Chico buarque



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CHICO BUARQUE
ESTORVO

estorvo, estorvar, exturbare, distúrbio,

perturbação, torvação, turva, torvelhinho,

turbulência, turbilhão, trovão, trouble,

trápola, atropelo, tropel, torpor, estupor,

estropiar, estrupício, estrovenga, estorvo



1
Para mim é muito cedo, fui deitar dia claro, não consigo definir aquele sujeito através do olho mágico. Estou zonzo, não entendo o sujeito ali parado de terno e gravata, seu rosto intumescido pela lente. Deve ser coisa importante, pois ouvi a campainha tocar várias vezes, uma a caminho da porta e pelo menos três dentro do sonho. Vou regulando a vista, e começo a achar que conheço aquele rosto de um tempo distante e confuso. Ou senão cheguei dormindo ao olho mágico, e conheço aquele rosto de quando ele ainda pertencia ao sonho. Tem a barba. Pode ser que eu já tenha visto aquele rosto sem barba, mas a barba é tão sólida e rigorosa que parece anterior ao rosto. O terno e a gravata também me incomodam. Eu não conheço muita gente de terno e gravata, muito menos com os cabelos escorridos até os ombros. Pessoas de terno e gravata que eu conheço, conheço atrás de mesa, guichê, não são pessoas que vêm bater à minha porta. Procuro imaginar aquele homem escanhoado e em mangas de camisa, desconto a deformação do olho mágico, e é sempre alguém conhecido mas muito difícil de reconhecer. E o rosto do sujeito assim frontal e estático embaralha ainda mais o meu julgamento. Não é bem um rosto, é mais a identidade de um rosto, que difere do rosto verdadeiro quanto mais você conhece a pessoa. Aquela imobilidade é o seu melhor disfarce, para mim.

Recuo cautelosamente, andando no apartamento como dentro d'água. Escorregarei de volta para a cama, e creio que o sujeito acabará desistindo, convencido de que não há ninguém em casa. Mas nem bem ultrapasso a divisória imaginária do meu quarto-e-sala, e a campainha toca outra vez. Não posso dormir com a imagem daquele homem fixo na minha porta. Volto ao olho mágico. Hei de surpreender uma imprudência dele, uma impaciência que o denuncie, que me permita ligar o gesto à pessoa. Mas enquanto estou ali ele não toca a campainha, não olha o relógio, não acende um cigarro, não tira o olho do olho mágico. Agora me parece claro que ele está me vendo o tempo todo. Através do olho mágico ao contrário, me vê como se eu fosse um homem côn-cavo. Assim ele me viu chegar, grudar o olho no buraco e tentar decifrá-lo, me viu fugir em câmera lenta, os movimentos largos, me viu voltar com a fisionomia contraída e ver que ele me vê e me conhece melhor do que eu a ele. Porque eu sei apenas que ele não é o que pretende aparentar, um vendedor, um administrador, um distraído. E ele me conhece o suficiente para saber que eu poderia até receber um estranho, mas nunca abriria a porta para alguém que de fato quisesse entrar.

Agora ele já percebeu que é inútil, que não me engana mais, que eu não abro mesmo, que sou capaz de morrer ali em silêncio, posso virar um esqueleto em pé diante do esqueleto dele, então abana a cabeça e sai do meu campo de visão. E é nesse último vislumbre que o identifico com toda a evidência, voltando a esquecê-lo imediatamente. Só sei que era alguém que há muito tempo esteve comigo, mas que eu não deveria ter visto, que eu não precisava rever, porque foi alguém que um dia abanou a cabeça e saiu do meu campo de visão, há muito tempo.

O sono está perdido. Da janela do meu sexto andar posso espreitar a calçada do edifício. O homem logo aparece, pára no meio-fio e não levanta os olhos para a minha janela, como eu faria se fosse ele. Com tanto tempo de espera no meu corredor, ele teria de arriscar mais uma olhadela. Qualquer um olharia para o sexto andar, mesmo sabendo que é inútil; olharia para confirmar que não há uma luz acesa, que não há uma toalha estendida no parapeito, olharia automaticamente, por um cacoete da esperança. Só não olharia se soubesse que está sendo olhado. Ele sabe que o vejo acenar para um táxi, embarcar no banco da frente e mandar pegar a primeira à direita. Enfio uma roupa às pressas, calculando que neste momento ele esteja parado no sinal vermelho da outra esquina. Calculando que eu esteja enfiando uma roupa às pressas, ele dirá ao motorista para avançar o sinal e virar à direita novamente e novamente e novamente. Completará a volta do quarteirão prevendo que eu esteja no elevador, ainda de camisa aberta. Mas eu me abotôo na janela, vendo o táxi completar a volta do quarteirão.

Ele estará saltando do táxi quando bato com força e definitivamente a porta do apartamento, o motorista mandando ele à merda por causa da corrida idiota. Ficará desapontado por não topar comigo na portaria. Perguntará ao porteiro por mim, que estou entre o quinto e o quarto andar, descendo a escada devagar porque as lâmpadas queimaram. O porteiro ouvindo rádio vai responder que não sabe da vida de ninguém no prédio. Chego ao segundo andar e ele entrará no elevador, depois de atochar o botão quarenta vezes. Perto do térreo cruzo com a luz da rua, que está subindo a escada pelas frontes dos degraus, ditas espelhos. No último lance dessa escada retorcida piso em falso; piso na luz e atravesso desabalado a portaria, ele no meu corredor. Já não tocará a campainha; desintegrará a fechadura, eu na calçada oposta.

Não preciso olhar o sexto andar para saber que ele me vigia da minha janela. Verá que aperto o passo e sumo correndo na primeira à esquerda. E chamará o elevador, e chamará o táxi, mas não convencerá o motorista a me perseguir na contramão. Tentará uma paralela, mas eu emboco no túnel, alcanço outro bairro, respiro novos ares. Empacará no trânsito e eu subo as encostas, as prateleiras da floresta, as ladeiras invisíveis com mansões invisíveis de onde se avista a cidade inteira.

O vigia na guarita fortificada é novo no serviço, e tem a obrigação de me barrar no condomínio. Pergunta meu nome e destino, observando os meus sapatos. Interfona para a casa 16 e diz que há um cidadão dizendo que é irmão da dona da casa. A casa 16 responde alguma coisa que o vigia não gosta e faz "hum". O portão de grades de ferro verde e argolões dourados abre-se aos pequenos trancos, como que relutando em me dar passagem. O vigia me vê subindo a ladeira, repara nas minhas solas, e acredita que eu seja o primeiro pedestre autorizado a transpor aquele portão. A casa 16, no final do condomínio, tem outro interfone, outro portão eletrônico e dois seguranças armados. Os cães ladram em coro e param de ladrar de estalo. Um rapaz de flanela na mão abre a portinhola lateral e me faz entrar no jardim com um gesto da flanela.

A casa da minha irmã é uma pirâmide de vidro, sem o vértice. Uma estrutura de aço sustenta as quatro faces, que se compõem de peças de blindex em forma de trapézio, ora peças fixas, ora portas, ora janelas basculantes. As poucas paredes interiores de alvenaria foram projetadas de modo que quem entrasse no jardim poderia ver o oceano e as ilhas ao fundo, através da casa. Para refrescar os ambientes, porém, mais tarde penduraram por toda parte cortinas brancas, pretas, azuis, vermelhas e amarelas, substituindo o horizonte por enorme painel abstrato. Também originalmente, o pátio circular no bojo da casa abrigava um fícus, cuja copa emergia no alto da pirâmide frustrada. Sucedeu que a casa, quando ficou pronta, começou a abafar o fícus que, em contrapartida, solapava os alicerces com suas raízes. O arquiteto e o paisagista foram convocados, trocaram acusações, e ficou patente que casa e fícus não conviveriam mais.

Eu sempre achei que aquela arquitetura premiada preferia habitar outro espaço. A casa livrou-se do fícus, mas nem assim parece satisfeita com o terreno que lhe cabe, o jardim que a envolve toda, o limo que pega nas sapatas de concreto, a hera que experimenta aderir aos vidros. Nessa disputa o jardineiro tomou as dores da casa, e passa os dias arrancando a hera, polindo o concreto, podando o que vê pela frente. Um dia, tomado de cólera, saiu revirando os canteiros, eliminou as hortênsias, e teria reduzido o jardim a um campo de golfe, se minha irmã não interviesse. Tendo feito um estágio no jardim botânico, minha irmã gosta de andar pelo arvoredo ao largo da casa, podendo distinguir o ipê do carvalho, da oiticica, do jequitibá ou da maçaranduba. Também zela pelas palmeiras, que estão alinhadas à parte, pois aprendeu que palmeiras são de uma estirpe altiva de árvores, que as árvores sérias por sua vez desdenham. E quando tem tempo, minha irmã chega aos confins do terreno, onde o jardim toca o muro do horto florestal; só volta na hora do lusco-fusco, parando para ver e ouvir o jogo das folhagens, por atalhos que o jardineiro ignora. Mas hoje, com o sol a pino e sem uma brisa sequer, minha irmã está para dentro e as folhagens não jogam; cada folha é um exemplo de folha, com seu verde-escuro à luz e seu contra-verde-claro à sombra. Hoje é como se o jardim estivesse aprendendo arquitetura.

O empregado não sabe que porta da casa eu mereço, pois não vim fazer entrega nem tenho aspecto de visita. Pára, torce a flanela para escoar a dúvida, e decide-se pela porta da garagem, que não é aqui nem lá. Obedecendo a sinais convulsos da flanela, contorno os automóveis na garagem transparente, subo por uma escada em caracol, e dou numa espécie de sala de estar com pé-direito descomunal, piso de granito, parede inclinada de vidro, outras paredes brancas e nuas, muito eco, uma sala de estar onde nunca vi ninguém sentado. À esquerda dessa sala corre a grande escada que vem do segundo andar. E ao pé da grande escada há uma salinha que eles chamam de jardim de inverno, anexa ao pátio interno onde vivia o fícus. Eis minha irmã de peignoir, tomando o café da manhã numa mesa oval.

Ela me acena com as sobrancelhas e volta a abaixar a cabeça, os cabelos cobrindo-lhe o rosto, entretida com umas fotos que folheia e organiza em pequenas pilhas. Prepararam meu lugar de frente para ela, um pouco distante, e nas fotos que ela me passa sem me olhar não há pessoas, somente parques, ruas, alguma neve, paisagens repetidas que despacho em meio minuto. Devem ser fotos do início da viagem, quando ela estava sozinha e emocionalmente abalada; embora tenha curso de fotografia, seus enquadramentos estão irregulares, a luz insuficiente ou estourada, como se ela quisesse liquidar depressa o filme. Nas fotos que empilha fora do meu alcance, imagino que já apareça com a pele fresca, talvez abrindo os braços numa ponte, tendo ensinado um desconhecido a manejar a máquina. E nas fotos mais recentes, que coloca de pé atrás do bule de leite, acho que entram os amigos que ela sempre vai fazendo, e os amigos dos amigos, e os artistas, e as autoridades, e as luzes do barco no jantar de despedida.

O copeiro entra com uma bandeja, sem que eu tenha ouvido minha irmã chamar, e recolhe as fotos discriminando as pilhas. Eu ia pedir para ver a série completa, mas minha irmã ergue o rosto e pergunta se não tenho visitado mamãe. Diz que mamãe tem andado tão sozinha, nem empregado ela quer, só tem uma diarista que às terças e quintas vai lá, mas diarista mamãe acha que não é companhia. O ideal seria contratar uma enfermeira, mas enfermeira mamãe acha que cria logo muita intimidade, e qualquer hora mamãe pode levar um tombo, porque anda enxergando cada vez pior. À medida que fala, minha irmã espalha uma película de geléia grená na torrada, como que esmaltando a torrada, depois analisa, desiste do grená e arremata com geléia cor de laranja; vai morder, muda de idéia, toma um gole de chá e se admira de como uma pessoa pode envelhecer da noite para o dia, pois quando papai morreu a gente pensou que mamãe fosse baquear, qual nada, continuou a mil, ia ao teatro, jantava fora, andava a cavalo no sítio, como ela adorava o sítio, tomava seu uisquinho, jogava tênis, puxa, pensar que até o ano passado mamãe ainda jogava tênis.

A garota surge correndo pelas minhas costas e atira-se no pescoço da mãe. Usa uniforme escolar, lancheira amarrada nos ombros e trancas de maria-chiquinha. Minha irmã dá-lhe um beliscão nas bochechas, senta-a nos joelhos e faz cavalo maluco, faz cosquinhas nos sovacos, beija beijo de índio e vira a marciana dum olho só. Elas colam perfil contra perfil e quedam horas assim, uma querendo ser a cara da outra. A menina diz "agora chega", pula para o chão, avança no cream cracker e por acaso nota a minha presença. Minha irmã pergunta se ela não vai cumprimentar o tio. Ela me estende os braços como que pedindo colo, mas súbito transforma as mãos em duas pistolas, avança contra mim e quase me fura os olhos. Depois solta uma gargalhada seca, gutural, anormal numa criança; começa a tremer inteira e força a gargalhada até perder o fôlego, que recupera num arquejo asmático, e arranca nova gargalhada, arqueja e engasga, treme e gargalha e vai ficando azul. Vem a babá e carrega a garota para fora.

Minha irmã cruza os talheres limpos sobre o prato com a torrada, e sei que a essa hora ela costuma se arrumar para sair. Presumo que o chofer já esteja a postos com um mapa na mão para levá-la aonde ela mandar, e cada dia ela deve mandar seguir para um lugar diferente. Hoje talvez anuncie o nome de um bairro do outro lado da cidade, e lá chegando dirá "acho que é ali", ou ' 'é na próxima'', ou " já passou'', deixando evidente que mais uma vez estará improvisando um endereço. Pode ser que mande o chofer esperar diante de uma pensão amarela, e passe quatro horas lá dentro, saindo mais composta do que entrou e aflita para chegar em casa, na hora do rush. Pode ser que chegue ao mesmo tempo que o marido, os dois choferes se emparelhando na ladeira do condomínio. Talvez suba com o marido para o quarto, e tirando a roupa diga que passou quatro horas numa pensão amarela de uma cidade-dormitório, mas não sei se o marido vai acreditar ou prestar atenção. Não sei se o marido vai se sentar na cama e afrouxar o cinto, e pedir para ela parar ali do jeito que está, com as mãos nos cabelos. Também não sei se o marido sabe que de vez em quando ela me dá dinheiro. Sem que eu tenha percebido minha irmã fazer qualquer sinal, o copeiro traz uma bandeja com o talão de cheques e a caneta de prata.

Ela preenche o cheque, e seus cabelos castanhos não me permitem ver se está mesmo sorrindo, nem se esse sorriso quer dizer que eu sou um pobre diabo. A assinatura negligente, junto com o sorriso que não posso ver, quer dizer que aquele dinheiro não lhe fará falta. O ruído ríspido do cheque destacado de um só golpe pode querer dizer que esta é a última vez. Mas a maneira de encobrir e pousar o cheque ao lado do meu pires, como quem passa uma carta boa, e de retirar a palma acariciando a toalha, como quem apaga alguma coisa e diz "esquece", significa que poderei contar com ela sempre que precisar. Ela se levanta e diz que está atrasada, diz "fica à vontade", não sabe se sorri, molha os lábios com a língua, leva os cabelos para trás da orelha e vai.

Minha irmã andando realiza um movimento claro e completo. Parece que o corpo não realiza nada, o corpo deixa de existir, e por baixo do peignoir de seda há apenas movimento. Um movimento que realiza as formas de um corpo, por baixo do peignoir de seda. E eu me pergunto, quando ela sobe a escada, se não é um corpo assim dissimulado que as mãos têm maior desejo de tocar, não para encontrar a carne, mas sonhando apalpar o próprio movimento. Algumas mulheres têm muita consciência dessas coisas. Mas têm consciência o tempo inteiro? A qualquer hora do dia? Em qualquer situação? Diante de qualquer um? E de repente minha irmã dá meia-volta no topo da escada, tão de repente como se fosse para me surpreender, como se fosse para saber se a estive olhando e como. Minha irmã rodopia na escada só para me dizer de novo "não esquece de mamãe".

Fico desequilibrado, sozinho naquela mesa oval, olhando o mel, o queijo de cabra, o chá de rosas, pensando na minha mãe. O copeiro traz uma bandeja com o telefone sem fio; é um aparelho de teclas minúsculas, que dedilho rápido e sem olhar direito, um pouco querendo esbarrar noutros números. Ouço tocar uma, duas, cinco vezes, telefone de casa de velho. Mamãe atende mas não fala nada, nunca fala nada quando atende ao telefone, porque acha vulgar mulher dizer alô. Eu digo "mamãe", e posso senti-la colar o fone na orelha, para travar o tremor da mão esquerda. O copeiro entra com um carrinho, pergunta "terminou?" e retira os pratos sem sobrepô-los. Eu repito "mamãe", mas também não tenho muito assunto, e o copeiro amassa o guardanapo que eu deixara intato à minha frente, em forma de canoa. Mamãe não deve ter entendido que era eu, e pouco depois cai a linha. O copeiro passa um tipo de espátula na toalha azul-celeste, catando as migalhas de cream cracker, enquanto eu invento umas palavras no bocal.


2

Chego à rodoviária com uma bolada em cada bolso da calça, quatro tijolos de notas miúdas, que o caixa do banco encasquetou de me trocar o cheque assim. A calça é justa e as protuberâncias dão na vista. Consigo uma vaga no banheiro e separo o dinheiro da passagem. O homem do guichê examina cada nota, frente e verso, embora elas não sejam muito velhas nem novas demais. Com o bilhete na mão, ando de plataforma em plataforma a fim de não ficar tão exposto. Ando no meio do povo em linha reta, mas parece que cruzo sempre com as mesmas pessoas. E essas pessoas também parecem se admirar, me vendo passar tão repetido. Volto ao banheiro, e trancado espero a hora do ônibus.

Nesse ônibus convém não cochilar. A meu lado sentou-se um sujeito magro, de camisa quadriculada, que eu já havia visto encostado numa coluna. Estamos ombro a ombro no mesmo banco, e não posso ver direito a sua cara. Posso ver suas mãos, mas são mãos de homem iguais a todas as mãos sujas e cruzadas. Com o pormenor que de quando em quando ele abre os dedos da mão direita, um de cada vez, dando a impressão de calcular alguma coisa, e fecha-os todos ao mesmo tempo. Ato contínuo abre a mão inteira para fechar os dedos um a um, refazendo os cálculos de trás para diante. Calça chinelos de tiras, e esfrega o dedão na falange vizinha, como quem contasse dinheiro com os pés. Não leva mala, nem sacola, nem pasta, nem jornal, nem história em quadrinhos, não tem atitude de viajante; mas também não chega a ser viagem, essa hora e quinze de curvas e aclives até o Posto Brialuz, que é onde vou saltar. Peço licença, e ele tem de se levantar para me dar passagem. Falo "Posto Brialuz" para o motorista, e com a freada do ônibus o sujeito quadriculado vem degringolando pelo corredor, quase me atropelando. Desço do ônibus, ele atrás. Dou quatro passos na relva e giro o corpo de repente, um pouco como vi minha irmã fazer. Mas o sujeito já atravessou a estrada, e sobe a ribanceira que dá noutras bandas.

Encontrar aberta a cancela do sítio me perturba. Penso nos portões dos condomínios, e por um instante aquela cancela escancarada é mais impenetrável. Sinto que, ao cruzar a cancela, não estarei entrando em algum lugar, mas saindo de todos os outros. Dali avisto todo o vale e seus limites, mas ainda assim é como se o vale cercasse o mundo e eu agora entrasse num lado de fora. Após a besta hesitação, percebo que é esse mesmo o meu desejo. Piso o chão do sítio e caio fora. Piso o chão do sítio, e para me garantir decido fechar a cancela atrás de mim. Só que ela está agarrada no chão, incrustada e integrada ao barro seco. Quando deixei o sítio pela última vez, há cinco anos, devo ter largado a cancela aberta e nunca mais ninguém a veio fechar.

Abandonei e esqueci isto aqui durante cinco anos. Talvez a inércia do sítio na minha mente, mais do que a longa estiagem, explique agora essa claridade dura, a paisagem chapada. Vencida a cancela, não sei mais por onde passar. Minha brecha pode ser a noite, que começa a nascer lá embaixo, no fundo do vale. Ainda há sol no alto das montanhas, e a noite vem subindo pelas vertentes como um óleo. Sento-me na pedra redonda onde eu me sentava quando era pequeno, quando pensava que a noite primeiro enchia o vale, depois é que transbordava para a terra e o céu.

Quando a noite se consuma, perfeita, sem lua nem estrelas, sem encantos, sem nada, salto da pedra e vou descendo a estradinha de terra batida sítio adentro. A estradinha segue reta até encostar no riacho e se envolver com ele. Mas não escuto o riacho. Na verdade, já não sei se estou pisando a terra batida ou algum caminho vegetal. Mais provável do que eu me extraviar no sítio, seria o matagal ter invadido a estrada, e o riacho evaporado. Mas ali há uma música que me desnorteia o tempo inteiro. Demoro a admitir, pois nunca houve música no sítio; mas há músicas, muitas músicas ocupando todos os espaços, com a substância que a música no escuro tem. É quase resvalando nelas que chego à ponte de tábuas sobre o riacho.

Atravesso a ponte, e da outra margem ouve-se apenas o riacho, a água absorvendo as músicas. Há uma luzinha intermitente na casa principal do sítio, mas não preciso dela para chegar ao olho do vale, onde eu pensava que nascia a noite. E não ando longe do meu destino quando escuto o primeiro rosnado. No ermo em que estou, só posso fugir em direção à casa, e o volume crescente dos latidos dá-me a impressão de estar correndo ao encontro dos cães. E por fugir ao contrário, sinto-me duas vezes mais veloz; imagino romper a matilha como dois trens que se cruzam. Atiro-me contra a porta da frente, que está travada por dentro com cravelho. Contorno a varanda, e os cães emudecem assim que invado a cozinha.

O velho sentado no tamborete faz um grande esforço para erguer a cabeça, e é o tempo que eu necessitava para reconhecer nosso antigo caseiro. Deixou crescer os cabelos que, à parte as raízes brancas, parecem ter mergulhado num balde de asfalto. A pele do seu rosto resultou mais pálida e murcha do que já era, e ele me fita com um ar interrogativo que não consigo interpretar; talvez se pergunte quem sou eu, talvez me pergunte se a tintura lhe cai bem. Penso em lhe dar um tapa nas costas e dizer "há quantos anos, meu tio", mas a intimidade soaria falsa. Meu pai entraria soltando uma gargalhada na cara do velho, passaria a mão naquele cabelo gorduroso, talvez chutasse o tamborete e dissesse "levanta daí, sacana!". Meu pai tinha talento para gritar com os empregados; xingava, botava na rua, chamava de volta, despedia de novo, e no seu enterro estavam todos lá. Eu, se disser "há quantos anos, meu tio", pode ser que ofenda, porque é outro idioma.

Sem aviso o velho dá um pulo de sapo e vai parar no centro da cozinha, apontando para mim. Usa o calção amarrado com barbante abaixo da cintura, e suas pernas cinzentas ainda são musculosas, as canelas finas; é como se ele fosse de uma raça mista que não envelhecesse por igual. Aproxima-se com molejo de jogador, mas com o tórax cavado e os braços caídos, pa-peira, a boca de lábios grossos aberta com três dentes, os olhos azuis já encharcados. E abraça-me, beija-me, recua um passo, fica me olhando como um cego olha, não nos olhos, mas em torno do meu rosto, como que procurando a minha aura. "Deus lhe abençoe, Deus lhe abençoe", diz. Depois pergunta "que é de Osbênio?, que é de Clauir?", e entendo que ele esperava outra pessoa, algum parente, quem sabe.

Um cacho de bananas verdes no chão da cozinha lembra-me que passei o dia a chá e bolacha. Na geladeira, que é um móvel atarracado de abrir por cima, encontro um jarro d'água, uma panela com arroz e uma tigela de goiaba em calda. Instalo-me com a tigela à mesa onde antigamente os empregados comiam. O velho adivinha que pretendo passar uns tempos no sítio, e emociona-se novamente. Cai sentado na cadeira ao lado, e seus olhos voltam a se encharcar, desta vez com lágrimas azedas. Conta o velho que a mulher morreu há dois anos, que ele mesmo está muito doente, que os filhos sumiram no mundo. Tapa uma narina para assoar a outra, e conta que com ele só restaram as crianças. Que os outros, os de fora, foram chegando e dominando tudo, o celeiro, a casa de caseiro, a casa de hóspedes, e contrataram gente estranha, e derrubaram a estrebaria e comeram os cavalos. E que os outros, os de fora, só estão esperando ele morrer para tomar posse da casa, por isso que ele dorme ali na despensa, e os netos espalhados na sala e pelos quartos. Conta que os patrões nunca aparecem, mas quando aparecerem vão ter um bom dum aborrecimento.

Deposito um maço de notas sobre a mesa para o velho fazer a provisão, mas antes que eu me explique ele apanha uma mochila debaixo da mesa, joga o dinheiro dentro e diz "pra que isso, seu moço". Desce a mochila, sobe uma garrafa de underberg, diz "dá licença", vira um gole e oferece a garrafa, que ficou com umas bolhas de saliva no gargalo. Dá novo salto e diz "eu já vou arrumar o quarto do senhor''. Atravessa a casa correndo e vai direto ao quarto que sempre foi meu.

Eu devia ter deixado o velho enxotar as crianças. Quando entro no quarto, o menino e a menina estão bem despertos, acocorados na esteira diante do aparelho de televisão. O menino, de uns sete anos e cabeça raspada, avista-me sem me ver e retoma o comando do video-game. A menina, de uns oito ou nove, cabeleira crespa, densa e transversal, sorri e continua sorrindo para mim. Arranco a roupa, que parece engomada de suor seco, e deito-me de cuecas na cama que sempre foi minha, no colchão de palha sem lençol. Para as crianças, o velho trouxe um colchonete listrado que era da espreguiçadeira da piscina.

Não me importei com as crianças porque pensei que fosse deitar e dormir, mas as minhas pestanas tremelicam com o reflexo do video-game. Pulsa na tela uma figura semelhante a um intestino, em cujos tubos correm animaizinhos verdes. Por algum motivo, esses tubos às vezes se obstruem, obrigando o moleque da cabeça raspada a se contorcer com o comando nas mãos. Em conseqüência, os animaizinhos chocam-se uns contra os outros, impelindo-se como bolas de bilhar e emitindo bips. Também acontece de eles se entalarem nas paredes dos tubos, numa reação em cadeia que provoca a explosão do intestino, acompanhada de um alarme e um clarão. Os animaizinhos bóiam na tela branca e o jogo recomeça inúmeras vezes, mas a certa altura a menina da cabeleira, que incentivava o irmão, dá um bocejo profundo e se levanta. Entrevejo sua trajetória da televisão ao colchonete rodeando a cama, me rodeando, parando, voltando para apanhar um elástico, e contra a luz é uma adolescente que oscila nas minhas pestanas. Ela me encara, e seu rosto terá no máximo dez anos, pelos dois dentes da frente ainda arraigados na gengiva, pelos cabelos impossíveis de pentear, pelo nariz escorrendo. Mas é de mulher feita o pequeno corpo que caminha, que escolhe cada passo com um critério de corpo, e que portanto caminha mais com orgulho que com direção, a camiseta até os joelhos com a inscrição "Só Jesus Salva".

A comichão da palha na minha pele, a presença da goiaba doce no meu estômago, os incômodos do corpo são apenas um despiste da insônia. A insônia verdadeira principia quando o corpo está dormente. Semi-lesado, o cérebro não tem boas idéias, e é incapaz de resistir à chegada do homem do olho mágico, por exemplo, que pode ser um amigo que perdi de vista, e que viria falar de assuntos vencidos, e que não suportaria a minha indiferença, e que, se fosse um sonho, arrancaria exasperado a própria barba e não teria queixo, convertendo-se no proprietário do imóvel que vem cobrar o aluguel. Mas ainda não é sonho e nada devo ao proprietário, pois minha irmã é avalista, adiantou seis meses a título de fiança, e quando mamãe morrer, meu quinhão na herança não paga o que devo à mana, por isso ela pode ter dado meu endereço a um advogado, um oficial de justiça, um tabelião barbudo no olho mágico. Estou para ingressar no sonho quando lembro que quem tem meu endereço é minha ex-mulher; deixei recado na casa dela, uma mensagem formal, aliás um comunicado irônico, aliás um aviso áspero, e minha ex-mulher nem iria anotar meu endereço na agenda, para quê?, para dar ao homem do olho mágico que pode ser o seu namorado, e imagino aquele homem de terno e gravata e barba na cama da minha ex-mulher. Um namorado dela, o que viria cobrar de mim, conselhos?, pensão?, confidencias?, satisfações? Um ciumento retroativo? Um amante argentino da minha irmã, de cabelos escorridos, terno marrom e gravata, girando no topo da escada com minha ex-mulher? Aos poucos, os pensamentos amontoados na cabeça vão se acomodando, bem ou mal se encaixam uns nos outros, e é um consolo quando cessa o atrito dos pensamentos, e vai se fechando a cabeça, apertando-se nela mesma, a cabeça restando como que oca por fora. O sono chega como um barco pelas costas, e para partir é necessário estar desatento, pois se você olhar o barco, perde a viagem, cai em seco, tomba onde você já está. E o moleque da cabeça raspada continua fungando e jogando video-game. E a menina da cabeleira continua me encarando, sorrindo. E ainda não amanheceu.

Agora a menina se levanta do colchonete, vem andando em pêndulo, aproxima-se devagarinho, essa criança vai querer deitar comigo, ajoelha-se, chega o rosto ao meu, vai me beijar, pensa que estou dormindo, desliza seu hálito sobre meu corpo inteiro, desce ao pé da cama, apanha minha calça e esvazia os bolsos. Quero reagir e não posso, meu corpo está dormente, meu cérebro, minha boca não consegue pronunciar "ei". A menina da cabeleira cutuca o irmão e os dois escapam.

A janela do meu quarto dá para a varanda, e tenho a sensação de que adormeci num autódromo. Chego à veneziana, e conto umas vinte crianças pulando e gritando debaixo da janela. Uma moto vermelha irrompe por trás da casa, corta o pátio e sobe o talude lá adiante, onde faz uma longa curva com a máquina na horizontal. Desce o talude num mergulho e, no instante em que some pela borda esquerda da casa, já reaparece pela direita. Solta fagulhas no cimento do pátio, sobe o talude, faz a curva inclinada, mergulha, e desta vez vem tão acelerada que já desponta por um lado antes mesmo de se esvair por outro. Para encerrar o circuito, corisca no cimento, assalta o talude e segue em frente, chegando a voar quando atinge o platô. E ressurge imediatamente-por trás da casa, ultrapassa o talude com as rodas no ar, e encosta na moto que aguardava no platô, porque as motos vermelhas são duas.

Agora é o caseiro velho quem irrompe no pátio com um copo de underberg na mão, e assobia para as motos com dois dedos na boca. As crianças riem, aplaudem, atiram limões no velho. Uma das motos aponta para ele e vem tomando impulso no talude. Ele levanta o copo, cobre o rosto com a outra mão, e verga-se de tal forma que a moto parece atravessá-lo sem o derrubar, nem ao copo. A asa do vento faz seu corpo girar noventa graus, e parar de frente para a segunda moto, que contornou a piscina e desce embalada na diagonal. O velho cambaleia, e o cambaleio é a sua salvação, pois a moto imprimira tal velocidade que já não admitia guinada ou freio. A criançada faz "olé", e corre ao pátio para festejar o velho, que bebe o underberg de pernas cruzadas.

Não sei o que me leva a pular a janela e ir atrás das crianças. Quando me vejo de cuecas no pátio, já não posso recuar com naturalidade. Tenho pelo menos de apertar a mão do velho, mas ele me evita, me desconhece e sai de lado, olhando para o fundo do copo vazio. As crianças dispersam-se, e as duas motos vigiam-me do platô. Miram na minha direção, e vou me retirando sem olhar para trás. Ouço o ronco dos motores, e tenho pressa em alcançar a varanda. Quando pulo para dentro do quarto, vejo que elas vêm descendo em ponto morto, serpenteando no talude. Embicam na varanda, de frente para a minha janela, enquanto acabo de me vestir. Uma terceira moto, que até então eu não havia visto, desce do campo de vôlei com o motor desligado, e coloca-se entre as duas. Não posso ver seus rostos, pois eles usam capacetes, mas logo percebo que o terceiro piloto é mais que os outros, em cilindradas e autoridade. Sua moto é muito mais vermelha, e larga como um cavalo, com cravos de bronze, espelhos, distintivos e adereços, além de uma antena espiralada que deve chegar a quatro metros. Ele traz anéis em todos os dedos e, rebatendo o sol da manhã, seus punhos parecem dois faróis sobressalentes. Apeia da moto, no que é imitado pelos dois coadjuvantes. Sobe à varanda, sempre seguido pelos dois, e pára a três passos da minha janela. Com uma voz até delicada, pergunta quem sou eu e o que faço naquela propriedade. Várias coisas passam pela minha cabeça, mas não encontro uma boa resposta. Olho para os lados pensando no velho, mas o velho não está. O dos anéis pergunta quem eu penso que sou e que porra eu faço naquela propriedade. Vejo as crianças enfileiradas no alto do sítio, perto do riacho. Olho para o chão, e estou descalço, não tive tempo de me vestir direito. Os dois comparsas começam a esfregar suas botas nas tábuas da varanda, como se apagassem charutos, e com isso produzem um chiado desagradável. O chefe enfia a mão no forro do casaco de couro, vai sacar alguma coisa ali de dentro. Saca um relógio antigo tipo cebola, e diz que tenho cinco minutos para sumir do mapa.





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