Casa de Cinema de Porto Alegre



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Casa de Cinema de Porto Alegre
apresenta


T
olerância


Décimo segundo tratamento

Maio de 1999


Roteiro de

Carlos Gerbase

Jorge Furtado

Álvaro Teixeira

Giba Assis Brasil

CENA 1.

interior - casa de Júlio/escritório – dia (9h)


Créditos iniciais superpostos.
Tela de computador. Uma foto de Júlio, com 18 anos, vai se tornando nítida, à medida em que o zoom digital diminui e os pixels transformam-se em seu rosto.
JÚLIO (OFF)

Quando eu tinha dezoito anos, achava que as paredes da casa da minha mãe eram brancas demais. E que pra mudar o mundo a gente tinha que começar pelo lado de fora. O que eu mais queria era sujar as paredes.


Tela de computador. Uma foto de Márcia, com 18 anos, vai se tornando nítida, à medida em que o zoom digital diminui e os pixels transformam-se em seu rosto.
MÁRCIA (OFF)

Quando eu fiz dezoito anos, decidi sair de casa. Mas eu não tinha pra onde ir. Aí uns amigos me convidaram pra passar um fim de semana no interior. (pausa) Ah, Júlio, não vou querer gravar isso não.


A mão de Júlio manipula um mouse. Na tela do computador, que mostra a interface de um software que manipula áudio, vemos que a parte final da fala de Márcia está sendo apagada.
Júlio, 40 anos, está no escritório de sua casa, sentado à frente de uma mesa que abriga um computador poderoso, scaner, impressora, gravador de CD-ROM, tudo ligado. A sofisticação do equipamento contrasta com pilhas vacilantes de badulaques que entopem o resto do quarto: revistas velhas, caixas, fotos amarelecidas, alguns filmes super-8, livros e fitas de vídeo. Uma pequena televisão, desligada, também está sobre uma das estantes. O ambiente é de semi-penumbra com a janela e a porta fechadas. Apenas um pequeno abajur está ligado.
Num canto da mesa, precariamente equilibrado, um projetor super-8 roda um rolinho de filme. A imagem chega a um dos poucos espaços livres na parede. Júlio manipula uma pequena câmara de vídeo sobre o tripé, apontada para a imagem do filme super-8. Um fio sai da câmara e vai até o micro. Numa janela do monitor, vemos a mesma imagem em movimento que está na parede.
O filme, com cores desmaiadas e a sujeira típica dos super-8 antigos, mostra uma manifestação dos Sem Terra, em 1978, no interior do Rio Grande do Sul. Entre as centenas de agricultores, a câmara descobre Márcia, 18 anos, vestindo uma camiseta de Che Guevara. Ela percebe que está sendo filmada e sorri, encabulada. Seguem-se outras imagens de Márcia (tomando chimarrão, caminhando com os manifestantes, assistindo a um discurso, etc.). Na última delas, está abraçada em Júlio (aqui com 20 anos). Os dois abanam para a câmara, sorridentes.
JÚLIO (OFF)

Foi aí que a gente se conheceu, Encruzilhada Natalino. Nós acreditávamos que o Brasil do futuro estava sendo gerado naquele instante, na frente dos nossos olhos, no visor da minha câmara. E estava mesmo. Só que o futuro seria bem diferente do que a gente imaginava.


Júlio, em seu escritório, também sorri. O filme termina. Júlio desliga o projetor, confere alguma coisa no monitor e clica o mouse. Abre um pouco a janela, iluminando mais o escritório. Júlio, sempre olhando para o monitor, clica o mouse mais algumas vezes até que a primeira imagem de Márcia volta a aparecer. Digita sobre a imagem “Encruzilhada Natalino”. Clica o mouse. A imagem se move por alguns momentos, devidamente identificada.
Júlio clica outra vez, interrompendo a gravação e a imagem do filme no monitor. Pega uma caixa cheia de fotos antigas e começa a separar algumas, colocando sobre a mesa. Examina por algum tempo uma foto de Márcia de biquíni, sorri e coloca de volta na caixa. Leva uma das fotos para o scaner. Aciona o aparelho. Logo uma foto de Márcia (ainda bem jovem, desta vez de minissaia ou bermuda) aparece na tela do monitor. Outras fotos de Márcia se sucedem, como se fossem digitalizadas logo a seguir.
Foto de Júlio com sua câmara. Foto dos dois juntos, felizes.
Foto de Márcia como “bixo” da universidade, toda pintada e lambuzada.
Foto de Márcia segurando o Código Penal numa mão e um baseado na outra.
Júlio olha para a foto no monitor, sorri e depois aperta “Delete”.
Foto de Júlio com toga na formatura de Jornalismo.
Foto de Júlio na estação rodoviária, entrando num ônibus com destino a uma cidade muito distante (pesquisar qual linha era a mais longa).

Foto de Júlio com sua câmara, em local árido. Júlio de barba, meio sujo, com um chapéu na cabeça.


Fotos das viagens de Júlio, por vários estados, retratando as "injustiças sociais" do Brasil: pobreza, manifestações de trabalhadores e estudantes, repressão policial, crianças subnutridas, etc.
Fotos do nascimento de um bebê; o bebê sendo amamentado por Márcia; Márcia trocando as fraldas do bebê; o bebê dormindo.
Foto de Márcia de toga na formatura de Direito, perto de uma “estátua da Justiça”.
Fotos de Guida com uns quatro anos, indo para o colégio.
Foto de Márcia em sua sala no escritório, com uma montanha de papéis sobre a mesa e uma cara de resignação.
Foto de Júlio, em casa, com seu primeiro computador (Apple II ou semelhante - pesquisar).
Foto de Júlio, Márcia e Guida (com uns 4 anos) numa manifestação. Os três vestem camisetas das "Diretas já".
Júlio sentado numa mesa de reuniões com os executivos da revista. Ambiente “clean”, moderno (ou seja: cafona). Algumas fotos e revistas em cima da mesa, mas longe da câmara o suficiente para não identificarmos o gênero da publicação.
Terminam os créditos iniciais.
Toca o telefone, interrompendo Júlio. Ele atende e enquanto fala, dá alguns cliques com o mouse, salvando suas últimas ações.
JÚLIO

Alô. (...) Não... Mas tu não disse que... (...) Tá, eu não vou discutir... (...) Tudo bem. Tô indo praí. (desliga, irritado)




CENA 2.

interior – escadaria do fórum – dia (12h)


Márcia, 37 anos, de toga, com uma pilha de processos na mão, sai do fórum, acompanhada de dois outros advogados. Teodoro, 30 anos, vestindo um terno pequeno demais para ele, nervoso, está esperando. Aproxima-se de Márcia.
TEODORO

Doutora Márcia.


MÁRCIA

(sorrindo) Ôi, Teodoro. A sessão só começa às duas.
TEODORO

É que... Eu queria falar com a senhora.


MÁRCIA

Pode falar.


Teodoro hesita um pouco, olha para os advogados e acaba falando:
TEODORO

Eu... Quero contar a verdade.


O sorriso de Márcia se desmancha, mas ela logo recupera o tom confiante. Os dois advogados sorriem para Márcia e se afastam.

MÁRCIA


Pode ficar tranqüilo, Teodoro. (pausa) Eu tenho certeza que vai dar tudo certo.
Teodoro continua olhando para Márcia, angustiado.
TEODORO

Pode ser. Mas eu queria que a senhora soubesse o que aconteceu, o que aconteceu de verdade.


MÁRCIA

Teodoro, eu já expliquei: eu estou alegando legítima defesa, e eles querem provar que tu atirou primeiro. Só que eles não podem fazer isso, não tem como fazer isso. Só se tu confessar. E aí a tua esposa e os teus filhos, vão te visitar na cadeia, todo santo domingo, por muitos anos. É isso que tu quer?


TEODORO

Eu só quero contar o que aconteceu de verdade. Pelo menos para a senhora.


MÁRCIA

Que diferença isso faz?


Teodoro não responde. Márcia suspira fundo, cansada, e fica alguns segundos olhando para Teodoro.

CENA 3.

interior - estúdio fotográfico – dia (12h30)


Júlio entra no estúdio de Emanuel, 30 anos. O fotógrafo está trabalhando com sua assistente, 25 anos, um maquiador, 30 anos, e a modelo Coralina, 20 anos. Todos parecem cansados. Coralina está nua, deitada de bruços, sobre um sofá de veludo. Não há qualquer erotismo no ambiente. Assim que Júlio aparece, Emanuel deixa a câmara e se aproxima dele, com ar irritado.
EMANUEL

Tu demorou!


JÚLIO

Não devia nem ter vindo. Esse tipo de problema...


CORALINA

(por trás deles) Posso me vestir?
EMANUEL

(virando-se para ela) Não te mexe!
CORALINA

Mas eu tô cansada...


EMANUEL

(quase gritando) Fica aí. Quieta! (para o maquiador) Retoca ela, Ulisses. (para Júlio, mais baixo) Estamos aqui há seis horas, já gastei uns dez filmes, mas agora que ela virou tô sentindo que a coisa não vai funcionar.
JÚLIO

Por quê?
EMANUEL

A bunda. A bunda não tá legal.
Júlio olha para a modelo, que está sendo maquiada por Ulisses.
JÚLIO

Qual é o problema?


EMANUEL

Tá cego, Júlio? Essa menina engordou uns quatro quilos desde a última sessão.


JÚLIO

Então não mostra a bunda.


EMANUEL

O quê? Tá louco? Posso esconder os dentes, os pés, as orelhas, as pernas... Mas a bunda tem que mostrar. E tu vai dar um jeito.


Júlio respira fundo, olha para Emanuel e se aproxima do sofá, onde Coralina, agora vestindo um roupão, está sendo maquiada por Ulisses.
JÚLIO

(sorrindo) Ôi, tudo bem?
CORALINA

Mais ou menos.


JÚLIO

Talvez eu possa ajudar. Tu pode deitar outra vez?


Ulisses se afasta. Coralina tira o roupão e deita de bruços. Júlio olha para a bunda de Coralina com ar profissional. Abaixa-se, muda de ângulo. Sorri outra

vez.
JÚLIO

Obrigado.
CORALINA

(seca) De nada.
Júlio volta a se aproximar de Emanuel.
JÚLIO

Eu posso retocar a superfície, mas a curva... Não sei. Bunda é uma coisa delicada de mexer. Pode ficar artificial.


EMANUEL

Eu sabia...


JÚLIO

Talvez dê pra trocar a bunda inteira. Coloco a da Vanda. Elas são parecidas. Ninguém vai notar.


EMANUEL

Trocar a bunda? Pelo amor de Deus, Júlio!


JÚLIO

Qual é o problema? As imagens da Vanda ainda estão no meu computador. Eu separo e...


EMANUEL

Pra tudo há um limite. Mexer na cor dos olhos, ajeitar um pouco os seios, mas... trocar a bunda é demais!


JÚLIO

Tu prefere refazer todas as fotos?


Emanuel olha para a modelo, irritado.
EMANUEL

Não dá. Nem tenho filme pra isso. Júlio, tu tem que pensar em outra coisa.


JÚLIO

Não tenho tempo pra pensar em mais nada. Eu troco a bunda hoje de noite, te mando pela Internet e a gente vê o resultado na banca. (aponta para Coralina) Nem ela vai notar.


Emanuel olha para Júlio, em dúvida.

CENA 4.

exterior – campo aberto – dia (passado)


Ao lado de uma cerca derrubada, Orestes, 40 anos, segura uma espingarda, mantendo-a apontada para o chão.
ORESTES

Tu acha que eu vou entregar a terra do meu pai pro filho de uma prostituta como tu? Eu prefiro a morte.


Teodoro saca um revólver e aponta na direção de Orestes. Orestes é atingido na base do pescoço, mas ainda consegue atirar de volta, acertando as pernas de Teodoro. Os dois caem, ensangüentados.

CENA 5.

interior – quarto de hotel – dia (13h)


No quarto de um hotel barato, Teodoro, sentado na cama, nervoso, pouco à vontade, fala com Márcia, que está sentada numa cadeira perto dele.
TEODORO

Foi assim que aconteceu. Eu atirei primeiro.


MÁRCIA

Eu sei. Mas nós não podíamos contar a história desse jeito.

TEODORO

Eu quero falar a verdade. (levanta-se e vai para a janela) O Orestes tava me ameaçando, entrava na minha plantação, derrubava a cerca, assustava as crianças. (volta-se para Márcia) E aquela terra é minha. Ele não pode nos tirar de lá. O velho deu pra minha mãe. Eu tenho direito.


MÁRCIA

(com paciência) Eu já expliquei, Teodoro. Tu tem direito sobre a terra porque a tua família está lá há muito tempo. (mais enfática) Esquece o resto! Tu já deu o depoimento.
TEODORO

Eu não posso mudar?


MÁRCIA

Não! Ele atirou primeiro e tu teve que te defender.


Teodoro senta na cama outra vez.
TEODORO

A senhora não entende? Eles vão continuar atrás de mim, eles me odeiam, já tinham me jurado...


MÁRCIA

(irritada) Presta bem atenção... Tu matou um sujeito rico, um sujeito poderoso. A família dele tá pressionando. Eles querem que tu passe o resto da vida na cadeia. (pausa) E é exatamente isso que vai acontecer, se tu mudar o que a gente combinou.
TEODORO

(hesitante, fragilizado) Eu só queria dizer que eu tava defendendo o que é meu. (pausa) Eu só queria falar a verdade.
MÁRCIA

(mudando o tom, carinhosa) Nem sempre falar a verdade é a melhor solução.
TEODORO

Devia ser.


MÁRCIA

Mas não é. (pausa) Tu tem que confiar em mim.


Márcia, solidária, sinceramente comovida com a simplicidade dele, pega a mão de Teodoro, que olha para ela, confuso.

CENA 6.

exterior – campo aberto – dia (passado)


Ao lado de uma cerca derrubada, Orestes, 40 anos, segura uma espingarda, mantendo-a apontada para o chão.
ORESTES

Tu acha que eu vou entregar a terra do meu pai prum filho-da-puta como tu? Nunca!


Orestes levanta a espingarda e atira em Teodoro, que é atingido nas pernas, mas ainda consegue atirar de volta com seu revólver, acertando o peito de Orestes. Os dois caem, ensangüentados.
MÁRCIA

(OFF) Foi assim que aconteceu.
CENA 7.

interior – tribunal do júri – dia (17h)


Márcia está terminando sua defesa de Teodoro, em frente ao júri, composto por sete pessoas. Na sala do tribunal, estão presentes, além dos familiares de Teodoro (uma mulher de uns 30 anos e três crianças), uns seis jornalistas.
MÁRCIA

A história da luta pela terra no Brasil é uma história sangrenta, que já causou milhares de mortes. E, cada vez que novas vítimas aparecem, a discussão se resume a definir quem deu o primeiro tiro. Será mesmo esta a questão? (pára na frente de um dos jurados) Imagine a seguinte situação. O senhor está em casa, a casa onde vive com a sua família, há mais de trinta anos. A casa onde seus filhos nasceram. E então um homem que já lhe ameaçou muitas vezes, entra na sua casa, lhe ofende, lhe agride e diz que vai lhe matar. O homem é violento e lhe aponta uma arma. Imagine que o senhor, que já foi muitas vezes ameaçado de morte, em público, por este homem, o senhor também tem uma arma. Quanto tempo o senhor vai ficar esperando que este homem, este homem violento, armado, gritando que vai lhe matar, dê o primeiro tiro? (pausa) Teodoro esperou, talvez mais do que devia. Uma espera que poderia ter lhe custado a vida, porque o homem atirou, um tiro de espingarda, à queima roupa. Teodoro respondeu o tiro, para se defender, para defender a sua casa e a sua família. Esta é a verdade. E nada do que o promotor ou as testemunhas disseram neste processo contestam esta verdade. (pausa) Este país, senhores jurados, não pode mais conviver com a mentira, com a pressão do poder econômico, com as eternas injustiças aos pequenos agricultores, aos sem-terra, aos sem esperança. Tenho certeza, senhores jurados, que a justiça será feita, e que este inocente (aponta para Teodoro), que agiu em legítima defesa, sairá deste tribunal livre, de cabeça erguida, e que as senhoras e os senhores hoje dormirão com a consciência tranqüila, porque este brasileiro estará voltando para o trabalho e para a sua família. Muito obrigado.


Márcia, satisfeita, volta para seu lugar, ao lado de Teodoro, e olha pros promotores, que estão cochichando entre si. Atrás deles, está Juvenal, 30 anos, parecido com Orestes. Juvenal olha pra Márcia de forma significativa, como se quisesse dizer alguma coisa pra ela. Márcia sustenta o olhar, levemente perturbada.

CENA 8.

interior - casa de Júlio/escritório – noite (19h)


Júlio trabalha no computador de sua casa, examinando, uma a uma, as fotos agrupadas na pasta "Vanda". É uma atividade enfadonha. Júlio esfrega os olhos. Pára numa foto, em que a modelo está de bruços, numa pose parecida com a de Coralina no estúdio. Júlio começa a "recortar" a bunda, separando-a do resto do corpo. Copia e cola num novo arquivo, que chama de "bunda1".

CENA 9.

interior – tribunal do júri – noite (21h)


O juiz olha por alguns instantes para um papel. Márcia, Teodoro, os promotores e Juvenal, todos de pé, olham para ele.
JUIZ

Em conformidade com a decisão do conselho de sentença, declaro absolvido o réu Teodoro Schmidt da imputação que lhe foi feita.


Márcia abraça Teodoro. Uma mulher de uns 30 anos e três crianças (3, 5 e 8 anos) correm e também abraçam Teodoro. Juvenal continua olhando para Márcia. Ela recolhe suas coisas e vai saindo. Na porta, Juvenal a espera.
JUVENAL

(calmo) A senhora soltou um assassino.
Márcia pára e olha para ele por um instante, mas decide não responder. Continua caminhando.

JUVENAL


(mais alto) Espero que não se arrependa.

CENA 10.

interior - casa de Júlio/escritório – noite (22h)


Júlio está colando a bunda de Vanda sobre a bunda de Coralina. Boceja. Olha o relógio do monitor: 9:31 PM. Espreguiça-se. Corre com o mouse até o ícone "Bate-bapo". Clica. Surge a ampulheta. Levanta e pega, numa estante, entre duas pilhas de revistas, uma garrafa de uísque. Serve um pouco num copo. Toma um gole. Volta a sentar.
Na tela do Bate-papo, digita, logo depois do nome "Ivanhoé": "Sabrina, vc tá aí?". A resposta é quase imediata: "Estou." Júlio sorri e digita: “Vc sentiu saudade?" Sabrina: “Muita”. Júlio: “Como vc está vestida?" Enquanto Júlio olha para o monitor, vendo a frase se formar, ouvimos a voz de Sabrina.
SABRINA

(OFF) Eu estou com um macacão de couro preto...
Júlio se recosta na cadeira e fecha os olhos. Quando abre outra vez, vê Sabrina, uma morena alta, de olhos escuros, vestida com um provocante macacão de couro, em cima da mesa, onde antes estava o monitor.
SABRINA

...com um grande decote, um imenso decote, que começa na altura do umbigo e vai subindo, subindo... Você não quer ver mais de perto?


JÚLIO

Quero.
Sabrina aproxima-se ainda mais.


SABRINA

Pronto, agora estou quase encostada em você.


JÚLIO

(estende a mão) Eu estendo a mão e toco a sua pele, no início do decote e vou subindo devagar...
A mão de Júlio percorre o corpo de Sabrina, na direção dos seios. Barulho de porta abrindo.
MÁRCIA

(OFF) Júlio?
Sabrina "desaparece". Júlio, surpreso, rapidamente tira a tela do Bate-bapo e troca pela do Photoshop.
JÚLIO

No escritório.


Márcia entra. Dá uma olhada rápida para a tela do monitor, que exibe a bunda recortada de Vanda sobre a foto de Coralina. Beija Júlio e senta no seu colo. Sorri.
JÚLIO

Parabéns!


MÁRCIA

Tu já sabe?


JÚLIO

Vi na televisão.


MÁRCIA

Foi por um voto.


JÚLIO

Tu achava que ia perder. O que aconteceu?


MÁRCIA

Nada demais. Eu troquei a ordem dos tiros, falei dos agricultores sem terra do Brasil, da injustiça social no campo, falei de política, fiz uma salada... O júri engoliu, e o meu cliente não atrapalhou. Bem que ele queria, mas ficou quieto.

JÚLIO

(confuso) Então tu...
MÁRCIA

Por quê tá me olhando com essa cara?


Márcia levanta do colo de Júlio. Pega o copo de uísque e toma um gole.
MÁRCIA

Acabou. Deu certo. Ele é inocente.


JÚLIO

(ainda chocado) Eu preferia que tu não me contasse essas coisas...
Márcia toma outro gole.
MÁRCIA

Eu conto tudo pra ti. Tudo. (beija Júlio) Foi o que a gente combinou, lembra? (mais um gole) Não quero mais falar nisso. Cadê a Guida?


JÚLIO

Ela não vai conosco. Telefonou dizendo que tem ensaio. Vai dormir na casa de uma amiga, e as duas sobem amanhã de manhã.


MÁRCIA

(estranhando) Que amiga?
JÚLIO

É da banda (pausa). A Guida garante que ela é maior de idade, não bebe e não passa dos oitenta na estrada.



MÁRCIA


Tu não devia ter deixado.

JÚLIO


Fazer o quê? Trazer a Guida à força? (pausa) Foi tu que deu a guitarra.
MÁRCIA

Eu queria ao menos conhecer essa amiga. Essa criança anda muito sem limites.


JÚLIO

Vai conhecer amanhã. A Guida não é criança. Tem quase dezoito.


MÁRCIA

É... Quase. (termina de beber) Eu tô cansada demais pra viajar hoje. Quem sabe a gente vai amanhã bem cedo? Tu te importa?


JÚLIO

(sorrindo) Não.
MÁRCIA

Eu vou tomar um banho.


Márcia sai do escritório. Júlio troca a tela do Photoshop pela do Bate-papo e digita: "Sabrina?". Não há resposta. Júlio coloca um CD. Toma mais um gole de uísque. Sai do Bate-papo e entra num site pornográfico. Manda baixar uma foto, que vai aparecendo bem devagar. É de uma modelo com os cabelos molhados e os ombros nus.
Márcia entra no escritório, enrolada em uma toalha azul. Olha para Márcia. De certo modo, ela reproduz a foto da Internet ao vivo.
MÁRCIA

Tu ainda vai ficar muito tempo?


JÚLIO

Não. Vou só mexer um pouco mais naquela bunda.

MÁRCIA

(beija Júlio) Boa noite.
Márcia sai. A foto da Internet agora está inteira. Vemos que a modelo, nua, segura uma toalha aberta sobre seus ombros, mostrando seu corpo.

CENA 11.

interior - casa de Júlio/quarto do casal – noite (23h)


Júlio entra no quarto e deita na cama. Márcia está dormindo, com a luz de cabeceira ligada e com o controle remoto na mão. A TV exibe um programa tipo "Sexy-Time", com imagens ousadas de Coralina. Júlio, surpreso, olha o programa por alguns instantes. Depois aciona o controle remoto e desliga a TV. Júlio olha para Márcia. Júlio retira lentamente parte do lençol que cobre o corpo de Márcia (que dorme com uma camisola curta) e a admira por alguns instantes. Depois, sorrindo, beija o rosto de Márcia, apaga a luz de cabeceira e fecha os olhos.

CENA 12.

exterior - casa de campo/fachada (Gramado) – dia (10h)


Belo dia de sol. O carro de Júlio pára na frente de uma casa rústica, típica da serra gaúcha. Márcia e Júlio desembarcam.


CENA 13.

exterior – casa de campo (Gramado) – dia (11h)


Márcia e Júlio seguem por uma trilha entre as árvores. Os dois estão com roupa de banho e carregam toalhas.

CENA 13A.

exterior - cachoeira (Igrejinha) – dia (11h)


Chegam a uma pequena cachoeira. Júlio experimenta a água e faz cara de quem achou fria, mas Márcia entra e logo se molha. Puxa Júlio para dentro da água.
Ele protesta, mas ela o abraça e beija na boca, de leve. Ele ainda tenta sair da água, mas então ela o segura e beija com mais apetite. Ele retribui. O beijo se prolonga. Eles se olham. Fica evidente que estão com tesão. A mão de Júlio vai até a parte de cima do biquíni (ou maiô) de Márcia e acaricia os seios, ainda por cima do tecido. Mais um beijo.
Os dois saem da cachoeira e vão até um recanto gramado atrás de uma pedra, onde estão razoavelmente protegidos de olhares indiscretos. Júlio coloca as toalhas no chão. Os dois se deitam, lado a lado, e continuam se beijando. Júlio retira a parte de cima do biquíni (ou maiô) de Márcia, que sorri e passa a mão no peito de Júlio. Márcia então deita de costas e fecha os olhos. Júlio olha para ela e também sorri.
Agora vemos apenas o rosto de Márcia, iluminado pelo sol, que ultrapassa os galhos de uma árvore, formando sombras em constante movimento. Ela demonstra alegria e prazer. Abre os olhos e olha na direção de Júlio (que continua fora de quadro). A mão de Márcia segura a toalha e a amassa com força. Estende um pouco mais o braço e toca a grama. Enterra um pouco os dedos. Vemos outra vez o seu rosto.
Agora vemos o rosto de Júlio, de perfil, aproximando-se da nuca de Márcia. Afasta os cabelos de Márcia e morde levemente a nuca. Vemos o rosto de Márcia reagindo à mordida. Os dois estão deitados de lado, “encaixados”, com Júlio por trás de Márcia. Vemos as quatro pernas entrelaçadas (das coxas para baixo) e os movimentos que fazem para alcançar a posição mais adequada. Começam a transar. É uma transa bastante intensa. Vemos os rostos dos dois, cada vez mais excitados. Quando a transa termina, ambos estão ofegantes, mas muito felizes. Márcia vira-se lentamente e encara Júlio. Os dois se abraçam e trocam mais um beijo. Márcia sorri.
MÁRCIA

Essa cachoeira sempre rendeu...


JÚLIO

É.
Márcia se enrola na toalha e fica no sol, secando-se. Júlio senta ao lado dela, esfregando seu cabelo com a toalha.


JÚLIO

Márcia, eu fiquei toda a viagem pensando em te contar uma coisa... Não tive coragem. Mas acho que agora tenho.


MÁRCIA

Então conta.


JÚLIO

É uma bobagem... É que... na Internet, eu... às vezes falo com umas pessoas...


MÁRCIA

Que pessoas?

JÚLIO


Pessoas... que eu só conheço pelo apelido.
MÁRCIA

(sorrindo) Certo. Tu tem amiguinhos por correspondência.
JÚLIO

É. Bom, na verdade, amiguinhas...


MÁRCIA

E o que tu conversa com essas amiguinhas?


JÚLIO

(com dificuldade) Eu converso... basicamente... sacanagem.
MÁRCIA

(cantando) Ivanhoé! Ivanhoé! Cavaleiro justiceiro sem pudor...
JÚLIO

(surpreso) Como tu sabe?
MÁRCIA

A Guida me contou, faz tempo.


JÚLIO

(mais surpreso ainda) A Guida?
MÁRCIA

Nós também já brincamos. Mas achei meio chato. Não dá pra sentir tesão e datilografar ao mesmo tempo. Ainda mais tendo que pensar se tesão é com S ou com Z.


JÚLIO

Mas não...


MÁRCIA

Tu é muito ingênuo, Júlio. Eu já entrei no escritório, quando tu tava no Bate-papo e tu nem percebeu. Mas tudo bem... Cada louco com sua mania. Só acho estranho esse apelido: Ivanhoé! Já pensou a dificuldade de fazer sexo com aquelas malhas de aço, capacete...


Júlio está arrasado. Evita olhar para Márcia.
MÁRCIA

Não fica assim. Eu te amo, tarado da Internet.


Márcia subitamente fica séria. Vira o rosto de Júlio até que ele olha para ela.
MÁRCIA

Eu também tenho uma coisa pra te contar...(pausa) Bom...


Júlio olha para Márcia, curioso.
MÁRCIA

Eu... Transei com um cara.


Pausa.
MÁRCIA

Ontem. Eu transei com o Teodoro.


JÚLIO

Mas... Como?


MÁRCIA

Eu não sei o que aconteceu comigo. Enfim... aconteceu.



JÚLIO


(nervoso) O teu cliente, o cara que tu defendeu...
MÁRCIA

Eu estou dizendo que não teve importância alguma. Não estou envolvida com ele. Foi uma bobagem. Não vai se repetir. Eu poderia ficar quieta, mas não consigo. Prefiro assim. A gente sempre jogou limpo um com o outro.


JÚLIO

(mais nervoso ainda) Tu tem a cara-de-pau de transar comigo e dois minutos depois...
MÁRCIA

Eu te amo, Júlio. E estou apaixonada por ti. E tinha que te contar. (pausa) Eu só minto profissionalmente. Meu trabalho é esse. Pra ti eu não vou mentir. Nunca!


JÚLIO

(levantando-se, transtornado) Tu pensa que é assim tão fácil...
Júlio e Márcia escutam a voz de Guida.
GUIDA

(OFF) Mãe! Pai! Vocês tão aí?
MÁRCIA

A Guida!
Júlio e Márcia colocam as roupas rapidamente. No fim da trilha, surgem Guida e Anamaria. Guida, 17 anos, é magra, bonita, mas ainda parece mais uma adolescente que uma mulher. Anamaria, 20 anos, é, decididamente, uma mulher. E muito bonita. As duas estão vestindo camisetas e shorts. Aproximam-se de Júlio e Márcia, sorridentes.


GUIDA

(olhando para os pais, com ar sacana) Que coragem! (para Anamaria) Essa água é gelada!
JÚLIO

Faz bem pra saúde.


GUIDA

(apontando para Anamaria) Essa é Anamaria.
ANAMARIA

Ôi.
Márcia e Júlio beijam Anamaria. Júlio olha Anamaria, admirado com sua beleza.


MÁRCIA

Vamos subir? Agora fiquei com frio.



CENA 14.

exterior - casa de campo/fachada – dia (12h)


Os quatro chegam na casa. Júlio e Márcia estão um pouco ofegantes. Márcia entra. Júlio fica na sacada com as duas meninas, pegando sol. Júlio senta.
GUIDA

Tu tá precisando fazer mais exercício, pai. Parece um velho!



JÚLIO


(respirando fundo) Acho que tô meio fora de forma.
GUIDA

Eu e a Anamaria programamos uma seção de ginástica pra hoje.





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