Chico Buarque e Ruy Guerra



Baixar 376.1 Kb.
Página5/7
Encontro30.12.2018
Tamanho376.1 Kb.
1   2   3   4   5   6   7

75
CONSULTOR. Príncipe, tudo isso é muito bonito, mas os portugueses continuam entrincheirados na Bahia, quando não estão nos surpreendendo com sua guerra de emboscadas. É preciso derrotá-los de uma vez por todas!

NASSAU. Calma, calma, cada coisa a seu tempo. (Para os moradores, retomando a retórica) Enfim, eu e os meus conselheiros desejamos ardentemente demonstrar a nossa boa vontade para com os moradores de Pernambuco. Teremos os ouvidos atentos para remediar os males que surgirem. Tragam até nós as vossas aflições, que tudo faremos para abrandá-las. Que todos se pronunciem, sem qualquer constrangimento.

SENHOR DE ENGENHO. Muitos de nós, senhores de engenho, tivemos as nossas máquinas destruídas...

NASSAU. Reconstituiremos tudo.

SENHOR. Não temos dinheiro.

NASSAU. Financiaremos.

CONSULTOR. com juros, é claro.

SENHOR DE ENGENHO II: Faltam-nos braços para o plantio, para a safra...

NASSAU. Forneceremos quantos escravos forem necessários... (Para o CONSULTOR) Mande uma expedição imediatamente à costa da África!

SENHOR II. Mas, Alteza, nós não temos condições...

NASSAU. Debitaremos o custo dos escravos nos livros da Companhia.

CONSULTOR. Por um justo preço. Um bom negócio é aquele em que todos ganham.

NASSAU. Mais alguma coisa?

MORADOR. Alteza, há um problema angustiante por aqui: a falta de mulheres... (Risos) Sim, Alteza, e as poucas de que dispomos já pegaram a doença do país... (Mais risos) E já que Sua Alteza permite que me pronuncie.. sem constrangimento... já estão dizendo que o Recife tornouse a capital, me perdoe, Alteza, a capital... da pederastia!


76
Os moradores, às gargalhadas e desmunhecando, explodem no frevo Não existe pecado ao sul do Equador.

NASSAU. Aqui.

NASSAU juntou-se, acompanhado do consultor, ao grupo de arquitetos, pintores, astrônomos, e indica imperativamente um ponto no chão.

NASSAU. Aqui devemos plantar a cabeceira da ponte. De pedra, tudo de pedra e da melhor qualidade. Vinte e cinco pilares no rio vão sustentar a ponte que faz assim... (Descreve arcos com a mão) Assim... assim... até a outra cabeceira do lado de lá, de pedra, é claro.

ENGENHEIRO. Príncipe, não vai ser fácil. Há um grande espaço do rio que é muito fundo e o resto, com a baixa-mar, fica seco. O terreno é arenoso e...

NASSAU (Vendo entrar o FREI). Frei Manoel do Salvador, estava esperando mesmo pelo senhor. De muitas das suas qualidades de homem de letras e de suas virtudes me falam os moradores de Pernambuco,

FREI. Bondade, Príncipe, bondade...

NASSAU. Gostaria que o senhor viesse morar no meu palácio. Junto a mim, melhor me poderá falar dos anseios da gente desta terra e melhor poderá se dedicar aos seus estudos de latim.

FREI. Muito lhe agradeço, Alteza, mas não posso. Os moradores necessitam freqüentemente dos meus sacramentos e dos meus conselhos, e não seria justo o andarem-lhe todos atravessando a casa e rompendo a sua guarda.

CONSULTOR. Príncipe, seria interessante que pudéssemos contar com a intimidade de alguns portugueses, para que, a troco de alguns favores, fiquemos em dia com as insídias do inimigo.

NASSAU (Para o CONSULTOR) E os mais próprios seriam os padres, pois são eles quem de tudo têm melhor conhecimento...
77

(Para o FREI) Ad ilustrae figurae fratem Emmanuelem a Salvatore Religiosum ordinis Sancti Paoli de Província Portugaliae importância non habet. Eu insisto, pois, que aceite o meu convite.

