Cecília e Drummond: olhares sobre o Rio de Janeiro



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CECÍLIA E DRUMMOND:
OLHARES SOBRE O RIO DE JANEIRO

Rita Aparecida Santos




UNEB



[...] cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares.
As palavras de Ítalo Calvino servem bem ao propósito desse texto: refletir a relação “invisível mas real entre o morador e sua cidade”. Ao assegurar a existência de cidades particulares, o autor nos revela como é possível “construir” diferentes cidades (que é sempre a mesma) conforme se privilegiem determinados aspectos. Assim, cada morador constrói uma cidade totalmente diferente a partir do olhar que recai sobre o traçado das ruas, as praças, as pessoas, a memória, os bairros, os arranha-céus, enfim todos os vários aspectos que fazem parte de uma cidade.

A relação que o morador mantém com a cidade determina seu olhar sobre ela. Cada pessoa, com seu modo de ver o mundo ou com interesses voltados para aspectos específicos, pode construir e reconstruir a cidade criativamente, a partir de elementos selecionados no leque de opções disponíveis na cultura de uma dada sociedade. Desse modo, temos cidades construídas a partir do trabalho, do lazer, da religião, dos bares, das esquinas, das praias e ainda assim haverá uma cidade a ser construída conforme se privilegiem aspectos específicos.

Ponto de convergência de uma multiplicidade de olhares, a cidade atraiu primeiro a atenção de ficcionistas que perceberam no meio urbano, onde seus personagens se movimentam, cenário privilegiado para observação do mundo (PECHMAN, 1994:5). Desse modo, a cidade passou a ser fonte geradora de um discurso literário empenhado em representar o homem moderno. Em outras palavras: o homem da cidade.

Transitando entre o real e o imaginário, os textos sobre cidades seduzem e conquistam a imaginação do leitor, suscitando novos textos, outras cidades que vão se confrontando ao modelo que delas no imaginário se formou. Assim, tornadas textos, as cidades se concretizam em nossas lembranças, ocupando muitas vezes o lugar da cidade real (SILVA, 1996: 239). Povoadas de ficção, nossas cidades são resultado de olhares alheios. Estas cidades-textos nos tiram do tempo presente e nos fazem penetrar no tempo do imaginário ou viajar na história da cidade. Optando por algumas crônicas de dois ilustres moradores da Cidade Maravilhosa, este texto propõe uma leitura desses olhares sobre a cidade.

Carlos Drummond de Andrade, que viveu 53 anos no Rio de Janeiro, construiu e reconstruiu criativamente a Cidade Maravilhosa a partir da sua identificação com as coisas que “estão dentro da vida carioca”. Publicado em 1966, seu livro “Cadeira de balanço”, dividido em oito seções, tem várias crônicas dedicadas à vida carioca em que o olhar de Drummond capta as grandezas e humildades da cidade de São Sebastião.

Cecília Meireles, outra moradora ilustre, que navegou o mundo, revisitou o Rio de Janeiro, seu pólo cultural, através das três primeiras crônicas do livro “Crônicas de viagem” em que a escritora passeia pelos vários cenários cariocas numa nostalgia de viajante que observa a cidade moderna à luz do que fora, ao mesmo tempo em que descreve a paisagem urbana acrescentando suas impressões sobre o homem moderno, cuja racionalidade geradora do progresso transformou a cidade “num fazer sem fim”.

Percorrendo a cidade, através do olhar de quem se reconhece parte dela, o cronista Carlos Drummond de Andrade capta os sinais da vida que diariamente o morador do Rio deixa escapar. Porta-voz de todos os cidadãos, o cronista-poeta vai revelando ao leitor, numa linguagem altamente poética, imagens de uma cidade multifacetada cuja realidade muitas vezes sufoca.

