Carmem cacciacarro



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III

Brian e Marion

No cais da Brittany Ferries em Cork, num dia de verão de 1973, um belo tipo muito jovem espera uma mulher que não consegue esquecer. Ele é um desses irlandeses que pare­cem trazer no rosto a história trágica do seu país. Duas pro­fundas rugas verticais cruzam sua face cor de tijolo, seus olhos muito pálidos sob as sobrancelhas espessas se abrem como que a contragosto para seu mundo interior, e seus cabelos, de um ruivo escuro, muito espessos e encaracola­dos, se abrandam com fios prateados sobre as têmporas, dando à cabeleira uma cor indefinível que, em alguns loiros ou ruivos, precede o branco sem passar pelo cinza. Ele tem cílios curtos e crespos como os cabelos e sardas nas mãos e nos antebraços. É de uma altura acima da média, e as man­gas das suas roupas nunca chegam a cobrir seus punhos.

Em pé no cais, Brian espera a sua vida e já espera a tristeza de perdê-la 15 dias mais tarde; mas no momento só pode pensar no instante em que apertará essa mulher nos braços, abolindo a ausência, por mais longa que te­nha sido.

Pois Brian é Tristão, é Lancelote, é Artur ou Gawain, é um Percival que jamais vai trazer o Graal e é um homem que espera uma mulher que jamais deixará de amar.


Sou o amante, oh Notre Dame da Noite?

recita baixinho /



.. .Sou o amante, oh Rainha das luzes /

Tu cujo nome impronunciável atordoa os ecos das montanhas /

Tu, imensa e bela no fundo dos tempos/

Tu cujo nome é minha sombra /

oh Moira, minha dama de luz...
Todos os homens me evocam em algum momento da vida, mas poucos sabem ou ousam me nomear. É por isso que sempre me senti viver, se é que tal verbo me é permitido, entre os poetas dos países celtas, que soube­ram dar um lugar ao invisível, os mais loucos deles nati­vos dessa ilha da Irlanda, por tanto tempo isolada do resto do mundo e que "vive em um solo que transpira poesia por todos os poros de suas fontes, seus lagos, vales e colinas"... O Quiberon tinha zarpado do porto de Roscoff 15 horas antes, debaixo de uma garoa. Agora sobe o rio de Cork sob uma chuva tão forte que mal se distinguem as margens. Existem 11 palavras em gaélico para definir os diferentes tipos de chuva, assim como há 14 em Quebec para descrever a neve em todos os seus estados. A temperatura caiu dez graus desde as costas bretãs, e aqui, esta manhã, o verão já parece ter termina­do Mas ao desembarcar na verde Erin é preciso renun­ciar aos próprios critérios, hábitos e escala de valores. O tempo não é pior na Irlanda que na França, é ruim de outro modo. Da mesma forma que Marion não ama Brian mais que Maurice, seu marido: ama de outro modo. É isto que facilita sua aterrissagem em outra vida, com outro homem, com quem ela falará de amor em uma lín­gua que não é a sua.

Como Moira, tenho um fraco pelas histórias que exi­gem muito do destino. Admiro quando um pequeno nú­mero de humanos que pareciam dedicados a uma vida convencional, abençoada pela Igreja, aprovada por seu meio social, dotada de filhos, de trabalho, de preocupações, da cota habitual de alegrias e tristezas, admiro quando es­ses poucos crêem de repente no milagre e se comportam em segredo como deuses (estou falando dos deuses do Olimpo, claro, aqueles que me inventaram, travessos, goza-dores e apaixonados pela Criação em todas as suas formas; ou seja, de divindades pagãs. Os outros, os monoteístas, incorrigíveis machos egocêntricos e despóticos, nunca en­tenderam nada de felicidade).

A esses humanos de que falo, a sorte fez um sinal. Eles o captaram sem saber que era um pedaço do céu, e alguns, com minha ajuda, conseguem se apropriar dele.
Quem no céu acreditava

E quem nunca foi um crente

Que importa o nome que davam

Ao clarão que a seus pés se acende...
Sim, não importa, pois nada predispunha a filha de Ali­ce e Adrien a se apaixonar, enquanto tudo predispunha Brian 0'Connell, portador do gene do amor fatal dos gaéis, povo do Eterno Retorno e das paixões proibidas. Mas foi preciso um bom número de acasos e infortúnios para que houvesse o encontro desses dois. Dei uma ajudinha, do iní­cio até o final.

Brian tinha 30 anos e era piloto de uma empresa pri­vada em Dublin. Marion tinha 19 e cursava em Paris li­cenciatura em História. Era uma morena de olhos azul acinzentados, bonita sem saber disso e muito tímida, que duvidava do seu poder de sedução e das suas chances de sucesso na vida. Mas justamente entre esses dois não foi uma questão de sedução ou de trama, eles eliminaram os habituais trabalhos de aproximação. Ao primeiro olhar, uma onda os colheu e não tiveram tempo de discutir. Quando Brian voltou para Dublin, alguns dias mais tar­de, um laço indissolúvel se estabelecera entre eles. Era como se, desde o primeiro encontro, tivessem encontrado seus lugares um no outro para sempre.

Eles sentiram isso logo, mas se recusaram a acreditar, jovens e inexperientes demais para saber que esse tipo de coisa só acontece uma vez no decorrer de uma existência, e mais provavelmente nunca. Brian falava mal o francês e passava a vida entre a Europa e os Estados Unidos. Marion ia prestar concurso para professora e se preparava para ir lecionar na África no programa da Cooperação, com seu noivo Guillaume, grande repórter, especialista em África negra e apaixonado como ela por trekking e por desertos.

Os dois se corresponderam apaixonadamente durante algum tempo; mais tarde, menos. Depois a vida se encar­regou de devolver cada um à sua própria trajetória. Eles ainda não sabiam que a lembrança dos dias e das noites que passaram juntos continuaria ardente para sempre. Também não sabiam que nunca mais, em toda a sua exis­tência, estariam livres ao mesmo tempo para viver juntos.

O destino zomba da moralidade. Por que eu haveria de ter o menor escrúpulo em intervir às vezes nesta Terra, quando a vida, em termos de desventura e de injustiça, se encarrega de ultrapassar as previsões mais cruéis? Mas vejo que são tão poucos os escolhidos, tão poucos os homens ou mulheres aptos a reconhecer e a agarrar a felicidade, que muitas vezes fico tentada a esquecer o meu dever de ser discreta para que ocorra o improvável. Aliás, raramente te­nho sucesso, pois as forças contrárias são tão numerosas em torno de cada ser humano e os destinos de cada ser tão múltiplos... Se eles soubessem! Tudo o que acontece à sua volta, tudo o que poderia ter sido, tudo que estava escrito e jamais aconteceu...

Durante um tempo, Marion até pensou em desviar seu rumo para a Irlanda, mas as cargas do cotidiano logo su­focaram o inverossímil episódio passional que ela mesma duvidava de ter vivido com Brian. Tinha passado no con­curso e Guillaume a aguardava. Portanto, casou-se com ele e viveram felizes até o acidente: uma queda fatal de moto nas areias da Mauritânia, durante um dos primeiros ralis Paris-Dakar, menos de dois anos após o casamento.

Na euforia da juventude, quando ainda pensamos que a vida é plural e os homens incontáveis, e também por uma honestidade inata, Marion tinha parado de escrever a Brian desde o casamento. Não sabia que ele, perto dos 40 anos, acabara de perder a mãe, com quem ainda vivia, e estava muito só.