FREI. (Para o outro lado). Que pessoa maravilhosa! O sangue real de onde provém o inclina ao bem... (Para NASSAU) Perdão. Mas o Príncipe sabe que eu sou um homem enfermo de corpo, e algumas vezes me será necessário estar despido e outras gemer e chorar e não quero que me entrem por a porta, sem bater, seus criados e familiares e me vejam descomposto no traje, o que me seria mui penoso.

NASSAU. Oh!

FREI. Convém que eu viva fora de sua casa, onde todos notem meu modo de proceder e sejam todos fiscais de minha vida e costumes, porque ainda que eu ande a comer meninos...

NASSAU. Ora, Frei... Por quem sois... (Para o CONSULTOR) É o nosso homem... (Para o FREI) Pelo menos venha morar dentro das fortificações. Vou mandar costruir-lhe uma

casa vizinha ao Palácio... (Para o ENGENHEIRO) Uma casa com oratório aqui para o Frei Manoel!

FREI. (Após beijar a mão de NASSAU) Está restaurada a liberdade de culto no Brasil, graças ao Príncipe Maurício de Nassau!

PAPAGAIO. Oba!

CONSULTOR. Príncipe, e a Bahia?

NASSAU. Ah, sim, o ataque à Bahia... Já chegaram os reforços da Europa?

CONSULTOR. Não...

NASSAU. Pois é, a Companhia precisa saber que atravessamos o Atlântico e não o Rubicão. Escrivão!

ESCRIVÃO. Sim, Príncipe!

NASSAU. Escreva aí. É para a Companhia das índias Ocidentais. (Para o CONSULTOR) Ou você pensa que eu já não


78

teria atacado a Bahia se eles tivessem mandado a armada que me prometeram? Escrivão!

ESCRIVÃO. Sim, Alteza.

NASSAU. Enderece a carta à Companhia das índias Ocidentais.

ESCRIVÃO. Já está endereçada, Alteza...

NASSAU (Para o CONSULTOR) Pois se eu mal cheguei e já reconquistei Porto Calvo! E desci até Penedo, onde construímos aquele forte... o Forte... qual foi mesmo o nome que você sugeriu, escrivão?

ESCRIVÃO. Forte Maurícia, Alteza.

NASSAU. É, Forte Maurícia... Bastava cruzar o rio São Francisco, descer um pouco mais e dominar a Bahia, não é simples?

CONSULTOR. Sim, Alteza.

NASSAU. Não! Não é simples coisa nenhuma. Esses danados desses portugueses podem ser burros, mas não têm nada de covardes... Os tempos mudaram. Já não se pode apenas chegar, comprar, transportar e revender... Agora é preciso também controlar a produção... Colonizar! É preciso colonizar... Escrivão! Onde diabo se meteu o escrivão?

ESCRIVÃO. Aqui, Alteza, com a carta endereçada à companhia das índias Ocidentais.

NASSAU. Não é nada disso. Quero escrever diretamente ao Conselho de Estado... (Para o CONSULTOR) Colonos... Entendeu bem. Precisamos de colonos!

ESCRIVÃO. Colonos...

NASSAU. Peço ao Conselho de Estado Holandês que me mande os refugiados de guerra alemães que, desterrados e bens confiscados, se acolhem na Holanda... (Interrompe-se para admirar a tela de um pintor) Que é isso, jovem?

PINTOR. É um quadro futurista, meu Príncipe. Retrata a futura Ponte Maurícia...

79

NASSAU. Ponte Maurícia? Quem foi que deu esse nome à

ponte?

PINTOR. Fui eu, Alteza. Achei que soava bem... NASSAU. Original...



ESCRIVÃO. Original...

NASSAU. Solicito, pois, que se abram todas as prisões de

Amsterdã e se mandem para cá os galés, para que, revolvendo a terra com a enxada, lavem com suor honesto a anterior infâmia e não se tornem molestes à Holanda, mas úteis.

