Ciências sociais em saúde no Brasil: contra-hegemonia e pensamento crítico



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Ciências sociais em saúde no Brasil: contra-hegemonia e pensamento crítico

Aurea Maria Zöllner Ianni, Brasil

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo

aureanni@usp.br

Resumo
Os anos de 1960 a 1980 foram especialmente relevantes para o pensamento social em saúde na América Latina, que se estabeleceu em torno da Medicina Social/Saúde Pública, especialmente em países como Brasil, Bolívia, México, Venezuela, Colômbia, Argentina, dentre outros. Este trabalho, resultado de pesquisa empírica, discute duas questões centrais: a de que há uma radicalidade nesse pensamento que decorre da relação estreita com as ciências sociais; esse pensamento configurou, no Brasil, um campo específico - o das ciências sociais em saúde – que até então inexistia como campo científico nas escolas de ciências sociais do país. Realizaram-se entrevistas com presidentes e coordenadores das Comissões de Ciências Sociais da Associação Brasileira em Saúde Coletiva/ABRASCO, 1995 a 2011, obedecendo os seguintes eixos: o desenvolvimento das Ciências Sociais e Humanas em Saúde; a contribuição das Ciências Sociais à Saúde Coletiva; desafios da interdisciplinaridade; a relação das Ciências Sociais em Saúde e as Ciências Sociais “tradicionais”; desafios para as Ciências Sociais e Humanas em Saúde.
Descritores: Saúde Pública, Medicina Social, ciências sociais, saúde, pensamento social



  1. Introdução

Este trabalho parte dos seguintes pressupostos: de que há uma radicalidade do pensamento social em saúde formulado no Brasil e América Latina também, ainda que esta não seja objeto deste paper, que decorre da relação estabelecida entre o pensamento médico-social e o das ciências sociais no período da segunda metade do século XX, mais especificamente a partir dos anos de 1970, e de que esse pensamento configurou, no Brasil, um campo científico específico e inovador – o das ciências sociais em saúde -, até então inexistente nas faculdades de ciências sociais do país.

As ciências sociais são disciplinas de interesse do campo médico e da saúde pública desde o século XIX. O contrário, porém, não é verdadeiro. Como objeto das ciências sociais, a saúde, em si, foi muito pouco ou nada abordada. Quando atravessou a ciência política esteve, sobretudo, referida às políticas de bem estar social e, na sociologia, esteve, quase sempre, ausente. A antropologia foi, com certeza, a disciplina que mais olhou a saúde, porém na articulação ao escopo simbólico-cultural das populações tradicionais, como elo dessa explicação (Canesqui, 2007; Sarti, 2010; Ianni, 2011, 2011a). O resultado foi que a saúde, como objeto teórico-científico em si, foi pouco, ou sequer reconhecido, pelas ciências sociais instituídas.

Na divisão científica que se estabeleceu no século XIX, coube às ciências naturais as coisas do natural e às ciências sociais as coisas do social (Comissão Gulbenkian, 1996); estas abriram mão de um objeto que é intrinsecamente híbrido (Latour, 1994).

Acrescente-se o fato de que a medicina, como prática social de cura, antecede o mundo moderno (Donnangelo, 1976), o que provoca a percepção de uma ação social pré-moderna e, portanto, ao algo da construção da modernidade, da qual as ciências sociais são caudatárias. Isso retardou a incorporação da saúde, como objeto de conhecimento, à teoria social, mesmo consistindo em prática eminentemente social.

Noutra direção, as ciências e as práticas médicas incorporaram o social desde seus primórdios, especialmente desde o século XIX. Primeiramente identificando e denunciando a causa social das doenças dos trabalhadores, que viviam sob intensa exploração pelas jornadas de trabalho, e ambientes fabris insalubres e perigosos (Rosen, 1994; Foucault, 1993). No século XX a incorporação das ciências sociais ao campo da medicina se expande, penetrando a relação médico-paciente, a educação sanitária para populações rurais e urbanas, a organização e funcionamento da instituição hospitalar, as políticas sociais de bem estar (Everardo, 1992; Briceño-León, 2003).

