Carmem cacciacarro



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Marion e Maurice

Quando nos afastamos de barco de uma costa, de re­pente a vemos de forma diferente. As enseadas, os pro­montórios, as praias formam pouco a pouco um conjunto que não é soma de seus componentes.

A idade é também uma maneira de se afastar: come­çamos a perceber nossa vida como um todo que não é ne­cessariamente a justaposição dos acontecimentos que a constituíram. Cada fato repercutiu no seguinte, e o seguin­te modificou-o de volta, de modo que não distinguimos mais o ontem ou o amanhã, o começo ou o fim da nossa juventude, e sim um quadro global do qual se começa a extrair uma espécie de significação.

Quando era adolescente, eu me via tranqüilamente como moça, depois como mulher, mãe de algumas crian­ças, professora, depois autora de ensaios notáveis. Eu me paginava até mesmo morta com todo o rigor, numa idade avançada, conduzida à minha última morada por um cortejo de leitoras em lágrimas. Não ousava sonhar que eram leitores, pois conheci desde cedo a condescendência divertida, no melhor dos casos, que qualquer ambição intelectual feminina suscitava em meus contemporâneos anos 1960. Meus filhos descobririam, estupefatos, glória que não tinham pressentido. Um enterro como Sartre, só que menor em tudo. Nas suas exéquias, o povo Sartre tinha me perturbado tanto! Eu me contentaria com uma horda... com uma tribo...

- Mamãe contava com isso? — perguntariam em lágrimas minhas filhas e meu filho, minha descendência ideal, envergonhada por não ter visto nada daquilo en­quanto eu vivia.

Mas essa adolescência ao inverso, que me levaria à morte e à minha assunção sem passar pelo caminho das desgraças da velhice, ainda era uma noção abstrata, uma área não catalogada no mapa. Eu queria morrer bem ido­sa, mas sem envelhecer.

De modo que, à beira dos meus 60 anos, pela primei­ra vez não tenho mais idade precisa. Flutuo numa região mal definida por um tempo indeterminado, cinco ou dez anos no melhor dos casos, uma espécie de pré-velhice, assim como existe pré-aposentadoria, estado em que ainda podemos aspirar a tudo, mas também perder tudo num único instante.

Imagino que, dentro de vinte anos, ficaria orgulhosa de dizer "tenho 80 anos, você sabe", com um ar faceiro. Mas não há do que se gabar quando se tem 60 anos. É a idade do lifting que não confessamos, dos regimes absurdos para prevenir males ainda imaginários. É a idade em que a farsa se torna um reflexo de sobrevivência, até para si mesmo-graças a esse mínimo vital de má-fé que continuo convencida de que ainda sou plenamente senhora da minha vida, em suma, uma habitante normal desta Terra, que em nada se distingue dos outros. Esqueço que me vejo apenas de frente e, portanto, ignoro a metade das informações à meu respeito. Além do mais, freqüento a minha metade mais vantajosa, pois inclui o meu rosto, esta vitrine que arranjo a meu modo. Mas eu me deixaria cortar em pedacinhos antes de reconhecer que me modifico sub-repticiamente toda vez que me olho num espelho, esticando um pouco os olhos em direção às têmporas, erguendo um pouco a comissura dos lábios, instilando um pouco de sedução no olhar... todas as mulheres fazem as mesmas caretas e se parecem diante do espelho!

Vistos do promontório dos meus 20 anos, os 60 me pareciam pouco atraentes, é claro. Mas também tão im­prováveis, lá na outra ponta da vida, que a própria idéia de atingi-los nunca me ocorria. Os anos chegavam e par­tiam a galope, e até esse dia eu conseguia fingir que não notava nada de suspeito. Quando durmo bem, tenho certeza de que vou acordar como sempre, ou seja, nor­mal. E a normalidade é uma juventude que não especifi­ca sua idade. Até prova em contrário — por exemplo, um fulano que me cede o assento no ônibus, o cana­lha! —, eu me considero de ferro. E, apesar de algumas Pequenas traições da meia-idade, como a vanguarda das enfermidades ainda não se manifestou, mantenho firme o leme, bordeando o mal, sem aflorá-lo e sem ceder nada a ele, e Maurice e eu navegamos com os nossos amigos e os nossos próximos, controlando os recifes que se multi­plicam maldosamente à medida que nos aproximamos do rugir dos 60. Quanto aos nossos amigos adeptos do desespero, eles são cada vez mais numerosos hoje em dia e continuam a rastejar elegantemente em seu moroso de­leite, esperando, o mais tarde possível, para se suicidar ou... receber o prêmio Nobel, que nunca é concedido a alegres folgazões.

Mas começo a identificar uma falha no meu engenho­so mecanismo: Brian vai fazer 70 anos! Ora, o amante deve continuar AMANTE. Só um marido pode se permi­tir perder seus encantos (moderadamente). Ainda lhe restam vários outros trunfos: o cotidiano, tão criticado, mas que com Maurice, graças ao seu humor, serve de lia­me para a nossa vida a dois, o jornal comentado todas as manhãs e as indignações partilhadas, a liberdade de voar para Marrakesh ou para as Antilhas, se nos der vontade, sem ter que inventar um álibi...

No ativo de Brian, claro, o romantismo da paixão, a ausência de roupa de baixo suja, o milagre de reencon­trá-lo sempre ardente em cada encontro e a vantagem de não vê-lo se arquear um pouco, mas a cada dia, per­der um dente ou sofrer de hemorróidas. Em seu corpo grande, à Michelangelo, nada mudou verdadeiramente: sua ingenuidade, sua beleza, seu excesso de amor por mim, seus 40 anos de fidelidade à minha causa, seu jeito reincidente e juvenil de fazer amor. No passivo, uma única cifra: 70.

Por sua vez, Maurice tem "apenas" 64 anos! Um ve­lhote em minha vida, ainda passa, mas dois, já beira a overdose! Sobretudo quando os próprios amigos têm o desplante de também se tornarem velhotes, e até morrerem de tédio? Não dar tempo ao tempo, esse tempo que se sobrava, e que era tanto que podíamos desperdiçá-lo, mas que passou a ser um alimento perecível. Não dá ais para perder uma ocasião de rever Brian, nem que já só para tirá-lo dessa espiral de morte em que Peggy afunda e vai acabar por tragá-lo. Diversos pretextos têm nos separado há quase um ano: o acidente do seu lho, meu livro para terminar, a depressão de Maurice, em dúvida nada inocente. Aliás, acho que as depressões nunca são inocentes, por mais que sejam involuntárias. Compreenda quem quiser...

Eu me recrimino de ter deixado Brian virar setuagenário sozinho com o pretexto de não contrariar Maurice. O medo de magoar é feito em parte de covardia. Sempre me pergunto a que ponto o amor infinito de Brian e a sensação de viver com ele um amor mítico me permitiram apreciar a leveza de Maurice, seu gosto pela vida em todas as suas for­mas, que ele sabe partilhar tão bem, sua doçura, para não dizer langor, e ainda sua sorte. A partir de certa recorrência, a sorte não é mais um acaso, é uma qualidade.

Em certa medida, devemos a Brian nossa sobrevivên­cia como casal, e eu lhe agradeço por ter podido ser duas mulheres sem precisar sacrificar uma. A presença secreta de Séverine-Constance ameniza meus remorsos e me per­mite considerar indestrutível o elo que me une ao meu Tristão. Portanto, tomei a decisão de ir, nesta primavera, encontrá-lo em sua casa da Irlanda, onde sem dúvida pas­sei as horas mais intensas da minha existência.

Só quero dormir ao abrigo dos seus braços e fingi: que viveremos juntos e gozaremos juntos como nunca como sempre. "Lefs be married one more time", canta Leonard Cohen, que ouvimos desesperadamente É possível ouvir Cohen de outra forma? Quero justamente apertar nos meus braços esse homem que por tantos anos ficou emboscado num canto da minha vida, esperando apenas um sinal para vir partilhá-la, e reviver com ele todas as lindas escapadas que demos juntos ao longo dos anos, sem que nunca diminuíssem a intensidade do nosso desejo e a dor de cada adeus.

Falta avisar Maurice, que sempre finge cair das nuvens. É o preço a pagar pelo meu mau comportamento. Não obs­tante, toda semana ele vê chegar os longos envelopes de Brian, decorados com sua indecente caligrafia de autodidata; e a cada vez é preciso tornar a dizer-lhe que amo mais alguém além dele, e isto desde os tempos mais remotos e pela eterni­dade do tempo que nos resta. Ele vai me perguntar se Peggy está pior, como se ignorasse que Peggy é a garantia do meu amor pelo seu marido: do fundo da sua cadeira de doente, Peggy permite que Brian pense que é somente por causa dela que nós nunca pudemos viver juntos. Sentir-se indispensável para a sobrevivência de Peggy atenua sua culpa de marido infiel e de católico irlandês, para quem muito prazer furtado da vida cheira necessariamente a pecado.

Amanhã é justamente o aniversário de Maurice, o que vai me permitir abordar a questão sempre espinhosa das minhas viagens à Irlanda. Nós sempre comemoramos em um desses restaurantes com mesa à luz de velas, propícios às confidên­cias que não sabemos mais trocar na vida cotidiana.

Gostamos de pensar que os laços se aprofundam ao longo de uma vida em comum. Os laços, sem duvida, mas não o conhecimento do outro. O hábito pouco a pouco cristaliza a comunicação, e a capacidade de surpreender se atrofia. E depois, um dia batemos numa pa­rede de vidro que se tornou opaca pelas mentiras e os não-ditos acumulados, pelas grandes e pequenas trai­ções, pelos desleixos já insolúveis com ternura e, por fim, no núcleo impenetrável de cada um. É por isso que precisamos de um ambiente luxuoso e refinado, com a boa mesa nos reconciliando, proveitosamente, desde que a carne se tornou triste entre nós, mais exatamente desde a ruptura com Tânia. Um rompimento às vezes não resol­ve nada. Maurice sentiu-se envergonhado e, pela primei­ra vez na vida, atônito por ter deixado duas mulheres infelizes quando planejava satisfazer uma delas e admi­nistrar a outra. Nesse campo, as manobras mais enge­nhosas são também as mais desastrosas.

Ficamos juntos, é verdade, mas como dois estropia­dos. Refizemos os gestos de amor, mas o amor não quis acontecer. E sua ausência foi ainda menos tolerável que a mágoa ou o ciúme. Sob a minha boca, a pele de Mau­rice não tinha mais o gosto de ervas frescas; os cachos da sua nuca não passavam de fios longos demais e já não atraíam os meus dedos. À noite, eu vivia como um berne, colada às costas de Maurice. Ele estava resignado e se comportava como uma rocha. Unir-me novamente a ele me parecia impraticável, quase obsceno, mais im­pensável do que se eu nunca o tivesse conhecido, nem amado, nem feito um ou dois filhos em sua companhia, com tanta alegria...

Como expressar uma repulsa dessas ao outro?

Maurice sempre se mostrou mais sensível aos desejos das mulheres do que ao seu próprio. Gostava de ser con­quistado, sempre se recusava a travar a batalha. Eu gostava desse lado feminino. Eu o havia apanhado a laço, no pas­sado, e ele se deixara capturar com prazer. Hoje seria pre­ciso empregar violência para derrubar essa parede entre nós, que não foi feita com os nossos desacordos, mas nos petrifica. Estávamos de acordo até mesmo em relação a Tânia, e eu me contive para não chamá-la para discutir­mos nós três essa longa guerra da qual todos saíram ven­cidos. É verdade que fiquei com Maurice, o que poderia parecer uma vitória. Mas existem vitórias perdidas. Será que todos os casais antigos vivem sobre as camadas suces­sivas das suas falhas e dos seus fracassos, prisioneiros de comportamentos cristalizados?

Bem ou mal, tínhamos retomado nossa velocidade de cruzeiro, conseguindo em geral ser felizes graças ao nosso velho hábito da felicidade. Só que agora nada era intenso entre nós. E estar desvitalizado aos 60 anos é um insulto à beleza do mundo. E também um perigo mortal: temos poucas chances de nos reanimar aos 70 anos!

Pois Maurice andava pelos seus 65, mas estava, como se diz, na corda bamba, porque não me parecia apto para en­velhecer bem.

Sua graça natural, seu desembaraço e seus vários dons lhe permitiram levar várias vidas com igual sucesso. Nessa noite ele estava comemorando mais o fim dos seus 64 anos do que a chegada do próximo. Estávamos frente a frente, num desses restaurantes revoltantes onde o cardápio da mulher não traz o preço dos pratos; dessa vez Maurice pa­ecia resignado a expor alguns fiapos de verdade sobre o seu segredo, que para mim era ainda menos explícito o cardápio do restaurante. Como acontece com as margens de um rio que se afasta, eu só sabia que NÓS não era mais a simples adição de VOCÊ e EU, e que VOCÊ e EU não se pareciam mais com aquelas pessoas que se ca­saram trinta anos antes. Como os casais que navegaram muito, começamos a evocar com mais naturalidade o nos­so passado do que esse futuro não mapeado onde sopram ventos desconhecidos.

- Tive um bloqueio naquele momento da minha vida — dizia o marido.

No momento em que eu tinha o caminho livre..., pen­sou a mulher. Estava descobrindo o Donegal com Brian na­quele verão...

- E você nem percebeu — acrescentava o marido diante do silêncio da mulher.



Era só o que me faltava, pensou a mulher, cair no abis­mo justo com você.

- Eu me recusava a perceber — diz ela — porque não tinha a intenção de fazer o esforço que você desejava.

- Qual?

- Ora: romper com Brian, por exemplo, e de alguma forma voltar a me apaixonar por você... O desejo de todos os maridos quando se vêem entre duas... relações exteriores!



Primeiro, pare de falar "Bruaiam" com esse beicinho. Como você queria que eu dissesse? — pergunta a mulher — Maurice II?

- Não tenho culpa de me chamar Maurice — diz Maurice.

- Eu já sugeri várias vezes chamar você de Rismo. Invertendo as sílabas, como está na moda! Rismo é bonito não acha?

- Se eu também fosse irlandês, meu nome seria Mor­ris, o que muda tudo! Por falar nisso, qual a idade do irlandês agora? Desculpe, mas o nome dele me arranha a boca...

- Basta dizer Brriã. Gosto mais assim do que com esse beicinho que você também faz quando tenta falar inglês.

- Marion, prove este foie gras quente ao molho de uva. Está maravilhoso, veja. E este vinho Vosne-romanée é sublime. Houve um tempo em que você só rezava pela cartilha do Sénéclauze, lembra?

Seu olhar se enternece. Ele adora que eu tenha lacunas.

- Aliás, ainda tenho um fraco pelos vinhos da Argé­lia. Eram os vinhos do nosso começo, que eu comprava no Félix Potin, em frente à nossa casa. Nosso começo também era sublime: eu só rezava pela sua cartilha, lembra?

- Hoje vejo a diferença — diz Maurice sobriamente.

- Receio que tenha sido difícil para você, naquela época... De repente uma mulher instalada na sua casa com seu amor enorme...

- E eu receio ter dado a impressão de uma insusten­tável leveza...

- Mas continuamos assim, meu querido. No fundo, tínhamos muitas razões para nos sentirmos mal. Eu me per­gunto se não é este o segredo dos casais que perduram, essa parte incompreensível — incompressível, poderíamos dizer — no outro; sempre existe a esperança de compreender um dia! Quando vi você pela primeira vez, lembro de ter pensado: "Definitivamente, não é este! É um reles sedutor!

- Por que reles?

- Porque na juventude a sedução não me parecia... como dizer... um comportamento digno! Aliás, você não e conquistou pelo seu charme, mas pela poesia. Todos aqueles versos que você sabia de cor, e sua voz aos murmú­rios, um pouco à Jacques Douai. E depois, seu fascínio elo mar, que se juntava com o meu. No mar, com você, eu e sentia tranqüila: ninguém iria me substituir!

- É o que se chama formar uma equipe, minha querida. Aliás, foi no mar que abracei você pela primeira vez.

- E sempre vou me lembrar dos primeiros versos que me disse naquele dia:


Quando ninguém o vê

O mar não é mais o mar.

É o mesmo que nós somos

Longe de outro olhar.
É genial porque faz sonhar. Este é o critério da verdadeira poesia, acho. Eu praticamente não conhecia Super-elle naquela época.

- Faz parte da minha panóplia de reles sedutor, com guns outros.

Justamente, e você ainda faz uso dela, tenho certeza. Gostaria que me contasse umas coisinhas a esse respeito - Parece que o Vosne-romanée estimula as confissões. É sobre La Büche, que vimos ontem...

- Ah, sim, você achou que eu me parecia com o Sébastien do filme. Aceito a comparação: o Claude Rich é muito charmoso! Um sedutor...

- Mas não reles... Um sedutor ingênuo, sem um grama de perversidade! Tive uma idéia: podíamos repro­duzir a cena entre Claude Rich e Françoise Fabian em que ele revela todas as amigas da mulher com quem dormiu em trinta anos. Eu também sempre quis saber de quem deveria suspeitar... Então trouxe esta noite algumas agen­das e vou sugerir os nomes. E você ainda tem sorte: destruí todas as cadernetas do início. De qualquer forma, naquele tempo eu não enxergava nada. Eu era boba demais.

- Você era muito mais feliz assim, minha pombinha.

- Então, era para o meu bem! É verdade que funcio­nou durante vários anos... Uma mulher crédula e não muito esperta no amor, que presente para um cara!

- Ambos éramos felizes, confesse...

- Os três, você quer dizer? E com tantas afinidades!

- Olhe, parece que ainda vou ser acusado. Você me ama menos que antes, eu sei, e talvez isto seja até bem me­recido, mas mesmo assim continua ciumenta.

- Se quiser pensar desse jeito. Digamos, em vez dis­so, que sou menos cega.

Nesse momento, um silêncio necessário para os "humm" extasiados diante da caçarola de cogumelos com moleja de vitela flambada ao armanhaque. Ao lado, um casal e sua fi­lha "encalhada", como dizia cruelmente minha mãe quando eu era jovem, dessas que não tinham casado na flor da idade nem que fosse com um velhote sinistro. O que eu poderia fazer para não "ficar encalhada"? Essa questão tinha me atormentado durante tanto tempo!

Em outra mesa, um casal ilegítimo, de idade madura, que visivelmente só espera o momento de encontrar uma ma Sob a mesa, o belo homem de cabeça branca aperta s joelhos da parceira, e a dama, iluminada de prazer, acá­cia o rosto amado com seus belos e velhos olhos azuis.

- Vinte anos atrás — comenta Maurice — acho que pessoas mais velhas não ousariam se exibir assim num restaurante.

- Não se tinha o direito de ser ao mesmo tempo velho e incorreto em público... antes de 1968, digamos. Você virava imediatamente um velho sujo. Nunca se fala em jovem sujo...

- A liberação dos costumes só atingia os jovens, felizmente.

- Por falar em velhos, já contei que os meus pais voltaram do cruzeiro ao Vietnã? E não muito satisfeitos, parece.

- Péssima idéia, essa viagem; Adrien jamais iria gos­tar de ser submetido a uma viagem organizada.

- Sim, mas o que você quer que eles façam? Não es­tão mais em condições de velejar com Xavier. Não têm uma casa verdadeiramente deles; então, faz sentido irem os dois a um hotel em Guadalupe? Não seria nada diverti­do para Alice. Papai não está bem, você sabe...

