Carmem cacciacarro



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XII

Os primeiros seres vivos
Por mais tempo de vida que tivéssemos, ambos, Xa­vier e eu, continuávamos sendo "as crianças". Esses pri­meiros seres vivos que são os pais mascaravam o vazio; caminhávamos tranqüilos, sem inquietação. Era como se eles ainda nos levassem pela mão. Agora vai ser preciso avançar sem anteparo. Agora que papai morreu. E de re­pente mamãe também parece ter voltado a ser uma meni­na. Ela não representa mais o casal, nem mesmo a metade do casal; com o desaparecimento de Adrien, o casal mor­reu. E resta Alice, encalhada num rochedo, sozinha como uma gaivota no inverno.

Felizmente Xavier conseguiu chegar a tempo, pois Adrien foi morrendo suavemente, como uma árvore ferida por uma ceifadeira que se extingue devagar, à medida que suas fibras se desprendem uma a uma. Mas reconheceu Xavier, com o olhar de triunfo que a aparição do Filho sempre provoca nos pais, sua única descendência verdadeira, o herdeiro, o ma­cho, aquele que salvará o nome. Muitos séculos, muitas civi­lizações o entronizaram de um modo tal que as mulheres nunca possam roubar essa coroa, qualquer que seja o amor ou mesmo a preferência de que desfrutem. Gostaria de estar enganada, mas o olhar de Adrien e o orgulho de Alice diante do seu garoto me apertam um pouco o coração.

Numa família, a morte desloca todas as linhas de força A terra tremeu e a paisagem vai se remodelar pouco a pouco, cada qual procurando um novo equilíbrio. Descu­bro a importância dos fracos. As peças essenciais não são necessariamente aquelas que fazem barulho e ocupam es­paços. Sua dominância necessita dessa matéria-prima que é a fragilidade do outro para se manifestar. Com a velhice, o fraco torna-se tão indispensável quanto o forte para a sobrevivência de um casal.

Tínhamos convivido tão pouco como adultos, Xavier e eu, que era a nossa intimidade infantil que ressurgia es­pontaneamente entre nós. O sofrimento também faz re­gredir, e diante do corpo do nosso pai choramos como criancinhas nos braços um do outro.

Para tapar os vazios da ausência, eu lhe contava minha vida, a de Alice, tudo o que se perde no caminho quando se vive a 4.000 quilômetros um do outro.

- Há uns dez anos, eu não dava nada por vocês como casal, confessa meu irmão. Maurice tem alma de nômade, não deve ser fácil no dia-a-dia...

- Não, mas ao mesmo tempo ele não pára de me surpreender com seu humor, sua liberdade de pensamen­to, sua maneira de aceitar os outros, enfim. Ele me horro­rizou algumas vezes, mas nunca o vi com um pensamento baixo ou mesquinho. Com o tempo, quando se vive a dois respeitar-se é uma coisa preciosa.

- E você também não é fácil. Segue o seu caminho e não se importa com o resto. Conheço um pouco sobre isso.

- É verdade. Mas tive muitos momentos maravilhosos com Maurice. É essencial ter uma paixão em comum.


No barco formávamos uma "equipe" como ele sempre diz. Partilhávamos o mesmo entusiasmo, ficávamos abraçados quando escurecia, voltávamos a ser jovens apaixonados
como que por milagre. Em terra, reencontrávamos os nossos problemas. Mas tudo bem.

- O que mais admiro em você é como consegue ser ao mesmo tempo marinheira, jardineira, cozinheira, his­toriadora... Quantas feministas mataram o anjo domésti­co de dentro de si, como recomendava Virgínia Woolf, e não o substituíram por nada! Você me reconciliou com o feminismo, Alice e você!

- Por quê? Você estava irritado? Ainda com precon­ceitos, meu pobre Xavier. Conheço várias boas mulheres muito chatas que não são feministas, e ainda por cima co­zinham muito mal!

- Aliás, ando sonhando com sua lagosta grelhada, Marion, ao molho de manteiga com muita salsa, pimenta e um copo de Ricardo, se não me engano... É uma lembran­ça emocionada!

Xavier, antes de voltar para o seu Atlântico Sul, tam­bém sonhava rever Kerdruc e Concarneau, onde, ainda pequeno, tinha contraído para sempre o vírus da água salgada. Pretendíamos levar Alice conosco por um tempo, mas ela recusou o convite. Preferia se refugiar junto com Hélène, em Cannes, explicando que é entre irmãos e irmãs, quando se tem a sorte de tê-los, que aprendemos a viver o luto de um parente ou cônjuge. Somente eles são depositários da mesma fatia de memória familiar morte dos pais só se torna definitiva no dia em que se filhos não estiverem mais lá para evocá-los. Então, é verdadeiramente abolida a memória do que eles eram. Sobreviverão, brumosos, nas lembranças dos netos, que o conheceram velhos.

Por mais que nos amasse, a Xavier e a mim, por m ligada que estivesse, com toda a sua energia, à luta que s confunde para ela com a vida, Alice deixava-se aspirar pouco a pouco pelo vazio que Adrien secretava. "Ele consente", me dizia Maurice. Conheço esse termo magnífico comovente, porque ele dá alma às coisas, aos cascos, enxárcias, às ferragens de um barco que, após ter enfrentado os assaltos de uma tempestade, começa a ceder, "consentir", como se diz.

Teriam se distanciado voluntariamente? Será que nós os impelimos um pouco, com a saúde insolente dos vivos, que não sabem calcular o limite das forças huma­nas? Ninguém diria, Maurice e eu percebíamos, com horror, que não vivíamos mais no mesmo planeta que eles. Cruzávamos uma fronteira para ir visitá-los e, ao deixá-los, sentíamos o alívio covarde daqueles viajantes que regressavam de um país do Leste antes da queda do Muro. Ufa! Voltávamos para o lado bom, de repente o céu parecia mais azul.

Papai não lutava mais nos últimos dias. Mantinha c olhos abertos, mas já não havia ninguém dentro deles. Alice nos via ir embora como o náufrago que vê sua bóia desaparecer, mas sorria valentemente.

Felizmente, com o passar dos anos, ela tinha se enrai­zado em Kerdruc, onde podia estar em casa mesmo estan­do na nossa casa. Ainda mais porque sempre teve uma afeição por Maurice que chega às raias do sentimento amoroso. É esse tipo de relação que ele é exímio em pro­vocar nas mulheres, não fazendo nenhum tipo de discri­minação de idade, meio social ou beleza. Jamais tratou Alice com o respeito artificial que em geral se reserva às sogras, mas simplesmente como uma mulher cujas idéias e caráter lhe agradam. Coisa que ela aprecia muitíssimo. Em compensação, não dou 15 dias para vê-la voar no pes­coço de Victor, por mais sem pescoço que ele seja.

Maurice pretende se encontrar comigo e Xavier na próxima semana, para comemorar o meu aniversário em Pont-Aven, no Moulin de Rosmadec, onde meus pais festejavam os deles desde jovens. Mais uma maneira de sermos fiéis a eles. Mas os rituais devem preservar meti­culosamente seu cerimonial, sob pena de perderem o significado. Entre os belos móveis antigos desse velho moinho, perto da imensa lareira onde arde um fogo de madeira durante todo o inverno, sob quadros de Guillou, Emile Compard ou Mathurin Méheut, vamos pedir o mesmo jantar tradicional.

- E o que você vai se dar de aniversário este ano? — per­gunta Maurice. — Um ginkgo biloba ou um liqüidâmbar, para continuar fiel a si mesma?

- Não sou tão louca a ponto de plantar num jardim de três ares e oitenta centiares árvores que em cinco anos terão cinco metros de envergadura! Não, vou surpreender você, Maurice, e me dar de presente uma coisa que não vai lhe agradar e que quase não consigo contar: um lifting! Tenho idade, não acha? O que você pensa?

- Não gosto, você sabe muito bem.

- Engraçado, os maridos são sempre contra! A maioria sempre acha que a mulher "está muito bem assim".

- Talvez porque eles saibam, com toda razão, que ela não faz o lifting com o único objetivo de agradá-los — su­gere Xavier perfidamente.

- Certo. Fazemos lifting pela aventura em geral, para um amante, se necessário, mas antes de tudo, o lift­ing é feito contra. Contra a idade que se tem. Qualquer que seja!

- Mas não contem a ninguém, vocês dois. Só vou di­zer à mamãe. E às minhas filhas, mas não já. Às minhas netas, certamente não. Os jovens preferem um mundo bem arrumado, onde os velhos sejam reconhecíveis por seus cabelos brancos e os sexagenários não tenham mais aventuras amorosas. Enterram você sem perguntar sua opinião e acham imoral que uma avó, que eles, na cabeça, gentilmente condenaram à morte e, enquanto isso, à pri­vação do prazer, se recuse a bancar a vovozinha. Acham indecente que ela ainda procure prazeres...

