Cesar Lombroso Hipnotismo e Mediunidade



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CÉSAR LOMBROSO

HIPNOTISMO E MEDIUNIDADE

Fenomeni Ipnotici e Spiritice

1909



William Turner

O lago Lucena

ÍNDICE
- Traços Biográficos de César Lombroso
- O Homem E A Sua Missão, pelo Professor Marzorati
- Prefácio do Autor

PARTE 1 – HIPNOTISMO

- Alguns Fenômenos Hipnóticos e Histéricos
1 -Transposição dos Sentidos com os Histéricos Hipnotizados
2 - Transmissão do Pensamento
3 - Premonições por Histéricos e Epilépticos
4 - Lucidez e Profecia no Sonho - Estudos de Myers
5 - Fenômenos Físicos e Psíquicos com os Hipnotizados
6 - Polarização e Despolarização Psíquica

PARTE II – ESPIRITISMO

CAP. I - Fenômenos Espirítico com Eusápia
CAP. II - Resumo dos Fenômenos Mediúnicos de Eusápia
CAP. III - Fisiopatologia de Eusápia. - Influência e Ação dos Médiuns
CAP. IV - Condições e Influências dos Médiuns
CAP. V - Médiuns e Magos entre os Selvagens e os Povos Antigos
CAP. VI - Limites a Influência do Médium
CAP. VII - Experiências Fisiológicas com os Médiuns
CAP. VIII - Fantasmas e Aparições de Mortos
CAP. IX - Fotografias Transcendentais
CAP. X - Identificação de Fantasmas
CAP. XI – Duplos

CAP. XIII - A Crença nos Espíritos dos Mortos entre os Selvagens e os Bárbaros

EPÍLOGO

CAP. XIV - Esboço de uma Biologia dos Espíritos
CAP. XV - Truques Inconscientes e Telepáticos

NOTAS DE RODAPÉ



- Traços Biográficos/Cesar Lombroso

Nascimento. Estudos e Tendências

César Lombroso nasceu em Verona (Itália) a 6 de Novembro de 1835, descendente, pelo lado paterno, de judeus espanhóis expulsos de sua pátria pelos Reis Católicos, em 1492.

Sua primeira infância transcorreu tranqüila e feliz, desfrutando a família de elevados recursos pecuniários e boa situação na sociedade. Isto não durou muito tempo. Numa dessas reviravoltas do Destino, foi o lar de Lombroso mergulhado em relativa pobreza, o que, entretanto, não impediu continuassem ali reinantes a paz e a união.

Educado nas idéias e crenças da religião judaica, bem cedo começou a freqüentar os centros de instrução de sua cidade natal.

Tanto no curso primário quanto no curso secundário, deu ele mostras de extraordinária aplicação e amor ao trabalho e aos estudos, revelando, malgrado sua timidez, uma inteligência bastante precoce. Menino ainda, tornara-se amante da Natureza e dos bons livros.

Seu tio materno, David Levi, que ocupa lugar honroso na literatura italiana, ambientou-lhe o gosto para a Poesia, para a História e a Literatura em geral, especialmente a clássica. Com seis anos apenas, Lombroso já se deleitava ouvindo os versos de Dante. Lucrécio, Tácito e Tito Livio o haviam fascinado, e na idade de doze anos escreveu, com períodos verdadeiramente clássicos, o trabalho Sua Grandeza e Decadência de Roma.

Contudo, um acontecimento inesperado veio decidir para sempre a vocação cientifica e conseqüente posição futura do nosso biografado.

Em 1850 sala a público o primeiro volume dos Monumenti storici rivelati dall analilisi delta parol, de autoria do ilustre médico, historiador e lingüista italiano Paulo Marzolo. Os jornais elogiaram e encorajaram o autor, mas Marzolo percebeu que as críticas eram por demais benévolas e... incompetentes. Certo dia, lendo um diário de Verona, entusiasmou-se com um artigo que inteligentemente discorria sobre o seu livro, e desejou imediatamente conhecer-lhe o autor.