ESCRIVÃO. ... úteis. Ponto.

NASSAU. Maurício de Nassau, abril de 1638, etcétera e tal...

(Dirigindo-se ao ASTRÔNOMO compenetrado em sua luneta) Vai chover? O ASTRÔNOMO, surpreso, larga a luneta, olha o céu à maneira dos pescadores, estende a mão com a palma para cima.

ASTRÔNOMO. Acho que não, Príncipe... NASSAU. Ótimo. Vamos conquistar a Bahia, e assim todo o norte do país será nosso. Cansei de pedir reforços, cansei de esperar. Temos trinta navios, três mil e seiscentos europeus, dez mil ameríndios... e não vai chover. Atacaaaaaaar!

PAPAGAIO. Oba!

Sobe o hino holandês a todo volume, entrecortado por rojões. Aos poucos o hino vai caindo de rotação, desafinando até parar, dando

lugar apenas aos rojões e, em seguida, ao silêncio. SOUTO e

BÁRBARA, frente a frente, à meia-luz.

BÁRBARA. Olá.

SOUTO (com um sorriso malicioso). Olá.

BÁRBARA. O que... Souto? Sebastião do Souto?

SOUTO. Capitão Souto, por favor.

BÁRBARA. Você aqui no Recife? Ficou maluco?

SOUTO. Maluco da cabeça a prêmio por 1.800 florins, à sua

disposição, se quiser me entregar aos amiguinhos da língua enrolada.

BÁRBARA. Você duvida?

SOUTO. Duvido. Se bem que... pelo visto, lhe seria bem-vinda uma pensãozinha de 1.800 florins...

BÁRBARA. Pois olha que tenho feito de tudo na vida. Mas a alcagüete ainda não cheguei não.

SOUTO. Olha, Bárbara, eu vim aqui... Eu não posso ficar muito tempo...

BÁRBARA. Não pode mesmo. O que é que você está esperando?

SOUTO. Que você venha comigo

BÁRBARA. O quê? (Ri) Acho que não escutei bem.

SOUTO. Eu vim te buscar, Bárbara.

BÁRBARA. Adeus, Sebastião do Souto.

SOUTO. Bárbara, de três anos pra cá, tudo revirou. Você, a sua raça, o seu coração, não tem mais nada a ver com este mundo aqui. Esse Recife, esses palácios... Essas pontes, esses arcos, esse príncipe, isso tudo é um engano. Nós estamos aí fora nas emboscadas, perdendo sangue, ganhando terreno dia a dia. Na Bahia, você precisava ver. Os holandeses chegaram cheios de pompa, cheios dos hinos e das trompas, e nós ali nos buracos. Quando o tatu saiu da toca, eles fizeram meia-volta e estão correndo até hoje. Eu comandei um destacamento, você precisava estar lá pra ver...

BÁRBARA. Então você está de parabéns, Capitão Souto. Vai ganhar tanto engenho quanto o Dias e tanta vida eterna quanto o Camarão.

SOUTO. Sabe, Bárbara, eu lembro sempre daquela nossa conversa, do jeito que você falou tanto das idéias de Calabar... Perdão, eu já posso falar Calabar?

BÁRBARA. Na tua boca, é um nome feio...

SOUTO. Pois hoje eu sou uma outra pessoa.

BÁRBARA. Não diga. Em que fase você está agora?

SOUTO. Lógico, você não precisa me levar a sério. Eu conti-
81
nuo sendo uma pessoa provisória. Mas essa pessoa recentemente resolveu pensar um pouco.

BÁRBARA. Pensar? Você?

SOUTO. E agora eu vejo que o teu Calabar foi um homem e tanto. O azar é que ele não adivinhou onde é que ia parar a merda do sonho dele, coitado...

BÁRBARA. Já chega, rapaz.

SOUTO. Coitado mesmo. Eu lembro que quando ele entrava nesse sertão, o sertão virava de cabeça pra baixo. Os padres trancavam as igrejas, as donzelas cobriam o rosto e os usineiros portugueses gritavam ”ai, Jesus”. Afinal, era Calabar, o demônio em pessoa, o demônio sarará. Um brasileiro, porra, um nativo! Um brasileiro guiando o exército da Holanda, que era um país muito distante, habitado só por pecadores, e onde — diziam — vigorava a justiça do homem. Segundo essa justiça — diziam — o homem valia pelo seu trabalho e não por capricho dos deuses, do rei, do Papa. Pois bem, Calabar morreu e o holandês se instalou aqui. Mas essa tal justiça, o holandês esqueceu numa prateleira lá em cima do Equador. Trouxeram um príncipe que, infelizmente, com esse sol de Pernambuco na tampa da cabeça, variou de vez. E agora, adivinha quem está lá no banquete do príncipe? O padre, a donzela e o usineiro português.

BÁRBARA. Muito interessante essa tua fase revolucionária, Souto. Quer dizer que você e seus comandantes vêm aí para libertar meu povo? Assim sendo, fico calada. Só acho uma pena que agora há pouco estava aqui uma pessoa que poderia discordar de você. Essa pessoa talvez desconfiasse dessa tua fala bonita. Mas essa pessoa, você e seus comandantes enforcaram.

SOUTO. Coitado do Calabar... É, ele não podia adivinhar o que seria feito da sua gente. Ele não imaginou que fim iria levar sua própria mulher. Ela arrebentada, jogada pelos cantos, parecendo uma puta...
82
BÁRBARA. Parecendo uma puta, não! Puta! Mas não te invejo não, seu verme! Não sou capacho de galego, não! Não sou escrava de ninguém! Larga o meu braço! Você está me machucando!

SOUTO. Bárbara...

BÁRBARA. Sai, dá o fora, me deixa em paz! (Ajeita o cabelo) Eu estou de serviço e você tá me empatando...

SOUTO (Tentando acariciá-la). Tem encontro com holandês, é? Que luxo! E o que é que holandês te faz de bom, hein? Holandês te leva pra passear no Jardim Botânico, é?

BÁRBARA. Vai, Souto, vai...

SOUTO. Vamos, Bárbara. O teu mundo é aquele Já, lembra? É um mundo sujo, triste, feio, mas é o teu mundo, lembra? Deitada no mato, os canaviais crepitando, o suor no sovaco, as picadas de muriçoca... Você já deve estar sentindo falta, não tá, não?



Introdução musical para Você vai me seguir.

BÁRBARA (Às gargalhadas). Verme! Capacho de galego! Puxa-saco de espanhol! Vaquinha de presépio!

SOUTO canta Você vai me seguir: Você vai me seguir Aonde quer que eu vá. Você vai me servir, Você vai se abaixar. Você vai resistir, Mas vai se acostumar. Você vai me agredir, Você vai me adorar, Você vem me pedir, Você vai se gastar. E vem me seduzir Me possuir, me infernizar. Você vai me trair, Você vem me beijar,
83
Você vai me cegar

E eu vou consentir.

Você vai conseguir

Enfim me apunhalar.

Você vai me velar,

Chorar, vai me cobrir

E me ninar, me nina, me nina, menina.

Terminada a canção, SOUTO agarra BÁRBARA para beijá-la.

BÁRBARA. Muito bem, homem, são dois florins.

SOUTO. Dois florins, o quê?

BÁRBARA. São dois florins e o teu turno já está acabando.

SOUTO. Deixa de bobagem, Bárbara...

BÁRBARA. Bobagem? É o meu sustento, porra! Dois florins na mão, deita comigo e trabalha rapidinho, por favor. (Começa a se despir mecanicamente)

SOUTO. Bárbara...

BÁRBARA (Gritando, autoritária). É já! É já! Dois florins!



(Assustado, SOUTO dá-lhe o dinheiro e BÁRBARA, imediatamente, deita-se no chão, abre as pernas e começa a gemer.)

Ai, meu bem, que coisa boa! Vem com a tua neguinha, vem.

Ai, não, amor, assim você me faz dodói.

SOUTO. (Perplexo, parado de pé.) Bárbara...

BÁRBARA (Esperneando). Oh, queridinho, como você é ardente, tão musculoso, acho que você é a paixão da minha vida! Ai, danadinho, o que é isso que você tá fazendo? Ai, que bom, que bom, que bom, que bom e que bom.

SOUTO (Sempre de pé). Olha, Bárbara, vou te contar. É importante... Pela primeira vez na vida eu tenho um motivo muito forte. Ouviu? Eu tenho um motivo muito forte pra te levar comigo...

BÁRBARA. Vai me tirar da vida, vai? Ah, meu coronel! Mas vê se goza logo, tá benzinho?

SOUTO. É o seguinte, Bárbara. Eu tenho quarenta soldados dispostos a tocar fogo nesse Pernambuco. Não vai sobrar um pé de cana pra contar a história. Só que... Acontece


84

que nós estamos avançando numa área que... Enfim, por onde Calabar foi, nós estamos voltando. Por umas várzeas onde ele andou muito... E você com ele. Quer dizer, você conhece aquilo melhor do que eu, melhor do que todos nós...

BÁRBARA (Levantando-se e recompondo-se num salto). Agora chega! Eu já fiz minha parte e o teu tempo esgotou.

SOUTO. Bárbara, nós precisamos de você. E você... você também precisa. Você não pode ficar entrevada aqui desse jeito, você não tem o direito de se estragar assim. Se é pra ficar com os holandeses, se é isso o que você acha que Calabar queria, então pelo menos cobre o que você merece. Dois florins... Tinha que estar morando num castelo todo seu, em Amsterdã ou no raio que a parta!

BÁRBARA. ”Você vai me seguir, você vai me seguir...” Você devia era ter dito logo pra que é que me queria. Não perdia o meu tempo e talvez eu nem lhe cobrasse os dois florins.

SOUTO. Olha... (Pausa) É claro que não era só por isso... Eu queria que você viesse comigo, Bárbara, porque você é uma mulher forte, uma companheira... uma mulher muito bonita, muito bonita, mesmo...

BÁRBARA. Podre. Toda arrebentada e jogada pelos cantos.

SOUTO. Eu estava brincando, Bárbara. Eu estava com raiva.

BÁRBARA. Teu tempo acabou, Sebastião do Souto.

SOUTO. Mais dois florins. (Põe-lhe o dinheiro na mão e abraça-a) Tenho direito a outra. Nessa eu estava distraído...

BÁRBARA. Acabou. Souto. Leva o teu dinheiro.

SOUTO. Shhh, nada disso. Profissional, certo? Profissional...

BÁRBARA (Desabotoando-se, enfastiada). No fundo, você só está pensando nele. Deve ser um remorso desgraçado, pra pensar nele o dia inteiro, depois de tanto tempo...

SOUTO (Beijando-a). Eu tenho sonhado muito com você.


85

BÁRBARA. Nem deve dormir, de tanto que pensa nele. Porque

sempre teve paixão por ele. Se pudesse, dormia com ele...

Depois deu aquela inveja, aquele ódio, e agora... SOUTO. Eu te desejo, Bárbara. BÁRBARA. Eu não te desejo, Sebastião do Souto. SOUTO. Fica quieta, Bárbara. Fecha os olhos. Pensa nele,

Bárbara, pensa nele. Se quiser, pode gritar pelo nome dele... BÁRBARA. Não adianta, Souto. Calabar, não sei... Ele tinha

uma luz que você nunca vai ter. SOUTO. Mulher não segue homem por causa de luz porra nenhuma. A mulher segue o homem é pelo cheiro. BÁRBARA. Sabe duma coisa, Sebastião do Souto? Você pode rastejar no mangue que um dia ele pisou. Você pode se

esfregar com o estrume da terra que ele pisou. Você pode

até usar a farda que um dia ele lhe emprestou. Mas eu

não reconheço em você o cheiro de Calabar. BÁRBARA canta Tira as mãos de mim:

Ele era mil

Tu és nenhum

Na guerra és vil

Na cama és mocho.