- Para mim, não se trata de julgamento moral, você sabe. Mas me pergunto por que você vai fazer lifting. Você está ótima para a sua idade, todo mundo diz.

- Você proferiu a frase fatal, Maurice: "Para a minha idade!" Quero estar ótima e ponto. É tão bonito, um pes­coço lisinho em vez de uma serapilheira!

- É verdade, com uma iluminação suave como aqui, você está "ótima e ponto", Marion — intervém Xavier.

- Concordo, mas não se pode viver continuamente na penumbra! E depois, ainda tenho a chance de rejuve­nescer de verdade, a esta idade justamente. No segundo lift, a fachada é raspada, rebocada, mas não lhe devolvem a juventude. Fazem de você uma outra...

- Sou a favor, irmã querida, ainda mais porque — e nunca contei a ninguém — há um ano ou dois tirei as bol­sas que tinha sob os olhos. Muita caça submarina, muitas loucas noites caribenhas, muitos mergulhos em apnéia... eu estava ficando com um ar de estróina, de velho safado, perseguidor de pareôs... tudo o que detesto. Há excelentes cirurgiões na Venezuela... e pronto!

- E pronto, por isso que achei você tão bonito! — diz Marion. — Esses fios brancos nas têmporas valorizam o louro dos seus cabelos; acho você irresistível. E não enten­do como escapou do laço conjugal!

- Não foi fácil, devo dizer... Mas tive a sorte de viver na água e de nunca deixar a âncora no fundo por muito tempo. Passei minha vida fugindo, na verdade. Escolher o mar como residência já é uma fuga, não?

- E também não é uma fuga fazer lifting? — tenta Maurice.

- Pelo contrário, meu cabritinho. É não se deixar ar­rastar como uma folha morta. Você extrai uma verruga se ela lhe brotar no meio da cara, coloca implantes se seus incisivos estragarem: por que vai manter os pés-de-galinha, a ruga no meio da testa que dá um ar zangado ou as bochechas que fazem parecer com uma cadela velha?

A conversa se interrompe para nos permitir degustar nossas ostras, admiráveis nesta estação, ao mesmo tempo finas e cheias de eflúvios atlânticos. Sobre a mesa, a porção de manteiga amarelo-escuro com uma vaquinha esculpida encima, conforme a tradição dos antigos restaurantes bretões, em vez do mesquinho retângulo de matéria gordurosa incolor e inodora embrulhada em papel prateado Erguemos os copos em memória de Adrien e à saúde dos vivos que o guardam no coração, e sobretudo de Alice, que terá de reinventar sua vida. É apenas um moscatel rústico, que não é o melhor dos vinhos brancos, mas que acompa­nhou fielmente todas as nossas comemorações e ninguém ousaria questionar.

- E por que não vamos fazer uma talassoterapia jun­tos? — tenta ainda Maurice, que não perdeu a esperança de me dissuadir.

- Passar horas me mortificando em infusões de algas e ervas finas? E vagar como uma doente, da cama para o restaurante dietético, de penhoar? Você sabe que isso me chateia mortalmente. Já experimentei uma vez, em Evian, com você, não se esqueça. Você estava muito ocupado com o festival, e eu fui amavelmente convidada a me escaldar numa papa de algas frescas. Algas frescas em Evian, imagine! Não, prefiro o bisturi, zás-trás.

- E ainda custa menos do que a talassoterapia...

- Sem dúvida. Com duas diárias nas Termas de Saint - Malo, mais a viagem e os óleos, essenciais ou não, as fisioterapias, você paga um lifting! E que vai durar indiscutivelmente muito mais tempo. O que ganhamos co uma talassoterapia? Um mês de boa aparência? E cinco dez anos com a cirurgia.

- E, além disso, um lifting desenruga a alma — diz Xavier. — Entendo um pouco disso.

- Mas já pensou nos danos colaterais? Ao seu lado, vou ganhar uns dez anos de repente! E como já tenho cin­co a mais, é um duro golpe que você me dá...

- E você? Nunca pensou nos vinte anos que ganho toda vez que nos encontramos com todos os nossos velhos amigos e estes nos apresentam orgulhosamente suas novas companheiras, que poderiam ser minhas filhas? Eles de­vem pensar: "Pobre Maurice, saindo com a mãe!" Isto não é novo. Os velhos tutores já desposavam suas pupilas no tempo de Molière.

- É verdade, mas zombavam deles. Hoje, os que se exibem com suas contemporâneas é que parecem uns coi­tados. Enfim, Xavier... você está com 63 anos. Será que uma única de suas amantes ou companheiras é sexagená­ria? Ou mesmo qüinqüagenária? As únicas que consegui conhecer tinham cerca de 30, não?

- Entretanto, não as escolho pela idade, e as gati­nhas nunca me fizeram suspirar. Mas sexagenária, para ser franco...

- Preste atenção, Xavier: sua irmãzinha faz 60 anos hoje, por mais que você continue a bancar o eterno garoto!

- Mas, Maurice, todos os nossos amigos bancam os eternos garotos, olhe à nossa volta: praticamente ninguém continua com a primeira esposa, veja os irmãos L., os ir­mãos S.S., os irmãos D., e Michel B. e Yves S. e Michel C, e não estou falando de atores ou diretores, mas de médi­cos, políticos, escritores... Além do mais, é um fenômeno muito contagioso! É apavorante, não?

- Vê como sou um espécime raro? E ainda por cima vou ganhar uma mulher nova sem precisar troca de mulher!

- Vai fazer um bom negócio, meu cabritinho, estou dizendo!

- Pelo menos me deixe ficar com você no pós-opera tório. Posso prestar uns favorezinhos, apesar de tudo.

- Eu preferiria que você não me visse nos dias seguintes... o inchaço, as pálpebras balofas, os hematomas os grampos, as casquinhas de ferida no cabelo... é tão im­pressionante, um "espantalho". Lembra, Xavier, você sempre dizia "os espantaios" quando era pequeno. E depois, n verdade, também sinto um pouco de vergonha, como s estivesse roubando nas cartas. Gostaria de reaparecer ao seus olhos como após a... Operação do Espírito Santo.

- Aliás, quando vai ser?

- Ainda não tenho a data. Só fui ao cirurgião na se­mana passada. E lá tive um encontro espantoso: na sala de espera, uma jovem argelina me reconheceu. Tinha lido o meu livro sobre a misoginia e milita em seu país por uma causa desesperada, diz: os direitos das mulheres! Ela era deslumbrante, e me intrigou que estivesse recorrendo a um cirurgião plástico. "Não, não, é para o hímen, disse ela rin­do. No ano passado eu estava noiva de um argelino e co­meti o erro de me entregar ao meu futuro marido um mês antes do casamento. Resultado: ele me largou no exame pré-nupcial, por causa da minha não-virgindade!" Agora está noiva novamente. Um médico argelino refez o seu hí­men, mas, pânico, acabava de se romper! Pois não se trata apenas de recosturar o orifício, é preciso recobri-lo com um pedaço de pele extraído de uma mucosa vizinha. Ela veio então se "revirginar" em Paris, de urgência, a oito dias do casamento! "Viva a noite de núpcias, diz ela, e lá não vou poder exigir anestesia." Eu bem que poderia lhe doar um pedaço de pele, pois vão me extrair um ou dois nacos por esses dias, propus a ela...

- Que conversa mundana para uma sala de espera - exclamou Maurice. — Daria uma bela cena no teatro! Na linha das Conversations après un enterrement de Yasmina Reza.

- E os invejo por poder ir ao teatro — diz Xavier. — É o que me faz mais falta lá.

- E por que não vem passar uns meses na França? Agora há lugar na casa da mamãe. Você a ajudaria a supe­rar um momento difícil e poderia conhecer melhor Amé­lie e Séverine. Séverine estuda etnologia e vai ter muito interesse em ouvi-lo. E depois, vai lhe fazer bem: um dia desses, você acaba percebendo que não pertence mais a lu­gar nenhum, de tanto viver num espaço em movimento. O mar é uma fascinação, mas não é uma pátria, suponho.

- Na verdade, o problema é o meu barco. Não posso deixá-lo num porto sem uma vigilância constante.

- E por que não o deixa num bom estaleiro, que o devolveria como novo? Tenho amigos em Fort-de-France, se interessar. E podemos encontrar você na Martinica para supervisionar os trabalhos, eu e minha jovem mulher... O que acha, Marión?

Saímos do restaurante para uma dessas noites doces cujo segredo só a Bretanha tem, mesmo no inverno. As mi­mosas de fevereiro já estão em flor nas margens do Aven, cujas pedras arredondadas reluzem sob a lua cheia. Segui mos os três pela alameda Xavier Grall que ladeia o rio. Meu dois "espantaios" me dão o braço, e Maurice fica muito ca rinhoso, como em toda vez que bebe um pouco demais Minhas lágrimas por Adrien e por essa grande parte da minha juventude que ele levou se misturam, indistintas, con as lágrimas por Brian, que eu não via há meses porque Peggy está muito mal, meu Brian cujo cheiro sempre reencon tro com emoção entre os caracóis dos cabelos ruivos d Séverine. As lágrimas não têm cor, felizmente. Entre doi homens, é quase bom chorar... outros dois homens.


XIII

A lição das trevas
Janeiro 2002
"Quando receber esta carta, este coração não repleto de você terá deixado de bater.

Passei toda a minha existência agarrado desesperada­mente a um sonho: dedicar a você cada instante da minha vida. Não passou de um sonho, para minha tristeza. Obri­gado por ter permitido que eu a amasse durante todo esse tempo e me dado um lugar na sua vida. Obrigado por ter me mantido vivo graças aos nossos encontros e às suas cartas, me permitindo esperar, a despeito de todos os obs­táculos, que um dia ficaríamos juntos.

Se existe vida após a morte, que eu possa vivê-la ao seu lado. Morri tantas vezes ao me afastar de você, que a morte definitiva não me dá medo. Entrego esta carta ao meu ami­go Andrew, meu co-piloto dos bons tempos. Quero que ele a entregue em suas mãos: você entenderá antes de lê-la.

Teria muitas coisas a lhe dizer ainda. Prefiro deixar a Palavra com aquele jovem poeta que foi o primeiro amor da sua mãe, Alice, a quem você transmitirá o meu adeus, de todo o coração. Sei o quanto lhe devo. Esqueci o nome do poeta, mas me lembro que ele morreu aos 20 anos e que sua única antologia, póstuma, chamava-se A lição das trevas.1 Copiei este poema, veja só, sabendo que um dia ele exprimiria o meu pensamento.


Quando o tempo se faz carne

Quando meus gestos perdidos

Agitam no vento da ausência

seus fantasmas Quando meu ser poroso exala

sem retorno

O outono desgrenhado sem verão

e tuas lágrimas vãs, oh minha amada

Não têm o claro destino de nascer

para as fontes

Mas que tudo é sem fim, sem sentido

e sem esperança

Sinto naufragar como um navio

a eternidade
Nós lemos juntos essa Lição das trevas em Vézelay, que você me fazia descobrir há tantos e tantos anos. Sempre me lembrarei do nosso quartinho em mansarda que dava para a basílica romana.

Quero que saiba que fico aliviado de deixar este mun­do antes de você, minha bem-amada. Eu não teria sobre­vivido sem você. Peço perdão aos que magoei por amá-la sem reservas nem pudor. Há sentimentos que não nos dei­xam escolha.

Acima de tudo, quero que saiba que fui feliz com você, Marion, e que dou graças por cada instante que passei ao seu lado. Ta no chroi istigh ionat.

Seja abençoada.


Brian"
Andrew me entregou essa carta em Paris, e foi menos difícil do que ver pela última vez, na mesinha da entrada, a escrita ainda viva de Brian. Ele morreu de um câncer de próstata que se recusou a tratar, por não suportar entrar no protocolo de cuidados que experimentou enquanto Peggy expirava pouco a pouco ao seu lado. Temia tam­bém, sem dúvida, não ser mais o homem que eu tinha co­nhecido e que continuara a ser durante toda a nossa vida, tão pouco comum, em todos os sentidos do termo.

Não encontrei palavras para contar a Maurice, temen­do romper em soluços diante dele e deixá-lo numa situa­ção constrangedora para nós dois. Aleguei que precisava supervisionar as obras em Kerdruc para viajar por alguns dias. Toda vez que algo ruim me acontece, tenho o reflexo de me refugiar no meu jardim bretão. Ajoelhada diante de cada arbusto para escavar a terra, inclinada sobre minhas ântemis amarelas (ou pequenos sóis de Bismarck) que têm a péssima tendência a anexar a vizinhança — na certa por causa daquele apadrinhamento insólito com o prussiano que nos roubou a Alsácia-Lorena —, cavando a terra para plantar a pequena macieira do Everest que acabo de com­prar no viveiro de Bélon, desdobrando os rizomas das ro­sas malva que fazem seus caules floridos subirem até o teto no verão, derramando fertilizante em meus cinco rodo­dendros e camélias, como eu poderia pensar em outra coi­sa a não ser na vida apesar da morte?


Quando tudo muda para ti

a Natureza é a mesma

E o mesmo sol nasce em teus dias
Em todo caso, era o que pretendia Lamartine, que você considerava um grande poeta quando tinha 15 anos, mi­nha pobre Marion! Você acreditava aliviar a ausência de Brian dizendo que poderia encontrá-lo a qualquer mo­mento, caso ele precisasse de você. Mas é agora que vai compreender o que é a verdadeira ausência... e o que é um poeta celta:
Amigo Tristão

Para o meu amor morreste

E morro, amigo, de dó:

Não pude chegar a tempo

Nem transgredir o destino

E curar-te do teu mal

Se a tempo houvesse chegado

Tua vida devolveria

E docemente falaria

Do amor que houve entre nós2

Minhas lágrimas caem sobre os bulbos que ponho na terra e me vejo sonhando que os talos verdes vão brotar e crescer sob os meus olhos, como na lenda. Mas o tempo surreal passou. O homem do meu coração levou para o túmulo a Irlanda aonde não irei de novo e a apaixonada que não mais serei.

Como vou viver sem dizer eu te amo com um tremor na voz? Sem que nunca mais um homem me chame de "my breath and my life"?3
Recentemente perguntei a Maurice por que teve neces­sidade de seduzir tantas mulheres no decorrer da vida. "Para me sentir amado", respondeu. Seria uma forma de me acu­sar de não ter gostado dele com exclusividade? Sem dúvida. Mas também é verdade que, a seu ver, o importante era an­tes de tudo ser amado. Nesse ponto, sempre me senti estra­nha a ele. Porque para mim o milagre é amar. Não posso dizer necessariamente a felicidade, não. Com a felicidade você sempre dá um jeito. Já o milagre, este não pode ser manipulado. Cai do céu sem avisar, cedo demais, tarde de­mais, ou nem tanto, e é preciso fazer alguma coisa, pois mais nada jamais terá esse gosto, nem essa evidência fatal.

Eu rumino esses remorsos, esses arrependimentos, es­sas reminiscências que o desaparecimento de um ser tão querido faz surgir, de dia, com as mãos na terra, e de noite, ao lado do fogo. Pois um fogo é alguém.

Na frente de um aquecedor ou mesmo daquelas belas salamandras da minha infância, com suas janelas em mica, ninguém se senta para ruminar. Um fogo de madeira numa lareira é uma utilização do tempo: ele estala, ilumi­na, desaba, morre em vermelhos, e eu o contemplo nessas transformações até as cinzas finais.

Alegoria fácil das nossas vidas. A morte nos leva a al­gumas idéias simplistas e fundamentais. Percebemos que os defuntos nunca se vão sozinhos: eles arrancam peda­ços mais ou menos dolorosos de nós mesmos. Só mais tarde constatamos os prejuízos. O sofrimento não tem fim. Para não encará-lo de frente, eu me recuso a fazer qualquer inventário, assim como me recuso a abrir as duas caixas que Andrew teve a idéia absurda de depositar na minha casa outro dia e que contêm uma mercadoria tão perecível quanto perigosa: trinta anos ou mais de car­tas de amor! Verifico que Brian, por precaução, armaze­nava todas as minhas remessas na casa do amigo para evitar que um dia caíssem nas mãos de Peggy ou de Eamon, seu filho. Também sem poder guardá-las em nossa casa, levei as duas caixas vermelhas para Kerdruc, escondendo-as no pequeno escritório de Alice até decidir a sua sorte. Eu tinha jurado que não ia abrir, mas, como fez a esposa de Barba Azul, não pude resistir a enfiar a chavi­nha na fechadura de uma das urnas de ferro, e as cartas surgiram, arrumadas e amarradas com fitinhas de juta, como múmias. Reconheci, de passagem, minha fase Mont Blanc de pena larga, outra em que tinha me apaixonado pela tinta violeta, a fase Azul dos Mares do Sul, e percebi esses milhares de "meu amor" que rapidamente voltei a guardar na caixa, antes que me saltassem da garganta. To­das aquelas cartas, enviadas toda semana durante tantos anos, não passavam de letras mortas, mas ainda podiam causar prejuízos. Eu me sentia incapaz de queimá-las — levaria horas, pois maços de papel não queimam direito. Incapaz de relê-las — tinha medo de julgá-las e medo de achá-las obscenas, pois fazíamos amor por es­crito quando ficávamos longe por muito tempo; incapaz de publicá-las, ainda que com nome falso — precisaria torná-las irreconhecíveis e isso seria trair Brian. Em suma, eu me sentia incapaz de qualquer decisão, como se a mi­nha culpa por ter tido uma ligação ilícita por toda a vida repousasse ali como um cadáver embaraçoso.

