Chico Buarque e Ruy Guerra



Baixar 376.1 Kb.
Página3/7
Encontro30.12.2018
Tamanho376.1 Kb.
1   2   3   4   5   6   7

40
Se trago as vãos distantes do meu peito, É que há distância entre intenção e gesto. E, se meu coração nas mãos estreito, Me assombra a súbita impressão de incesto.
Quando me encontro no calor da luta. Ostento a aguda empunhadura à proa, Mas o meu peito se desabotoa.
E, se a sentença se anuncia, bruta, Mais que depressa a mão cega executa Pois que senão o coração perdoa.
No decorrer do soneto, MATHIAS foi desabotoando as calças e
arriando-as. Agora, para a última parte do fado, ele vai-se
sentando na latrina ao lado do HOLANDÊS, que permanece
no escuro.
Cantando:
Guitarras e sanfonas, Jasmins, coqueiros, fontes, Sardinhas, mandioca, Num suave azulejo.
O rio Amazonas Que corre trás-os-montes E, numa pororoca, Deságua no Tejo.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
41
Luz sobre os dois. MATHIAS usa uma ceroula vermelha com faixa
verde. O HOLANDÊS empunha uma bandeira branca espetada num bambu. Suas ceroulas são listradas de azul e vermelho.
HOLANDÊS. Excelência...
MATHIAS (Contorcendo-se em cólicas). Um momento... Mathias caga. Aliviado, solta um longo suspiro.
HOLANDÊS. Sente-se melhor?
MATHIAS. Melhor? Vossa Excelência não faz idéia do que seja...
HOLANDÊS. Bondade sua. Saiba que estou nesta campanha há tanto tempo quanto Vossa Excelência, Governador.
MATHIAS (Solidário). Também pegou?
HOLANDÊS. Já trouxe das índias Orientais.
MATHIAS. É. Parece que são terríveis por lá.
HOLANDÊS. A bem da verdade, a minha já é um resultado meio híbrido. Às vezes é a indiana que me ataca. Bem cedinho. A brasileira geralmente investe quanto a outra está de recesso. (Começa a se contorcer) Falou no bicho? (Caga)
MATHIAS (Olhando no vaso do outro). Das boas...
HOLANDÊS (Conferindo). Costuma ser mais amarelada...
MATHIAS. Tem vários matizes. A minha é um arco-íris.
HOLANDÊS. Que sorte.
MATHIAS. Sorte?
HOLANDÊS. Onde há cor nem tudo está perdido. (Evocativo) Vossa Excelência já esteve na Holanda?
MATHIAS. Não.
HOLANDÊS. Então não sabe o que é um campo de tulipas ao cair da tarde.
MATHIAS. E Vossa Excelência já viu as amendoeiras em flor? (O HOLANDÊS faz que não com a cabeça) Parece um campo de neve! Essa é a imagem de Portugal que eu trago dentro de mim: as amendoeiras em flor! (Sente uma pontada na barriga)
42
HOLANDÊS. Pensando bem, talvez seja um tanto monótono...
MATHIAS. Sóbrio. Não monótono. Nem de mau gosto.
HOLANDÊS. Está se referindo às tulipas?
MATHIAS. Entenda como quiser. Não quero abusar da minha condição de vencedor, mas acho que Vossa Excelência não está em condições de me contrariar.
HOLANDÊS. Ô, ô, ô, devagar... Seus homens venceram essa batalha, mas a guerra continua.
MATHIAS. Foi uma bela vitória das cores de Portugal.
HOLANDÊS. A serviço da Espanha.
MATHIAS. A serviço de Dom Sebastião!
HOLANDÊS (Levantando-se rapidamente). Sebastião?
MATHIAS. Dom Sebastião!
HOLANDÊS. Aquele filho da puta... (Senta-se.)