- Marion, o problema não é Guadalupe ou o Vietnã. O problema é que eles têm 80 anos! Onde quer que seja! E os amigos deles também! Se já não morreram. Antes, Alice ainda tinha a irmã, mas agora Nina está sobrecarregada com o Parkinson do Victor. A partir de uma certa idade, não se adoece mais sozinho num casal!

- É assustador o que você diz, Maurice, vamos falar de coisas mais alegres. Olhe, vou pegar uma agenda ao acaso.

- Acho muito indelicado em relação às suas amigas. Não posso entregar todos esses nomes de bandeja.

- Ah, por quê? São tantos assim? Confesse...

- Você corre o perigo de não ter mais ninguém sua agenda, minha pobre querida...

- Se eu fosse me indispor com todas as mulheres que você bolinou... Mas, pensando bem, prefiro ter a lista das suas amantes que a lista dos nossos amigos mortos. Já re­parou como isso começou a acontecer há algum tempo, quando atualizamos a agenda no fim do ano? O costume é jogá-la no fogo, assim como a metade das pessoas que estavam nela! Vamos, Maurice. Diga a verdade, só desta vez: Ginette Boulier, por exemplo?

Rismo ergue os olhos para o céu.

- Está bem, ela pesa oitenta e cinco quilos! Mas, e Michèle Bouvreuil? E Andrée Chausson? E Christiane Dedieu? Essa aí eu já sei. E a irmã dela, Colette?

- Sozinha nunca: as duas juntas, em sanduíche.

- Muito engraçado. Sinto que a minha pesquisa co­meçou mal. Há uma que eu gostaria mesmo de saber... se ela teve o topete de masturbar você embaixo do meu na­riz: vou passar para a letra G. Você já sabe de quem vou falar, evidentemente...

- Com "G", me ocorrem três possíveis.

- Bem, como sempre, você é um monstro de presun­ção e hipocrisia. Em poucas palavras, como disse Reiser na CharlieHebdo:"Todas são vadias, exceto mamãe..."

- E você, em que categoria se enquadra, meu anjo?

- Felizmente não me tornei nenhuma santa; teria morrido no martírio!

- Você é a Mulher do Grande Amor, concordo. Só que tem vários. Nada é fácil, não é?

- Sobretudo quando você tenta inverter a situação!

Esta é a minha vez...

Rismo consulta o cardápio de doces na esperança de escapar às areias movediças dos sentimentos por onde se aventura em raras ocasiões.

- Falando de grande amor, faz tempo que você não vê o pobre Bruaian? A mulher dele piorou?

- Não, está na mesma. Do jeito que se pode estar com uma esclerose lateral amiotrófica. Evolutiva, claro. E evoluir nunca quer dizer regredir, com essa porcaria.

- O nome dessa doença já é uma porcaria.

- Ela vai passar um período num instituto especiali­zado como faz todo ano, um tipo de talassoterapia. Por isso Brian me convidou para passar dez dias com ele na casa que tem em Kerry, em abril. Acho que vou. Você me disse que em abril quer navegar com Xavier para as Gre­nadines. E sabe que eu não gosto de estar a bordo quando ele leva clientes. Você controla o leme, navega..., mas eu, vocês esquecem que eu também sei navegar e manter o rumo ou içar uma vela, e acabo ficando no papel de boa esposa, coisa que já faço em Paris... É menos chocante...

- Menos excitante do que estar nos braços de Brian, principalmente, não fique procurando desculpas.

- Não estou procurando desculpas, não há necessi­dade. Mas você deve imaginar como ele leva uma vida di­fícil há muitos anos, com essa doença que todo mundo sabe que é incurável.

- Eu também levo uma vida difícil, em certos aspectos.

- Não vamos exagerar... Quando estou com você estou com você, não há dúvida a respeito. E isto é a maior parte da vida! Temos as crianças, amigos comuns, u vida em comum... Somos nós o casal!

- E a Peggy, aliás, o que ela acha disso?

- Sabe muito bem o que se passa, desde o início. El não sabe mentir, coitado.

- Eu também não: não minto, só omito — diz Maurice, esboçando uma elegante espiral com a mão.

- E me pergunto se não é pior. Veja o caso da Tânia. Se eu soubesse mais cedo, não teria me consumido tentan­do negar a evidência, bancar a corajosa, esperar que aquele seu ataque de loucura passasse, abrindo mão da grossura, que acharia de extrema vulgaridade, mas... " É ela ou eu. Escolha" Resultado: três feridos graves. Poderíamos ter sido três sobreviventes. Após algumas contusões, concordo... Mas você também poderia ter sido feliz com Tânia, tenho certeza. É uma boa moça. Sinto falta dela. Como amiga quero dizer. Quanto a mim, bem, eu acabaria me curando se fosse o caso. Sofreria porque amo você, meu amor, apesar das aparências, mas você me conhece. Não tenho vocação para a tristeza.

- Não fale bobagens. Nunca imaginei que pudesse viver sem você. Nunca. Em instante algum. Você acredita em mim, pelo menos?

- Seja como for, Tânia esperava isso. Algumas vezes me ocorreu violar suas cartas, eu sei. Imagino que lá você também omitia.

Esboço, por minha vez, uma espiral que quase derruba meu copo de néctar. Não sei mentir. Nem omitir.

- Você queria viver comigo, Maurice, mas fazer amor com a pessoa que se ama faz parte de viver com ela, não acha?

Sim — responde Rismo tristemente. — Não en­tendo o que aconteceu conosco. Sem dúvida, é preciso tempo para perdoar o outro pelo mal que ele nos fez.

- E eu, que me esforcei tanto para não ser a chata nesse ménage à trois, para deixar que nossos sentimentos evoluíssem, sem ultimato, pois bem: agora culpo você. É engraçado! Perdemos em todas as frentes, então?

- Tudo o que posso dizer é: ainda te amo, você sabe, eu-te-amo, cantarola ele, com sua voz emocionada, segu­rando minha mão com ternura. Esse distanciamento vem muito de você, não acha?

- Talvez, mas ainda te amo não é o mesmo que eu te amo... não acha?

- São palavras da canção de Brel, não minhas. Não sei como você vê isso, mas acho antinatural que nós não tenhamos mais relações... digamos, sexuais, quando te­mos relações... digamos,amorosas.

- Anormal, não sei. Acho, sobretudo, triste estar ao seu lado, e você feito uma pedra, todo encarquilhado... e nenhum dos dois faz nada, como se tivéssemos medo.

- Mas nós TEMOS medo. O sexo é tão caprichoso e ...volátil, eu diria... Por que deixamos de desejar com o corpo quando desejamos com a cabeça?

Vasto problema, como diria De Gaulle!

Marion, você deveria pedir um café irlandês. Tenho certeza de que fazem corretamente aqui. Sem cere-la em cima e sem canudo. Adoro quando você bebe: isso a humaniza!

- Acha que sou dura? Eu sempre me censuro por s molenga, com os homens, com nossos filhos... com me alunos, quando eu ensinava.

- Dura não é a palavra. Você é até muito meiga m no fundo, é como uma rocha. Isso dá medo, às vezes. Veja só, eu nunca vou esquecer da primeira vez que fizemos amor: foi em Vars, praticando esportes de inverno. Depois a encontrei com lágrimas nos olhos, e isso me perturbou por vir justamente de você.

- Eu estava descobrindo... não diria o orgasmo porque já tivera um ou outro. Mas qualquer coisa muito menos episódica, uma coisa como uma fonte de todas minhas geleiras. Dessa vez não estava refugiada em mi mesma. Eu me sentia completamente misturada a voe como se as nossas fronteiras de homem e mulher tivesse se apagado... Não éramos mais o senhor Fulano e a senhora Beltrano trepando... o que nos acontecia era a coisa mais bonita do mundo. Uma coisa emocionante! D chorar... Foi isso!

- Como fizemos para perder o jeito?

- Sabe, converso sobre isso com minhas amigas o nos grupos de mulheres que freqüento às vezes. Os homens não gostam de abordar essas questões. Mas é um loucura o que se vê de casais casados há vinte anos, o mesmo há bem menos tempo, que quase não fazem mais amor. Ou não fazem nunca! Não se sabe por que as pessoas mentem sobre isso. Você viu outro dia aquela pesquisa sobre os casais japoneses... Ela mostra que 40% dos japoneses casados, passados os primeiros anos, não têm mais relações sexuais!

Mas tinham, antes?

- Isso eles não dizem, mas se dissessem, mentiriam!

Na verdade, não sabemos NADA sobre a vida sexual dos outros. Em geral, não entendemos nem a nossa!

- Isso não foi feito para ser entendido. Felizmente.

- Tem razão, e é justamente o que me dá medo. Será que nunca entendi você? Eu me pergunto se você foi verda­deiramente feliz. Eu muitas vezes me sinto muito feliz. E pensar que você me pareceu um cara tão alegre no início. Estava enganada. Aquilo era humor, o contrário da alegria. Você ama as coisas da vida, não a vida. Adora sofisticação, brincadeiras, gozação, mas isso faz parte do embate amo­roso. No dia-a-dia, você é distante, reservado, quase frio. Por exemplo, nunca me abraça na rua. Nunca passeamos de mãos dadas. Aliás, que horror, eu detestaria! A gente co­meça a transpirar, mas não se atreve a largar o outro. Você não me abraça com freqüência, por nada, num impulso de ternura... Nunca solta uma gargalhada, você zomba.

- É meu aniversário, mas decididamente esta noite não é minha festa. Você sabe que detesto falar de mim, e detesto mais ainda que outros falem.

- E uma proeza viver com um cavalheiro nestas condi­ções, você há de admitir. Meu homem, esse desconhecido!

- Diga então: o que você vai me dar de aniversário este ano, além do anúncio da sua viagem para a Irlanda?

- Uma árvore.

- O quê?

Já mandei para a estufa, em Kerdruc. Pretendo plan­te-la no Dia de Todos os Santos. É uma cerejeira autumnalis. Ela floresce no inverno. Não é maravilhoso?

Maurice se diverte silenciosamente, à sua maneira.

- Você tem o dom de sempre me dar presentes q lhe agradam!

- Talvez porque você não os dê, meu querido! Mas sempre reclama de que não há flores na Bretanha entre a última rosa e a primeira camélia. Agora vai ter flores brancas em janeiro bem em frente ao escritório! Mas fi­que tranqüilo, há mais uma coisa à sua espera em casa; Amélie e Séverine escolheram comigo. Gostamos de você em cores um pouco mais vivas. É um blusão vermelho-escuro, de couro e lã, num estilo bem britânico, você vai ver. Com uma calça cinza e seus cabelos grisalhos, ficará very sexy indeed! Se eu fosse mais lógica, teria comprado um belo casacão tipo duffle-coat, como há vinte anos. Fi­caria mais tranqüila...

- Você sabe muito bem que eu não o usaria nunca! Eu me compraria um sobretudo de caxemira furta-cor, como o que estava usando quando nos conhecemos e que você detestava, lembra?

- Você tinha um jeito de dandy do pior tipo, com ca­chos brilhantes de gomalina e um ar presunçoso... um hor­ror ! Parecia o Henri Garât! Mamãe me preveniu: você nunca vai combinar com um homem assim! E, dois meses mais tarde, eu me apaixonava por você! O amor é monstruoso!

- Sim, meu amor, também acho! E temos boas ra­zões para isso. Venha, esta noite vou abraçar você na volta para casa. Veja só, tudo pode acontecer...


XI

Contra as crianças
Isto vai se chamar simplesmente: "Contra as crianças". E, se possível, será publicado pela Denoèl, na série "Con­tra a plebe", "Contra o casamento", "Contra o amor" ou "Contra a juventude", que fez um certo sucesso nos últi­mos anos. Mas o meu panfleto será muito mal recebido, pois na nossa sociedade não se pode falar mal nem de crianças nem de cachorros. E até um artigo humorístico sobre esse tema foi recusado pela Nous, les Femmes. Não ser boa mãe, ainda passa: encontramos desculpas para isso, e um "psi" vem explicar doutamente a ambigüidade dos sentimentos maternais. Em contrapartida, ser uma avó malvada é imperdoável, e para uma bisavó, já é monstruoso. Mas já escrevi tantos artigos bem-pensantes na vida para tantas revistas femininas, que agora sinto urgência em escrever o que realmente penso, com a idade. Uma Minou Drouet ao contrário...

Uma semana de convivência entre duas avós liberadas, modernas e que se julgam inteligentes e seus dois pequenos descendentes me deixa na verdade consternada.

Uma das tristezas da idade é perceber que as piores tradições, os preconceitos mais revoltantes, os compor­tamentos mais condenáveis e que foram brilhantemente condenados há trinta anos por sociólogos e psicólogos de todas as orientações, sobrevivem imperturbavelmen­te apesar de tudo.

Arrombamos um cantinho da fortaleza, é verdade, mas ela continua em pé, desesperante, desafiando os sécu­los e as revoluções. A luta da minha geração (poderia dizer a utopia?), que grosso modo cobriu o século XX, era a igual­dade dos sexos, e eu considerava profundos e irreversíveis e indiscutíveis todos os nossos avanços sociais, morais e políticos que, ao menos no Ocidente, pareciam ter trans­formado, pela primeira vez no mundo, a vida das mulhe­res, as relações entre homens e mulheres, e até mesmo as relações sexuais. Pobre Alice!

Todas as utopias dos séculos passados afundaram. Em sua maioria, no horror. E nenhuma das religiões resolveu o menor problema humano ou superou qualquer injusti­ça, muito pelo contrário, por mais que a princípio todas fossem generosas e portadoras de tanta esperança.

De modo geral, é na vida cotidiana que constatamos mais claramente o fracasso das grandes teorias. Fico de­sesperada ao ver ressurgir nos garotos de 7 ou 8 anos os esquemas mais ultrapassados de relações homem/mulher. Quer dizer que tudo está perdido? Eu me recuso a admi­tir. Mas o segundo milênio está por terminar e eis que, entre dois pequenos exemplares que viverão no terceiro milênio, Valentin, meu bisneto, e Zoé, a neta de Hélène, os papéis já estão distribuídos segundo as velhas receitas, como se os nossos belos discursos não tivessem deixado qualquer marca.

Sim, de fato, alguma coisa mudou, mas para pior: nos­sos filhos e, como se não bastasse, nossos netos agora são nossos iguais, para não dizer nossos amos! Eles conserva­ram o pior de 1968: a insolência, a falta de consideração com os poderes estabelecidos, a violência e a auto-satisfação. Mas a esperança é incansável, e remonta, como as on­das do mar, investindo contra os mesmos rochedos. E, ao contrário das aparências, um dia os rochedos terão que ceder. Um dia... Se eu não acreditasse nisso, a vida não valeria a pena ser vivida.

Enquanto isso, minha irmã e eu, cheias de esperança e de boas intenções, nos preparamos para viver uma sema­na de avós modelo com os dois pequenos seres que nos foram confiados. Vamos fazer batata frita todos os dias; jogar Batalha Naval, perdendo todas as partidas menos duas ou três, para manter a credibilidade; sentar-nos no Poney-Club com muitas outras mães e avós muito ente­diadas (nenhum pai nesses lugares, eles não são nada bo­bos!); de noite, nos revezaríamos para ler A gata-borralheira ou o Pequeno polegar, imitando a voz do ogro e esperando adormecê-los antes do enésimo conto de Perrault; e, por fim, comeríamos corajosamente os crumbles e fondants de chocolate ou o que houvesse resultado deles após diversos fracassos, quedas, recipientes quebrados, cozimentos pró­ximos à incineração e, sobre os ladrilhos, amostras pega­josas de cada um dos ingredientes utilizados.

Estava feliz por me reencontrar com Hélène. Eu a via definhar desde que fora para Saint-John-Perse com Victor.

Ela não tinha escolhido o sacerdócio como assistente d marido médico, sem carteira assinada, sem recolher ne­nhuma contribuição, desconhecida no mundo do trabalho. E ainda se viu aposentada prematuramente em razã da doença de Victor. Ela até que tentou retomar seus pincéis, mas o que fora uma vocação aos 20 anos agora pareci um passatempo de velha senhora. Victor não se incomodava, e até a encorajava gentilmente. Mau sinal. O único favo que ele poderia lhe fazer seria ter um bom enfarte. Ele s cuidava bem. Eu esperava ao menos fazê-la rir. Só que teve uma irmã pode saber o que são esses risos loucos que começaram na infância e se prolongam para além do razoável. Quando se anunciava um acesso, por motivos sempre inexplicáveis, nossos maridos ficavam assombrados, observando essas duas senhoras mais que maduras sacudida por ataques de riso irrefreáveis, misturados com lágrima que não conseguiam reter. Um olhar bastava para começarem tudo outra vez, até pararem eufóricas e exaustas com se tivessem corrido uma maratona.

Eu também me sentia feliz por estar em Kerdruc, n pequena cabana de Marion, com os pés na água e a mar roçando a mureta do jardim, sonhando em possuir u pedaço de terra bretã só meu. No abrigo que outrora ser vira ao porco, Marion e Maurice nos prepararam um pequeno refúgio para duas pessoas, onde vínhamos sempre fora de temporada, respirar o iodo e o odor das algas.

Não consegui comprar um único arpento de terra na Bretanha porque na minha infância e juventude, entre 1915 e 1940, era o tempo das "tias Jeanne" e dos avós que possuíam propriedades familiares e virtudes domésticas correspondentes. Elas achavam normal e inerente à sua condição reunir filhos e netos, todo ano, para as férias pequenas e grandes, que duravam três meses naqueles tempos benignos.

Ninguém ainda pensava em Djerba, Corfu ou no Club Med. As férias consistiam em voltar todo ano aos mesmos lugares, reencontrar o mesmo bando de amigos e ali cres­cer sob a autoridade de uma avó com uma fita preta em volta do pescoço que nunca ia à praia e de um avô ríspido que não ousávamos chamar de vovô.

Brincávamos entre primos, com tias e tios tranqüiliza­dores, que continuavam os mesmos ao longo dos anos, por­que antes da guerra raramente alguém se divorciava, com jogos que também continuavam os mesmos — croquet, crapô ou bolinhas de gude — nas alamedas cuidadosamen­te bordeadas de arbustos, ou mesmo tênis, nas famílias mais abastadas que mantinham uma quadra no jardim, onde as crianças "rolavam" à noite depois que chovia.

Nas praias, cada família possuía sua cabine, em geral de cor cinza, antro de adolescentes à espreita do primeiro beijo de língua, recebido com repulsa concupiscente, e re­fúgio de meninas que se despiam observando com horror o primeiro pêlo ou a pinta que surgia no mamilo e que era preciso disfarçar dos meninos como a peste.

