Cheio de Charme



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Abas:

Tooodo mundo se lembra de onde estava quando ouviu a notícia de que Paddy de Courcy ia se casar.

Entretanto, para quatro mulheres em particular, a grande novidade sobre o carismático político é especialmente importante...

A consultora de estilo Lola Daly tem todos os motivos do mundo para querer saber quem é a pessoa com quem Paddy vai se casar – afinal, mesmo sendo a namorada do cara, ela não é, definitivamente, a noiva. De coração partido, Lola foge da cidade e vai para uma cabana no litoral. Será que o retiro se provará tão idílico quanto ela imagina?

Não se a jornalista Grace puder fazer alguma coisa. Ela quer uma versão bem íntima do noivado do De Courcy e acha que a Lola tem a chave desse segredo. Grace conheceu Paddy há muito tempo. Mas por que será (ai, que ódio!!!) que ela não consegue esquecer o sujeito?

A irmã de Grace, Marnie, pode ter a resposta. O problema é que ela também tem pendências a resolver com o passado. Seu querido e adorado marido e suas lindas filhas são maravilhosos, mesmo assim eles não conseguem afastar a lembrança daquele primeiro amor: um certo... ele mesmo: Paddy de Courcy. Do que Marnie precisa para levar sua vida adiante?

E o que dizer sobre a futura Sra. De Courcy? Alicia fará qualquer coisa pelo noivo e está determinada a ser a primeira-dama perfeita. Mas será que ela conhece o verdadeiro Paddy?

Quatro mulheres diferentes. Um homem terrivelmente sedutor. E o segredo sombrio que conecta a todos.


Orelha do Livro.

"Todo mundo se lembra de onde estava no dia da notícia do casamento do Paddy de Courcy. Fui uma das primeiras a saber, já que estava trabalhando no jornal quando a fofoca chegou, via David Thornberry, correspondente político (e homem mais alto de Dublin), dizendo que o solteirão De Courcy estava pendurando as chuteiras. Fiquei surpresa. Quer dizer, todo mundo ficou. Mas eu fiquei surpresa e mais um pouco, e isso antes mesmo de saber quem era a sortuda. Mas não podia demonstrar meu desapontamento. Não que alguém fosse perceber. Eu podia cair dura no meio da rua e as pessoas continuariam me pedindo carona até a estação. É assim a vida quando você é a parte saudável de uma dupla de gêmeos. De qualquer maneira, Jacinta Kinsella (chefe) precisava de uma notinha rápida sobre o noivado, portanto eu tive de colocar meus sentimentos de lado e ser profissional."

Grace Gildee

"Teria sido simpático você me perguntar primeiro"

Alicia Thornton

"Eu estava on-line, conferindo o leilão virtual de uma bolsa de coruja (uma Stella McCartney, não era uma bolsa de "coruja" qualquer) para uma cliente que tinha uma festa beneficente quando vi a manchete.



De Courcy vai se Casar. 

Pensei que era boato. A mídia sempre inventa coisas e celulite em mulheres que não têm celulite e vice-versa. Quando descobri que era verdade, fiquei chocada. Na verdade, achei que estava tendo um ataque cardíaco. Teria chamado uma ambulância, mas não conseguia lembrar o telefone: 999. Só me vinha 666. O número da besta."

Fionnola "Lola" Daly

"Não se atreva a ser feliz, seu cafajeste. Foi isso que pensei quando soube. Não se atreva a ser feliz."

Marnie Hunter
DE COURCY VAI SE CASAR

Mulheres em toda parte usarão fitas pretas nos braços depois da notícia de que o político solteiro mais cobiçado da Irlanda, Paddy "Imprevisível" de Courcy, vai pendurar as chuteiras e sossegar. Ao longo da última década, De Courcy, figura popular em salões VIP da noite de Dublin, e muitas vezes comparado fisicamente a JohnJohn Kennedy, se relacionou com muitas mulheres glamourosas, incluindo a modelo que virou atriz Zara Kaletsky e a alpinista que escalou o Everest Selma Teeley, mas, até agora, não havia mostrado nenhum sinal de interesse por um compromisso permanente.

Pouco se sabe sobre a mulher que conquistou seu coração conhecidamente incorrigível, uma tal Alicia Thornton, mas ela certamente não é modelo ou alpinista - a única escalada em que parece interessada é a social. A Srta. Thornton (35), supostamente viúva, trabalha para uma imobiliária conhecida, mas planeja deixar o emprego logo depois do casamento para "dedicar-se" à carreira política ascendente do marido. Como esposa do ambicioso e famoso "Imprevisível", ela terá o trabalho perfeito.

De Courcy (37) é o líder da bancada do Nova Irlanda, partido fundado há três anos por Dee Rossini e outros desafetos das práticas de corrupção e coronelismo prevalecentes no cenário político da Irlanda parlamentarista democrática. Contrariamente à crença popular, De Courcy não é um dos membros fundadores do partido, mas filiou-se oito meses depois de sua criação, quando ficou claro que era um projeto viável.


Lola

Dia Zero. Segunda-feira, 25 de agosto, 14h25

Pior dia da minha vida. Quando me livrei das garras da primeira onda de choque, não consegui deixar de perceber que Paddy não tinha me ligado. Mau sinal. Eu era namorada dele, a mídia estava alardeando um casamento com outra mulher, e ele não me ligava. Péssimo sinal.

Liguei pro celular pessoal dele. Não o pessoal, que todo mundo sabia, mas o pessoal-pessoal que só eu e o personal trainer dele temos. Tocou quatro vezes, depois foi pra caixa postal, e ai eu tive certeza de que era verdade.

Fim do mundo.

Telefonei pro escritório, pra casa, continuei tentando o celular, deixei cinquenta e um recados - contados.
18h01

O telefone tocou - era ele!

Ele disse: - Você viu o jornal de hoje?

- On-line - respondi. - Eu nunca leio jornal. (Algo nem um pouco relevante, mas as pessoas dizem as coisas mais estranhas quando estão em choque.)

- Desculpa você ficar sabendo desse jeito. Queria te contar, mas algum jornalista...

- O quê? Então é verdade? - gritei.

- Desculpa, Lola. Não achei que você levasse a gente tão a sério. A nossa história era só diversão.

- Diversão? Diversão?

- É, a gente só estava saindo ha alguns meses.

- Alguns? Dezesseis. Dezesseis meses, Paddy. Isso é bastante tempo. você vai mesmo casar com essa mulher?

- Vou.

- Por quê? É amor?



- Claro. Não casaria se não fosse amor.

- Mas eu achei que você me amava.

Com a voz triste, ele disse: - Nunca te prometi nada, Lola. Mas você é incrível, uma mulher incrível. Uma em um milhão. Se cuida.

- Espera. Não desliga. Eu preciso te ver, Paddy, por favor, cinco minutinhos. (Dignidade zero, mas não consegui me conter. Terrivelmente confusa.)

- Faz um esforço pra não ficar com raiva de mim - disse ele. - Eu sempre vou pensar em você com carinho, em você e no tempo que a gente ficou junto. E não se esquece de...

- De quê? - Engasguei, desesperada para ouvir alguma coisa que me tirasse daquele limite horrível, daquela dor insuportável.

- De não falar com a imprensa.

18h05 até meia-noite

Liguei pra todo mundo. Inclusive para ele. Perdi a conta de quantas vezes, mas foram muitas. Pode ter certeza disso. Números de dois, talvez três dígitos.

O telefone também estava quente de tantas ligações recebidas. Bridie, Treese e Jem - amigos verdadeiros - ofereceram conforto, mesmo não gostando do Paddy. (Nunca admitiram isso pra mim, mas eu sabia.) Também telefonaram vários falsos amigos - curiosos de plantão! -, só pra dar uma zoada. Apanhado dos pontos principais: "É verdade que Paddy de Courcy vai casar, mas não é com você? Coitadinha. Que horrível! Realmente horrível pra você. Tão huMILhante. Tão MORTificante. Tão VERGOnhoso! Tão ..."

Mantive a dignidade. Disse: - Obrigada pelo carinho. Preciso desligar agora.

Bridie veio me ver em pessoa. - Você não foi feita pra ser mulher de político - disse ela. - Suas roupas são muito modernas e você tem mechas roxas no cabelo.

- Bordô, por favor - reclamei. - Roxo me faz parecer uma... adolescente.

- Ele era muito controlador - disse ela. - A gente nunca conseguia ver você. Principalmente nos últimos meses.

- A gente estava apaixonado! Você sabe como é quando a gente tá apaixonado.

Bridie tinha se casado no ano anterior, mas ela não é do tipo sentimental. - Apaixonada, tudo bem, mas nem por isso precisa viver grudada no outro. Você furava com a gente toda hora.

- O tempo do Paddy é precioso! Ele é um homem ocupado! Eu tinha que me encaixar onde dava!

- E outra coisa - disse Bridie. - você nunca lê o jornal, você não sabe nada sobre o cenário político.

- Eu podia ter aprendido - disse. - Eu podia ter mudado!


Terça-feira, 26 de agosto

Parece que o país inteiro tá olhando pra mim, apontando e rindo. Contei para todos os amigos e vários clientes sobre o Paddy e agora eles sabem que ele vai casar com outra.

Meu equilíbrio está destroçado. Numa sessão de fotos em Wicklow Hills, pro catálogo da Harvey Nichols Christmas, passei um vestido incrível de seda cor de ostra da Chloé (sabe de qual estou falando?) com o ferro muito quente e queimei a preciosidade! Marca de queimado em formato de ferro de passar roupa no vestido ícone de 2.035 euros (peça de varejo). Destruído. O vestido que era para ser o protagonista das fotos. Sorte não terem me cobrado o valor (nem me prendido, mas as duas coisas poderiam acontecer, pensando bem).

Nkechi insistiu em assumir o controle - ela é uma excelente assistente, tão excelente que todo mundo pensa que é minha chefe -, porque minhas mãos tremiam, minha concentração estava em frangalhos e toda hora eu ia vomitar no banheiro.

E pior: os intestinos parecendo geleia. Sem mais detalhes.
20h30 - 0h34

Bridie e Treese me visitaram em casa e me impediram, fisicamente, de ir até o apartamento de Paddy e exigir uma audiência com ele.


8h00

Acordei e pensei: Agora eu vou! Depois, percebi que Treese estava na cama, ao meu lado. Pior, acordada e pronta pra briga.


Quarta-feira, 27 de agosto, 11h05

Pensamento constante na minha cabeça: ele vai casar com outra mulher. Depois, a cada uma hora, eu pensava: O quê? Como assim vai casar com outra mulher? Como se eu estivesse descobrindo naquele momento, e SIMPLESMENTE NÃO PUDESSE ACREDITAR. Depois, fico com vontade de ligar pra ele, de tentar fazer com que mude de ideia, mas ele nunca atende.

Depois, a caraminhola recomeça, depois vem a surpresa, depois eu tenho que ligar pra ele, depois nenhuma resposta - de novo, de novo e de novo.
Vi a foto da tal e tão falada Alicia Thornton. (No jornaleiro, comprando um Crunchie, vi a fotografia na primeira página do lndependent.) O fotógrafo clicou o momento em que ela saía do escritório. Difícil ter certeza, mas parecia que estava vestindo Louise Kennedy. Isso diz tudo. Segurança. Elegante, mas segura.

Me dei conta de que reconhecia Alicia Thornton - ela já tinha saído quatro vezes com Paddy nas páginas brilhantes das colunas sociais nos últimos meses. As manchetes sempre diziam: "Paddy de Courcy e acompanhante." Quando a terceira foto apareceu, reuni coragem suficiente pra questioná-lo. Ele me acusou de não confiar nele e disse que ela era uma amiga da família. Acreditei. Mas que família? Ele não tem família!


12h11

Telefonema de Bridie: - A gente vai sair hoje à noite.

- Não - gemi. - Não posso encarar o mundo!

- Pode, pode sim. Cabeça erguida!

Bridie é muito mandona. Conhecida como Sargento pelos mais próximos e mais queridos.

- Bridie, eu tô em frangalhos. Tremendo e tudo. Não posso ir a lugar nenhum. Pelo amor de Deus.

Ela não desistiu: - É pro seu bem. A gente vai cuidar de você.

- Você não pode vir aqui?

- Não.

Longa, longa pausa. Inútil tentar lutar contra a Bridie. Ela é a pessoa mais determinada que já conheci.



Suspirei. Perguntei: - Quem vai?

- Nós quatro. Você, eu, Treese, Jem...

- Até o Jem? Ele conseguiu alforria da Claudia?

Claudia é a noiva do Jem. Muito possessiva, apesar de ser linda e magra.

- Conseguiu, ele conseguiu alforria da Claudia - disse Bridie. - Eu dei um jeito nela.

Bridie e Claudia compartilhavam total antipatia.

Jem era muito amigo meu, da Bridie e da Treese, mas, muito estranhamente, não era gay. Nem mesmo metrossexual. (Uma vez até comprou um jeans da Mark & Spencer. Não viu nada de errado, até eu avisar, gentilmente, que aquilo era um erro.) A gente morava na mesma rua quando era adolescente, ele e eu. Ligados por pontos de ônibus gelados no inverno, manhãs de chuva e casacos impermeáveis, no caminho pra faculdade. Ele, para ser um engenheiro crânio, eu, para conseguir um diploma de moda. (Só pra deixar registrado, meu casaco impermeável era de vinil azul metálico.)
20h35

Café Albatross.

Pernas tremendo. Quase caí na escada de entrada do restaurante. Tropecei nos três últimos degraus e quase fiz uma entrée triomphal deslizando pelo salão de joelhos, feito o Chuck Berry. Pior, nem liguei. Eu não poderia ser mais motivo de piada do que já era. Bridie e Treese estavam me esperando.

Bridie - como sempre - exibia um visual absolutamente esquisito. O cabelo liso e louro-avermelhado num coque de vovó, um macacão verde assustador - pescando siri, todo torto, com jóqueis pequenininhos bordados. O gosto mais bizarro sempre foi característica dela - desde o primeiro dia de colégio, aos quatro anos, quando insistiu em usar uma meia-calça da cor de sangue pisado. Mas ela nunca esteve nem aí.

Treese, captadora de recursos de uma grande instituição de caridade, era muito mais chique. Cabelo louro em ondas iguais às das deusas do cinema dos anos quarenta, vestia um conjunto de vestido com blazer impressionante. (Da Whistles, mas, na Treese, você podia confundir com um Prada.) A gente pensa que para trabalhar numa instituição de caridade tem que vestir roupa bege, de juta, casaco com capuz, mas isso é um engano. Treese trabalha numa instituição de ajuda aos países em desenvolvimento (não é Terceiro Mundo, não se pode mais dizer isso, não é politicamente correto). Às vezes ela tem reuniões com ministros para pedir dinheiro, outras vezes vai até Haia pedir dinheiro à União Europeia.

Perguntei: - Cadê o Jem?

Tinha certeza de que ele tinha cancelado, porque era muito raro nós quatro conseguirmos sair juntos, mesmo quando combinávamos com semanas de antecedência, quanto mais quando era uma questão de horas, como era o caso. (Tive que admitir que nos últimos meses eu era a pior de todas.)

- Lá vem ele! - disse Bridie.

Jem, apressado, pasta, capa de chuva, rosto redondo e agradável.

Vinho pedido. Bebemos na sequência. As línguas ficaram mais frouxas. Como eu disse, sempre suspeitei que meus amigos não gostavam do Paddy. Mas agora que ele me envergonhara publicamente, podiam falar sem pudores.

- Nunca confiei nele - disse Jem. - Ele é sedutor demais.

Sedutor demais? - disse eu. - Como é que você pode dizer que alguém é sedutor demais? Sedutor é uma coisa ótima. Que nem sorvete. Não existe sedutor demais.

- Existe - retrucou Jem. - Você devora uma caixa de sorvete de chocolate, uma caixa de sorvete de amora, depois fica enjoado.

- Eu não - disse. - De qualquer jeito, eu me lembro dessa noite, e foi o baseado, não o sorvete, que te deixou enjoado.

- Ele era bonito demais - disse Bridie.

Mais uma vez expressei incredulidade: - Bonito demais? Como pode isso? É impossível. É contra as leis da física. Ou de alguma outra coisa. Leis de território, talvez.

Eu tinha sido insultada? - Você tá querendo dizer que ele era bonito demais pra mim?

- Não! - gritaram todos. - Claro que não!

- Você é linda e perfeita - disse Jem. - Linda! Tão linda quanto ele.

- Mais! - exclamou Treese.

- É, mais - repetiu Bridie. - Só que diferente. Ele é muito óbvio. A gente olha pra ele e pensa: moreno alto, bonito e sensual. Perfeito demais. Mas, quando é você, a gente pensa: lá vai uma garota linda, estatura mediana, superfeminina, cabelo castanho bem cortado, com um pouco de roxo...

- Bordô, por favor!