MATHIAS (Levantando-se, indignado). Dom Sebastião, o Desejado? O que não morreu em Alcácer Quibir?
HOLANDÊS. Sei lá da vida dele. Só sei que é Sebastião do Souto.
MATHIAS. Ah, bom. (Senta-se) Esse!
HOLANDÊS. Quem diria, com aquela cara, com aquelas mesuras, e de cochicho com aquele padreco que vem a ser outro bom filho duma égua! Canalhas! Corja de traidores!
MATHIAS, Em matéria de traição, vocês não têm muito do que se queixar.
HOLANDÊS. Não estou entendendo.
MATHIAS. Porque não lhe convém. Estou falando de Calabar, já percebeu? C-a-1-a-b-a-r!
HOLANDÊS. Não aceito imposições.
MATHIAS. Aceita sim. E eu imponho que Calabar me seja entregue, mãos e pés atados, como despojo de guerra. Essa é a cláusula um da rendição de Porto Calvo.
HOLANDÊS. Ora, o cerco está apenas começando. E Porto Calvo ainda tem três companhias de soldados.
43
MATHIAS. Tudo esfomeado.
HOLANDÊS. Estamos habituados a comer qualquer coisa. Porto Calvo tem cachorros, gatos, cada rato deste tamanho...
MATHIAS (Enojado). Pfffffffiiiiiiii...
HOLANDÊS. Não é tão ruim assim. Depende do jeito de preparar. Uma ratazana à brasileira, com dendê, farofa, pimentinha...
MATHIAS. Um raminho de coentro...
HOLANDÊS. Taí, não tem nada a ver, coentro. Onde é que já se viu rato com coentro?
MATHIAS. Vossa Excelência pode ser muito bom de cozinha, mas como militar Vossa Excelência é uma compota de merda.
HOLANDÊS (Levantando-se). Governador! Pensei que tivesse vindo parlamentar com um gentil-homem, mas vejo que me enganei! (Joga longe a bandeira branca )
MATHIAS. Pois bem... Eu queria evitar mais derramamento de sangue, mas Vossa Excelência me obriga a isso. (Levanta-se) vou ordenar imediatamente o ataque a Porto Calvo...
HOLANDÊS. Um momento... (Apanha a bandeira) Em nome da Companhia das índias Orientais...
MATHIAS. Que é na verdade quem manda na Holanda, confessa. Vocês não têm um rei, mas uma quadrilha de quitandeiros à testa do Estado e um exército de caixeirosviaj antes.
HOLANDÊS. Ah, foi bom falar nisso. Eu tenho aqui comigo algumas ações da Companhia. Se Vossa Excelência se interessar...
MATHIAS. Como disse?
HOLANDÊS. Cada ação está cotada a 3 mil florins. Eu posso lhe confidenciar que a Companhia pretende investir 2 milhões e meio na conquista do Brasil, sendo que a previsão
44
de retirada é da ordem dos 8 milhões de florins anuais. Logo, fazendo os cálculos rapidamente...
MATHIAS. Vossa Excelência tem noção do que esta me propondo?
HOLANDÊS. Perfeitamente. Vossa Excelência estará jogando no par e no ímpar, no vermelho e no preto ao mesmo tempo. Vitorioso na guerra, será um herói com déficit. Em caso de derrota, ficará simplesmente milionário.
MATHIAS. Saiba Vossa Excelência que eu sou um general a serviço da Coroa de Portugal e Castela!
HOLANDÊS. Sim, mas não importa. Somos uma sociedade anônima e não alimentamos preconceito algum.
MATHIAS. Ora, milionário... Vossa Excelência disse... milionário?
HOLANDÊS. Bem, não faz muito tempo a Companhia pagou