Tira as mãos de mim

Põe as mãos em mim

E vê se o fogo dele

Guardado em mim

Te incendeia um pouco.

Éramos nós

Estreitos nós

Enquanto tu

És laço frouxo.

Tira as mãos de mim

Põe as mãos em mim

E vê se a febre dele

86

Guardada em mim


Te contagia um pouco.

Black-OUt. LUZ no FREI. Uma grande mesa serve para pousar os

paramentos, o Evangelho e o cálice. Os MORADORES acompanham

a cerimônia.

FREI. Ouvi. Ouvi. Ouvi e estai atentos. Real, Real, por o Senhor Dom João IV, rei de Portugal.

MORADORES. Real, Real, Real viva Dom João IV, rei de Portugal.

FREI. Meus irmãos. Agradeçamos mais uma vez à Divina Providência, pois foi por sua intercessão que se restaurou o trono de Portugal. Oremus. Finalmente, após 60 anos de jugo espanhol, Portugal é novamente um país soberano. Deo Grafias.



MORADORES. Amém

FREI ergue o cálice e murmura uma oração incompreensível . NASSAU interrompe a cerimônia, aproxima do vaso sagrado uma taça de vinho.
NASSAU. (Eufórico). Brindemos juntos à Restauração. Viva Dom João IV, rei de Portugal.

FREI(sem jeito, com seu cálice sagrado). Viva... Dom João IV rei de Portugal.

MORADORES (Indecisos). Viva... Amém... NASSAU. Mais forte, vamos! Viva Dom João IV, rei de Portugal!

MORADORES. Viva!

NASSAU. Bebamos todos! Este é um brinde comum a todos nós, holandeses, portugueses e gente da terra. Entram holandeses com garrafas de vinho que vão sendo distribuídas entre os MORADORES.

FREI (encabulado e assustado com a balbúrdia que se inicia).É que... alteza, estávamos celebrando a Santa Missa. De ação de graças, mas santa.

NASSAU. Oh, perdão, Frei.(Para os MORADORES )Não consi-


87

derem minha presença nesta cerimônia católica romana como uma intromissão profana, mas sim como uma comunhão com todos os moradores do Brasil. (Serve-se de vinho) Viva Dom João IV, rei de Portugal!

MORADORES. Viva!

Os holandeses descobrem as cabeças, levantam-se e viram seus



copos de vinho num só gole. Os MORADORES, que bebem vinho no

gargalo, observam esse ritual com curiosidade e acham graça.

Alguns, mais à vontade, aproximam-se e sentam-se à mesa

com os holandeses.

NASSAU. A guerra entre Portugal e Holanda, na verdade, nunca existiu. Durante todos estes longos anos de desentendimento, tivemos um inimigo comum: a ávida Castela dos Felipes, que não contente em dominar Portugal e explorar em proveito próprio a imensa riqueza dos seus territórios ultramarinos, pretendia usurpar o trono da Holanda para saciar os seus desígnios expansionistas. com essa finalidade, forjou entre nós esta absurda guerra colonial. Mas a recém-Independência de Portugal vem marcar o princípio de uma nova era. Os holandeses repetem seu ritual de virar os copos, no que são



imitados por alguns moradores. Ao fundo, ANNA ri, bebe muito e obriga BÁRBARA a beber.

NASSAU. A trégua entre Portugal e a Holanda acaba de ser assinada na metrópole. Assim, aqueles que por um falso conceito de patriotismo, confundindo os interesses portugueses com os de Espanha, ainda não tinham aceitado a paz holandesa no Brasil — devastando plantações e engenhos, numa inglória luta de emboscadas —, perdem definitivamente o direito e a motivação para continuar esta guerra, sem outro sentido que o de prejudicar o objetivo comum: o de um Brasil rico e próspero, com lugar para todos nós. Viva Dom João IV, legítimo rei de Portugal!

