Chico Buarque e Ruy Guerra



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ou traem a si mesmos. Para um personagem, num espasmo de lucidez, em determinado momento o simples fato de continuar vivo é uma traição. Para Bárbara, a mulher de Calabar, a traição é uma obsessão que ela procura desvendar em suas últimas conseqüências, entregue de corpo e alma a uma tentativa desesperada de compreensão. No personagem Sebastião de Souto, a traição inicialmente cotidiana e mesquinha se transforma, conscientizada quase através de um processo de enlouquecimento irracional e lúcido, num ato final de entrega, num suicídio anárquico e individual que ao mesmo tempo não está isento de uma conotação trágico-grotesca, de uma última e derradeira forma de compreensão e ação. O que interessa ao texto é o comportamento dos homens entre si, observados numa determinada circunstância histórica. Esta postura traz o texto até nossos dias. Faz de Calabar uma reflexão sobre o hoje e o aqui, sobre a responsabilidade, a ética, a opção e os possíveis destinos do homem num mundo de guerra e paz. A parábola parte da realidade para chegar ao espectador de forma nítida, num convite à reflexão sobre a transformação desta realidade. Todos os personagens vivem na lama da traição e estão perdidos numa selva de traidores. Mas não são motivados: vivem suas contradições de forma vital, humana, profunda.
Mathias de Albuquerque chefia a resistência portuguesa sonhando com um Brasil português: ”Ah, esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.” Mas ele mesmo afirma que quando tortura ou mata, no fundo é um sentimental e chora: ”E se a sentença se anuncia bruta / Mais que depressa a mão cega executa / Pois que senão o coração perdoa.” No momento de se retirar do país (será preso em Portugal e responsabilizado pela entrega de Pernambuco aos holandeses), é um homem em crise que confessa ao Frei (que é um homem que está sempre de todos os lados, e ao mesmo tempo de nenhum, encarnação viva da
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traição permanente) seu grande pecado: às vezes chegou a pensar mais ao Brasil do que em Portugal e, no momento de mandar executar Calabar, teme se deixar levar pela tentação de libertar um homem que fez sua opção e que teve a dignidade de agir por conta própria. Nassau (é proposital e fundamental, no espetáculo, que Mathias e Nassau sejam interpretados por um mesmo ator: ambos significam a mesma coisa, como vassalos do colonialismo, e ambos sofrem quase que o mesmo processo interior, ainda que em circunstâncias diversas) chega ao país afirmando que Calabar não morreu em vão. Mas, no final, trai o sonho de Calabar e regressa à Holanda, com lágrimas nos olhos, carregado nos braços dos índios. Sai cantando seu sonho colonialista: ”Porque esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso canavial.”
Em Calabar compreender o peso e conteúdo da traição de cada um, ou das inúmeras traições de cada um, é um primeiro passo para a compreensão do enunciado de um teorema complexo, contraditório, fascinante e provocante, lírico e feroz, escrito com paixão e sentido crítico por Ruy Guerra e Chico Buarque. Cabe ao espectador observar homens agindo, pesar suas ações e alternativas, ver o que fizeram, onde foram omissos ou responsáveis. O texto não encerra uma solução dogmática, nem o espetáculo pretende fechar as chaves de entendimento dos fatos. Cabe ao espectador, diante dos caminhos oferecidos à sua sensibilidade e inteligência, omitir-se ou escolher sua forma de pensar. O espectador, diante do espetáculo, é livre. O que importa é o diálogo palco-platéia. A realidade, a ser transformada, está fora do teatro. O palco não quer entregar ao público nenhuma verdade, nenhuma certeza. Ao contrário, quer provocar dúvidas, desconfiança e perplexidade.
FERNANDO PEIXOTO
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Ficha técnica do primeiro espetáculo


PRODUÇÃO Fernando Torres Diversões

DIREÇÃO Fernando Peixoto


DIRETORES-ASSISTENTES Mário Masetti e Zdenek Hampl
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO Caca Teixeira
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO Renato Laforet e Leda Borges
DIREÇÃO MUSICAL Dori Caymmi
ORQUESTRAÇÃO Edu Lobo
COREOGRAFIA Zdenek Hampl
CENÁRIOS Hélio Eichbauer
FIGURINOS Rosa Magalhães e Hélio Eichbauer
ILUMINAÇÃO Antônio Pedro
SONOPLASTIA M. S. 2001
DIVULGAÇÃO Leda Borges
ELENCO Tetê Medina, Betty Faria, Hélio Ari, Antônio Ganzarolli, Lutero Luís, Flávio São-Tiago, Perfeito Fortuna, Deoclides Couvêa, Odilon Wagner e mais: Ana Maria Vianna, Ângelo de Marcus, Antônio Potnpeu, Anselmo di Vasconcelos, Belara Guidi, Carlos Alberto Santana, Dirce Morais, Dulctlene Morais, Imara dos Reis Ferreira, Ivens Godinho, José Roberto Mendes, Katía D’Ângelo, Lincoln dos Santos, Márcio Augusto, Maria Alves, Maria do Carmo, Nilton Brandão, Nina de Pádua, Octávio César, Paschoal Villaboim, Paulo Afonso Gregório, Paulo de Tarso, Paulo Terra, Suzanne Motta Jacob, Taíse Costa, Thelmo Marques, Viliam, Wladimir Gonçalves.

Músicos


Danilo Caymmi, Dori Caymmi, João Palma, Maurício Mendonça, Tenório Jr.
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Ficha técnica da nova versão


PERSONAGENS E INTÉRPRETES:
FREI MANOEL DO SALVADOR: Sérgio Mamberti
MATHIAS DE ALBUQUERQUE E
MAURÍCIO DE NASSAU: Othon Bastos
BÁRBARA: Tânia Alves
ANNA DE AMSTERDÃ: Martha Overbeck
OFICIAL HOLANDÊS: Osmar di Pieri
SEBASTIÃO DO SOUTO: Renato Borghi
HENRIQUE DIAS E
PAPAGAIO OBA: Gésio Amadeu
FELIPE CAMARÃO E ESCRIVÃO: Miguel Ramos
AGENTE DA CIO: Elias Andreato
E A PARTICIPAÇÃO EM DIVERSOS PERSONAGENS DOS ATORES:
Ariel Moshe

Dadá Cyrin

Édsel Britto

Ina Rodrigue

Luiz Braga

Luiz Carlos Gomes

Mercedes de Sousa

Mônica Brant

Samuel Santiago

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Wilson Rabelo

Zdenek Hampl
DIREÇAO-GERAL Fernando Peixoto

DIREÇÃO MUSICAL, ARRANJOS E MUSICA DE CENA Marcus Vinícius

CENOGRAFIA E FIGURINOS Hélio Eichbauer

COREOGRAFIA Zdenek Hampl

DIRETOR-ASSISTENTE Wagner de Paula
SÓCIA-GERENTE Regina de Souza Malbeiros
ASSESSORIA ADMINISTRATIVA João Luiz Rossi
DIVULGAÇÃO Sérgio Ascoly

PRODUÇÃO EXECUTIVA Eliane Bandeira


SONOPLASTIA Cacá
ILUMINAÇÃO Mário Masetti
FOTOGRAFIAS José Rodrigues
CARTAZ Elifas Andreato
PROGRAMA Alexandre Huzak
DIRETOR DE CENA Paulo Carrera
CAMAREIRA Helena Lima da Silva
MAQUINISTA Paschoal Landi
CENOTÉCNICO João Tereza
OPERADOR DE LUZ Adolfo Santana
COSTUREIRA Alice Corrêa
MÚSICOS:
BATERIA E PERCUSSÃO Magno Bissoli Siqueira

CONTRABAIXO E VIOLÃO João Carlos Mourão

VIOLÃO, GUITARRA E BANDOLIM Fernando (Mu)

FLAUTA, SAX-SOPRANO E SAX-TENOR Márcio Werneck Muntz

FLAUTA E SAX-ALTO Zeymar

TROMPETE Dagmar




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Primeiro ato



Abre o pano. Escuridão completa. Sininho de sacristia.
FREI. Agnus Dei qui tollit peccata mundi...
MORADORES. Miserere nobis.
FREI. Agnus Dei qui tollit peccata mundi...
MORADORES. Miserere nobis.
FREI. Agnus Dei qui tollit peccata mundi...
Moradores cantam: Miserere nobis