De manhãzinha me ocorreu uma única solução: afun­dá-las depressa nesse oceano Atlântico que tanto nos se­parou e tanto nos reuniu e que se apressaria em apagar todos os traços escritos do nosso amor. Mas tomaria o cui­dado de reparti-las em alguns sacos furados para evitar que um pescador as resgatasse em sua rede três dias mais tarde e reconhecesse o meu nome... pois acredito na ma­lignidade da sorte. "Nossos atos nos acompanham", como Adrien gostava de dizer.

E foi assim que, sob um céu irlandês, debaixo de um chuvisco, ou era eu que chorava, realizei, na reticência e na necessidade, uma cerimônia fúnebre, afundando em sacos pretos a parte mais apaixonada da minha vida, com a im­pressão de estar preparando o meu próprio funeral ao im­pulsionar pela borda do meu bote todas aquelas palavras que veicularam tanto amor e que agora são engolidas sob as algas verdes.


XIV

Um toque na estrela
Em homenagem a Mireille Jospin e a Claire Quilliot
Esperei até o meu octogésimo primeiro ano para admi­tir que poderia morrer... um dia, que não estava mais tão longe. Antes eu já sabia, mas era como saber que Constan­tinopla caiu nas mãos dos turcos em 1453. Inconsciente­mente, cada um de nós se acha imortal. Este foi o primeiro ano de um processo que pode durar bastante tempo, às ve­zes de maneira indolor ou quase, desde que você tenha muita má-fé e má vontade para envelhecer. O que tenho para dar e vender.

Houve um tempo em que eu corria rápido. Aliás, teria adorado me tornar campeã júnior de corrida, nos 100 me­tros ou mesmo nos 500, pois tinha um coração de espor­tista que batia lentamente, como disse o médico escolar, e adorava o esforço. Mas não havia nenhuma atividade es­portiva para as meninas em nossas escolas cristãs de antes da guerra, nem sequer ginástica.

Hoje, o tempo corre mais depressa que eu e acaba de me alcançar. Pela primeira vez senti seu peso nos meus ombros. Quase nada, um instante de intimidação sem for­ma, mas era como se eu reconhecesse uma língua estran­geira que nunca falei.

Eram nove horas no frescor de uma manhã de no­vembro, quando, em vez de correr pelo céu, uma nuvem passou pela minha cabeça, obscurecendo a minha cons­ciência. Eu estava em pé na plataforma da estação de Quimperlé e soube instantaneamente que era "isso", que era com "isso" que, de repente, a gente se via no chão, entregue à solicitude dos transeuntes, estendida na pla­taforma, depois colocada numa maca circundada por rostos inquietos, e, sobretudo curiosos, cada um imagi­nando assistir a uma notícia do dia, a seguir carregada pelos bombeiros, despossuída da invulnerabilidade e en­tregue à curiosidade mórbida de desconhecidos.

Não sei quantos segundos ou minutos permaneci nes­se nevoeiro, em pé na plataforma, não me atrevendo a dar um passo, nem mesmo para me sentar, por medo de cair. E a seguir a nuvem saiu de campo como fazem as nuvens, o ruído do trem me despertou e pude subir no meu vagão como todo mundo. Tinha voltado a ser uma pessoa como qualquer outra! Era bom.

Como soube que esse episódio não se parecia com nada que eu vivenciara até então? Porque era exatamente isso, sem dúvida. Vamos, Alice, não tenha medo das pala­vras: era a morte e, para ser ainda mais precisa, a SUA morte. Sem pressa nenhuma, ela se contentou com um pi­parote, só para rir e se dar a conhecer.

É verdade que durante toda a semana eu me esforçara demais no jardim de Kerdruc: tinha adquirido o prazer de remodelar o entorno da minha casinha, como decidimos com Marion no verão passado. A fadiga nunca me fatigara até aqui, e eu ainda não pensava em reduzir a marcha. Pre­feria supor que aquele mal-estar se devia ao sofrimento ou à solidão, novidades para mim. Eu pretendia desfrutar fi­nalmente da minha liberdade, não ficar mais submetida a horários para as refeições, poder acender a luz à noite para ler ou ouvir música... Mas eis que Adrien me ocupava mais estando ausente do que presente. Tinha diminuído tanto no último ano que, morto, ele recuperava sua esta­tura de ser humano, e se dissipava a imagem do ancião em que se transformara.

É bom saber que os mortos se mexem e podem conti­nuar a fazer o mal. Raramente o bem. Sua impunidade os deixa numa posição de domínio. O pobre sobrevivente pensa: "Eu poderia ter... Eu deveria, talvez... Será que en­tendi bem?..." Eles, do alto da sua eternidade, não se con­tentam em nos atormentar mais um pouco — sempre há algo a expiar —, e o sobrevivente é o perdedor nesse joguinho. Com seu sentimento de culpa por ter sobrevivido, ele está em má posição para se defender, enquanto o "deser­tor" o deixa sozinho diante de todos os percalços que sua morte desencadeia. Adrien, considerando-se aposentado da administração, também não administrava mais os as­suntos do lar quando vivia. Eu não reclamava, gostava de decidir sozinha sobre o nosso orçamento. Mas descobri que era preciso enfrentar muitas exigências antes de me beneficiar das "doações ao cônjuge sobrevivente" que tí­nhamos estabelecido. Além de ser a viúva Tal, eu me tornara essa "cônjuge sobrevivente", termo terrível, e Adrien, no formulários, passou a ser intitulado "o contribuinte faleci do". Ele era apenas um contribuinte! Só que, infelizment o homem inteiro foi junto. E mil atividades anódinas que compunham o tecido da minha vida mudaram de cor.

Eu fazia muitas coisas sozinha havia alguns anos, mas tinha alguém me esperando em casa. Às vezes era compli­cado. Em compensação, eu podia gritar na entrada: "Merda, saco! Acabei de levar uma multa!" o que tornava a situação menos penosa.

Agora vou ao cinema, sozinha, sem o meu contribuin­te, e isso é o mais difícil. Às vezes me surpreendo comovi­da ao ver duas cabeças grisalhas inclinadas uma para a outra, a algumas fileiras do meu lugar, trocando impres­sões que o outro ouve sorrindo docemente, pois viveram tantos anos juntos que já não é mais hora de provocações. Passaram a formar uma velha máquina bem rodada cujas engrenagens aprenderam a funcionar sem ranger. Perdi, em suma, muito mais que o meu marido ou o pai dos meus filhos, como se diz, ou mesmo aquele chato querido de quem eu tinha tanto a reclamar. Perdi o que ninguém será mais para mim: meu contemporâneo.

Tenho meus filhos, é claro, mas eles estão muito à frente. Mesmo Marion. Eu jamais poderia dizer a ela: "Lembra da Frente Popular?" Eu tinha 20 anos e fui pela primeira vez na vida a uma manifestação, em frente à As­sembléia Nacional, com Hélène, que ostentava a insígnia das Moças da Cruz de Fogo! Seria o mesmo que evocar o cerco de Constantinopla.

No espaço de uma geração, a história da França, que nos servia de amálgama, de memória comum, se volatili­zou. Nem sequer a minha neta Aurèlie, formada em His­tória, ouviu falar do Vaso de Sois sons! E quando digo ao meu pretensioso Valentin o que Saint Remi disse a Clóvis: "Abaixa a cabeça, sicambro!", ele se pergunta se eu não es­tou com Alzheimer.

Somos a primeira geração de avós abandonados, sepa­rados da sua descendência. Antes de 1968, o mundo ainda não tinha desmoronado, arrastando em sua queda todo o nosso cenário familiar. Até mesmo a bela figura do precep­tor desapareceu na tormenta, levando consigo as declama­ções, o sacrossanto ditado, as linhas de o e a, as tabuadas que enfeitavam a última página dos nossos cadernos e as penas Sergent-Major e Gauloises (que ninguém mais sabe como eram boas de chupar antes da primeira utilização), esses Gauloises que em breve nem cigarros serão mais!

Na sociedade em que sobrevivo, tenho cada vez menos contemporâneos. Muitos estão encostados, em poltronas ou em asilos, inutilizados. E toda semana desaparecem al­guns que eu conhecia pelo menos de nome. "Morreu como um passarinho!", dizia meu pai. Outra lembrança que não quer dizer mais nada! Deixa pra lá, Alice.

Outra coisa se volatilizou: minha força. Sobre quem exercê-la? Não vou mais ao trabalho e já não tenho nin­guém para atormentar em casa. Eu costumava citar esta frase de Nietzsche: "É preciso proteger o forte contra o fra­co." Ao me incluir entre os fortes — não sem certa satisfação pueril — eu levava a dependência de Adrien como um fardo pesado, sustentando que os fardos têm um instinto apurado para encontrar aqueles que irão carregá-los. Mas, quem sabe, os carregadores também terem necessidade de levar suas cargas e ser a razão de viver do que nascem cansados? Cada qual deve poder manifesta sua natureza, suponho... É uma idéia nova para mim.

Também estou sozinha para enfrentar os exploradores da velhice. Desde que nos tornamos octogenários, Adrien eu, não passava um dia sem que chegassem propostas mirabolantes, triciclos para deficientes físicos, sobe-escadas Dara corações fracos ou banheiras com portas laterais.

Nenhum setor escapa à vigilância desses benfeitores que recentemente se apropriaram da sexualidade. MascuLina, é claro. Leio toda semana que o "senhor Adrien Trajan poderia desfrutar de ereções grandiosas, que lhe permitiriam saciar várias mulheres, mesmo as ávidas, a mesmo tempo" ou "verter dilúvios de esperma que Henriveceriam sua esposa". Uma literatura assombrosa!

Que esposa, sobretudo na idade das panes sexuais, sonha realmente em ser salpicada até os olhos por essa lactação celeste?

Todos esses triunfos são prometidos apenas aos machos. Não há publicidade, por exemplo, de feromônios que, pulverizados sobre o traseiro das senhoras, atrairia homens ofegantes no seu rastro!

Para me vingar, desfrutei do delicado prazer de enviar uma circular lacônica a cada uma dessas oficin pornográficas: "Meu marido seguiu seus conselhos e tomou suas cápsulas regularmente durante todo o mês setembro. Ele faleceu no dia 2 de outubro último. Assinado: esposa embevecida."

Não recebi nenhuma resposta.

Nós gargalhávamos juntos dessa literatura da deca­dência e da impotência. Eu ainda não sabia que não se consegue mais rir quando se está só. Podemos monologar, com freqüência falamos alto, mas, estranhamente, o riso não acontece mais.

De que riríamos, aliás? A onipotência da tecnologia, da eletrônica, da globalização encerra as pessoas muito idosas num gueto. Elas estão perdendo em todas as fren­tes, mesmo nas sociedades onde seu papel era respeitado há séculos.

A velha esquimó que ainda ontem curtia peles de animais com os dentes tinha orgulho de ser indispensá­vel para o grupo. Hoje, ela conserva os dentes, mas não passa de uma boca inútil a ser alimentada. Seu marido, o caçador de focas, em seu caiaque, armado com flechas de osso que ele mesmo talhou, tinha habilidades essenciais à sobrevivência da sua comunidade. Hoje, os consumi­dores da Groenlândia ou do Alasca compram no super­mercado seus pedaços de foca ou rena prontos para cozinhar ou — pior — contentam-se com filés de sua pescada, preparada e embalada em navios-fábrica que nem ao menos lhes pertencem. O genial caçador está de­sempregado e vive da Assistência Social.

Na Grécia Antiga, Sócrates era detentor de uma sabe­doria que ensinava aos jovens atenienses que se espremiam à sua volta.

Hoje, os jovens atenienses encontram na internet tudo o que bem entendem (e que não é mais a sabedoria!). O belo Alcebíades não tem nada a aprender com um velho, e Sócrates morre sozinho. Sem cicuta, talvez, mas tam­bém sem discípulos.

É disso também que vamos morrer: de uma enorme indiferença. Que chega à rejeição. Agora somos tão nu­merosos que os não-velhos exprimem abertamente seu desagrado. (E sua preocupação: o que vamos fazer se eles continuarem assim?) Noto que estou abandonando, um a um, todos os lugares onde não me sinto mais dese­jada. A noite é um dos espaços onde não ouso mais me aventurar. Um homem, ainda que vacilante, me dava um ar de segurança. Uma mulher sozinha e idosa é duas vezes mulher.

Outra noite, voltando do cinema, no metrô Franklin-Roosevelt eu me vi pela primeira vez como uma pessoa deslocada. Eram vinte e duas horas, e oitenta por cento dos que ocupavam as duas plataformas eram jovens, tro­cando socos amigáveis, interpelando-se de uma platafor­ma à outra, impondo a todos os passageiros sua barulheira, sua linguagem agressiva, sua gloriosa juventude. Eles esta­vam em casa. Eu não estava mais. Meus poucos semelhan­tes se faziam de mortos... o principal era não chamar a atenção. Estávamos, de repente, em 1942, sob a Ocupação alemã de Paris, quando alguns franceses vencidos se en­contravam num lugar público, o metrô ou a Place de L’Opéra e sua Kommandantur, entre uma multidão de vencedores cor de azinhavre...

É esse medo que nos leva pouco a pouco a ficar na nossa toca, nessa cozinha que para muitas mulheres da minha geração foi o "quarto próprio" de que falava Virgi­nia Woolf.

Mas o azar quis que os tecno-assassinos me perseguis­sem, pois fui obrigada a substituir as quatro placas elétricas com sensor do meu fogão, simplezinhas e antigas, por um novo dispositivo de cocção. O encanador da esquina me re­comendou enfaticamente uma superfície elétrica por indu­ção, mais segura e mais econômica. Marion está equipada com uma bela placa de vitro-cerâmica da qual me sirvo sem problema. Portanto, assinei um contrato em confiança e três semanas mais tarde recebi uma superfície preta admi­rável, inteiramente lisa, sem nenhum botão de comando.

- Os botões estão ultrapassados, madame! Basta um toque digital.

- Está bem, mas eu gostava dos botões, pois podía­mos regular 1,2,3,4,5.

- Aqui a senhora regula o calor pressionando repeti­damente e os números se iluminam em vermelho.

- E se meu gato pular sobre a placa, ela liga?

- Existe um mecanismos de bloqueio, madame. Quan­do o aparelho não está em uso, a senhora o bloqueia. Para isso, também, basta um toque digital.

- E se uma criança puser a mão na placa, isso pode desbloquear e fazê-la funcionar?

- Uma criança não tem que se aproximar da superfí­cie aquecida, madame.

- E o senhor me aconselha um toque digital para afastar a criança? Um tapa, por exemplo?

O encanador da esquina faz um esforço para rir. Não se deve desagradar o cliente.

- Ainda assim o seu sistema é muito mais complica­do que antes.

- É só aprender a usar, madame.

- Aprender a cozinhar um ovo? Na minha idade?

- Vou fazer uma pequena demonstração, a senhora vai ver. Vamos ferver água.

Apanho uma panela da minha fila de seis, suspensa na parede.

- Ah, não. De alumínio, nunca! É preciso usar recipien­tes que tenham a palavra INDUÇÃO estampada no fundo.

Tenho um, por milagre.

- Mas, então, meu senhor, todos os meus utensílios de pirex, todas as minhas caçarolas de porcelana que fa­zem os melhores ovos fritos, como o senhor sabe, e a mi­nha panela de pressão e a minha panela de ferro esmaltado e minhas frigideiras de tefal... tenho que jogar tudo fora?

- Nada disso tem estampada a palavra INDUÇÃO — diz o encanador, nervoso.

Consulto outra vez o folheto e me assusto. Em letras pe­quenas, leio: "Portadores de marca-passos, atenção! Podem ocorrer algumas interferências eletromagnéticas. Consulte o seu médico." Não uso marca-passo, mas estou na idade de usar! O encanador deveria ter me avisado que a indução não é feita para os senis e que, na minha casa, tudo deve ser joga­do fora, incluindo o gato. Basta ter usuários com a estampa JOVENS. E recomenda-se consultar um cardiologista antes de escolher o fogão. Eu aprenderia mais tarde, no O que esco­lher, que é aconselhável se manter a mais de 30 cm do fogo!

E mexer o molho branco com um cabo de vassoura?

Mando desmontar imediatamente minha placa a in­dução. Quero uma superfície de não importa o quê, com botões 1,2,3,4,5.

- Mas, minha senhora, no seu contrato está escrito a palavra INDUÇÃO.

- Justamente! Para mim, indução é a "generaliza­ção do raciocínio a partir de um único caso". É o contrá­rio da dedução, veja. Sou professora de francês, meu senhor, não de encanamento, e o senhor deveria ter me explicado. Para mim, sua indução é uma merda. Veja só, que bom exemplo: eu generalizo a partir de um único caso! Isto é a indução.

- Sinto muito, madame — diz o bravo homem —, mas a senhora assinou um contrato e tenho que lhe cobrar esta placa, mais cara que as superfícies com comandos ma­nuais, é verdade, mas garanto que é o que há de melhor no mercado.Todas as grandes marcas fabricam. É o futuro.

- O futuro não é a minha principal preocupação! O senhor não teria um modelo que descasca legumes e leva os pratos para a mesa, além de fazê-los?

Eu me contive, claro, para não acabrunhar meu pobre encanador. Tinha assinado, afinal, sem ler direito o con­trato, era eu a culpada. Portanto, covardemente paguei a tal placa a indução e comprei numa promoção o modelo mais simples de uma marca semi-falida, com os botões 1,2, 3, 4, 5, como na minha infância. Ha! De qualquer forma, quando ocorrer o primeiro problema, o artefato será de­clarado irreparável e os encanadores dos quatro cantos da França vão entonar o mesmo refrão: "Sai mais caro con­sertar este (aqui, pode-se escolher: aparelho de TV, aspira­dor, aquecedor ou forno) do que comprar um novo."

Belzebu zomba do mundo e é sempre o vencedor, como aprendemos a nossa própria custa.

Uma vez quase atendidas as diversas formalidades post mortem, senti necessidade de mudar de ares. Marion e Xavier tinham proposto afetuosamente que eu fosse fi­car com eles em Kerdruc. Era tentador. Mas dezembro não é o mês mais bonito na Bretanha e eu queria estar com Hélène. As circunstâncias eram favoráveis: Victor fraturou o fêmur ao cair da cama e vai fazer reabilitação durante dois meses, o que garante uma convivência sem problemas com minha irmãzinha associada a algumas semanas de inverno ao sol do Midi. Ela finalmente tirou a carteira de motorista no ano passado, quando Victor teve que renunciar à sua Mercedes e ela comprou um Twingo, para não humilhar o marido, que reagiria muito mal se ela escolhesse um cupê conversível esporte. Ele optaria por um 2 CVs, mas para sua lástima a Citroen não fabrica mais o modelo. Sim, ainda existem moças de 70 anos que foram impedidas de crescer e continuam convictas da própria incompetência congênita e da ne­cessidade de obedecer ao macho.

Poupo a minha pobre Minnie dos meus sarcasmos, pois a combatividade se desgasta como todo o resto e ago­ra minhas forças são integralmente empregadas em subju­gar os sinais de perigo que meu organismo tem enviado. Tanto brinquei de "Seja boazinha, minha dor, e fique tranqüila", que ainda consigo embaralhar as mensagens e ignorar, por exemplo, meus joelhos, que se enfiaram na rótula onde eu não tinha mais cartilagens. Recuso obsti­nadamente a bengala que eles exigem... enquanto espero que todos se unam para me jogar no chão e provar que tinham razão. Mas Hélène conseguiu me arrastar até a Policlínica Saint-John Perse e me obrigou a fazer um check-up. Recusei a colonoscopia e outros exames trau­matizantes, convencida de que não é bom despertar do­enças adormecidas... Mas precisei sofrer uma bateria de testes e análises que me revelaram... que eu não tinha mais 20 anos. Catarata... e a tiróide... e a hipertensão... e uma possível mancha na retina... De qualquer forma, nunca gostei muito de Saint-John Perse, nem como poe­ta, nem como diplomata.

Por outro lado, cedi momentaneamente aos apelos do Natural, não ousando me empanturrar de patê de javali ou — pior — de estorninho, de manteiga salgada em ca­madas espessas e de carnes grelhadas na própria gordura diante de uma adepta dos iogurtes com lactobacilos, do zero por cento e do caldo de legumes. Portanto, acompa­nho Hélène às suas lojas naturais, incontáveis em Cannes, que parecem salas de pensionato onde velhas senhoras, in­gênuas e entusiastas, vêm filosofar e trocar experiências. Nunca vi entrar um homem nessas sacristias. É por isso que eles morrem antes da gente, afirma Hélène.

Fui tentada por um cataplasma de argila verde para a artrose do joelho, ou a opção em pasta para espalhar numa camada espessa. Em nenhum dos dois casos, nada de fo­lheto, nada de modo de usar. É como na eucaristia: é pre­ciso crer. As embalagens são rudimentares, o produto se espalha por toda parte, mancha, entope os encanamentos, tudo isso faz parte do tratamento. Mas é preciso reconhe­cer que a reabsorção dos meus inchaços é espetacular.

Nossa liberdade infelizmente é limitada porque Hélène insiste em passar todas as tardes ao lado de Victor. Raramen­te a acompanho: isso me faz envelhecer uns dez anos! Entra­mos no quarto com um sorriso agradável que ele se encarrega de apagar logo nas primeiras palavras. Sempre passou "uma noite horrível", afirmando, alternativamente, "que não pre­gou os olhos, que não pôde respirar com esse temporal, que teve dor de cabeça ou uma dor atroz no dedão".

- É a gota, Victor — digo brincando —, a doença dos bon-vivants!

Isso não lhe agrada, eu sei, mas a raiva faz bem para os mal-humorados, esses velhos que alimentamos de amor e mimos mas que transformam tudo em amargura e queixumes.

Ele quer saber o que fazemos, quem vemos na sua au­sência. Ninguém tem graça aos seus olhos.

- Ah, o pobre lérôme! É muito maricas, aquele lá!

- Ah, foram ver As horas?

O vazio na alma dessas se­nhoras que só sabem olhar para o próprio umbigo... É Virginia Woolf...

Os misóginos são como os violadores contumazes. Nós explicamos, demonstramos os fundamentos do fe­minismo, na hora eles parecem admitir, mas quando saí­mos de perto eles começam de novo, cada vez pior! Os mesmos clichês sobre "as boas senhoras", as mesmas brin­cadeiras gastas.

Uma das frases preferidas de Victor, que eu detesto particularmente: "Não tenho nada com isso." Ele acha que é um argumento. Eu o repreendo energicamente toda vez que a diz. Hélène me acusa de insultar um doente. Por que não? Fazer isso é tratá-lo como um homem normal, ao menos uma vez!

- Mesmo assim — diz Hélène com lágrimas nos olhos, enquanto saímos do quarto e Victor a acompa­nha com um olhar cheio de rancor por não suportar que viva sem ele. — Mesmo assim, Victor às vezes é iná­bil, mas durante toda a vida ele me demonstrou um imenso amor!

Um imenso amor-próprio, sobretudo, tenho vontade de corrigir. Mas não sou uma criminosa, apesar das aparências.

Dedicamos nossas manhãs a passear pela Croisette, a visitar os museus, a "magazinar", como dizem em Quebec.

E passamos as noites sendo felizes juntas. Ressuscitan­do nossas lembranças da infância. Emocionando-nos com os cavalos malhados das charretes que entregavam blocos de gelo embalados em sacos de pano para as gela­deiras forradas de zinco. Na época se compreendia me­lhor que o frio é um luxo. Lembrando o cachorrinho fox do quadro La Voix de son maître, os gramofones a mani­vela ou dos toca-discos que chamávamos simplesmente de toca-discos porque faziam os discos tocar, sem ir atrás de yahoos ou noos, fonemas que não querem dizer mais nada. Estamos felizes, mas às vezes me culpo por esta existência num casulo climatizado. Não estaríamos le­vando uma vida residual?

- Residencial, minha querida — corrige Hélène. — É a mesma coisa, mas em versão luxo. Temos que saborear a nossa sorte de viver bem, num espaço confortável, de­corado com objetos bonitos e sem nada que nos lembre as mazelas do mundo. Você não está mais em idade de brigas. Já fez bastante e se aborreceu bastante. Agora viva um pouco, minha querida... Dizer isto é um lugar-co­mum, mas aqui a vida é caricatural, "tudo é ordem e be­leza, luxo, calma..." Falta, infelizmente, volúpia. A simples realidade também começa a me fazer falta neste universo asséptico. Tenho a impressão de já estar morta, por mais que o além seja bastante agradável.

Aliás, vou ter que deixar Hélène, pois seu filho mais velho, com os sogros e Zoé, vêm a Cannes passar as férias de fevereiro. Dormimos no mesmo quarto durante a últi­ma semana para falar de todas as bobagens e coisas pro­fundas que se costumam dizer à noite, e prometemos passar algumas semanas juntas todo ano. Victor tem dois fémures, afinal! Guardei para mim este comentário de péssimo gosto, admito. É a minha idade.

Tendo me habituado ao luxo, na volta achei meu apar­tamento miserável e decidi arrumá-lo e pintar tudo, inclu­sive a minha dor. Na nossa idade, arrumar significa jogar fora. Jogo no lixo os estratos da minha existência morta, despejo pastas, recortes de jornal amarelados, revistas femi­nistas que eu conservava para me basear caso me pedissem um artigo. Há muito tempo não me pedem para escrever nada, minhas referências estão ultrapassadas, meu nome não diz mais nada a ninguém, e as jovens sirigaitas de hoje acham que os direitos que usufruem caíram do céu.

- Você só teve direito a voto aos 30 anos? Impossí­vel! — dizem essas desmioladas.

- Não havia pílula "antigamente"? Como vocês fa­ziam?— perguntam essas desculturadas, para as quais "antigamente" começa ontem e chega à Idade Média.

Ficam esquecidas a doutora Lagroua Weill-Hallé e o Planejamento Familiar, Gisele Halimi e o processo Bobigny, Simone Veil e os 800.000 abortos por ano que não eram considerados Interrupção Voluntária da Gravidez e leva­vam à morte centenas de mulheres anualmente e à esteri­lidade milhares de outras.

Isto também mata, a ignorância e o esquecimento, em­bora mulheres magníficas continuem lutando, sem subven­ções, sem reconhecimento, em meio à indiferença geral.

Não me perguntam mais a minha opinião, mas quem me impede de dá-la assim mesmo? Então me ocorreu uma idéia, depois um desejo, depois a firme determina­ção de me dedicar a um último trabalho, uma espécie de testamento feminista, que Marion publicaria depois da minha morte.

- Por que depois da sua morte? — pergunta Moira

Portanto, decidi me instalar em Kerdruc nessa primavera, durante as obras na minha casa, para escrever sossegada. Fo­ram três meses de felicidade. Escrevia toda semana a Helene, que como eu não aprecia os contatos telefônicos, e ela me devolvia, como era seu costume, umas deliciosas cartas ilus­tradas, como os livros de horas, de personagens e animais fabulosos, que me faziam lamentar uma vez mais que ela nunca tenha se decidido e aceitado expressar seu talento.

Marion veio me ver — ela nunca perde uma maré de equinócio — para me ajudar a arrumar as idéias e a acei­tar a evidência do meu envelhecimento: fico furiosa ao admitir que não posso mais escrever nada de bom depois das cinco da tarde, eu que tanto gostava de trabalhar à noite. Nunca me queixei do corpo que me coube. Este quese colocou no seu lugar — contra a minha vontade — me agrada cada vez menos. Mas é ele que se impõe.

Eu ia escrever a palavra FIM em meu livro quando o chão se abriu brutalmente debaixo dos meus pés. O céu ficou sombrio — o inaceitável tinha acontecido. Um mi­núsculo coágulo de sangue obstruiu uma arteríola do cérebro que me é quase tão precioso quanto o meu: o de Hélène. Minha irmãzinha, praticamente minha filha, acabava de receber um golpe que eu pressentia mortal.

Ela estava sozinha em casa; Victor só iria voltar na se­mana seguinte. Não recebendo sua ligação telefônica diá­ria, ele rapidamente pensou no pior e deu o alerta. O serviço de emergência arrombou a porta e encontrou Hé­lène sem consciência ao pé da cama. Ela está no hospital, mas os danos são impressionantes, confessou-me seu fi­lho: está hemiplégica, do pior lado, aquele que comanda ao mesmo tempo a mão que escreve e o hemisfério que fala. Ela perde a palavra e a escrita, ao mesmo tempo.

Vou amanhã para Cannes. Hélène tem "apenas 75 anos" e os médicos afirmam que ela pode se recuperar — em parte. O que mais dizer a alguém que acaba de escorregar do mundo dos saudáveis para essa zona delicada onde não se está nem vivo nem morto?

Quinze longos dias se passaram desde o AVC,4 como hoje se chama o derrame, e temo que minha Hélène não re­cupere os sentidos. As fisionomias furtivas dos médicos, seus discursos embaraçados, seu rosto assimétrico e, sobretudo, seu olhar de derrota me dão muito poucas esperanças.

Naquele belo outono que passamos juntas, refletimos sobre a "arte de morrer"5 e ela finalmente se inscreveu na ADMD, onde milito há tantos anos. É tão valoroso se de­clarar por uma morte escolhida quando se está em plena saúde! Mas como ter certeza de não ultrapassar o limiar fatal em que se perde o controle, de si e dos outros? En­quanto Adrien vivia, eu certamente assumia o risco de vi­ver. Também jamais teria feito "isso" com Hélène, deixá-la só. Minhas duas principais razões de viver desapareceram (ou quase), e meus filhos não precisam realmente mais de mim, ainda que creiam querer que eu me conserve. Eles conseguiram ter a vida que queriam e o meu desapareci­mento, previsível, não lhes causará mais sofrimento ama­nhã do que mais tarde.

De minha parte, não tenho a menor vontade de assistir ao envelhecimento dos meus filhos. Marion já está com 64 anos, e tenho pena dela pelo que a espera. Ela é sempre magnífica, mas para mim seria um verdadeiro escândalo vê-la aos 70 anos manifestar os mesmos sintomas que eu. Não era previsível até aqui que uma mãe visse o lindo ser-zinho que pôs no mundo se tornar um espécime cambale­ante, com o olhar baço e as mãos deformadas. E como admitir que minhas netas se tornem qüinquagenárias? A longevidade desarranja a cadeia das gerações.

Imagino Marion e eu daqui a dez anos, em Kerdruc, no café-da-manhã, com os cabelos pintados da nossa antiga cor, abrindo cada uma a sua caixa de pílulas, cartilagens de tubarão, óleos essenciais, Ômega 3, antiinflamatórios, anti-colesterol, ansiolíticos, magnésio, silício, zinco, vitaminas, hormônios, uff... Nós as engolimos penosamente, con­templando o mar, agora deserto, pois o barco teria sido vendido porque Maurice não poderia mais fazer o motor 5 CV arrancar por causa da sua tendinite. Nós o observaría­mos, comovidas, folheando suas revistas náuticas à procura de uma barcaça com motor a diesel e partida elétrica, sa­bendo bem que para nós já passou o tempo de investir. As mulheres geralmente são de um realismo desolador. Para Maurice, tudo sempre parece possível. Seus sonhos prolife­ram independentemente da realidade, o que lhe dá um ar de eterna juventude que admiro. Odeio me tornar uma destruidora de sonhos... Pois é por amor à vida que gosta­ria de deixá-la a tempo, não sem um terrível desgosto. Mas sei que tudo o que já perdi e tudo o que perco a cada dia não será substituído por nada.

Eu amei demais correr, escalar, esquiar, dirigir um car­ro, para aceitar me instalar ao comando de um andador.

Eu amei demais o gosto do vinho, dos Singles Malt e o aroma de neve eterna da vodca, para ver diante do meu prato uma garrafa de plástico cheia de um líquido incolor, inodoro e insípido.

Eu amei demais viver junto com um companheiro, para enfrentar os dias e as noites, para nos atormentar, para explicar, para resmungar, para ler a dois, para rir também, para todos os prazeres e desprazeres da vida, e para envelhecer suavemente...

Eu amei demais Xavier, Marion e Maurice, de igual para igual, para imaginar vê-los um dia em volta dos meus despojos, pretensamente viva, alimentada com gotas, oxi­genada através de um tubo e aliviada por uma sonda.

Eu amei demais me ajoelhar num jardim, aspirar o odor da terra e cavar e plantar e podar; amei demais rece­ber no rosto o sol do meio-dia, os banhos no oceano ge­lado e as caminhadas pelo mato, para adormecer na sombra de um jardim, com uma capelina na cabeça e uma coberta sobre as pernas, esperando que a noite caia... para ir me deitar!

Eu amei demais pescar, a pé ou de barco, com Marion, Amélie e Séverine, na ilha Verte, em Raguénès ou Glénan, para não chorar vendo os outros partirem, com o cama-roeiro nos ombros, um cesto a tiracolo e os olhos brilhan­tes em cada maré cheia.

Quero partir com o meu cesto carregado de lembran­ças e os olhos cheios de orgulho por ter vivido viva até o fim. Ir embora na minha hora, que não será necessaria­mente a dos médicos, nem aquela autorizada pelo papa, menos ainda a morte lenta proposta por Marie de Henne-zel, com sua bandeja de cuidados paliativos de fachada e seu sorriso cremoso.

Curiosamente, como uma espécie de compensação, es­tou cada vez mais sensível à beleza das coisas, com todas as pequenas maravilhas e os grandes espetáculos se unindo para me encher os olhos de lágrimas: o azul dos plumaba-gos, o vôo das gruas cinzentas no Le peuple migrateur, a ro­seira chamada Cézanne plantada ano passado sem muita esperança num canto pouco propício e que me oferece sua primeira rosa matizada de vermelho e amarelo em novem­bro, quando eu já não esperava, justamente para me dizer:

"Veja só!" Um barco de pesca que volta ao porto, com o cas­co tão bem talhado que quase não deixa rastro na água, o velho marinheiro de pé ao leme, seu cão adestrado na frente fazendo-se de importante como uma figura de proa... e de­pois a capela da baía dos Mortos e seu calvário de granito consumido pelas tempestades e pelas lágrimas das viúvas.

E também a poesia, curiosamente, que eu tanto amava na juventude e que reencontrei após a morte de Adrien com uma emoção adolescente — Lembra, Hélène, como gostávamos de Laforgues e seus versos desesperados, que compreendo melhor agora:


Ah, como a vida é cotidiana

Epor mais atrás que nos lembremos

Como fomos míseros e sem talento!
Muito em breve seríamos mais velhas que esse jovem poeta morto aos 27 anos.

E também os homens, algumas vezes... o gosto pelos homens nunca se perde?

Em cima de um telhado em frente à casa de Hélène, em Cannes, vi no ano passado um peão de obra magnífi­co. Eram quatro a correr sobre as telhas rosa, mas somente ele era louro como um finlandês, tinha quadris estreitos e a estampa de uma esbelteza tocante em um homem. Tra­balhava com o torso nu, e toda manhã, tomando o café, eu contemplava seus ombros queimados, com o bronzeado dourado dos louros, sua cintura delgada e seus cabelos já longos brilhando ao sol do Midi como... um capacete de ouro. Perfeitamente. E cada vez que se aproximava da bei­ra da cobertura, eu tremia por ele, cantarolando a canção de Dalida: "Ele acabava de fazer 18 anos...", desencadean­do exclamações irônicas de Hélène.

"A propensão à união existe até mesmo nos protozoá­rios e paramécios, seres assexuados", lembrava-me ela, ci­tando algum artigo da Science et Vie que Victor assinava e ela lia religiosamente.

O ser humano jamais volta a ser um paramécio. Às ve­zes fico quase chocada ao experimentar, tal como outrora, algo da emoção da protagonista quando o homem que ela ama finalmente a toma em seus braços... desde que o di­retor saiba filmar não o amor, mas o desejo, muito mais difícil de mostrar que a raiva ou a violência, que são emo­ções rudimentares.

Não ouso confessar essa emoção ou fraqueza a Hélène, que nunca enganou Victor e continua estranhamente pu­dica em relação ao que ela chama de "a sexualidade" com uma pequena careta que não me diz nada de bom.

Não podendo me satisfazer com os beijos dos outros e com raros peões de obra que se exibem, tendo perdido to­dos os meus prazeres e quase todos os amigos da minha idade, tendo escrito meu último livro, não vejo por que es­peraria passivamente o último golpe do destino. Mas como abreviar meus dias, se eu tivesse a sorte de ouvir a tempo o ranger da charrete de Anku,6 conduzida por seu cocheiro fúnebre que para mim tinha a fisionomia de Jouvet?

Na Suíça, na Bélgica e na Holanda se permite a "ajuda para morrer". Vi Exit na televisão e acompanhei a morte doce e consentida de um homem doente nos braços da esposa. E o admirável Mar adentro,7 um filme sobre a ale­gria de viver e a coragem de morrer.

A França não é mais o país das liberdades. Nossos de­putados acabam de inventar a hipócrita teoria do "deixar-morrer", fórmula terrível, bem na linha do "deixe-os viver": os dois slogans têm em comum o mesmo despre­zo pela vontade dos interessados.

Terei em conta a sua vontade, Alice, diz Moira. Por mais que não me agrade que alguém morra, pois eu ja­mais terei o direito de morrer.

Como aceder à eutanásia, essa bela palavra grega que significa simplesmente o que todo mundo deseja: "uma boa morte"?

Quando um filósofo é obrigado a se jogar de uma janela para fugir de sua doença incurável,8 quando uma mulher idosa se vê forçada a avançar pela água gelada de um pântano até ser engolida, a fim de escapar de perse­guidores que já a tinham reanimado à força duas vezes, o que é isso senão omissão de socorro? Desrespeito a uma pessoa? O que é isso senão uma morte cruel, sem o auxílio de uma mão caridosa? Só para que não seja con­denado o médico que pode ajudar ou o próximo que pode estender a mão, estamos fadados a morrer sozi­nhos na França?

- Você não está sozinha — diz Moira.

Sinto necessidade de conselhos esclarecedores e pen­sei em consultar os especialistas em vida, portanto em morte. Fui ver o neurologista que trata de Hélène, o pneumologista que cuidava de Adrien, meu próprio geriatra e até a ginecologista de Marion. Todos fizeram res­surgir do fundo da minha memória impressões enterradas há mais de cinqüenta anos! A humilhação, a impressão de ser culpada, o tom paternalista tentando disfarçar uma total indiferença, a mesma blindagem ideológica usada para o aborto antes da Lei Viu. E, para coroar o conjunto, o álibi da fé cristã de pessoas que nem mesmo vão mais à missa.

Ora, quando um ser não tem mais Esperança, é de Ca­ridade que ele necessita, não de Fé.

Ao reivindicar o direito de escolher minha própria morte como no passado reivindiquei o de dar ou não a vida, eu me encontrava de novo na mesma posição de pe­dinte diante da mesma nomenklatural E falavam comigo como se eu fosse uma menina, enquanto tinha o dobro da idade de todos esses médicos e não era culpada de ter en­velhecido demais para o meu gosto! Então minha vida não me pertencia mais?

Durante uma noite em claro, procurando a maneira de sair desse impasse, ocorreu-me de repente que nós, partidários da morte por vontade própria, tínhamos, tal­vez sem saber, um ilustre predecessor.

Subitamente, achei evidente que o próprio Jesus Cristo tinha escolhido morrer. Também parecia que ele poderia ter escapado dos seus carrascos com um milagre bem sim­ples... já fizera outros mais difíceis. E seria um insulto à sua natureza divina acreditar que o Filho de Deus tenha se deixado apanhar como um coelho e crucificado como um ladrão sem que o tivesse premeditado. Estava escrito nos desígnios de seu Pai, e Cristo escolheu se conformar com eles, morrendo.

Com esta idéia, eu me sentia estranhamente conforta­da em meu projeto.

- Não precipite o irreparável — diz Moira. — O que está esperando? Publique seu livro-testamento en­quanto vive.

Antes de guardá-lo no seu cofre para publicação pos­terior, Alice decidiu mostrar o texto à filha. Marion ficou entusiasmada, deu para Maurice ler e ambos conseguiram convencê-la a publicar sem demora.

- Este pequeno livro vai lhe trazer o sucesso que você esperou a vida toda, mamãe, você vai ver. Seria mui­to triste não viver essa aventura. A conjuntura é favorável, tenho certeza.


O Testamento feminista foi lançado três meses mais tarde. A antiga revista de Alice, Nous, les Femmes, viu nele a oportunidade de recuperar um mercado há muito tempo esquecido e decidiu publicar as melhores páginas em avant-première. O sucesso foi imediato, inesperado. Alice reencontrou as alegrias perdidas: receber uma far­ta correspondência de leitoras, antigas e novas, ser con­sultada sobre os problemas da sociedade, soltar o verbo na cara daqueles que haviam enterrado as feministas, a feminização, a paridade... e participar como estrela de programas culturais onde soube se mostrar de uma vi­rulência e de uma comicidade imprevisíveis numa pes­soa da sua idade.

Eu teria permanecido uma grande chata a vida toda de qualquer jeito, pensa Alice, e acontece que é por isso que me apreciam hoje!

- "O que vem ao mundo para nada abalar, não me­rece consideração nem paciência"* — diz Moira.

Alice não teve o prazer de dividir sua alegria com He­lene, vítima de um segundo ataque e que desaparecia pouco a pouco na inconsciência. Mas teve a felicidade de ver nascer o primeiro filho de Séverine e de chorar de emoção e cumplicidade nos braços de Marion descobrin­do que Brian conseguira mais uma vez se insinuar em sua descendência sob a aparência desse menininho de um ruivo insolente.

Hélène se foi no outono. Alice começava a ter sérias dificuldades na visão, que uma operação de catarata tinha apenas adiado. Ela avisara os filhos de que não conseguiria viver na dependência, sem ler, sem ver a cor do céu e do mar, mas se recusava a envolvê-los numa decisão pela qual se considerava a única responsável.

Prefiro que vocês não saibam nada de concreto. Que possam pensar que, talvez, afinal eu tenha morrido de morte natural. Sei que vão ficar muito tristes, mas não te­nho como evitar, de qualquer forma.



- Nunca tive pressa de ver meus protegidos desapa­recerem — diz Moira. — Eu me apego a eles. Não deveria. Mas amo você o suficiente, Alice, para admitir que desista, porque você soube agarrar as suas oportunidades e todas as que eu pude oferecer. Incluindo a última: morrer no seu momento. Quando você estiver pronta, estarei lá, Alice. Faça-me um sinal, dê um toque na tecla estrela. Eu me encarrego do resto, minha pequena.



1Pierre Heuyer, morto em 1944 no sanatôrio de Sancellemoz. No original: Quand le temps se fait chair I Quand mes gestes perdus I Dans le vent de l'ab­sence agitent I leurs fantômes I Quand mon être poreux laisse fuir I sans retour/ L'automne échevelé qui n'a pas eu d'été I Et que tes larmes vaines, ô mon aimeé I N'ont pas le clair destin de naître I pour des sources I Mais que tout est sans fin sans but / et sans espoir/Je sens sombrer comme un navire I l'éternité.

2No original: Ami Tristan I Vous êtes mort pour mon amour / Et je meurs, ami, de tendresse I Car je n 'ai pu venir à temps I Ni n'ai pu forcer stances d'Yseult, versos 3.110 a 3.120, do Tristan de Thomas, século XII.

3 inspiração e minha vida. No original: Ami Tristan I Vous êtes mort pour mon amour / Et je meurs, ami, de tendresse I Car je n 'ai pu venir à temps I Ni n'ai pu forcer

4 Acidente vascular cerebral.

"Como a chamou Françoise Giroud em Leçons particulières.

5'Associação pelo Direito de Morrer com Dignidade.

6* anuncia a morte para os bretões.

7 *Filme espanhol de Alejandra Amenábar, inspirado numa história real que comoveu toda a Espanha, a de Ramon Sanpedro, quadriplégico há 20 anos e que no limite da coragem consegue enfim se libertar graças à ajuda de seus amigos

8** GillesDeleuze.


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