- E uma pele ótima, considerando que você não fuma. Um brilho no olho - nos dois olhos, na verdade - e um nariz pequeno, muito simétrico. - (Bridie estava convencida de que o nariz dela apontava para a esquerda. Tinha inveja de todos os narizes apontados precisamente para cima;) - Quanto mais a gente olha pra você, Lola, mais atraente você fica. Quanto mais a gente olha pro Paddy de Courcy, menos atraente ele é. Esqueci alguma coisa? - perguntou a Jem e a Treese.

- O sorriso dela ilumina o rosto todo - disse Jem.

- Isso - disse Bridie. - Seu sorriso acende seu rosto. O mesmo não acontece com ele.

- O sorriso do Paddy de Courcy é falso. Que nem o do Coringa do Batman.

- Isso! Que nem o do Coringa do Batman!

Protestei: - Ele não tem nada a ver com o Coringa do Batman!

- Tem sim. Ele É o Coringa do Batman. - Bridie foi taxativa.
21h55

O celular de Bridie tocou. Ela olhou para o número no visor e disse: - Tenho que atender essa ligação.

Levantou-se para sair, mas protestamos: - Fique, fique.

Queríamos ouvir. Era seu chefe (banqueiro importante). Parecia que queria ir para Milão e que Bridie reservasse seu voo e hotel. Bridie sacou uma agenda enorme da bolsa. (Bolsa muito maneira, por sinal. Mulberry. Por que uma bolsa maneira e roupas bisonhas? Não faz sentido.)

- Não - disse ela para o chefe. - O senhor não pode ir para Milão. Amanhã é aniversário de sua mulher. Não, não vou reservar voo nenhum para o senhor. Isso mesmo, recusando. Você ainda vai me agradecer por isso. Estou te mantendo longe de um divórcio litigioso.

Ouviu um pouco mais e então deu um sorriso debochado: - Me demitir? Não seja besta! - Desligou. - Onde estávamos?

- Bridie - Treese parecia nervosa -, não está certo que você recuse reservar voos pra Milão para seu próprio chefe. Vai que é importante.

- Cale-se - Bridie a dispensou com um floreio de mão. - Sei de tudo o que está acontecendo. A situação em Milão não requer a presença dele. Suspeito que esteja de olho numa mocinha italiana. Não vou facilitar essa paquera.


22h43

Sobremesas. Eu pedi torta de banana. Melada, com gosto de folha molhada. Cuspi na colher e enrolei as bananas no guardanapo. Bridie experimentou minha torta. Disse que não estava melada. Nem com gosto de folha molhada. Treese provou. Disse que não estava melada. Jem provou. Disse que não estava melada. Comeu toda. Em compensação, me ofereceu uma barra de chocolate gelada. Mas parecia um toucinho com aromatizante de chocolate. Bridie experimentou. Disse que não tinha gosto de toucinho com aromatizante de chocolate. Chocolate sim, toucinho não. Treese concordou. Jem também.

Bridie me ofereceu sua torta de maçã, mas a massa tinha gosto de cartolina úmida, e os pedaços de maçã pareciam umas coisas mortas. Os outros não concordaram.

Treese não me ofereceu a sobremesa dela porque não tinha nada pra oferecer - antigamente ela era gordinha, e agora tentava ficar longe de açúcar. Tudo bem comer a sobremesa dos outros, mas não pedir uma pra ela mesma.

O exagero dela estava quase completamente sob controle agora, mas sempre era possível a pessoa estar num dia ruim. Por exemplo, se ficasse estressada no trabalho, depois de ter um orçamento de latrinas em Addis Abba recusado pela União Europeia, podia comer até vinte barrinhas de Mars de uma vez só. (Talvez até mais, mas a mulher da loja do lado do escritório dela se recusava a vender. Dizia pra Treese: "Você já comeu o suficiente, amor." Como se fosse um dono de bar cuidadoso. "Você fez aquele esforço todo pra emagrecer, Treese, não vai querer ficar uma porquinha de novo. Pensa naquele seu marido bacana. Ele não te conheceu quando você era gorducha, conheceu?")

Resolvi desistir das sobremesas e pedi uma taça de vinho do Porto.

- Tem gosto de quê?- perguntou Bridie. - Couro podre? Olho de larva de mosca?

- Álcool - disse eu. - Tem gosto de álcool.

Depois do Porto, tomei um amaretto. Depois do amaretto, tomei um Cointreau.
23h30

Me preparei pra ser obrigada a ir a uma boate, para lá também manter a "cabeça erguida".

Mas não! Nenhuma menção à boate. Papo de táxis e trabalho no dia seguinte de manhã. Todo mundo ia voltar pros seus amores - Bridie se casou no ano passado, Treese este ano, Jem morava com Claudia, a possessiva. Pra que sair pra comer bife se você tem um hambúrguer em casa?

Jem me deixou em casa de táxi e insistiu que, na hora em que eu quisesse sair com ele e Claudia, eu era bem-vinda. Ele é um amor, o Jem. Uma pessoa muito, muito gentil.

Mas estava mentindo, claro. A Claudia não gosta de mim. Não tanto quanto não gosta da Bridie, mas mesmo assim...

(Desvio rápido). Lembra que eles me disseram que o Paddy era bonito demais pra mim? Bem, o mesmo podia ser dito sobre a Claudia e o Jem. Claudia é "pernocuda" - palavra linda, tão anos sessenta -, bronzeada, loura, os peitos turbinados. É a única pessoa que conheço que realmente colocou silicone. Pra ser honesta, eles não são grotescamente grandes, mesmo assim, não tem como não notar. Também suspeito que tenha colocado megahair - numa semana a gente se encontra e ela está com o cabelo no ombro; na outra, vinte centímetros mais comprido. Mas talvez tome muito selênio, só isso.

Ela parece uma modelo. Na verdade, foi modelo. Mais ou menos. Ficava sentada no capô dos carros, de biquíni. Também tentou ser cantora - fez teste pra You're A Star (reality show de televisão). Tentou ser dançarina. (Em outro reality show de tevê.) Também tentou ser atriz. (Gastou uma pequena fortuna em fotos, mas foi descartada porque era péssima.) Também houve um rumor de que foi vista num teste pro Big Brother, mas ela nega.

Mas não vou julgar. Meu Deus, eu mesma só dei certo na carreira depois de mil erros e acertos, depois de ter falhado em todo o resto. Parabéns pra Claudia, pelo espírito aventureiro.

O único motivo de eu não gostar da Claudia é ela não ser agradável. Mal se dá ao trabalho de falar comigo, com a Treese e, especialmente, com a Bridie. A linguagem corporal dela sempre diz: Não SUPORTO andar com vocês, suas chatas. Preferia mil vezes estar cheirando cocaína na coxa de um qualquer numa boate.

Ela se comporta como se a gente fosse roubar o Jem de debaixo da saia dela, se tivesse a mínima chance. Mas não tem com que se preocupar. Nenhuma de nós é a fim do Jem. Todas já demos uns amassos nele na adolescência. O rosto dele não era tão redondo e confiável na época. Tinha um quê de devasso.

Se você quer minha opinião sincera, às vezes acho que a Claudia nem gosta do Jem. Trata o cara feito idiota, um cachorro vira-lata, que come os sapatos e rasga travesseiros de penas de ganso se não for rigorosamente vigiado.

Jem é uma pessoa adorável, adorável. Merece uma namorada adorável, adorável.

Última informação. O Jem ganha superbem. (Não quero dizer nada com isso. Apenas uma observação.)
23h48

Entrei no meu cubículo. Olhei pra minha vida que não significava nada e pensei: estou completamente só. E vai ser assim pro resto da vida.

Não é uma questão de autopiedade. Estou simplesmente encarando os fatos.
Quinta-feira, 28 de agosto, 9h00

O telefone tocou. Uma voz feminina muito amigável disse: - Lola, oi.

Cautelosamente, eu disse: - Oi.

Como pode ser cliente, tenho sempre que fingir que sei quem tá falando e jamais devo dizer "quem fala?" Elas gostam de pensar que são únicas. (Não é assim com todo mundo?)

- Lola, oi! - A voz feminina foi em frente. - Meu nome é Grace. Grace Gildee. Queria saber se a gente poderia bater um papo.

- Lógico - disse. (Porque achei que era uma mulher querendo consultoria de estilo.)

- Sobre um grande amigo meu - disse ela. - Acho que você também conhece. Paddy de Courcy?

- Claro - respondi, me perguntando o que significava aquilo tudo. De repente, me dei conta! Ah, não... - Você é jornalista?

- Isso! - respondeu ela, como se fosse tranquilo. - Adoraria conversar com você sobre sua relação com Paddy.
Mas Paddy tinha dito: nada de falar com a imprensa.

- Logicamente a gente vai te recompensar - disse a mulher. - Fiquei sabendo que você perdeu alguns clientes recentemente. Dinheiro pode ser uma coisa útil.

O quê? Perdi alguns clientes? Isso é novidade pra mim.

Ela disse: - É sua chance de dar sua versão da história. Sei que você se sentiu terrivelmente traída por ele.

- Não, eu...

Fiquei com medo. Realmente com medo. Não queria a história sobre meu relacionamento com Paddy nos jornais. Não devia nem mesmo ter admitido conhecer o Paddy.

- Não quero falar sobre isso!

Ela disse: - Mas você teve um relacionamento com Paddy?

- Não, eu, é... sem comentários.

Nunca imaginei ter uma conversa na qual usaria as palavras "sem comentários".

- Vou tomar isso como um sim - disse a tal da Grace. E riu.

- Não! - disse. - Não é um sim. Eu preciso desligar, agora.

- Se você mudar de ideia - disse ela -, me liga. Grace Gildee. Escrevo pro Spokesman. A gente pode fazer uma matéria ótima.

9h23

Ligação de Marcia Fitzgibbons, boss da indústria e cliente importante.

- Lola - disse ela -, ouvi dizer que você estava cheirando na sessão de fotos da Harvey Nichols.

- Cheirando? - perguntei, esganiçada.

- Tendo crises de abstinência - disse ela.

- Do que você tá falando?

- Fiquei sabendo que você estava péssima, tremendo toda - disse ela. - Suando, vomitando, incapaz de passar um ferro sem destruir o vestido.

- Não, não - insisti. - Marcia, quer dizer, Sra. Fitzgibbons, eu não estava cheirando. O que aconteceu foi que meu coração estava partido. Paddy de Courcy é meu namorado, mas ele vai casar com outra.

- É isso que você anda dizendo para as pessoas, eu sei. Mas Paddy de Courcy, seu namorado? Não seja ridícula! Você tem cabelo roxo!

- Bordô - protestei. - Bordô!

- Não posso mais trabalhar com você - disse ela. - Minha política com drogados é de tolerância zero. Você é ótima estilista, mas regras são regras.

Por isso, ela era a boss, suponho.

Maiores tentativas de me defender se comprovaram inúteis, já que ela desligou na minha cara. Tempo, afinal, é dinheiro.
9h26

Sinto muita falta da minha mãe. Ia ser muito bom se ela estivesse comigo agora. Me lembrei de quando ela estava morrendo - apesar de, na época, não saber que era isso que estava acontecendo, ninguém me disse, eu só achava que ela precisava de muito descanso. De tarde, quando eu voltava do colégio, deitava ao lado dela na cama, ainda de uniforme, a gente dava as mãos e assistia às reprises de EastEnders. Adoraria fazer isso agora, deitar na cama ao lado dela, ficar de mãos dadas e dormir pra sempre.

Se pelo menos eu tivesse uma família grande que me rodeasse e dissesse "A gente te ama. Mesmo você não sabendo nada sobre os temas da atualidade".

Mas eu estava sozinha no mundo. Lola, a pequena órfã. O que era uma coisa terrível de se dizer, já que meu pai ainda era vivo. Poderia ter ido visitar o papai em Birmingham. Mas sabia que isso não seria duradouro. Seria como depois da morte da mamãe, nós dois convivendo numa casa em silêncio, sem saber usar a máquina de lavar ou assar um frango, os dois tomando antidepressivos.

Apesar de ter consciência de que era um exercício sem sentido, liguei pra ele.

- Oi, pai, meu namorado vai casar com outra mulher.

- O cafajeste!

Depois suspirou longa e pesadamente, e disse: - Eu só quero que você seja feliz, Lola. Se você for feliz, eu fico feliz.

Me arrependi de ter ligado. Tinha deixado meu pai triste, ele leva tudo tão a sério. E só de ouvir a voz dele, tão obviamente deprimida... quer dizer, eu sofro de depressão também, mas não fico remoendo isso.

Ele também era mentiroso. Não ficaria feliz se eu ficasse feliz. A única coisa que o faria feliz seria ter a mamãe de volta.

- E como vai Birmingham? - perguntei.

Pelo menos segui em frente com minha vida, depois da morte da mamãe. Pelo menos não me mudei pra Birmingham; nem era Birmingham em si, que tem boas lojas, inclusive uma Harvey Nichols, mas o subúrbio de Birmingham, lugar onde nada acontece. Ele estava com muita pressa de se mudar. Assim que fiz vinte e um, fugiu feito ladrão, dizendo que o irmão mais velho precisava dele; mas suspeitei que tinha se mudado porque a gente achava muito difícil viver juntos. (Na verdade, eu andava considerando a possibilidade de me mudar para Nova York, mas ele me livrou do incômodo.)

- Birminghan vai muito bem - disse ele.

- Que bom! Bem, eu tenho que desligar então... - disse. - Eu te amo, papai.

- Boa menina - disse ele. - Isso mesmo.

- E você também me ama, papai.


18h01

Contra todos os meus instintos, assisto ao noticiário, na esperança de ver a cobertura dos acontecimentos na câmara e poder dar uma espiadinha no Paddy. Tenho que aturar notícias terríveis, terríveis, sobre dezessete nigerianos sendo deportados, apesar de terem filhos irlandeses; nações europeias despejando suas montanhas de lixo no Terceiro Mundo (sim, eles disseram "Terceiro Mundo", não "países em desenvolvimento".)

Continuei esperando a matéria da câmara, fotos de homens gordos, de bochechas vermelhas, sujeitos com cara de corrupto numa sala de carpete azul, gritando uns com os outros. Mas nada disso aconteceu.

Só bem depois me lembrei de que eram férias de verão e de que eles não voltariam a se reunir em plenário (seja lá o nome que for) até duas semanas antes do Natal. Quando entrariam em recesso para as festas. Preguiçosos.

Antes de desligar a televisão, me chamou a atenção o fato de as estradas de Cavan pra Dublin estarem fechadas, por causa de um acidente com um caminhão carregado com seis mil galinhas. A tela ficou cheia de galinhas. Me perguntei se meu sofrimento estaria me fazendo ter alucinações. Galinhas são uma alucinação engraçada, no entanto. Olhei pro outro lado, apertei bem os olhos, abri novamente, olhei mais uma vez pra tela, e ela ainda estava cheia de galinhas. Gangues de galinhas saqueadoras a caminho da estrada, grande parte desaparecendo nas colinas em busca de liberdade, algumas pessoas aproveitando pra roubar as pobres, carregando as bichinhas pelas pernas, um homem com microfone tentando falar com a câmera, mas coberto até os joelhos por um mar de penas coloridas.
18h55

Não consigo parar de telefonar pro Paddy. É uma espécie de obsessão compulsiva. Tipo lavar as mãos o tempo todo. Ou comer nozes. Quando começo, não consigo parar.

Ele nunca atende e não liga de volta. Eu sabia que estava me rebaixando, mas não conseguia evitar. Desejava Paddy. Ansiava por ele.

Se eu pudesse falar com ele! Talvez nem tentasse fazer com que mudasse de ideia, mas podia ter respostas para algumas perguntas. Por exemplo, por que ele fez eu me sentir tão especial? Por que era tão possessivo comigo se tinha outra mulher o tempo todo?

Eu tinha uma sensação terrível de que a culpa era minha. Como eu podia ter acreditado que um homem lindo e carismático como o Paddy levaria uma pessoa feito eu a sério?

Me senti tão, tão estúpida. E, na verdade, eu não era estúpida. Tola, talvez, mas não estúpida. Faz uma grande diferença. Só porque amo roupas e moda, isso não significa que eu seja burra. Posso não saber quem é o presidente da Bolívia, mas tenho inteligência emocional. Pelo menos pensei que tivesse. Sempre dei ótimos conselhos sobre a vida das outras pessoas. (Só quando me pedem. Não sem convite. Isso seria rude.) Mas obviamente eu não tinha esse direito. Bobagem de criança.


Sexta-feira, 29 de agosto

A pior semana da minha vida continua sem trégua.

Numa sessão de fotos da autora Petra McGillis, atravessei o estúdio aos tropeços carregando três malas pesadíssimas com roupas que levei de acordo com as especificações de Petra, mas, quando retirei as peças, ela exclamou, indignada: - Eu disse nada de cores! Pedi tons neutros, pastéis, caramelo, bege, esse tipo de coisa! - Olhou para uma mulher, que mais tarde descobri ser sua editora, e disse: - Gwendoline, em que você está tentando me transformar? NÃO sou uma autora psicótica verde-pistache!