A derrota de 1940 e a longa Ocupação, com proibição de acesso ao litoral, viram desaparecer as cabines de banho, as mansões, as avós devotadas, os "bons filhos" e as "meninas modelo", inspirados na condessa de Ségur, nas­cida Rostopchine. Hoje as mulheres trabalham, mesmo as avós, e as famílias se dispersaram como um saco de bolas que se atira ao chão. Exatamente como quando os filhos de Hélène e os meus se encontravam no Natal. Eu gostava de Victor, e era recíproco. Ele não tinha grande estima por Adrien, nem por Xavier, a quem reprovava p0r não ter uma "profissão de verdade". Seus dois filhos ti­nham feito o seu curso de Direito. Ele gostava de monta­nha e escalada; nós, de mar e barco. Quanto a Hélène, era difícil saber o que ela escolheria fazer na vida se tivesse sido consultada... Mas nós duas conservávamos a nostal­gia da nossa infância em Concarnois e adoraríamos rever a "nossa" Villa Ty Bugalé, mesmo que transformada em hotel e amputada do seu jardim em benefício de um con­domínio de seis andares com terraços triangulares, e mais ainda reencontrar cada rochedo da praia denominada "das Damas", por que era reservada para os habitantes das mo­radias e desaconselhada aos sardinheiros de tamancos das fábricas vizinhas. Nessa praia eu às vezes ainda pescava hi­pocampos, nos anos 1920, quando queria me tornar zoo­logista como meu avô Deyrolle, sem me dar conta de que eu era uma menina e que seria encaminhada para estudos mais femininos, como Letras ou História da Arte...

Se fizesse tempo bom, iríamos à praia logo no primeiro dia. Se o céu estivesse cinza como um menir, poderíamos ver as rochas de Carnac! Parece que Jean-Jacques Aillagon, ministro da Cultura, teve o tino de impedir a "moderniza­ção do sítio". A reforma previa o gradeamento dos megáli' tos, a fim de protegê-los das inconveniências dos turistas, e a passagem obrigatória por uma alameda de lojas onde guias fantasiados de druidas explicariam aos milhões de visitantes anuais que esse espetáculo atrai... como esses menires foram erguidos há três mil anos, o que justamente é inexplicável. Uma comissão de especialistas já havia en­contrado um nome para esse novo "espaço cultural": Menhir Land! Adeus mistério celta! Daí a acreditar que Walt Disney em pessoa tenha concebido esse parque de atrações, daí a espalhar alguns Mickeys entre os seiscentos menires para que as crianças se sintam à vontade...

Felizmente esse projeto era muito custoso.

E depois, no primeiro dia fez um tempo magnífico, e a opção número 1 se aplicava: a beira-mar.

A magia das praias se deve ao fato que encontramos sempre ali um gosto de eternidade. Na areia, no doce fschsch das ondas, regredimos voluptuosamente, sentindo-nos li­gados às primeiras criaturas que saíram da água para viver em terra firme. A região da Finisterra, com seu nome míti­co, é rica nessas praias, e para nosso primeiro dia eu escolhi uma enseada, deserta como deve ser uma enseada. Apenas algumas laminárias escuras luziam ao sol, esperando a un­ção da próxima onda. A areia, cor de nada, dourava-se no côncavo dos rochedos e, no alto da falésia, urzais e juncos anões cobriam o matagal com um tapete amarelo e violeta. "Estamos muito perto do aeroporto de Lann Bihoué, que em bretão significa terra dos juncos", explicamos, preocu­padas em instruir a nossa prole.

Assim que descemos até a praia estreita, montamos o acampamento, arrumando os baldes plásticos de um verde ímpio, enfeitados com focas laranja, regadores combinando, forminhas em forma de caranguejos, o ancinho que faz parte do conjunto e nunca é usado, pás e raquetes de praia.

Numa pedra acolhedora, maios para troca, saídas de banho, pulôveres, porque é sempre bom levar um agasalho na Bretanha e, à sombra, bananas, bolachas de Pont-Aven Traou Mad (isto quer dizer "coisas boas" em bretão, explicamos preocupadas em instruir etc.). "Como somos chatas com eles", cochicha Hélène, que tem razão, mas gosta de estar errada. Sem esquecer as caixinhas de morango com canudinhos incorporados.

Por fim, após untarmos os ombros dos nossos anji­nhos com creme de alta proteção, nós nos besuntamos mutuamente com o delicioso óleo de Chaldée que nos deixa irisadas como madrepérolas. E podemos folhear as várias revistas idiotas e tanto quanto possível desejáveis que não nos permitimos comprar no resto do ano, en­quanto nossos anjinhos fazem esculturas de areia à nossa volta. Parece o paraíso. Zoé, "porque tem um menino", exigiu que levássemos o seu biquíni rosa-choque. Sua ca­beleira, com reflexos acobreados, cai à taitiana sobre seu corpo curvilíneo. Valentin fixou os cabelos para parecer com seu ídolo, Di Caprio, mas a meu ver lembrava mais um extraterrestre, o que me abstive de dizer.

Infelizmente, o encanto dos castelos de areia acaba de­pressa e torna-se bem mais divertido estudar os efeitos da gravidade jogando punhados de areia para o ar, com o ven­to em nossa direção, claro. Na terceira leva, largamos nos­sas leituras e nos descobrimos, da cabeça aos pés, cravejadas de grãos de areia que se associam com o óleo de Chaldée para transformar nossa pele em lixa de papel. Rápido, lim­par-se com a toalha de banho branca com conchinhas azuis, presente de Hélène e último modelo Olivier Desformaculando-a de manchas indeléveis. E, na nossa idade, nem se podia pensar em entrar no mar: ele não passa dos 15°C!

- Brinquem um pouco mais longe, há muito lugar, por que ficam colados na gente? — gritamos, variante inevitável de "Onde vocês se meteram? Não fiquem longe, o mar é perigoso, queremos saber onde vocês estão".

Uma hora mais tarde, já informadas das peripécias sentimentais de Delon e Michel Sardou ou do eczema gi­gante da locutora da TV2, prometemos mais uma vez que nunca mais nos deixaríamos enganar pelos títulos dramá­ticos desse gênero de imprensa. Conversa fiada. Uma tare­fa nos chama agora: andar com os pés na água. Parece coisa de velho, concordo, mas afinal estamos sozinhas nes­ta praia e isso faz a linfa circular, lixando a calosidade plantar; e, se encolhermos a barriga e esticarmos o pesco­ço endireitando a coluna vertebral, substitui uma tediosa sessão de ginástica corretiva. Pois há muito o que corrigir. Pensando bem, somos um insulto à perfeição do universo, e nunca mais esta setuagenária que eu sou vai conseguir caminhar como uma Vénus entre as ondas. Contemplo, comovida, a beleza dos nossos pequenos elfos, que pare­cem ter nascido ontem.

A praia virou um acampamento de ciganos: um pé de meia flutua numa poça; a outra foi para o mar. Uma pá foi arrastada pela maré, e Zoé e Valentin lutam pela posse da outra, que cada um reconhece indubitavelmente como sua, embora as tenhamos comprado idênticas para evitar qualquer tipo de querela! Ambos vestiram os agasalhos, mas entraram na água com eles e agora disputam a segunda banana, já que a primeira caiu na areia assim que foi descascada. Os gritos estridentes, piores que os de gaivo ou de ratos parindo, conseguem sobrepujar as vagas atlá ticas. Recorremos à estratégia de praia número 3: construir um forte. Que criança nunca quis enfrentar as ondas; Mas com uma pá minúscula e três forminhas, só erigimos um vago montinho, que se dilui na terceira marola.

- Papai faz castelos enormes, com torres e fossos e volta, e até uma ponte levadiça — solta o energúmeno.

- Amanhã vamos comprar verdadeiras pás de met e vocês vão ver: o mar não conseguirá avançar!

Para completar o desencanto, surge da falésia um gru po de invasores muito mais bem equipado, trazendo ur, cão de guarda saltitante, apesar de estropiado, cadeiras d pano, guarda-sol, recém-nascido num carrinho protegid* por um tule, jovens pais impacientes para jogar futebol na areia, e o pior: mamães intercambiáveis, que vão arrumar no que resta da enseada seus baldes enfeitados com golfi­nhos verdes, forminhas em forma de... fôrma, saídas-de-praia, bolachas de Pont-Aven e magníficas pás, de ferro!

Não chegávamos aos pés dos invasores, e decidimos bater em retirada, apesar dos uivos de costume, com a des­culpa de que as nuvens tinham invadido o céu e que, além do mais, precisávamos comprar peixe para a noite. É sem­pre errado dar duas razões: nenhuma é a verdadeira. E, drama topográfico: o mercado de peixe fica perto do bazar "Tudo para a criança"! Bem que tentamos distrair a aten­ção dos anjinhos nessa passagem perigosa, mas eles têm olhos nas costas, os anjinhos! Só nos resta abrir a cortina de pérolas e entrar corajosamente... antes de recuar, es­pantadas: para os meninos, engenhos de guerra tão bem imitados que dá vontade de erguer as mãos e se render incondicionalmente! Para as meninas, equipamento de mulher fatal ou de empregada doméstica. Tudo para o Super-homem e para a Superputa!

Zoé estanca na frente de um salão de beleza com placa de frisar, secador em miniatura e lavatório inclinável. De­pois, cedendo à outra tendência da feminilidade, ela se de­tém diante de um fogão cuja porta se abre e cujas placas elétricas esquentam de verdade, o que lhe permitiria pre­parar seu jantar de brincadeira e "fazer caramelo", idéia fixa das crianças fascinadas pela catástrofe. Maldizemos o fa­bricante perverso e desviamos as atenções para os mini­computadores Nathan. São caros, mas instrutivos. Valentin caçoa: quero o computador do papai, ou nenhum! Zoé co­biça um poney americano de saia comprida e cílios de almeia, muito mais/Zás/zy que os lindos brinquedos artesanais pintados à mão com que Hélène e eu nos enternecíamos. Olha! Tínhamos um jogo de Diabolô como este, lembra? E um caminhão de rodinhas de madeira com reboque... As bonecas da nossa infância, com suas roupinhas tricotadas, não merecem sequer um olhar se comparadas com as cria­turas de pesadelo, vestidas de púrpura e ouro, com sorrisos débeis e rostos idiotas embaixo de cabeleiras metalizadas.

- É assim que você quer ser quando crescer? — Hé­lène pergunta a Zoé.

Sorriso de êxtase da menina.

E preciso reconhecer: os americanos têm um tino co­mercial tão cínico quanto aguçado, baseado em estudos de mercado feitos por craques do M.I.T., e souberam adivi­nhar (ou provocaram) o gosto pomposo e vulgar das crianças e sua fidelidade aos estereótipos mais desoladores da diferença entre os sexos. Em todo caso, eles fabricaram a preços baixos e sem preocupação estética, exatamente os horrores que nossos anjinhos vão adorar de cara, exigir com insistência e, ao final de muita discussão e caras de mártir, obter dos pais no limite da resistência.

Entramos para comprar um magnífico papagaio de papel japonês, de que apenas nós duas gostamos, e o "Lego, que desenvolve a criatividade", mas saímos com o poney malva de crina platinada, caríssimo, e mais um conjunto de apetrechos do incansável Zorro.

- Pode me dizer para que serve este animal? — per­gunta Hélène à neta.

Para brincar, responde ela, peremptória. Enquanto saíamos da loja, duas belas e jovens mães, com sotaque do Midi, rabos-de-cavalo e vestidos curtinhos, entraram com quatro fedelhos de cerca de 10 anos, entre os quais uma femeazinha fantasiada de objeto sexual: saia preta curti­nha moldando suas pequenas nádegas arredondadas, meias de renda preta, sandálias de salto e camiseta furadi-nha mostrando um dos ombros. Pré-puta, assim como se diz pré-delinqüente. Pobre Barbie mirim, colocada no pa­pel daquela que em breve se deixará violar no Café des Jules! Em que pensam essas mães, elas próprias empur­rando suas filhas para a armadilha? E de onde vem essa predisposição feminina à vitimização, que percebo já pre­sente em Zoé, que Valentin, já um predador, atormenta com seus beijinhos à noite?

- Vai começar? Acha que é engraçado ficar chatean­do o tempo todo?

Zoé faz um ar extenuado e Valentin duplica as provo­cações. Em poucas palavras, estamos como sempre no rei­no do "Se você não me ama, eu te amo". Pobre Simone de Beauvoir, miserável Alice Trajan!

- Mas, enfim, Hélène, Zoé era normal há seis me­ses, não?

Hélène se recusa a responder, mas eu adoro provocá-la. Há menos de um ano, Valentin também era normal. O que houve depois? É a sociedade que fabrica esses ma­chos pretensiosos e essas fêmeas idiotas?

- Deixe-me em paz, Alice, e olhe: este saint-pierre está com o olhar mortiço. É melhor levarmos o linguado. Não tem espinhas para as crianças.

- Somos todos cúmplices, quando consideramos a insolência e a brutalidade de um menino como prova de virilidade e as de uma menina como sinal de que ela vai ser uma Verdadeira Mulher, portanto uma sedutora!

- E você, uma verdadeira chata, querida irmã. Va­mos: levo este linguado e depois os morangos de Plougastel. Hoje é o meu dia de fazer compras, mas vejo que para você todo dia é dia de fazer discurso... E o seu discurso já conheço de cor, posso mostrar...

No fundo, não sei o que me irrita mais: os pequenos che­fes ou as pequenas putas?, pensa Alice. Mas os velhos chefes são ainda piores! Isso ela não vai dizer, porque Hélène pen­saria necessariamente em Victor. E como ela não tem mais a possibilidade de mudar de chefe, e como um Parkinson pode durar muito tempo, para quê?



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