Carmem cacciacarro



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UM TOQUE NA ESTRELA
Tradução de
ARI ROITMAN

e

CARMEM CACCIACARRO

2â EDIÇÃO

A Blandine, Lison e Constance, minhas filhas.
A Violette, Clementine e Pauline, minhas netas
SUMÁRIO


  1. Moira

  2. Alice e Belzebu

  3. Brian e Marion

  4. Sneem ou o edredom vermelho

  5. Retorno à atmosfera

  6. A sororidade — Alice e Hélène

  7. A sororidade — Hélène e Victor

  8. Brian e Peggy

  9. Alice no país das armadilhas




  1. Marion e Maurice

  2. Contra as crianças

  3. Os primeiros seres vivos

  4. A lição das trevas

  5. Um toque na estrela


I

Moira
Todos me chamam de Moira. Vocês pensam que não me conhecem, mas todo mundo vive mais ou menos co­migo sem saber, e ocupo um lugar cada vez maior em boa parte de suas vidas. Aliás, ser uma Moira tornou-se um emprego apaixonante desde que tantas pessoas, que passa­ram seus verdes anos se achando eternas, perdem o norte conforme a flor da idade vai murchando e surge, inexorá­vel, o fruto da maturidade.

É nesse estágio que elas se tornam interessantes, e que o meu poder começa. Antes eram tão seguras de si, tão ignorantes, tão maravilhosamente ingênuas, que eu não conseguia abalar o seu prazer de viver, seu dom da indife­rença, a violência do desejo e também sua pungente doçu­ra, cujo sabor jamais conhecerei.

A imortalidade é uma punição da qual é preciso se vingar.

Ora, graças aos progressos da ciência, agora disponho de um imenso viveiro que não pára de aumentar com no­vos adeptos. Os golpes que recebem são cada vez mais for­tes, mas eles continuam a avançar cegamente, primeiro porque são empurrados, e também porque é próprio do homem colocar um pé na frente do outro.

Muitos ainda permanecem ilesos. Outros fingem. Quanto àqueles cuja morte estava marcada, mas puderam recorrer da sentença, não terão paz enquanto não recons­tituírem sua couraça. E os que se salvam são os mais ar­dentes ao reviver, esquecendo os contragolpes que virão em dois anos ou em dez, ou nunca, ou de maneira diferen­te... de qualquer forma, dá na mesma: você nunca será in­vencível, bobinho. Uma vez que a morte tenha posto as garras em você, não o soltará mais. Em silêncio, lá no fun­do, ela vai se instalar como um molusco. E sua carne co­meçará a se degradar de maneira imperceptível. Órgãos que você nem conhecia vão impor seus caprichos. Sua graça se tornará um trabalho, sua beleza, uma conquista, seu desempenho, um esforço, a indiferença, uma discipli­na, sua saúde, uma fortaleza sitiada, e a inquietude, uma companheira lancinante.

Durante certo tempo você ainda poderá fingir que nada aconteceu. Certo de contar com a cumplicidade dos seus semelhantes, vai repetir para eles o que disse o poeta: Sabe que, embora seja muito jovem, antigamente eu era mais jovem ainda? O que isto significa? Certamente existe aí alguma coisa terrível.

Mas ninguém vai querer ouvi-lo, e menos ainda com­partilhar a experiência, pois envelhecer é a mais solitária das navegações. Você já não é exatamente um semelhante.

De fato, aconteceu uma coisa terrível: você atravessou a linha. Só por distração será considerado normal. Em toda parte, vai ser apontado como perigoso, pois você destrói o mito pelo simples fato de existir. Lembra a cada um que é mortal, coisa que é preciso evitar a qualquer preço. Você logo vai se dar conta de que é preciso se defender da velhi­ce como de um pecado que cometeu. De qualquer forma, aonde quer que vá, de agora em diante, estará com uma sineta pendurada, por mais que só ouça as sinetas dos ou­tros... Sua pátria, aquela onde você nasceu e viveu a vida inteira, aquela onde pensava morrer, o renegou. Você se tornou um estrangeiro, exilado em seu próprio país.

Só lhe resta descobrir uma das evidências desse seu novo estado: os velhos nunca foram jovens. Pouca gente sabe disso. Os poetas sabem, pois não têm idade. É por isto que eles são os únicos humanos que comovem a minha eternidade.

As crianças também sabem que os velhos vêem tudo a partir de um outro mundo. Sabem muito bem que a avó nunca foi menina. Fingem que acreditam, para não ma­goar. Mas quando abrimos para elas esse livro de imagens mortas que é um álbum de retratos, é como se aquilo fosse uma história da carochinha.



- Olha, aqui é a vovó brincando com o arco no jardim da tia Jeanne, que você não conheceu.

Então, nasceu morta, pensa a criança. Se não a conhe­ci, é porque ela nunca existiu.



- E por que ela não empurra o arco com a benga­la?— pergunta.

- Porque a vovó não tinha bengala com 10 anos, ora!

Tá bom, pensa a criança. É claro que a vovó nasceu vovó. Tanto que sua própria filha a chama de vovó! E o vovô também. Todo dia ele pede quando senta à mesa: "Por favor, vovó, passe o meu Charbon de Belloc."

E quem se lembra que ela se chama Germaine ou Marie-Louise? E que ainda é a menina de outrora, flutuando numa pele frouxa? E, aliás, o que é um velho senão um garoto de bigodes que ainda tem vontade de brincar com o pintinho?

Eu, Moira, seu destino, não paro de admirar a sua ca­pacidade de infância. O mérito não está em ser jovem quando se é jovem, não dá para fazer diferente. Mas o es­forço que representa ser jovem quando não se é mais, isto me leva às lágrimas. Salve, acrobatas! Pois as crianças, ape­sar de alguns lampejos, não passam de crianças. Já os ve­lhos acumulam todas as idades da vida. Neles convivem todos os seres que foram, sem contar aqueles que pode­riam ter sido e que insistem em envenenar o presente com seus arrependimentos ou sua amargura. Os velhos não têm somente 70 anos, ainda têm 10 e também 20, e depois 30 e mais tarde 50, sem falar dos 80 que já vêem despontar. E todos esses personagens, que os recriminam, que os cen­suram e que nunca receberam a melhor parte, precisam ser silenciados.

É por todos eles que existe uma Moira. Quando as de­finições se embaralham e cada qual pode se sentir mila­grosamente jovem e desesperadamente velho ao mesmo tempo. Quando todos os ingressos são válidos, desde que se admita que não dão mais direito aos programas previs­tos. Quando as certezas vacilam, a felicidade surge às ve­zes, como um bandido num canto do bosque, com a infelicidade aos seus pés sem dar o sinal de alerta.

Um sinal irrefutável indicará que eles estão penetrando em outro país: a perda progressiva da sua densidade. Não tendo sexo, eu não poderia ser misógina, mas sei que isso é ainda mais verdadeiro para você, mulher, do que para o seu companheiro. Porque o homem, nascido primeiro, como teve o cuidado de demonstrar nas Escrituras de todas as religiões, e sempre no comando graças a seus métodos de gângster, consegue conservar por mais tempo sua massa molecular. Qualquer janota tem direito ao seu lugar numa calçada, mas você, mulher, à medida que a beleza ou a ju­ventude se dilui, nota que pouco a pouco vai ficando trans­parente. Logo vão esbarrar em você na rua sem vê-la. Você dirá, por costume: "Desculpe", mas ninguém vai responder, você nem incomoda mais, você não está mais lá.

Eu os vi chegar, vocês da geração que não queria mais envelhecer, após tantos séculos em que os papéis nunca mudavam. No início tentei convencê-los: "Escrevam cem vezes: sou uma pessoa idosa." Mas mil vezes não seriam su­ficientes. Tornar-se um velho jovem, mesmo que decaden­te, agora parecia muito mais excitante que o papel gasto de pessoa velha, mas bem conservada. Vocês são a primeira geração a fazer uma descoberta realmente terrível: o que têm de precioso e importante para transmitir não interes­sa mais aos seus descendentes. Quanto à experiência que acumularam, é muito simples: ela os chateia. Não têm o menor interesse pelo mundo em que vivem, tomados pela certeza de que nunca vão ser iguais a vocês. Não venham me falar de infelicidade! Para não correr riscos, é preciso que eles os ignorem, que façam de vocês uns extraterres­tres inoportunos, tutsis num mundo de hutus.

Seus pais ainda puderam desfrutar do respeito dos descendentes, porque se disfarçavam de velhos, isolavam-se no espaço que destinavam a eles, e deixavam o lugar vago bem depressa.

Os novos velhos aventuram-se em batalhões cada vez mais populosos por um território agitado pelos sismos da ciência e da medicina, e descobrem que às vezes é maravi­lhoso sobreviver, desde que se subvertam os códigos e em­baralhem as pistas, para tentar fazer uma reciclagem.

Hoje, ter 60 anos consiste basicamente em se conside­rar mais fogoso que os outros sexagenários. É ver chegar os estigmas da idade nos colegas e não notar nada em si mesmo. Para sentir-se vivo, basta ler de manhã no obituá­rio que Fulano acaba de morrer. Aos 60 anos, que idiota! E se você tiver a sorte de ouvir ao mesmo tempo a sirene do serviço de emergência, ainda melhor. Não sou eu na am­bulância, tst-tst!

O importante é acordar com o silêncio dos órgãos, um "Nada a informar", como na guerra de 1914-18. É o melhor boletim de vitória sobre a morte. Quando os órgãos come­çam a falar, nunca têm nada de bom a dizer. Mas quando os órgãos dos outros têm problemas, aí tudo bem! Não é que vocês tenham ficado malvados, é que a desgraça do vizinho serve como um emplastro para o terror que começa a inva­di-los. E se vocês tiverem envelhecido apesar de tudo?

Não, que absurdo! Ainda não. Não mesmo. Não já. Vo­cês levam tempo demais para responder que sim, e muitos vão morrer jovens com uma idade avançada.

E ainda dizem que a imortalidade cria invejosos. Como estão enganados!

Mas isso, justamente, é na esperança de esquecer que eu intervenho às vezes para desarranjar os planos.

Jean-Loup será salvo por pouco, entre o penúltimo e o último suspiro. Cinco anos de prorrogação! Ele acha que deve isso à sua mulher, que o encontrou ao pé da cama...

Alice, de 75 belos anos, não deixou a alma na mesa de operação, onde lhe reduziram a fratura de tíbia que ela alegremente conseguiu cinco anos depois de esquiar pela última vez! Mas a inconsequência humana me enterne­ce... Alice vai praticar esqui nórdico, tão enfadonho, mas que ela fingirá adorar, pois não sabe viver sem amar...

Léa vai descobrir o orgasmo aos 63 anos, nos braços inesperados de seu cirurgião plástico, supostamente para ressuscitar o desejo de um marido que, aliás, nunca mani­festou desejo algum em relação a ela... Darei a ela seus cinco anos de felicidade carnal, mas em outra cama!

Leon vai escorregar numa casca de banana, o que o im­pedirá de tomar o ônibus para Santiago de Compostela que dois dias mais tarde se espatifaria num barranco espanhol.

Em suma, posso ser a casca de banana quando me can­so de bancar a malvada.

Vocês adoram me dar um rosto. No entanto, não sou uma divindade antropomórfica, como uma Erínia ou uma das temíveis Parcas. Moira, na mitologia grega, sig­nifica simplesmente destino. E lamento não ser Deus nem Diabo, mas apenas uma lei desconhecida e incompre­ensível, como dizem suas enciclopédias. No início, cada indivíduo tinha sua Moira pessoal, que era a sua cota de destino. A Fatalidade, como se diria. Triste perspectiva para mim, que amo o imprevisto e as fendas da existên­cia por onde se infiltram os milagres. É por isso que ado­ro embaralhar as cartas. Acender a fagulha de um olhar para fazer nascer o amor onde não se esperava; dar ori­gem ao neto milagroso que reconciliará com a vida uma mulher prestes a morrer. Encarnar essa parte de divino que existe em todo ser, para um a paixão pela música, para outro o espírito de aventura; e o prazer que também há em qualquer coisa, o gosto por jardins que surge no fim da vida, o sal do mar sobre a pele, o sabor de Islay no uísque, a trufa ao pé do carvalho e até o perfume das flores da Datura quando a noite cai.

Eu ultrapasso meus limites, sem dúvida, mas quem vai me condenar? Estou em boa posição para saber que Deus não existe de verdade. Existem apenas forças antagônicas que disputam o universo ao sabor de leis físicas que ne­nhum espírito humano é capaz de apreender.

Nesse caos, a aposta mais incrível é a de viver. É por isso que tenho meus protegidos cá embaixo. E me deses­pero para compreender por meio deles o que torna a existência humana tão desejável. Mas posso reconhecer que os jovens não me divertem muito. Sempre in the moodfor lovel Não sendo nem humana nem divina, não consigo compreendê-los. Já os jovens velhos que me che­gam hoje, ainda que em partes separadas, sabem muito bem se agarrar a esse milagre único que é a sua vida, sur­gida no milagre

único que é o seu planeta, entre milhares de outros, gelados ou escaldantes, que vagam pelas galá­xias como barcos à deriva.

"O que aconteceu? A vida, e fiquei velho" escreveu um dos meus poetas preferidos.*

Tudo bem, mas também podemos dizer assim: Os hu­manos jamais saberão o quanto os

invejo, eu, que não te­nho nem vida nem idade.


II

Alice e Belzebu
A idade é um segredo bem guardado. Dizer o que é a velhice é como tentar descrever a neve para quem vive nos trópicos. Por que estragar a vida deles sem aliviar a pró­pria? Prefiro negar a evidência em bloco e lutar com va­lentia enquanto ainda puder vencer algumas batalhas. Porque, é bom saber, além de abrir a porta para um bom número de doenças, a velhice é uma doença em si. É im­portante, portanto, não contraí-la.

O problema é que, para escapar dela, é preciso caminhar por um entre dois abismos: por um lado, seus contemporâ­neos, muitos dos quais já jogaram a toalha. Por outro, a massa de vivos, que fazem sexo, se divertem, arriscam a vida, sofrem por amor, esperam isso ou aquilo, vencem ou fra­cassam, fazem pesca submarina ou trekking no Nepal, que­bram a perna esquiando e não na banheira, fazem muitos amigos, aprendem hebraico, adoram mulheres ou homens ou ambos, navegam na internet, têm filhos, se divorciam, fazem sexo de novo, voltam a casar e se assustam na virada dos 50 imaginando que vão ficar velhos... os bobos! Envelhecer é o destino de todos, sabemos. Vagamente. Todos se consideram informados a respeito, mas o concei­to continua sendo abstrato, e essa consciência do destino coletivo da espécie não prepara ninguém para a experiên­cia solitária da SUA velhice e para a experiência dilaceran­te da SUA morte. Podemos viver muito tempo constatando tranqüilamente essa lei geral. Alguns chegam até a se con­vencer de que vão ser uma exceção... os bobos!

Se entendêssemos de uma vez por todas que somos "um monte de rugas", acho que nos acostumaríamos. O drama é que no começo esquecemos. Durante anos, com um pouco de sorte, a gente vai e vem. Até que um dia, é preciso admitir, percebemos que somos velhos o tempo todo. É exatamente aí que se dá a virada, e temos que re­aprender tudo. Não somos apenas um monte de rugas, nisso se pode dar um jeito; também somos feitos de ve­lhos ossos que ficam porosos, de um velho estômago que recebe mal a ardência agradável do álcool, de um velho cérebro que trava diante dos nomes próprios, de velhas veias que dilatam, enquanto as artérias, por sua vez, en­durecem, e vivemos com um velho amor em quem obser­vamos os mesmos sintomas, ou então sem nenhum amor, apenas uma foto, imutável, numa moldura de prata em cima do criado-mudo.

É claro que ainda resta a família. Mas, pouco a pouco, para os nossos descendentes deixamos de ser indivíduos e nos tornamos "os pais", antes que passem a dizer "minha pobre mãe" ou "meu velho pai"... Eles não esperam qual­quer surpresa de nossa parte, a não ser um infarto, uma fratura de fémur, um acidente vascular cerebral ou o lento horror do Alzheimer.

Foi um pouco para surpreendê-los que comecei a es­crever um livro, às escondidas, como se tivesse 15 anos! E também para surpreender minhas colegas da revista Nous, les Femmes, onde trabalho há vinte anos, mas onde sinto que pouco a pouco estou me tornando uma estranha. Lembro-me de Ménie Grégoire, célebre nos anos 1970, queixando-se do "juvenismo" da RTL: "Tive a impressão de que era um crime ter 75 anos. Aliás, eu estava condenada."

Também sou culpada de ser setuagenária, a única da redação. Sou tolerada desde que não revele a minha verda­deira idade e não manifeste qualquer sintoma incômodo. Represento docilmente a comédia do "todo mundo é jo­vem, todo mundo é gentil" com bastante facilidade por­que, numa revista feminina, tudo, a começar pela moda e a publicidade, contribui para sustentar a ilusão. E não apenas não tenho nenhuma aliada, como a cada ano uma nova leva de estagiários petulantes desembarca na reda­ção, empurrando-me mais um pouco para os porões da aposentadoria. Quando, excepcionalmente, surge uma pauta sobre a idade, a orientação é só entrevistar casais velhos que se prestem à hipocrisia: "Decidimos envelhecer em plena forma, comprar uns Nike para os nossos 90 anos e comemorar o centenário engatinhando, para alegria dos nossos bisnetos." Nem é preciso dizer que se alguém, por milagre, conseguir ficar de gatinhas aos 90 anos, assim vai permanecer! A menos que chamem os bombeiros.

A decrepitude e a morte são negadas a tal ponto que, quando conto a alguém, "Sabia que minha amiga Suzanne ou Rachel ou Ginette morreu?", a primeira reação do ou­tro lado é sempre: "Nããão! Não é possível!" Ou então: "Nããão, jura?"

A morte é antes de mais nada uma ilusão. Ela ainda estava presente na minha infância. Depois foi desapare­cendo pouco a pouco da paisagem.

Não faz muito tempo, nas cidades, os pórticos dos pré­dios onde alguém acabara de morrer eram cobertos de panos negros com suas iniciais e, sob a abóbada, quem desejasse poderia assinar um livro de condolências. No campo, o morto era "velado". Hoje, nós o escondemos, he­sitando até em mostrá-lo às crianças. Em toda a infância, elas só verão morrer um hamster ou, às vezes, um velho cão, quando não for chamado um veterinário para "fazê-lo dormir" longe dos olhares gerais.

As palavras também nos foram confiscadas. Ninguém mais é moribundo, que coisa indecente! Atualmente, não se morre mais: as pessoas adormecem na paz do Senhor ou, então, falecem. Expirar lembra demais o último sus­piro. Melhor evitar. Entregar a alma está fora de moda, agora que não temos mais certeza de ter alma... Finar-se parece literário demais, mas podemos dizer falecimento com toda a naturalidade, pois a palavra foi esvaziada de qualquer poder emocional pelas administrações que a empregam. Dizer "Minha mãe faleceu ontem" é clara­mente menos chocante que "Mamãe morreu".

A imagem dos idosos também foi reduzida à de um feliz casal com cabelos cor de neve, pedalando pelos con­trafortes do Himalaia ou circulando no convés de navios de luxo. Ele nunca é careca ou barrigudo, e exibe um sor­riso de Gary Cooper, enquanto sua companheira o ob­serva amorosamente, com uma saia curta sobre suas longas pernas de gazela. Nos anúncios, mailings da com­panhia de trens, cadernos de viagem para a terceira idade ou na imprensa para aposentados, os únicos idosos que nos apresentam estão se escangalhando de rir, só que nunca parecem escangalhados!... E desde que Adrien chegou perto do... octogenariado, o bombardeio de pro­pagandas se intensificou contra a nossa caixa de correio. Não há um dia sem que nos lembrem da urgência de uti­lizar os bálsamos milagrosos do Sião, do Camboja, do Tigre ou do Peru, da existência de cadeiras elásticas sem­pre ocupadas por lolitas e, após um tempo, de obter, "mesmo após os 80 anos, um membro enorme e ereções grandiosas, que transformarão a esposa mais recatada numa fúria uivante e sedenta pelo seu pênis..." Adrien me olha com pavor...

Em compensação, ele cedeu aos apelos insistentes dos kits de funeral pré-pagos e com tudo incluído, e contratou a Chilpéric: "Você nos dá o defunto e nós o fazemos desa­parecer com toda a serenidade." Quanto a mim, declinei a oferta. Primeiro, eles não dão abatimento para grupos. Depois, tenho oito anos menos que meu marido e não penso em morrer por enquanto: tenho um projeto.

Gostaria de entender como o amor e o respeito aos velhos, tão profundos na Antigüidade, nas civilizações africanas ou indianas, e até mesmo na Europa no último século, puderam se dissipar na nossa sociedade moderna, e como será quando esses velhos sobreviverem até os 120 anos, coisa que não vai tardar a acontecer?

O problema é que, para escrever legitimamente sobre a velhice, é preciso ter entrado na velhice. Mas, neste caso, ela também entrou em você e pouco a pouco o deixa incapaz de apreendê-la. Você não pode tratar do tema se não se for sufi­cientemente idoso..., mas não será capaz de falar da velhice enquanto toda a juventude não tiver morrido dentro de você.

Ao que parece, eu estou na interseção desses estados, e naturalmente me considero a exceção de que falava. Sen­tada, tenho 60 anos. Em pé, vacilo um pouco, concordo, mas meu passo continua alerta. Sou impecável em solo plano. É descendo uma escada que me torno setuagenária. Desço com a cabeça, pois não confio em minhas pernas. Esses décimos de segundo de hesitação antes de cada eta­pa de um movimento instintivo que preciso decompor denunciam o dano irreparável.

Em mim, foram os amortecedores que falharam pri­meiro. Não tenho mais que pedaços de madeira nas per­nas, sem lubrificante nem molas. A madeira está boa, a densitometria comprova. O problema são as articulações, que não articulam mais. E como os pés não são pneus, eu rodo sobre os aros. E quando o caminho é em declive, pa­reço esses brinquedos de madeira articulados que descem um plano inclinado em movimentos irregulares. Meu Deus! A leveza! Eu nunca tinha pensado na leveza como um bem inestimável. Todas as prioridades se modificam. É também uma descoberta que fazemos, pois, ao contrário da opinião difundida, a velhice é a idade das descobertas.

Quando me vejo no alto de um lance de escada — são 46 degraus no metrô Varenne, por exemplo —, meus joe­lhos me interpelam:

- Você pretende nos fazer descer tudo isso?

- Não chateiem. Quem manda aqui? Eles caçoam. Ri melhor quem ri por último.

Eu piso no primeiro degrau, prudentemente... meio de viés, usando o joelho direito, o melhor.

- Eu posso me soltar a qualquer momento — avisa o outro, o esquerdo, que faz parte do Sindicato dos Joelhos, um dos mais intratáveis.

Eu transijo cada vez mais. Desço meio de lado, segu­rando o corrimão. À vezes, renúncia suprema e jamais em público, pelo menos até hoje, negocio um degrau de cada vez, para amaciar meu pessoal e controlar minha tropa. Pois em nosso horizonte comum se perfila o fantasma de uma greve geral, com seqüestro da Direção na caixa cra­niana e paralisia de todos os setores de atividade. Diversos livros já nos fizeram esse relato aterrorizante.

Para evitar o seqüestro e a destruição do instrumento de trabalho, tenho que negociar, me humilhar, aceitar os compromissos, com o risco de me transformar pouco a pouco em Dona Prótese. O ortodontista me implantou dois incisivos, o ortopedista desenhou palmilhas para re­tificar meu equilíbrio vertebral. (Ora, são 34 vértebras, to­das elas com a idéia fixa de sair do lugar, arrastando toda a coluna. Sindicato malévolo esse, com o qual qualquer ne­gociação precisa se alongar bastante.) Por fim, o ortofonista me fabricou a peso de ouro um aparelho auditivo digital, e o oftalmologista, as lentes de contato.

Em compensação, não uso mais tailleurs à maneira das mulheres-ministras para ir à revista, e sim jeans, na espe­rança de me parecer mais com o grupo.

Pois trato com mimos essa flor da minha juventude, sempre viva, insolente e às vezes pungente. É preciso prote­gê-la das primeiras geadas e das armadilhas cotidianas. Ler, por descuido, as revistas dos verdadeiros jovens e observar as roupas nas vitrines da moda revelam instantaneamente o seu lugar nessa sociedade de mercado, o último.

Não havia revistas para adolescentes quando eu era adolescente, no início dos anos 1930. Passávamos da Ben­jamin ou da La Semaine de Suzette pára a imprensa "nor­mal". Éramos a idade ingrata, afligida pela acne juvenil, e todo mundo só esperava que aquilo passasse logo. Tam­bém não havia uma moda particular para adolescentes e, nas grandes lojas, passava-se sem transição da seção "me­ninas" para a seção "senhoras".

Hoje, a idade ingrata tornou-se a nossa! Depois dos 65 ou 60 anos (e nem falo de depois), não é fácil se vestir. Os nomes das marcas já desencorajam qualquer aproxima­ção: como comprar em lojas chamadas Megera, A Turma, Gatinha ou Lolita?... As vendedoras têm 18 anos, e os vendedores, a idade do desprezo. É tão penoso ser idoso quanto obeso. Com a diferença... de peso... de que a ve­lhice não tem remédio.

Escolher a lingerie é ainda mais deprimente, quando já não temos interesse em abrir o casaco de tweed sobre seios nus ou mostrar o umbigo. Nada é oferecido entre a calci­nha minúscula e a calcóla Grand Bateau, uma barcaça sem formas, sem strass e sem rendas. Seja feio e cale a boca: é hora do luto por você mesmo. Que mercado, entretanto, todas essas "donas-de-casa de mais de 50 anos" e todas es­sas adoráveis loucas de 70 que fazem esporte e também fazem amor, e que finalmente têm tempo de pensar em si. Os criadores de roupa íntima feminina são uns tapados.

Até aqui me debrucei sobre esse período de transição (mais ou menos longo conforme o indivíduo e sua capa­cidade de negação) entre dois estados: achar-se ainda jo­vem e saber-se definitivamente velho. Seja como for, é preciso admitir uma verdade perturbadora: somos ve­lhos aos olhos dos outros bem antes de sê-lo aos nossos próprios olhos.

- Bom dia, vovó. Posso limpar o pára-brisa?

Na estrada de Nantes, nesse dia, uns jovens educados estavam oferecendo seus serviços aos motoristas, no pedá­gio. Não é possível: então eu tinha cara de avó? Através de um pára-brisa suspeito, olhando-me apenas por alguns segundos, será que alguém podia decretar que eu era uma avó? Por um instante, fiquei desconcertada. Mas também podia decretar que esse jovem era um idiota, e escolhi a segunda opção.

Além do mais, claro, também há o olhar das pessoas mais próximas. Do cônjuge, entre outros, cujo olhar, é bom que se saiba, objetivamente não tem valor. Adrien me ama, é verda­de, mas como uma criança velha que tem medo de perder sua naninha. Para ele, eu não passo de um objeto transacio­nal, como dizem os psicanalistas. É vital, concordo. Para ele.

O que aconteceria se eu ainda fizesse amor com Adrien? Ele tiraria suas próteses dentárias e não poderia mais me morder. Eu tiraria as minhas próteses auditivas e não po­deria mais ouvir suas palavras de amor (se não tirar, elas assobiam quando alguém segura a minha cabeça. Se tirar, obrigo o outro a gritar "eu te amo", como Yves Montand ditando um telegrama de amor à moça do correio, num número famoso). Emitiríamos pequenos cacarejos, que o outro tomaria como gritos de êxtase, mas traduziriam uma ciática, uma cãibra ou alguma dificuldade para fazer um instrumento obsoleto avançar por um canal fora de uso. Eu gritaria: "Mas você me meteu um negócio enferrujado, Adrien! Tire isso de mim, por favor!"

Não, eu tentaria olhar para ele, mais uma vez, como uma mulher realizada. Por baixo do seu ar irônico, ele sempre teve muita admiração e amor por mim. Se nunca soube acariciar, é apenas questão de data de nascimento. Nascido em 1910, ele só ouviu falar em clitóris trinta anos mais tarde: tinha adquirido maus hábitos. Só os superdo­tados, desde sempre, descobriam os caminhos do prazer. Nós nos casamos em 1939, e a mim tampouco apresenta­ram o meu clitóris — nem o resto. Adrien tinha aprendi­do algumas manobras rudimentares, mas as praticava como se recita uma lição. É preciso inventar essas carícias a dois; do contrário, ficam trabalhosas como uma língua estrangeira que você aprende a falar mais tarde. Nunca terá uma boa pronúncia.

Infelizmente para ele, mas felizmente para o meu cli­tóris, Adrien foi aprisionado em 1940, e os anos de guerra e da Libertação me permitiram levar uma vida de moça livre, o que jamais tinha ousado fazer antes da guerra. Na sua volta, eu encontrara amor e esperança suficientes para fazer com ele, bem depressa, dois filhos: Xavier, que en­controu sua vocação no mar, mas que infelizmente vive e trabalha no fim do mundo. E não posso mais acompa­nhá-lo em seus mergulhos submarinos, assim como ele não vai estar junto a mim, ao que tudo indica, no meu mergulho final.

Tive a sorte de ter também uma filha, que consegue me fazer esquecer do abismo que nos separa: duas guerras e muitos anos. Marion é a mulher que eu adoraria ser, que sem dúvida eu poderia ter sido se não tivesse nascido em 1915. Ela não empregou e exauriu suas forças lutando por aqueles direitos e liberdades que eu tive de arrancar a pica­reta, um por um, como um mineiro, das profundezas onde estavam escondidos. O que me restou foi uma linguagem brutal, dizem, um rancor contra os homens e um gosto pela provocação que me prejudica. Minha filha é uma mulher em todos os sentidos da palavra. Já eu, não passo de uma senhora de boa família, só que insolente e mal-educada.

Marion pôde desenvolver seu humor, seu gosto de vi­ver, seu dom para o amor e os amores. Além disso, tem a delicadeza de não me fazer envergonhar por minha velhi­ce. Ela me ama como sou, ou me faz acreditar nisso. E me dá este presente: me faz pensar que precisa de mim no seu cotidiano e não apenas como uma mãe. O que aprecio ainda mais porque, deixando de lado minha "irmãzinha" Hélène, dez anos mais nova que eu e que trato um pouco como uma segunda filha, eu não soube estabelecer com os meus netos a tal relação que tantos amigos anuncia­vam como a mais gratificante da vida. É verdade que eu nunca larguei meu trabalho para me "consagrar" à famí­lia. Só a expressão já me causava horror: em consagrar, eu via sacrifício. Ou coisa parecida! Também me recusei a ser chamada de "vovó". Já tinha perdido meu sobrenome ao casar e me recusava a perder também o nome ao me tornar avó. Afinal, eu não tivera o menor papel no nasci­mento dos meus netos, mas o principal no nascimento dos meus filhos. No dia em que os vemos disformes, pe­gajosos e indefesos em cima da nossa barriga, no dia em que eles pronunciam "mã-mã" pela primeira vez, sabe­mos que fomos apanhadas para sempre. Mamãe se torna uma espécie de senha, conhecida por todos e só nossa. E que abrirá todas as portas, para sempre.

Se não fui loucamente feliz como mulher com Adrien, fui como esposa. Há outros homens na Terra, felizmente, mas um único esposo. Pelo menos um de cada vez.

Ao olhar para a minha vida, entretanto, sinto um arrependimento: ter frustrado as minhas vocações. Aí tam­bém, é questão de data de nascimento. Eu sonhava ser uma grande repórter, globe-trotter, política, ministra, por que não? Eu, que só tive direito a voto aos 40 anos!

Pouco se fala do prejuízo que significa vir ao mundo sem qualquer direito civil ou jurídico e crescer sem um modelo feminino notável na História, com apenas quatro ou cinco figuras pouco estimulantes, há que se convir: a Santa Virgem, Joana D'Arc, a Bela Adormecida.

As três primeiras mulheres ministras — até então elas eram no máximo subsecretárias de Estado, até mesmo Irè­ne Joliot-Curie, que acabara de receber o Nobel! — surgi­ram no governo de Léon Blum, em 1936! Obrigada, Léon, mas elas representavam uma aberração democrática, pois não tinham direito a voto!