TODOS. Viva!

88
UM HOLANDÊS. Viva o Príncipe Maurício de Nassau!

TODOS. Viva!

FREI. A paz está oficialmente selada entre as nossas nações. Que Deus, Todo-Poderoso, seja louvado em sua imensa sabedoria.

Todos se levantam, entornam e sentam-se, muitos visivelmente alcoolizados.

NASSAU. Pretendo festejar esta data com acontecimentos que ligarão a noite com o dia e jamais se perderão na memória do povo. Ao povo, todos os licores e manjares que o fígado permitir! E teatros, quadrilhas, cavalhadas. Finalmente, prometo nestes dias de festa inaugurar a tão ansiada ponte que unirá o Recife a Cidade Maurícia... Grande algazarra, gargalhadas, interrompendo NASSAU.

NASSAU. O que há?

FREI (Contendo o riso). Perdoe, Alteza, é brincadeira do povo. Eles não têm muita fé nessa ponte... Dizem que é mais fácil um boi voar...

NASSAU. Ah, sim? Um boi voar? Ha, ha, ha! Pois terão as duas coisas: a Ponte e o Boi! Viva Dom João IV, rei de Portugal!

Todos levantam-se, bebem. A orgia prossegue. NASSAU afasta-se em direção à ponte e dá ordens ao ENGENHEIRO.

NASSAU. Vão concluir esta maldita ponte e é pra já. com dinheiro do meu bolso! (Para o CONSULTOR) Como é?

CONSULTOR. Bem, Alteza, a trégua entre Portugal e Holanda já foi assinada, mas só entrou em vigor para a metrópole. As colônias devem esperar pela ratificação.

NASSAU. Quanto tempo?

CONSULTOR. Alguns meses... O que nos dá o tempo necessário para que certas medidas possam ser tomadas.

NASSAU. Fale.

CONSULTOR. Não quero ser indelicado. Mas a Companhia está se ressentindo de algumas atitudes de sua Alteza.

89
Tanto no plano político como no administrativo. Seria este o momento ideal para pescar em águas turvas e clarear a sua posição.

NASSAU. Você está sugerindo...

CONSULTOR. Que as nossas autoridades veriam com bons olhos algumas conquistas aos portugueses, enquanto é tempo.

NASSAU. Muito bem. Enquanto não ratificam o tratado, estamos oficialmente em estado de guerra aqui. Envie imediatamente forças para dominar o Maranhão, Sergipe e Chile... De posse do Chile, conquistaremos mi Buenos Ayres querido, de onde podemos avançar incontinenti sobre as minas de prata da Bolívia. Será o início da conquista da América espanhola.

CONSULTOR. Maravilhoso! com sua permissão...

Vai par a sair...

NASSAU. Espere. Mande também uma armada para a Angola portuguesa. Necessitamos de mais escravos.

CONSULTOR. Para as plantações.

NASSAU. E para ampliar a Cidade Maurícia. Novas pontes...

CONSULTOR. Príncipe... Essas pontes não são rentáveis para a Holanda.

NASSAU. Faça o que eu lhe disse. Por enquanto, ainda sou eu quem manda. Estou pronto pra tudo, mas quero gravar a meu modo o meu nome na história: Maurício de Nassau- Siegen, conquistador e humanista. Fifty, fifty!



O CONSULTOR sai. NASSAU dirige-se para a ponte.

NASSAU. Está pronta?

ENGENHEIRO. Provisoriamente, Alteza. Não está lá essas coisas... faltou pedra. Emendamos umas ”taubas”...

NASSAU. Mas já dá para atravessar?

ENGENHEIRO. Sim, Alteza.

NASSAU. Então, é ponte. Espera. Grava a divisa de Maurício de Nassau na pedra da cabeceira com as palavras ”Qua patet orbis”, vasta como o universo. Gostou, Oba?




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal