Chico Buarque e Ruy Guerra



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PAPAGAIO. Oba!

Os MORADORES se aproximam da ponte, desconfiados,

entusiasmados ou simplesmente bêbados.

NASSAU. Moradores do Recife, preparai os olhos para dois espetáculos impossíveis. A ponte que os leva a Maurícia e o boi que voa.

MORADORES. Viva o flamengo!

Súbito a orquestra ataca a marchinha Boi voador não pode. Surge

um imenso boi sobrevoando o palco e a platéia. Os MORADORES e

os holandeses, espantados e maravilhados, correm, pulam,

riem, bebem, dançam e cantam.

NASSAU e coro (cantando): Quem foi que foi Que falou no boi voador? Manda prender esse boi, Seja esse boi o que for. (bis) O boi ainda dá bode. Qualé a do boi que revoa? Boi realmente não pode Voar à toa. É fora, é fora, é fora, É fora da lei, Tá fora do ar, É fora, é fora, é fora, Segura esse boi. Proibido voar.

CONSULTOR. Alteza. Devo insistir que lá na metrópole se comenta muito essa ponte... NASSAU. Ouviste, ponte? Já representas a imagem do Brasil

no exterior!

CONSULTOR. Imagem discutível, Príncipe. A obra já superou duas vezes o orçamento, sem contar que, em acidentes de trabalho, já morreram cinco vezes mais operários do que o previsto. A Companhia está melindrada, Alteza, sobre-
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tudo porque não foi sequer consultada para essa construção.

NASSAU. Mas olhe bem e diga. É ponte para calvinista nenhum botar defeito.

FREI. Ah, isso eu não sei...

NASSAU. Frei Manoel! Não se esqueça de que continuo calvinista convicto.

CONSULTOR. Talvez não o suficiente.

NASSAU. Como disse?

CONSULTOR. Pelo menos há na Holanda calvinistas bem mais ferrenhos que não vêem com bons olhos certas liberalidades que andam acontecendo por aqui... (Para o FREI) Certas intimidades...

FREI. O povo desta terra é católico romano e mui sábio e o Príncipe Maurício em permitir que se lhes pregue o Evangelho.

CONSULTOR. Mas em Amsterdã há quem encare qualquer tolerância com o Papado como um conchavo com a Grande Meretriz da Babilônia.

FREI. Senhor!

NASSAU. E que mais dizem?

CONSULTOR. Tantas outras coisas. Souberam com escândalo que aqui se dá liberdade aos judeus como em nenhuma outra parte do mundo. E que, aproveitando-se disso, os cristãos-novos que fugiram da Inquisição na Europa, aqui se circuncidam em praça pública, ufanando-se de se declararem novamente judeus.

FREI. Isso é realmente deplorável.

CONSULTOR. Estranho que um português deplore isso. Dizem os espanhóis que o português nasceu da ventosidade de um judeu.

FREI. Ventosidade?

CONSULTOR. Peido!

NASSAU. Um momento! Não se esqueça que o Frei Manoel é hóspede meu.

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CONSULTOR. Comenta-se também o fracasso da expedição à Bahia...

NASSAU. Bonito... Queriam que eu conquistasse a Bahia com o quê?... Meia dúzia de barcos metendo água, uns índios bêbados, mercenários com o soldo atrasado e mosquetes enferrujados?... É muito fácil criticar, comodamente instalado numa poltrona, de barriga cheia, arrotando a arenque e bebendo genebra... Não, eu fiz o que devia ser feito. Adiei a trégua tanto quanto nos foi útil. Agora as fronteiras brasileiras estão traçadas e a paz é nossa aliada. Mas espera um pouco... Afinal de contas, você está aqui ou lá?

CONSULTOR. Um pé em cada continente. O que me deixa numa posição delicada... vulnerável.

NASSAU. Pois ponha de vez os pés neste chão e veja o que estamos realizando, mesmo sem auxílio de lá. As novas ruas, os arcos do Recife, o Jardim Botânico... A companhia não sabe que efetuamos, com sucesso, pela primeira vez na História, um transplante de coqueiro. Sabe?

CONSULTOR. Não, senhor. E não lhe interessa.

NASSAU. Como também não lhe interessa saber que, por falta de víveres, até os ratos morrem de fome nos nossos armazéns. Mas não importa. Diga ao Conselho de Estado que o céu aqui é diferente. Não tem a estrela Polar, mas nosso observatório já se familiarizou com uma cruz de cinco estrelas que lá não tem... Escrivão! Não diga à Companhia das índias que ela se esqueceu da remessa e que estamos há três meses sem comer carne. Diga apenas que Maurício de Nassau introduziu a cultura do fumo, da mandioca e de outras plantas que não adianta citar porque eles não conhecem mesmo. Diga que há algo mais do que cana para se colher. Escrivão! Diga à Companhia das índias Ocidentais que a monocultura é um atraso de vida!
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ESCRIVÃO. Sim, senhor.

NASSAU. Que mais? Conte que o povo de Pernambuco, que tem em Santo Antônio o seu santo de maior devoção, já estima tanto seu príncipe que Maurício de Nassau é conhecido vulgarmente como Príncipe Santo Antônio! Não, é melhor não dizer isso.

ESCRIVÃO. Não.

CONSULTOR. Melhor não.

NASSAU. Mas diga que a cada dia nasce uma nova obra de arte, decifra-se o mistério de uma ciência, descobre-se algo...

MÉDICO (Entrando, às pressas). Alteza! Alteza!

NASSAU. O que foi que descobriste hoje, doutor?

MÉDICO. A cura da gonorréia.

CONSULTOR. Ah, isso é magnífico.

NASSAU. Gostou, hein? Não lhe disse? (Para o MÉDICO Qual é a fórmula?)

MÉDICO. Simples, meu Príncipe. Mastigando-se freqüentemente a cana e engolindo-se o suco, sem nenhum outro medicamento, fica-se curado em oito dias.

CONSULTOR toma um maço de cana das mãos do MÉDICO, NASSAU toma outro, põem na boca e começam a mastigar. O MÉDICO oferece ao FREI que, discreta e maliciosamente, recusa.

NASSAU (Mastigando). Notável... Que seria de nós sem a cana-de-açúcar?

CONSULTOR (Mastigando). Príncipe, sem querer ser desmancha-prazeres, devo lembrar-lhe que sua administração está altamente deficitária...

NASSAU (Mastigando). Nunca se produziu tanto em Pernambuco como agora. É por acaso culpa minha se o açúcar francês e inglês das Antilhas fez cair as cotações da Bolsa?

CONSULTOR (Mastigando). Os dividendos da Companhia estão baixando a olhos vistos. Isso gera descontentamentos perigosos na Holanda...

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NASSAU (Mastigando). E você sugere...

CONSULTOR. Que se recuperem os investimentos e os empréstimos concedidos aos senhores de engenho.

NASSAU. Mas eles estão pagando juros sobre juros. Estão endividados até a alma.

FREI. Isso é muito grave.

CONSULTOR. Não há alternativas, Príncipe. Quem não puder pagar suas dívidas será devidamente desapropriado pela Companhia das índias Ocidentais.

FREI. O que pode acontecer é os senhores de engenho, portugueses, que até hoje têm sido simpáticos à Holanda, pegarem em armas contra nós.

CONSULTOR. Príncipe, em tempos de crise, não há como contentar colonizados e colonizadores. Portanto, as hipotecas devem ser executadas e os bens confiscados.

NASSAU. Amém, digo, allea jacta est.

Black-out. SOUTO bate na porta de BÁRBARA.

SOUTO. Bárbara... Bárbara! Abre essa porta, Bárbara...

BÁRBARA (Entreabrindo a porta). Sebastião...

SOUTO. Você... está sozinha?

BÁRBARA. Eu estava dormindo... Entra.

SOUTO. É só por um dia... Amanhã à noite eu sigo viagem.

BÁRBARA. Você não pode parar quieto um tantinho? Vai seguir viagem para onde?

SOUTO. Não sei, ainda não sei, amanhã penso nisso... Eu estou cansado...

BÁRBARA. Vamos, deita aí... Tira as botas... Sabe, fica até ridículo... Não é carnaval, nem nada, e você aqui no Recife vestido de expedicionário... (Ri)

SOUTO. Não faz barulho, mulher... Assim você acorda todo mundo!

BÁRBARA. Chega de cena, Sebastião! A guerra acabou, Sebastião! SOUTO. Acabou, é? Sei. E, de repente, inventaram a paz.
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Uma pombinha branca e virgem num céu de veludo. Eu esgano essa pomba! Eu trucido ela! A minha guerra não acabou porra nenhuma!

SOUTO. E qual é a guerra que tem sentido? A de Calabar, você vai dizer... Não, não diga não, que eu não agüento mais. Calabar servia ao holandês, por isso foi enforcado pelo português. Eu servi ao português, por isso sou caçado pelo holandês. Agora que os exércitos holandês e português estão de mãos dadas e casamento marcado, como é que nós ficamos, hein? Ficamos mal com todos, seremos sempre malditos. Olha, se Calabar estivesse vivo, marcharia comigo, não sei pra onde, mas marcharia. Formaria comigo o exército dos trouxas, o exército dos traídos, o exército dos cornos de guerra. E gritaria comigo: a paz é falsa!

BÁRBARA. Por mais que se esforce, você ainda não compreendeu o Calabar. Calabar não marcharia contigo, Sebastião, porque ele dava um sentido à guerra. Calabar lutava pra vencer, entende? Você gosta de caminhar para a morte.

SOUTO. Mas então me diga o que é que eu faço, Bárbara. O que é que Calabar faria no meu lugar, hein? Eu estou sem comando. Ordens superiores me negaram munição e me levaram meus quarenta soldados. com tanto canavial pedindo para pegar fogo... E sabe por que, Bárbara? Não é por causa da paz, não senhora. É porque os senhores desses canaviais, os fidalgos portugueses que estavam tão bem com a Holanda e a Companhia do Caralho, esses fidalgos estão endividados e voltaram a se alinhar com os portugueses. E já começaram a conspirar, junto com o exército português. E, assim que a metrópole der o sinal, recomeça tudo outra vez, a guerra deles. Aí voltarão a cavalo os nossos heróis, os nossos patriotas, pra devolver a nossa Pátria aos velhos proprietários dela. Então, me diga o que é que eu faço, Bárbara.


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BÁRBARA. Você toma esse café bem doce que eu acabei de preparar. Você relaxa, dorme e amanhã as idéias vão estar mais claras.

SOUTO. Eu não vejo como as idéias possam ficar mais claras.

BÁRBARA. Eu também não. Mas quando a gente não vê saída pra uma situação, não adianta bater com a cabeça na parede. É melhor esperar. E, enquanto espera, a gente pode pensar noutras coisas. Pensar em sair daqui, mudar de nome, arranjar um emprego, encontrar uma casa...

SOUTO. Imagina eu, numa casa caiada de branco, um carneirinho pintado na porta, e aquela pombinha flutuando... aquela pomba filha da puta, eu estupro aquela pomba!

BÁRBARA. Quieto, relaxa, recosta a cabeça... Deixa eu tirar isso aqui, que vai te incomodar... (Afasta o fuzil)

SOUTO (Levantando-se, num pulo). Me dá a minha arma, mulher, passa aqui o meu fuzil!

BÁRBARA. Sebastião...

SOUTO (Saltando sobre ela). Me dá isso aqui, porra! (Apanha o fuzil com violência)

BÁRBARA. Sebastião, o que é que você tem?

SOUTO. Eu ouvi barulho... Tem gente aqui...

BÁRBARA. Não tem ninguém, menino, sossega...

SOUTO. Você fez muito barulho... Você fez de propósito..

BÁRBARA (Tentando tocá-lo). Sebastião, vem cá, vem...

SOUTO. Não encosta, mulher! O que é que você quer, hein? BÁRBARA. Eu? O que é que eu quero? Nada, não quero mais nada... SOUTO. Você tá vá me enredando... Eu sei que você tá vá me enredando...

BARBARA. Te enredando como, Sebastião? O que é isso? SOUTO. Aquela conversa... Aquela conversa estranha... BÁRBARA. Você não entendeu nada, cretino. Era amor o que

eu estava te propondo, ouviu? SOUTO. Não podia haver proposta mais sórdida... E talvez



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até você tenha uma carta de algum comandante amigo seu... Um cliente... Uma anistia, quem sabe...

BÁRBARA. Eu não tenho nada...

SOUTO. Besteira, é lógico que não. Eu continuo atravessado na garganta deles. Podem perdoar os comandantes, os reis podem se dar o rabo, mas Sebastião do Souto, esse não, esse nome eles não vão engolir jamais.

BÁRBARA. Escuta, homem, você está se valorizando além da conta. Estou te dizendo que a guerra acabou. Despe essa fantasia, vende o teu fuzil e vai ficando por aí mesmo que ninguém vai te incomodar.

SOUTO. Agora eu começo a te entender, Bárbara. Abrindo as pernas pra mim, dizendo que me ama, pedindo pra eu voltar sempre, pra ficar mais um pouco, você está é me atraindo para uma cilada...

BÁRBARA. Não seja idiota, Sebastião.

SOUTO. É pra vingar o falecido? Ou pelos 1.800 florins, sua puta?

BÁRBARA. Você está doente.

SOUTO. É claro, claríssimo, desde o começo fazendo o jogo deles. Onde é que eles estão? Responde! Onde é que estão os teus amigos? Ei, flamengos de merda, aqui estou eu, Sebastião do Souto, aquele com a cabeça a prêmio por 1.800 florins!

BÁRBARA. Se você quer se matar, que se mate! Mas vá se matar lá fora!

SOUTO. Sou ele mesmo, o Capitão Souto! Ele mesmo, o incendiário! Ele mesmo, o terrorista !

BÁRBARA. Agora basta, Sebastião, pelo amor de Deus!

SOUTO. Sou ele mesmo, o Capitão Sebastião do Souto! O que é que há, estão com medo? Eu sei que vocês estão aí! (Vão aparecendo alguns soldados holandeses) Sou ele mesmo aquele que matou Calabar! Sou aquele que tem os culhões de Calabar! Sou aquele que tem o tesão de Calabar!


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BÁRBARA. Sebastião, cuidado! SOUTO (Rindo). Cuidado? Eu?

SOUTO leva um tiro mas não cai. SOUTO. Ah, cães holandeses... A todos vós hei de tirar as vidas, porque eu sou o Capitão Souto, que tantas vezes vos tenho feito fugir em Pernambuco e Bahia...



Leva outro tiro e cai atirando. SOUTO. Aqui eu fico. Mas se além disso fazeis questão de

saber qual é a minha pátria, ficai sabendo que não nasci

na ilha natante de Delos, como Apoio, nem na espuma

do agitado oceano, como Vênus. Não. Eu nasci mesmo

foi na Baía da Traição, Paraíba, onde a natureza não tem

necessidade alguma da arte... E se morro sem poder trair

no meu último instante, ainda assim não me desmereço, e

morro me traindo, porque morro dizendo que te amo,

Bárbara. (Morre)

BÁRBARA canta Fortaleza:

A minha tristeza não é feita de angústias.

A minha tristeza não é feita de angústias,

A minha surpresa,

A minha surpresa só é feita de fatos,

De sangue nos olhos e lama nos sapatos.

Minha fortaleza,

Minha fortaleza é de um silêncio infame,

Bastando a si mesma, retendo o derrame

A minha represa.

ANNA aproxima-se de BÁRBARA, abre uma cesta e começa



a paramentá-la. ANNA. Olha que pano bonito... Não. Este aqui vai melhor

com a tua pele... Ou este aqui... Não sei, o que é que

você acha?

BÁRBARA. Tanto faz... ANNA. Como, tanto faz? Olha, fica com o vermelho. É mais

alegre.
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BÁRBARA. É?

ANNA. Você não está dando atenção... Esses cabelos, você tem que puxá-los para trás. Não tem por que esconder um rostinho tão bem-feito...

BÁRBARA. Pinta o meu rosto, Anna.

ANNA. Você vai ficar linda, mulher. Você é moça ainda, tem tudo para ser feliz, ganhar muito dinheiro, viajar, arranjar um casamento, ganhar mais dinheiro ainda... Me empresta algum... Puxa, que carranca a tua! Tá bem, então não precisa me emprestar nada... (Pausa) Depois você fica viúva, arranja um casamento melhor ainda, vira marquesa... Deixa eu experimentar esse carmim... Mulher, você vai ficar linda mesmo. Eu vou te levar pró outro lado da cidade, naquelas luzes...

BÁRBARA. ... Eu me sinto muito só, Anna. Agora que Sebastião morreu, então, é como se Calabar nunca tivesse existido... Mas estou aliviada... Você conheceu Calabar?

ANNA. Eu? Só de ouvir você falar...

BÁRBARA. Conhece mais alguém que tenha conhecido Calabar? Não. É claro que não. Pois se Calabar nunca existiu... Pode perguntar por aí... Alguém vai dizer que ouviu falar de alguém, que ouviu falar de alguém, que um dia viu uma alucinada gritando um nome parecido. Então fica provado que Calabar nunca existiu, para descanso de todos. Me pinta mais.

ANNA. Agora você está falando certo, mulher. Porque há uns tempos, vou te contar. Você não dizia coisa com coisa... Só mais um pouco desse pó...

BÁRBARA. Sebastião do Souto... é a mesma coisa. Está ali o defunto, ainda quente, e não se fala mais no assunto.

ANNA.. Amar um homem já dá muito trabalho. Dois, ao mesmo tempo, é de lesar qualquer uma.

BÁRBARA. Eu amo a mesma coisa neles dois. Uma energia furiosa que havia dentro desses homens. Uma energia que

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vai continuar movendo outros homens à morte, à morte, à morte, a quantas mortes forem necessárias.



ANNA. Pois eu não sei pra que uma morte há de ser necessária... Essa gente vai morrendo aí aos montes, faz um barulho danado e ninguém toma conhecimento. Você mesma disse isso.

BÁRBARA. Pois é, às vezes dá vontade de pensar assim também, Anna. Juro que dá vontade de pensar desse seu jeito torto. E pensar de outro modo, dá até um pouco de vergonha...

ANNA. E não é? O que valem os grandes gestos, as grandes palavras, as belas intenções, essas coisas em que a gente não pode nem se roçar...

BÁRBARA. com o tempo, a gente vai sendo acostumada a ter vergonha de muita coisa. Vergonha de acreditar que vale a pena lutar por alguma coisa que preste. Algum veneno vai fazendo a gente desacreditar que, afinal de contas, é bonito ver um homem jogar toda a sua força e todo o seu amor numa luta dessas. Luta pensada ou luta confusa, certa ou errada, um homem morrer por isso, não é bonito?

ANNA. Morte necessária, morte bonita, eu já não sei se existem essas mortes, não.

BÁRBARA. Algum veneno vai fazendo a gente acreditar que não. Fica melhor acreditar que esses homens morreram porque eram desprezíveis. Ou eram uns desajustados, uns loucos, uns idiotas, melhor esquecer que esses homens existiram. Me dá um gole dessa bebida aí. (Bebe)

ANNA. vou fazer uma sombra aqui debaixo dos olhos. Dá assim um ar de mistério.

BÁRBARA. E o coração continua dizendo que é bonito. Porra, como é bonito uma pessoa ainda nova largando tudo, abrindo o peito... E o meu caminho seria o mesmo caminho escuro que engoliu Calabar e Sebastião. Eu falo isso, me ouço falar e acho que soa bem... Mas tenho medo,


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Anna. A verdade é que eu não sou mais nada, me sugaram tudo, eu não quero mais essas mortes tão perto de mim. Me dá outro gole... horrível dizer isso, Anna, mas eu quero viver...

ANNA. Claro, Bárbara. Levanta o rosto, deixa eu ver. Acho que agora você está pronta.

BÁRBARA. Não, me pinta mais.

ANNA. Não precisa, Bárbara. Olha aqui no espelho como você está linda...

BÁRBARA. Não, espera, eu continuo tão pálida... Me passa aqui essas tintas que eu vou te mostrar (Começa a se pintar desordenadamente) Me passa a garrafa...

ANNA. Cuidado com as tintas, Bárbara... Vai ficar exagerado.

BÁRBARA. Ninguém vai me ver assim abatida. É isso o que eles querem. Eu não vou deixar eles me verem assim arrasada...

ANNA. Já está bom, mulher. Vamos...

BÁRBARA. Eu vou contigo, Anna, deixa eu terminar... Quero ficar bonita igual a você. com cara de festa...

ANNA. Não adianta, você não vai conseguir. Não há pintura que te faça igual a mim. Teus olhos... Olha aí, teus olhos ainda são capazes de se assustar com alguma coisa. A tua boca ainda arranja um jeito de dizer uma verdade. Olha os meus olhos, a minha boca... Teu rosto... Olha só o que você fez com o teu rosto, mulher, você borrou tudo... (Começa a rir)... Estragou todo o meu trabalho... (Sempre rindo) ...Você não tem jeito, Bárbara, você... (Segura o rosto dela e fica séria) ...Mesmo assim você está linda. E eu te quero muito, mulher!

ANNA e BÁRBARA cantam Anna e Bárbara.

ANNA. Bárbara, Bárbara, Nunca é tarde, Nunca é demais.


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Onde estou?

Onde estás?

Meu amor

vou te buscar. BÁRBARA. O meu destino é caminhar assim

Desesperada e nua

Sabendo que, no fim da noite,

Serei tua. ANNA. Deixa eu te proteger do mal,

Dos medos e da chuva,

Acumulando de prazeres

Teu leito de viúva. AS DUAS. Bárbara,

Bárbara,

Nunca é tarde,

Nunca é demais.

Onde estou?

Onde estás?

Meu amor


Vem me buscar. ANNA. Vamos ceder à tentação

Das nossas bocas cruas

E mergulhar no poço escuro

De nós duas. BÁRBARA. Eu vou viver agonizando

Uma paixão vadia,

Maravilhosa e transbordante

Feito uma hemorragia. AS DUAS. Bárbara,

Bárbara,


Nunca é tarde,

Nunca é demais.

Onde estou?

Onde estás?



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Meu amor

Vem me buscar.

Bárbara...

BÁRBARA, o FREI, o CONSULTOR e NASSAU são duas cenas simultâneas, uma se imobilizando para dar lugar à outra BÁRBARA. Padre... Padre Manoel do Salvador! FREI. Ele mesmo... BÁRBARA. Tá me reconhecendo ? FREI. Me lembro de a ter visto... BÁRBARA. Por aí... O meu nome. Sabe o meu nome? FREI. Devia?

BÁRBARA. Não. Padre, eu quero me confessar... FREI. Bem, amanhã...

BÁRBARA. Aqui... BÁRBARA. Aqui.

FREI. Olha, moça, você passe amanhã...

BÁRBARA. Espera, Padre, é rápido. Só quero que o senhor me

responda uma coisa. O que é que o senhor, Padre, está fazendo com os holandeses? FREI. Não sei por que lhe havia de responder...

Afasta-se alguns passos. BÁRBARA. Padre! O meu nome é Bárbara. FREI olha-a atentamente. BÁRBARA (Irônica). É, Bárbara... FREI. A Bárbara... BÁRBARA. Essa mesma... Não dá pra reconhecer, né?

FREI tem um gesto evasivo. BÁRBARA. Estou bonita? FREI. Diferente.

BÁRBARA. Acertou. Diferente. E o Padre, está igual? FREI. Sempre o mesmo... e com Deus. BÁRBARA. Padre, eu precisava duma informação... É muito importante pra mim... Como é que o Senhor faz para ser sempre o mesmo, hein? Que diabo de molejo é esse que o
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Senhor arranjou? com os portugueses, depois com os holandeses, com os portugueses, outra vez com os holandeses, mais parece uma mala diplomática...

FREI. Você está bêbada.

BÁRBARA solta uma gargalhada.

BARBARA. E Deus proíbe falar com uma bêbada... É isso, Padre?

FREI. Não, Deus não proíbe, mas o bom senso, sim. Você...

BÁRBARA. Eu sei... estou bêbada. O mundo é perfeito, e eu estou bêbada. E Calabar morto.

FREI. Porque merecia.

BÁRBARA. É... porque acreditava no holandês... E agora o Padre aí com eles pra cima e pra baixo, bem alimentado e em paz com a sua consciência...

FREI. Calabar traiu...

BÁRBARA. Para se ver o traidor é preciso mostrar a coisa traída.

CONSULTOR. (Para NASSAU) Conde... Acabo de receber instruções. E temo que não sejam agradáveis.

NASSAU. Entre medos e coragem, Entre ansiedade e náuseas, Entre fidalgo e corsário...

CONSULTOR. Como?

NASSAU. Nada.

FREI (Para BÁRBARA,), Se você quiser se confessar, estarei aqui amanhã.

BÁRBARA. Não, Padre, não quero. O que eu tenho pra falar é aos homens, não a Deus.

NASSAU. Alguma vez você sentiu que o seu destino é tão grandioso, tão maior que o dos outros homens, tão independente dos teus atos que chega a assustar, ao mesmo tempo que te dá uma intensa sensação de prazer? Alguma vez? E depois os teus gestos se repetem e no seu cotidiano você passa a acreditar nesse destino até o dia em que tudo fica amargamente claro e você descobre que nada


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estava escrito a não ser nas tuas próprias ilusões. Que o caminho que parecia irreversível deu um nó com você lá dentro... Alguma vez?

BÁRBARA. E Calabar?

FREI (Para BÁRBARA). Calabar é um assunto encerrado. Apenas um nome. Um verbete. E quem disser o contrário atenta contra a segurança do Estado e contra as suas razões. Por isso o Estado deve usar do seu poder para o calar. Porque o que importa não é a verdade intrínseca das coisas, mas a maneira como elas vão ser contadas ao povo.

NASSAU. Sabe de uma coisa?... Eu até tinha um certo desprezo por você. Ainda agora nem sempre sei o seu nome... Mas acabo de descobrir que também sou um homem de corredores. De portas que se abrem para novos corredores, de corredores que dão para outras portas. Sempre dentro do palácio.

CONSULTOR. Como interventor da Companhia das índias e dos Estados Gerais, queria anunciar-lhe oficialmente que a sua gestão...

NASSAU. Foi um fracasso.

CONSULTOR. O orçamento...

NASSAU. Estourou.

CONSULTOR. As ações...

NASSAU. Nunca estiveram tão baixas.

CONSULTOR. A expedição ao Chile e a conquista da América espanhola...

NASSAU. Foi um ataque de megalomania.

CONSULTOR. Acusam mesmo Vossa Senhoria...

NASSAU. De botar a mão nos cofres para as minhas obras. E não vou negar.

CONSULTOR. Ou Vossa Senhoria renuncia...

NASSAU. Ou?...

CONSULTOR. Existem precedentes de sanções mais graves. Definitivas.



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