Chico Buarque e Ruy Guerra



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NASSAU. Sei que falhei. Sei também que fui bem-sucedido. Sei que me equilibrei na corda bamba, sorri para todos os lados, disse sim e fiz não, pendurado num vice-versa a que me dava direito a condição de político e comandante. Tudo por causas nobres, imensas, na escala do futuro. Fiz tudo isso com orgulho, sem medo de julgamentos, críticas, porque dentro de mim eu tinha uma meta que nada me impediria de alcançar. E agora constato que, tudo, mesmo aquilo de que ainda me orgulho, pode ser classificado de traição. O resto foram apenas salamaleques. Mas orgulhoso, indiferente ou cético, mesmo assim eu sei do meu fracasso. O mais engraçado, o que me faz rir a bandeiras despregadas, é que nada disso me importa... (Canta, sério) Porque esta terra ainda vai cumprir seu ideal: ainda vai tornar-se um imenso canavial... Iluminação para a festa de adeus. Faixas de saudações dos comerciantes locais, judeus etc. Mulheres vistosas, papagaio,



negros com boinas e telas de pintor renascentista, índios especulando em torno de uma luneta. NASSAU no alto da ponte.

NASSAU. Eu sou Maurício de Nassau, o Brasileiro. E parto levando uma fatia do Brasil dentro das minhas tripas... E daqui em diante, eu falo para a História. Escrivão! Onde diabo se meteu o escrivão?

ESCRIVÃO. Sim, Excelência!

NASSAU. Anote nos autos... Quando pisei estas terras, pisei fofo e pisei firme...

CONSULTOR. É preferível ditar um texto formal.

NASSAU. Tem razão. (Solene) Cheguei, vi, amei e construí. E em poucos anos eu fiz o princípio do futuro.

ESCRIVÃO. Alteza, se me permite expressar o meu sentimento...

CONSULTOR. Silêncio... Escrivão não sente. De agora em diante, neste Brasil, escrivão escreve. Assim como estudante estuda, censor censura, ator atua etc... etc... etc...


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NASSAU. E se mais não me foi dado criar, é porque atrás de um homem de visão há sempre uma batelada de generais, banqueiros e burocratas. Eu sou um homem de armas. E um humanista. E essa combinação é difícil em qualquer século. Porque conquistei, mas não fui implacável no exercício do poder, porque da repressão não fiz a minha última paixão, porque não troquei todos esses horizontes em florins, dizem agora que errei...

Pouco importa!

... Trouxe a esta terra o ferro de uma civilização que não buscava nada mais além de riquezas. E, nesta cruzada maldita, não fui o único. Os meus adversários traziam a mesma ganância, traduzida em outros idiomas, escondida em outras liturgias, disfarçada em outras promessas. Português, espanhol, flamengo, logo mais o inglês, que importa o resultado? Nos seus sorrisos, a mesma goela escancarada sobre o mesmo estômago sem fundo.

A mesma Companhia que me trouxe, me leva. Parto sem rancores, sem ódios, nos meus olhos gravadas estas paisagens, nas narinas estes cheiros adocicados, na língua, enrolada, estas palavras nativas. O meu castigo maior vai ser o de falar para as paredes da Europa, frases que ninguém pode entender. E quando, entre pás de moinhos de vento, quando, no gelo dos invernos, eu disser goiaba, jaboticaba, xavante, dendê, jacarandá, tatu-bola, eu terei mais vivo o sentimento da minha obra e mais cruel e exato o sentimento da minha singularidade.

Adeus, terras brasileiras, onde tanto cobicei, remexi e nada aprendi, além da certeza de que só o homem faz a História do homem. Mas pobre do orador que pretende falar para o futuro, mesmo quando esse futuro dista dele apenas os segundos que o separam do ouvinte atento. A palavra do homem de consciência só pode transformar o passado, mas o passado não tem outra possibilidade de
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transformação, que não seja o de ser contado de modo diferente.

Vai, Maurício. Não foste o primeiro, e o último não serás a pisar com botas estas terras. Só peço que de mim não guardem uma imagem deformada. Sou o que fui e fui grande na mesquinhez dos meus interesses. Nos livros, assim quero e serei lembrado. E assim será, até que outro tipo de história seja vivido e escrito, parido num dia de não sei qual horizonte.

E se vos causa espanto que seja eu, Maurício de Nassau, que assim vos fala, fora da minha nobreza, fora do meu tempo, fora de toda a lógica, procurai arrancar desse espanto a resposta que meus lábios não sabem articular.

Adeus, terras brasílicas. bom dia, um dia, Brasil.



Luz em BÁRBARA.

BÁRBARA. Esperais um epílogo do que vos foi dito até agora? Estou lendo em vossas fisionomias. Mas sois verdadeiramente tolos se imaginais que eu tenha podido reter de memória toda essa mistura de palavras que vos impingi. A história é uma colcha de retalhos. Que importa o que Mathias cantou, o que Dias arrotou, o que Nassau improvisou, o que Anna debochou, o que Bárbara esbravejou, o que Souto pentelhou... O que importa é o resto, que é tudo, e o resto somos nós. Por isso, em lugar de epílogo, eu quero vos oferecer uma sentença, à guisa de charada: odeio o ouvinte de memória fiel demais.

Por isso sede sãos, aplaudi, bebei, vivei, votai, traí, ó celebérrimos iniciados nos mistérios da traição.

Todo o elenco canta O elogio da traição: O que é bom pra Holanda é bom pro Brasil O que é bom pra Luanda é bom pro Brasil O que é bom pra Espanha é bom pro Brasil O que é bom pra Alemanha é bom pro Brasil O que é bom pro Japão é bom pro Brasil O que é bom pró Gabão é bom pro Brasil
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O que é bom pró galego é bom pro Brasil O que é bom pro grego é bom pró Brasil O que é bom pra troiano é bom pro Brasil O que é bom pra baiano é bom pro Brasil O que é bom pra inglês é bom pro Brasil O que é bom pra vocês é bom pro Brasil

O que é bom pra mamãe é bom pro Brasil

O que é bom pro neném é bom pró Brasil

O que é bom pro fulano é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil

O que é bom pra ( ...... ) é bom pró Brasil



Até baixar o pano.

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