Na América Latina os anos de 1960 a 1980 foram demarcadores no que se refere a essa relação. A despeito da impermeabilidade das ciências sociais à saúde, elas foram, uma vez mais, intensamente convidadas pelo campo da medicina. Num contexto de reformulações no ensino médico na América Latina sob a égide norte-americana e por meio da Organização Pan-Americana de Saúde, estimula-se a implementação do projeto da Medicina Preventiva. O objetivo era atualizar e modernizar o ensino médico latino-americano, implementando o modelo preventivista, que implicava a incorporação do “social” (Nunes, 1985; Arouca, 2003). O horizonte da ação comunitária do preventivismo demandava o que médico conhecesse as populações da sua região, seus hábitos, costumes, modos de vida. Demandava também que fossem aptos a agir no “meio social”, os bairros, as comunidades, vilas e periferias. Dessa estratégia resultou a incorporação de cientistas sociais ao campo médico que, com seu conhecimento e habilidades, dariam suporte a essa prática médica. (Canesqui, 1995; Ianni, 2011; Nunes, 2014).

Entretanto, intensos debates se estabeleceram em torno desse projeto, produzindo uma reflexão epistêmica e um pensamento crítico. Esse pensamento focava a saúde como objeto produto dos contextos histórico-sociais e econômicos.

No Brasil, esse movimento veio a se denominar Saúde Coletiva e, em 1979, criou-se a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), que se estruturou em três grandes áreas temáticas: Epidemiologia; Política, Planejamento e Gestão em Saúde; e Ciências Sociais em Saúde1 (Escorel, 1999; Escorel, Nascimento e Edler, 2006; Ianni, 2011a).

Este trabalho toma as Ciências Sociais em Saúde, no Brasil, nos termos dessa conformação, um (sub)campo (Bordieu, 2004 e 2013) que se estrutura com e na Saúde Coletiva.

A tese que aqui se apresenta é de que se trata de um (sub)campo intrinsecamente paradoxal: toma epistemologicamente a saúde como objeto social, porém o faz fora e ao largo das ciências sociais tradicionalmente instituídas no país, sendo por elas pouco, ou nada, reconhecido; subsidia teórica e metodologicamente os objetos do emergente campo da Saúde Coletiva, e em decorrência influencia a sua estruturação científico-acadêmica e político-institucional, porém, na condição de um (sub)campo, seu lugar é ambíguo na medida em que, simultaneamente, protagoniza e submerge no campo da Saúde Coletiva. É dessa perspectiva que o presente trabalho olha as Ciências Sociais em Saúde no Brasil.

Apresentam-se, aqui, os resultados de pesquisa empírica, concluída2, sobre a percepção que atores importantes da ABRASCO e da sua Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde têm a respeito desse (sub)campo, tanto no que diz respeito à Saúde Coletiva como para as ciências sociais no Brasil.


  1. Descrição

Foram realizadas entrevistas com presidentes da ABRASCO e coordenadores/as da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, em exercício no período de 1995 a 2011. Com o objetivo de compreender, pelas vozes dos seus protagonistas, a constituição do campo e (sub)campo, partiu-se do pressuposto de que a reconstituição da trajetória desses sujeitos contribuiria para com a construção de uma genealogia do (sub)campo.

Considerando-se que toda história é ao mesmo tempo individual e coletiva, essa abordagem metodológica pressupôs que recolher a fala desses sujeitos permitiria entender como se deu a conformação e o desenvolvimento do (sub)campo, quais esforços teórico-epistemológicos foram empreendidos, que dilemas (inter)disciplinares seus protagonistas enfrentaram e enfrentam, além de mapear os atuais desafios dessa área de conhecimento (Ianni et. al., 2012). Tratou-se do esforço de um resgate dos “mitos de origem, dos seus fundadores”, nos dizeres de Giddens (1991). Escutá-los significou recompor não só as trajetórias individuais como também a gênese e a cartografia do desenvolvimento do campo.

O material aqui analisado corresponde ao total de 13 entrevistas em profundidade realizadas com roteiro semi-estuturado (Bardin, 1979). Os resultados permitiram identificar cinco eixos de análise: como se configurou e desenvolveu esse (sub)campo das Ciências Sociais em Saúde; a contribuição das ciências sociais no que se refere aos objetos científicos e ação política-institucional; os desafios da interdisciplinaridade considerando a inserção no campo da Saúde Coletiva; as tensões teórico-epistemológicas e institucionais entre as Ciências Sociais em Saúde e as Ciências Sociais “tradicionais”; os atuais desafios para as ciências sociais e humanas em saúde.

No que diz respeito à configuração do (sub)campo, os depoimentos confirmam que ele se estruturou especialmente através do ensino de ciências sociais nos departamentos de Medicina Preventiva e Social das escolas médicas. Primeiro, numa atitude de revisão crítica do marco sócio-antropológico comportamen­talista advindo da forte influência da matriz funcionalista em ambas as disciplinas, e muito adequado à dinâmica médico-higienista predominante, até então, nas práticas e ensino médico, e herdeiro da teoria funcionalista sistêmica advinda dos escritos dos norte-ame­ricanos Talcott Parsons, Samuel Bloom e David Mechanic. Depois, tal crítica evolui para uma perspectiva mais ampla, ancorada na matriz marxista, em que a formulação da determinação sócio-histórica do processo saúde-doença, em que foi incorporada, para além da produção do próprio Marx, as leituras de Gramsci, Althusser e Poulantzas, dentre outros. Foi assim que a matriz marxiana consistiu na abordagem teórica fundamental da reconfiguração dos objetos científicos da saúde das práticas médicas.