Obscuramente, sem dúvida ele também queria inter­por o peso da realidade entre seu amor fantasiado por Ma­rion e a vida cotidiana. Sua mãe sempre desejara vê-lo casado com Peggy Ahern, prima distante e amiga de in­fância. Ele acabou se decidindo. Quando, alguns meses mais tarde, recebeu a carta de Marion contando a morte do marido, Peggy já estava grávida.

Ocorre que ele também é de uma honestidade inata e, apesar do desespero, não se permitiu mais que algumas cartas por ano àquela que ele teme e anseia rever algum dia. A primeira é para anunciar o nascimento de um me­nino, batizado como Eamon em memória de Valera, o fundador da Irlanda livre. Foi sob a proteção dessa criança que eles retomaram uma correspondência regular, ocul­tando com o relato de suas vidas cotidianas as chamas de uma paixão que nenhum dos dois consegue apagar.

Mas o divórcio é proibido na Irlanda, e Brian é de um lugar onde a moral é onipotente e as responsabilidades paternas e conjugais proíbem qualquer esperança de eva­são. E ele é um

homem que não transige em relação ao dever. Pelo menos é o que pensa, até o dia em que a paixão o deixar em conflito com seus princípios.

Marión, que voltou do Senegal após a morte de Guillaume, leciona agora em Vincennes e, estimulada por Alice, sua mãe, apelidada na família de "incendiária", está se especializando em estudos feministas, ainda em­brionários na França. Seu irmão, Xavier, vai terminar o Instituto de Cinema e começa a filmar documentários sobre o fundo do mar. É por seu intermédio que ela co­nhece Maurice, que também está terminando o Instituto e cuja ambigüidade, ubiqüidade e leveza a encantam. Ele escreve canções, roteiros, peças de teatro e programas de televisão e tem o dom de tornar a vida múltipla e apaixo­nante. Ama as jovens brilhantes, as mulheres maduras também, as ambiciosas, as inibidas também, as sem-es-crupúlos excessivos, as ternas e as duras também, as dire­toras e as secretárias... Marión não é nada disso e, no entanto, os dois vão ficar apaixonados, e não à toa, pois nunca deixarão de se surpreender, ao longo de todas as suas vidas, o que constitui um dos álibis mais seguros para o amor. Amélie nasce um ano após seu casamento. Sèverine-Constance virá mais tarde.

Como Moira, não posso fazer que nasça ou desapareça o amor entre dois seres.

Só posso proporcionar um bom momento e deixar as coisas acontecerem. Por ocasião do 180° aniversário da expedição do general Hoche à Irlanda, o Trinity Collège organizava, justamente em Dublin, um colóquio sobre as relações franco-irlandesas durante a Re­volução Francesa. Uma catástrofe, essa expedição, diga-se de passagem, como tudo o que aconteceu na Irlanda durante cinco séculos: era preciso ser louco para embarcar milhares de homens rumo a Brest a fim de levar nada me nos que a Liberdade aos insurgentes dessa ilha, esfacelada após três séculos de dominação inglesa, devastada pela miséria e pela fome, e cujo exército secreto não passava de uma cambada de camponeses, católicos como os de Ven dée e armados de lanças e forcados como eles. Mas não faltavam loucos na França durante essa Revolução de 1789, uma grande época para as Moiras, com a inacreditá­vel vitória de Valmy contra os prussianos, com um exérci­to de pobres, ou a prisão de Luís XVI em Varennes graças à olhadela de um chefe de Correios que chacoalhou a His­tória. Era preciso ser louco também para desencadear a operação Irlanda, em pleno mês de Nivôse, numa das costas mais inóspitas e mal cartografadas da Europa, Connemara e Kerry. É preciso que se diga que o general Hoche não tinha feito 30 anos!

Antes mesmo de aportar, dois terços dos navios foram dispersados por uma tempestade no sul da Inglaterra, e somente 15 barcos chegaram à baía de Bantry, onde o fu­racão fizera estragos. Soltaram as amarras na noite seguin­te e foram obrigados a fugir, deixando a Irlanda sob a repressão feroz do Terror orangista.

Marion sempre fora apaixonada pela história ator­mentada desse país, tantas vezes confundida com a da França. Tinha trabalhado lá durante vários meses quando fazia sua tese, dedicada justamente a Wolf Tone, que se refugiou em Paris em 1792 e foi o inspirador da expedição Hoche. E que em 1798 seria condenado à forca em Dublin. Por essa razão ela fora convidada para o colóquio.

Brian morava em Dublin e era impensável não avisa­da sua passagem. Como não recebeu resposta, pensou que ele não se arriscaria a revê-la.

Foi esperá-la no aeroporto. Eles não se viam fazia anos, mas desde o primeiro olhar era como se nunca tivessem se distanciado e a sua história retomasse o curso, anulando os episódios intermediários.

Não conseguiram conviver muito nessa semana, cada ocupado com suas obrigações profissionais. Mas duas noites juntos foram suficientes para demonstrar que eram vítimas de um feitiço... ou de um encantamento, confor­me o ponto de vista. O misticismo de Brian, assombrado pela noção católica de Pecado, fazia com que se sentisse enfeitiçado. O materialismo de Marion tendia à mesma conclusão, mas utilizando o júbilo. Durante todo o dia que passaram juntos ao fim do colóquio, tinham a impressão de estar em estado de amor permanente e ubíquo: no rei taurante Russell, no cais da Liffey, no Donegal Shop, no National Museum, uma corrente, um tremor, um coração que se acelera, um olhar baixado porque se adivinha obsceno (o outro o percebe? Claro, percebe porque sente o mesmo!), a boca do outro da qual não se consegue desvia; vista, uma emoção que aflora e depois o pânico que os rebata diante da idéia de que acabou, de que amanhã... Mas amanhã é o começo de outra história. Brian está abalado pela paixão e sabe que não vai se restabelecer. Uma estranha e consternada alegria o assalta. Marion, que gosta de forçar a sorte, está decidida a não perder mais qualquer oportunidade de reencontrá-lo. Ele é piloto, afinal... e vem com freqüência à França. Suas vidas de agora em diante estão ligadas, mesmo que cada um saiba que no momento nada pode ser alterado. Não se perguntam para onde vão Eles vão... Isto é o mais comovente nos humanos, essa in­consequência! Que sejam tão insensatos!

De modo que, num dia de verão de 1973, Marion se vê no cais das Brittany Ferries em Cork, procurando na mul­tidão um homem que só tem olhos para ela. Seu marido Maurice, está em Sydney, onde foi receber os navegadores da volta ao mundo. Peggy, a esposa de Brian, foi com o filho ficar junto da mãe, em Londres, para cuidar do seu pai que não está se recuperando bem de um ataque que o deixou hemiplégico.

Eles têm dez dias pela frente e decidiram se refugiar em Sneem, na pequena casa em Kerry onde Brian passou a infância.
IV

Sneem ou o edredom vermelho
A perspectiva desses dez dias, para nós que nunca tí­nhamos passado mais que algumas horas juntos, modifi­cou os nossos comportamentos. A bulimia amorosa já não caía bem.

Finalmente iríamos viver as etapas normais de qualquer relacionamento e, para começar, nos transfor­mamos em um casal tímido, etapa que tínhamos pulado.

