Cidades, mundo rural e viver urbano no oeste do brasil



Baixar 67.36 Kb.
Encontro30.07.2018
Tamanho67.36 Kb.


MUNDO RURAL E CIDADES NO SUL DE MATO GROSSO (1850-1950)
Nataniél Dal Moro

Doutorando em História pela PUC-SP e bolsista CAPES

natanieldalmoro@bol.com.br
Introdução

“Seria grave manter por muito tempo ainda a ignorância de tão vastas zonas da Terra.” (RONDON, 1947, p. 1340)


Os primeiros núcleos populacionais construídos no que é hoje território do Estado de Mato Grosso do Sul foram viabilizados via poder da Corte Portuguesa que, naquela época, século XVIII, objetivava conquistar de modo mais perene esta região, em parte dominada pela Corte Espanhola. Os intentos maiores da Coroa Portuguesa eram os de ampliar e de defender as fronteiras do que posteriormente se tornou território brasileiro.

Os núcleos populacionais em questão deram conta de ampliar e de defender os territórios da Coroa Portuguesa na América, contudo, a densidade populacional desta região era muito pouco expressiva: na verdade, quase que não havia habitantes “civilizados” neste território. Na época do Império, também com o objetivo de defender a região da presença estrangeira, notadamente a paraguaia, foram construídas colônias militares em várias partes do respectivo território.

Ainda no século XIX o sul de Mato Grosso recebeu migrantes das Províncias vizinhas, sobretudo de Minas Gerais, de São Paulo e de Goiás. Formou-se assim a sociedade pastoril, expressão essa que está contida nos escritos de Sodré (1941). Segundo Mario Lima Beck (1935, p. 30), após a Guerra do Paraguai (1864-70) houve maior migração de gaúchos para a região. Em 1935 o sul de Mato Grosso contava com “cincoenta mil gauchos e seus descendentes”.

O Estado de Mato Grosso do Sul (MS) passou a existir oficialmente no final da década de 1970, quando se deu a divisão do então Estado de Mato Grosso (MT), que à época era a segunda maior Unidade Federativa do Brasil em extensão territorial, menor apenas do que o Estado do Amazonas, localizado na Região Norte do país.

Naquele tempo a maioria da população do então sul do Estado de Mato Grosso residia na zona rural. A vida nas cidades, quando comparada com o movimento populacional do campo, era pouco expressiva. As cidades eram, pode-se dizer, um apêndice do mundo rural; tinham pouca relevância no Oeste brasileiro até meados da segunda metade do século XX.

Tendo em vista esta realidade o presente escrito possui dois objetivos: primeiramente, mostrar em linhas gerais como se deu a formação das cidades no sul de Mato Grosso e, segundo, externar como o mundo rural da região (hoje o território físico do Estado de Mato Grosso do Sul, integrante da Região Centro-Oeste), em particular o agrário, em especial o existente no território da Serra de Maracaju, mais especificamente nos Campos da Vacaria, contribuiu para formar cidades neste espaço do Oeste brasileiro, local que abrigava “tão vastas zonas” de terra e “da Terra”, porém com densidade populacional pouco significativa.


1. As pessoas e as cidades minguavam após o rio Paraná

“No fim do século XIX e no começo do XX, fora de meia dúzia de pequenas cidades, Mato Grosso era um vastíssimo deserto. Simples pistas, alguns rios navegáveis, ligavam entre si povoações, fazendas, roças, perdidas nesta imensidão verde.” (DUROURE, 1977, p. 152)


O Oeste do Estado de São Paulo era, no início do século XX e inclusive décadas depois, um território parcamente povoado, possuidor apenas de algumas municipalidades de destaque e, ainda, carente de meios de comunicação e de transporte rápidos, tal como a ferrovia o era para a época e em comparação com o que já havia.

Na década de 1910 esta realidade começou a ser alterada, em alguns locais, devido a efetivação dos trilhos de trem no Oeste de São Paulo1 e também no sul de Mato Grosso. Os trabalhos dos historiadores Arruda (2000), Queiroz (2004) e Losnak (2004) sintetizam muito bem esta assertiva, assim como as discussões travadas em torno da mesma.

Sodré chamou esta situação histórica de “isolamento” produzido pela economia predominante na região: a pastoril.

Tal isolamento, que agrava os fatores de diferenciação, devia ser atenuado, pouco a pouco, projetando-se até o século XX. Só a construção da via ferrea que ligou essas terras à estrutura nacional, foi capaz de acelerar o ritmo da influencia externa, capaz de quebrar a tradição do isolamento e da consequente diferenciação (SODRÉ, 1941, p. 120).


Depois da inserção da ferrovia no sul de MT (hoje território que compõe Mato Grosso do Sul) a densidade populacional das cidades nas quais passavam os trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), como Aquidauana, Miranda e, sobretudo, Campo Grande, aumentou consideravelmente.

O povoamento de Campo Grande teve início na década de 1870 com a instalação de migrantes provenientes de Minas Gerais em busca de terras férteis e desabitadas, logo após do termino da Guerra do Paraguai (1870)2, período em que o sul de Mato Grosso recebeu considerável quantidade de sujeitos de outras plagas. Emílio Garcia Barbosa (1963, p. 161) estima que a região como um todo recebeu cerca de 10 mil sul-rio-grandenses, sem contar os paulistas, mineiros e goianos.

Em 1899 a localidade passou a ser Vila e também Município. O território de Campo Grande tinha mais de 100.000 km2. Ia do planalto da Serra de Maracaju até o rio Paraná, fazendo, portanto, fronteira com o Estado de São Paulo, conforme se pode observar por meio do mapa a seguir, publicado originalmente no começo do século XX na obra intitulada O Município de Campo Grande em 1922:
Imagem 1. Mapa do Município de Campo Grande (1922).

Fonte: GOMES, 2004, p. 23.


No final do século XIX a população da Vila de Campo Grande não tinha mais do que 500 habitantes. A maior parte das pessoas residia mesmo na zona rural. Eram afazendados e, aos poucos, tornaram-se fazendeiros, situação tão bem analisada no livro Oeste: ensaio sobre a grande propriedade pastoril (SODRÉ, 1941).

Em 1898 Campo Grande

[...] contava somente noventa casas. Porém, dispersas nos arredores, viviam umas seis mil pessoas. A povoação era distrito de paz de Miranda. Como a capela de Santo Antônio, quase abandonada, era muito suja, o padre Solari manda levantar um estrado na praça pública, onde duas vezes ao dia prega ao povo. Prega também antes de administrar os sacramentos. No dia do encerramento, desde 4h00 da manhã até meia noite, não tem um momento de descanso. A procissão reúne mais de duas mil pessoas (DUROURE, 1977, p. 157).
Além destes núcleos populacionais, a maior parte tornados Municípios ainda no final do século XIX, existiam outros no então sul do Estado de Mato Grosso, porém, de menor destaque, tanto que o poder público instituído não os reconheceu como Municípios. O povoado de Aquidauana, projetado em 1892 por fazendeiros das redondezas, merece destaque neste contexto, pois contava com uma expressiva estrutura urbano-citadina quando comparado com as outras povoações do sul de MT.

O relato do padre José Solari, existente no Arquivo Geral Salesiano de Roma, é ilustrativo: Aquidauana possuía em 1898 “[...] 100 casas, inclusive algumas em construção. Ainda não possuía igreja.” (DUROURE, 1977, p. 155).

Cidades e povoados também surgiram devido a NOB; é o caso de Três Lagoas e de Água Clara, municipalidades próximas ao rio Paraná.3

Caso contrário se deu na cidade de Nioaque. Antes da chegada dos trilhos da NOB na região, na década de 1940, esta cidade concentrava e era em certa medida o centro comercial das redondezas, uma vez que distava quase 200 quilômetros da cidade de Campo Grande. Com a inserção da ferrovia esta função de centro comercial perdeu a conotação antes existente, pois as mercadorias chegavam via estrada de ferro.

Sendo assim, não fazia mais tanto sentido se deslocar para Nioaque em busca de produtos dos mais diversos. Bastava ir ao encontro das estações ferroviárias que eram, em geral, bem mais próximas do que a cidade de Nioaque. Parte da elite local do sul de Mato Grosso, que no final do século XIX e início do XX residia na cidade de Nioaque, mudou-se para Campo Grande na década de 1910, em especial pela facilidade de transporte e de comunicação possibilitada pela ferrovia. Isso também contribuiu para um esmorecimento da importância desta cidade no contexto regional.
Imagem 2. Mapa da NOB no sul de Mato Grosso. Vê-se também o ramal Campo Grande-Ponta Porã, que já tinha tráfego parcial, porém não estava totalmente concluído. O traçado em destaque corresponde ao trajeto da chamada Estrada de Ferro Transcontinental Santos-Arica, que no ano de 1947 ainda estava em construção.

Fonte: VIEIRA, 1947, p. 1569.


Mesmo com um aumento populacional, pois em 1890 MT possuía 118 mil residentes e em 1920 já contava com quase 250 mil pessoas, a densidade humana era a menor do Brasil: Mato Grosso tinha apenas 0,17 habitantes por km2 (MARQUES, 1923, p. 75-76).

Os Municípios mais populosos do sul de MT na década de 1920 eram: Paranaíba – 10.143 mil pessoas; Corumbá – 19.547; Campo Grande – 21.360 e Ponta Porã – 25.518. O texto de Marques é bastante oportuno para se pensar o aumento populacional e a própria existência de cidades nesta região do Brasil. Para Marques (1923, p. 77):

[...] estavel tem sido a immigração trazida pela estrada de ferro Noroeste do Brasil. As cidades de Tres Lagoas, de Campo Grande e de Aquidauana datam de época recente e revelam rapido progresso, só comparavel com o das mais novas cidades paulistas. São centros cosmopolitas, favorecidos pela amenidade do clima e a facilidade de communicações, e os seus municipios offerecem á colonisação europea todos os elementos de progresso. O commercio depende ainda exclusivamente do gado, unica industria dessa região.
Consultando textos e analisando mapas do período vê-se o quão esparsas eram umas das outras as cidades existentes no sul de MT. Distavam quase sempre 100 quilômetros dentre si. Todas as cidades eram muito longes e, ainda, pouco habitadas quando comparadas com as existentes no Leste brasileiro e até mesmo com as cidades do Oeste do Estado de São Paulo.

Imagem 3. Mapa do Brasil (1908)

Fonte: FIBGE, 2006, p. 93.



Imagem 4. Mapa do Brasil (1944)

Fonte: FIBGE, 2006, p. 93.

O surgimento de povoados e de cidades ao longo da NOB e também nas terras da Companhia Matte Larangeira4 não deu conta de adensar o número de pessoas no Estado. Na década de 1950 o Estado de Mato Grosso continuava sendo a Unidade Federativa brasileira de menor densidade populacional.

Pelos mapas vê-se que a maior parte das cidades estava no litoral do Brasil. As atuais Regiões Norte e Centro-Oeste do país eram as menos povoadas e quase sem cidades. No sul de MT, tanto no mapa de 1908 como no de 1940, aparecem com mais destaque as cidades de Corumbá, Nioaque e Coxim. As cidades de Ponta Porã e de Campo Grande só constam no mapa de 1940. Observa-se também a existência do traçado da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que nos anos 40 já contava com o ramal Campo Grande-Ponta Porã.

É oportuno mencionar que no mapa de 1908 não consta o povoado de Ponta Porã, bem como o território desta municipalidade aparece como pertencente, ainda, ao Paraguai.5 Isso indica, em certa proporção, o quanto os limites territoriais, as fronteiras do Brasil com os demais países, ainda eram, no início do século XX, desconhecidas e, conseqüentemente, que precisavam ser estudadas. Marques (1923, p. 13) afirma que “[...] o conhecimento dos sertões mattogrossenses vêm-se fazendo aos poucos.”

Dentre os colaboradores desta empreitada estão, conforme apontou Marques (1923, p. 13-15): Alexandre Rodrigues Ferreira (século XVIII), Barão de Langsdorff (1825), João Augusto Caldas, Conde de Castelnau (1844), Herbert Smith, Barbosa Rodrigues, Pimenta Bueno, Karl von den Stein (1884-88), Carl Lindmann (1893), Paulo Ehrenreinch (1897), Theodoro Roosevelt (1913), Luiz d’Arlincourt, Augusto Leverger (Barão de Melgaço) e, sobretudo, Cândido Rondon e sua equipe, que, durante quase 30 anos, fizeram variados levantamentos sobre a região de Mato Grosso, bem como das fronteiras deste Estado.

Para Sodré (1941), a inexpressiva densidade populacional no Oeste brasileiro estava diretamente relacionada com o que ele chamou de “desertão”. O

[...] desertão permanecerá, apesar de todo o esforço humano, apesar de todas as tentativas coletivas, como a permanente força negativa, dispersiva, dissociadora, influindo sobre todas as outras faces do problema, aquelas que parecem viaveis ante o esforço do centro, da autoridade, do país. As distancias, essas infinitas distancias, vazias, tristes, apagadas, permanecerão a incógnita poderosa e eterna. Sobre elas, por mais que se estendam os fios telegráficos, que a audacia e o espírito empreendedor de Rondon lançaram, por mais que se abram estradas, naturalmente pouco compensadoras e caríssimas, por mais que se cruzem nos céus, máquinas modernas, com o formidavel poder de encurtá-las e de dominá-las, – nada se conseguirá de definitivo sem a intervenção do fator tempo, sem o amparo do crescimento demográfico do país, canalizado, em grande parte, para as suas terras, para cobrí-las, já não na dispersão pastoril, mas na densidade de que o regime agrícola é capaz, com o acúmulo de riqueza, a atração fácil a novos elementos, a capacidade de se por em ligação, em contacto com as outras partes do Brasil e da América, transformando-se em celeiro de algumas delas (SODRÉ, 1941, p. 126-127).


Não se pode esquecer que o tal do “desertão” era não apenas um território físico (muita terra fértil, basicamente vegetação de cerrado, com pouca densidade populacional), mas também uma construção social, uma relação de força entre sujeitos históricos. Portanto, deve-se entender a “grande propriedade pastoril” como inibidora da presença e da fixação de outras pessoas na região. Sendo assim, não se deve pensar a região em si mesma como inóspita para a presença humana, mas sim a “grande propriedade pastoril” (e os sujeitos que a constituíram) como elemento impeditivo desta outra e, não menos, diversa presença humana no Oeste do Brasil.

A organização urbano-citadina do Oeste brasileiro, por sua vez, foi diretamente construída via interferência desta sociedade: a pastoril. A indagação a seguir é espinhosa, mas, não tenho dúvida, deve ser feita: foi esta interferência positiva ou negativa? Vejamos o embate de perspectivas existente nos escritos de Nelson Werneck Sodré e de José de Melo e Silva, publicados na primeira metade do século XX.


2. O mundo rural construindo as cidades

“O Brasil Central deve integrar-se sem mais tardança na civilização.” (RONDON, 1947, p. 1340).


O fato do sul de Mato Grosso e do Oeste brasileiro, de modo geral, ter minguado número de habitantes, pequena densidade populacional e insignificante número de cidades foi abordado por Nélson Werneck Sodré na obra intitulada Oeste: ensaio sobre a grande propriedade pastoril. Este escrito, publicado no início da década de 1940, continua bastante apropriado para se pensar o por quê da existência e da permanência, durante décadas, desta realidade histórica no Oeste do Brasil.

Sodré (1941), depois de ter coletado, sistematizado e analisado grande e variado número de fontes que podem perfeitamente ser consideradas como primárias sobre o processo de ocupação, de colonização e de vida econômica dos sujeitos da região sul de Mato Grosso, com destaque particular para a chamada sociedade pastoril existente no século XIX, assegurou, dentre outras coisas, que o desenvolvimento material e demográfico das cidades desta região era brecado sobremaneira pela própria essência da cultura pastoril.

A sociedade pastoril, para Sodré, se desenvolveu com base na terra, na pecuária extensiva. Este tipo de cultura acabou por inviabilizar a realização de outras atividades, como a da agricultura em escala comercial. Produzia-se apenas para a subsistência. A fixação populacional, o aumento demográfico e o paulatino surgimento de cidades também foram comprometidos por causa desta predominância do mundo pastoril sobre os demais.

O mundo pastoril mencionado por Sodré abrangia sobretudo o que se chama de Serra de Maracaju, na qual estão os Campos da Vacaria, território onde hoje há os Municípios de Campo Grande, de São Gabriel do Oeste, de Sidrolândia, de Maracaju, de Nioaque, dentre outros.


Imagem 5. Campos da Vacaria (2009). No primeiro plano, próximo às margens na BR-060, entre os Municípios de Sidrolândia e de Campo Grande, no Estado de Mato Grosso do Sul, vê-se uma plantação de soja existente nos Campos da Vacaria. Na parte central da imagem, lado esquerdo, está a encosta da Serra de Maracaju. As terras integrantes dos Campos da Vacaria possuem grande fertilidade. Nelas há vários cultivos de grãos, com destaque para o trigo, o milho e sobretudo a soja. A pecuária também possui expressiva importância nestas terras.

Fonte: MORO, 2009.


Na verdade, a organização das cidades, o poder nelas existente, contrariava o próprio modo de vida que caracterizava a cultura pastoril. “A cidade representa bem tudo o que o pastoreio contraria e refuga, a permanencia, a autoridade, a hierarquia, a sedentariedade.” (SODRÉ, 1941, p. 93).

A formação de novos municipios, desmembrados de antigos, procedeu-se com uma lentidão bem expressiva, que se deve à pobreza do regime pastoril, à imensidade do desertão e à refratariedade do pastoreio às organizações urbanas. [...]

O proprio crescimento demográfico, que é uma das forças decisivas para a divisão municipal e para o oferecimento da superfície de aplicação da ação das organizações municipais, tem sido tão lento, tão dispar com a extensão infinita desses paupérrimos municipios, que não dá margem a previsões otimistas para futuro próximo [...]

Tão baixos índices demográficos não se encontram em qualquer outro Estado da Federação, nem mesmo no Amazonas. Índices que dissociam completamente qualquer ação das organizações municipais, tanto mais que a sede de alguns desses municipios se coloca em posição acentuadamente excêntrica em relação à area deles, sem vias de comunicação para atingir os pontos próximos (SODRÉ, 1941, p. 167-168).


No entender de Sodré (1941, p. 166), a única coisa igual tanto no campo como na cidade era a pobreza existente em ambos os ambientes, devido ao próprio funcionamento das relações pastoris. “A instabilidade social é sancionada por disparidade tão profunda. De um lado, a cidade. De outro, o campo. De um lado, a autoridade social. De outro, o mandonismo dos clãs pastoris. De ambos, a pobreza.”

Essa pobreza se mostrava tanto nas construções rurais como nas urbanas. Exceção ocorreu, por vezes, nas cidades localizadas no decorrer dos trilhos da NOB. Por volta das décadas de 1930-40, a estrutura física das moradias no Oeste ainda era

[...] paupérrima. Construida de madeira e barro. Madeira, tão somente para a sua estrutura mestra, para suportar as paredes e a proteção. Barro, para vedar essas paredes, o barro úmido, pegajoso, vermelho, dos chapadões, ou preto, plástico, semelhante ao “massapê”, das zonas baixas, da planicie aluvional. A cobertura não podia deixar de ser humílima, de palha, retirada às pastagens. A madeira serviu, na organização e no desenvolvimento dos centros urbanos em que houve matas pelas proximidades, para construí-la totalmente. As casas de madeira predominam ainda na zona pastoril, mas quando junto aos centros urbanos. Há cidades inteiras de madeira. O tijolo só teve papel de primeira nos centros à beira da via ferrea, quando essa trouxe o seu influxo civilizador. Campo Grande é a cidade do tijolo. Quase todas as demais, ou ficam dependendo da madeira ou do barro. Não fogem a tais imperativos, na zona pastoril (SODRÉ, 1941, p. 125-126).
Seguramente nem todos os escritos contemporâneos ao de Sodré concordam com as afirmações deste autor, em especial no que se refere a cultura pastoril e a relação do homem com a terra. José de Melo e Silva (1989), em obra publicada inicialmente no final da década de 1940, distancia-se veementemente de muitas das análises feitas por Sodré; porém, aproxima-se de algumas outras. Para ambos os autores a NOB é um meio de comunicação e de transporte de extrema utilidade para integrar o Oeste ao Leste do Brasil.

Melo e Silva, nesse caso discordando mesmo das afirmações de Sodré, entendia o mundo pastoril do Oeste como riqueza. Já para Sodré a sociedade pastoril constituía pobreza e não riqueza. Melo e Silva, por seu turno, também não pensava o mundo rural e o urbano como campos contraditórios, opostos e inibidores um do progresso do outro, mas sim como realidades próximas, social e politicamente, que se constituíam quase que sem nenhum atrito.

À medida que foi melhorando de condição e que sua indústria lhe proporcionou meios para colaborar com uma nova forma de sociedade, não hesitou em construir excelentes prédios nos centros urbanos, que eram as sedes dos municípios onde estavam situadas as suas propriedades rurais, e para ali muita vez transferiu a residência de suas famílias, pela necessidade de educação dos filhos (MELO E SILVA, 1989, p. 90).
Na verdade, o mundo rural descrito por Melo e Silva era o elemento-chave que constituía as cidades, que as desenvolvia: era do campo que vinha a renda, através da comercialização de bovinos, para a construção das benfeitorias materiais existentes nas cidades, afirma o autor na obra Canaã do oeste: sul de Mato Grosso, cujo embasamento, conforme Melo e Silva mesmo apontou, provinha de análises feitas por Cassiano Ricardo no livro denominado O Brasil no original, publicado no ano de 1937, e também de obras de F. J. Oliveira Vianna, tais como: Populações meridionais do Brasil (1933) e Evolução do povo brasileiro (1923).

“É muito comum em todo o Oeste matogrossense serem os fazendeiros o mesmo homem da cidade, onde constroem seus prédios residenciais. Isso é o que se observa em Campo Grande, Corumbá, Aquidauana, Três Lagoas [...].” (MELO E SILVA, 1989, p. 92).

Feitas essas pontuações cabe aqui indagar também quem era o grupo ou os grupos sociais que dirigiam os rumos do mundo rural e também o das cidades, mesmo estas sendo inexpressivas em relação a sociedade pastoril?

Parece-me que tanto para Sodré como para Melo e Silva o grupo mais importante era o dos fazendeiros, em particular o dos pecuaristas que criavam e exportavam gado para os mercados consumidores do Leste do Brasil por meio da NOB. Porém, no que tange a contribuição que estes mesmos grupos deram ao desenvolvimento, a constituição das cidades, os posicionamentos de Sodré e de Melo e Silva são nitidamente divergentes.

Sodré pontuou que as cidades do sul de Mato Grosso e do Oeste do Brasil, de modo geral, tiveram, por causa da existência da sociedade pastoril, um desenvolvimento muito aquém do possível. A cultura pastoril impediu a formação de outras atividades agrárias, como a lavoura de alimentos. Em decorrência do não desenvolvimento da agricultura houve dificuldade do homem se fixar na região, produzir e comercializar alimentos, enfim, gerar riqueza a partir do trabalho com e na terra, pois a sociedade pastoril ocupava todos os espaços territoriais para a criação extensiva de animais, notadamente bovinos.

Foi essa realidade que impediu o aumento demográfico populacional e a conseqüente formação de povoados, de vilas e de cidades no sul de Mato Grosso. Portanto, o rio Paraná não foi propriamente a maior das barreiras para a constituição de cidades no Oeste do Brasil, mas sim a própria sociedade existente neste território.

A maior barreira não era a física, mas sim a social, que é sempre estabelecida e mantida por meio da relação de força de um grupo para com o outro, como tão apropriadamente mostrou Pierre Bourdieu (1996) no texto intitulado A força da representação.

Melo e Silva optou por outra explicação, que, na verdade, é bastante próxima das reflexões contidas nos escritos de Cassiano Ricardo e Oliveira Vianna, conforme já mencionei.

Nas palavras de Melo e Silva (1989, p. 90-91):

Convém notar que não é bem exata a observação daqueles que vêem o nosso primeiro povoador, o pastor ou vaqueiro de oeste, como homem da primeira etapa da civilização, como elemento que ficou entocado em seus esconderijos, infenso às normas administrativas, ao Poder Público, aos agentes de Govêrno e da Polícia.

Não examinou com justeza o assunto quem o viu afastado da civilização que penetrava com a via-férrea e com os novos povoadores, em atitude de desconfiança e de hostilidade, como inimigo dos centros urbanos e da nova sociedade que se formava. São generalizações discutíveis e perigosas.

O que se pode admitir é a co-existência dos desviados com os normais, o que sempre se verificou e ainda se verifica nos meios cultos e incultos.


Ainda segundo Melo e Silva (1989, p. 90-91), o homem do campo não concebia as autoridades públicas sediadas nas cidades do sul de Mato Grosso como “inimigas” dos fazendeiros, por ele chamados de “vaqueiros”. Por outro lado, afirma textualmente que “[...] a autoridade só se faz sentir para a prática de atos de opressão e para esgotar a capacidade tributária do povo.” (MELO E SILVA, 1989, p. 93).

Melo e Silva (1989, p. 89) também discute a questão do desenvolvimento do sul de Mato Grosso em sua obra, publicada originalmente no ano de 1947. Para ele o “[...] desenvolvimento sócio-econômico do Sul de Mato Grosso não atingiu ainda um grau condizente com o grande lastro das suas possibilidades [...]” devido três grandes problemas, que eram:

[...] precariedade das vias de comunicação, ausência de braços e de uma relativa assistência pública, desdobrada de acôrdo com os princípios que devem nortear os Governos que se preocupam com a grandeza do Estado e com o bem coletivo.
Seguramente Sodré e Melo e Silva não são os únicos autores a tratar desta questão, bem como seus posicionamentos não são os únicos existentes e nem mesmo são representantes únicos de um ou de outro grupo social. Poder-se-ia mencionar alguns outros autores, tais como: Fernando de Almeida, Frederico Rondon, Lima Figueiredo, F. de Paula Cidade, Rezende Rubim e Virgílio Corrêa Filho, que também abordaram com muita propriedade e posicionamento político a relação campo-cidade e/ou região-território no Oeste do Brasil, cada qual expondo aspectos dos mais diversos sobre a contribuição do mundo rural na constituição do mundo citadino. Efetivamente não cabe aqui, neste artigo, discutir e aprofundar tais questões.6

O que é pertinente enfocar neste escrito é a existência mesmo de forças sociais diversas que integravam e constituíam tanto o mundo rural como o urbano, limitando-o em alguns aspectos e ampliando-o em outros. Seguramente as forças sociais que apoiavam o posicionamento de Sodré eram minoritárias e se concentram sobremaneira nas cidades. Já o posicionamento defendido por Melo e Silva tinha como partidários os fazendeiros, em especial os que se opunham ao desenvolvimento das atividades agrícolas e à fragmentação do desertão, que era nada mais do que as grandes propriedades, geralmente utilizadas para a criação extensiva de animais, em particular os bovinos.




Considerações finais

No século XIX a sociedade pastoril e a sua principal atividade econômica, a criação extensiva de bovinos, foram vistos como elementos positivos para o desenvolvimento populacional do sul de Mato Grosso. De fato, a densidade populacional da região aumentou com a fixação destes migrantes e a utilização da terra pelo pastoreio. A sociedade pastoril também se consolidou no século XIX.

No século XX a sociedade pastoril já representava, ao lado da cultura econômica da erva-mate, o modelo hegemônico de sociedade no sul de Mato Grosso. Nas terras da Serra de Maracaju era, sem dúvida, a sociedade de maior poder. Isso, por sua vez, acentuou positividades e negatividades desta mesma sociedade pastoril: os embates de perspectivas são inúmeros.

Consultando alguns destes embates, na verdade escritos em geral, posso afirmar que a sociedade pastoril deixou de ser, no decorrer do século XX, sinônimo de aumento da densidade populacional, tal qual o era no século XIX. Passou a representar entrave ao aumento demográfico e ao concomitante surgimento orgânico, no sentido do termo empregado por Antonio Gramsci (1988), de povoados, de vilas e de cidades.

Finalizando, no decorrer do século XIX a cultura pastoril era vista de modo geral como positiva. Já no século XX, mais precisamente a partir das décadas de 1930-40, esta cultura já não é mais totalmente positiva, pois limitava, no entendimento de Sodré, a entrada de outras pessoas em terras do sul de Mato Grosso e também o estudo das potencialidades naturais existentes na flora, na fauna e no solo da região, tal como se pode constar neste fragmento de um escrito de Frederico Rondon (1947, p. 1340):

“O Brasil possui tal porção da superfície da Terra que não pode eximir-se de torná-la cientificamente conhecida. Está na missão especial do brasileiro ser geógrafo. Seria grave manter por muito tempo ainda a ignorância de tão vastas zonas da Terra.”


Referências

ALMEIDA, Fernando F. M. de. A serra de Maracajú – a paisagem e o homem. Boletim da Associação dos Geógrafos Brasileiros, São Paulo, Indústria Gráfica José Magalhães Ltda., ano IV, n. 5, p. 60-78, nov. 1944.

ARRUDA, Gilmar. Cidades e sertões: entre a história e a memória. Bauru: EDUSC, 2000.

______. Frutos da terra: os trabalhadores da Matte Larangeira. Londrina: UEL, 1997.

BARBOSA, Emílio Garcia. Panoramas do sul de Mato Grosso. Campo Grande: Correio do Estado, 1963.

BECK, Mario Lima. Nova querencia. Chronica das emigrações riograndenses para Matto Grosso. Porto Alegre: Selbach, 1935.

BIANCHINI, Odaléa da Conceição Deniz. A Companhia Matte Larangeira e a ocupação da terra do sul de Mato Grosso (1880-1940). Campo Grande: UFMS, 2000.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas lingüísticas. O que falar quer dizer. São Paulo: EDUSP, 1996.



CIDADE, F. de Paula. Aspectos geo-humanos de Mato Grosso: Corumbá. Revista Brasileira de Geografia, ano V, n. 2, p. 173-194, abr./jun. 1943.

CORRÊA, Valmir Batista. Fronteira oeste. Campo Grande: UFMS, 1999.

CORRÊA FILHO, Virgílio. Raias de Matto Grosso. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1926.

______. Matto Grosso. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 1922.

DUROURE, João Baptista. Dom Bosco em Mato Grosso. 1º volume: 1894-1904. Campo Grande: Missão Salesiana de Mato Grosso, 1977.

FIGUEIREDO, Lima. Terras de Matto-Grosso e da Amazonia. Rio de Janeiro: A Noite, [194 –].

FUNDAÇÃO INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (FIBGE). Atlas geográfico escolar. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2006.

GOMES, Arlindo de Andrade. O Município de Campo Grande em 1922. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 2004.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988.

LENHARO, Alcir. Colonização e trabalho no Brasil: Amazônia, Nordeste, Centro-Oeste. Campinas: UNICAMP, 1986.

LOSNAK, Célio José. Polifonia urbana: imagens e representações – Bauru 1950-1980. Bauru: EDUSC, 2004.

MARQUES, A. Matto Grosso: seus recursos naturaes, seu futuro economico. Rio de Janeiro: Americana, 1923.

MELO E SILVA, José de. Canaã do oeste: sul de Mato Grosso. Campo Grande: Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, 1989.

MENDONÇA, Estevão de. Quadro chorographico de Matto Grosso. Cuiabá: Salesianas, 1906.

MORO, Nataniél Dal. Campos da Vacaria (2009). 1 fotografia, color. Local: Sidrolândia-MS. Data: 24 fev. 2009.

OLIVEIRA VIANNA, F. J. Evolução do povo brasileiro. São Paulo: Monteiro Lobato, 1923.

______. Populações meridionais do Brasil. São Paulo: Nacional, 1933.

QUEIROLO, Víctor Ayala. Historia de la cultura en el Paraguay. Asunción: Salesiana, 1969.

QUEIROZ, Paulo Roberto Cimo. Uma ferrovia entre dois mundos: a E. F. Noroeste do Brasil na primeira metade do século 20. Bauru/Campo Grande: EDUSC/UFMS, 2004.

RICARDO, Cassiano. O Brasil no original. 2. ed. São Paulo: Cultural da Bandeira, 1937.

RONDON, Frederico. Colonização nacional, o magno problema brasileiro. Boletim geográfico, Rio de Janeiro, SGEF, ano IV, n. 46, p. 1331-1341, jan. 1947.

RUBIM, Rezende. Reservas de brasilidade. São Paulo: Nacional, 1939.

SODRÉ, Nelson Werneck. Oeste: ensaio sobre a grande propriedade pastoril. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941.

VIEIRA, Flávio. Estrada de Ferro Brasil-Bolívia. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, SGEF, ano IV, n. 48, p. 1566-1570, mar. 1947.

WEINGÄRTNER, Alisolete Antônia dos Santos. Movimento divisionista em Mato Grosso do Sul (1889-1930). Porto Alegre: Edições EST, 1995.



1 A cidade de Bauru-SP exemplifica esta situação. Para maiores detalhes consultar a obra Polifonia urbana: imagens e representações: Bauru 1950-1980 (LOSNAK, 2004, p. 61-64).

2 Com o término da Guerra do Paraguai e o regresso dos soldados para as Províncias do Rio Grande do Sul, do Paraná, de São Paulo, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro foi divulgada a notícia de que no sul de Mato Grosso existiam terras ainda não ocupadas pelo homem branco. Isso contribuiu decisivamente para a vinda de migrantes de todos os locais do Brasil. O surgimento do povoado de Campo Grande é fruto, em certa medida, desta ação. Alcir Lenharo (1986) mostra em seu estudo que não havia propriamente terras “sem donos” ou “espaços vazios” no Oeste do Brasil.

3 MENDONÇA, Estevão de. Quadro chorographico de Matto Grosso. Cuiabá: Salesianas, 1906. Nesta obra há uma descrição das cidades e das vilas mais importantes de Mato Grosso. No sul de MT constam relatos sobre as seguintes cidades: Corumbá, Paranaíba, Miranda, Nioaque, Coxim e Aquidauana.

4 A Companhia Matte Larangeira era uma empresa que atuava no extremo sul do Estado de Mato Grosso, localizando-se geograficamente entre os rios Paraná e Paraguai. Foi criada oficialmente em 1891, mas desde 1882 já eram desenvolvidas atividades. O fechamento da empresa se deu em 1947. A principal matéria-prima era a erva-mate, planta nativa da região. A maior parte da produção ia, via rio Paraguai, para a Argentina. O trabalho era feito por cerca de 3 mil trabalhadores, muitos dos quais indígenas e paraguaios. O regime de trabalho era de semi-escravidão. A Cia. Matte Larangeira chegou a ter 5 milhões de hectares, a maioria provenientes de terras devolutas. Sobretudo nas décadas de 1980 e de 1990 foram elaborados alguns dos primeiros trabalhos acadêmicos que se detiveram em analisar aspectos desta Cia. Dentre os trabalhos realizados convém destacar os seguintes escritos: Weingärtner (1995), Arruda (1997), Corrêa (1999) e Bianchini (2000).

5 De fato a região na qual está a cidade de Ponta Porã era terra litigiosa até o início da década de 1870. Após o término da Guerra do Paraguai foi assinado, em 1872, um tratado. Nele o impasse foi oficialmente resolvido. A referida região – que hoje corresponde a aproximadamente 20-25% do território do Estado de Mato Grosso do Sul – deixou de ser terra litigiosa, passando a pertencer ao Brasil. Consultando alguns escritos paraguaios, como o de Queirolo (1969), vê-se que este tratado foi, na verdade, muito mais uma ação imperialista do que, propriamente, um tratado. Ainda hoje (2010) em partes desta região – fronteira do Brasil com o Paraguai, sobretudo nas áreas de fronteira seca – não se tem clareza do que é ser brasileiro e do que é ser paraguaio. Segundo dados divulgados por Sodré (1941, p. 105), cerca de 89% da população residente na cidade de Porto Murtinho, antes da década de 1940, era composta por paraguaios. A quantidade de indígenas nesta região também era e ainda o é bastante expressiva. Sendo assim, a fronteira existente é muito mais a construída pelo saber cartográfico do que propriamente a materializada pelas relações sociais e econômicas.

6 O entendimento de Fernando de Almeida (1944), por exemplo, é muito proveitoso e ajuda de forma singular a pensar a contribuição do campo na constituição do desenvolvimento das cidades do sul de Mato Grosso e também a contribuição do campo para o não-desenvolvimento do urbano, que neste caso engloba a questão do aumento demográfico, do povoamento das cidades. Almeida (1944, p. 74-75) escreveu: “Não se nota, nas fazendas da serra de Maracajú, o que ainda hoje se percebe em certas zonas do Brasil Central: uma certa auto-subsistência. Apesar das relativas dificuldades de transporte, estas fazendas importam quase tudo o que consomem. Certamente a existência do automovel é em parte devida à ausência, na região, daquela auto-subsistência das áreas pioneiras do interior do Brasil, que tanto chamou a atenção de Burton e de outros viajantes do século passado. A falta de diversidade de produção das fazendas é em grande parte causadora do aparecimento de vilas, núcleos de povoamento com bôas possibilidades de desenvolvimento, onde localizam-se artífices e se desenvolve um comércio, em geral mantido por sírios. São ao mesmo tempo centros de reunião de fazendeiros e de fornecimento às grandes fazendas. Dão abrigo, ainda, a pequenas indústrias. [...] A cidade de Campo Grande é [...] o melhor exemplo dêste tipo de núcleo urbano, em pleno desenvolvimento favorecido pela presença da estrada de ferro.” Por meio deste escrito vê-se que nem sempre é possível associar desenvolvimento citadino com desenvolvimento urbano e crescimento demográfico. As cidades cresciam sim no sul de Mato Grosso, progrediam, desenvolviam-se, contudo, o progresso, o crescimento e o desenvolvimento eram obtidos por causa do mundo rural, da sociedade pastoril. No meu entender foi esta “dependência” produzida pelo mundo pastoril para com os demais setores da sociedade como um todo o que Sodré mais criticou na organização da sociedade pastoril. As cidades e as pessoas, de modo geral, ficavam sempre reféns do campo, sempre vítimas do progresso pastoril. Quando este, o mundo pastoril, ia bem a cidade progredia; quando este ia mal a cidade padecia.



Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal