualquer outra língua. No entanto, também nesse caso é preciso


52 De Mauro, 1976.

53 Paccagnella, 1984; Stussi, 1972, p.703ss. Cf. Lazzerini, 1978, esp. p.l25ss.



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que pensemos sobre identidades reativas. É tão comum que os grupos pensem que seu modo de vida é o único modo de vida para os seres humanos que as identidades culturais parecem se desenvolver apenas quando grupos diferenciados entram em contato e, acima de tudo, quando um grupo tenta forçar o outro a se ajustar a seu modelo. Da mesma forma que a consciência de identidade é moldada em situações de contato e conflito, os signos ou emblemas de identidade tornam-se signos somente quando uma outra pessoa_ tenta eliminá-los. Será que o orgulho de bergamasco por parte dos membros do grupo poderia ser considerado uma reação à qualificação étnica jocosa dos forasteiros?

É difícil fazer alguma coisa além de especular sobre a maneira pela qual os camponeses perceberam ou elaboraram suas identidades. As fontes escritas do falar camponês que sobreviveram foram produzidas por forasteiros, em especial dramaturgos como Ruzante, Giovanmaria Cecchi e Alessandra Piccolomini, ou pêlos funcionários dos tribunais nos quais os camponeses eram interrogados.54 Por esse motivo, é aconselhável limitar esta discussão a grupos que tenham sido mais bem documentados, especialmente as elites.

Pode-se afirmar com segurança que os nobres ou patrícios italianos empregaram seus dialetos locais durante todo o início do período moderno. A dificuldade reside em descobrir o que essa prática lingüística significava para eles. A maneira mais prudente de investigar o problema poderia ser tentar descrever antes de tentar interpretar, ou, em outras palavras, tentar estabelecer as regras implícitas que regularam as mudanças entre dialeto e as formas de italiano padronizado que serão discutidas adiante.

Os membros das classes mais altas não falavam em dialeto apenas com as pessoas que não sabiam falar outra coisa, como os criados. Eles também o falavam entre si em determinadas ocasiões, algumas delas festivas, outras mais sérias ou formais. O dialeto foi empregado regularmente pelas classes mais altas em ocasiões
54 Brunet, 1976.
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festivas, talvez como um marcador intencional de tais ocasiões. Por exemplo, uma sociedade festiva de nobres e outros (incluindo o pintor G. P. Lomazzo), a Academigli dor Compa Zavargna, que existiu em Milão no início do século XVII, falava propositadamente o dialeto do Valle di Bregno. Esse vale localizava-se na área de origem dos carregadores de vinho da cidade de Milão, e por isso o dialeto passou a ser associado ao vinho e, de maneira mais genérica, à festividade.55

O que essa prática significava? É compreensível que os patrícios estivessem se identificando com as pessoas comuns e pensando que somos todos iguais quando estamos rindo, mas essa sugestão (desenvolvida em um famoso estudo de Mikhail Bakhtin) pode muito bem ser anacrônica.56 Já vimos algumas evidências do desprezo dos nobres por aquilo que um deles chamou, na Nápoles do século XVI, de parlar goffo della plebe. Uma interpretação alternativa desse uso do dialeto seria a de que as classes mais altas faziam uma associação entre o vulgar e o cômico de uma forma aristotélica, ou mais exatamente neo-aristotélica, de acordo com as interpretações humanistas da Poética.

Ao menos em Veneza, o dialeto era empregado em algumas situações formais. Por exemplo, os patrícios falavam o veneziano em reuniões do Grande Conselho ou do Senado, ao passo que os advogados falavam-no nos tribunais.57 Nesses casos, o uso do dialeto pareceria marcar ou simbolizar a autonomia e identidade venezianas.