Duas horas de estrada separam Cork, onde acabo de desembarcar, de Sneem, onde Brian possui uma antiga casa de família, "meio escangalhada", ele confessa. A frase me preocupa: para que um irlandês diga isto, só pode tra­tar-se de ruínas! Tenho duas horas para conhecê-lo de novo, descobrir Brian em sua terra natal, saber um pouco mais a seu respeito, colocar minha mão sobre sua mão manchada de ferrugem, depois sobre sua coxa — mas educadamente, por ora —, enquanto cruzamos a bela ci­dade de Cork, depois Macroom, fazendo um desvio pelo porto de Bantry, que ele quer que eu conheça como lem­brança da expedição de Hoche, chegando a Kenmare e, por fim, à vila multicolorida de Sneem e os poucos quilô­metros que a separam de Blackwater Pier, uma cidadezinha abandonada, quase uma cidade-fantasma como tantas que se vêem no Oeste. Só restam alguns pedaços de pare­des rasgadas por vãos de janelas sob telhados destroçados, onde algumas vigas ainda se erguem para o céu como bra­ços implorando vingança e, no final do caminho caótico que morre entre os cardos azuis de uma praia, a "Old Cottage" de Brian, que já era old cento e cinqüenta anos atrás, quando os habitantes tiveram de escolher entre morrer de miséria no lugar ou emigrar para as Américas. Em cinco anos, um milhão e meio de irlandeses morreram de fome e um milhão teve de deixar o país.

O resultado, nos dois casos, foi um desastre para a Irlan­da: igrejas católicas incendiadas pelos protestantes ingleses, moradias e castelos saqueados, vilas abandonadas, culturas esquecidas, províncias do Oeste condenadas à morte.

"Or hell, or Connaught", disse Cromwell em 1654 numa frase célebre, quando confiscou três quartos das terras da Irlanda, impelindo para as regiões inférteis do Kerry e as costas selvagens do Connemara os dois milhões de gaéis que acabara de derrotar.

Foi o Connaught, e mais o inferno.

Brian já tinha me preparado para o espetáculo que nos aguardava, mas como exprimir o desamparo que quatro séculos mais tarde ainda constrange o visitante que desco­bre essas casas esqueléticas, que poderíamos chamar de ruí­nas de ruínas? Só a sua "Cottage" ainda estava em pé diante do mar, muito mais miserável que a mais miserável das

nossas choupanas, apenas uma cabanazinha degradada com uma cobertura de placas com alcatrão e cercada por um jardim cheio de ervas daninhas e flores do campo, como encontrávamos na França à beira das estradas de ter­ra, na minha infância, antes da invenção das roçadeiras.

- Por que você não pôs um teto de colmo como se fazia antes?

- Por causa da cisterna — responde Brian orgulhoso. A chuva não escorre sobre a palha. E também porque é muito caro. Antigamente cada camponês fazia o seu próprio teto, e não há mais camponeses por aqui. O colmo hoje é só para os turistas.

Ele me faz as honras da sua propriedade, um galpão recentemente remendado com um bote também remenda­do às pressas que pediu emprestado para que pudéssemos pescar. E a rede de lagostas, que ele aparentemente pegou de uma lixeira, na qual nenhum crustáceo bretão seria su­ficientemente ingênuo para se deixar apanhar! Tinham instalado um chuveiro atrás da casa, ao lado da cisterna, com uma porta de clarabóia que deixa passar a chuva e a umidade. Mas, afinal de contas, em um chuveiro...

Tendo em vista a posição dos cômodos, não descarto que seja preciso passar por fora para chegar lá... assim como ao mal denominado "vaso sanitário", rudimentar e com um assento sem tampa.

Sobre o mar docemente arrepiado ao longo da imensa praia reina uma luz que não ousa dizer seu nome e que não lembra a noite nem a manhã: é a luz que devia envol­ver os planetas antes da separação entre as águas e a terra, uma luz quase líquida. Mas não chovia de fato; enfim, não completamente. Apenas o suficiente para justificar que nos refugiássemos logo na casa. Concebida como uma ca­bana bretã, a construção se abria em um corredor central, com um cômodo de cada lado: o quarto à direita, a cozi­nha à esquerda, cada qual com uma lareira de tijolos onde haviam preparado fogo com uma bela turfa grossa, de onde saíam pedaços de palha. Exceto no corredor, com al­gumas pedras lisas assentadas, o chão é de terra batida. A guisa de móveis, baús e bancos de pinho mal aplainado; nas mesas antigas havia lampiões a querosene e, num can­to, um fogão a gás e uma pia com uma torneira, aparição perturbadora nesse contexto.

Nós nos olhamos meio desamparados. De repente, Brian vê a casa pelos meus olhos e se pergunta se fez bem em me convidar. Não sabe o que dizer nem o que propor. Percebemos que não sabemos fazer nada juntos, a não ser amor! Nunca tivemos tempo de conversar sobre as coisas e sobre os outros... enquanto... Nunca fizemos juntos pe­quenos consertos, compras ou receitas. Questões banais, como "Quer uma bebida?" ou "E então, como vão as coi­sas?" parecem totalmente deslocadas, e nossas maneiras de estar à vontade perderam qualquer sentido de realida­de. Estamos aqui, em um não-lugar onde a única verdade é o desejo pelo corpo cheio de vida do outro e o olhar en­louquecido que trocamos, onde acaba surgindo toda a violência dos nossos sentimentos. Sem uma palavra, nós nos deixamos aspirar um pelo outro, a resposta está em nós e o centro do universo é o lugar onde estamos.

Num canto do quarto, há uma velha cama rústica, muito alta, que range e estala a cada movimento nosso, com um colchão de palha forrado de um tecido sem uso que cheira a

linho cru, como era antigamente na casa das nossas avós. Para nos aquecer, um edredom vermelho de penas que Brian acaba de trazer de Dublin.

- Não tive tempo de instalar você numa casa de verdade cochicha. — Todo o tempo que eu passasse aqui seria tempo a menos para estar com você, entende?

- Fez bem, my love, seria muito trabalho de qualquer jeito: pelo visto ninguém vive aqui há um século.

- Mas claro que sim! Meus pais, há uns trinta anos. Eles é que construíram a cisterna e fizeram a pia. Tinham uma vaca no galpão, carneiros na colina de trás, além de um burro, lembro bem, para ir de charrete até Sneem. Mas não puderam ficar aqui: era como se fossem os únicos se­res vivos em um cemitério! Acabaram se mudando quan­do eu tinha 8 ou 9 anos, para poder me mandar à escola. Fiquei desesperado. Eu não tinha medo dos mortos deste povoado. Eles falavam comigo... eram meus amigos!

Imagino o meu ruivinho com 9 anos, mochila nas cos­tas, sardas em todo o rosto e a nostalgia dos duendes e le-prechauns que assombravam os pântanos da sua infância!

E que ainda hoje assombram seus sonhos, posso jurar.

Amanhã vamos ter tempo de falar das nossas infân­cias; a conversa não é o nosso modo de comunicação neste momento. Entendemos uma única linguagem: aquela que se cochicha sob um edredom de penas, no encantamento de tanta compreensão.

O amor é dito e feito quase à nossa revelia, sem que distingamos o início e o fim. Aliás, não há final, pois temos uma eternidade à nossa frente: dez dias! Antes que eu caís­se no sono, Brian puxou o edredom até os meus ombros, num gesto vindo do fundo dos tempos que me enche os olhos de lágrimas. Adormeço como uma mulher do tem­po das cavernas, sabendo que o seu homem vai cuidar dela, colocando uma pele de animal para protegê-la das feras e dos maus espíritos.

Nem sei mais se dormimos naquela noite. Brian levan­tava-se vez por outra para pôr lenha na lareira, onde cre­pitavam baixinho chamas azuis como fogos-fátuos.

Ao amanhecer, me levantei para ver pela janela minús­cula de que cinza estava a chuva. Ondas de espuma se per­seguiam lá embaixo, na praia. Parecia que uma rajada de vento se preparava, mas depois o céu mudou de idéia su­bitamente e a paisagem ficou nítida e viva sob o sol. Maça­ricos passeavam à beira da água, deixando sobre a areia úmida a marca estrelada de suas patas.

Na cozinha, Brian tinha preparado tudo! Pãezinhos assados na brasa, leite espumoso numa caneca lascada de porcelana inglesa onde se viam coelhos brincando numa trilha de botões de rosa. Os ingleses não resistem aos bo­tões de rosa nem aos coelhinhos, e não perdoam os fran­ceses por comerem guisado de Pernalonga!

- Não se mexa e olhe — diz Brian de repente, indi­cando a vereda com o queixo: um grande faisão dourado, enfeitado com uma cauda suntuosa, passeia majestosa­mente, como se estivesse em casa, seguido por sua faisã.

- Ao amanhecer, você vai ver: as lebres vêm brincar na grama. Aqui elas estão em casa, como os visons, as martas e as raposas. Não passamos de dois representantes de uma espécie desaparecida: somos nós os intrusos!

- Não é só isso não — exclamei. —Você viu que horas são? A água começa a baixar às dez horas! Se quisermos comer camarões e mariscos no almoço...

- Não é só isso, não? It’s not all that, no? O que significa? Nunca vi isso no meu método de francês!

- Expressão intraduzível em inglês, e inexplicável

em francês! Deixa pra lá, Brian: letfall, como você não di­ria. Vamos calçar as botas e arregaçar as mangas. Vim para pescar, e isso parece ser fantástico por aqui!

- Pescar com ou sem s?

- Ah, então este é o progresso que você fez em fran­cês... Mas na pesca serão outros quinhentos, imagino...



- Yes: another five hundred — diz Brian, resignado com a opacidade das línguas estrangeiras.

Decidimos começar pela pesca a pé. Vamos colocar o barco na água ainda de noite, quando o mar estiver alto, arrastando-o sobre o que resta de uma doca que no passa­do deve ter servido para amarrar orgulhosos curraghs. Ela está danificada e coberta de diversos destroços, cabos de corda desfiados, remos quebrados, ferramentas que pa­recem abandonadas há cinqüenta anos, pneus velhos e carcaças de fornos de fundição. Para os irlandeses, o mar é antes de mais nada uma lixeira. Eles são os campeões da bagunça, do quase-bom, do jeitinho. Não há nada de que gostem mais do que substituir cavilhas do motor fora de bordo por alfinetes de fraldas, remos por tábuas apodreci­das e a elegante costura dos cabos por um bom nó de co­zinheira. Mas se as costas são lixeiras, nem por isso o mar é um guarda-comida! Ninguém se preocupa em apanhar os mexilhões que deixam azulados os rochedos, de procu­rar camarões embaixo das laminárias ou de pegar as amêi­joas que fazem centenas de buracos geminados na areia, como reparei ontem à noite. Melhor morrer que procurar seus petiscos no mar!

- E não se trata de uma figura de retórica — confir­ma Brian. — Quando as colheitas de batata foram destruí­das pelos doríforos no último século, as pessoas morreram nestas costas, bem onde estamos, às centenas de milhares, em vez de se alimentarem dos produtos do mar! É uma das coisas que ninguém pode explicar neste país. Pergun­tei a historiadores, sociólogos, eruditos... seria uma proi­bição religiosa? Um tabu? A lei do ocupante, que proibia os irlandeses de possuírem uma embarcação?

- Mas pelo menos as crianças poderiam pescar a pé, para não morrer de fome! É muito maluca essa história.

- Tudo é louco neste país — diz Brian. — "A Irlanda é uma neurose", escreveu um dos nossos poetas, não lem­bro mais qual, são tantos...

- Todos eles poderiam ter escrito isso! Ninguém melhor que os escritores irlandeses para falar dos males da Irlanda.

- E para nunca se curarem deles, porém.

- Na minha opinião, Brian, só um feiticeiro poderia dar uma explicação. Como entender que o seu São Patrí­cio tenha se aventurado a evangelizar a Europa numa ba­cia de pedra? Os vikings já possuíam os dracares, mas esse monge gaélico preferiu uma bacia de granito... Que idéia de louco!

- Ao contrário — afirma Brian. — Vocês, da terra de Descartes, jamais vão compreender a Irlanda. E São Patrício sabia que a fé faz flutuar! Eles não tinham ma­deira para fazer um barco, nem experiência de navegar, mas tinham fé para dar e vender. Usaram o material que encontraram no local. E você conhece o resultado... aba­dias fundadas na França, Jumièges, Saint-Gall na Suíça, e muitas outras!

- Entretanto, mesmo para navegar na baía, tenho a impressão de que vai ser preciso uma fé inquebrantável para fazer a embarcação que você me mostrou há pouco flu­tuar. ..

E eu, como sou descrente, corro o risco de nos fazer afundar! Estaremos mais tranqüilos na pesca a pé, principal­mente com o equipamento que eu trouxe de Roscoff, olhe!

Desembrulho o meu novo brinquedo, um camaroeiro de cabo desmontável com engate em alumínio e uma rede azul dos mares do Sul. O Jaguar das redes para ca­marão! Aliás, eu tinha hesitado em amarrá-lo na minha mala de rodinhas, temendo parecer uma jeca viajando! Mas depois descobri que o ferry da Irlanda estava cheio de pescadores bretões e normandos munidos de equipa­mentos sofisticados para salmão e tubarão, molinetes de última geração e até tarrafas de náilon em suas mochilas! Eu estava longe de ser a mais ridícula entre todos aqueles doces maníacos...

- Doces? — protestou Brian — Vocês são predadores, isso sim! Assassinos! Como os caçadores de tigres na África, igualzinho! Não é porque os peixes não gritam que...

- Pode falar à vontade, meu querido — exclamei en­quanto entrava na água, que me pareceu glacial apesar da Corrente do Golfo. — Mesmo assim, estou equipada como um pescador das ilhas Faroè: perneiras, impermeável, sues­te, um cesto a tiracolo, um saco para os camarões na cintu­ra, um croque nas costas e o meu camaroeiro.

Tento uma primeira incursão embaixo de um tufo de laminárias qualquer, aos pés de um banco de areia que não parece nada especial, e é a emoção da minha vida! Trinta ou cinqüenta palaemon serrata, chamadas no co­mércio de "buquê real", tremulam como loucas no fundo da rede. Será que eu tinha caído num viveiro de molus­cos? Não, embaixo de cada alga, em cada sinuosidade, no coração de cada moita submarina, pululam milhões des­ses bichinhos transparentes que ninguém incomodou durante séculos e séculos! Eu me viro para gritar meu en­tusiasmo a Brian:

- Está cheio de tigres aqui. A predadora está se rega­lando! É genial para você!

Ele está em pé no meio da baía, com água até a barriga, segurando com uma das mãos o cabo partido em dois e com a outra o pano rasgado da redinha que encontrara no galpão e que se partiu no primeiro seixo que enfrentou. Não tenho tempo para sentir pena: não há amor que resista ao imperativo de uma onda grande num eldorado como este.

Meu cesto fica cheio depressa, infelizmente, embora eu tenha jogado de volta ao mar miríades de camarões mé­dios, que seriam considerados de primeira grandeza na Bretanha. Mas identifiquei uma dessas raras ondas sem al­gas em que a água vem perfeitamente transparente e, por­tanto, propícia para os ouriços-do-mar. Basta se abaixar: apanho vinte em poucos minutos, presos numa falha da rocha e que engordaram tanto sem encontrar inimigos que não podem mais se soltar; vou tirá-los de lá, coitadinhos... Tenho um canivete e engulo ali mesmo os que quebro ao arrancar. Eles não sofrerão por muito tempo...

- Você gosta de "ourriçou" — gritei para Brian, que está rondando pela baía sem convicção. Uma mímica de horror se desenha em seu rosto e me obriga a interromper a colheita por hoje.

Restam as amêijoas, os mariscos sob as pedras musgo­sas e algumas vieiras surpreendidas pela jusante e que tive­ram a imprudência de se anunciar por aplausos sonoros.

Resta, sobretudo, o encantamento de descobrir nesse odor vigoroso que só o oceano possui as milhares de espé­cies em que o animal pouco a pouco se funde no vegetal, sem que se possa discernir a que reino pertencem todos esses organismos estranhos — corais, algas rosadas ou es­curas, musgos debruados de babados —, coisas de todas as formas, que se mexem vagamente, produtos de uma ima­ginação delirante, que em sua maioria desapareceram das costas da velha Europa e subsistem somente em algumas ilhas do extremo oeste da Bretanha como espécies amea­çadas — perceves, holoturias, cavalos-marinhos e outros hipocampos da minha infância em Concarneau.

E também o encantamento de ver caminhar ao meu encontro um espécime tão raro quanto um hipocampo: um centauro, talvez?... Vejo apenas a sua crina e o alto do seu corpo... Não, eis as duas pernas, então não é um cen­tauro, é um homem suficientemente louco de amor para tomar uma pescadora das ilhas Faroè com o gorro de lã molhado, impermeável sujo de lama e perneiras a tiracolo por uma Vénus saindo das águas.

Então me livro de todos esses apetrechos que mal con­sigo carregar e voltamos esfalfados para aquela ruína que é preciso chamar de "casa".

Brian esquentou água para o balde do chuveiro, uma invenção genial, cujo fundo é furado como um regador e que acionamos puxando um cordão. Sancta simplicitasl E ele escancarou a porta do quarto e colocou uns pedaços de carvão na lareira para aquecer o reduto que insiste em chamar de toalete. Quando puxo a argola, desloco a trava e a água quente começa a jorrar. Nenhuma jacuzzi me pa­receria mais luxuosa.

Na cozinha, ouço Brian resmungar enquanto joga os camarões vivos no caldeirão de água do mar fervente. Es­perar que morram também seria cruel, e eles não ficariam tão bons, afirmei. Continuo a abrir os ouriços-do-mar, re­fogar as vieiras, rechear as amêijoas, abrir a garrafa de vodca, para degustarmos, gemendo de prazer, os frutos desse mar generoso como era em suas origens, que agora se ergue eriçado pela chuva, ocultando de mim seus ingê­nuos camarões, que se julgam livres embaixo de suas lar­gas laminárias ("o que será que aconteceu com os nossos colegas?" perguntam eles...), sem saber que amanhã têm um encontro marcado com uma francesa impiedosa que não lhes dará sossego.

Antes mesmo de descascar seu último camarão, com o sorriso dissimulado de um vendedor, Brian me mostra o céu, que agora se derrama sob a forma daquilo que o



Kerry Man, o jornal local, chama de "heavy rairí\ Saben­do que sou viciada em pesca durante as grandes marés, ele tinha me prometido que só faríamos amor durante o dia em caso de "heavy rairí” Conhecendo o seu país, não estava se arriscando muito: por pouco não passamos dez dias na cama!

Olhamo-nos como dois drogados em estado de absti­nência, sabendo que o remédio está ali, debaixo do edredom vermelho. E desatamos a rir como dois bobos alegres. Por­que coisa nenhuma nos atrai a não ser nós mesmos. Porque aqui não há telefone, nem vizinhos, nem eletricidade, nem outra moral que não a lei da vida, porque não existe nada além dessa chuva cúmplice e desse edredom vermelho; ri­mos de tanto nos desejarmos, como daqui a dez dias cho­raremos por não termos saciado esse desejo e por tudo conspirar para nos separar.

Mas cada amor tem a sua eternidade, e ainda estamos no primeiro dia da nossa.

Fica claro até as 11 da noite neste extremo oeste da Eu­ropa. Ainda tenho tempo de preparar a isca com um peixe que pesquei de manhã entre os camarões e de armar a rede com pedaços de barbante e arame encontrados na doca.

- Você está virando irlandesa — comenta Brian.

- Com todo esse Paddy que você me fez beber, é inevitável!

Com poucas remadas colocamos a rede na baía, sob um rochedo na entrada de uma gruta que eu adoraria es­colher como domicílio se fosse lagosta.

Voltando para a vila, onde a natureza pouco a pouco recuperou seus direitos, colhemos uma imensa braçada de gramíneas e flores selvagens com nomes de antigamente — celidonias, orquídeas, festucas, eupatorios violeta, pa­poulas e dedaleiras púrpura — para oferecer à casa de Brian, à qual ninguém dava nada havia trinta anos.

Fazemos um arranjo numa bacia de zinco pousada di­retamente no chão, e a old cottage começa de repente a parecer uma verdadeira casa.

Falta cozinhar os mariscos sob a luz do lampião, en­quanto Brian põe para secar nossas roupas de pesca em frente às lareiras, e elas logo soltam um vapor espesso, que se mistura ao cheiro agridoce da turfa. Lá fora, cai a noite e distinguimos as poucas árvores que sobrevivem entre as ruínas, entortadas numa mesma direção pelos ventos do­minantes, parecendo velhos desgrenhados que não que­rem morrer. Pelas janelas estriadas de chuva e teias de aranha, vejo umas sombras que se precipitam entre as ruí­nas. Os que já viveram aqui tentam saber quem regressou para assombrar esses lugares. Clarões surgem em cada casa, velas acesas. Será que a porta está bem fechada? Ela é sacudida pelas rajadas, e a chuva se infiltra e escorre entre as tábuas separadas enquanto a porta do galpão bate sinis­tramente. É somente o vento, claro.

- Diz que eu estou sonhando, Brian...

Do outro lado do vidro, bem próximos, acabam de surgir dois olhos dourados que nos observam. Dois olhos amarelos, sem expressão e sem rosto em volta, que nos contemplam sem piscar.

- É uma raposa. Não tenha medo, elas nunca atacam.

- Diga para ela ir embora, você que sabe domar as almas mortas. Esse olhar me incomoda.

Brian se inclina para a janela e os olhos amarelos desa­parecem. Ou se apagam.

- Minha pequena cartesiana vítima dos malefícios irlandeses, amo isso...

Aperto seu corpo compacto com meus braços e passo a mão sob a sua camisa para ter certeza de que ele está vivo. Como todos os ruivos, Brian tem a pele muito bran­ca e macia nos locais mais secretos.

O que fazer numa noite como esta a não ser doze fi­lhos, como os seus ancestrais?

- Amanhã à noite iremos ao Blind Fiddler, você vai ver, as pessoas aqui vão muito ao pub. Não se parece com nada que você conhece. Há um músico formidável, justa­mente esta semana, uma espécie de velho bardo errante... Vi os cartazes quando passei por Kenmare. Ele se chama Pecker Dunne. É muito conhecido por aqui.

Entre as rajadas de chuva e o estrondo próximo das ondas, um novo barulho de água nos põe em alerta: entra chuva no quarto por uma fenda da tela alcatroada, que começou a bater sobre o telhado. Brian não se aborrece por tão pouco e põe uma panela velha para recolher as gotas. Mas ela está furada, claro, e um filete de água escor­re pela terra batida.

- Não se preocupe, não vai se espalhar. A terra bati­da suga a umidade. É a vantagem sobre o ladrilho.

Ele fala tão seriamente que não tenho coragem de ca­çoar. E se aproxima de mim tão seriamente que esqueço por que iria caçoar. Este homem faz amor como se estives­se rezando, e eu me ajoelho. Parece que vai chover e ventar Por toda a eternidade. E não há outra realidade além desta vila de fantasmas e deste homem que me toma em seus braços, em suas pernas, e me devora.

De manhã, o céu é de um azul inocente como se nada tivesse acontecido, e saímos para puxar a rede, cuja bóia amarela e furada flutua valentemente. Cada um com um remo, margeamos ao longo da baía, onde frangos-d'água de bico vermelho levantam vôo à nossa chegada. Um casal de garças-reais nos observa com estupor: não havia regis­tro desses estranhos mamíferos de duas patas em suas me­mórias de garça! Nem levei meu camaroeiro, com medo da tentação. Ainda temos um quilo de camarões grandes pescados ontem que, conforme o costume dos campone­ses antes da era da carne congelada, estão pendurados em um saco, sob o teto do galpão, para escapar dos animais.

Dou um pulo para apanhar o arinque da rede de la­gosta que lastreei com uma pedra pesada, já que não co­nheço a força das correntes daqui. Brian também não conhece muito bem; ele chama cada formação nebulosa pelo seu nome, mas não sabe como se chamam os recifes que dão a esta costa um aspecto infernal mesmo com tempo bom. Puxo a rede para bordo... duas lagostas es­tupefatas emergem ao sol: uma grande, de cerca de um quilo, e uma pequena lagosta-anã, como se costuma di­zer sem consideração. Eu estava tão descrente que nem tinha um cesto onde guardá-las, tive de levá-las para ter­ra na própria rede, pensando nos milhares de irlandeses que poderiam ter sobrevivido por aqui comendo lagosta todos os dias!

Não tínhamos nenhum recipiente onde cozinhá-las e as armazenamos na sombra, sob camadas de algas. Vamos ao mercado comprar uma panela daqui a pouco. Do jeito que anda a pesca, precisamos urgentemente de alguns utensílios, tesouras pontudas para abrir os ouriços-do-mar quebra-nozes para as garras dos crustáceos, espetos para os burgaus. Aqui só encontrei um abridor de latas para os ignóbeis beans ao tomate que Brian tanto aprecia e um abridor de garrafas para a Guinness. Uma casa de homem e, ainda por cima, de homem irlandês, habituado ao despojamento.

O automóvel, um antigo Ford, não passa de um ca­lhambeque prestes a morrer, mas combina com a paisa­gem: aqui os carneiros se sentem em casa, e os raros veículos a motor esperam espremidos onde podem pela passagem dos rebanhos, que nem olham para eles e ja­mais apressam o passo.

Atravessamos uma paisagem de matagais, cobertos por uma grenha de urzes e juncos rosa, amarelo e violeta que revestem o solo como uma grande manta de lã ango­ra tricolor, parecida com as que encontramos aqui em todas as "craft-shops". Dos dois lados da estrada, turfeiras se alinham como fatias de pudim enegrecido, que camponeses da mesma cor cortam com enxadas e fazem secar nos acostamentos sob sol e chuva. Aqui, ninguém liga para as intempéries.

Cruzamos com pequenos carrinhos de duas rodas pu­xados por burros minúsculos que recolhem o leite nas fazendas, com alguns cicloturistas corajosos com suas pelerines de náilon e umas silhuetas esqueléticas típicas da Irlanda, velhos camponeses corpulentos que, com seus bonés na cabeça, ignoram soberbamente o impermeável ou o encerado e usam ternos de tweed desbotados pelo uso e pela negligência irlandesa, caminhando longe de qualquer povoado, pelas estradas sempre brilhantes de chuva — e que, com toda certeza, não levam a parte algu­ma — ou então sentados em taludes de pedras para espe­rar Godot, ou qualquer outro, pelo tempo que for.

Kenmare, a uma hora de viagem, é uma "grande vila camponesa, famosa por sua feira de gado", diz o meu guia. De fato, a lama e o esterco cobrem a praça e a Main Street, onde patinam vaquinhas combativas, bois folgazões e ca­bras daninhas...

Aqui os animais também são celtas e têm comporta­mentos absurdos.

Raros turistas se insinuam entre os galinheiros e montes de palha para chegar às craft-shops, que exibem todos os mesmos artigos rudimentares, empilhados sem arte nas vitrines: carneiros de pelúcia com lã trançada, pulôveres brancos das ilhas de Aran, duros como a injustiça, chaveiros enfeitados com harpas célticas ou shamrocks e copos graduados para café irlandês. Na praça, um monu­mento aos mortos, sempre florido, porque aqui, conta Brian, os irlandeses consideram que a guerra da indepen­dência não terminou. No Norte ainda se morre todos os dias, em Belfast, em Londonderry, nesse Ulster que ainda faz parte do Reino Unido. Em Dublin fingimos esquecer, mas em Gaeltacht* as pessoas ainda não assinaram a paz. Amanhã, em Caherciveen, mostrarei a você o famoso monumento aos mortos: um menir encimado por uma cruz céltica trazendo, suspensa, uma lista de nomes. E uma data: 1917, início da guerra civil, seguida de um es­paço vazio. Enquanto a ilha inteira não for independente, a data permanecerá em branco...

Tenho um primo no IRA, aliás... como todo mundo.

-Tenho a impressão de que nesta ilha vocês estão em guerra há séculos. "Meu Deus, os celtas assassinados tenha pena!!"... Você conhece o poeta bretão Xavier Grall, bebemos com ele em Pont-Aven, lembra?

- E ainda se chama Grall, que nome para um celta! Seria um belo epitáfio para esse monumento... aos mor­tos, muitas vezes ainda com vida, e que não sabem que um dia vão figurar lá.

- "A pedra já pensa onde seu nome se inscreve", é exatamente o poema de Aragon. Um pouco como a Resis­tência durante a Ocupação.

- Sim, mas para nós isso já dura cinqüenta anos, en­tende? Aqui nada acontece normalmente, sabe, nem a paz, nem a guerra.

- Nem o amor — acrescenta Marión, sem saber muito bem por quê, mas para ela isto é uma evidência.

Enquanto esperamos a hora do espetáculo, jantamos no melhor restaurante de Kenmare", segundo o meu guia. Ele é imundo, como de costume. O escalope de vitela é de búfalo ou de mamute mal descongelado, as ostras recheadas estão endurecidas, só o salmão selvagem está delicioso. E, como entrada, eles têm o cinismo de sugerir um cocktail gelado de "shrimps" britânicos, afogados num ketchup americano. Ninguém parece desconfiar de que ao longo da costa oeste pululam esses mesmos crustáceos, que só preci­sam ser apanhados e custam quinhentos francos o quilo em Paris. Falo com a proprietária e conto o preço dos ouriços-do-mar em nossos grandes restaurantes, no La Coupole, no Dome. Ela arregala os olhos horrorizada e me toma por doida. Afinal, nós comemos rãs e caramujos, como alguém pode confiar em nós?

Às dez horas vamos para o Blind Fiddler. Pecker Dunne só se apresentará às 11. Mas o pub já está cheio de famílias irlandesas típicas: crianças de todas as idades, uma ou duas religiosas ém roupa tradicional, duas ou três mulheres grá­vidas com seu bebê mais recente nos braços, avós, doentes em cadeiras de rodas, moças encantadoras e moças medo­nhas; os homens estão no bar e bebericam suas Guinness fumando cachimbo, enquanto o fogo de turfa, companhei­ro fiel, arde em silêncio. Num estrado, uma garota canta, acompanhando-se ao acordeão, canções célebres que falam da aflição irlandesa, da crueldade inglesa, da guerra, da morte ou do exílio dos jovens. Os aldeões, com coturnos enlameados e bonés de tweed na cabeça, erguem-se para maldizer Margaret Thatcher nas canções, para exaltar as proezas dos heróis da Irlanda, o rei Brian Boru, David O'Connell, e para se comover com Molly Malone.

Num canto da pista, quatro meninas deliciosas dan­çam à irlandesa, braços imóveis ao longo do corpo, agi­tando somente suas pernas magricelas na cadência.

Ainda não tínhamos pedido nossos irish coffees, mas a garçonete deixa dois em nossa mesa, "oferecidos por aqueles quatro senhores ali, diz ela. É em homenagem ao general De Gaulle, que esteve aqui em 1970. Eles ouvi­ram que a senhora é francesa e lhe dão as boas-vindas, assim como ao senhor".

Eu os cumprimento, em mão à fumaça, no outro lado do pub, onde agora todo mundo começou a dançar. Não sei se Brian gosta de dançar, mas nos levantamos arrasta­dos pelo acordeão, ao qual se juntaram um violão e uma gaita-de-foles. Todos estão na pista, sem distinção de idade, de elegância, de beleza. Dançam, tenham 15 ou 75 anos, swing, bourrée, se não se souber nenhuma outra, rock e, principalmente, qualquer coisa.

Uma mocinha divertida, espremida em seu jeans, com as bochechas cheias de sardas, ensina um brutamontes muito aplicado a dançar o rap. Para mostrar melhor, tira os sapatos e de repente brotam asas de seus pés, de seus braços; ela é to­mada pela graça.

Já Brian dança como um urso, mas eu adoro os ursos. Ele me aperta contra seu corpo, e não peço mais nada enquanto observo com inveja as asas da mocinha. Ela me faz um sinal amistoso e me estende a mão... Sem pensar, também tiro as sandálias e eis que também brotam asas dos meus pés, das mãos, começo a rodopiar, deixo o abri­go dos braços de Brian, danço sozinha pela alegria de dançar e me sinto livre pela primeira vez na vida... Sorrio de prazer, sinto vontade de gritar: "Pronto, mamãe, olha, tenho o dom. Aconteceu, mamãe: Olha! É o milagre de Lourdes, não estou mais paralisada..." É como se eu ti­vesse me livrado de um sortilégio, do remorso lancinante de nunca ter me aventurado. Nunca soube? Nunca conse­gui? Nunca entendi o que me bloqueava desde a adoles­cência. Uma timidez doentia? Vergonha de ter um corpo de mulher? A recusa da sedução, inculcada nas tão ama­das, aliás, em demasia, escolas cristãs onde fiz todos os meus estudos? Sim, tudo isso. Mas por que essas noções que eu rejeitava e condenava havia tanto tempo continu­avam impressas em meu comportamento?

A explosão de maio de 1968 poderia ter me salvado. Mas chegou tarde para mim, eu já tinha 27 anos. O cimen­to já havia secado. Pratico esportes, esquio, nado sem complexos, por que sou incapaz de dançar? A ponto de Alice, terrível perfeccionista, me obrigar a tomar lições. Na academia Georges e Rosie, da Rue de Varenne, estudei val­sa, rumba, swing durante semanas, sem fazer o menor progresso. Eu sabia o que fazer, mas o impulso se perdia no caminho e eu era incapaz de transmitir uma ordem às minhas pernas. Só gostei do slow e do tango, porque per­manecíamos fundidos no parceiro. Se me soltarem, per­maneço na posição em que me deixaram... E de repente, esta noite, neste velho pub decaído, meu corpo se eletrifi­cou, a corrente passou. "Olha, mamãe, estou dançando. Mamãe, tenho o dom!" E ninguém aqui para me dizer: "O que há com você, Marion? Está bêbada ou o quê?"

Será o amor louco e incondicional de Brian? O irish coffee7. O público variado que me rodeia, essencialmente camponês, em vez daquela onipresença de jovens arro­gantes e garotas sexy e seguras de si que vemos nas boa­tes parisienses? Ao menos era assim que eu os via, pobre imbecil! E por tanto tempo você teve medo dos garotos, pobre, pobre imbecil! Nos anos 1960, eu os via como os senhores do meu destino. Qualquer que fosse meu valor pessoal, eles é que determinariam o meu status, o status de todas nós.

Eu via minhas amigas do Curso Sainte-Clotilde se tor­narem esposas, uma a uma, de oficiais da Marinha em Toulon, de engenheiros em Saint-Quentin, de adidos cul­turais em Dusseldorf ou Vladivostok, de atores desempre­gados, de vice-prefeitos em Yssingeaux ou — o que aos meus olhos era ainda pior — esposas de Cristo no fundo de um convento. Não havia crise de vocações nos anos 1960, nem para o casamento nem para o sacerdócio. Che­guei até mesmo a ver Hélène, a jovem irmã de Alice, cheia de dotes artísticos e ambição, aceitar se casar com Victor, um mestre no pensamento e um amo na vida, 12 anos mais velho que ela, médico da Assistência Pública, que a transformou numa estátua de esposa perfeita. E nunca mais se tornou a ver o elfo e a poeta que ela tinha sido.

Na minha geração, uma das últimas na França a se mostrar assim tão dócil, o futuro de uma moça era como um acampamento provisório, todas se preparavam para perder seu sobrenome e às vezes até sua pátria.

Agora me dou conta de que amei Maurice por causa do intenso respeito que ele tinha pela liberdade. A dele primeiro, é claro. Mas, por mais que lhe custasse, a do ou­tro também. E, no entanto, ele não conseguiu me libertar do medo, esse medo incurável que tantas meninas experi­mentaram e que parecia uma característica própria. Agora quando às vezes podemos nos tornar Homens como os outros, em determinados países e em certas circunstân­cias, essa característica que se julgava inata surge como um condicionamento imposto.

A circunstância para mim foi sem dúvida o amor de Brian. E o encontro dessa região da Irlanda onde o mila­gre é comum. E foi por isso que sua filha começou a dan­çar esta noite, Alice, como sempre soube fazer. Não era preciso ir à Georges e Rosie... Afinal tudo está na cabeça, inclusive os pés!

Às onze e meia, por fim, Pecker Dunne chegou. Em­briagado, sujo, hirsuto, andrajoso, velho, mas cantando feito um vagabundo inspirado, como Vissotski, como Philippe Léotard, com uma voz cortada pelo álcool e que cor­tava o coração. Velho fauno de cachos cinzentos, tocando todos os instrumentos, gaita-de-foles, harpa ou banjo, lendo poemas, proferindo discursos incendiários, ele manteve a assistência durante duas horas sob o charme de sua feiúra magnífica.

- Nós, irlandeses de Gaeltacht — avisou para come­çar —, nunca soubemos fazer nada, concordo! Mas somos os melhores oradores desde os gregos. Foi Oscar Wilde quem disse isto.

No quarto irish coffee, eu já estava cantando o heroís­mo do IRA e o ódio ao inglês, e Bobby Sands, morto numa greve de fome nas prisões de Belfast, e Bernadette Devlin e a cruel Margaret e a pérfida Albion.

Brian nos levou de volta a Blackwater fazendo seu carrinho correr como um Jaguar pelas estradinhas em ziguezague sempre desertas, já que essas vilas costeiras estão desabitadas há mais de um século, e talvez os mor­tos possam acender as velas em suas casas, mas não diri­gem automóveis.

Tudo tem um fim, mesmo a eternidade. Os dias se sucedem, as lagostas se agitam na rede, sem falar dos ca­ranguejos e siris ou de um linguado que apanhamos num banco de areia puxando a velha redinha de camarões, re­parada à irlandesa. Sem mencionar as duas tempestades entremeadas de sol e de gansos-patola, trazidos das ilhas Skellig pelas rajadas e que mergulharam na baía como... verdadeiros patolas, oferecendo o mais belo espetáculo de circo do mundo só para nós dois. Se a Irlanda não se parece com nada nem com ninguém é porque, segundo Brian, ela nunca foi "maculada" pela invasão romana. Só que de mais nada ela foi poupada no decorrer dos dez últimos séculos. O que se pode ser aqui, senão alcoólatra, poeta ou louco?

- Os três ao mesmo tempo — responde Brian. — Sa­be, aqui nós vivemos de amor louco, poesia e álcool, que aquece melhor que a turfa, "cujo poder calorífico é fraco", como diz o seu famoso Guide Bleul

- Mas o que vocês faziam em Blackwater à noite, sem jornais, sem televisão, sem amigos, sem telefone, sem ele­tricidade? — perguntará Alice no meu retorno.

- Ficávamos juntos, mamãe, mais nada. Isso ocupa­va todo o espaço.

- Mas não se pode fazer amor sem parar!

- Em primeiro lugar, pode-se sim. Fazendo todo o resto, ainda fazíamos amor.

Não me atrevo a perguntar se ela conheceu... A intimidade mãe-filha não deve ser a mesma das amigas. Ela fica feliz com o que lhe confio, mas nunca exige mais. E eu poderia jurar que ela não conheceu um Brian. São poucos os Brian sobre a Terra. E eu poderia jurar que Adrien nun­ca se ocupou de um clitóris. Pensar isto me tranqüiliza. A vida sexual dos nossos pais é opaca e misteriosa, e assim deve permanecer para que eles possam ocupar totalmente os lugares insubstituíveis de pai e mãe.

Pela primeira vez, na véspera da partida, eu me obser­vei com outros olhos que não os de Brian. Aliás, o pequeno espelho pregado acima da pia estava quebrado. Como tudo aqui. Mas bastou para me mostrar que nos deterioramos rápido neste país. Após chegar sob a forma de uma pari­siense elegante há oito dias, agora estou irreconhecível. De­salinhada, nunca completamente dessalgada, com as mãos ásperas, as roupas constantemente impregnadas de um aroma de crustáceo e um odor de suco de caranguejo até os cabelos. Não levei xampu nem bóbis, já que era impossível utilizar um secador. Sendo assim, decidi ir ao cabeleireiro, quer dizer, à única cabeleireira num raio de vinte quilôme­tros o Beauty Saloon não passa de uma cozinha equipada de bacias, secadores e cadeiras de jardim, comandado por três jovens que cantarolam constantemente melodias de rock vindas de um rádio ligado a todo volume. Uma delas se apodera de mim e observa minha juba com um ar de desaprovação. A outra borrifa Brian inteiro, enquanto rela­ta, de regador na mão, uma aventura amorosa que parece fascinar a colega. A terceira não dá a menor atenção às mi­nhas instruções e engendra um brushing arrepiado exata­mente igual ao dela! Eu imploro: "Sem desfiar, pleasel enquanto ela passeia um pente desfia-cabelos sobre o meu crânio inteiro. E, antes mesmo de conseguir pronunciar "sem fixador", recebo um jato de laque malcheiroso nos olhos e em cada um dos penachos que se erguem sobre a minha cabeça. É tarde demais para protestar. Só uma outra lavagem me salvaria.

Enquanto pago — algumas libras apenas—, ela me observa com satisfação: "Much nicer", avalia.

- Yes indeed — responde Brian, que a muito custo contém o riso.

Em Caherciveen, a cidade grande, compramos o jornal local para ver onde Pecker Dunne se apresentará esta noi­te, pois eu adoraria ouvi-lo outra vez para comprovar se o encantamento é para valer. Mas no fim de semana ele vai estar na famosa Puck Fair de Tralee, a festa do Bode, infe­lizmente muito distante para nós.

Voltamos a Blackwater sem falar, como um velho casal. Tudo já foi dito, nós nos entendemos sem frases. Vou sen­tir pela última vez o arrepio mortal que me oprime toda noite ao entrar no povoado, que parece um cenário de tea­tro que os atores tiveram de abandonar de repente. Vê-se que aqui só pode ter acontecido uma tragédia, cujos ecos ainda repercutem no cenário devastado.

Para a última noite, com as últimas amêijoas que não aprenderam a desconfiar dos humanos, as pobres inocen­tes, e que desentocamos da areia em todas as marés, pre­paro uma sopa que mereceria três estrelas e a seguir descemos para nos despedir da baía. Um pôr-do-sol ex­cepcional ilumina as enormes ondas que vêm diretamente da Terra Nova sem encontrar obstáculo e que arremetem com furor contra a barreira rochosa que ainda protege Blackwater. Com o tempo, elas desbastaram as partes mais frágeis deixando somente as pontas afiadas, como mandí­bulas de tubarão, sempre espumantes de raiva, que desen­corajam qualquer aproximação.

A rede de lagostas foi guardada no galpão, o bote reco­locado no alto do porão e eu deixei meu camaroeiro e mi­nhas pesadas botas de perneiras na cozinha, como uma promessa de regresso.

Sei que Peggy jamais virá a Blackwater Pier, a simples menção desse nome já lhe aperta o coração, pois teme sobretudo que o marido decida restaurar uma casa que "expressa a morte de uma parte da Irlanda", em suas pró­prias palavras.

Você não pode saber, minha pequena Marion, mas também não vai voltar a Blackwater. Felizmente vocês nunca sabem essas coisas. Mais uma razão para que eu os inveje: Saber o futuro mata o futuro.

- Let's not talk of love and chains or lives we can't uni­te — murmura Brian, que não pode mais fazer amor nem falar de amor esta noite. — Sim, não falem mais de tudo isso que está a ponto de separá-los, para quê? Sob o edre-dom vermelho, continuem acordados, boca a boca e cor­po a corpo, esperando passar essa noite terrível.

- Vou dizer em gaélico: “Ta mo chroi istigh ionat, Ma­rion.” Isso significa “My heart is within you”. Meu coração está em você. É ainda mais que eu te amo.

A alvorada surge afinal, e é quase um alívio ter de vol­tar ao ferry. A casa que Brian fecha com um pobre cadea­do enferrujado recupera imediatamente seu estado de ruína, e o silêncio da morte recai sobre o povoado. O fai­são passa pelo caminho como se estivesse em casa, seguido de sua faisoa. Ninguém vai acender velas no povoado na próxima noite. Para assustar quem?

Quatro horas mais tarde, inclinada no peitoril do Quiberon, à medida que a costa quase risonha da Irlanda do Sul vai se apagando, Marion sente-se um pouco mais órfã a cada onda que passa. Não há palavra em francês para expressar a tristeza de perder um filho. Ela vê desaparecer no rastro do barco a criança, a menina, a mulher que o amor de Brian fez nascer dentro de si. E se dá conta com espanto de que não pensou na França durante dez dias, nem no texto que prometera escrever para a Historia, nem em seu apartamento parisiense, nem em Maurice e Amélie... Tinha vivido entre parênteses, e a existência que vai reencontrar amanhã lhe parece irreal.

Fique tranqüila, Marion: assim que puser os pés em Roscoff, amanhã ao amanhecer, será a parte irlandesa da sua vida que vai entrar nas brumas e que você vai olhar como uma dessas fotos sépia do passado, que nos fazem chorar, mas que sabemos que pertencem a um outro mundo.

Falo sem amarras, é verdade, porque como Moira ig­noro tudo do real. Nunca senti o peso de um homem, de uma criança, de um eu te amo. Só sei o que os poetas es­creveram. Eles me ensinaram tudo do pouco que entendo. É graças a eles, a alguns homens e, sobretudo, às mulheres, que às vezes, longe das cidades e das multidões, no rastro deixado pela alegria ou pelo desespero, em certos lugares citados do oceano, olhando fazerem amor quando é apenas amor, que pareço sentir, ou melhor, pressentir, «raves do vazio sideral, o que significa VIVER.



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