Foi esta a primeira e mais cara emoção que ele sentiu - escreveu Ceccarel em sua Vita di Marzolo -, a primeira compensação a tantas vigílias em estudos ingratos e tristes, a tantos pensamentos e meditações incansáveis. Paulo Marzolo pensava que o articulista fosse um homem provecto na ciência, um pensador solitário, que vivesse na obscuridade por circunstancia fortuitas ou por caprichos da sorte. O autor do artigo, que pouco depois visitava Marzolo em Treviso, era um jovenzinho de quinze anos, era César Lombroso, que na Itália foi o primeiro a perceber o gênio de Marzolo. Ante este, Lombroso se apresentou com o afeto de um filho e com a veneração de um discípulo.

Marzolo criou tal amizade pelo seu jovem admirador, que, desde então, passou a ser o verdadeiro orientador do genial rapazinho, iniciando-o no cultivo de todas as ciências e de todas as artes, pondo-o em guarda contra o unilateralismo da cultura. Sob a sua direção, o nosso biografado aprendeu o caldaico, o chinês, o hebreu e algumas línguas modernas; sob a sua palavra persuasiva, decidiu-se a estudar Medicina e a entregar-se a estudos naturalísticos, não obstante a sua inclinação para o Direito e as Letras.

Marzolo foi também quem primeiro inspirou a Lombroso o estudo da Antropologia e, além de ter exercido influência sobre a sua moral, sobre a sua maneira de conceber e de agir na vida, nele incutiu para sempre o extremado amor da verdade, em cuja procura Lombroso foi incansável a vida inteira.

Nas lutas unificadoras da Itália, em fins do século XIX, a Igreja tentara por todos os meios reter os seus Estados Papais, afirmando seus direitos ao poder temporal, fulminando anátemas contra aqueles que queriam privá-la de seus domínios em prol de uma Itália unida, e, posteriormente, recusando qualquer contacto com o governo, por lhe terem sido tomadas às terras. Lombroso, patriota ardente, foi, por isso, levado a professar a fé socialista, intensificada na ultima fase de sua vida, acreditando que só com uma completa reforma social se poderia abater a força do clericalismo e seus prejuízos, e com esse objetivo, pela tribuna e pela imprensa, buscou, durante a vida, ajudar a todas as escolas e instituições que concorressem para diminuir, entre o povo; o número de analfabetos, e resultasse, em conseqüência, na derrubada das forças dogmáticas, freio do progresso e da liberdade.



Curriculum Vitae

De 1852 a 1857, Lombroso cursou a matéria médica nas Universidades de Pavia, Pádua e Viena, laureando-se em 13 de Março de 1858 pela Real Universidade de Pavia. Foi nessa cidade, quando ai fazia o seu curso, que conquistou duas preciosas amizades: Alfredo de Maury e Paulo Mantegazza, tornando-se este último quase que um seu irmão. Fisiologistas de excepcional valor, ambos acolheram carinhosamente o discípulo, que logo se iniciou nos estudos e nas pesquisas sobre a fisiologia do sonho e do prazer.

Mas é na Universidade de Viena, ao lado de mestres da psiquiatria, que ele afirmou a sua vocação médica, especialmente psiquiátrica, aprofundando-se, desde então, na leitura de livros sobre o assunto.

Escreveu, já em 1852, com apenas 17 anos, dois trabalhos elogiados por um jornal de Verona: Saggio solta storia delta Relncbüca Romana e Schizzi di un quadro storico dell'antica agricoltura in Itália, nos quais se observa a influencia do historiador Marzolo sobre o rapazinho.

Veio, a seguir, consciencioso estudo intitulado Di un fenômeno fisiológico comune ad alcuni neurotteri ed imenotteri (Verona, 1853) e, dois anos mais tarde, outro sobre La pazia de Cardano (Gazetta Medica Italiana Lombarda, Milão, 1/10/1855), ensaio este em que já se percebe o germe das fecundas investigações que posteriormente realizaria a respeito do homem de gênio.

De certa forma importante é o opúsculo que deu a publico, em 1856, com o nome Influenza della civita sulla pazzia e della pazzia sulla civilta e que marca o ponto de passagem de suas preocupações doutrinárias para o terreno das aplicações práticas da Medicina.

Em 1859, revalidou o seu diploma de médico na Real Universidade de Gênova, então anexada ao Piemontês, aí obtendo a láurea em Cirurgia.

Ainda neste ano, chamou a atenção de todos a sua monografia Ricerche sul cretinismo in Lombardia. E a 21 de Maio, ao estalar a guerra franco-italiana com a Áustria, que tinha o propósito de expulsar os austríacos da Itália, Lombroso se alistou, contra a vontade dos pais, como médico do Corpo de Saúde Militar do Exército Piemontês, sendo encaminhado ao Hospital de Turim e, um mês depois, ao Hospital Militar de Milão.

Em 1861, o Supremo Conselho Militar de Saúde distingue com menção honrosa um utilíssimo escrito de sua autoria, sobre feridas por arma de fogo (Sulle ferite d'arma da Fuoco), e a 6 de Março deste mesmo ano era ele promovido ao posto de médico de batalhão de 1° classe, sendo-lhe ainda conferida a medalha francesa comemorativa da campanha de 1859, que tornou independente a Lombardia.

Removido para a Calábria, ai estudou as condições higiênicas da população. Os resultados de suas investigações, publicou-os, em 1862, no Giornale d'Igiene e Medicina Preventiva e no livro Tre mesi in Calábria (Turim, 1863), livro este que, ampliado, foi reeditado em 1898 com o nome In Calábria, patenteando-se em suas páginas o progresso realizado na região calabresa, tão logo foram tomadas as medidas higiênicas por ele aconselhadas.

Em 1862, inaugurando suas funções no magistério, Lombroso ministra um curso livre, gratuito, de Psiquiatria, na Universidade de Pavia, e em 1863 entra como privat-docent de Clínica das Doenças Mentais e Antropologia na mesma Universidade, ao mesmo tempo em que passa a exercer gratuitamente suas funções na repartição dos alienados do Hospital Cívico de Pavia.

Em 1864, a Direção dos Hospitais reunidos de Pavia apresenta-lhe agradecimentos pelas inovações que ele trouxe àqueles Hospitais em beneficio dos alienados.

E nomeado professor incaricato (Professor nomeado por decreto ministerial e que substitui temporária ou definitivamente o professor titular) de Clínica das Doenças Mentais e Antropologia, na Universidade de Pavia.

Nesse meio tempo, começa a elaborar, e os publica em 1865, os Studi per una Geografia Clinica Italiana, fonte entre as mais importantes da legislação sanitária italiana.

Patriota ardoroso, entusiasta da unidade e nova grandeza de sua gloriosa terra, condecoraram-no, em 30 de Maio de 1865, com a medalha comemorativa da guerra da independência e unificação italiana. Neste mesmo ano, em 6 de Dezembro, desliga-se do Corpo de Saúde Militar, passando a dar um curso livre, gratuito, de Antropologia, bem como leituras públicas sobre Raças Humanas.

Logo sobreveio a campanha antiaustríaca de 1866 e que, em Outubro, daria Veneza á Itália. Lombroso, a 20 de Maio, retorna ao serviço militar, exercendo suas funções como médico de batalhão de 2ª classe.

Seis meses depois, finda a guerra, dá baixa do Corpo de Saúde Militar, e é nomeado médico primário da repartição das Doenças Mentais do Hospital Cívico de Pavia, continuando, ainda, a lecionar o curso gratuito de Antropologia por mais alguns anos.

E reconduzido as funções de professor incaricato de Clínica das Doenças Mentais e Antropologia, na Universidade de Pavia, dando à luz o volume Medicina Legale delle alienazioni mentali, no qual cogita do problema da responsabilidade, tão discutido aquele tempo pelos especialistas. Nessa ocasião, também publica a Antropometria degli Italiani, obra que se torna clássica no gênero.

Aos 22 de Junho de 1867, recebe uma distinção honorifica, como médico do batalhão em tempo de guerra, pela coragem e abnegação demonstradas na cura dos coléricos durante a epidemia de 1866.

Com sua memória sobre Pensiero e Meteore conquistou, em 9 de Agosto de 1867, o Premio Castiglione do Instituto Lombardo de Ciências e Letras.

Mas é a 16 de Outubro de 1867 que consegue a sua grande vitória no magistério universitário. aliás muito acidentado e penoso. A Universidade de Pavia recebe-o afinal, como professor extraordinário de Clinica das Doenças Mentais, cargo em que é confirmado, ano após ano até 1875. Na mesma data, condecoram-no cote a medalha ao mérito militar, comemorativa da campanha pró-independência da Itália de 1866.

Lombroso se dedica mais a fundo as suas investigações psiquiátricas e aos estudos sobre a pelagra, mal que fazia muitas mortes entre os camponeses italianos.

Com sua obra Studi clinici e sperimentali sulla natura causa e terapia della pellagra (2 ed., Bolonha. 1872), recebeu, em 1870, como incentivo, a soma de 1.000 liras no Concurso L. Cagnola, instituído pelo Instituto Lombardo. Ainda por seus méritos no estudo da pelagra, foi, aos 18 de Abril de 1871, agraciado com o título de Cavaleiro da Coroa da Itália.

Em Outubro de 1871, deram-lhe as direções do Manicômio Provincial de Pesaro. Inicia, em 1872, um curso livre de Medicina Legal sobre o homem delinqüente estudado pelo método antropológico experimental.

Na cidade de Viena expôs, no ano de 1873 o sitóforo um aparelho de sua invenção, destinado a alimentação forçada dos loucos.

Dá, em 1874, um curso sobre a causa da pelagra, sob os auspícios da Escola de Agricultura de Milão, e neste mesmo ano é elevado a professor suplente da cátedra de Medicina Legal, Toxicologia e Higiene, na Universidade de Pavia.

Nesta Universidade, segundo escreveu Max Nordau, Lombroso teve que lutar constantemente contra hostilidade, ou até manifesta, de sua direção, que negava sistematicamente todos os meios para o bom desempenho das funções professorais e toda a melhoria em sua posição oficial. Sua doutrina sobre a pelagra também lhe criava, da parte dos colegas, uma atmosfera adversa. Farto desse conflito, acedeu ao convite insistente de velho admirador e amigo poderoso, apresentando a sua candidatura à cátedra vaga de Psiquiatria e Clinica Psiquiátrica, na Real Universidade de Turim. Ai, porém, não era menor a inveja e o despeito. Opuseram a que fosse nomeado diretamente, sem concurso, ele, que talvez não tivesse competidor à altura!

A afronta a um nome internacional foi, entretanto, suavilizada pelos canais competentes, e a 1 de Outubro de 1876 nomeiam Lombroso professor ordinário na referida Universidade, não da cátedra por ele ambicionada, mas da de Medicina Legal e Higiene Pública.

Logo de entrada, foi acolhido com frieza por certos colegas míopes e invejosos, enquanto que a direção da Universidade passou a criar-lhe dificuldades no ensino da cátedra, negando-lhe tudo quanto precisava. Foram anos de grandes sacrifícios para Lombroso, que chegou a tirar dinheiro do seu próprio bolso a fim de comprar os materiais indispensáveis.

Em 1878 é eleito membro extraordinário do Conselho Sanitário da Província de Turim.

Funda, em 1880, juntamente com Henrique Ferri e Rafael Garófalo, a revista Archivio di Antropologia Criminale, Psichiatria, Medicina Legale e Scienze Affini, que logo se tornou mundialmente famosa, verdadeiro monumento científico, de valor incalculável, segundo a expressão do Professor Pelayo Casanova da Universidade de Havana, revista que teve sempre à testa, até o seu falecimento, o Professor Lombroso.

Passa a ser membro ordinário do Conselho Sanitário da Província de Turim, em 1881.

A 1 de Fevereiro de 1886, após concurso, é nomeado médico sanitário das Prisões de Turim.

De 1887 a 1891, como professor incaricato, ensina Medicina Legal na Real Universidade de Turim.

A 14 de setembro de 1891, foi finalmente incumbido de lecionar Psiquiatria e Clinica Psiquiátrica na Universidade de Turim, ali também chefiando a respectiva Clinica, só sendo nomeado professor ordinário das mesmas matérias em 9 de Janeiro de 1896.

Em 1905 criou o célebre Museu de Antropologia Criminal, que logo se tornou ponto de romaria para estudantes e professores de todo o mundo, havendo a revista Illestrazione Italiana estampado em 1906 fotografias do edifício onde ele funcionava, bem como de várias salas de exposição.

E nomeado, em 1906, professor ordinário de Antropologia Criminal e professor incaricato de Psiquiatria e Clinica Psiquiátrica, na Universidade de Turim.

Neste mesmo ano, ocupa o cargo de inspetor dos Manicômios do Piemonte, e a Sociedade Ética de Londres eleva-o a presidência honorária.

A última distinção recebida em vida foi o título de Doctor juris, da Universidade de Aberdeen (Escócia), em 1907.

Doutrinas Científicas

Exporemos mui sucintamente os pontos capitais em que se condensa a atividade cientifica de Lombroso, que derramou novas luzes sobre o abismo doloroso de diferentes formas do mal, quais a loucura, o delito, a prostituição, o alcoolismo, o cretinismo, a pelagra.

De início há que ressaltar que o caráter específico da mente de Lombroso foi, antes de tudo, o constante e inexorável reconhecimento da soberania do fato. Ele - segundo palavras do seu eminente discípulo e continuador, Henrique Ferri - cercava o fato como o cão de raça cerca febrilmente a caça. E, diante do fato, seu cérebro se excitava e dele saltavam centelhas de intuições maravilhosas, emergindo do seu pensamento, explicados no inesperado contacto e confronto, os mais diferentes e abstrusos fenômenos.

Os fatos possuíam a força de fazê-lo mudar de idéia, e nisto reside uma das grandes superioridades do seu espírito. Não se aferrava cegamente às suas próprias doutrinas e teorias; defendi-as obstinadamente quando acreditava responderem elas aos fatos, mas as modificava logo que outros fatos viessem demonstrar-lhe a inexatidão ou a insuficiência delas.

Como escreveu acertada e admiravelmente Lorenzo Elero, Lombroso teve a coragem dos inovadores geniais, profundamente convencidos, ao afrontar sozinho o mundo das idéias secularmente estereotipadas; mas teve também uma coragem bem mais difícil: a coragem de afrontar a si mesmo e a si mesmo corrigir-se e contradizer-se, tudo por insaciável ardor pela verdade.

Assim, por exemplo, a gênese natural do delito, explicou-a primeiramente pelo atavismo. Não a crendo, depois, suficiente, acrescentou a degeneração e uma causa patologia, a neurose epiléptica. O mesmo se pode dizer com relação ao Espiritismo, conforme veremos mais adiante.

Afirmou Ferri (In morte di Cesare Lombroso, na revista La Scuola Positiva, 1909, págs. 582-3) que Lombroso foi em suas pesquisas um grande continuador de Galileu. Segundo este sábio físico e astrônomo, se, para interpretar à vontade do testador defunto, há necessidade de se lhe ler o testamento, para interpretar a Natureza, muito mais que a leitura dos livros escritos pelos filósofos, necessita-se interrogar diretamente a Natureza mesma, valendo-se da observação e da experiência.

Na verdade, o método de investigação seguido por Lombroso, método positivista por excelência, fora empregado por vários estudiosos, como Lamarck, Darwin, Despines e outros, sendo que a novidade introduzida pelo psiquiatra e criminologista italiano foi a de excogitar a classe de fenômenos que se haveria de estudar por tal método, para se fundar, por exemplo, um novo Direito Penal. Para Lombroso, neste caso, os fatos eram os homens, ou melhor, os delinqüentes, os quais considerava como o documento vivo que devia servir de tema e ponto de partida de todas as experiências, considerando, além disso, que unicamente pela análise de suas anomalias físicas e morais poderiam ser estabelecidos os fatos cruciais da chamada nova ciência penal.

Se bem é verdade - como salienta a Enciclopédia espanhola Espasa-Calpe, S. A. - que os grandes trabalhas de Lombroso se referem especialmente à ciência penal, resumindo-se nos princípios formulados pela Escola Positiva, de que ele foi o chefe, suas investigações se dirigiram também para outros ramos do saber humano (enfermidades mentais em geral, pelagra, Hipnotismo, Espiritismo, etc.), mas em todas as ocasiões a nota distintiva do método lombrosiano foi à rigorosa e impassível observação da vida em suas interações, a afirmação de que os fatos, diretamente e bem estudados, constituem as bases firmes e inquebrantáveis sobre as quais se assentará a Ciência.

De acordo com Ferri, as maiores e mais decisivas descobertas cientificas de Lombroso foram principalmente estas a causa especifica da pelagra, profilaxia e tratamento; a gênese natural do delito; a natureza do homem de gênio. Afora estas, acrescenta Ferri, muitas outras descobertas de menor importância poderiam ser mencionadas, pois onde o sábio de Verona pousasse os olhos indagadores, si projetava um feixe de luz.


1°) A Causa Especifica da Pelagra, Profilaxia e Tratamento.
Em conseqüência da extrema variação na manifestação da pelagra, durante centenas de anos os especialistas não puderam atinar com a causa desse mal, nem com a sua terapêutica. Milhares de casos ocorriam em todo o mundo, e na Itália, por volta de 1856, cerca de 100.000 casos eram comprovados por F. Lussana e Frua.

Lombroso começou a estudar algumas formas especiais da pelagra, publicando, em 1868, vários artigos sobre este assunto, em revistas médicas. Do estudo destas formas especiais, passou à consideração da enfermidade em geral, e, seguindo as pegadas do Doutor Ballardini e do senador Teófilo Roussel, separou o sporisorium maidis e os demais fungos que se desenvolviam no milho deteriorado, realizando diferente experimentos com suas culturas, tanto em animais como no homem.

Havendo demonstrado que aqueles fungos não produziam a pelagra, fez experiências com o extrato do milho estragada, e então pode obter os sintomas específicos da enfermidade que estudava.

O tratamento de um caso grave de pelagra lhe deu a chave do enigma. Tratava-se de um tifo pelagroso, acompanhado de uremia aguda, e, como todos os sintomas eram os de envenenamento, Lombroso suspeitou que muitos dos fenômenos pelagrosos seriam conseqüência de intoxicações também crônicas, isto é, que a pelagra seria devida não a uma infecção, mas sim a uma intoxicação proveniente, não de um fungo do milho, mas de toxinas formadas no perisperma dos grãos de milho deteriorado por aqueles fungos.

Averiguada a causa da pelagra, Lombroso busca-lhe o tratamento. Sucessivamente emprega várias substancias químicas, não conseguindo resultados satisfatórios. Tendo lido numa Memória de Coletti e Perugini que os pelagrosos encontravam notável alívio com o uso das águas de Levico, analisou-as cuidadosamente, e, após comprovar que alguns dos seus componentes não produziam o efeito desejado, ensaiou, então, o ácido arsenioso, em forma de gotas de Fowler obtendo, afinal, resultados realmente maravilhosos.

As conseqüências das descobertas de Lombroso resumiam-se nesses dois pontos: a) devia-se proibir o consumo do milho deteriorado; 2) o arsênico era o remédio especifico da pelagra.

Conta Ferri que por trinta anos Lombroso teve de sustentar dolorosa luta para ver acolhida a sua descoberta sobre a origem da pelagra. Não só os grandes produtores de milho. Como os próprios homens de ciência o combateram com veemência: aqueles, ou porque queriam vender o milho, mesmo deteriorado, ou porque supunham seria exterminada a cultura do milho estes, como os professores Lussana, Porta, Bonfigli, porque achavam improváveis as afirmações de Lombroso.

Acentua Scipio Sighele, ilustre sociólogo italiano, que o sábio estudioso da pelagra suscitara tamanha oposição, sendo até qualificado de heterodoxo e ousado, que por isso quase a perdendo, em 1868, a cátedra na Universidade de Pavia.

São de 1880 as suas brilhantes Lettere al dottor Bonfigl lássico exemplo de ímpeto polemico e de lógica cerrada, no dizer de Giuseppe Antonini, diretor do Manicômio de Udina.

Por duas vezes (1870 e 1872), concorrendo só primeiro premio instituído pelo Instituto Lombardo, de Milão, encontrou apenas juízes que negavam a priori tudo quanto apresentava e afirmava sobre a pelagra. Requereu, então, uma comissão nomeada pelo Instituto. Após dois anos de estudos, os membros dessa comissão, torcendo desonestamente os fatos, declararam que o milho deteriorado era inócuo!

Lombroso ficou indignado com essa falsa conclusão. Auxiliado pelo químico Francisco Dupré, extraiu do milho deteriorado uma solução aquosa que produzia as reações gerais dos alcalóides e que, absorvida ou injetada em cães, frangos, coelhos e rãs, originava convulsões e outros fenômenos próprio da pelagra. Este extrato aquoso foi remetido à referida comissão. E porque essa preparação originava sintomas análogos ao da estricnina, atreveram-se a acusá-lo de fraudador, incriminando-o de haver misturado esse veneno ao seu produto para obter os seus famosos coelhos pelagrosos!

Lombroso, inabalável em sua fé na vitória da verdade, resistiu a todas as investidas que o procuravam ridiculizar. Exigiu que um químico do Instituto preparasse, com suas próprias mãos, o extrato, segundo o método por ele indicado. O referido químico assim o fez, e, tendo experimentado em animais a solução obtida, verificou que ela os matava com sintomas semelhantes aos do envenenamento estricninico, mas teve a falta de coragem ou de honestidade para tornar público o resultado. Lombroso não se conteve e publicou as conclusões do químico, que o ameaçou de um desmentido.

E só quando o sábio Marcelino Berthelot, bem como Pellogio, Huseman e Auspitz demonstraram haver no extrato do milho deteriorado um alcalóide semelhante, mas não igual, à estricnina, só então os caluniadores calaram e começou a justiça para Lombroso. Sua doutrina sobre a pelagra e o tratamento especifico por ele indicado ganharam novos defensores.

Finalmente, em 1902, deteve a consagração oficial. O Governo italiano promulgou uma lei para combater a pelagra, tomando uma série de providências administrativas, higiênicas, econômicas e agrárias, todas inspiradas na doutrina lombrósiana. A incidência da doença diminuiu sensivelmente, e em 1905 o número de pelagrosos na Itália era cerca de cinco mil apenas.

Depois de curtir dores e desenganos, que infelizmente sempre acompanham a obra dos renovadores, ele pode, ainda em vida, ver triunfar as suas idéias. Por tudo quanto fez e escreveu sobre o problema pelagrógico, Lombroso merece, por direito - na opinião autorizada dos Drs. Antonini e Tirelli -, ser aclamado o pai da pelagrogia moderna.



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