O dialeto veneziano também foi escrito em algumas ocasiões. Um exemplo famoso do início do século XVI é o diário mantido pelo patrício Marin Sanudo, que foi impresso e compreende 58 volumes. Sanudo pode estar expressando o patriotismo veneziano com sua opção de código, mas ele pode simplesmente ser antiquado em sua resistência à toscanização promovida, ironicamente, por


55 Lomazzo, 1627. Cf. Lynch, 1966.

56 Bakhtin, 1965.

57 Vianello, 1957.

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um de seus colegas, o patrício veneziano Pietro Bembo. A opção do pintor Marco Boschini pelo veneziano em sua Carta de navegar pittoresco (1660) é, ao mesmo tempo, uma expressão autoconsciente de patriotismo local e um senso de moderação. Segundo suas próprias palavras, "será que eu, que sou um veneziano em Veneza, e falo de pintores venezianos, tenho que usar uma roupa que não é minha?" ("Mi, che son venezian in Venezia, e che parlo di pitori veneziani, ho da andarme a stravestir?").58

Nos casos dos poemas de amor de Maffeo Venier, como o famoso La Strazzosa, o dialeto veneziano (da mesma forma que o dialeto romano na obra de Pietro Aretino) demarca a posição do poeta em um debate lingüístico-literário. Sua descrição de um interior com um gato, um velho criado, galinhas, crianças etc. expressa sua oposição às convenções artificiais do petrarquismo, se não em nome do realismo, então pelo menos em nome do doméstico, alla demèstega, ou do grotesco ("Onde se vede un ordene a grottesche / De persone, de bestie et de baltresche").59

No entanto, no caso de certa poesia política veneziana do século XVII escrita em dialeto, provavelmente é mais complexo explicar a opção. Alguns dos poemas são escritos em nome de pessoas comuns e criticam o governo. Tome-se, por exemplo, o Lamento dei pescatori veneziani (que foi datado de ca. 1570). O poema expressa a solidariedade daqueles que nasceram entre os canais, ricos ou pobres.


peché non avémo sodi o possession

semo pur nassù tutti in t'i canài.

Excluídos dessa solidariedade - em uma expressão característica do etnocentrismo dos "brancos pobres" - estão os imigrantes estrangeiros e outras pessoas desprezíveis, tais como ladrões, camponeses, prostitutas e cornos:

58 Citado por Cortelazzo, 1983, p.367.

59 Dazzi,1956,v.l,p.395-9.




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. Nessun d’e’notti fu giego o schiaón,

Zudio, furatolé, mulo o vilan,

Ne puttana, né becco, né monton.


É mais provável que o autor anônimo desse poema, apesar do uso do "nós", tenha pertencido à classe mais alta.60 Se isso for verdade, seu uso de dialeto pode ser interpretado de diversas maneiras diferentes. Pode atuar como um marcador de um gênero literário específico. Pode expressar uma identificação com as pessoas comuns. No entanto, também devemos considerar a possibilidade de que o autor esteja usando o argumento de que o povo é contra as políticas do governo usadas como arma em uma disputa entre facções da nobreza.

Um conjunto de problemas semelhante surge em relação a um poema em dialeto do início do século XVII chamado Piffania di Pizzocan, no qual os enunciadores, que são os habitantes de Burano, pedem ao papa que não suspenda o interdito que havia colocado em 1606 na cidade, baseados no argumento de que nunca haviam tido tanto pão e vinho, e que o interdito deveria ser a razão dessa prosperidade. Visto que foi o patriciado, ou um grupo dentro dele, que resistiu às exigências do papa, poderia ser razoável ler o poema como uma mensagem a Roma sobre o apoio popular às políticas desses patrícios.61

Um outro caso interessante de uso de dialeto na comunicação escrita entre os nobres, menos estudado do que o veneziano, é o de Gênova, e em especial o de uma coletânea de poemas impressos em 1595, intitulada Rime Zeneixe. Recolocar esse texto em seu contexto sociocultural é realmente uma tarefa para especialistas, mas um forasteiro como eu talvez possa apresentar algumas observações conjeturais.

A dedicatória da coletânea a um certo B. C., "patrício de Gênova", refere-se a "alguns versos que ele compôs para seu


60 Dazzi, 1956,v.l,p.444ss.

61 Veneza, Biblioteca Marziana, ms. Ital. 1818 (=9436), livro 3.




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entretenimento", sugerindo - como no caso do Valle di Bregno -a associação, para os patrícios, entre dialeto e divertimento. De fato, havia também uma associação com a bebida, no caso de um poema dedicado ao humanista Paolo Foglietta em nome de "Bu-xoto, estalajadeiro de Reco". 62 A jocosidade parece ser predominante na tradução do primeiro canto de Orlando Furioso para o Genovês, e também em uma coletânea de adivinhas (demande d'adavina).

No entanto, outros itens na antologia sugerem significados diferentes para o uso do dialeto. Diversos sonetos sobre a toga lamentam as mudanças no vestuário dos patrícios e relembram com nostalgia os dias daquela "antiga república romana que sabia como governar o mundo" ("Quell’antiga Repubrica Romanna/Chi ha sapuo ro mondo comandà"). Nesse caso, o uso do dialeto pareceria corroborar a exortação a uma volta às tradições republicanas genovesas.

Esses exemplos talvez já sejam suficientemente ambíguos ou ambivalentes. Entretanto, é necessário complicar ainda mais o problema pela introdução do fator de mudança a longo prazo. Na Itália, como em outras partes da Europa, a postura das elites em relação aos dialetos regionais mudou durante o início do período moderno. Há três fases principais: a primeira é aquela do uso inconsciente do dialeto pêlos nobres e pêlos eruditos e por todas as outras pessoas; a segunda fase é aquela do "retraimento" das elites em relação às variedades da língua (e também a outras formas de cultura) que passavam a associar com os elementos mais inferiores da sociedade.63 A terceira fase - que está além dos limites deste ensaio - é a de uma redescoberta ou reavaliação do dialeto no fim do século XVIII e início do XIX, quando a fala camponesa, assim como as roupas camponesas, passaram a ser valorizadas pelas elites como símbolos do povo ou da nação.64 Na Itália, por
62Orero,1595,p.l02.

63 Burke,1978,p.270-80.

64 lbid.,cap.l.
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exemplo, dicionários e textos em dialeto foram publicados no início do século XIX: o Vocabolario Milanese-Italiano (1814) ou a Collezione delle migliori opere scritte in dialetto veneziano (1814), de B. Gamba.

Em outras palavras, houve um momento em que as elites falavam dialeto naturalmente. Mais tarde, elas o conheciam mas tentavam evitá-lo. Por fim tentaram falar dialeto, pelo fato de suas associações simbólicas terem se tornado positivas, mas àquela altura muitos provavelmente já o haviam esquecido.

O padrão de mudança parece razoavelmente claro. Os problemas surgem na datacão, que varia de região para região e, é claro, na relação dessa mudança lingüística com os desenvolvimentos políticos. O dialeto estava associado ao povo, e o povo, à nação. Por outro lado, os dialetos regionais dividiram a nação e, assim sendo, para unir os italianos (como os alemães, e até mesmo os franceses) foi preciso incentivar uma língua padrão.65

Voltemo-nos, por fim, para essa língua padrão. Desde a época de Dante, cujas referências àquilo que ele chamava "o nosso vernáculo", lo nostro volgare, nos dizem algo importante sobre seu senso de identidade, os italianos cultos interessaram-se por aquilo que chamavam de "questão da língua", Ia questione della lingua, ou seja, a melhor forma a ser usada na escrita e na fala.66 O problema, segundo eles, era como comunicar-se através das regiões. Pierre Bourdieu sem dúvida diria que o verdadeiro problema era como diferenciar-se das classes inferiores; pode ser que isto esteja correio, mas mesmo assim não é isso que os tratados discutem.

Duas soluções principais para esse problema de comunicação foram propostas nos diversos tratados sobre o assunto (a maioria deles datada do século XVI). A primeira delas poderia ser chamada de solução "eclética": tirar alguma coisa de cada um dos principais dialetos para produzir uma espécie de esperanto italiano. Essa foi


65 Weber, 1976, esp. cap. 6.

66 Hall, 1942; Sozzi, 1955; Klein, 1957; Vitale, 1962; Tavoni, 1984; Vasoli, 1986.



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a sugestão de Dante no tratado sobre o vernáculo que ele escreveu em latim, De vulgari eloquentia. Isso que eu grosseiramente chamo de "esperanto" (e que diversos lingüistas italianos chamam de koiné) é aquilo que Dante chama de vulgaris illustris, uma forma ideal do vernáculo. Essa língua eclética tornou-se conhecida no século XVI como cortegiano, presumivelmente porque era empregada com mais freqüência no domínio da corte.67

A segunda solução, a mais bem-sucedida a longo prazo, foi adotar um dialeto, o toscano, para a escrita e a fala cortês por toda a Itália, esterilizando suas ligações com a identidade toscana (da mesma forma que os dinamarqueses, por exemplo, ou os africanos ou japoneses usam o inglês atualmente sem se identificarem com a Inglaterra ou com os EUA). Sem dúvida é difícil esterilizar todas essas ligações. Foi somente de forma muito lenta que as pessoas passaram a falar do "italiano" e não da língua toscana, embora uma referência a parlare italiano possa ser encontrada no século XV.68 E muito pouco surpreendente descobrir que muitos dos participantes dessa discussão que não eram toscanos preferiram a solução essencialmente malsucedida do esperanto italiano.

A sabedoria tradicional afirma que o processo chamado de "a unificação lingüística das classes superiores" ocorreu na Itália no século XVI.69 No entanto, é improvável que qualquer simples generalização faça justiça às diferenças entre norte e sul, entre homens e mulheres, entre toscano e cortegiano, e entre comunicação oral e escrita.

É difícil surgirem evidências especificamente sobre a língua falada e nem sempre se pode confiar nelas quando aparecem. É fascinante descobrir um galês que viveu na Itália em meados do século XVI, William Thomas, registrando que "todos os cavalheiros falam o cortesão. Pois apesar de haver grande diversidade de formas de falar entre florentinos e venezianos ... não será pela


67 Cremona, 1965, p.158; Buck, 1978.

68 Migliorini, 1960,p.267.

69 Hall, 1942, p.54.

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língua que alguém irá perceber de que parte do país vem qualquer cavalheiro, porque, desde crianças, são criados falando apenas o cortesão."70 Para se usar esse testemunho com alguma confiança, é preciso saber a extensão da experiência do estrangeiro em regiões diferentes e a profundidade de seu interesse pela língua. Thomas passa razoavelmente bem por esses testes. Ele viveu na Itália durante mais de três anos, em Veneza, Florença, Roma, Nápoles e em outros lugares, e interessava-se pela língua a tal ponto de publicar The Principal Rules of ltalian Grammar [As principais regras da Gramática Italiana] quando voltou à Inglaterra. Entretanto, é possível que alguém quisesse lhe fazer algumas perguntas sociolin-güísticas. De que forma os meninos foram isolados de seu dialeto local? Se os homens das classes superiores aprenderam apenas "o cortesão", como falariam com suas próprias mães e irmãs?

É claro que a evidência é muito melhor no caso da comunicação escrita. Nesse domínio lingüístico, os estudiosos sugeriram que a primeira fase de unificação lingüística da península remonta ao século XV, que assumiu a forma de cortegiano, e que é mais perceptível nos documentos produzidos pelas chancelarias dos diferentes estados italianos.71 Entretanto, elementos do toscano infiltraram-se gradualmente nesse koiné, e a partir do final do século XVI o próprio toscano passou a ser cada vez mais empregado para a comunicação escrita pelas classes superiores fora da Toscana.72

No fim do século XVII, os venezianos estavam praticando a diglossia, no sentido de que, embora habitualmente falassem veneziano, o que escreviam era toscano.73 Quanto à língua falada, um estudo recente sugere que, fora da Toscana, antes de meados do século XVIII, o toscano estava mais ou menos confinado ao palco e ao púlpito. Foi só depois de 1750 que o toscano falado difundiu-se de maneira mais ampla, pelo menos em algumas


70 Thomas, 1549, p.11-2.

71 Discussão geral em Durante, 1981, p. 146ss.; para um estudo de caso, Vitale, 1953.

72 Durante, 1981, p.l6lss.

73 Cortelazzo, 1983, p.367.


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regiões e entre alguns grupos sociais.74 Certa vez o lingüista italiano Bruno Migliorini fez a seguinte pergunta retórica sobre esse período: "Quanto e de que maneira era falado o italiano fora da Toscana?", e respondeu sua pergunta com duas palavras, "pouco" e "mal".75 No entanto, do ponto de vista de um historiador social, é significativo que um grupo de italianos estivesse usando regularmente uma forma de falar que não um dialeto.