Foi por causa dessa discriminação das mulheres que entrei no feminismo, como quem entra nas ordens, con­victa de que era uma causa nobre que iria triunfar em bre­ve. Eu ainda não sabia que as mulheres não eram NADA. Que ser feminista não trazia consideração, nem reconhe­cimento, nem celebridade duradoura. Ao contrário: a luta pelos direitos das mulheres nos prejudicava em todos os outros campos, os sérios, os válidos, os gloriosos.

Ah, é? Você milita a favor dos anticoncepcionais e do direito ao aborto? Interessante, dizem com um ar morno. E logo viram as costas ou levam a conversa para um as­sunto mais excitante.

Ah? Você assina a coluna "Nous, les Femmes" no Cour­rier du Cœur. Que original...

Aqui, sorriso malicioso. O sofrimento de uma mulher nunca é trágico ou apaixonante, é original.

Se você assinasse a coluna de futebol, lutasse pelo Green-peace ou defendesse os golfinhos, as tartarugas, os corais, que interessante! Se você militasse contra as minas terrestres, a desidratação dos bebês na África ou a malária, apaixonante!

Eu a admiro, minha senhora.

Mas... as mulheres? Do que elas podem reclamar aqui? Todo francês tem a impressão de ter feito o máxi­mo pelas mulheres. "E depois, elas têm a nós, pensam, os melhores amantes do mundo." Uma idéia persistente. A senhora é bonita demais, minha senhora, para contradizê-la... Um pouco de galanteio francês para refrear a conversa fiada da sirigaita.

Lutar contra esses adversários — eles eram uma legião antes de 1968 — acaba azedando o caráter. Preferi me iso­lar na coluna Correio das Leitoras, onde, para minha gran­de surpresa, adquiri renome e influência, vivi momentos raros, fiz inúmeras amizades e, enfim, ganhei bem a vida. O que me permitiu comprar para o meu filho o barco dos seus sonhos para melhor me deixar..., mas ao menos ele realizou sua vocação de marinheiro, mergulhador e cineas­ta na equipe de Jacques Cousteau. E adquirir finalmente um pedaço de terra bretã, ao lado do "estábulo" que Adrien e eu compramos para Marion, para passarmos as férias, perto dela, mas não na sua casa.

Mas ainda tenho um desgosto: escrevi inúmeros arti­gos, reportagens e textos diversos, mas esse gênero de es­crita rodopia por algum tempo nas memórias, depois se desvanece como borboletas ou folhas mortas. Não tenho um livro com meu nome na minha estante, e esse vazio me entristece. Portanto, vou tratar de preenchê-lo. Mas, para esse novo gênero de trabalho, todo mundo me diz que é indispensável dispor de uma nova ferramenta: o computador. Eu desconfio: seria mais certo dizer que ele é que vai dispor de mim.

Mas, Alice, você tem de fazer isso. Você vai ver, não é nada, e depois não conseguirá mais ficar sem ele, dizem todos os meus amigos... de menos de 60 anos.

Mamãe, se você não começar com o computador ago­ra, depois será muito tarde. É sua última chance antes da aposentadoria. Vai ser incrível para o seu trabalho, você vai ver.

Afinal, Alice, você não vai escrever um livro com cola e tesouras como na Idade Média! Todos os escritores têm computador, pelo menos para processamento de texto, disse meu amigo Julien, o único para quem contei o segre­do além do meu marido.

Eu sou contra, disse Adrien. Você vai trazer o Belzeb para dentro de casa. Não fomos programados para isso nem você nem eu. Você vai ficar maluca, Alice.

De qualquer forma, Adrien é sempre contra, e esse um motivo a mais para eu fazer pé firme. Com mais de 7 anos, já não tenho todas as minhas capacidades, é claro, mas ainda tenho muitas, e nenhum tempo a perder. Por­tanto, indago sobre os melhores fornecedores de Paris, as marcas recomendadas, os vendedores mais competentes e tiro minha bicicleta da garagem, no fundo do quintal, já que o meu trajeto passa por ciclovias, esses preciosos cor­redores protegidos que me pouparam da aposentadoria como ciclista. E um belo dia me apresento numa impor­tante loja de informática no boulevard Saint-Germain.

- Queria ver um computador portátil, por favor. Ba­sicamente para processamento de texto. Procuro um mo­delo simples e fácil de usar. Sou escritora... mas iniciante em computadores...

Sorrio humildemente. Já errei ao dizer escritora. Não perco por esperar: "Uma dessas chatas feministas! E ainda por cima uma coroa!", comentam os quatro rapazes que fingem estar muito ocupados atrás do balcão. Atenção: es­tou num Templo, não em uma loja comum. Um dos quatro oficiantes acaba se aproximando.

- Que modelo você deseja?

Nada de "senhora", é ridículo. Quanto ao famoso sorriso comercial, ele não é usado em um Templo.

Estou aqui justamente para ser aconselhada. Mostre-me o que vocês têm de mais... rudimentar — digo ira fazê-lo sorrir.

Errado! Pioro a minha situação. Ser velha já é malvisto, mas velha idiota, aí é demais. Nada é rudimentar entre es­sas jóias da tecnologia que me desafiam do alto das prate­leiras. O jovem me indica, com desenvoltura, dois ou três equipamentos que ele nem se dá ao trabalho de pôr no balcão para que eu possa examinar.

- Você quer com monitor integrado? Ou externo? O que seria o mais prático para uma velha idiota? Faço algumas perguntas, imbecis a julgar pelas reações

do vendedor. A gente ouve cada coisa neste mundo, pensa ele. Tenho vontade de retrucar que me formei com menção honrosa há mais de cinqüenta anos (não, não me interessa deixá-lo calcular minha idade), que fui professora de latim, grego, que sei manobrar um veleiro, remar em um porto atravancado, cozinhar um caranguejo flambado ao calva-dos, esquiar na neve fresca, o que mais? Um único comen­tário me faria ser respeitada, dizer com um ar confiante:

- Você já deve conhecer o computador que a Sony aca­ba de lançar, não? Eu o vi semana passada, em Tóquio, é in­crível! Esse vai desbancar os últimos modelos americanos!

Mas não sei dizer essas coisas. Em vez de esnobá-lo, pergunto o peso deste ou daquele modelo, pois quero transportá-lo no verão para a Bretanha, e o vendedor pen­sa que, além de velha e idiota, sou uma velha idiota bretã, limite impensável... Mulher burra não tem necessaria­mente um espaço no mercado da informática.

Então, para que desperdiçar sua massa cinzenta (que ele possui em quantidade limitada, inversamente propor­cional à sua grosseria, mas isso ele ainda não sabe). Com uma condescendência excessiva, afinal me aconselha a in­vestir primeiro em uma máquina de escrever Hermès-Baby. Ainda se encontram em algumas lojas de ocasião. Depois me conduz com firmeza até a saída, concordando a contragosto em me deixar levar um maço de folhetos sobre os principais tipos de "máquina", já que eu insisto.

É com alívio que reencontro o ar poluído do boulevard, o ar indiferente dos passantes e a minha auto-estima, que recolho na sarjeta. Vou me virar sem esses fedelhos, mergulhar nos folhetos e decidir eu mesma o tipo de com­putador que me convém.

E vou me divertir muito, a julgar pelo ar radiante dos jovens que ilustram os diferentes modelos. Todos têm me­nos de 25 anos, nenhum com cabelos grisalhos, eu devia desconfiar! Mas nós, de mais de 60 anos, estamos acostu­mados a ver garotas impúberes elogiando cremes anti-rugas ou dando conselhos para varizes ou pernas inchadas.

Descubro logo de cara o modelo que vai servir- Acer Power F1B: o sucesso da simplicidade. Tudo o que eu quero. 256 Mb Memória RAM DDR extensível a 2 Gb. Piara 10/100, Ethernet integrada. E Combo DVD/CDRW. De fato, a própria simplicidade! No texto de dez páginas, en­tendi apenas os artigos e as conjunções...

Passemos ao folheto seguinte e vejamos o Altos G510, a escolha que se impõe. O preço também é imponente. Sim, mas Hotplug sem teclado! Quanto menos peças houver, mais caro e mais fácil de manejar, não é? E, na mesma li­nha, ver o Acer Ferrari. Vermelho, um verdadeiro Fórmula 1.



Esclareço que qualquer semelhança com os folhetos existentes não é fortuita.

Digno de uma paixão total. Carroceria magnífica, sem dú­vida, e por ser vermelho é ainda mais caro. Bom. É a mes­ma coisa com os eletrodomésticos. Mas o que procuro, antes que uma Ferrari, seria um Acer Twingo! Não é pos­sível que não exista. Continuemos.

Em cada página de cada um dos folhetos, jovens belís­simos manipulam as tais máquinas rindo às gargalhadas. É visivelmente entusiasmante usar um computador. Mui­tos desses jovens são moçoilas, que sorriem extasiadas, completamente descontraídas, para mostrar bem que até a mulher mais estúpida domina a técnica sem esforço. Para mim, que sou formada em letras, será portanto uma brincadeira de criança.

Veja por exemplo o Acer Aspire Travei Mate 1520. Co­meçamos bem, entendi tudo: Travei Mate quer dizer com­panheiro de viagem. Abandone o seu computador de 64 bits, recomendam. Este é NEW1. A palavra-chave aqui é abandonar. Portanto, é preciso rejeitar o velho; e a velha junto, para não perder a viagem...

O modelo superior, a partir de 15 mil francos, u-lá-lá! Mi­nha licenciatura em letras perde seu prestígio pouco a pouco, e afinal não leva a nada. Será que as competências adquiridas são um obstáculo à aquisição de novas competências?

E pensar que existem os Acer palmatum purpureum, tão fáceis de conseguir em qualquer viveiro, e por trezen­tos francos eu poderia adquirir um bambu de um metro, que plantaria em Kerdruc ou alhures, sem precisar espre­mer os miolos!

Coragem, Alice: vamos abrir esse lindo manual que se chama Modem. Palavra nada católica, esta! Aliás, não cons­ta no meu Littré, nem no Robert em quatro volumes, nem mesmo no Harraps inglês-francês. Começamos bem!



"É o fax-modem mais rápido do mercado (eu teria prefe­rido o mais lento, mas tudo bem). Velocidade de transmis­são de até 56 Kbits, retrocompatível com os Modems V34."

Ah, V34! Isso me traz à memória uma lembrança boa: os V8. Tive um V8 por um tempo. Tudo bem, o nosso não era "new", Adrien e eu compramos esse Ford V8 de segun­da mão, nosso primeiro carro, em 1947. Oito cilindros em linha, sim, Madame!, dizia orgulhosamente Adrien. Per­dão: sim, Modem!

Eu sabia calibrar, completar o óleo, desligar os cabos da bateria, trocar um pneu, de verdade, manejar o macaco, aparafusar o estepe e ir à oficina mais próxima para re­mendar o pneu furado. Pois naquele tempo a gente con­sertava, sim, Modem. Não se jogavam no lixo objetos que tinham servido, nem pessoas que tinham vivido.

Em suma, eu não era um zero. E no entanto só tirei minha habilitação aos 30 anos, por causa da guerra e da ocupação. Antes do nosso primeiro carro, eu circulava so­mente de bicicleta, e depois numa bicicleta motorizada. Mas nunca fui dessas vadias, obrigadas, quando estourava um pneu — e isso era freqüente naquele tempo —, a se plantar na beira da estrada numa pose provocante, fazen­do sinais para que um motorista viesse mostrar onde esta­va o estepe, nunca consertado, e se encarregar de todas as manobras. Eu sabia, portanto, viver sem pedir socorro aos homens. Não é necessariamente uma qualidade, mas eu nao imaginava que um dia, mesmo à custa de um esforço colossal, ficaria sozinha na beira da estrada.

Que chegaria o dia em que eu seria ejetada da socieda­de dos vivos. Um zero à esquerda. Inepta. Inapta. Com o prazo de validade vencido como um iogurte.

Mas não desanimei. Eu não era uma ex-professora, uma jornalista, droga!? Nunca digo droga em público, uma palavra interessante, mas que evoca um passado de menina educada num convento.

De modo que retomei a página 18 do User's Guide e imediatamente fui advertida: "O programa de comunicação foi concebido para proteger o usuário da complexidade dos comandos AT. Portanto, é muito recomendável acionar o Mo­dem por intermédio de um programa." Ah! Eles reconhecem "a complexidade dos comandos"! Esse pessoal adora com­plexidades. Eles são incapazes de simplicidade, estão con­vencidos de que fazer complicado é prova de competência, quando é preciso muito mais inteligência para fazer sim­ples. Mas como iriam nos dominar se os compreendêsse­mos? Além do mais, eu nem sei o que significa programa.

A seguir, a seção PROBLEMAS MAIS FREQÜENTES, muito mais fornida que a seção FUNCIONAMENTO. Nada tranqüilizador. E na conclusão do MODEM, três pá­ginas de códigos de velocidade de 2.400 bits/s ou 4.800, e até 921.600 bits com conexão de 931.600 ou 56.000 bits... bits bits bits... Tem dó!!! Mas se você não puder resolver suas dificuldades após a leitura deste manual do Modem, entre em contato com o seu revendedor para obter assistên­cia. Em seguida, veja os dados V42 bis classe 5, todos os bits com controle de fluxo. Aí, desanimei! Adrien tinha razão: Belzebu tinha entrado lá em casa e, sem os bits, não há salvação! Só me restava um recurso: entrar em contato com o bitolado do meu revendedor para que ele me expli­casse o controle de fluxo.

Em outras palavras, marquei o número de um jovem tecnocrata, amigo de uma amiga, apertando as teclas tele­fônicas estupidamente numeradas com algarismos lumi­nosos de 0 a 9, e consegui chegar a um outro bitolado, que encarreguei de conseguir para mim um computador por­tátil, simples, insisti, mais uma impressora, para trabalhar com processamento de texto, já que eu fora intimada a renunciar à minha esplêndida Remington antiga e à mi­nha pequena Hermès-Baby de viagem, que com os anos se tornara uma Hermès-Mammy. Essas duas fiéis compa­nheiras tinham me acompanhado a vida toda, aceitando imprimir meus escritos em cinco exemplares graças ao papel de cera e aos carbonos Armor, que jamais me hu­milharam! Infelizmente, não se conseguia mais fita para máquina. Infelizmente, algumas teclas da minha Reming­ton estavam travadas e eu tinha a impressão de pilotar uma carroça. Infelizmente, os raros técnicos que restam em Paris olharam para ela com o olhar enternecido de um paleontólogo ao descobrir uma mandíbula de ma­mute desdentado... mas nenhum deles dispunha de den­tes de reposição. Como se faz com as velhas máquinas de costura Singer de pedal, expus minha Remington preta e dourada sobre um console, na entrada, como um objeto de arte. Muitos dos meus amigos que usaram uma Re­mington ou uma Underwood durante anos a acariciam ao passar. Ela vive uma aposentadoria bem merecida.

Quanto a mim, abri corajosamente minha porta para Belzebu: eu o possuo! Está sobre uma mesa que preparei só para ele, com sua bela tela azul dos mares do Sul, e te­nho em mãos seu manual de instruções "justfor starters". Até aqui, tudo vai bem.



ONE: Begin unpacking. Ah, begin! Surpreendo-me can­tarolando essa maravilhosa canção, "Begin the biguine", maravilhosa porque surgiu logo antes da guerra de 1939 e foi sumgando com essa beguine cantada por Artie Shaw que me apaixonei por Adrien. Nós nos casamos em 2 de setembro de 1939. Por azar, porque a guerra começou no dia 3! Então, Begin unpacking. Começar a desembalar. Isso eu descobriria sozinha. Eles nos consideram retardados ou o quê?

TWO: Instale a bateria. Nós dizemos PILHAS, mas va­mos lá. Pode-se dizer também Plaatz de battery ou, se pre­ferir, Soet batteriet.

THREE: Ligar o computador na rede elétrica. Encienda la computadora. Que bela língua o espanhol!

FOUR: Begin use. Começando a utilizar.

E o meu resumo em 14 línguas pára aí, à beira do abis­mo. Vire-se, diriam os rapazes da loja se tivessem coragem. Folheio o manual todo, procurando em vão um esquema, uma foto do teclado, conselhos para sublinhar, apagar, fa­zer uma margem... NADA! NADA em 14 idiomas.

São nove horas da manhã, estou em pleno domínio das minhas faculdades. Nenhum câncer detectado, nem colesterol, nem dor de cabeça, nem extra-sístoles. Está tudo bem. Então, retomo:

A fim de verificar se o Modem está funcionando, assegu­re-se de que os valores da Porta COM e do IRQ correspon­dem ao do seu programa.

E meu QI, você sabe o que o meu QI diz? Vou logo avisando, jovens, tenho 121 de quociente intelectual, ex aequo com a jornalista Françoise Giroud. Segundo uma pesquisa da VExpress de alguns anos atrás, Cavanna tinha o QI mais alto. Sendo a mais diplomada da nossa reda­ção, representei honrosamente a Nous, les Femmes. Por­tanto, você não me assusta. Mas sinto crescer minha raiva contra os fabricantes de programas, criadores de compu­tadores e outros tecnoassassinos. É claro que, como todos que utilizam uma linguagem codificada, eles se engenham (já que são engenheiros) para torná-la totalmente obscura para o comum dos mortais. Mas a raiva não faz bem para o colesterol. Na minha idade, os mais diversos sintomas estão sempre à espreita. O mais prudente seria desistir e reconhecer minha derrota... por enquanto. Digamos que Belzebu ganhou o primeiro round por nocaute técnico.

Falta reduzir a besta imunda ao silêncio. Procuro o bo­tão On/Off. Está brincando? Isto não é uma torradeira elé­trica. Você está no mundo mágico da eletrônica. Vá se foder! Fujo deixando todo o equipamento ligado e, no ve­lho telefone, soluço nos ouvidos do meu revendedor. Ele está "muito ocupado, vai passar aí um dia desses".

Ligo para Marion, ela é severa. Não posso apelar para mi­nha querida Hermes. "Se você a usar, nunca mais vai voltar para o computador. É sua última chance, mamãe. Resista."

Quanto a Xavier, que surfa tão brilhantemente na in­ternet quanto nas ondas, ele está do outro lado do mundo, o covarde.

Adrien foi maravilhoso. Faz bem a ele me ver derruba­da. Demonstrou uma ternura e uma compaixão que rara­mente manifesta. "Oh, fúria, oh, desespero, oh, velhice inimiga, você só viveu para esta infâmia?" declamou, pro­pondo destroçar meu computador a golpes de martelo. Depois me levou a um dos melhores restaurantes de Paris, sabendo que minhas lamúrias não resistem a ovos mexidos com trufas e em seguida filé de linguado ao Chambertin.

Foi completamente por acaso, no pedicuro, que dois dias mais tarde eu soube que no supermercado Casino se pode comprar um PC for dummies, traduzido corretamente como "Manual para idiotas". Meu coração derrete desde as primeiras linhas: "Bem-vinda ao mundo do PC desmitificado, um livro em que a eletrônica não é sacralizada, e sim finalmente explicada a uma pessoa normal como você".

Por que os vendedores de computador escondem a existência do livro que salva? Por uma razão evidente, Ali­ce! Sempre a mesma: é uma questão de não partilhar o poder. E, depois, o prazer de excluir os elos mais frágeis, todos esses fracos que cometeram o erro de nascer antes da era da eletrônica e que gostariam de ter acesso ao que veio depois, em vez de se dedicarem à tarefa para a qual foram programados e que fazem bem: os trabalhos do­mésticos. Será que os vendedores de computador querem ter acesso aos trabalhos domésticos e concorrer com as mulheres? Isso lhes faria mal.



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