Assim, a excursão dos alunos de uma escola do subúrbio carioca na crônica A descoberta do mar denuncia fronteiras internas que silenciosamente impedem que as classes populares conheçam verdadeiramente a sua cidade:


O custo da condução e do farnel impede à família de seis pessoas, residente no Rio, realizar a aventura deliciosa de passar o domingo no Rio, simplesmente saindo de casa pela manhã e regressando à noitinha. [...] Quando se fala em turismo na Guanabara, dá vontade de propor um turismo paroquial, dominical, para meninos e meninas que crescem ignorantes da cidade (172).
A crônica projeta uma imagem do Rio como “cidade partida” que exclui uma parcela dos moradores de certas zonas centrais e nobres da cidade. “Dá outra volta! Pára um pouquinho!”, imploram os alunos deslumbrados pela Zona Sul. Renato Cordeiro Gomes, ao comentar os mecanismos de controle do projeto urbanísticos da Modernidade, considera que a cidade pode ser vista como ‘cidade carcerária’ formada por uma série de nós vigilantes destinados a impor um modo particular de conduta com o propósito de sobredeterminar o espaço. Tais delimitações são asseguradas pela existência de muros concretos e metafóricos que indicam ao mesmo tempo inclusão e exclusão (1999: 207).

Instigando no leitor o desejo de olhar o mar com os mesmo olhos das crianças pobres, o cronista alerta para as mudanças urbanísticas “voltadas para os interesses políticos que descaracterizam a cidade e seus habitantes” (SÁ, 1992: 71):


Quem nasceu ao pé do mar talvez não perceba essas coisas. O mar é seu irmão, e ele costuma passar indiferente ao longo da praia, como fazem irmãos de tanto se habituarem à convivência.Quantas pessoas vão diariamente do Leblon ao centro, sem olhar, e como o urbanismo vai aterrando a baía com método, cada vez reparamos menos no que sobrou ou nos lembramos do que acabou ( 173 ).

Lamentando a intervenção urbanística cujos dispositivos modernos distribui a cidade em territórios urbanizáveis, o “prosador do cotidiano” faz uma nênia, intitulada A cidade sem meninos, já que a alegria e a pureza das crianças deixaram de existir no centro da cidade onde as casas familiares foram substituídas por casas comerciais, edifícios e escritórios:


As professoras que fazem o censo escolar no Rio apuraram um vazio de que já desconfiávamos: não há mais crianças no centro da cidade (...). A cidade multiplica-se, a casa cede lugar ao edifício, o edifício vira constelação de escritórios, o menino fica sendo excedente incômodo... Onde está o menino, para onde foi o menino? É assim que morrem as cidades (154 ).
À mercê de uma “receita urbanística”, a cidade sofre um processo de desumanização uma vez que suas qualidades tradicionais como a presença de meninos, de árvores e até mesmo o direito de olhar a Lua, foram injustamente expulsos em nome da modernização. Ao registrar a ausência das crianças na cidade, o cronista descreve um espaço urbano que não mas se restringe a um conjunto denso e definido de edificações, mas um movimento incessante de urbanização que vai devorando todo espaço, transformando em urbana a sociedade.

O olhar de Drummond adverte o leitor para as características inumanas que a cidade vai assumindo. Consciente das metamorfoses, o autor analisa as transformações impostas pelo processo de modernização, reconhecendo que a morte da cidade é também a sua própria morte. Tal descoberta ocorre quando o cronista constata a demolição de O camiseiro, “uma loja tão dentro da vida carioca” quanto seus moradores.

A constatação do perecível na cidade moderna leva o cronista a pensar em si mesmo. Ele faz parte da cidade, está intimamente ligado a sua história. Por isso, sofre com o jogo urbanístico de construir/destruir/reconstruir:
É a relação invisível mas real entre o morador e sua cidade. Tudo que acontece nesta bate no peito daquele e retumba com maior ou menor intensidade (...). Fui incendiado com o Parc Royal e com o Cinema Alhambra; tive pesadelos de madrugada com o prédio do Elixir de Nogueiras; demoli-me com a Praça 11 e reverdeci nos jardins de Botafogo; estou sempre em construção, demolição, reconstrução (132).
Ao afirmar “estou sempre em construção, demolição, reconstrução”, o cronista-poeta não apenas denuncia a percepção de que ele é a cidade mas também se mostra atento às transformações que ela sofre. Nesse sentido, as crônicas de Drummond focalizam um Rio de Janeiro em metamorfose, reativando estoques de imagens urbanas, ao tempo em que vai apontando o modo como os moradores reagem às mudanças da sua própria história.

Seguindo um caminho diferente, o olhar de Cecília Meireles passeia pelo Rio de Janeiro moderno ao mesmo tempo em que viaja pelo imaginário recompondo e atualizando a memória através de imagens antigas da cidade. Atenta às mudanças, a cronista faz uma leitura do espaço urbano que se constrói sob a ótica progressista mas que altera radicalmente a paisagem natural:


Tínhamos orgulho desta cidade: os mais antigos, os viajados afirmavam com sapiência não haver nada que se comparasse á Baía da Guanabara (...). (Então, cada um começou a empurrar as águas da enseada para longe, acabaram-se os estetas...) (1).
Massimo Canevacci (1993: 22), em “A cidade polifônica”, considera que uma “cidade é também, simultaneamente, a presença mutável de uma série de eventos dos quais participamos como atores ou espectadores”, portanto, “se constitui também pelo conjunto de recordações que dela emergem assim que o nosso relacionamento é restabelecido”. Em Cecília, os cenários do Rio de Janeiro moderno e labiríntico são responsáveis pela reativação dos dados retidos na memória. No imaginário da cronista, admiradora da tradição viva e experimentando o estranhamento na polis moderna, tudo é evocado e acolhido: a Baía da Guanabara, O Aqueduto, a Praça Quinze e a hospitalidade do povo.
Tínhamos orgulho de pequenas coisas sentimentais, herança de um passado nem muito remoto nem muito rico: o Aqueduto, a praça Quinze, o Passeio Público, algumas igrejas... (...). Tínhamos orgulho da boa gente simples. Simples mas honrada. Pobre mas limpa de coração (1).
Contrapondo-se a esta imagem memorialística do Rio antigo, a cronista discorre sobre os processos de transformação da cidade:
(Então transformaram o Passeio Público em feira variada, modificaram o Aqueduto; e da praça Quinze fizeram essa monstruosidade inconcebível que obriga o passante a pensar nas doenças que estão afetando a sensibilidade brasileira) (1).
Essas transformações da cidade, resultado da industrialização, colocam-na não mais como espaço fechado, cercada de muros para se defender dos inimigos externos como acontecia com as cidades medievais. O desafio agora é a convivência diária “com os inimigos que estão dentro dos próprios limites da cidade” (PECHMAN, 1994, 3):
(Então as almas desapareceram, e os viventes que hoje aparecem estão todos armados de facas, punhais, revólveres de todos os calibres. Pedem relógios, carteiras, qualquer embrulho, só para começo de conversa – porque logo matam por matar, e nem o que pedem levam...) (2).
Assim como Engels que descreveu a selvageria da população londrina, Cecília compõe a imagem moderna do Rio, denunciando a perda da civilização ao mesmo tempo em que responsabiliza os “técnicos e práticos” urbanistas que todos os dias fazem nascer e morrer “estranhas ruas, avenidas e passagens subterrâneas” sem considerar os efeitos que estas mudanças provocam na vida do cidadão.

Nas três crônicas dedicadas ao Rio, Cecília registra seu inconformismo com a “mutabilidade contínua” da cidade, cujo espaço tende a ser “um lugar nenhum”, quase “um vazio” de referências que não permitem enraizamento, uma vez que o projeto de “cidade modelo” dos urbanistas “ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos”. Por isso, a cidade tornou-se triste, nela não há lugar para todas as coisas. Ela não guarda sua história, suas antiguidades, “como arquivo precioso, à medida que vai construindo o que falta”, por isso o “forasteiro sofre por sentir perdida a beleza - tão copiosa, tão prodigiosa – da cidade em que nasceu” (3).