Miserere nobis

Miserê


‘renó

Bis


Miserê

Renobis


Misererenobis.
Luz em crescendo sobre MATHIAS DE ALBUQUERQUE, que se barbeia. Um ESCRIVÃO a seus pés. Um vulto num instrumento de tortura. Gemidos e coro de moradores, no escuro, sublinham o sermão do FREI.
FREI. Era o Brasil, antes da chegada dos holandeses, a mais deliciosa, próspera, abundante, e não sei se me adiantarei muito se disser a mais rica de quantas ultramarinhas o Reino de Portugal tem debaixo de sua coroa e cetro. MATHÍAS, rosto ensaboado, navalha na mão e bandeira rubroverde servindo-lhe de babador. Um vassalo segura um espelho
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que o reflete de corpo inteiro. Mais adiante, o ESCRIVÃO, pena
de pato na mão. Noutro canto, dois soldados garroteiam um
prisioneiro louro, que solta um grito lancinante. Soldados
adormecidos, fuzis ensarilhados. Tudo sugere um
acampamento militar.
FREI. ... o ouro e a prata era sem número e quase não se estimava; o açúcar, tanto que não havia embarcações para o carregar...
MATHIAS (Apontando a navalha para o ESCRIVÃO,). Enderece à Vila de Porto Calvo... Calabar.
FREI. ... o fausto e aparato das casas eram excessivos, porque por mui pobre e miserável era tido o que não tinha seu serviço de prata...
MATHIAS. Não! Capitão Domingos Fernandes Calabar! (Estala a língua.) Ponha major.
ESCRIVÃO (Anotando). Major Calabar, na Vila de Porto Calvo.
FREI. ... as mulheres andavam tão louças e tão custosas que não se contentavam com os tafetás, chamalotes, veludos, e outras sedas, senão que arrojavam as finas telas e ricos bordados...
MATHIAS. Arraial do bom Jesus. Ano da Graça de 1635...
FREI. ... e eram tantas as jóias com que se adornavam que pareciam chovidas em suas cabeças.
MATHIAS. Mestre-de-campo. Mestre-de-Campo Domingos Fernandes Calabar. Eu, Mathias de Albuquerque, Governador de Pernambuco, muitos avisos vos tenho feito que não vos fieis nesses malditos luteranos e calvinistas. E repito: é a última vez que vos escrevo! Prefiro não considerar as respostas negativas que me destes noutras ocasiões, certo de que aceitareis a mão que ora vos estendo. Até porque não se me apagam da memória as provas da bravura e da lealdade que vós me dedicastes no passado, especialmente na resistência ao invasor holandês, neste mesmo Arraial do bom Jesus onde me encontro, quando
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logramos encurralar o inimigo contra o litoral. E, quando
voltardes aos serviços d’El Rey, honras e bens vos serão
devolvidos, pecados e dívidas vos serão perdoados. (Encara o torturado como se se dirigisse a Calabar.) Tendes a
minha palavra... coronel.

FREI. Tudo eram delícias...

MATHIAS. Por que é que ele foi pra lá?

FREI. ... e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso.


MATHIAS. Por que é que ele foi pra lá? FREI. Pérolas, rubis... esmeraldas... diamantes... MATHIAS. Por que é que ele foi pra lá?
Era um mulato alto, pêlo ruivo, sarará.
Guerreiro como ele não sei mais se haverá.
Onde punha o olho, punha a bala.
Lia nas estrelas e no vento.
Sabia dos caminhos escondidos,
Só sabidos dos bichos desta terra
De nome esquisito de falar.
Eu lhe dei minha confiança
Em matéria de navios e de guerra
E ainda me pergunto,
Sem resposta pra me dar:
Por que é que ele foi pra lá?
Era um mameluco louco, pêlo brabo, pixaim,
com dois olhos claros de assustar.
Capitão aqui, lá fez-se major.
Levou o seu saber para os flamengos
E nem sei se cobrou o que era de cobrar.
Eu lhe ofereci o meu perdão
Em ouro, engenhos e patente
Se quisesse voltar.
E, afoito, o rebelde, em língua de serpente,
Mandou-me recusar.
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Como um bicho esquisito destas terras

Que pensa dum jeito impossível de pensar.

Por que é que ele foi pra lá?
Corte brusco na música religiosa. Primeiros acordes dolentes para
uma nova canção. Luz isolando a silhueta de uma mulher, cujos
gestos simulam o ato do amor.
FREI. Nesse tempo estava metido com os holandeses um mestiço mui atrevido e perigoso chamado Calabar. Conhecedor de caminhos singulares nesses matos, mangues e várzeas, levou o inimigo por esta terra adentro, rompendo o cerco lusitano, para desgraça e humilhação do comandante Mathias de Albuquerque. Esse Calabar carregava consigo uma mameluca, chamada Bárbara, e andava com ela amancebado.
Plenamente iluminada, BÁRBARA levanta-se e veste-se, calmamente.
BÁRBARA canta Cala a boca, Bárbara.

Ele sabe dos caminhos Dessa minha terra. No meu corpo se escondeu, Minhas matas percorreu, Os meus rios, Os meus braços. Ele é o meu guerreiro Nos colchões de terra. Nas bandeiras, bons lençóis, Nas trincheiras, quantos ais, ai.


— Cala a boca, Olha o fogo,
— Cala a boca, Olha a relva,
— Cala a boca, Bárbara.
— Cala a boca, Bárbara. Ele sabe dos segredos Que ninguém ensina:
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Onde eu guardo o meu prazer,
Em que pântanos beber
As vazantes,
As correntes.
Nos colchões de ferro
Ele é o meu parceiro,
Nas campanhas, nos currais,
Nas entranhas, quantos ais, ai.
Cala a boca,
Olha a noite,
Cala a boca,
Olha o frio,
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Terminada a canção, BÁRBARA encara o público.
BÁRBARA. Se os senhores quiserem saber por que me apresento assim, de maneira tão extravagante, vão ficar sabendo em seguida, se tiverem a gentileza de me prestar atenção. Não a atenção que costumam prestar aos sábios, aos oradores, aos governantes Mas a que se presta aos charlatães, aos intrujões e aos bobos de rua. Um banquete com vinhos, manjares de Holanda e ANNA DE AMSTERDÃ sobre a mesa. O banquete é uma orgia muda durante a fala do FREI.
FREI. com os flamengos, entrou nesta terra de Pernambuco o pecado. Os moradores dela foram-se esquecendo de Deus e deram entrada aos vícios, e sucedeu-lhes o mesmo que aos que viveram no tempo de Noé, que os afogaram as águas do universal dilúvio, e como a Sodoma e Gomorra, que foram abrasadas com fogo dos céus. Explode um barulho bacanalesco, no qual se sobressai uma estridente gargalhada de ANNA DE AMSTERDÃ. Na cabeceira da mesa desponta a figura do chefe holandês.
HOLANDÊS. Ave, Frei Manoel do Salvador. Fico imensamente grato pela sua permanência em Porto Calvo, dando assis-
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tência às almas de suas ovelhas. E sua presença nesta ceia só me honra, juro, em nome da Holanda e da Companhia das índias Ocidentais.
ANNA E CORO, Esperando que o bom colóquio Seja um prenuncio de paz.
HOLANDÊS. Por favor, não tome minhas palavras por soberba de holandês. Mas o Arraial do bom Jesus, último foco de resistência portuguesa em Pernambuco, acaba de cair. Mathias de Albuquerque escapou com o rabo entre as pernas... Sem contar a meia dúzia de gatos pingados lá do Sergipe, todo esse litoral, Alagoas, Maranhão, está sob o nosso controle. Por isso, Frei Manoel, é chegada a hora de encararmos o futuro sem ressentimentos.
ANNA E CORO. Nessa terra tão fecunda, Mandioca, aipim, cará, Abricó e a própria bunda Se plantar, com jeito, dá.
HOLANDÊS. A cana, por exemplo. Sem a qual não há razão para nenhum de nós estar aqui. Não são os holandeses que estão queimando os canaviais, mas alguns desesperados compatriotas seus, que Vossa Mercê possivelmente conhece. Ora, isso é mau para os negócios, principalmente para os honestos plantadores portugueses, porque a Companhia das índias não vai investir seus florins num país que vive pegando fogo.
ANNA E CORO. Nessa guerra sem sentido Não há nacionalidade.
Só queremos garantido
O direito à propriedade.
HOLANDÊS. Ninguém aqui quer expulsar ninguém. Muito pelo contrário, queremos que o português continue cultivando a cana como só ele sabe, extraindo o retame, o mascavado, o açúcar branco. Nós, da Companhia, entramos com o transporte, as refinarias e a nossa nobre clien-
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tela da Europa. Precisamos uns dos outros, somos pulgas do mesmo cachorro. Unidos, enriqueceremos.
ANNA E CORO. E se a lição foi aprendida A vitória não será vã. Neste Brasil Holandês Tem lugar pro português E pro Banco de Amsterdã.
HOLANDÊS. E só a Holanda pode conseguir tal milagre. Porque unindo os seus Estados protestantes, libertou-se da obediência ao Papa, meu caro Frei, que por interesses menores dividiu o mundo colonial entre Portugal e Espanha. Hoje a Holanda domina os mares. E já não necessita de intermediários para negociar com os demais europeus radicados no Novo Mundo. Portanto, estamos em condições de garantir: liberdade a quem quiser produzir; bons impostos; compradores certos; direito de ir e vir e porte de armas aos senhores de plantação, com a condição desse fogo ser só para fins de conter incendiário e escravo fujão. E o padre até pode rezar a sua missa católica, que eu fecho os olhos. Tudo isso é de vulto, mas eu firmo embaixo e endosso...
ANNA E CORO. Pois o mais importante culto É o açúcar, que é nosso.
Os moradores aplaudem o discurso com entusiasmo. Um soldado se aproxima do HOLANDÊS com um cálice.

HOLANDÊS. Brindemos ao Brasil e à Companhia das índias Ocidentais!

Os moradores brindam com euforia.

(Levantando-se) Senhor Comandante! Maior agravo e injustiça não se pode fazer aos católicos romanos: o profanar os vasos sagrados nos quais se consagra o sangue de Cristo no sacrifício da missa. Basta essa só injúria para que os moradores não tenham por firme vossa amizade e promessas.
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O HOLANDÊS joga fora o vinho, toma o cálice pelo pé e beija-o, depositando-o em seguida na mesa, respeitosamente.
HOLANDÊS. Frei, perdão. Que fique entre nós dois, mas eu mesmo sou católico romano e, se sirvo ao holandês na guerra, é apenas por conveniência. Entenda, se oculto a minha verdadeira religião é para não perder meu cargo. E, se me faço de protestante, é porque ainda me devem muito do meu soldo. Mas assim que me pagarem tudo hei de ir a Roma buscar o perdão do Santo Papa Urbano VIII pela culpa em que caí.
Entra SOUTO, afobado.
SOUTO. Comandante, ele está chegando! Mathias de Albuquerque está a poucas léguas!
FREI. Sua Excelência, o Governador de Pernambuco!
HOLANDÊS. Ex-governador.
SOUTO. Mathias abandonou tudo e vem despencando pro sul, rumo à Bahia.
FREI. Então tem que passar por Porto Calvo.
SOUTO. Evidente! Já está aí!
HOLANDÊS. Pretende atacar?
SOUTO. Acho difícil, senhor. Estão em frangalhos.Apenas alguns soldados desgarrados. Quase que só mulheres, crianças e bois. Vão querer passar por fora, de galinhas, na surdina da noite..
HOLANDÊS. Você falou em bois?
SOUTO. Ah, sim, bois gordos e suculentos! E carruagens, senhor, carregadas de muita riqueza! (Para o FREI,) E homens armados até os dentes, índios, negros, peixeiras, canhões... (Para o HOLANDÊS) Presa fácil.
HOLANDÊS. Ouro?
SOUTO. E prata.
HOLANDÊS. Mantimentos de boca?
SOUTO. Queijo, batata, salame, cerveja, manteiga e pão.
HOLANDÊS. Eu comando a expedição.
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SOUTO (Para o FREI,). Frei, diga ao governador que o serviço
está feito.
HOLANDÊS. Levo dois destacamentos. É o suficiente, não?

SOUTO. Mais que suficiente. É um luxo! (Para o FREI Dois destacamentos).


HOLANDÊS. Três ficam na cidade para o que der e vier.

SOUTO. Magnífico! E Calabar?

HOLANDÊS. Calabar fica guardando Porto Calvo.

SOUTO (Para o FREI). Mathias de Albuquerque vai gostar de saber disso. (Para o HOLANDÊS) Senhor, peço permissão para o acompanhar. HOLANDÊS. Concedida.


SOUTO (Para o FREI). Frei, não perca tempo. Vá dizer ao governador que Porto Calvo será dele novamente. E, com Porto Calvo, Calabar.
Black-out. Luz em MATHIAS, que esfrega as mãos

MATHIAS (Às gargalhadas). Um ano de fracassos consecutivos. Perdi Igaraçu, Itamaracá, a Paraíba, meu Arraial do bom Jesus, me chutaram a bunda em Nazaré, estou sendo enxotado para a Bahia, donde vou ser recambiado para a metrópole, onde me fazem uma devassa. Que carreira! E para me substituir, como se não bastasse, vão mandar um espanhol! (Subitamente sério) E dizer que tudo começou com aquele desertor. E dizer que um mulato pernóstico mudou o curso da História. E dizer que cansei de escrever aquele mulato, só me faltou implorar para que ele voltasse às nossas fileiras, só me faltou lamber o saco daquele mulato. Ofereci-lhe anistia, vencimentos atrasados, honras, mundos e fundos, chamei-o de patriota, chamei-o de general... Mas Deus não permitirá que eu morra sem antes encarar o Calabar! (Tira o pergaminho do peito) E fazê-lo engolir a última resposta que me mandou! Guitarra portuguesa sublinha a fala de MATHIAS, que tem o olhar fixo nas próprias mãos.


MATHIAS. Alegria, minhas mãos, alegria,
Que a vingança acaba de acenar
com a promessa de vosso dia,
Que é a noite de Calabar.
Abri em flor, mãos cerradas
Em punhos de pedra contra o céu.
Mãos de pluma de pato, cansadas
De escrever cartas ao leu.
Mãos de vem-cá sem resposta,
Mãos-de-ferro, mãos de bosta,
Mãos feitas pro necessário,
Mãos vazias, de repente
Mãos de escravo e de maestro,
Predicado independente
De um sujeito ambicanhestro.
Mãos do vício solitário,
De afagos de segunda mão.
Mãos de seda e de garrote,
Mãos à obra, mãos de bote!
Minhas mãos, fazei justiça
com as vossas próprias mãos!
Saciai vossa cobiça
Na garganta da traição. No final da fala, MATHIAS está sentado à mesa com o FREI, DIAS eCAMARÃO. Estende a mão e espeta um pedaço de bacalhau.

MATHIAS. Mas vem cá... esse traidor..

FREI. Calabar?

MATHIAS. Não, não, o outro. O nosso. O que está com eles.Quero dizer, o que nos mandou esse recado...

FREI. Ah, sim, Sebastião do Souto.

MATHIAS. Ele é de plena confiança?

FREI. Bem... É um jovem assaz flutuante, excelência. Já andou
conosco, já andou com os flamengos... Mas esta tarde ele
me pareceu especialmente sincero e prenhe de civismo.
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MATHIAS. Como é que ele se dá com o Calabar?
FREI. Seguia-o como um apóstolo. Mas, agora, acho que o odeia.
MATHIAS (Garfo no ar com bacalhau). Terra engraçada, esta. Em nenhuma outra parte verás tantos sorrisos. Tantos sorrisos e tantas trapaças. Muito engraçada, esta guerra. Tantas raças, tantos idiomas, mas só se entendem claramente as palavras da traição. (Leva o bacalhau à boca) Magro!
FREI. O quê? Eu?
MATHIAS. O bacalhau... Magro, insosso e mofado! (Afasta o prato)
DIAS (Tomando o prato que MATHIAS rejeitou). Senhor, se me permite... (Dá uma garfada e continua a falar de boca cheia) Esse plano, seja de quem for, me parece seguro. O Holandês vem trazendo duas companhias na bandeja.
FREI. Isso é fato.
CAMARAo (Servindo-se de vinho). De minha parte é perfeito. Onde o Holandês pensa que há meia dúzia, tenho duzentos índios. Duzentos índios na emboscada, que morram cem... (Dá um gole e continua) Estamos aí para isso mesmo — ainda sobram cem para o cerco a Porto Calvo.
FREI (Beliscando o prato de DIAS) .Com apenas três companhias em Porto Calvo, Calabar terá que se render às suas tropas, Governador.

DIAS. Isso é fato, Governador.


MATHIAS. Calabar! Calabar! Calabar!

Esfregai-vos, minhas mãos de orgia!

Ejaculai, oh, mãos de estragular!

Alegria, minhas mãos,



Que é noite de Calabar!

Sublinhando a gargalhada e a fala de MATHIAS, melosas guitarras
portuguesas. A gargalhada confunde-se com soluços. MATHIAS
canta Fado Tropical:
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Oh, musa do meu fado, Oh, minha mãe gentil, Te deixo, consternado, No primeiro abril. Mas não sê tão ingrata, Não esquece quem te amou E em tua densa mata Se perdeu e se encontrou. Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. MATHIAS (Falando com emoção, guitarras ao fundo). Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. Além da sífilis, é claro. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora.
Cantando:
Com avencas na caatinga, Alecrins no canavial, Licores na moringa, Um vinho tropical. E a linda mulata, com rendas de Alentejo, De quem, numa bravata, Arrebato um beijo.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
Recitando:
Meu coração tem um sereno jeito E as minhas mãos o golpe duro e presto De tal maneira que, depois de feito, Desencontrado, eu mesmo me contesto.

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