É importante mencionar que o contexto histórico-social de constituição do campo da Saúde Coletiva articulou interesses muito diversos e amplos, mobilizados pelo processo de redemocratização do país. O Movimento da Reforma Sanitária foi sua expressão e resultou na formulação do projeto de universalização do direito à saúde, o Sistema Único de Saúde brasileiro, o SUS.

A luta contra o regime ditatorial aparece também, nos depoimentos, co­mo fator importante naquele contexto, na agregação e mobili­zação dos sujeitos envolvidos num novo projeto sanitário e na criação da ABRASCO. Nesse cenário, a contribuição das ciências sociais ocorreu não apenas na leitura crítica dos objetos e práticas da saúde, como apoiou, praxicamente a ação política desses atores no processo de formulação de uma política social no contexto da redemocratização do país.

Os desafios da interdisciplinaridade perpassam o subcampo desde sua gênese. Há desafios intra (sub)campo, entre o domínio disciplinar próprio às ciências sociais, e há os desafios extra (sub)campo, aqueles que fazem interface com as disciplinas das ciências médicas e biológicas.

Os cientistas sociais foram, inicialmente, demandados em torno do conhecimento das ciências políticas, especialmente entre os anos de 1970 e 1980, numa consonância aos movi­mentos populares de saúde, pela Reforma Sanitária e institucionalização de um sistema de aceso universal. Posteriormente, essa aproximação desenvolveu-se de forma crescentemente aplicada, porém, na sua origem, não esteve afastada de um esforço teórico próprio. O (sub)campo, entretanto, manterá a unidade das ciências sociais – a antropologia, a sociologia e a ciência política – até os anos de 1990, quando uma dessas disciplinas se descola, expressando-se na comissão de Política, Planejamento e Gestão da ABRASCO. É importante mencionar que esse movimento não se deveu apenas a uma disputa disciplinar, mas, sobretudo, a uma disputa entre os atores do campo da Saúde Coletiva que agora agregava, além de pesquisadores, docentes, também gestores, administradores, profissionais dos serviços, etc.. A partir daí, a produção de base mais sociológica e antropológica permanecerão na Comissão de Ciências Sociais da ABRASCO e, somente na primeira década dos anos 2000, esta comissão agregará o termo Humanas à sua denominação, passando a chamar Ciências Sociais e Humanas em Saúde; um esforço de indicar a incorporação das leituras da história social, da psicologia, da filosofia e demais disciplinas das humanidades.

Quanto ao perfil disciplinar, os/as entrevistados/as identificam na Saúde Coletiva três paradigmas: a multidisciplinaridade, a inter­disciplinaridade e a transdisciplinaridade. Para eles/as além dos impasses intra (sub)campo, há os extra (sub)campo, que atingem, não raras vezes, as dimensões da incomunicabilidade e da indiferença. Num campo que articula ciências biomédicas e sociais não seria de pressupor outro arranjo, aqui, a disputa pela validação do social, ainda que largamente reconhecida, tem que ser feita diuturnamente.

“Construir” objetos comuns sobre os quais trabalhar interdisciplinarmente, entretanto, não implica perder as raízes da teoria social, dizem os/as entrevistados/as. O desafio é buscar uma interdisciplinaridade que não destitua a disciplinaridade.

Sobre a contribuição das ciências sociais à Saúde Coletiva, os principais aspectos mencionados dizem respeito à reflexão crítica sobre o processo saúde-doença e as políticas de saú­de vigentes no país, à época. Há o reconhecimento de que o arcabouço teórico, metodológico e analítico das ciências sociais contribuiu tanto para a constituição do campo da Saúde Coletiva, quanto para os demais subcampos, a Epidemiologia (que desenvolveu uma vertente denominada de Epidemiologia Social) e a Política, Planejamento e Gestão. Essa perspectiva, como se disse, carrega uma contradição: se por um lado, as ciências sociais ocuparam, e ainda ocupam um lugar transversal importante na produção desse conhecimento e na constituição do campo científico como um todo, por outro lado, essa transversalidade acarreta certa invisibilidade empírica, decorrente de dois motivos principais: a apropriação desses saberes por profissionais sem formação básica em ciências sociais e a própria pressão interdisciplinar do campo, o que as torna, muitas vezes, um conhecimento reduzido e extremamente aplicado, secundarizado aos demais saberes e/ou (sub)campos da Saúde Coletiva. Disso decorrem algumas consequências, a leitura desqualificada dos instrumentais teórico-epistemológicos e conceituais das ciências sociais ou seu uso tecnocrático, desconectado do diálogo disciplinar de origem (seja antropológico, sociológico ou da ciência política), resultando numa certa desqualificação da produção.

Sobre a relação entre as ciências sociais em saú­de e as ciências sociais “tradicionais”, identifica-se o esforço que o cientista social que entra para a área de saúde tem que fazer, porque, segundo os depoimentos, ele será “uma mistura dos dois”. Ainda que esse/a profissional permaneça atento/a à sua área básica, original, sabe-se que sua produção estará voltada à questões e objetos próprios à saúde, e, em certa medida, estrangeiros às ciências sociais tradicionalmente instituídas.

Predomina a imagem de que as ciências sociais em saúde são vistas como sumamente aplicadas, o que remete à ideia de serem menos científicas e menos nobres do que as produzidas nas escolas originais. Do ponto de vista dos/as entrevistado/as, isso traz dificuldades para a consolidação desse (sub)campo nas instâncias legitimadoras da produção cientí­fica do país e gestoras de recursos financeiros para pes­quisas em geral. Foram observadas, ainda, as dificuldades de diálogo e cooperação entre elas (ciências sociais em saúde e “tradicionais”) e as disputas por espaços científicos, como se houvesse certo grau de estranhamento e resistência mútua.

Porém, foram mencionadas algumas influências e afinida­des. Por exemplo, quando houve a discussão sobre a “crise dos paradigmas” nas ciências sociais “tradicionais”, as ciências sociais em saúde também a fizeram.

Vários são os desafios atuais apontados pelos/as entrevistados/as. Aqui, destacaremos alguns.

O exercício interdisciplinar no campo da Saúde Coletiva denuncia tanto as dife­renças da produção teórica quanto aos diferentes objetos de investigação, resultando em formas também muito diferentes de atuação política-institucional e acadêmica. As recentes estratégias de produtividade no universo da pesquisa expressam claramente essas diferenças, pois a produção em ciências sociais se diferencia quali-quantitativamente das da epidemiologia e da política e gestão.

Nos depoimentos revelou-se o empenho de coesão que existiu na origem do campo em torno da Reforma Sa­nitária, da luta contra a ditadura e do esforço de criação da ABRASCO. Naquele momen­to, a interdisciplinaridade foi necessária e constitutiva dos processos acadêmico-científicos e políticos, o que não ocorre na atualidade, em que tanto na esfera científica como na política e na das práticas de saúde os protagonistas têm sido chamados a demarcar seus territórios disciplinares. Neste aspecto, particularmente e mais uma vez, a dinâmica baseada no produtivismo da vida acadêmica desempenha papel crucial no sentido da fragmentação e do esvaziamento do debate crítico, característico das origens do campo.

A apropria­ção pouco adequada dos conceitos das ciências sociais por epidemiologistas e “politicólogos” e gestores do campo (profissionais que migraram das áreas das ciências da saúde e biológicas para a área de política, planejamento e gestão) tem promovido o esvaziamento teórico da produção. Da mesma forma, o ingresso desses ‘não” cientistas sociais no próprio (sub)campo das ciências sociais em saúde tem acarretado certa dissolução metodológica e teórica, transformando-se em questão latente de insatisfações no (sub)campo. Denuncia-se a superficialidade no uso dos referenciais teóricos das Ciências Sociais e a vulgarização das análises ditas qualitativas. Esse esvaziamento teórico, por sua vez, é reconhecido por profissionais dos outros (sub)campos – a epidemiologia, especialmente – que reclama um protagonismo das ciências sociais mais firme e problematizador, como na gênese da Saúde Coletiva. Tal situação restringe, ainda, a possibilidade de incorporar na agenda de pesquisa “novos” objetos e estu­dos que venham a contribuir para o avanço da Saúde Coletiva na contemporaneidade, em con­sonância com abordagens “complexas”, neces­sariamente ancoradas em concepções e práticas interdisciplinares.

Nessa disputa insiste-se na questão interdis­ciplinar, na perspectiva da quebra de um certo conser­vadorismo disciplinar tido como típico das ciências sociais “tradicionais”. Tam­bém mencionam um grande desafio, que é o de não esvaziar ou empobrecer as análises do campo da Saúde Coletiva, mantendo o ensino das ciências sociais nas áreas da saúde.

Evidentemente, os relatos mostram que há desafios teóricos e metodológicos. Entretanto, os/as en­trevistados/as apontam alguns elementos que po­deriam fortalecer a atuação institucional das ciências sociais e humanas em saúde na ABRASCO. Por exemplo, enfatizar temas que apresentem rele­vância para a sociedade brasileira na contemporaneidade em detrimento de assuntos internos ou específi­cos das ciências sociais, enfrentar questões emergentes na área da saúde, estimular a interação com os novos problemas postos pela sociologia e ciência política.

Indicam a necessidade de legitimar e consoli­dar, no âmbito do sistema de Ciência & Tecnolo­gia, a área das ciências sociais em saúde, com uma identidade própria, enfrentando, porém, o risco da não fragmentar a área em outros inúmeros (sub)­campos da Saúde Coletiva. Nesse sentido, apare­cem sugestões de aumentar o grupo de estudiosos da área, a sua disseminação pelo país e uma maior articulação própria; a retomada da es­sência das ciências sociais e dos seus temas ori­ginais; além de uma maior objetividade da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da ABRASCO, estabelecendo um planejamen­to mais estruturado para atuação da própria comissão sob a forma de um plano diretor.


  1. Conclusão

Como objeto científico primaz seja da sociologia, da antropologia ou da ciência política, a saúde, foi durante muito tempo inexistente nas escolas tradicionais de ciências sociais do Brasil, vindo a se estruturar por dentro do campo da Saúde Coletiva. Ainda que tenham se constituído extra muros às ciências sociais tradicionalmente estabelecidas, as ciências sociais em saúde constituem, hoje, um componente importante do pensamento social brasileiro; nos termos de Bourdieu, de certa forma, elas romperam sua tradição e instauraram uma disputa pelo monopólio da autoridade científica com seus novos objetos.

Esse (sub)campo, pela sua origem, indica uma ampliação disciplinar e, em certa medida também, a dissolução quanto à identidade original das ciências sociais. Refletindo o jogo de disputas in­ternas e externas que envolvem competência cien­tífica e o poder institucional, ele se caracteriza como de “capital controverso”, e não um capital científico “puro” (Bordieu, 2013). Com essa característica ele adotou, desde sua origem, estratégias políticas de ocu­pação de posições nas instituições científicas, nos departamentos universitários, nas agências de financiamento, nas comissões e co­mitês de avaliação, todos eles espaços de disputa pela autoridade científica.

Constatou-se que a sustentabi­lidade das ciências sociais e humanas em saúde na ABRASCO dependerá, cada vez mais, da sua legitimidade cien­tífica, teórica e técnica.

É interessante notar nos depoimentos que há uma certa “dança identitária” das ciências sociais em saúde, que tem, como eixo balizador, a relação dicotômica entre teoria x prática. Quando postas no campo da Saúde Coletiva, as ciências sociais são tidas como extremamente teóricas e inter­pretativas, em­bora seja evidente o reconhecimento da impor­tância dessas “abstrações” para a constituição do campo da Saúde Coletiva no Brasil. Quando pos­tas em relação às ciências sociais “tradicionais”, as Ciências Sociais em Saúde são vistas como extremamente empíricas e aplicadas, e por isso mesmo menos científicas.

Alguns entrevistados mencionaram o desafio da incorporação dos resultados das pesquisas para o fortalecimento do sistema de saúde no Brasil, denunciando a contradição entre a inten­cionalidade e o pragmatismo da gestão políti­ca na saúde, que muitas vezes não acolhe as recomendações e subsídios dos estudos sociais que identificam lacunas, desacertos e indicam possibilidades alternativas para melhoria das práticas e ações.

São muitos os desafios e os caminhos que os resultados desta pesquisa oferecem para as ciências sociais e humanas em saúde no Brasil. Mais uma vez, reafirma-se a força dos depoimentos que recuperam a história do (sub)campo, seu desenvolvimento e os impas­ses atuais. E, sobretudo, registram um fragmento da história contemporânea do pensamen­to social no Brasil.


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1 Nos anos 200 esse campo sofreu reconfigurações passando a incorporar o termo Humanas na sua designação, sendo hoje intitulado Ciências Sociais e Humanas em Saúde.

2 Projeto intitulado “Questões contemporâneas nas ciências sociais em saúde: o estudo de temas emergentes nos congressos brasileiros de ciências sociais e humanas em saúde, ABRASCO 1995-2011” e subvencionado pelo CNPq nº 470389/2009-5.




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