Ao estabelecer relações entre o “contexto histórico” e o “contexto literário”, ou seja, entre o visto e o imaginado, Cecília e Drummond fazem representações de uma cidade alterada, ao tempo em que dão resposta à questão de qual é o mundo desejado. Reconstruir a cidade “edificada entre água e montanhas”, através da memória, foi a forma que Cecília encontrou de responder à realidade e também de realizar escolhas dentro de um repertório que o cenário moderno lhe ofereceu. Por isso, a autora, referendada pelo recurso poderoso da memória, exorciza a nova cidade e busca um RJ cujas marcas são do passado.

Sem nostalgia do que fora perfeito, Drummond olha para uma cidade que está se perdendo, com seus problemas e alumbramentos. Aos olhos do cronista, o Rio não era melhor nem pior, simplesmente era o Rio de Janeiro vivido e moldado por seus habitantes. O autor considera que esta cidade que está sendo usurpada impede a concomitância de outra cidade com aquela da cidade oficial.

Um pouco da história do Rio de Janeiro é vista sob duas óticas: a cidade da memória em Cecília e a memória da cidade em Drummond. Os discursos são relatos sensíveis dos modos de ver a cidade, procedendo a uma leitura-navegação por redes que engendram cidades outras: particulares, reais, ficcionais. Embora tenham visão diferenciada os olhares de Drummond e Cecília permitem ao leitor moderno, desconhecedor das imagens antigas do Rio dos anos 50 e 60, construir no seu imaginário o Aqueduto, a Pedra do Arpoador, a Praça Quinze, Copacabana, as ruas e até mesmo a loja O Camiseiro, lugares que marcam a memória da cidade mas que agora transitam entre os dois mundos – o real e o imaginário – nitidamente colocados por uma linguagem mais poética que jornalística.

Tradutoras desses olhares, as palavras dizem o indizível: revelam o sentimento que o morador tem ao descobrir que faz parte das coisas todas que estão dentro da vida carioca e que são perecíveis tanto quanto ele mesmo. Ao se tornar texto, as palavras cumprem a função de preservar o lado invisível e universal da cidade. Afinal, nenhuma falência ou sinal de progresso urbano poderá destruir as imagens cariocas construídas através do olhar de tão ilustres moradores. Preservado pelas crônicas de Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, o Rio de Janeiro renasce a cada leitura e a sua história alcança eternidade.


Referências Bibliográficas:

ANDRADE, Carlos. Cadeira de balanço. Rio de Janeiro: Record, 1998.

CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

CANEVACCI, Massimo. A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. Trad. Cecília Prada. São Paulo: Studio Nobel, 1993. p. 22.

CECÍLIA, Meireles. Crônicas de viagem. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1999. v. 2.

GOMES, Renato Cordeiro. “Escrever a cidade: o labirinto dos ecos”. In: Anais do II Congresso ABRALIC. Belo Horizonte, ABRALIC, 1990. v. 1, p. 441-49.

GOMES, Renato Cordeiro .O emblema da cidade. In: ---. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 76-89.

GOMES, Renato Cordeiro. Modernização e controle social – planejamento, muro e controle espacial. In: MIRANDA, Wander Melo (org.). Narrativas da modernidade. Belo Horizonte: Atlântica, 1999.

LIMA, Rogério & FERNANDES, Ronaldo Costa (org.). O imaginário da cidade. Brasília,

Ed. UNB, 2000.

PECHMAN, Robert Moses. Olhares sobre a cidade. Rio de Janeiro, UFRJ, 1994.

PINTO, Júlio Pimentel. Uma memória do mundo: ficção, memória e história em Jorge Luís Borges. São Paulo, Estação Liberdade; FAPESP, 1998.


SIMMEL, George. “Metrópole e a vida mental”. In: VELHO, Otávio G. (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro, Guanabara, 1987.

SÄ, Jorge de. A Crônica. 5ª ed. São Paulo, Ática, 1997.







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