Ciência da Informação: configurações contemporâneas e relações com outras áreas de conhecimento Carlos Alberto Ávila Araújo Professor da Escola de Ciência da Informação da ufmg



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Ciência da Informação: configurações contemporâneas

e relações com outras áreas de conhecimento

Carlos Alberto Ávila Araújo

Professor da Escola de Ciência da Informação da UFMG


1. Introdução

É com muita honra e alegria que apresento este ensaio para a Aula Magna de inauguração do Doutorado em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba. Trata-se de uma situação ímpar. Por um lado, trata-se de um momento festivo, de comemoração, pois constata-se o sucesso que o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFPB vem obtendo ao longo dos anos, desde a criação do mestrado em 1977, culminando com a aprovação e o início do doutorado agora em 2012. Ao mesmo tempo, trata-se de um momento reflexivo e instigante: o início dos trabalhos do doutorado nos convoca a discutir sobre as condições epistemológicas da Ciência da Informação (CI) no momento contemporâneo, num movimento que é simultaneamente o de observar o que os outros têm feito na área e, também, de desenhar aquela que é nossa proposta específica, singular, que marca nossa identidade e justifica a nossa existência.

É nesse clima, e no seio de uma rica interlocução que já vem acontecendo nos últimos anos entre o PPGCI da UFPB e o PPGCI da minha instituição, a UFMG, que gostaria de apresentar algumas ideias, reunidas neste texto, sobre as conformações mais recentes do campo da Ciência da Informação, com especial ênfase para as relações que esta área vem desenvolvendo com outros campos científicos – e, particularmente, com os campos da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia. Afinal, nos dias atuais, essa é a grande questão em pauta para o campo no país.
2. O desenho contemporâneo da CI

Em 1968, Harold Borko publicou um pequeno texto, intitulado Information Science: what is it? Naquele momento, a expressão era uma novidade e seu significado desconhecido para quase todas as pessoas, no ambiente científico ou fora dele. Na época em que Borko escreveu seu texto, seu objetivo era desfazer uma série de mal-entendidos relacionados ao que seria essa nascente “Ciência da Informação”. Passaram-se 44 anos desde então. Em maio de 2012, o professor Borko faleceu. É curioso perceber que, passado tanto tempo, vários desses mal-entendidos continuam existindo. Paira ainda, sobre a CI, um grande desconhecimento e diversas interpretações confusas e/ou parciais, sendo que pelo menos três delas merecem destaque.

A primeira delas é a visão de que a CI é a ciência responsável pelas ações e serviços de provisão de informação no ambiente de ciência e tecnologia. Essa é uma visão presente e disseminada, por exemplo, pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) nos anos 1970, quando essa entidade propôs a criação de políticas de informação científica e tecnológica para os países em desenvolvimento (uma expressão dela se consolidou com o manual de Guinchat e Menou traduzido para diversos idiomas). No Brasil, o Ibict (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) também adotou essa visão em diversos documentos e pesquisas ao longo das décadas de 1970 e 1980. Uma segunda visão comum é de que a CI seria uma espécie de extensão da Biblioteconomia, uma continuidade dela ou, no mínimo, uma parceira (interpretação fortalecida pela consolidação da expressão Library and Information Science nos Estados Unidos e Inglaterra). Uma terceira visão muito disseminada é de que a CI trata de informação a partir de dispositivos computacionais, visão essa originada pela ideia de que a CI seria uma espécie de recuperação automatizada da informação. Tal visão se consolidou na esteira da proposta do Memex por Vannevar Bush, da criação da área de Recuperação da Informação, por Mooers e foi a seguir propagada por Saracevic que propôs que a recuperação da informação seria o “núcleo” da CI.

Para se identificar a origem destas três visões sobre a identidade da CI, é preciso percorrer a sua evolução não apenas desde suas origens mas, antes disso, desde os seus primórdios. Entre os elementos que contribuíram para seu surgimento misturam-se contextos institucionais, atividades práticas e/ou profissionais e também o desenvolvimento de teorias e reflexões acadêmicas. Em meio a tudo isso, é possível visualizar pelo menos três grandes fenômenos.