A pobre editora insistiu que não estava tentando transformar a autora em nada, certamente não numa psicótica verde-pistache. Disse que Petra tinha falado com a estilista (eu) e feito seus pedidos sem a interferência de ninguém.


Petra insistiu: - Mas eu disse nada de cores! Fui bastante específica. Nunca uso cor! Sou uma escritora séria!

De repente, todo mundo estava olhando pra mim - o fotógrafo, a maquiadora, o diretor de arte, o responsável pelo bufê, o carteiro que entregava um pacote. É culpa dela, todos me acusavam com os olhos. Aquela estilista. Ela acha que Petra McGillis é uma pessoa verde-pistache.

E tinham razão de me acusar. Eu não podia culpar Nkechi. Eu mesma atendi o telefonema e, quando Petra disse "Nada de cores!", meu cérebro de geleia deve ter registrado "Eu amo cores!".

Isso nunca tinha acontecido comigo antes. Normalmente eu era tão boa em canalizar os pedidos dos clientes que eles tentavam roubar os adereços depois das fotos e acabavam me colocando em situações delicadas com o pessoal da imprensa.

- Vou vestir a minha roupa velha mesmo - disse Petra, seca e gelada.

A talentosa Nkechi deu mil telefonemas, tentou encontrar uma solução de emergência, peças de roupa em tons neutros, mas ninguém estava disponível.

Pelo menos ela tentou, todos os rostos diziam em silêncio. Aquela Nkechi é uma simples assistente, mas mostrou mais competência que a própria estilista.

Eu devia ter ido embora ali mesmo, já que não tinha mais utilidade pra ninguém. Mas, até o final da sessão (durante mais três horas), fiquei lá, sorrindo amigavelmente, tentando manter o tremor nos meus lábios sob controle. De vez em quando, eu ajeitava a gola de Petra, fingindo que a minha existência fazia algum sentido, mas foi um desastre, um terrível, terrível desastre.

Levei muito tempo construindo minha carreira. Tudo isso para ser destruída, em questão de dias, por causa de Paddy de Courcy?

Mas isso não importava. Meu único interesse era ter o Paddy de volta. Ou, caso minhas tentativas falhassem, suportar o resto da vida sem ele. É, eu parecia um tipinho gótico exagerado, mas, falando sério, se você conhecesse o Paddy... Ao vivo, ele era tão mais lindo e carismático que na tevê. Fazia você se sentir como se fosse a única pessoa no mundo, e tinha um cheirinho tão bom que, depois que a gente se encontrou pela primeira vez, comprei a loção pós-barba dele (Baldessini), e, apesar de ele adicionar um ingrediente pessoal De Courcy ao perfume, uma cafungada era o bastante para me desnortear, como se eu pudesse desmaiar a qualquer momento.


15h15

Outro telefonema daquela jornalista, Grace Gildee. Insistente. Como ela conseguiu meu número, pra começo de conversa? E como podia saber que Marcia Fitzbbons ia me detonar? Na verdade, pensei em perguntar para ela quem mais ia me detonar, mas desisti.

Depois de muitos rodeios (da minha parte), ela me ofereceu cinco mil pela história. Bastante dinheiro. Consultoria de estilo era um negócio incerto. Você podia ter doze trabalhos numa semana e nenhum o resto do mês. Mas não fiquei tentada.

Mesmo assim - eu não era uma imbecil completa, apesar de me sentir assim -, liguei pro Paddy e deixei um recado: "Uma jornalista chamada Grace Gildee me ofereceu uma grana alta para eu falar do nosso relacionamento. O que eu faço?"

Ele ligou de volta tão rápido que eu mal tinha desligado.

- Nem pense nisso - disse ele. - Sou uma pessoa pública. Tenho uma carreira.

Sempre ele e a carreira dele.

- Eu também tenho uma carreira, sabia? - fiz questão de lembrar. - E ela tá indo pro fundo do poço por causa do meu coração partido.

- Não deixe isso acontecer - disse ele, gentil. - Eu não valho isso tudo.

- Ela me ofereceu cinco mil.

- Lola - A voz dele era persuasiva. - Não vale a pena vender sua alma por dinheiro, você não é desse tipo. Eu e você, a gente teve bons momentos juntos. Vamos preservar a lembrança disso. E você sabe que, se precisar de alguma coisa, eu te ajudo.

Eu não sabia o que dizer. Apesar de se comportar como um amigo presente, estaria ele, na verdade, me oferecendo dinheiro pra eu ficar de boca calada?

- Tem muita coisa que eu posso contar pra Grace - disse, corajosa.

Agora a voz dele era diferente. Baixa, fria: - Como o quê, por exemplo?

Com menos confiança, eu disse: - ... As... as coisas que você comprou pra mim. As nossas brincadeirinhas...

- Vou deixar uma coisa bem clara, Lola. - Tons gelados do Ártico. - Você não vai falar com ninguém, principalmente com essa tal. - Depois, ele disse: - Preciso desligar. T8 no meio de uma coisa. Se cuida.


20h30

Uma noite com Bridie e Treese na casa enorme da Treese em Howth. O novo marido da Treese, Vincent, não estava. Fiquei secretamente satisfeita. Nunca me sentia bem-vinda quando ele estava lá. Sempre parece que ele está pensando: O que essas estranhas estão fazendo na minha casa?

Ele nunca se mistura. Entra na sala, diz oi, mas só porque quer perguntar pra Treese onde ela guardou a roupa limpa; depois sai pra fazer alguma coisa mais importante que perder tempo com as amigas da mulher.

Chama Treese pelo nome, Teresa, como se não tivesse casado com nossa amiga, mas com uma mulher totalmente diferente.

Ele é um tanto velho. Treze anos mais velho que a Treese. Segundo casamento. A primeira mulher e os três filhos estão guardados em algum lugar. Ele é todo importante na liga irlandesa de rúgbi. Na verdade, já jogou pela Irlanda e sabe tudo de tudo. Não tem como discutir com Vincent. Ele diz uma frase e encerra a conversa.

Tem o físico de um jogador de rúgbi - músculos, medidas, coxas tão grandes que anda meio de lado, de um jeito esquisito, como se tivesse acabado de descer do cavalo. Muitas mulheres - obviamente Treese também, ela casou com o homem, afinal de contas - acham isso atraente. Eu não. Ele tem uma bunda muito grande e... ampla. Come quantidades fenomenais e pesa milhões de quilos, mas - gosto de ser justa - não é gordo. Só... compacto. Muito denso, como se tivesse passado um bom tempo vivendo num buraco negro. O pescoço é da circunferência de um barril e ele tem a cabeça absurdamente grande. Também tem cabelo comprido. Eca!


21h15

A comida estava deliciosa. Treese fez um curso de culinária clássica francesa para que pudesse preparar o tipo de comida que os companheiros de rúgbi do Vincent apreciavam. Comi duas garfadas, então meu estômago se contraiu numa pequena noz e fiquei com gosto de vômito na boca.

Bridie estava mais uma vez usando aquele macacão verde peculiar. Ainda que eu estivesse obcecada com minha dor e comigo mesma, não conseguia parar de olhar aquele troço. Como antes, estava todo torto, pescando siri e com aqueles jóqueis bordados. Do que se tratava aquilo?

Fiquei me perguntando se devia mencionar alguma coisa. Mas ela gostava do macacão. Devia gostar. De outra forma, por que estaria usando? Então, por que acabar com sua alegria?


23h59

Muitas garrafas de vinho depois, apesar de nenhuma delas ter sido retirada da prateleira de baixo, já que são as especiais de Vincent e ele ficaria irritado se nós as bebêssemos.

- Dorme aqui - me disse Treese.

Treese tinha quatro quartos de hóspede.

- Você tem uma vida de sonho - falou Bridie. - Marido rico, casa incrível, roupas maravilhosas...

- E a primeira mulher sempre pedindo dinheiro! E os enteados pestinhas me enlouquecendo. E uma preocupação terrível...

- Com o quê?

- Que minha compulsão por comida volte e eu infle até virar um balão, tenha que ser arrancada de casa, depois de quebrarem as paredes, levada num caminhão, e o Vincent deixe de me amar.

- Ele nunca vai deixar de te amar! Não importa o que aconteça!

Mas, num cantinho secreto do coração, onde guardo meus pensamentos mais sombrios, eu não tinha certeza. Vincent não havia dispensado a primeira mulher e os filhos pra se juntar com Jabba the Hutt.


0h27

Empacotada na cama do quarto de hóspedes número um. O travesseiro mais macio em que já deitei a cabeça; cama magnífica, entalhada, antiguidade francesa; cadeiras com brocado e pés de quartzo; espelhos de murano; cortinas pesadas de tecido luxuoso; e o tipo de papel de parede que a gente só vê em hotel.

- Olha só, Treese - eu disse. - O carpete é da mesma cor do seu cabelo! Lindo, lindo, tudo lindo...

Pensando bem, eu estava bastante bêbada.

- Dorme bem - disse Treese, - Não deixa as minhocas da sua cabeça te perturbarem, nem acorda às quatro e trinta e seis da madrugada pra fugir e ir jogar pedras na janela da casa do Paddy, gritando atrocidades sobre a Alicia Thornton.
4h36

Acordo. Decido fugir e ir jogar pedras na janela da casa do Paddy, gritando atrocidades sobre a Alicia Thornton ("A mãe da Alicia Thornton chupa o padre da paróquia dela! Alicia Thornton não lava as partes íntimas! O pai da Alicia Thornton faz crueldades com o labrador da família!"). Mas, quando abri a porta da frente da casa da Treese, o alarme disparou, as luzes de emergência acenderam e ouvi o distante latido de cães. Estava meio que esperando que um helicóptero aparecesse quando Treese desceu correndo a escada, vestida com um négligé (camisola) de seda marfim e penhoar combinando, as luzes de emergência prateando o coiffeur (cabelo) lustroso dela.

Calmamente, ela chamou a minha atenção: - Você prometeu. Agora tá ferrada. Pode voltar pra cama!

Fiquei roxa.

Treese reprogramou o alarme, depois deslizou escadaria acima.
Sábado, 30 de agosto. 12h10

Em casa.

Bridie ligou. Depois de um interrogatório sobre meu bem-estar, um silêncio estranho ecoou. Eu, quase arrancando os cabelos.

Então ela perguntou: - Você gostou do macacão verde que usei na noite de quarta e ontem?

Eu não podia responder "Não, é a coisa mais estranha que vi nos últimos tempos".

Disse: - Adorei! - Depois: - É... novo?

- É. - Ela parecia quase envergonhada. Depois deixou escapar, como se fosse um grande e excitante segredo: - Moschino!

Moschino!

Pensei que ela tivesse comprado aquilo numa megapromoção de um asilo de loucos! Ainda bem que não disse nada.

Apesar de que não diria. Não é meu feitio. Minha mãe sempre dizia que, se não fosse possível fazer nenhum comentário positivo, melhor não falar nada.

- Onde você comprou, Bridie? - Eu me perguntava como, com meu conhecimento enciclopédico de peças de vestuário, nunca tinha deparado com aquele item.

- No eBay.

Gente! Provavelmente falso!

- Custou uma fortuna, Lola. Mas ele vale. Vale, não vale?

- Ah, claro, claro, vale! Os jóqueis são muito... modernos.

- Percebi que você prestou atenção.

Ah, claro, prestei toda a atenção.
Domingo, 31 de agosto

Matérias sobre Paddy em todos os jornais. Comprei vários. (Fiquei surpresa como os jornais são mais baratos em comparação com as revistas. Incrível. Engraçado as coisas que você aprende quando sua vida tá em pedaços.) Os artigos não diziam muita coisa, na verdade. Só que ele era um felizardo, garoto-propaganda da política irlandesa.

Não havia menção a mim em nenhuma matéria. Eu devia ter sentido alívio - pelo menos, Paddy não ia ficar aborrecido -, mas, em vez disso, me senti vazia, como se não existisse.
Segunda-feira, 1º de setembro, 10h07

Telefonema da revista Tatler cancelando um trabalho na próxima semana. A mensagem era clara: ninguém gosta de uma consultora de estilo que destrói as coleções. As notícias se espalham.


10h22

O celular tocou. Pensei ter reconhecido o número, mas não tive certeza, depois me dei conta de que era aquela jornalista, Grace Gildee, de novo. Me acossando! Não atendi, mas ouvi o recado. Ela insistia num encontro cara a cara e ofereceu mais dinheiro. Sete mil. Riu e me acusou de me fazer de difícil. Mas eu não estava me fazendo de difícil. Só queria ser deixada em paz.


Terça-feira, 2 de setembro

Pior dos golpes até hoje. Alicia Thornton na capa da VIP, com a manchete: "Como conquistei o coração do Imprevisível".

O jornaleiro, simpático, me deu um copo d'água e me deixou sentar um pouco no banquinho, até minha tonteira passar.

Doze páginas de fotos. Paddy de maquiagem. Pó à base de silicone, primer à base de silicone, de modo que parecia de plástico, um boneco Ken.

Eu não sabia quem tinha produzido as fotos, mas o briefing era bastante definido. Alicia (alta, magra, cabelo louro em cachos, quase um cavalo, mas não no bom sentido, não como Sarah Jessica Parker, mais pra Celine Dion. Um relincho!), de vestido e blazer creme Chanel. Paddy de terno de estadista (Zegna? Ford? Não conseguia ter certeza), sentado a uma escrivaninha de mogno, segurando uma caneta de prata como se estivesse prestes a assinar um acordo importante, Alicia de pé atrás dele, a mão no ombro de Paddy, pose de esposa que apoia. Depois, os dois em roupas de festa. Ele de black-tie, ela com um longo tomara que caia MaxMara vermelho. Vermelho não é a cor dela. Também deixava à mostra um chumaço do pelo crescendo debaixo do braço.

O pior de tudo, Paddye Alicia de jeans combinando, camisa polo de gola pra cima, pulôveres amarrados em volta do pescoço, SEGURANDO RAQUETES DE TÊNIS! Como num catálogo barato enviado pelo correio.

Essas fotos conseguiram, apesar de Paddy ser o homem mais lindo na Terra, fazer com que ele parecesse um modelo decadente.

A entrevista dizia que eles se conheciam desde a adolescência, mas se relacionavam romanticamente, "sem compromisso", havia sete meses. Sete meses! Eu vinha me relacionando com ele "sem compromisso" pelos últimos dezesseis meses! Não é de estranhar que falasse em "sem compromisso" comigo. Dizia que minha vida ia ser um inferno se eu aparecesse ao lado dele nos eventos oficiais e tapetes vermelhos. A imprensa me perturbaria e eu seria obrigada a estar linda e maquiada o tempo todo, até dormindo, para evitar fotos com a legenda "A namorada feiosa e cheia de espinhas de Paddy". (Durante o verão, fizeram menção a mim em duas colunas de fofocas, mas a assessoria de imprensa do Paddy respondeu que eu estava ajudando com o guarda-roupa dele, e todo mundo pareceu acreditar.) Honestamente, achei que ele estava pensando no meu bem. Em vez disso, ele impedia que Alicia, sua "amiga de alma" (foi isso que ele disse na entrevista), descobrisse minha existência.

Burra, não?
Terça-feira, mais tarde

A sessão VIP de fotos foi o golpe final. Passei dias analisando as ditas-cujas. O que essa Alicia Thornton tem que eu não tenho? Passava as páginas, estudava as fotografias dos dois, procurando pistas. De novo e de novo. Tentando acreditar que aquilo era real. Mas acabei olhando tanto pra ele que ele não parecia mais ele, exatamente como quando você se olha no espelho durante muito tempo e sua imagem fica estranha, quase assustadora.


Terça-feira, mais tarde ainda

Raiva. Pensamentos sombrios, amargos. Tomada de sentimentos ruins. Sem ar. De repente, joguei a revista VIP no chão e pensei: mereço respostas!

Fui até o apartamento do Paddy e toquei a campainha. Toquei, toquei, toquei, toquei e toquei. Nada aconteceu, mas decidi: que se dane, vou ficar aqui e esperar ele voltar. Mesmo que tenha que esperar vários dias. Semanas até. Em algum momento, ele vai ter que voltar pra casa.

Pensamentos obscuros me deram força e eu sentia que podia esperar pra sempre. Se fosse preciso.

Fiz planos. Liguei pra Bridie e pedi que trouxesse um saco de dormir e sanduíches. Também uma garrafa térmica de sopa. "Mas não quero minestrone", exigi. "Nada com caroços."

- O quê?- perguntou, incrédula. - Você tá acampada do lado de fora da casa do De Courcy?

- E você precisa fazer drama de tudo? - eu disse. - Só tô esperando ele chegar. Mas isso pode demorar alguns dias. Então, como eu falei: saco de dormir, sanduíches e sopa. Ah, e não esquece: nada com caroços.

Ficou resmungando e dizendo que não sabia por que ainda se preocupava comigo, e eu acabei desligando. Dai-me paciência!

O tempo foi passando. Os pensamentos obscuros me mantendo focada. Não estava nem aí pro desconforto, pro frio e pra vontade de ir ao banheiro. Como se eu fosse uma monja budista.