De que maneira podemos explicar essa ascensão (limitada) do toscano? Uma das explicações possíveis é política. Já se sugeriu que "Uma língua é um dialeto com exército, marinha e força aérea".76 Traduzindo esse chiste em termos mais prosaicos e mais compro

váveis, acabamos ficando com a generalização de que alguns dialetos tornam-se línguas não por mérito próprio, mas por razões políticas.

Existe uma boa quantidade de evidências de algumas partes da Europa a favor dessa idéia, mas não no caso da Itália. A hegemonia do toscano sobre outros dialetos regionais, sua transformação em "italiano", não pode ser explicada em termos políticos tão facilmente quanto o inglês, de Londres, ou o francês, de Paris. A ascensão do toscano ocorreu em uma época em que a península ainda estava politicamente fragmentada. O Grão Duque Cosimo de' Medici tentou auferir o máximo de dividendos políticos em relação ao crescente prestígio do Toscano, mas nem mesmo ele imaginou a possibilidade de governar áreas nas quais seu dialeto estava se difundindo.77

Quando a unificação política finalmente aconteceu, foi obra de piemonteses, como o conde Camillo Cavour, que mal falavam o italiano, se é que o falavam. Certamente foram escritores como Dante e não políticos como Cavour os responsáveis pelo triunfo do toscano entre as classes superiores italianas. Na posterior

74 Richardson, 1987.

75 Migliorini, 1960, p.501.

76 Epigrama atribuído a R. A. Hall.

77 Bertelli, 1976.



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difusão .do italiano no século XX, o papel do Estado foi mais importante (por meio da educação e do recrutamento compulsórios), mas provavelmente o papel dos meios de comunicação, em especial o rádio e a televisão, foi ainda maior.78

Essa referência aos meios de comunicação sugere uma segunda explicação para a ascensão do toscano - a máquina impressora. Sua importância como agente de mudança social e cultural, inclusive de mudança lingüística, tem recebido considerável ênfase ultimamente. O argumento de que cópias idênticas dos livros promoveram a padronização lingüística, ao menos no domínio da escrita, precisa ser analisado com extrema seriedade.79 Devido à sua tendência natural para a padronização, a imprensa foi indubitavelmente importante na consolidação da vitória do concorrente vitorioso, qualquer que fosse a variedade de língua.

No entanto, é consideravelmente menos plausível argumentar que a imprensa teve um papel importante na ascensão do toscano em primeiro lugar. Afinal de contas, Veneza era um centro de impressão mais importante que Florença.

Então por que o toscano triunfou? Do ponto de vista deste ensaio, essa talvez seja a pergunta errada. Uma discussão sobre a relação entre língua e identidade cultural deveria concentrar-se na ascensão das línguas transregionais, e não em uma delas em especial. A ascensão tanto do cortegiano quanto do toscano expressou e incentivou a ascensão de uma consciência transregional (ao menos junto aos homens das classes superiores) entre os séculos XVI e XVII.

Nesta discussão, precisamos de evidências de identificação com a "nostra lingua". Tendo em vista o que foi dito anteriormente sobre a importância da identidade reativa, pode ser útil comparar as posturas em relação à invasão de palavras estrangeiras em períodos diferentes.
78 De Mauro, 1976, p.Slss., p.96ss.

79 Eisenstsein, 1979, p.80-8; cf. Quondam, 1983.



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Nos séculos XVI e XVII, a invasão veio da Espanha. Os termos jurídicos, administrativos e militares espanhóis foram emprestados pelo italiano no período em que governadores e vice-reis espanhóis governaram Milão, Nápoles e a Sicília.80 Nem é preciso dizer que os espanhóis não eram exatamente populares na Itália. Houve reclamações sobre a hispanização do comportamento italiano, enfatizando a importância dada pêlos espanhóis à cerimonie e a títulos grandiloqüentes como Magnifico, lllustre, e até mesmo Vostra Signoria.81

Ainda assim, a infiltração de palavras espanholas no italiano não parece ter suscitado muitas reações. Não se pode dizer que esse tipo de consciência lingüística fosse anacrônico nesse período; alguns franceses, como o impressor Henri Estienne, demonstravam muita consciência e hostilidade no que diz respeito à penetração do francês por italianismos como spaceger, strade, bon garbe ou à bastanse, que ele considerava exemplos "desse jargão bárbaro chamado de língua dos cortesãos" ("ce jargon si sauvage / Appelé courtisan langage").82 Nossa conclusão dever ser a de que, nos séculos XVI e XVII, a consciência de ser italiano ainda não estava intimamente ligada à língua.

Durante o século XVIII, a língua estrangeira que progressivamente penetrou o italiano foi o francês. Essa penetração, que alguns estudiosos modernos descreveram como uma "crise de língua", foi discutida por diversos autores e intelectuais da época.83 Entre as palavras e expressões francesas que foram emprestadas ao italiano nessa época estavam felicitazione, madamosella, ragù, regretto, vengo di dire. Essa tendência suscitou diversas reações.

De um lado, havia o conde Melchiorre Cesarotti, que estava preparado para aprovar os empréstimos com moderação, embora
80 Beccaria, 1968.

81 Boccalini, 1678, v.l, p.38; cf. Croce, 1917, esp. p.HSss., 182ss.

82 Estienne, 1578, p.35, 66, 72 etc.

83 Schiaffini, 1937, esp. p.l5lss; Migliorini, 1960, p.574ss.; Vitale, 1962, esp. p.271ss., p.285ss.; Durante, 1981, p.214ss.



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ele mesmo condenasse o que chamava dê "As. liberdades tomadas por aqueles que saem por aí afrancesando a língua italiana a todo instante sem motivo" ("la licenza di coloro che vanno tutto giorno infrancescando la lingua italiana senza proposito"). De outro lado, havia Cario Gozzi e o conde Gianfrancesco Galeani Napioni, que rejeitavam totalmente o que chamavam de "francesismo" (il francesismo) e a "fala híbrida" (ermafrodita favella) que dele resultava.84 Cesarotti criticou seus oponentes chamando-os de "puristas", e foi por eles criticado por sua "extrema tolerância" (tollerantismo).

Do ponto de vista da história da identidade, o interesse dessa discussão reside nos pressupostos que os participantes fizeram acerca da relação entre língua e nacionalidade. Alessandro Verri, por exemplo, refere-se à "língua nacional" (la lingua nazionale).85 Giuseppe Baretti insistiu que a língua na qual "escrevem todos aqueles que nasceram no pedaço de terra chamado Itália", deveria ser descrita não como "florentina" ou "toscana", mas como "italiana".86

O conde Galeani Napione, cujo comentário a respeito dos laços entre língua e pátria foi citado no início deste capítulo, fez as afirmações mais lúcidas e vigorosas sobre o elo entre a língua e esse conceito fundamental do século XVIII, o "caráter nacional". "As línguas são resultado do clima, da natureza, do intelecto, do caráter moral, das artes dominantes, dos estudos, das profissões e da organização política das diferentes nações" ("Le lingue sono un risultamento del clima, dell’indole, del naturale ingegno, del carattere morale, delle arti dominanti, degli studi, delle professioni, della istituzione politica delle nazioni diverse").87 A única palavra que está faltando aqui é "orgânico". No século XIX muitos autores se apressariam em colocá-la.


84 Puppo, 1957.

85 Ibid., p.259.

86 Ibid., p.234.



87 Ibid., p.503,499-500.

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Em resumo: o final do século XVIII foi um período fundamental para o desenvolvimento da associação entre língua e identidade nacional entre os intelectuais italianos. Foi uma época em que um número significativo deles começou a falar toscano (ou alguma coisa parecida), ao menos em parte do tempo. Foi também uma época em que a língua nacional ligou-se à nova descoberta - ou seria invenção? -, o caráter nacional. É nesse momento, e não na Renascença, que a língua, e não o ritual, o mito ou a cultura material, passou a carregar o fardo da identidade.

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