Código Explosivo



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KEN FOLLETT


CÓDIGO EXPLOSIVO
Tradução

HAROLDO NETTO



Título original

CODE TO ZERO
Copyright © Ken Follett, 2000

Todos os direitos reservados.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens,

localidades e incidentes são produtos da imaginação

do autor ou são usados de forma ficcional, e qualquer

semelhança com pessoas reais, vivas ou não,

estabelecimentos comerciais, acontecimentos

ou lugares é mera coincidência.

Direitos para a língua portuguesa reservados

com exclusividade para o Brasil à

EDITORA ROCCO LTDA.

Rua Rodrigo Silva, 26 — 5º andar

20011-040 — Rio de Janeiro, RJ

Tel.: 2507-2000 — Fax: 2507-2244

e-mail: rocco@rocco.com.br

www.rocco.com.br



Printed in Brazil/lmpresso no Brasil

preparação de originais

MÔNICA MARTINS FIGUEIREDO



http://groups.google.com/group/digitalsource

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Follett, Ken, 1949-

F724c Código explosivo / Ken Follett; tradução de Haroldo Netto. — Rio de Janeiro: Rocco, 2001
Tradução de: Code to zero

ISBN 85-325-1281-X


1. Ficção inglesa. I. Haroldo Netto. II. Título.
01-0816 CDD-823

CDU-820-3



Contra Capa

Um homem acorda e percebe que es­tá deitada na chão de uma estação ferroviária. Ele não se lembra de como chegou ali. Esqueceu onde mora. Não tem a mínima idéia de qual seja seu nome.

Assim começa Código explosivo, uma arrebatadora história de intriga, espio­nagem e conspiração que Ken Follett es­creveu baseada em um evento real: o inexplicável adiamento do lançamento do Explorer I, em 1958.
Orelhas do Livro

Janeiro de 1958 — ano negro da Guerra Fria e do prematuro amanhecer da Corrida Espacial. Em Cabo Canaveral, uma contagem regressiva está começando. Na plataforma de lançamento 26B está o Explorer I, a maior esperança dos Estados Unidos de recuperar a liderança na conquista do espaço, competindo com o Sputinik.

Certa manhã, o Dr. Claude Lucas acorda na Union Station, Washington D.C., vestido como um mendigo. Vítima de amnésia, Luke, como era ge­ralmente chamado, não faz idéia de que é uma peça chave no lançamento do Explorer I. A medi­da que ele desvenda as pistas que levam à sua identidade, a CIA segue seu próprio itinerário. A agência, dirigida por Anthony Carroll, um velho amigo de Luke, dos tempos de faculdade, tem tenebrosas razões para esperar Luke recuperar-se da amnésia e até mesmo matá-lo, caso ele tente interferir no lançamento do foguete. É imprescin­dível, portanto, que Luke descubra aquilo que al­guém deliberadamente desejou que ele esque­cesse, para que seja capaz de salvar a decolagem do Explorer e, com isso, o próprio futuro dos Es­tados Unidos.

Dinâmico, temperado com boas doses de ro­mantismo e sem ser mais cerebral do que neces­sário, este thriller de espionagem apresenta Ken Follett em sua melhor forma.

KEN FOLLETT nasceu no País de Gales e começou sua vida profissional como repórter do jornal London Evening News. Seu primeiro sucesso como escritor veio com O buraco da agulha (1978), vencedor do prêmio Edgar Allan Poe, de melhor romance de mistério do ano.

Do autor, que é casado e vive em Londres, a Rocco publicou Os pilares da terra, Um lugar chamado liberdade, O terceiro gêmeo e O mar­telo do Éden.



NOTA HISTÓRICA: O lançamento do primeiro satélite espacial americano, o Explorer I, foi originalmente previsto para 29 de janeiro de 1958, quarta-feira. Ao final daquela tarde, foi adia­do para o dia seguinte. A razão apresentada foram as condições atmosféricas. Observadores em Cabo Canaveral ficaram intri­gados já que era um perfeito dia ensolarado, típico da Flórida. Mas o Exército declarou que um vento de altitude elevada cha­mado jet stream era desfavorável.

Na noite seguinte houve novo adiamento e a mesma razão foi apresentada.

O lançamento finalmente foi realizado na sexta-feira, 31 de janeiro.

Desde seu início, em 1947, a Central Intelligence Agency... tem gasto milhões de dólares em um grande programa destinado a descobrir drogas e outros métodos esotéricos que façam com que pessoas comuns, tanto voluntária quanto involuntariamente, ajam, falem, revelem e até mesmo esqueçam seus mais precio­sos segredos, a comando e sob o completo controle de outrem.


— John Marks

The Search for the “Manchurian Candidate”:

The CIA and Mind Control, 1979

PARTE UM

5:00
O missil Jupiter C se encontra na plataforma de lançamento do Complexo 26, em Cabo Canaveral. Por motivos de segurança está envolto em imensos mantos de lona que escondem tudo, menos a cauda, que é a do Redstone, o conhecido foguete do Exército. O resto, encoberto sob a capa, é absolutamente único...

Ele acordou assustado.

Pior: aterrorizado. O coração batia com força, a respira­ção vinha aos arrancos e o corpo estava retesado. Era como um pesadelo, só que acordar não lhe deu qualquer sensação de alívio. Sentia que algo terrível acontecera, mas não sabia o que era.

Abriu os olhos. A luz fraca que vinha do outro quarto iluminava timidamente o ambiente, e foi possível distinguir va­gas formas, familiares mas sinistras. Em algum ponto nas pro­ximidades, escorria água em uma cisterna.

Procurou acalmar-se. Engoliu, respirou com regularidade e tentou pensar direito. Deitado em um chão duro, todo o seu corpo doía e a impressão que tinha era de que estava de ressa­ca, com dor de cabeça, boca seca e sensação de náusea.

Sentou direito, tremendo de medo. Sentiu o odor desagra­dável de piso úmido lavado com desinfetante forte. Reconhe­ceu o contorno de uma série de pias.

Estava em um toalete público.

Que nojo... Dormira no chão de um banheiro masculino. O que diabo lhe acontecera? Concentrou-se. Estava totalmente vestido, usando sobretudo e botas pesadas, embora sentisse que as roupas que trajava não eram suas. O pânico foi ceden­do, mas em seu lugar veio um medo mais profundo, menos his­térico, mais racional. O que lhe acontecera era muito ruim.

Precisava de luz.

Levantou-se. Olhou em torno, tentando enxergar através da penumbra e procurou adivinhar onde seria a porta. Levantando os braços à frente do corpo para evitar possíveis obstáculos invisíveis, andou até uma parede. Daí em diante andou de lado, explorando com as mãos. Encontrou uma superfície lisa e fria que devia ser um espelho, depois veio um cabide para toalhas e uma caixa de metal que podia ser uma máquina caça-níqueis. Finalmente seus dedos tocaram num interruptor, que foi acionado.

Uma luz clara inundou as paredes de azulejos brancos, o piso de concreto e a linha de toaletes com as portas dos reser­vados abertas. Em um canto havia o que parecia ser uma pilha de roupas velhas. Perguntou-se como chegara ali. Concentrou-se ao máximo. O que acontecera na noite anterior? Não conse­guiu lembrar.

O medo histérico começou a retomar quando percebeu que não conseguia lembrar-se de coisa alguma.

Cerrou os dentes para impedir-se de gritar. Ontem... ante­ontem... nada. Qual era seu nome? Não sabia.

Virou-se para a fileira de pias. Acima delas havia um espe­lho comprido. No espelho viu um vagabundo sórdido, vestido de farrapos, com o cabelo emaranhado, cara suja e uma expres­são louca nos olhos esbugalhados. Contemplou o vagabundo por um instante e então foi atingido por uma terrível revelação. Recuou um pouco, com um grito de choque, e o homem do espelho fez a mesma coisa. O vagabundo era ele próprio.

Não podia mais conter a onda de pânico. Abriu a boca e, numa voz trêmula de terror, gritou:

— Quem sou eu?


> > > < < <
A pilha de roupas velhas mexeu-se. Rolou sobre si própria, um rosto apareceu e uma voz resmungou:

— Você parece um vagabundo, Luke, cala a boca.

Seu nome era Luke.

Sentiu-se pateticamente agradecido por saber. Um nome não era muito, mas lhe dava um foco. Fixou os olhos no com­panheiro. O homem usava um paletó de tweed todo rasgado, com barbante na cintura como se fosse um cinto. O rosto jovem e sujo tinha uma expressão astuta. O homem esfregou os olhos e resmungou:

— Minha cabeça dói.

Luke perguntou:

— Quem é você?

Sou Pete, seu retardado, não está vendo?

— Não consigo — Luke engoliu em seco, contendo o pânico. — Perdi a memória!

— Não me espanto. Bebeu uma garrafa quase inteira ontem. É um milagre que não tenha perdido toda a cabeça.

Ele lambeu os lábios.

— A mim não coube quase nada daquele maldito bourbon.

Bourbon explicaria a ressaca, pensou Luke.

— Mas por que eu iria beber toda uma garrafa?

Pete riu zombeteiramente.

— Esta é a pergunta mais idiota que já ouvi. Para ficar de porre, claro!

Luke ficou estarrecido. Ele era um vagabundo bêbado que dormia em toaletes públicos.

Sentiu uma sede infernal. Debruçou-se numa pia, abriu a água fria e bebeu direto da torneira. Sentiu-se melhor. Esfre­gou as mãos e obrigou-se a olhar de novo para o espelho.

O rosto estava mais calmo agora. A expressão de maluco se fora, substituída por outra, de desorientação e medo. No espelho, seu reflexo era de um homem com mais de trinta anos, cabelos escuros e olhos azuis. Não tinha barba ou bigode, só o pêlo crescido da barba por fazer, densa e escura.

Virou-se para o companheiro.

— Luke de quê? — perguntou. — Qual é meu sobrenome?

— Luke... Luke qualquer coisa, como diabos vou saber?

Luke percebeu que estava com fome. Perguntou-se se teria dinheiro. Revistou os bolsos: capa de chuva, paletó, calças. Tudo vazio. Não tinha dinheiro, carteira, nem mesmo lenço. Nada de valor, e tampouco de indícios.

— Acho que estou duro — falou.

— Não brinca — retrucou Peter, sarcástico. — Vamos.

Tropeçando, saiu porta afora.

Luke o seguiu.

Quando saiu na luz, sofreu outro choque. Estava em um templo imenso, vazio e misteriosamente silencioso. Fileiras de bancos de mogno alinhavam-se sobre o piso de mármore, como bancos de igreja esperando uma congregação fantasma. Em torno do vasto salão, no alto lintel de pedra que encimava as fileiras de colunas, surreais guerreiros de pedra, com capa­cetes e escudos, montavam guarda ao lugar sagrado. Muito acima de suas cabeças, ficava o teto abobadado ricamente decorado com octógonos dourados. Passou pela cabeça de Luke que tinha sido vítima de um sacrifício em um misterioso ritual que o deixara sem memória.

Apavorado, perguntou:

— Que lugar é este aqui?

— Union Station, Washington, D.C. — respondeu Pete.

Um circuito elétrico se fechou dentro da cabeça de Luke e a coisa toda fez sentido. Foi com alívio que ele viu a imundície nas paredes, os chicletes esmagados no piso de mármore e as embalagens de balas e maços de cigarros nos cantos, e se sen­tiu ridículo. Encontrava-se em uma grandiosa estação ferroviá­ria, de manhã bem cedo, antes dela se encher de passageiros. Assustara a si próprio como uma criança imaginando monstros no quarto escuro.

Pete seguiu para um arco triunfal onde estava escrito SAÍ­DA, e Luke apressou-se a acompanhá-lo.

Ouviram uma voz agressiva:

— Ei, vocês! Vocês dois aí!

— Oh-oh — fez Pete, apressando o passo.

Um homem corpulento, vestindo um uniforme apertado da estrada de ferro, lançou-se sobre eles, cheio de justa indignação.

— De onde vieram, seus vagabundos?

— Estamos saindo, estamos saindo — choramingou Pete.

Luke sentiu-se humilhado por estar sendo expulso de uma estação de estrada de ferro por um funcionário gordo.

O homem não ficou satisfeito por se livrar deles.

— Dormiram aqui, não foi? — protestou, seguindo-os praticamente nos seus calcanhares. — Sabem que não é permitido.

Luke enfureceu-se por levar um sermão como um garoto de escola, embora achasse que merecia. Tinha mesmo dormido em um maldito banheiro masculino. Conteve uma resposta e apertou o passo.

— Isto aqui não é uma pensão barata! — continuou o ho­mem. — Malditos vagabundos, sumam!

Ele empurrou Luke pelo ombro.

Luke virou-se subitamente e confrontou o homem.

— Não encosta a mão — disse, surpreso com a ameaça ocul­ta em sua voz. O guarda deteve-se. — Estamos indo embora, de modo que não precisa fazer ou dizer mais nada, está claro?

O homem deu um grande passo para trás, parecendo assustado.

Pete pegou o braço de Luke.

— Vamos.


Luke sentiu-se envergonhado. O sujeito era um idiota intrometido, mas Luke e Pete eram vagabundos e um emprega­do de estrada de ferro tinha o direito de expulsá-los da estação. Luke não tinha nada que intimidá-lo.

Passaram através do arco majestoso para enfrentar o escu­ro do lado de fora. Havia uns poucos carros estacionados em torno da praça circular em frente à estação, mas as ruas esta­vam em silêncio. O frio era cortante e Luke agasalhou-se me­lhor com suas roupas rasgadas. Era inverno, uma frígida ma­nhã em Washington, talvez janeiro ou fevereiro.

Gostaria de saber o ano.

Pete virou para a esquerda, aparentemente sabendo para onde ia. Luke seguiu.

— Para onde estamos indo? — perguntou.

— Conheço um lugar na rua H onde podemos ganhar um ca­fé da manhã de graça, desde que você não se incomode de can­tar um ou dois hinos religiosos.

— Estou morrendo de fome. Canto um hinário inteiro.

Pete seguiu, confiante, uma rota em ziguezague pelo bair­ro pobre. A cidade ainda não tinha acordado. As casas estavam às escuras e as janelas cerradas, os botecos e bancas de jornal ainda fechados. Vendo uma janela de quarto onde havia uma cortina barata, Luke imaginou um homem lá dentro, dormindo profundamente sob uma pilha de cobertores, a mulher bem aquecida ao seu lado, e sentiu uma pontada de inveja. A impressão que tinha era de que seu lugar era do lado de fora, na comunidade dos homens e mulheres que se aventuravam nas ruas glaciais antes do raiar do dia, enquanto a maioria das pes­soas continuava a dormir: o homem em roupas de trabalho que ia pegar a condução para se dirigir ao emprego, o rapaz de bici­cleta embrulhado num xale e luvas; a mulher solitária fuman­do no interior muito iluminado de um ônibus.

Sua cabeça fervilhava de perguntas ansiosas. Há quanto tempo era um bêbado? Já tentara alguma vez deixar de beber? Tinha família que pudesse ajudá-lo? Onde tinha encontrado Pete? Onde conseguia a bebida? Onde bebia? Mas Pete estava taciturno e Luke controlou sua impaciência esperando que o outro se mostrasse mais sociável quando tivesse um pouco de comida dentro da barriga.

Chegaram a uma igrejinha situada desafiadoramente entre um cinema e uma tabacaria. Entraram pela porta lateral e des­ceram um lance de escadas até o porão. Luke viu-se em uma sa­la comprida de teto baixo — uma capela subterrânea, ele diria. Em uma ponta havia um piano de armário e um pequeno púlpi­to. Na outra, um fogão de cozinha. Entre uma e outra, três filei­ras de mesas sustentadas por cavaletes e os respectivos bancos. Havia três vagabundos sentados, um em cada mesa, olhos per­didos no espaço. No lado da cozinha, uma mulher gorda e bai­xa mexia uma panela grande. A seu lado, um homem de colari­nho clerical ergueu os olhos de um bule de café e sorriu:

— Entrem, entrem! — exclamou, animado. — Venham para o quentinho.

Luke dirigiu-lhe um olhar desconfiado, perguntando-se se aquele tipo seria mesmo real.

O fato é que estava quente de verdade, até mesmo abafado depois da temperatura glacial lá fora. Luke desabotoou a capa de chuva imunda.

Foi Pete quem falou:

— Bom dia, pastor Lonegan.

O pastor disse:

— Você já esteve aqui? Esqueci seu nome.

— Sou Pete, ele é Luke.

— Dois apóstolos! — a satisfação pareceu genuína. — É um pouco cedo para comer, mas já temos café fresco.

Luke gostaria de saber como Lonegan mantinha o bom humor tendo que levantar tão cedo para servir café da manhã a uma sala cheia de malandros catatônicos.

O pastor serviu o café em duas canecas de louça grossa.

— Leite e açúcar?

Luke não sabia se queria leite e açúcar no seu café.

— Sim, obrigado — respondeu, tentando adivinhar.

Aceitou a caneca e tomou um gole. O sabor era enjoativamente doce e cremoso. Normalmente devia tomar café preto. Mas o café amenizou sua fome, e ele tomou tudo depressa.

— Teremos uma palavra de oração em poucos minutos — disse o pastor. — Quando tivermos terminado, o famoso mingau de aveia da sra. Lonegan deverá estar cozido à perfeição.

Luke concluiu que sua suspeita fora infundada. O pastor Lonegan era o que parecia ser, um sujeito jovial que gostava de ajudar os outros.

Luke e Pete se sentaram a uma das mesas rústicas de cavalete, e Luke estudou o companheiro. Até agora tinha reparado apenas no rosto sujo e nas roupas rasgadas. Via agora que Pete não tinha as marcas do bêbado antigo: veias rompidas, pele seca descascando, cortes ou contusões. Talvez porque fosse muito jovem — não mais que vinte e cinco anos, no palpite de Luke. Mas era ligeiramente desfigurado. Tinha uma marca vermelha-escura de nascença que ia da orelha direita à linha do queixo. Os dentes eram desiguais e descoloridos. O bigode escuro provavelmente servia para desviar a atenção dos dentes ruins, isto, é claro, quando se preocupava com a aparência. Luke sentiu nele uma certa raiva contida. Pete devia ter ressen­timento contra o mundo, talvez por tê-lo feito feio, talvez por alguma outra razão. Provavelmente tinha uma teoria de que o país estava sendo arruinado por um dos grupos que odiava: imigrantes chineses, negros presunçosos, ou algum clube secreto dos dez homens ricos que controlavam o mercado de ações sem que ninguém soubesse.

— O que está olhando? — indagou Pete.

Luke deu de ombros e não respondeu. Em cima da mesa havia um jornal dobrado aberto nas palavras cruzadas e um toco de lápis. Luke deu uma olhada no que já estava resolvido, pegou o lápis e começou a preencher os brancos.

Mais vagabundos foram aparecendo. A sra. Lonegan trou­xe uma pilha de tigelas pesadas e colheres. Luke acertou todas as palavras cruzadas menos uma — “pequeno lugar na Dina­marca”. O pastor deu uma olhada no desenho praticamente todo preenchido e comentou baixinho com a mulher, “Oh, que nobre mente foi aqui lançada”.

Luke imediatamente descobriu a palavra que faltava — HAMLET — e escreveu.

Desdobrou o jornal e procurou a data na primeira página: quarta-feira, 29 de janeiro de 1958. Seu olhar foi atraído pela manchete: LUA AMERICANA PERMANECE NA TERRA. Con­tinuou lendo:

Cabo Canaveral. Terça-feira: A Marinha dos Estados Unidos abandonou uma segunda tentativa para lançar seu foguete espacial, Vanguard, após múltiplos problemas téc­nicos.

A decisão foi tomada dois meses depois que o primei­ro lançamento do Vanguard terminou em desastre humi­lhante, com o foguete explodindo dois segundos após a ignição.

As esperanças americanas de lançar um satélite espa­cial para rivalizar com o satélite russo Sputnik agora dependem exclusivamente do foguete do Exército, de nome Júpiter.

Do piano veio um acorde estridente e Luke levantou a cabeça. A sra. Lonegan tocava a introdução de um hino conhe­cido. Ela e o marido começaram a cantar, “Oh, que Grande Amigo temos em Jesus” e Luke começou também, satisfeito por conseguir se lembrar da música.

O bourbon teve um efeito estranho, pensou. Era capaz de fazer palavras cruzadas e cantar um hino religioso de memória, mas não sabia como se chamava a própria mãe. Só se estava bebendo durante anos e o álcool lhe danificara o cérebro. Não sabia como podia ter deixado acontecer uma coisa dessas.

Depois do hino o pastor Lonegan leu alguns versículos da Bíblia, quando disse a todos os presentes que podiam ser sal­vos. Ali estava um grupo que realmente precisava ser salvo, pensou Luke. Mesmo assim, não se sentia tentado a arriscar sua fé em Jesus. Precisava descobrir primeiro quem era.

O pastor improvisou uma oração, cantaram graças e em seguida os homens entraram em fila e a sra. Lonegan serviu mingau de aveia com xarope. Luke tomou três tigelas, depois do que se sentiu muito melhor. A ressaca estava cedendo bem depressa.

Impaciente para retomar suas indagações, abordou o pastor.

— O senhor já me viu aqui antes? Perdi a memória.

Lonegan o encarou atentamente.

— Sabe, acredito nunca ter visto você. Mas vejo centenas de pessoas todas as semanas e posso estar enganado. Que idade você tem?

— Não sei — respondeu Luke, sentindo-se bobo.

— Eu diria uns trinta e muitos. Você não vem vivendo com dificuldade há muito tempo. O preço que se paga é muito alto. Mas você ainda tem elasticidade no seu passo, sua pele é clara por baixo da sujeira e ainda está alerta o bastante para resolver um problema de palavras cruzadas. Deixe de beber agora e será capaz de viver uma vida normal novamente.

Luke gostaria de saber quantas vezes o pastor já dissera aquelas palavras.

— Vou tentar — prometeu.

— Se precisar de ajuda, basta pedir.

Um rapaz que parecia ser deficiente mental batia persistentemente no braço de Lonegan, que se virou para ele com um sorriso paciente.

Luke se dirigiu para Pete.

— Há quanto tempo você me conhece?

— Não sei, você já circula por aí há um bocado.

— Onde passamos a noite de anteontem?

— Calma, está bem? Sua memória voltará mais cedo ou mais tarde.

— Tenho que descobrir de onde sou.

Pete hesitou.

— O que precisamos é de uma cerveja. Ajuda a pensar direito.

Ele se virou na direção da porta.

Luke agarrou-lhe o braço.

— Não quero cerveja — disse, decididamente.

Tudo indicava que Pete não queria que ele investigasse o passado. Talvez tivesse medo de perder o companheiro. Bem, azar o dele. Luke tinha coisas mais importantes para fazer do que bancar a babá de Pete.

— Na verdade — disse Luke — acho que eu gostaria de ficar sozinho por uns tempos.

— Quem é você, a Greta Garbo?

— Estou falando sério.

— Você precisa de mim para tomar conta das coisas. Não. Droga, não vai conseguir sozinho. Não consegue sequer se lembrar da idade!

Pete tinha uma expressão de desespero no olhar, mas Luke não se comoveu.

— Agradeço sua preocupação, mas você não está me aju­dando a descobrir quem sou eu.

Após um momento, Pete deu de ombros.

— Você tem o direito — ele virou-se para a porta de novo. — Vejo você por aí, talvez.

— Talvez.

Pete saiu. Luke apertou a mão do pastor Lonegan.

— Muito obrigado por tudo.

— Espero que encontre o que procura — disse o pastor.

Luke subiu a escada e saiu na rua. Pete estava na outra quadra, falando com um homem de capa de chuva verde de gabardine e chapéu igual — esmolando o dinheiro da cerveja, supôs Luke. Andou na direção contrária e virou na primeira esquina.

Ainda estava escuro. Luke sentiu frio nos pés e viu que não usava meias. Ao acelerar o passo, começou a nevar. Após alguns minutos diminuiu o ritmo. Não tinha razão para correr. Não fazia diferença se caminhasse depressa ou devagar. Parou e procurou abrigo em um portal.

Não tinha aonde ir.




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