Toda hora eu tocava a campainha, mais para ter o que fazer do que qualquer outra coisa. Depois me dei conta de que os pensamentos obscuros deviam ter cedido um pouco, porque comecei a achar aquilo tudo bem chato. Liguei de novo pra Bridie. Perguntei: - Você poderia trazer a InStyle nova, um livro de sudoku e a biografia da Diana Vreeland?

- Não! - disse ela. - Lola, por favor, sai daí. Você perdeu a noção.

- Pelo contrário - eu disse. - Nunca estive tão sã em minha vida!

- Lola, você tá perseguindo o cara. Ele é uma pessoa pública, você pode arrumar a maior confusão! Pode...

Tive que desligar de novo. Não gosto de ser rude, mas não tinha escolha.

Fiquei entretida tocando a campainha do Paddy mais algumas vezes, depois meu celular tocou. Era Bridie! Ela estava no portão! Não conseguia entrar porque não tinha a senha!

- Você trouxe o saco de dormir? - perguntei. - E a garrafa térmica com sopa?

- Não.

- O Barry tá com você? (Barry era o marido dela.)



- Tá. O Barry tá aqui do meu lado. Você gosta do Barry, não gosta?

Gosto, mas fiquei imaginando ela e o Barry me arrastando pro carro deles e me levando embora. Isso não.

- Lola, por favor, deixa a gente entrar.

- Não - disse eu. - Desculpa.

Depois desliguei o celular.

Continuei tocando a campainha, sem esperar nenhum resultado, quando, de repente, a silhueta de um homem apareceu atrás da porta de vidro texturizado.

Era ele! Era ele! Estava ali o tempo todo! Fiquei aliviada, excitada - depois, pensamentos terríveis me ocorreram: por que não tinha vindo antes? Por que queria me humilhar ainda mais?

Mas não era ele, era John Espanhol, o motorista. Eu conhecia bem o cara porque às vezes ele me buscava e me levava para encontrar o Paddy. Apesar de ser sempre educado comigo, eu tinha medo dele. Era um tipo grandão, musculoso, parecia que podia quebrar um pescoço em dois, como se fosse uma asa de frango com molho barbecue.

- John Espanhol - supliquei -, preciso falar com o Paddy. Me deixa entrar, tô implorando.

Ele balançou a cabeça e resmungou: - Vai pra casa, Lola.

- Ela tá aí com ele? - perguntei.

John Espanhol era um mestre da discrição (e não era espanhol). Tudo o que ele me disse foi: - Vamos, Lola, eu te deixo em casa.

- Ela tá aí!

Gentilmente, quase com carinho, ele me afastou da porta e depois me encaminhou até o carro do Paddy, um Saab.

- Pode deixar - eu disse, bufando. - Eu tô de carro. Eu mesma me levo pra casa.

- Boa sorte, Lola - disse ele, de forma definitiva.

Seu jeito de falar comigo me encorajou a fazer a pergunta que sempre quis fazer.

- Aliás - eu disse -, sempre me perguntei... Porque te chamam de John Espanhol se você não é espanhol?

Por um segundo, achei que ele fosse dar um passo à frente e me atacar com um golpe de caratê, depois pareceu se acalmar. - Basta olhar pra mim. - Apontou pro próprio cabelo, crespo e louro, depois pras sardas do rosto. - Já viu alguém com menos cara de espanhol?

- Ah - entendi. - Ironia?

- Talvez sarcasmo. Nunca sei direito a diferença.
Terça-feira à noite, mais tarde ainda

Foi isso, fui expulsa da porta da casa do Paddy, como um mendigo fedorento.

A sanidade me voltou como um balde de água fria e fiquei escandalizada com meu próprio comportamento. Eu tinha agido como uma doente mental. Doida. Perseguindoo Paddy. Isso mesmo, a Bridie tinha razão. Perseguindo o cara.

E fiquei chocada com a maneira como tratei minha amiga. Pedindo uma garrafa térmica de sopa. Onde ela ia arrumar sopa? Depois me recusei a dizer qual era a senha do portão do prédio e desliguei na cara dela. Bridie era uma amiga dedicada!

Percebi como estava louca, e o pior de tudo - no meu transe lunático, tinha certeza de que estava completamente sã. O golpe final.

Eu não podia continuar assim, sem comer, sem dormir, completamente despirocada no trabalho, tratando meus amigos como empregados, dirigindo pela cidade sem rumo e sem atenção...

Fui até a casa da Bridie. Ela estava de pijama e ficou feliz de me ver.

Pedi desculpas sem parar, por causa da história do saco de dormir e tal, depois pela parte da senha do portão.

- Aceito - disse Bridie. - Aceito. E agora?

- Tomei uma decisão - eu disse. - Decidi empacotar minhas coisas e me mudar pro fim do mundo. Para um lugar sem lembranças do Paddy. Você tem um globo, não tem?

- É... tenho...

(Da época das aulas de geografia do colégio. Ela nunca joga nada fora.)

No globo da Bridie, o fim do mundo (da Irlanda) era a Nova Zelândia. Tudo bem. Nova Zelândia era bom. Tinha achado um cenário ótimo. Podia fazer um tour do Senhor dos Anéis.

Mas Bridie era a voz da razão: - É caro ir pra Nova Zelândia - disse ela. - E também é muito longe.

- Mas é exatamente esse o ponto - falei. - Tenho que ir pra bem longe daqui, para não dar de cara com uma foto da Alicia toda vez que for comprar um chocolate, nem ouvir falar em Paddy no noticiário, mesmo que eu não assista ao noticiário... Meu Deus, isso é tão deprimente, fora a história das galinhas, você viu?

- Que tal a cabana do tio Tom? - sugeriu Barry. Barry também estava de pijama.

A cabana do tio Tom era a casa de campo que o tio da Bridie, Tom, tinha em County Clare. Eu já tinha ido lá no fim de semana da despedida de solteira da Treese. Várias coisas fora m quebradas. (Não quebradas por mim, exatamente, mas por várias de nós.)

- Lá é longe - disse Barry.

- Não tem televisão! - acrescentou Bridie. - Mas, se você começar a enlouquecer sozinha, chega em casa em três horas, já que abriram o atalho da estrada de Kildare.

(O atalho da estrada de Kildare foi a melhor coisa que já aconteceu pra família enorme da Bridie, já que vários parentes moram em Dublin, mas amam a cabana do tio Tom. Poupa quarenta e cinco minutos de viagem, diz o pai da Bridie. Mas e eu com isso? Tenho trinta e um anos; se eu não me matar, é possível que eu viva mais quarenta anos. Posso passar esse tempo todo no trânsito do lado de fora de Kildare e não vai fazer a menor diferença.)

- Obrigada pela oferta - agradeci -, mas não posso ficar na cabana do tio Tom para sempre. Alguém da sua família pode querer ir pra lá.

- Ninguém vai querer, o verão já tá acabando. Olha só - disse ela -, você tá com o coração partido e acha que nunca vai superar isso. Mas o fato é que você vai, e vai se arrepender se resolver se mudar pra Nova Zelândla e jogar toda a sua vida aqui fora. Por que não passar umas semanas em Clare, para se recuperar? você pode pedir pra Nkechi segurar as pontas no trabalho. Como anda sua agenda? Muito cheia?

- Não. - Não só porque os trabalhos vêm sendo cancelados, mas também por causa da época do ano. Eu já tinha terminado os guarda-roupas de outono/inverno das clientes particulares - mulheres ricas, ocupadas, que não tinham tempo para fazer compras, mas precisavam de um visual estiloso, profissional, elegante. A próxima época conturbada seria a das festas de Natal, que começava logo depois do Halloween. Não havia necessidade de começar nada nas próximas duas semanas. Quer dizer, sempre há trabalho a ser feito. Eu podia levar clientes da Brown Thomas, da Costume e de outras lojas boas para almoçar, para que eles reservassem os melhores vestidos pra mim e não para outras estilistas. É um negócio de matar ou morrer esse mundo da moda. Realmente selvagem. São poucas as boas roupas e a competição é feroz. As pessoas não se dão conta. Acham que é uma coisa divertida, de mulherzinha, sair se enfiando no meio de trajes caros, fazer todo mundo ficar com um look fabuloso. Bem longe disso.
Bridie disse: - E, quando você voltar, se as coisas ainda estiverem péssimas, aí sim você vai pra Nova Zelândia.

- Sei quando estão rindo de mim, Bridie. Mas a graça vai ficar em outro lugar quando eu estiver morando numa casa linda em Rotorua. De qualquer maneira, aceito sua oferta carinhosa.


Ainda mais tarde

Voltando pra casa.

De repente, me dei conta de que o pijama da Bridie não era de fato um pijama, mas uma calça estranha de ficar em casa. Pedido de catálogo. Eu podia jurar. Em circunstâncias normais, o choque teria me feito perder o controle do carro e bater num poste. Do jeito que as coisas estavam, eu andava bastante perturbada. Já, já ela estaria vestindo aquilo em público. Precisava ser contida. Barry devia dizer alguma coisa, mas agora me lembrava de que ele também estava vestindo uma igual. Era ele quem permitia. Ela nunca procuraria ajuda se ele a encorajasse.
Quarta-feira, 3 de setembro, 10h00

Fui pro meu "escritório" (Martine's Pâtisserie). Teria ficado trabalhando em casa, mas minha casa era muito pequena. É esse o preço de morar na cidade grande. (Outro preço são os homens bêbados brigando à sua janela às quatro da manhã.)

Pedi um chocolate quente e uma torta de damasco. Gosto tanto de torta de damasco que tenho que me controlar. Posso comer dez de uma vez, uma atrás da outra. Mas hoje o glacê me pareceu nojento e parecia que o damasco estava me olhando com cara de mau. Fui obrigada a afastar o doce. Tomei um gole do chocolate quente e quis vomitar imediatamente.

O sino tocou. Chegada de Nkechi. Todo mundo olhou. Muita coisa pra ver. Nigeriana, postura perfeita, tranças descendo pelas costas, pernas muito compridas e um bumbum de responsa empoleirado em cima delas. Nkechi nunca tentava esconder o bumbum. Tinha orgulho dele. Isso era fascinante pra mim. A vida das meninas irlandesas era uma busca constante por métodos para disfarçar o bumbum e por roupas para diminuir o bumbum. A gente aprende muito com outras culturas.

Nkechi, apesar de jovem (vinte e três), é um gênio. Como no caso Rosalind Croft (mulher do megamilionário Maxwell Croft), no dia de um jantar beneficente na Mansion House. O decote do vestido dela era tão moderno que ninguém da joalheria conseguia arrumar nada que combinasse com ele. A gente tentou tudo. Um pesadelo! A Sra. Croft estava prestes a cancelar tudo, quando Nkechi disse: - Já sei! - E sacudiu a echarpe, a própria echarpe (comprada num bazar de caridade por três euros), enrolou em volta do pescoço da Sra. Croft e salvou o dia.

- Nkechi - falei. - Vou tirar umas semanas de folga na cabana do tio Tom.

Nkechi conhece o lugar. Esteve lá na despedida de solteira da Treese. Agora, me lembrando disso, ela quebrou a torradeira, tentando colocar um bagel inteiro lá dentro. Espetáculo impressionante. Fumaça preta começou a sair da lateral da torradeira, depois veio uma labareda enorme. Ela também quebrou um golfinho de cerâmica que estava na família da Bridie há trinta e oito anos. Estava dançando bêbada e fez um passo muito arrojado que lançou o golfinho no ar, como se fosse uma bola de rúgbi em direção ao bar, atingiu a parede e se despedaçou. Mas era uma despedida de solteira, essas coisas acontecem. Pelo menos ninguém foi parar no hospital. Não como na despedida de solteira da Bridie.

Eu disse: - Sei que parece meio dramático fazer as malas desse jeito, mas realmente, Nkechi, eu tô num estado... não consigo trabalhar, não consigo dormir, meu aparelho digestivo tá em frangalhos.

Ela disse: - Acho boa ideia. Sai de circulação um tempo, antes que você manche ainda mais a sua reputação.

Na sequência, um silêncio esquisito.

Só uma coisinha sobre a Nkechi: ela é uma estilista excelente, realmente excelente, mas um pouco fraca na parte de proteger as pessoas. Parte do trabalho de uma estilista é impedir que o cliente saia na rua parecendo maluco. É nosso dever protegê-lo dos comentários maldosos dos colunistas de fofocas. Se a cliente tem um pescoço de uva-passa, a gente disfarça com decotes mais longilíneos. Se tem joelhos que parecem de cachorro de caça, a gente sugere um traje mais comprido. Sutilmente. Gentilmente.

Mas a Nkechi nem sempre é tão diplomática como eu gostaria. Por exemplo, quando vestiu SarahJane Hutchinson. Pobre da mulher! O marido tinha se mandado com um garoto asiático. Humilhação pública. Era o primeiro evento de caridade em que ela comparecia como mulher largada, então era importante que parecesse bem e se sentisse bem. Experimentou um vestido tomara que caia preto muito bonito do Matthew Williamson, mas era óbvio que não ia funcionar. Tudo pra baixo. Eu estava prestes a sugerir, com muito tato, um Roland Mouret (dava muito mais suporte, tinha um corpete escondido por dentro) quando Nkechi gritou: - Você não pode sair com essas pelancas debaixo do braço aparecendo! Você precisa de mangas, amiga!

Eu disse: - Nkechi, gostaria que você assumisse enquanto eu estivesse fora.

- Claro - respondeu. - Assumo. Tudo bem.

Tentei engolir minha ansiedade. Estava tudo sob controle. Nkechi faria isso muito bem.

Possivelmente bem demais até.

Não gostei da maneira como disse "assumo".

- Nkechi - digo -, você é um gênio. Vai ser uma consultora brilhante, possivelmente a melhor de nós. Mas, no momento, basta manter as coisas caminhando. Por favor, não passe por cima de mim enquanto eu estiver fora. Por favor, não faça as coisas da sua cabeça. Por favor, não se aproveite dos meus clientes mais ricos. Seja minha amiga. E não esqueça: seu nome significa "leal" na sua língua, o lorubá.


10h47

Andando deprimida para casa pra fazer as malas, vejo alguém esperando do lado de fora do meu prédio. Uma mulher. Alta, de jeans, botas, capuz, cabelo louro, curto e espetado. Encostada na grade, fumando. Dois homens passam por ela e dizem alguma coisa. A resposta chega para mim trazida pelo vento: Vão à merda!



Quem era ela? Mais um problema? Depois me dei conta! Era a tal jornalista, Grace Gildee! Eu estava sendo imprensada na porta de casa, como... como se fosse uma chefona do tráfico ou... ou... pedófila!

Parei. Pra onde eu devia ir? Fugir, fugir! Mas fugir pra onde? Eu tinha todo o direito de ir pro meu apartamento. Afinal, eu morava ali.

Tarde demais! Ela já tinha me visto!

- Lola? - Sorrindo, sorrindo, rapidamente apagando o cigarro com um movimento ágil de tornozelo.

- Oi!

Ela estendeu a mão. - Grace Gildee. É um prazer conhecer você.



Sua mão, suave, quente, afável, na minha, antes que eu pudesse impedir.

- Não - disse eu, puxando a mão. - Me deixa em paz. Não vou falar com você.

- Por quê? - perguntou.

Ignorei a pergunta e procurei minha chave dentro da bolsa. Minha intenção era não fazer contato do tipo olho no olho. No entanto, contra minha vontade, mevi olhando diretamente pro rosto dela.

De perto, deu para ver que ela não estava usando maquiagem. Coisa incomum. Mas ela não precisava. Era muito atraente, de um jeito meio desleixado. Olhos cor de amêndoa e uma cascata de sardas no nariz. O tipo de mulher que pode ficar sem xampu e não ter problema algum em lavar o cabelo com sabonete líquido. Eficiente numa emergência, imaginei.

- Lola - disse ela -, você pode confiar em mim.

- Você pode confiar em mim! - exclamei. - Você é muito clichê.

De qualquer maneira, ela tinha alguma coisa. Era persuasiva.

Com voz suave, disse: - Você realmente pode confiar em mim. Não sou como os outros jornalistas. Eu sei como ele é.

Parei de girar a mão dentro das profundezas da bolsa em busca das chaves. Estava hipnotizada. Como se ela fosse uma cobra.

- Conheço o Paddy da vida inteira - disse ela.

De repente, fiquei com vontade de colocar minha cabeça no ombro dela e soluçar, deixar que afagasse meu cabelo.

Mas era isso que ela queria. É isso que todos eles fazem, os jornalistas. Fingem que são seus amigos. Como quando a SarahJane Hutchinson foi entrevistada no Baile para Crianças em Situação de Risco. A jornalista foi toda amável, perguntou onde a SarahJane tinha conseguido aquele vestido maravilhoso. E as joias incríveis. E quem tinha feito o penteado. Pode confiar em mim, confiar em mim, confiar em mim. Depois, a manchete foi:



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