O primeiro deles é a gradativa consolidação da Documentação como área de conhecimento. Iniciada com os trabalhos de Otlet e La Fontaine, a Documentação consistiu numa proposta de um grande movimento cooperativo, em nível planetário, para que fosse estabelecido uma espécie de “inventário” de toda a produção humana de conhecimento registrado. É nesse sentido que a Documentação representa uma novidade em relação a outras áreas do conhecimento e instituições (como os arquivos, as bibliotecas e os museus) que também lidavam com o conhecimento registrado: seu objetivo não era juntar uma coleção, guardar um estoque numa determinada instituição, mas sim promover um serviço transversal, cooperativo entre as diferentes instituições (e entre os diferentes tipos de instituições, também). É aqui que tem origem o que muitos autores chamarão, décadas depois, de uma perspectiva pós-custodial (SILVA, 2006): não se trata de negar o custodial, a importante e necessária função promovida pelas instituições de guardar, custodial, os acervos documentais; a Documentação propôs uma outra ação, uma outra frente de trabalho, composta por uma gigantesca rede de registros destes acervos custodiados nas instituições. Mais do que “ter” o documento, interessava aos pesquisadores envolvidos com a Documentação promover uma listagem, um registro de “onde” poderia estar cada um dos documentos produzidos pelos seres humanos. Nascida como uma iniciativa institucional (promovendo eventos, encontros, e chegando a propor a construção de uma “cidade do conhecimento”, o Mundaneum), a Documentação conheceu posteriormente um importante processo de legitimação teórico-conceitual, primeiro por Otlet e, depois, por autores em diferentes contextos como os Estados Unidos (Bradford), França (Briet) e Espanha (López Yépez).

Paralelamente, deve-se destacar a importância, cada vez maior, desde o século XIX, dos periódicos científicos, e a necessidade de estudos mais sistemáticos sobre a forma de organizá-los. Tal tarefa começou a ser feita no âmbito da Bibliografia e, nos Estados Unidos, em 1908, um grupo de bibliotecários abandonou a American Library Association (ALA) para fundar a Special Libraries Association (SLA). Essa associação, em 1937, mudou sua denominação para American Documentation Institute (ADI), constituindo o braço norte-americano da Documentação. E, em 1968, a ADI mudou seu nome para American Society for Information Science (Asis, atual Asis&t), tornando-se a primeira associação científica da área de Ciência da Informação do mundo (ORTEGA, 2004).

O segundo fenômeno importante foi a atuação que diversos cientistas começaram a desempenhar, sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, primeiro na Inglaterra, depois nos Estados Unidos e em outros países, de prover seus demais colegas de informação em suas respectivas áreas de atuação. Alguns químicos, físicos, engenheiros e outros cientistas começaram a se dedicar ao trabalho de elaborar índices, resumos, promover canais de disseminação, de forma a facilitar a agilizar o trabalho de seus pares e, depois de algum tempo, começaram a designar a si mesmos cientistas da informação (FEATHER; STURGES, 2003). Embora tenha nascido como uma atividade eminentemente prática, ao longo dos anos essa iniciativa foi se direcionando para uma importante institucionalização, primeiro na Inglaterra, com a realização da Royal Society Scientific Information Conference, em 1948, e a criação, em 1958, do Institute of Information Scientist. Pouco depois, na União Soviética, foi criado o Viniti, Vserossiisky Institut Nauchnoi i Tekhnicheskoi Informatsii, vinculado à Academia de Ciências. E, a seguir, em 1958, ocorreu nos Estados Unidos a International Conference on Scientific Information. Nesse processo de institucionalização, foi-se firmando, por um lado, a ideia de que a CI era uma ciência dedicada à informação em ciência e tecnologia. Igualmente importante, contudo, foi a preocupação de base dessas ações: não mais a necessidade de se ter a posse dos documentos, mas a prioridade dada à sua circulação, ao seu fluxo, e ao atendimento das necessidades dos cientistas em sua frente de trabalho. Por um caminho bastante diferente, acentuou-se a vertente pós-custodial estabelecida pela Documentação.

O terceiro fenômeno se deu na confluência de desenvolvimentos tecnológicos e a conseqüente problematização científica de seus desdobramentos. Como já citado acima, na década de 1930 o progressivo uso das técnicas de microfilmagem foi pouco a pouco conduzindo a uma reflexão sobre a possibilidade de dissociação entre o suporte físico da informação e o seu conteúdo, na medida em que o conteúdo de um livro ou jornal poderia ser microfilmado e, portanto, preservado (e também utilizado, disseminado, etc) de forma independente do documento original. Com o desenvolvimento dos computadores nos anos seguintes, esse pensamento se acirrou: um item físico de informação poderia ser convertido em dígitos e, como tal, preservado, transmitido, transportado e reproduzido (o que, décadas depois, com o advento das redes de computadores e a convergência das mídias, iria adquirir proporções muito maiores). Aumentaram as possibilidades de acesso, de guarda, de compartilhamento justamente pelo desprendimento da materialidade. É a passagem da preocupação com uma manifestação física do conhecimento humano (seu registro num suporte material) para a preocupação com o seu conteúdo que marca a mudança do uso do termo “documento” para o termo “informação”. Justamente para dar conta disso é que dois pesquisadores ligados ao MIT, Shannon e Weaver, publicaram, em 1949, um importante livro que traz, pela primeira vez, um conceito científico de informação, preparando o terreno para o surgimento de uma disciplina dedicada a esse objeto. Em sua definição de “comunicação” como um processo em que um emissor envia uma mensagem para um receptor (no qual a informação é uma medida da probabilidade dessa mensagem), os autores dizem que tal processo comporta três dimensões: uma dimensão técnica (aquilo que é transmitido precisa ser fisicamente recebido do outro lado), uma dimensão semântica (aquilo que é transmitido está sujeito a interpretações, possui um “potencial” de sentidos possíveis) e uma dimensão pragmática (algo é transmitido de uma pessoa para outra no seio de determinadas ações, contextos, objetivos). Mas os autores produziram, deliberadamente, uma teoria voltada apenas para a primeira dimensão (SHANNON; WEAVER, 1975).

Encontram-se aí os elementos que deram origem à CI. Em primeiro lugar, uma preocupação não com a custódia, a posse de documentos, mas com a sua circulação, sua disseminação, a promoção de seu uso da maneira mais produtiva possível. Depois, o foco não propriamente nos documentos (registro físico) mas em seu conteúdo ou, dito de outro modo, na informação contida nos documentos. É nesse sentido que a CI, embora tendo em seu leque de preocupações os registros do conhecimento humano, mostrou-se, desde sua origem, marcadamente fincada numa dimensão bastante diversa daquela presente em outras áreas/disciplinas também voltadas para o estudo, o manuseio, a preservação e a promoção do uso desses registros (tais como a Arquivologia, a Biblioteconomia e a Museologia). Essa distinção é por si só significativa para marcar tanto a especificidade de cada uma das áreas como a novidade representada pelo surgimento da CI.

Uma vez constituída institucionalmente como uma disciplina científica, a CI viu-se diante do desafio de possuir uma teoria e um objeto que fundamentassem suas pesquisas. Para tanto, serviu-se inicialmente da Teoria Matemática proposta por Shannon e Weaver – uma teoria, como dito pelos próprios autores, voltada apenas para a primeira dimensão dos problemas relacionados com a comunicação e a informação. Ao considerar apenas os problemas técnicos relativos à transmissão de mensagens, a CI operou uma “redução” de seu objeto de pesquisa, considerando apenas os aspectos fisicamente observáveis e mensuráveis da “informação”, inserindo-se claramente na perspectiva positivista ainda em voga sobretudo nos contextos de pesquisa da época da guerra fria sintonizados com objetivos estratégicos militares. A confirmando dessa tendência se deu justamente em 1968, com o já citado artigo de Harold Borko, e trabalhos que se seguiram, como os de Saracevic que, ao afirmar que a CI seria uma ciência interdisciplinar por natureza, reforçou a importância do aporte de pesquisadores das ciências naturais que trouxeram, junto com eles, também um modo de raciocínio científico próprio – justamente o modo positivista, que consiste na aplicação, aos fenômenos e processos humanos, das mesmas técnicas de observação e pesquisa das ciências da natureza, em busca de leis e princípios universalmente válidos.

Toda uma agenda de pesquisa se desenvolveu a partir daí, seguindo-se um diálogo intenso da CI com a área de Computação (no estudo e desenvolvimento de sistemas de informação) e com a Biblioteconomia – ou, melhor, com uma parte da Biblioteconomia, justamente aquela mais voltada para os instrumentos de processamento técnico dos registros bibliográficos, adaptados e aplicados pela CI ao processamento técnico “da informação”. Essa visão de CI se consolidou e foi expressa em manuais que se tornaram muito populares em todo o mundo - como o do próprio Saracevic e de outros autores como Le Coadic, Taylor e Flynn.

Mas o que a CI de fato se tornou foi muito mais do que essa primeira versão. A evolução de suas diferentes perspectivas de pesquisa, antes, parece demonstrar que o caminho da CI tem sido o de, gradualmente, incorporar em sua problemática as outras duas dimensões apontadas por Shannon e Weaver. A primeira delas, a dimensão semântica, vem sendo reivindicada pela CI principalmente por meio de pesquisadores relacionados com a dimensão cognitiva dos fenômenos informacionais. O evento The Copenhagen Conference Theory and Application of Information Research, ocorrido em 1977, na Dinamarca, é considerado um marco na manifestação da necessidade de incorporação dessa dimensão. A segunda, a dimensão pragmática, vem sendo trabalhada por autores contemporâneos do campo, e teve como marco de surgimento o I CoLIS – International Conference on Conceptions of Library and Information Science, realizado em 1991, na Finlândia.

Mas, antes de descrever o significado destes dois movimentos, é importante se destacar a maneira como se chegou a eles. Para isso, é imprescindível avaliar como foram se desenvolvendo as diferentes perspectivas em CI ao longo das décadas. Embora diferentes autores apresentem diversos mapeamentos da CI, será usado como referência para essa apresentação o quadro de González de Gómez (2000), que identifica alguns “programas de pesquisa” no campo da CI. O primeiro deles, que está na origem mesma do campo, é o do estudo dos fluxos de informação científica e tecnológica. Embora alguns estudos iniciais estivessem voltados para a busca de caracterizações universais das diferentes fontes e recursos informacionais presentes na prática científica (tempo de produção de cada um deles, vantagens e desvantagens, completude, custos, etc), muito rapidamente esses estudos se deslocaram para as práticas informacionais dos cientistas, identificando a importância da comunicação informal (com a descoberta dos “colégios invisíveis”), ampliando portanto o foco de observação da CI.

Nos anos seguintes, a crescente conformação de um campo de pesquisas especificamente voltado para os usuários inseriu a dimensão cognitiva na agenda de pesquisas. Necessidades de informação, estratégias de busca da informação, competências informacionais (fenômenos/atributos que não estão presentes na fisicalidade dos documentos) também se tornaram objeto de estudo da CI. Os sujeitos passaram enfim a ser vistos como tais – e não apenas como atributos sócio-demográficos sujeitos a leis e variáveis intervenientes, cujas ações seriam sempre apenas reflexos de forças colocadas fora deles.

Também o campo voltado para a economia política da informação (bem como estudos voltados para as ligações entre informação, cidadania e democracia) começou a problematizar a ligação existente entre fontes, serviços e sistemas de informação e os contextos econômicos, políticos, regulatórios, sociais e culturais nos quais essas fontes, serviços e sistemas se inserem. Essa problematização foi fundamental para se perceber a natureza essencialmente histórica e contextual dos fenômenos informacionais – em franca oposição à perspectiva positivista universalizante dos anos 1960.

Os estudos em gestão da informação e do conhecimento também trouxeram uma série de inovações. Entre elas, a própria distinção entre “conhecimento tácito” e “conhecimento explícito” (tomada da filosofia de Polanyi) ajudou a esclarecer ainda mais as distinções entre documento e informação. No âmbito dessa subárea também foram estudados os processos por meio dos quais conhecimentos tácitos tornam-se explícitos e vice-versa, bem como a natureza coletiva desse processo.

Por fim, os estudos mais recentes em representação da informação, incorporando as possibilidades trazidas com o hipertexto e as interfaces digitais, proporcionaram um grande avanço na própria percepção do caráter essencialmente construído dos processos de representação. Organizar e representar a informação não são processos de “reprodução” da realidade, não consistem na produção de um “espelho” do real – antes, significam diferentes maneiras (realizadas por atores específicos, em contextos sócio-históricos específicos e, importante destacar, a partir de tecnologias específicas) por meio das quais a realidade é apreendida e sistematizada.

Analisando-se as contribuições teóricas dessas diferentes correntes (apresentadas aqui muito sucintamente, dados os limites deste texto), torna-se mais fácil demonstrar como vem se dando a evolução do próprio conceito de informação no âmbito da CI. Num primeiro momento, a Documentação e a atividade dos primeiros “cientistas da informação” marcaram uma primeira direção: a CI estaria preocupada com a otimização dos fluxos dos documentos, com a sua circulação e o seu uso, mais do que com sua posse e seu tratamento técnico. A seguir, a própria evolução tecnológica (e a “revolução digital”) pareciam demarcar claramente a diferenciação entre “documento” e “informação”. Contudo, a adoção acrítica da Teoria Matemática e de uma postura positivista, a preocupação em encontrar as propriedades gerais da informação tomada como “coisa” (ou seja, os documentos) e desenvolver sistemas de recuperação de itens informacionais acabaram reconduzindo a CI para o estudo dos documentos, daquilo que tem existência física, passível de ser medido e quantificado. Informação deixou de ser entendida como “coisa” enquanto suporte (o livro, o documento) mas continuou sendo “coisa” no sentido de “conteúdo”, um conteúdo “objetivo”, entendido da mesma forma por qualquer sujeito, passível de ser “objetivamente descrito”, ainda que podendo estar inscrito em diferentes suportes. Tal visão é o que Capurro (2003) chamou de uma perspectiva física de estudo da informação, que vigorou como tendência hegemônica da CI na década de 1960 e continuou forte nas décadas seguintes.

Observando-se a evolução das diferentes pesquisas, é possível perceber que desde finais dos anos 1970 vários autores começaram a definir “informação” numa perspectiva mais abrangente. Nos anos 1980 proliferaram definições de informação relacionando-a com “dado” e “conhecimento”. Informação já não seria mais o documento, o dado, a “coisa” física; e nem o conhecimento que está na mente das pessoas – ela emerge da interação entre eles. Essa é a grande inovação teórica daquilo que Capurro (2003) chamou de modelo cognitivo: algo pode ser definido como informação não apenas por aquilo que tem em si, mas somente na perspectiva de um sujeito que conhece. Os dados, aquilo que tem existência material, possuem uma dimensão objetiva (e ela define um certo horizonte de possibilidades de significado). Já o conhecimento do sujeito também estabelece um horizonte de compreensão, por ser composto de coisas “já sabidas” e por quadros de sentido nos quais o já sabido se acomoda. A informação emerge do encontro essas duas esferas, aquilo que o dado “diz” e aquilo que o conhecimento “permite” compreender do dado. Tem-se aqui um quadro de compreensão da informação mais complexo – a dimensão semântica foi, afinal, incorporada à CI.

É a partir da década de 1990 que se observa um novo avanço teórico. Diferentes estudiosos, das mais diversas subáreas da CI, foram obtendo resultados de pesquisa que apontavam que esse “algo” identificado como “informação”, obtido no processo de interação entre dados e conhecimento, não era definido apenas pelo sujeito específico, um sujeito individual, isolado, destacado do mundo e do convívio com outros. Antes, os contextos específicos (as realidades históricas, políticas, econômicas, culturais) são parcialmente determinantes do processo. Ao mesmo tempo, o coletivo, isto é, as demais pessoas com quem o sujeito específico interage, também são fundamentais na determinação do processo. Ou seja, as pesquisas desenvolvidas nas últimas duas décadas evidenciaram o caráter essencialmente contextual e intersubjetivo dos fenômenos informacionais. E a CI, incorporando em seu objeto de estudo essas dimensões, acabou por finalmente “acolher” a dimensão pragmática apontada em 1949 por Shannon e Weaver – no movimento teórico denominado por Capurro (2003) “paradigma social” da CI.

Visões semelhantes desse processo aparecem nos trabalhos de outros autores. Salaün e Arsenault (2009), por exemplo, apontam as três dimensões constituintes dos documentos: a forma ou signo, o conteúdo ou texto e o meio ou relação. Como apontam os autores, para que um documento cumpra suas funções estas três dimensões precisam estar reunidas: um documento precisa ser percebido materialmente, compreendido e inserir-se no âmbito de um uso social. Também Silva (2006) aponta as seis características da informação, citadas aqui na ordem inversa: a informação é quantificável, reprodutível e transmissível (características de um objeto físico), é pregnante de sentido (dimensão simbólica), se integra dinamicamente a um contexto e se estrutura pela ação humana (dimensão pragmática).

Na argumentação de todos esses autores, guardadas as singularidades terminológicas, visualiza-se a construção de três maneiras de se entender a informação. Um quadro síntese dessas classificações, que apontam para três “momentos” relacionados com o conceito de informação, é apresentado a seguir:




Autores

Primeiro modelo

Segundo modelo

Terceiro modelo

Shannon e Weaver

Técnico

Semântico

Pragmático

Salaün e Arsenault

Forma/signo

Conteúdo/texto

Meio/relação

Silva

Quantificação, reprodutibilidade, transmissibilidade

Pregnância (do sentido)

Integração dinâmica (contexto) e estruturação pela ação

Capurro

Físico

Cognitivo

Social

Síntese

Dimensão material, “coisa”

Dimensão de significado, relação informação/conhecimento

Intersubjetivo, pragmático, construída coletivamente na ação

Após percorrer todo esse conjunto, o que é a CI, então? Naturalmente que todas as ampliações e transformações vivenciadas pela CI já não permitem mais identificá-la com as três visões gerais que se costuma ter da CI apontadas no início deste texto. A evolução dos três grandes modelos de estudo da CI (que foram apontados neste texto a partir da contribuição de Capurro, mas que poderiam ter sido analisados a partir da argumentação de outros autores) exigem e convocam a uma redefinição da especificidade do campo.

Na vigência do modelo “físico”, a CI, embora voltada para o estudo dos documentos, dos itens informacionais fisicamente observáveis, não era uma outra Documentação, nem uma outra Biblioteconomia ou qualquer ciência voltada para o estudo de documentos. Havia desde ali uma especificidade, um olhar próprio da CI sobre esses objetos. Da mesma forma, com a conformação do modelo “cognitivo”, a CI não se tornou uma “ciência dos conhecimentos”, uma “ciência das ideias”, isto é, uma ciência daquilo que estaria “dentro da mente” das pessoas – embora mantivesse também aí um olhar próprio sobre esses fenômenos. Agora, no âmbito da perspectiva contemporânea pragmatista, inserem-se o contexto sócio-cultural e o contexto interacional dos sujeitos no escopo do objeto de estudo do campo. Mas a CI não é a ciência dos contextos sócio-culturais e nem a ciência das interações entre os sujeitos. Porém ela busca, também nesses elementos, algo de específico, de particular: a dimensão informacional presente nesses fenômenos. É, mais uma vez, aí que reside o olhar informacional, o lugar de onde a CI observa os diferentes fenômenos da realidade.

Mas o que isso significa? O que é, afinal, informação, na confluência dessas contribuições? Recorremos novamente a Capurro que, em outro trabalho (CAPURRO, 2009), para definir informação, remonta aos conceitos gregos de eidos (ideia) e morphé (forma), significando “dar forma a algo”, que permite a construção de um olhar que se inscreve no âmbito da ação humana sobre o mundo (“in-formar”) e a partir do mundo (se “in-formar”). Ou seja, os seres humanos, em suas diferentes ações no mundo (produzir pesquisa científica, construir sua identidade, monitorar o ambiente mercadológico, testemunhar direitos e deveres, etc), produzem registros materiais, documentos – eles in-formam. É essa ação de produzir registros materiais que é a informação, que é o objeto de estudo da CI. A CI não estuda a ação administrativa, política, cultural, etc, em si mesmas, mas apenas naquilo que elas têm de informacional. Ao mesmo tempo, os seres humanos, também em suas diferentes ações (pode-se citar as mesmas ou outras, como tomar decisões de investimentos, testemunhar determinados direitos, comunicar-se com os outros, etc), utilizam documentos, registros materiais – os seres humanos se in-formam. É também essa ação de utilizar, se apropriar dos registros de conhecimento que é a informação, e que é também objeto de estudo da CI. Uma visualização desta ideia é apresentada a seguir, onde se pode distinguir as relações da CI com as mais diversas áreas do conhecimento e, também, as relações específicas com Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia.



É nesse sentido que Silva (2006) aponta que os documentos, os registros materiais, são apenas um epifenômeno da CI – eles não são os objetos de estudo, são apenas uma manifestação primeira a partir da qual podem ser buscados e analisados os fenômenos informacionais. Numa argumentação semelhante, Bates (1999, citada por Robredo, 2003) compara a CI com um iceberg: acima da linha da água, no plano do visível, estariam os documentos; mas, abaixo da linha da água, estaria todo um conjunto de fenômenos e processos que também fariam parte do objeto de estudo da CI.
3. As relações da CI com Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia

Nos últimos anos, no Brasil, o campo institucional da CI vem passando por uma grande modificação, com a ampliação da oferta de cursos de graduação em Arquivologia (eram nove até 2006, hoje são 15) e de Museologia (eram três até 2006, hoje são 14). Isso porque, em um significativo conjunto de casos, esses cursos têm sido criados em escolas ou departamentos de Ciência da Informação (CI). Até aí, poderia-se pensar que se trataria de uma mera contingência institucional: estes cursos estariam sediados nestas escolas ou departamentos, nos quais já existiam cursos de Biblioteconomia, mas isso não faria qualquer diferença em sua natureza ou caracterização.

Não é, contudo, o que tem acontecido. Nas diferentes universidades onde esses cursos e áreas têm convivido, estão surgindo iniciativas ou propostas de promoção, de algum tipo e em algum nível, de diálogo e/ou integração entre eles. Seja por meio de construção de um núcleo comum de disciplinas nos cursos de graduação, de atividades transversais de investigação ou promoção de eventos contemplando duas delas ou as três áreas, diversas ações têm sido desenvolvidas no país, sinalizando que a convivência entre essas áreas num mesmo espaço institucional significa mais do que uma justaposição: implica mudanças epistemológicas, incorporação de teorias e métodos, compartilhamento de conceitos e abordagens.

Assim, embora estejam ocorrendo no país diversos eventos que buscam a delimitação da especificidade destes campos e sua autonomização, ao mesmo tempo têm se concretizado diferentes esforços que enxergam, na proximidade institucional entre essas áreas, não um problema, mas uma potência, uma oportunidade de fertilização e incremento conceitual e de pesquisa.

Do ponto de vista epistemológico, é importante destacar alguns dos pontos de tensão entre essas áreas. Tais pontos são resultantes, sobretudo, de um desconhecimento (ou de um conhecimento apressado ou superficial), por parte das três áreas, do que é a CI. Ao tomar a CI numa das três perspectivas inicialmente apresentadas neste ensaio, tanto a Arquivologia quanto a Museologia, ao se aproximam para dialogar com a CI, se vêem numa empreitada empobrecedora, quando não desestimulante, para elas. Entre os argumentos mais comuns que apontam a impertinência desse diálogo encontram-se as ideias de que estas duas áreas lidam com questões que se referem a muitos outros ambientes além daquele relativo à ciência e tecnologia; de que elas são muito mais amplas do que apenas o processo “documentário”, isto é, do tratamento técnico (e que suas técnicas são muito específicas, sendo inadequado simplesmente aplicar os mesmos princípios biblioteconômicos aos acervos e coleções arquivísticos e museológicos); de que, embora os arquivos e museus virtuais/digitais sejam uma realidade muito significativa, os campos de conhecimento não podem se resumir a eles ignorando as suas demais manifestações. Além disso, as três concepções “tradicionais” de CI deixam de fora uma série de questões relevantes para os dois campos, tais como as discussões sobre memória, patrimônio, cultura, entre outras. Em suma, os argumentos que defendem que a CI não tem tanto a oferecer à Arquivologia e à Museologia, tomados nestes termos, fazem muito sentido – e são eles que têm sido, nos últimos anos, os principais pontos levantados por aqueles que têm defendido a separação (em alguns casos, radical) entre essas áreas de conhecimento.

Mas aqui é que entra um outro ponto, fundamental, que muitas vezes não emerge com suficiente clareza nos debates: a de que a CI não se resume ao que apresentam as três visões “tradicionais”, tal como demonstrado na primeira parte deste texto. Por outro lado, é justamente a CI que emerge contemporaneamente, fruto dos avanços conceituais e de pesquisa alcançados nas últimas décadas, que se apresenta como um interlocutor importante para a Arquivologia e para a Museologia (e, claro, para a Biblioteconomia, com a qual ela já tem dialogado intensamente). E não apenas porque o campo se tornou mais rico, no sentido de ser mais abrangente, agregando novas temáticas, incorporando novos conceitos. O próprio rumo tomado pela CI, a direção tomada pelas transformações, a coloca numa condição de diálogo privilegiado com estas duas áreas, considerando-se o panorama recente destas áreas.

Voltando ao quadro explicativo apresentado acima, se a CI destaca e estuda a dimensão informacional (a ação de produzir documentos e a ação de usar esses documentos, isto é, as maneiras como os seres humanos se relacionam com os documentos) no âmbito dos mais diversos fenômenos humanos (administrativos, jurídicos, políticos, culturais, etc), como ela enxergaria os arquivos, as bibliotecas e os museus? Nessa perspectiva, arquivos, bibliotecas e museus nada mais fazem do que interferir, se colocar no meio, desse amplo processo em que seres humanos criam e usam registros para desempenhar todas as suas demais tarefas. Ao recolher documentos e os tratar (desenvolver coleções, catalogá-las, descrevê-las, classificá-las, etc) os arquivos, as bibliotecas e os museus estão “in-formando” novamente, estão produzindo novos registros. Ao mesmo tempo, essas instituições só fazem isso para que as pessoas utilizem, busquem, acessem, visitem - ou seja, são instituições que promovem incentivos para que as pessoas “se in-formem”. Essa ação de interferência, essa intervenção específica concretizada por essas instituições, podem ser vistas, na perspectiva do olhar informacional operado pela CI, como ações de mediação. Arquivos, bibliotecas e museus promovem intervenções intencionais para promover o contato entre aquilo que está/estaria separado (as pessoas dos registros de conhecimento), buscando otimizar a maneira como os seres humanos se relacionam com esses registros (produzindo-os e os utilizando). Essas instituições atuariam, pois, como intermediárias, dentro de um vastíssimo conjunto de ações informacionais que ocorrem a todo tempo e em todo lugar. Aqui estaria a força da CI para trazer contribuições efetivas para os campos da Arquivologia e da Museologia – e, claro, para a Biblioteconomia também. A CI não traria apenas uma contribuição para recuperar dados em arquivos, bibliotecas ou museus digitais, nem seria apenas uma nova técnica de processamento a se somar às demais, nem veria essas instituições apenas como elementos no fluxo da informação em ciência e tecnologia. Nesse novo quadro interpretativo, a CI poderia contribuir para analisar a dimensão propriamente informacional das ações arquivística, biblioteconômica e museológica. Isso significa estudar e refletir sobre os processos por meio dos quais as instituições arquivo, biblioteca e museu “in-formam” - isto é, selecionam documentos para compor os acervos, escolhem determinados instrumentos de descrição, operam determinadas estratégias de disseminação e promoção de acesso, etc.

Para se ter uma medida do significado e/ou da importância dessa contribuição, faz-se necessário avaliar, ainda que em linhas muito gerais, a maneira como cada uma dessas três áreas de conhecimento se consolidou como disciplinas científicas. Apesar de todas as imensas diferenças existentes entre elas, é possível identificar um processo com características comuns entre as três. Em primeiro lugar, destaca-se o fato de que o surgimento dos primeiros tratados e manuais de arquivos, bibliotecas e museus se dá no contexto do Renascimento na Europa Ocidental. E tal fato não é um acaso: é justamente nesse período, em que ocorre uma revalorização do ser humano, da verdade humana (em oposição à lógica teocêntrica dominante na Idade Média) que se verifica, também, uma valorização das obras humanas, das produções humanas. Arquivos, bibliotecas e museus são revalorizadas como instituições, e as primeiras obras a respeito delas destacam a importância de sua ação custodial, preservacionista, como guardiãs dos “tesouros” produzidos pelo ser humano. Estas instituições são então associadas com a ideia de patrimônio. Em segundo lugar, com o progressivo advento da Modernidade nos países europeus e a transformação radical promovida nas várias instituições humanas, também os arquivos, as bibliotecas e os museus são transformados. Essa reorganização institucional motiva a produção de novos estudos sobre arquivos, bibliotecas e museus, produção essa essencialmente centrada nos procedimentos institucionais necessários para o seu adequado funcionamento. Por fim, ao longo do século XIX, diversos manuais e tratados enfatizam a vertente técnica, as regras para a descrição e organização dos acervos custodiados nas instituições arquivo, biblioteca e museu. Em sintonia com o espírito positivista da época, a Arquivologia, a Biblioteconomia e a Museologia buscam sua configuração como disciplinas científicas a partir do mesmo modelo das ciências até então legitimadas como tais – as ciências da natureza.

Essas três características (a custódia dos “tesouros”; os procedimentos institucionais; as regras de tratamento técnico) irão compor o “núcleo” de preocupação dos campos científicos da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia. Ao mesmo tempo, a dimensão propriamente reflexiva e problematizadora a respeito dos arquivos, bibliotecas e museus foi sempre sendo realizada em outros campos científicos, tais como a Administração, o Direito, a Pedagogia, as Belas Artes, a História e a Antropologia – do que resultou uma ideia, que vigorou por décadas, de que Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia seriam ciências “auxiliares” das demais, sem estatuto científico próprio e autônomo.

Ao longo do século XX, contudo, importantes desenvolvimentos teóricos promoveram uma contínua ampliação do escopo de atuação das três áreas em pelo menos quatro grandes eixos: estudos sobre as funções exercidas por essas instituições na dinâmica social; estudos de natureza crítica voltados para os papéis ideológicos exercidos por elas; estudos a partir da perspectiva dos sujeitos, voltados para os pontos de vista dos usuários ou públicos; estudos sobre os processos de representação promovidos pelas instituições. Como resultado dessas diferentes frentes de estudo, foram se conformando abordagens mais recentes que têm buscado estudar justamente os processos de reciprocidade relacionados com as instituições (arquivos, bibliotecas e museus), o contexto social mais amplo ao qual elas pertencem, os públicos que as utilizam ou se relacionam com elas, e as dimensões simbólicas envolvidas nesses processos.

Exemplos dessas abordagens contemporâneas são, na Arquivologia, as discussões sobre o “arquivo total” (SILVA et al, 1998), sobre o “contexto” do exercício das práticas arquivísticas (COOK, 1997) e sobre os arquivos como “construção social” (DELGADO GÓMEZ; CRUZ MUNDET, 2010); na Biblioteconomia, os estudos sobre biblioteca e constituição da esfera pública (VENTURA, 2002), sobre competência informacional (CALIXTO, 2010) e sobre as potencialidades das bibliotecas virtuais para a promoção do compartilhamento da informação (ROWLEY, 2002); na Museologia, as discussões sobre o ecomuseu (PESSOA, 2001), sobre o museal como objeto da Museologia (MARIAUX, 2005), sobre o patrimônio imaterial (COSTA, 2009) e sobre as interações sócio-técnicas que ocorrem nos espaços museais (MARTY; JONES, 2008).

Em todos eles encontra-se, de uma ou de outra forma, a ideia da produção humana de registros de conhecimento, a utilização desses registros, e as atividades de interferência e/ou mediação, isto é, de uma intervenção intencional, de um “colocar-se entre” e, por meio justamente desta ação, fazer se relacionarem diferentes sujeitos, instituições e instâncias. Mas são diferentes maneiras de se enxergar a mediação acontecendo. Analisar essa intervenção como uma dimensão informacional dos fenômenos, contudo, é uma maneira de fazer com que as diferentes teorias e conceitos nas três áreas possam estabelecer um terreno comum de discussão. É aí que entra a CI como campo fértil para promover o diálogo e o incremento teórico e conceitual.



4. Considerações finais

No início deste ensaio, constatou-se a pluralidade de concepções sobre o que é a CI. Após uma apresentação das concepções mais “tradicionais”, buscou-se apresentar a evolução das pesquisas, evidenciando-se em que medida elas colaboraram para a conformação de uma CI muito mais ampla do que aquela pretendida inicialmente, na década de 1960. Esse movimento de progressiva ampliação da CI foi, gradativamente, aumentando seu poder explicativo não apenas em relação ao seu objeto de estudo como, também, suas possibilidades de cooperação e diálogo com os campos da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia.

Dado o fato concreto da realidade atual (essas três áreas compartilham, total ou parcialmente, um mesmo espaço institucional, em faculdades ou escolas de CI), pode-se pensar que isso seja ou venha a ser um mero acaso, ou pode se pensar nisso como uma ótima oportunidade de promoção de diálogo por meio da dimensão informacional envolvida nas práticas arquivísticas, biblioteconômicas e museológicas. Tal dimensão seria ressaltada, para fins de reflexão científica, justamente pelo olhar informacional promovido pela CI, o que vai ao encontro da conformação contemporânea da CI no cenário internacional.

Temos, assim, um quadro atual que parece sinalizar uma importante sintonia entre as tendências recentes no plano internacional e as contingências e os interesses do panorama brasileiro. É com esse quadro de referência que os projetos de produção de conhecimento em CI precisam dialogar. E é nesse sentido que a chegada do Doutorado em Ciência da Informação da UFPB é muito bem vinda. Com sua área de concentração em “Informação, conhecimento e sociedade”, expressa em duas linhas de pesquisa, “Memória, organização, acesso e uso da informação” e “Ética, gestão e políticas de informação”, o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, por sua história e pela produção científica de seus docentes e discentes, é um ator privilegiado neste estimulante momento contemporâneo do campo da Ciência da Informação.


Referências

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