75% de dividendos a seus acionistas...


Entra o FREI, carregando folhas de bananeiras.
FREI. Terminaram?
MATHIAS. Humm... Me entrega o traidor e parte com seus oficiais, bandeiras, insígnias e todas as honradas.
HOLANDÊS. Um momento...
MATHIAS. Trata-se de um ultimatum.
HOLANDÊS. Que merda... Que é que os historiadores vão dizer de mim se eu entrego Calabar?
MATHIAS. Que o entregou a um homem de uma só palavra. A um fidalgo português. As minhas barbas como penhor. (O HOLANDÊS fita MATHIAS que, imberbe, logo acrescenta) Fica bonito! Um dos meus antepassados fez isso nas índias... o Afonso.
HOLANDÊS. Ah, bom.
MATHIAS. É difícil estar sempre inventando frases novas. No fim das contas, o passado deve servir pra alguma coisa... E então?
HOLANDÊS. À mercê d’El Rey Dom Felipe de Espanha e Portugal.
45
MATHIAS. Que que é isso?
HOLANDÊS. Entrego Calabar à mercê d’EI Rey. Os senhores enviam o caso do Major Calabar à Espanha onde, de cabeça fria e à distância dos acontecimentos, o rei Dom Felipe saberá ditar a sentença mais justa.
MATHIAS (Resmungando). À mercê d’EI Rey... À mercê d’EI Rey... Sabe que isso pode criar um impasse nas nossas negociações?
HOLANDÊS. Não volto atrás.
MATHIAS. Preciso... (Começa a se contorcer em cólicas) cagar.
HOLANDÊS. A História pode esperar.
MATHIAS (Olha as próprias fezes). Sangüínea... Disenteria sangüínea.
HOLANDÊS. Ah, a Rood loop! Temos coisa melhor.
MATHIAS. Melhor? Duvido e faço pouco.
HOLANDÊS. Meus soldados têm uma cegueira noturna que chegam a tostar as pestanas à luz de velas.
MATHIAS. Hemeralopia? Besteira. Já ouviu falar em escorbuto?
HOLANDÊS. Perdão, dois pontos. Sherbuik. Até a palavra vem do flamengo. Portanto a primazia é nossa.
MATHIAS. Huumm, grandes coisas... Nós temos tripanossomíase.
HOLANDÊS. Esquistossomose.
MATHIAS. Tifo.
HOLANDÊS. Cancro mole.
MATHIAS. Priapismo ortogonal.
HOLANDÊS. Lepra.
MATHIAS. Disenteria bacilar.
HOLANDÊS. Leptospirose icteroemorrágica.
MATHIAS. Turalamia.
HOLANDÊS. Hemiteria.
MATHIAS. Furunculose.
HOLANDÊS. Hemorróidas.
MATHIAS. Não vale. Hemorróidas você já disse.
46
HOLANDÊS. Disse nada.
MATHIAS. Disse sim.
HOLANDÊS. Pára de roubar.
MATHIAS. Você é que tá roubando.
HOLANDÊS. Malária.
MATHIAS. Agora eu não quero mais, pó.
Os dois suspiram exaustos, apoiados um contra o outro.

FREI. Terminaram?


HOLANDÊS. Calabar fica entregue à mercê D’EL Rey de Espanha...
MATHIAS. Bem... de acordo.

HOLANDÊS. Terminamos.

MATHIAS.Quando contarem estes desafortunados fatos,
Falem de mim como eu sou...

HOLANDÊS. Nada acrescentando ou omitindo,


Nem pondo nenhuma malícia.

MATHIAS. Falem de alguém que sofreu


Não sabiamente.

HOLANDÊS. ... mas demasiado


E que, tomado de cólera, os DOIS. Jogou o inimigo na desgraça
E na desgraça ele mesmo mergulhou. Os dois trocam as folhas secas, cerimoniosamente, e se limpam.

