Chico Buarque e Ruy Guerra



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Se te dói o corpo, Diz que sim. Torcem mais um pouco, Diz que sim.
Se te dão um soco,

Diz que sim.

Se te deixam louco,

Diz que sim.

Se te babam no cangote,

Mordem o decote,

Se te alisam com o chicote,

Olha bem pra mim.

Vence na vida quem diz sim,

Vence na vida quem diz sim.

DIAS. Eu acabei de chegar. Não vi nada.

CAMARÃO. Do que é que você está falando? Eu também não ouvi nada.

SOUTO. Eu gostaria de poder dizer alguma coisa, mas não sei o quê.

ANNA. Vem Bárbara, eles não podem te ajudar.

DIAS. A guerra tem todos os direitos. É só o que há para

dizer.


CAMARÃO. Meus olhos cansaram de ver... Os índios, eles

caem de repente. De bala, de gripe, de bebedeira, decapitados, mas é sempre de repente... Como se Deus dissesse:

pára!

SOUTO. Bárbara...



ANNA. O que é que você quer com ela? Deixa ela em paz.

SOUTO. Eu gostaria de saber o que ela está pensando...

ANNA. O que é que você acha? No macho dela, é claro.

CAMARÃO. O morto... DIAS (Irônico). O major holandês.

SOUTO. Calabar... CAMARÃO. Mas um homem morrer assim, com anúncio de
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tambor e hora marcada... é sempre desconcertante... Os

olhos cansam de ver, mas o estômago não se acostuma.

DIAS. Se morreu assim foi porque merecia.

ANNA. E você não tem medo de morrer assim?

DIAS. Eu não tenho medo de nada.

ANNA. Mas que falta de imaginação!

SOUTO. O que me assusta na morte é que é o único momento em que o homem está verdadeiramente sozinho. É essa solidão é a verdadeira definição do medo.

CAMARÃO. O que me assusta na morte é o cheiro que ela vai trazendo ao corpo. Essa podridão é a definição da carne.

DIAS. Bobagens... O que pode assustar na morte é a própria morte. Mas quando ela chega já não tem definição.

ANNA canta a segunda estrofe de Vence na vida quem diz sim: ANNA. Vence na vida quem diz sim.
Vence na vida quem diz sim.

Se te jogam lama,

Diz que sim.

Pra que tanto drama,

Diz que sim.

Te deitam na cama,

Diz que sim.

Se te criam fama,

Diz que sim.

Se te chamam vagabunda,

Montam na cacunda,

Se te largam moribunda,

Olha bem pra mim.

”Vence na vida quem diz sim,

Vence na vida quem diz sim.

Bárbara, vamos embora.

BARBARA parece despertar do torpor em que se encontrava. BÁRBARA. Eu conheço você...

DIAS. Meu nome é Henrique Dias, Governador dos Pretos, Crioulos e Mulatos de Pernambuco.

CAMARÃO. Eu sou Dom Antônio Felipe Camarão, Governador e Capitão-mor de Todos os índios da Costa do Brasil.

BÁRBARA. E você... é Sebastião do Souto... Vocês todos lutaram ao lado dele.

CAMARÃO. Antes...

DIAS. Quando ele lutava ao nosso lado, pela causa certa.

BÁRBARA. Vocês foram amigos...

SOUTO. Fomos.

BÁRBARA. E agora vocês o mataram.

CAMARÃO. NÓS?

SOUTO. Nós somos soldados, só isso...

DIAS. Nós não temos nada com essa história, moça. Se tem alguma reclamação, dirija-se ao carrasco, escreva à Sua Majestade, o Rei.

ANNA (Irônica). Eles não têm nada com isso. A culpa é do rei e do carrasco. Vamos embora, Bárbara...

BÁRBARA. Vocês o traíram! Todos vocês.

DIAS. A guerra tem todos os direitos...

BÁRBARA. Não lhe deram nem a satisfação de morrer na guerra. Ele morreu na forca. Não foi julgado nem nada, não pôde reagir, não teve defesa nem foi condenado. Foi executado e ponto final.

SOUTO. Foi uma cilada. Cilada também faz parte da guerra.

BÁRBARA. Havia um acordo. Todo mundo sabe que foi feito um acordo para a rendição da cidade. Toda a cidade sabe disso!

CAMARÃO. Parece que houve uma contra-ordem, um desacordo, não sei.

BÁRBARA. O que houve foi um assassinato! Um prisioneiro de guerra morto a sangue-frio! Vocês são soldados e sabem disso muito bem. Tem aí um capitão-mor não sei de quê, um governador das negas dele, mas não tem um homem pra abrir a boca numa hora dessas. Nem digo abrir a boca pra salvar a vida de ninguém. Eu digo abrir



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CALABAR
a boca pra resguardar a própria dignidade. Não tem um homem nesse exército!

CAMARÃO. É... às vezes acontecem uns excessos... E a gente não pode controlar tudo...

SOUTO. A gente não pode saber as razões de tudo o que acontece...

DIAS. Nem deve. Quem sabe mais do que pode só arranja problemas.

BÁRBARA (Após uma pausa). O que é que você sabe, Henrique Dias?

DIAS. Eu sei o suficiente.

BÁRBARA. O suficiente para quê?

DIAS. Para não ser um desertor, por exemplo. Eu sei qual é o meu lugar. Sei a quem devo as armas que manejo, os coturnos que calço e tudo o que sou. Eu lutei, matei, perdi um olho, engoli em seco e, de tanto ser comandado, hoje eu sei o suficiente para poder comandar. E o suficiente para não cuspir no prato em que comi.

BÁRBARA. O suficiente para não se importar de ser negro?

DIAS. Ora, essa. Por que iria me importar de ser negro?

BÁRBARA. Os outros negros são escravos.

DIAS. Pois eu não sou, eu sou chefe. A guerra me libertou e me engrandeceu. Nesta terra, seja preto, índio ou alemão, quem não nasce senhor de engenho é malnascido. Então eu estou aqui para provar que há sempre um lugar ao sol para quem levanta cedo.

BÁRBARA. E um lugar na forca para quem não pensa do mesmo jeito.

DIAS. Escuta, moça. Meus pais foram escravos e eu sofri na carne a chibata e a humilhação. Mas disse que ia vencer e venci. E daqui eu saio pra seguir vencendo, até que não sobre um holandês nesta terra de Deus. E quando a guerra acabar, bem, aí serei um homem respeitado.

BÁRBARA. Senhor de muitos engenhos e com seus próprios escravos.
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DIAS. Por que não? A minha dinastia começa comigo mesmo. E lhe garanto uma coisa: filho meu não vai conhecer chibata nem humilhação. Meus filhos vão ser quase iguais aos brancos.

ANNA. Ha-ha-ha-ha-ha-ha...

CAMARÃO. Ele está certo, dona. Sabe, o erro do teu homem foi desrespeitar a lei das coisas. As letras que ele aprendeu, os números, a inteligência, tudo isso foi obra de jesuíta português. Teu homem recebeu a cama feita e mijou em cima.

BÁRBARA. Certo, Dom Camarão. É escusado perguntar por que é que você luta ao lado do branco.

CAMARÃO. De todos os lados é uma guerra de brancos. Mas foi o português quem me deu o uniforme, o mantimento e o Evangelho. E daqui eu saio com ele até o fim da guerra.

BÁRBARA. Eu sei de índios que lutam a luta dos índios. A luta contra os brancos.

CAMARÃO. A luta contra o tempo. Minha raça começou a morrer no dia em que o primeiro civilizado botou o pé nas Américas.

BÁRBARA. Isso dito assim, sem mágoa, nem parece saído da boca dum índio.

CAMARÃO. E quem é que me obriga a falar feito índio? Eu também posso pensar em português, como cristão que sou. Por que é que eu vou pra guerra de azagaia, se posso arranjar um mosquete? E quando for pra morrer, pra que é que vou querer virar lua, pedra, cachoeira, bicho, raio de luz, se posso arranjar uma alma e ficar de conversa com Jesus Cristo até o fim dos dias?

BÁRBARA. Você também é um belo exemplo para o seu povo...

CAMARÃO. Não, acho que não sou. Meu nome não vai entrar nos contos que o índio pai conta pró índio filho, e este pró seu curumim, e deste pró curumim do curumim,



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até que não vai ter mais curumim nenhum pra escutar esses contos. Não. O meu nome vai ficar nos livros que o branco mandar imprimir para sempre. ANNA canta a terceira estrofe de Vence na vida quem diz sim: ANNA. Vence na vida quem diz sim. Vence na vida quem diz sim. Se te cobrem de ouro, Diz que sim. Se te mandam embora, Diz que sim. Se te puxam o saco, Diz que sim. Se te xingam a raça, Diz que sim. Se te incham a barriga De feto e lombriga, Nem por isso compra a briga, Olha bem pra mim. Vence na vida quem diz sim. Vence na vida quem diz sim...

Agora vamos, Bárbara... BÁRBARA. E você, Sebastião do Souto? SOUTO. Eu o quê? Eu vou em frente. O que está feito, está feito.

BÁRBARA. Podia ter sido diferente.

SOUTO. É, podia. Podia Calabar ter suspeitado das minhas manobras. Podia o Holandês ter evitado o confronto. E quem podia estar pendurado ali era eu.

BÁRBARA. Você está arrependido do que fez.

SOUTO. Eu estou sempre arrependido, sem saber por que me arrependo a cada instante. Eu queria não ter dúvidas.

BÁRBARA. Escuta, Sebastião do Souto, eu preciso entender uma coisa. Você não é comandante, não está todo espeta-

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do de medalhas, não senta à mesa das autoridades, você é um subalterno. É pouco mais que um menino, tem toda a vida pela frente. Então, me explica. Você que marchou com Calabar, conviveu, compreendeu, imitou Calabar, ouviu os sonhos dele, que motivo o levou a trair Calabar?

SOUTO. Motivo? Motivo, como?

BÁRBARA. Tem que haver um motivo muito forte. Mais que uma recompensa, uma honra ao mérito, uma ambição...

SOUTO. Motivo forte? Eu? Eu não tenho um motivo sequer para estar nesta guerra. Quando eu me dei por gente, já era um praça do exército holandês combatendo na Paraíba. Por que holandês? Não sei. Vai ver que gostei do colorido. E sempre fiz o que vi ser feito, sem perguntar nada. Saques, massacres, emboscadas, sempre achei tudo normal na guerra, mesmo porque não conheço outra oficina. Achei normal me bandear, com todo um batalhão de flamengos, pró lado dos portugueses, porque os portugueses estavam pagando em dia. Um ano depois, quando o mesmo batalhão desertou de volta prós holandeses, a troco de perdão e de um soldo dobrado, achei normal voltar também. Tornei a mudar outras vezes, por acaso, por carne-de-sol, por dívida de jogos, por questão de mulher. De repente eu era um sargento português. E achei que seria normal executar 200 índios tapuias porque, sendo aliados dos flamengos, eram hereges. Depois executamos outros 120 índios, batizados, e eu achei muito normal. Combati normalmente sob as ordens de chefes espanhóis, franceses, italianos, polacos, alemães, que também achavam normal lutar pela bandeira que pagasse mais. Falaram em religião, acreditei. Não perguntei nada, mas disseram que era a luta entre Deus e os diabos. Depois desconfiei que se matava e morria pelo comércio do açúcar, do sal, pelo ouro e pela prata, pelo tráfico de escravos de Angola e da Guiné, pelo domínio dos mares,

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para o transporte da pimenta, da cochonilha, da noz-moscada, do pau-brasil, e aceitei. Achei bem normal que as grandes nações disputassem o mundo entre si, que alianças se fizessem e se desmanchassem, contanto que os florins, os escudos, as libras e as pesetas continuassem dançando nos cofres da nobreza, dos acionistas, dos agiotas, dos grandes soberanos dessas nações. E continuo achando normal que, qualquer que seja o resultado de todas as guerras, no lixo dessas guerras sobrem escravos e miseráveis, gente sem juízo e gente sem princípios, subalternos desleais, como eu, e visionários como ele, na forca.

BÁRBARA. Ah, agora está explicado. Você nunca entendeu a luta de Calabar. Nem podia entender, porque você está louco.

SOUTO. Não, a minha loucura é a lucidez. Louco é quem faz perguntas que não pode responder. Ou porque não sabe a resposta, ou porque o preço da resposta certa é o preço da própria vida. Se tem um louco nesta história, o seu nome é Domingos Fernandes Calabar.

BÁRBARA. Basta! Você está proibido de pronunciar esse nome!

SOUTO. Louco, sim! Calabar era um louco! Porque de uma dúvida ele fez uma certeza!

BÁRBARA. Cala essa boca!



Passam em retirada as tropas de MATHIAS DE ALBUQUERQUE. DIAS e

CAMARÃO juntam-se à soldadesca. SOUTO vai por último depois de



Cantar Eu vou voltar. vou voltar

Quando souber acreditar Que há porquê, no quê acreditar. Então vou estar pronto pra voltar. vou provar a dor atroz Que faz um animal falar E vou calar.


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Orgulhoso, triunfal, Traído, estropiado, sim Eu vou voltar.

vou sangrar

Quando tiver por quem e a quem sangrar.

E, se no céu,

Alguma estrela duvidar

Aquela estrela eu trato de apagar, eu vou voltar

E espalhar

O espanto, o pranto, o luto, o horror

Em cada alqueire

E ver que flor inda é capaz de dar

No banho bruto da tapera

Eu vou voltar.

vou trazer a flor brejeira

Do sertão em primavera

E uma constelação inteira em meu olhar.

vou, eu vou te arregalar meus olhos

Cegos de tanta quimera.

Me espera,

Espera,


Eu vou voltar.

BÁRBARA. Estão todos proibidos de pronunciar esse nome!

Fora, covardes! Fora! Amparada por ANNA, BÁRBARA senta-se e remexe o sangue de

Calabar numa bacia. ANNA. Bárbara!

BÁRBARA olha a holandesa, depois desvia o olhar para a bacia. ANNA. Foi todo mundo embora... Você não pode ficar aqui

sozinha! BÁRBARA, mansamente, como que gemendo, entoa lentamente Cala

a boca, Bárbara, que serve de fundo às palavras de ANNA.

ANNA. Se eu me lembrasse ainda do que senti, quando perdi
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pela primeira vez o homem que eu amei, talvez pudesse te dizer alguma coisa... Mas foi há tanto tempo... É triste dizer isso, mas nem tenho mais a certeza da cor dos seus olhos. E, no entanto, eu estremecia de prazer cada vez que ele me olhava... Como estremeço agora, mas é só de safadeza... Puxa, eu nem te conheço direito... Mas talvez seja melhor assim... Senão a gente ia ter que lembrar junto umas coisas que agora você precisa esquecer.
BÁRBARA. Eu não vou esquecer..

ANNA. Ele morreu.

BÁRBARA. Não fala assim.

ANNA. Ele morreu de morte matada, estrebuchou e tudo, as vísceras saindo pela boca...

BÁRBARA. Chega!

ANNA. E quando o nó fechou, o pau ficou duro. É sempre assim.

BÁRBARA. Eles não eram capazes de matar Calabar... Calabar era mais esperto e mais forte que todos esses exércitos juntos... Calabar não se mata assim tão fácil, como um animal qualquer... Eu não deixo!

ANNA. Vamos para casa.

BÁRBARA. Eu não tenho casa.

ANNA. Vem comigo.

BÁRBARA sacode a cabeça, como se quisesse afastar para longe uma idéia que teimasse em dominá-la. Depois encara a holandesa.

BÁRBARA. Você é casada?

ANNA (Ri). Eu, hein? De onde é que você tirou isso?

BÁRBARA. Eu sim. Você ama alguém?

ANNA. Amo. Eu amo quem me paga.

BÁRBARA. Eu amo Calabar.

ANNA. Ora, isso eu já sei.

BÁRBARA. Qual é o seu nome?

ANNA. Xi, eu tenho tantos... Mas pra você eu sou Anna. Só

Anna.
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BÁRBARA (Como se pronunciasse uma palavra estranha). Anna...

ANNA. Uma amiga.

BÁRBARA. Uma amiga... Anna, eu vou contar uma coisa só pra você. Sabe, é até bom eles pensarem que mataram Calabar. Esquartejaram Calabar e espalharam por aí os seus pedaços. Mas Calabar não é um monte de sebo, não. Eu sei que Calabar deixou uma idéia derramada na terra. A gente da terra sabe dessa idéia, colhe essa idéia e gosta dela, mesmo que ande com ela escondida, bem guardada, feito um mingau esquentando por dentro. A idéia é dessa gente. Os que não gostam da idéia, esses vão se coçar, vão fazer pouco dela, vão achar que é um bicho-do-pé. Depois essa idéia maldita vai começar a aperrear e aperrear o pensamento desses senhores, vai acordar esses senhores no meio da noite. Eles vão dizer: que porra de idéia é essa? Eles então vão querer matar a idéia a pau. Vão amarrar a idéia pelos pés e pelas mãos, vão pendurar a idéia num poste, vão querer partir a espinha dessa idéia. Mas nem adianta esquartejar a idéia e espalhar seus pedaços por aí, porque ela é feito cobra-de-vidro. E o povo sabe e jura que a cobra-de vidro é uma espécie de lagarto, que quando se corta em dois, três, mil pedaços, facilmente se refaz.

BÁRBARA canta Cobra-de-Vidro:

BÁRBARA. Aos quatro cantos o seu corpo Partido, banido.

Aos quatro ventos os seus quartos, Seus cacos de vidro. O seu veneno incomodando A tua honra, o teu verão. Presta atenção! Presta atenção! Aos quatro cantos suas tripas,


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De graça, de sobra, Aos quatro ventos os seus quartos, Seus cacos de cobra, O seu veneno arruinando A tua filha, a plantação. Presta atenção! Presta atenção!

Aos quatro cantos seus gemidos, Seu grito medonho, Aos quatro cantos os seus quartos, Seus cacos de sonho, O seu veneno temperando A tua veia, o teu feijão. Presta atenção! Presta atenção! Presta atenção! Presta atenção!

Ao som de Cobra-de-vidro, BÁRBARA dirige-se ao público:

BARBARA. Não posso deixar nesse momento de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão, pela covardia ou pelo fingimento dos mortais.


Intervalo.
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Segundo ato


Primeiros acordes do hino holandês. Sobe o pano.
NASSAU (Off). Tu não morreste em vão.

Eis, talvez, um estranho epitáfio dirigido a estranha gente

de um estranho continente de contorno incerto

num mapa de imaginação. Tu não morreste em vão, repito,

aqui deste meu porto como um gesto de conforto

a algum estranho herói de contorno incerto

no porto de um povo de imaginação. A luz descobre NASSAU.

NASSAU. Eu, Maurício de Nassau-Siegen, conde holandês da

mui nobre casa dos Orange, que tantos reis e guerreiros

têm dado ao meu país, embarco neste ano de 1637 a

caminho de Pernambuco, em terras do Brasil, como

Governador-geral plenipotenciário a serviço e mando da

Companhia das índias Ocidentais, carregado de títulos,

armas, idéias e um compromisso tácito com o sangue

derramado por desconhecidos.

Eu, Maurício de Nassau,

num tombadilho sombrio,

a bordo de um sonho grandioso,


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cambaleando entre as ondas, entre norte, sul e tempestades, entre medo e coragem, entre ansiedade e náuseas, entre bêbado e sonâmbulo, entre fidalgo e corsário, governante e mercenário. Eu, Maurício simplesmente, sem nenhuma testemunha e sem Bíblia na mão e sem porra nenhuma na cabeça, duvido firmemente, em nome dos Santos Mártires, que algum dia algum homem n’algum lugar tenha conhecido morte que não fosse vã. Mas tu não morreste em vão. Embora seja mais difícil dizer isso quanto mais avisto o teu mundo no horizonte verde e vivo e a paisagem definida sem qualquer ressentimento da tua ferida.

Não, não morreste em vão. Ou será em vão que rasguei esses trópicos, será em vão que adivinhei a terra nova, será em vão que piso a terra nova, que beijo a terra que beijavas, e essas palavras serão vãs de um holandês sem palavra. NASSAU beija o solo.

ANNA puxa o frevo Não existe pecado ao sul do Equador.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador.

Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor.

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Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho,

Um riacho de amor,

Quando é lição de esculacho, olhaí, sai debaixo,

Que eu sou professor.

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar

Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá.

Vê se me usa, me abusa, lambuza,

Que a tua cafuza não pode esperar.

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar

Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá.

Vê se me esgota, me bota na mesa,

Que a tua holandesa não pode esperar.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador.

Vamos fazer um pecado, safado, debaixo do meu cobertor.

Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, diacho,

Um riacho de amor,

Quando é missão de esculacho, olhaí, sai debaixo,

Eu sou embaixador.

A orquestra prossegue com o frevo rasgado. NASSAU é fortemente aclamado. Acompanha-o um séquito de pintores, astrônomos, naturalistas, médicos etc. Os moradores e senhores de engenho

portugueses cercam NASSAU.

MORADOR. O que é que o príncipe achou do Brasil?

NASSAU. Un des plus beaux pays du monde

MORADORES. Diz mais alguma coisa! Mais!

NASSAU. Pas de pareil... sous le soleil!

MORADORES. É o maior. É poeta! Diz mais!

MORADOR. Suas impressões do Recife...

NASSAU. C’est... c’est... A Veneza brasileira.

CONSULTOR. Não exageremos...

MORADORES. E a mulher brasileira? E a nossa música? E as

nossas praias?

NASSAU. Foi para retratar tanta beleza que eu trouxe comigo

pintores. E arquitetos para construir palácios. E astrôno-
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mos para contar as estrelas. E botânicos para cheirar as matas. E naturalistas para estudar as aves...

PAPAGAIO. Oba!

NASSAU. Qual é o seu nome?

PAPAGAIO. Oba!

NASSAU. Em breve teremos aviários, jardins botânicos e zoológicos, orfanatos, hospitais, o primeiro observatório astronômico e meteorológico do Novo Mundo, que mais, uma universidade...

CONSULTOR. Príncipe, não exageremos...

NASSAU. Como Governador-geral de Pernambuco a minha maior preocupação é fazer felizes os seus moradores. Mesmo porque eles são mais da metade da população do Brasil, e esta região, com a concentração dos seus quase 350 engenhos, domina a produção mundial de açúcar. Além do mais, nesta disputa entre a Holanda, Portugal e Espanha, quero provar que a colonização holandesa é a mais benéfica.

PAPAGAIO. Oba!

NASSAU. Minha intenção é fazê-los felizes... sejam portugueses, holandeses ou da terra, ricos ou pobres, protestantes ou católicos romanos... e até mesmo judeus.

CONSULTOR. Príncipe...

NASSAU. O que importa é que fique bem claro que não estou aqui em nome do Governo holandês, embora a Companhia das índias me dê poderes para tanto, mas sim representando os interesses de todos os pequenos investidores — sapateiros, alfaiates, ferreiros, agricultores, gente como muitos de vocês que compraram essas ações com o suor do seu rosto e que constituem a grande maioria dos acionários...

CONSULTOR. Príncipe, assim também já é demais...

NASSAU. Infelizmente, essas guerras incessantes têm arrebentado com a produção, exigindo investimentos cada vez

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maiores no aparato bélico, e a Companhia das índias fecha o balanço dos últimos 15 anos com um saldo devedor a seus acionistas da ordem de 18 milhões de florins, o que ao câmbio atual do cruzado... vejamos, o cruzado a 400 réis, quatro vezes oito trinta e dois, sobe três... (Atrapalha-se com os dedos)

CONSULTOR. Príncipe, essa explicação me parece descabida. E é notório que os portugueses não entendem de finanças...

NASSAU. É, que se danem os cálculos... O que importa é que, apesar dessas dificuldades, não vim trazer uma política de repressão. Apoiado na unidade das nossas forças armadas, que estão com seu soldo em dia, vim disposto à confraternização e à colaboração mútua. Reduzirei os impostos. Garantirei a portugueses igualdade de direitos com os holandeses. E os moradores e senhores de engenho que, por desgraça de guerra, tiverem perdido suas casas e plantações, têm a minha autorização para reocupá-las.

MORADORES. Já ganhou! Viva!

NASSAU. Vamos ampliar a cidade do Recife e ladrilhar suas ruas. E na Ilha de Antônio Vaz ergueremos uma nova cidade, projetada conforme os mais modernos conceitos de urbanismo, do loteamento ao traçado racional de suas avenidas, desde o embelezamento de seus parques até o escoamento de seus esgotos. E a essa nova e suntuosa cidade permito-me dar o nome de Cidade Maurícia.

MORADORES. Viva ele! Viva! Muito justo!

NASSAU. E para que Recife e Maurícia se unam numa só cidade, darei início à construção de uma ponte magistral sobre o Capibaribe. Pilares de pedra sustentarão esse monumento que nos unirá a todos solidamente, numa nova era que se inicia. Uma era de paz e desenvolvimento.

MORADORES. Viva! Viva! Queremos paz!



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