FREI. Morram as tiranias e viva a liberdade! Ao toque de caixa, o HOLANDÊS levanta-se, faz uma banana para o FREI e sai. Entram DIAS, CAMARÃO e SOUTO, arrastando ANNA pelos cabelos. Soldados holandeses depositam armas. MATHIAS dirige-se ao centro da movimentação. Entram em cena barricas de vinho e outros despojos de guerra. Vivas e morras. Grito estridente de ANNA, atirada ao solo por SOUTO. MATHIAS bolina


ANNA com os pés.
CAMARÃO (Garrafa na mão). Viva o Papa! DIAS. Morram os flamengos! FREI. Viva Dom Felipe, rei de Portugal e Espanha!
MATHIAS. (Impondo um súbito silêncio.) Viva El Rey Dom Sebastião de Portugal!
FREI. (Fazendo o sinal-da-cruz) Que Deus o tenha.
MATHIAS. E que esta vitória sirva de exemplo à nobreza lusitana, aqueles palhaços que aderiram ao jugo de Espanha.
FREI. Excelência...
MATHIAS. O que é?
FREI. Se alguém o ouve falar assim...
MATHIAS. Portugal e Espanha estão unidos pela dinastia dos Felipe, está certo. Mas eu, brasileiro, de sangue nobre português, digo e repito que quem manda no Brasil ainda é Portugal e não a Espanha.
FREI. Cuidado, Governador. As paredes têm ouvidos.
MATHIAS. Pois que ouçam! Estão me ouvindo, paredes? Esta vitória é minha e eu a dedico a quem bem entender. Por que é que vou dedicá-la à Espanha, hein? O Brasil nunca lhes interessou. O Brasil, para eles, é uma cortina de cana para esconder dos holandeses a prata do Peru. Cadê os navios que me prometeram? Cadê as notícias? Os canhões? Os remédios? Nada. Mandam um... um espanhol para me substituir! Merda! E você, que é que tá parado aí com essa cara?
SOUTO. Sebastião do Souto, às suas ordens.
MATHIAS. Ah, sim, já sei, você é o traidor. Parabéns, belo serviço, rapaz. Você tem futuro!
CAMARÃO (Brincando). À saúde do nosso traidor!
FREI. Não. Quem trai a Holanda protestante não trai o Papa.
CAMARÃO. Traidor que trai traidor tem cem anos de louvor.
FREI. Traidor é quem trai a Espanha.
MATHIAS. Traidor é quem trai Portugal, Frei!
FREI. Sutilezas históricas, Excelência.
DIAS. Eu acho que traidor é quem trai o governo. Qualquer governo. Feito o Calabar.
SOUTO. Quanto a Calabar, quais são as suas intenções, Governador?

FREI. Me parece que no partido tratado com o Holandês,


Calabar foi entregue à mercê d’El Rey. MATHIAS. Sutilezas históricas, Frei Manoel. SOUTO. Esta guerra é um vaivém. Os reforços dos flamengos
estão por perto e vamos ter que abandonar Porto Calvo
Calabar é um perigo, não sei não... Se for esperar resposta do rei da Espanha... MATHIAS. Nesta guerra de Pernambuco, eu ainda represento
Dom Felipe de Portugal e Espanha. Portanto, eu decido!
Ou não?
Todos concordam ruidosamente. MATHIAS. Deixa eu falar.
Nem que seja só pelas derrotas que me fez amargar,
Ou pelo açúcar que me fez perder,
Nem que seja injusta a glória
E a glória bagatelas,
Nem que seja só para deixar
O meu nome na História.
com meus vermes e mazelas,
Eu condeno Calabar.
Por que quem vai querer saber
Que eu tive diarréia,
Saber que uma noite de cólicas agudas
Vale tanto quanto uma epopéia?
Para ser mais do que eu sou
Nestas guerras de Holanda,
Para que Mathias de Albuquerque lembre um nome
Que dói mais do que anda,
Só me resta a esperança de um traidor
Ligado ao meu destino.
49
Só me resta esperar e até querer
Que tudo fie fino.
E se mando matar Domingos Fernandes Calabar ainda
moço
É porque uso o tino,
Uma vez que o tutano
De tão podre não merece um outro osso.
E se vocês rirem de mim,
Se eu for alvo de chacotas e chalaças,
Se for ridículo na jaqueta de veludo
Ou nas ceroulas de brim,
Ou porque falo tanto de caganeira e bacalhau,
É bom pensarem duas vezes, porque, ainda mesmo assim,
com lombrigas dançando dentro da barriga,
com a Holanda, a Espanha e toda a intriga,
Eu sou aquele que, custe o que custar,
Acerta o laço e tece o fio
Que enforca Calabar.
MATHIAS (Para o FREI,). Mas antes vá confessá-lo, Frei Manoel, e o encaminhe para que não perca a alma, pois com tanta infâmia já perdeu a vida. (O FREI vai saindo) Um momento, Frei. Antes ou depois da confissão, ou mesmo durante, procure assegurar-se de que ele não carrega para o túmulo alguma informação do interesse geral, que eu represento.
FREI. O segredo da confissão é inviolável, Governador!
MATHIAS. E como tal será respeitado. A Deus, as coisas da alma, ao Estado as informações de guerra. Além do mais, Frei Manoel, a sua piedosa colaboração vai evitar os suplícios de uma dispensável tortura.
FREI. Entendido. (Sai)
MATHIAS. E vocês...
SOUTO. Alferes Sebastião do Souto.
MATHIAS. Mandem preparar o cadafalso. (SOUTO sai.) Quero ficar sozinho para meditar... Porque neste Pernambuco eu
50
sou Dom Felipe, rei de Portugal e Algarves, da Espanha, de
Nápoles, da Sicília e da Sardenha... ANNA (Acordando). E eu sou Anna de Amsterdã.
De aquém e de além-mar em África, Cabo Verde, Açores,
Angola e Moçambique.

ANNA. Anna da Rua Larga.


MATHIAS. Goa, Damão e Diu; Timor, Ormuz e Macau; Guiné, Madeira, Sumatra, Malaca e Molucas! ANNA. Anna do beco sem saída. MATHIAS. Maranhão, Paraíba, Piauí. ANNA. Pepe, Mane, Giovanni, Henri.., MATHIAS (Desanimando). Porto Calvo, Porto Alegre. . Niterói...
ANNA canta Anna de Amsterdã:
Sou Anna do dique e das docas,
Da compra, da venda, das trocas, das pernas,
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas.
Sou Anna das loucas.
Até amanhã
Sou Anna
Da cama, da cana, fulana, sacana,
Sou Anna de Amsterdã.
Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar.
Fiz mil bocas pra Solano,
Fui beijada por Gaspar.
Sou Anna de cabo a tenente,
Sou Anna de toda patente das índias.
Sou Anna do Oriente, Ocidente, acidente, gelada.
Sou Anna, obrigada.
Até amanhã
Sou Anna
Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos,
Sou Anna de Amsterdã.
Arrisquei muita braçada Na esperança de outro mar. Hoje sou carta marcada, Hoje sou jogo de azar.
Sou Anna de vinte minutos,
Sou Anna da brasa dos brutos na coxa
Que apaga, charutos, sou Anna dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos.
Até amanhã
Sou Anna
Das marcas, das maças, das vacas, das pratas,
Sou Anna de Amsterdã
MATHIAS, que durante a canção ensaiava com ANNA alguns passos obscenos, é surpreendido pela chegada do FREI
MATHIAS. E então? Esteve com o homem?
FREI. Vi-o pela manhã e lhe disse o que importava para sua salvação e que se preparasse para confessar, visto que hoje teria que dar contas a Deus. E depois o deixei só por uma hora para que ele se aparelhasse como convinha.
MATHIAS. E ele confessou?
FREI. Por três horas. com muitas lágrimas e compunção de espírito. No meu entender, com muito e verdadeiro arre pendimento de seus pecados, segundo o que o juízo humano pode alcançar.
MATHIAS. À merda com o juízo humano. Quero saber se Calabar apontou nomes.
FREI. Bem, fez certos apontamentos de dívidas e obrigações, e de boa quantia que os holandeses lhe devem do seu soldo e de algumas peças de ouro e prata, e alfaias de seda que no Arrecife tem, para que dali se paguem algumas dívidas em que está obrigado.
MATHIAS. Os nomes?
FREI. E me mandou que entregasse esses apontamentos a sua mãe, Ângela Alvres, o que eu pontualmente farei.
52
MATHIAS. Frei, o que eu quero saber...
FREI. Às três horas da tarde se tornou a reconciliar com as mesmas lágrimas e mostras de arrependimento. Foi quando o ouvidor, na minha presença e na do escrivão, lhe perguntou se sabia que alguns portugueses haviam sido traidores e tratavam com o inimigo secretamente, levando-lhe ou mandando-lhe avisos do que entre nós se fazia. Ao que ele respondeu que muito sabia e tinha visto nessa matéria.
MATHIAS. E deu os nomes?
FREI. Não.
MATHIAS. Como não?
FREI. Disse que de presente não se atrevia a furtar o tempo que lhe restava de vida a ocupar-se a fazer autos e denunciações por mão de escrivão.
MATHIAS. Isso veremos.
FREI. Excelência, cuidado. Segundo o que me disse Calabar, os grandes culpados não estão na arraia-miúda. O que ele me deu licença que lhe contasse são coisas pesadas que eu gostaria de tratar consigo em particular. Os dois se encaminham para um canto escuro. Os moradores entoam o refrão do Miserere nobis. BÁRBARA vai-se destacando dos moradores.
O traidor se chama Calabar. Outros terão levado segredos, Outros terão levado propinas, Mas esses sabem se portar. Outros terão se sujado as calças, Outros terão delatado amigos, Mas esses voltam pra jantar. Outros irão vender sua terra, A casa, a cama, a alma, a mãe, os filhos, O povo, os rios, as árvores e os frutos. Mas, Calabar, você nunca foi burro.
53
O traidor se chama Calabar.
Claro, claro, claro, claro.
O melhor traidor é o que se escala,
Corpo pronto para a bala,
Se encurrala, se apunhala
E se espeta numa vala.
Se amarrota e não estala
E cabe dentro da mala,
Se despeja numa vala
E não se fala na sala.
Luz em MATHIAS e no FREI.
MATHIAS. Frei, que não se toque mais nas indiscrições desse traidor para não levantar poeira, porque muitos desgostos e trabalhos podem vir daí. Isto já são assuntos de Estado e não da Igreja.
FREI. Certo, Governador.
MATHIAS. Frei Manoel, amanhã não estarei mais aqui. É provável que nunca mais nos vejamos nestas terras. Portanto, antes de partir quero me confessar. (Ajoelha-se) Eu, Mathias, de sangue e nome português, mas brasileiro por nascimento e afeição, às vezes tenho pensado neste meu país.
FREI. Que Deus o perdoe.
MATHIAS. E em meus devaneios, imagino-me colocando o amor à terra em que nasci acima dos interesses do rei que me governa.
FREI. Que Deus o perdoe.
MATHIAS. E nesses devaneios minha terra não suporta mais as trevas e a opressão de Espanha e Portugal. A terra pulsa, blasfema e se debate dentro do meu peito. E para sua redenção, parece que qualquer caminho é legítimo. Até mesmo uma aliança com os hereges holandeses...
FREI. Oh, Excelência! Que Deus...
MATHIAS. Me perdoe. Caso contrário, eu não seria digno de
54
enforcar um homem, brasileiro como eu, mas tão insensato quanto os meus devaneios.
OFICIAL (Entrando). Excelência.
MATHIAS (Levantando-se). Hum... Sim... Bem, vamos abandonar Porto Calvo dentro de poucas horas. Que antes se queime tudo o que possa vir a servir ao inimigo e que Calabar seja executado em praça pública, para que sua punição sirva de exemplo. com baraço e pregão, para que ninguém falte ao espetáculo, e ao som de tambores, para que palavras perniciosas não sejam escutadas. E que Deus e os homens nos perdoem por nossos caminhos se terem cruzado assim.
FREI. Deus certamente perdoa. E a memória dos homens é curta. (Dá a absolvição em latim) Ego te absoluum... etc...
MATHIAS (Para o oficial). Podem dar início à execução. (Sai)
Subitamente iluminada, BÁRBARA canta Tatuagem, enquanto se
ouvem, entremeados na canção, a sentença do OFICIAL e o rufar
dos tambores. Em claro-escuro, soldados trazem um homem
para a execução.
BÁRBARA. Quero ficar no teu corpo feito tatuagem Que é pra te dar coragem Pra seguir viagem Quando a noite vem. E também pra me perpetuar Em tua escrava Que você peça, esfrega, nega Mas não lava.
OFICIAL. ... Que seja morto de morte natural para sempre na forca... (Rufos) ...por traidor e aleivoso à sua Pátria e ao seu Rei e Senhor... (Rufos) ...e seu corpo esquartejado, salgado e jogado aos quatro cantos... (Rufos)
BÁRBARA. Quero brincar no teu corpo feito bailarina Que logo te alucina, Salta e se ilumina
55
Quando a noite vem.
E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta,
Morta de cansaço. OFICIAL. ... Para que sirva de exemplo... (Rufos) ...e a si
casa seja derrubada pedra por pedra e salgado o seu chão
para que nele não cresçam mais ervas daninhas...
(Rufos)...

BÁRBARA. Quero pesar feito cruz nas tuas costas


Que te retalha em postas,
Mas no fundo gostas,
Quando a noite vem.
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva,
Marcada a frio,
A ferro e fogo
Em carne viva.

OFICIAL. ... E seus bens confiscados e seus descem


declarados infames até a quinta geração... (Rufos)...
que não perdurem na memória... (Rufos)

BÁRBARA. Coração de mãe, arpões,


Sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes.
Último rufar de tambor misturado ao grito lancinante de BÁRBARA.

FREI (Fazendo o sinal-da-cruz). Viremos a página e tratem!


de nos mirar no exemplo dos grandes heróis da noa
Pátria. Acordes lentos e solenes do tema Vence na vida quem diz sim
acompanham a entrada de SOUTO, DIAS e CAMARÃO. DIAS. O meu nome é Henrique Dias
E sou capitão-do-mato.
Toco fogo nos quilombos,
Pra catar preto e mulato.
Ganhei foro de fidalgo,
Prata, patrimônio e patente.
Eu tenho uma alma tão branca
Que já ficou transparente.

FREI. Este sim, um gênio da raça. Trocou um olho por uma


medalha e um braço por uma vitória. Negro na cor,
porém branco nas obras e no esforço. Tenho até notado
que ele está ficando um pouco mais claro.

CAMARÃO. Minha graça é Camarão.


Em tupi, Poti me chamo.
Mas do novo Deus cristão
Fiz minha rede e meu amo.
Bebo, espirro, mato e esfolo
No ramerrão desta guerra.
E se eu morrer não me amolo,
Que um índio bom nunca berra.
FREI. Vejam bem. Este índio nasceu entre os selvagens tapuias, que são uns analfabetos e antropófagos e hereges e traidores, e é hoje o mais leal soldado que El Rey tem
nesta guerra. Recebeu o título de Dom e o nome batismal
de Antônio Felipe Camarão, Cavaleiro do Hábito de
Cristo.

SOUTO. Me chamam Sebastião Souto


E algumas coisas mais.
Quando dei por mim, já era
Tarde pra voltar atrás.
Minha história é tão medonha
E de tão repelente memória
Que a História até tem vergonha
De pôr meu nome na História.

FREI. Bem, desse falaremos mais tarde. Enquanto BÁRBARA olha fixamente os três heróis, ANNA entra e


canta a primeira estrofe de Vence na vida quem diz sim.

ANNA. Vence na vida quem diz sim.


Vence na vida quem diz sim.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal