CirculaçÃo de impressos protestantes e a açÃo de robert reid kalley no brasil durante o século XIX



Baixar 109.15 Kb.
Encontro25.12.2018
Tamanho109.15 Kb.

CIRCULAÇÃO DE IMPRESSOS PROTESTANTES E A AÇÃO DE ROBERT REID KALLEY NO BRASIL DURANTE O SÉCULO XIX
Priscila Silva Mazêo

(Universidade Tiradentes/PPED/FAPITEC-SE/GPHPE)



prismazeo@hotmail.com
Marcus Aldenisson de Oliveira

(Universidade Tiradentes/PIBIC/CNPq/GPHPE)


marcus_deninho@hotmail.com

Eixo-temático 5:

Impressos, Intelectuais e História da Educação

RESUMO:

Este artigo tem como objetivo analisar a ação de Robert Reid Kalley, agente da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (BFBS), e sua relação com a disseminação de novas práticas civilizatórias e educacionais a partir de meados do século XIX. Além disso, apresenta os nomes de vendedores ambulantes de impressos protestantes que estavam sob sua direção e verifica de que maneira esse sujeito foi propagador de um modelo religioso e educacional no Brasil, durante os anos de sua atuação, nos Oitocentos. Na perspectiva da História Cultural, as Sociedades Bíblicas são compreendidas aqui como associações voluntárias, responsáveis pela disseminação de práticas educacionais e religiosas, através do trabalho realizado por seus vendedores na distribuição de impressos protestantes, vendendo e, algumas vezes, distribuindo gratuitamente. O referencial teórico-metodológico pauta-se em Ester Nascimento (2004, 2007a, 2007b), Max Weber (2002), Norbert Elias (1994), Roger Chartier (1990) e Carlo Ginzburg (2007), os quais trabalham com conceitos como associações voluntárias, cultura, impressos protestantes, práticas e método indiciário.  O texto proposto justifica-se pela insuficiência de estudos sobre impressos, livros e leitores protestantes na historiografia educacional brasileira. O missionário Kalley e seus seguidores distribuíram impressos que constituíram um dos meios pedagógicos para forjar uma cultura protestante, assim como grupos de protestantes norte-americanos auxiliaram na implantação de instituições escolares no Brasil. Com a realização de tal estudo, pode-se observar que o trabalho dessas associações, em parceria com os sujeitos envolvidos na disseminação desses impressos, desempenhou um papel significativo na implantação de escolas de diversos tipos (primárias, secundárias, de jovens e adultos, agrícolas, comerciais, etc.). Tais instituições religiosas, não mais seguidoras das doutrinas católicas, possibilitaram o surgimento de um novo modelo religioso e cultural regido por grupos de estrangeiros norte-americanos que aqui se instalaram e difundiram o protestantismo. Esta pesquisa é de cunho bibliográfico e documental, surgiu na iniciação científica e atualmente encontra-se em andamento no mestrado, trazendo resultados parciais da dissertação intitulada: “Robert Reid Kalley: um divulgador de práticas religiosas e educacionais no Brasil (1855-1876)”. Alguns resultados permitem perceber a configuração de novas ações e a difusão de novas práticas civilizatórias, além da inculcação de novos hábitos no povo brasileiro durante o século XIX.



PALAVRAS-CHAVE: Impressos Protestantes; Robert Reid Kalley; Brasil Oitocentista.

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como objetivo analisar a ação do agente da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, Robert Reid Kalley, e sua relação com a disseminação de impressos protestantes, buscando compreender a importância dos desses impressos no cotidiano da população brasileira nos oitocentos, assim como mapear a ação dos colportores1 que estavam sob a direção de Kalley, procurando entender qual foi a intensidade dessa atuação num país católico e dessa forma averiguar de que maneira este sujeito foi divulgador de um novo modelo religioso e educacional, durante sua atuação entre meados dos anos 50 a 70 do século XIX. Apresentados os objetivos que norteiam este texto, utilizaremos como aporte teórico-metodológico alguns autores que serviram de base teórica para fundamentar esta análise, como Ester Nascimento (2004, 2007), Max Weber (2002), Norbert Elias (1994) e Roger Chartier (1990), Antônio Nóvoa (1995), os quais elaboram categorias como biografia, protestantismo, associações voluntárias, cultura, práticas e representação. Esta análise é resultado de uma pesquisa em andamento que permite perceber que os impressos protestantes provocaram a difusão de novas práticas culturais e educacionais, forjando novos hábitos no século XIX.

Este texto justifica-se ainda pela carência de estudos sobre impressos, livros e leitores protestantes na historiografia educacional brasileira e no campo de pesquisa da História da Educação. As leituras já realizadas ofereceram um arcabouço e ferramentas necessárias para a produção deste artigo. A iniciativa surgiu da experiência na iniciação cientifica, ao participarmos do projeto de pesquisa intitulado Imprensa Protestante nos Oitocentos, de autoria da professora doutora Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento (2007a). Além deste texto, também de fundamental importância foi o livro Lembranças do Passado, publicado em quatro volumes, o qual registra cartas e relatórios escritos por Robert Reid Kalley e seus colaboradores. Além de cartas, estão reunidos os diários de Kalley e de sua esposa Sarah Kalley, atas, sermões e relatórios de vendas dos impressos, documentos que possibilitaram uma maior compreensão de tal ação no Brasil. Esses documentos foram organizados e publicados por João Gomes da Rocha, brasileiro e filho adotivo de Kalley. Todas as análises realizadas serviram para fomentar e aperfeiçoar nosso conhecimento e compreensão acerca deste movimento, preenchendo algumas lacunas existentes sobre a ação protestante no Brasil na história da Educação, pois, ao tratar-se de religiosos educadores, grande foi sua colaboração à educação do nosso país.

Os dados aqui reunidos revelam ações de um grupo protestante conduzido por um escocês que estrategicamente se utilizou da educação para evangelizar. O campo da História da Educação Protestante Brasileira ainda é pouco explorado, e investigar esse passado leva-nos a entender a importância do recurso tecnológico utilizado por eles para expandir o protestantismo – a imprensa e principalmente os impressos que circularam em grande número no Brasil do século XIX. Ao iniciar a investigação levantamos aspectos que se relacionam à ação de um grupo protestante norte-americano, o presbiteriano, que contribuiu para a inserção do processo de alfabetização no Brasil através de instalações de escolas durante o século XIX. Em meio às inquietações, organizamos algumas questões que se tornam relevantes nesta pesquisa: De que maneira Robert Reid Kalley foi propagador de um modelo religioso e educacional no Brasil? Quais os títulos e temas de impressos protestantes que circularam no Brasil durante o século XIX sob a sua ação? Qual a contribuição desses impressos para os futuros leitores nos oitocentos? Quais foram os colportores que trabalharam com Kalley e sua importância na difusão do protestantismo? São algumas das questões a que buscaremos responder nesta análise, na perspectiva de esclarecer algumas lacunas sobre a presente temática.

Em meio a construções e desconstruções de fatos históricos, o método indiciário tornou-se um dos procedimentos úteis na realização desta investigação, tomando como referência a conceituação aplicada pelo historiador italiano Carlo Ginzburg (2007). Trata-se de um método que valoriza os pormenores da trama, por vezes negligenciáveis, e que para uma cautelosa investigação poderão tornar-se reveladores para a compreensão dos acontecimentos, auxiliando no desvelamento de práticas culturais. Uma das características deste método é a observação do que não é óbvio na configuração histórica.
IMPRESSOS PROTESTANTES E A IMPORTÂNCIA DAS SOCIEDADES BÍBLICAS
Em meados do século XIX, inicia-se no Brasil a divulgação de impressos protestantes, a qual se deu início através do trabalho realizado por membros das Sociedades Bíblicas responsáveis pela publicação dos impressos. No desenrolar da pesquisa pode-se perceber a intervenção de duas sociedades, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (BFBS) e a a Sociedade Bíblica Americana (SBA). A primeira foi fundada no ano de 1804, e a segunda em 1816, sendo que ambas tinham o mesmo objetivo, de propagar a Bíblia e demais impressos religiosos provenientes dela, agindo, inteligentemente, com o diferencial de proporcionar a escrita na língua nacional de cada país em que estivessem atuando, facilitando dessa forma a maior aceitação possível do novo, o protestantismo.

Tais instituições foram organizadas como uma espécie de corporação, em que seus membros eram divididos por cargos, entre eles estavam os agentes, uma espécie de supervisores, e os colportores, vendedores ambulantes de impressos. Mas, além destes, para que as sociedades funcionassem, era necessário contar ainda com o trabalho de portadores e comandantes de navios no trabalho de exportação, como também de comerciantes que divulgavam e vendiam os impressos em seus estabelecimentos, além da organização interna, composta por tesoureiros, superintendentes e outros. O uso desses impressos extrapolou a área religiosa, os quais foram utilizados também como livros didáticos nas escolas protestantes e nas escolas dominicais como material pedagógico para alfabetizar seus alunos, desviando-se da área da Teologia, ou seja, como “dispositivos através dos quais os indivíduos visam impor determinadas representações do grupo social em que se encontram inseridos” (NASCIMENTO, 2007a, p. 23).

As Sociedades Bíblicas são compreendidas aqui como associações voluntárias (WEBER, 2002) que funcionavam sem auxílios governamentais. Eram organizadas por grupos de pessoas que tinham objetivos em comum. Sobre suas formações, podemos apresentar que o agente deveria ter formação de nível superior e tornava-se o representante responsável no país em que desenvolvia o trabalho de evangelização e distribuição dos impressos. Já o vendedor ambulante, ou colportor, como ficou conhecido no Brasil, geralmente tinha formação primária. Estes se tornaram os principais responsáveis pelo trabalho de disseminação dos impressos protestantes no Brasil.

Os vendedores ambulantes tinham a função de divulgar nas ruas, de casa em casa, o material. Além disso, cabia a eles observar as cidades visitadas, tendo por missão apresentar aquelas onde possivelmente poderiam instalar igrejas e escolas protestantes. No trabalho regional, os vendedores deparavam-se com pessoas não alfabetizadas, e quando isso acontecia, ofereciam o envio de um professor missionário, vinculado à Missão Presbiteriana no Brasil, para então ensiná-los, tornando-se dessa forma uma estratégia de ação, educando através dos impressos religiosos e, como consequência, evangelizando-os. Esta foi a maneira que encontraram para preparar o território para a inserção de suas igrejas e escolas e, logo, propagar o protestantismo (MAZÊO e NASCIMENTO, 2009). O sujeito que propomos apresentar foi um importante personagem para a história do protestantismo, tanto no Brasil como em Portugal. Convém salientar que no Brasil ele atuou como agente respeitável da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira de Londres, a qual foi responsável pelo custeio de seu trabalho, diferentemente do período em atuou em Portugal.

Com a tradução da Bíblia e o baixo custo desta, as camadas populares puderam ter acesso às palavras sagradas, homogeneizando assim o conhecimento do sagrado, de forma que todos tivessem acesso, objetivando possíveis manifestações contra as imposições e os ordenamentos da Igreja Católica, o que configurou uma verdadeira disputa de campo entre esses grupos religiosos.

Os impressos protestantes são compreendidos nesta investigação como espaços de divulgação e circulação de ideias, os quais serviram como dispositivos para divulgar as ideias do protestantismo, e desta forma forjarem novas maneiras de pensar. Para o historiador Le Goff, o documento


não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio (LE GOFF 1984, p. 103).

Tais impressos operaram de maneira a conformar novos grupos sociais com novos paradigmas, novas maneiras de compreender as coisas e o mundo. Serviram como importantes ferramentas de trabalho para a divulgação e expansão da questão religiosa no Brasil.

Diversos foram os tipos de impressos produzidos e utilizados pelos protestantes, como a Bíblia, o Novo Testamento, livros, folhetos e hinos; alguns destes serviram ainda como material didático-pedagógico. No Brasil, Kalley, em sua função de agente, realizou vários pedidos de impressos à Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira na Inglaterra, distribuindo-os estrategicamente no território brasileiro em 1856, aproximadamente 200 ou 300 Bíblias e 2.000 ou 3.000 livretos e folhetos (ROCHA 1941, p. 45).

Com o trabalho de venda de impressos, missionários protestantes, agentes e vendedores ambulantes trabalharam em conjunto colaborando para que a leitura se tornasse possível aos desconhecedores das letras. Com isso, as pessoas começaram a participar das reuniões de leitura bíblica, as crianças passaram a frequentar às escolas dominicais e posteriormente as instituições escolares fundadas por protestantes, com o propósito de terem acesso à palavra impressa.

Grande parte da literatura protestante que circulou no Brasil durante o século XIX foi editada pela gráfica e editora Livraria Evangélica da rua das Janelas Verdes, em Lisboa, e no Brasil, pela Casa Vanorden, enquanto que as Bíblias vinham da Inglaterra e dos Estados Unidos (NASCIMENTO, 2007, p. 16).

No ano de 1850, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira distribuiu 200 Novos Testamentos em alemão na cidade de Petrópolis. Um ano depois, uma remessa de 1.000 Bíblias em português foi enviada a um negociante na cidade do Rio de Janeiro, e 36 unidades a um correspondente cujo nome não foi registrado, em Salvador. No ano de 1852, o mesmo negociante do Rio de Janeiro recebeu dessa Sociedade uma quantia correspondente a 700 Bíblias Sagradas.

A Sociedade Bíblica Americana distribuiu no Brasil, em 1842, 55 Bíblias e 93 Novos Testamentos para algumas cidades do Pará e do Rio Grande2. Entre os anos de 1842 a 1853, essa instituição distribuiu no território brasileiro aproximadamente 600 Bíblias e 900 Novos Testamentos em português. Além disso, enviou 100 Bíblias e 209 Novos Testamentos para o americano Nathan Sands, que morava no Rio de Janeiro. Estes dados apresentam um resultado parcial sobre a quantidade de impressos que circularam no país durante o século investigado.

O quadro abaixo apresenta tipos, quantidades e títulos dos impressos protestantes que circularam no país, podendo em alguns destacar o remetente, destinatário ou local destinado.

QUADRO 1: Circulação de Impressos protestantes no Brasil, no período de 1856 a 18643


COLPORTOR_E_LOCAL__TIPO__DE_IMPRESSO'>DATA/ANO

COLPORTOR E LOCAL

TIPO

DE IMPRESSO

QUANTIDADE E TÍTULO DOS IMPRESSOS

1856

-

Livros, livretos e folhetos

200 ou 300 Bíblias e aproximadamente 2.000 ou 3.000 livretos e folhetos

09/1856

Francisco da Gama (RJ)

Livros e folhetos

12 Bíblias, 48 Novos Testamentos, 10 folhetos Divina Autoridade

11/1856

Francisco da Gama (RJ)

Livros

51

12/1856

-

Livros e folhetos

34 Novos Testamentos

45 folhetos



01/1857

-

Livros e folhetos

2

9 Bíblias

36 Novos Testamentos

31 folhetos



02/1857

-

Livros e folhetos

68 Bíblias

28 Novos Testamentos

33 folhetos


03/1857

-

Livros e folhetos

56 Bíblias

14 Novos Testamentos

21 folhetos


04/1857

-

Livros e folhetos

35 Bíblias

13 Novos Testamentos

22 folhetos


05/1857

-

Livros e folhetos

45 Bíblias

29 Novos Testamentos

24 folhetos


05/1857

Rio de Janeiro

Folhetos e cartilhas para as escolas

850 folhetos Viagem do Christão;

1.700 folhetos Três perguntas sobre a Bíblia “e uma boa quantidade de cartilha (bem aceitas nas escolas), como Henriquinhos, além de outras publicações compradas na Sociedade Americana de Tratados” (p. 53).



06/1857

-

Livros e folhetos

29 Bíblias

14 Novos Testamentos

Sete folhetos


-

-

Livros e folhetos

262 Bíblias

168 Novos Testamentos

183 folhetos

Distribuição gratuita e quatro Novos Testamentos e 1.076 folhetos



12/1858

Laranjeiras/SE.

Folhetos

300 folhetos Divina Autoridade

Seis folhetos que constam na Bíblia

20 folhetos Viagem do Cristão

20 folhetos que constam no Novo Testamento

160 folhetos


03/1859

-

Livros e livretos

12 Bíblias portuguesas

20 Novos Testamentos dourados

20 Novos Testamentos pequenos

20 Novos Testamentos ordinários 20 Bíblias alemãs e 20 Novos Testamentos alemães



01 a 06/1859

-

Livros

731 Bíblias portuguesas

95 Bíblias alemãs

18 Bíblias inglesas

Duas Bíblias italianas

Uma Bíblia hebraica

971 Novos Testamentos portugueses

100 Novos Testamentos alemães

12 Novos Testamentos franceses

Seis Novos Testamentos italianos

10 Novos Testamentos espanhóis

Um em grego


1863 a 1864

Francisco da Gama; Francisco de Souza Jardim;

Manuel Fernandes



Livros

419 Bíblias

854 Novos Testamentos



Fonte: ROCHA, João Gomes da. Lembranças do Passado. Vols. 1. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Publicidade Ltda., 1941.
No trabalho dirigido pelas Sociedades Bíblicas foi de fundamental importância o papel dos colportores na difusão dos impressos protestantes, assim como a ação do agente Kalley, registrando uma história no trabalho missionário que desempenhou, com o único propósito de expandir o protestantismo no Brasil. Entre os colportores que atuaram no Brasil durante o século XIX, sob a direção de Kalley, tornou-se possível até o momento apresentar os seguintes nomes, podendo, em sua maioria, destacar o local em que atuaram.

QUADRO 2: Colportores e Área de Atuação (1855-1867)4



COLPORTOR

LOCAL DE ATUAÇÃO

Antônio Marinho da Silva

Pernambuco

Antônio Patrocínio Dias

Pernambuco, Vitória (ES) e Portugal

Bernardino de Oliveira Rameiro

Rio de Janeiro

Francisco da Gama

Rio de Janeiro

Francisco de Souza Jardim

Pernambuco

Francisco Silva Jardim

Magé, Porto de Caxias (RJ)

Felíx M. Ferreira

Porto Alegre (RS) e Cachoeira (BA)

Guilherme D. Pitt

Rio de Janeiro e São Paulo

Henrique Vieira

-

João Antônio de Meneses

Pernambuco

João José da Costa

São Paulo

João Manuel G. dos Santos

-

João Severo

-

José Bastos

-

José de S. Diogo

-

José Pereira de Souza Louro

Magé (RJ) e Minas Gerais

Manuel B. de Menezes

-

Manuel de Souza Jardim

Rio de Janeiro

Manuel Fernandes

Rio de Janeiro

Manuel José da Silva Viana

Bahia e Pernambuco

Manuel P. Cunha Bastos

Minas Gerais

Manuel Vieira de Souza

Rio de Janeiro e Portugal

Patrocínio Dias

Pernambuco

Pedro Nolasco de Andrade

Sergipe

Fonte: ROCHA, João Gomes da. Lembranças do passado. Vol. 1 e 2.

Esses vendedores de impressos que trabalhavam para Kalley recebiam em média 50$000 (cinquenta mil réis) por mês, o que corresponde a uma hora de trabalho diário. Entretanto, quem trabalhasse mais de uma hora por dia receberia 60$000 (sessenta mil réis) e, por todo o dia, 80$000 (oitenta mil réis). Os vendedores tinham por obrigação fazer um relatório diário, bastante minucioso, para apresentar semanalmente a seu agente. Registravam data, locais que passavam, os títulos e a quantidade vendida e distribuída gratuitamente. Deviam descrever a cidade visitada, seu comércio, a presença da Igreja Católica e os prováveis pontos de fixação. Se seu chefe estivesse fora, o documento seria enviado semanalmente pelos Correios, de modo que o agente acompanhasse todo o movimento de seus subordinados (NASCIMENTO, 2007, p. 16).



O MISSIONÁRIO ROBERT REID KALLEY
Responsável pela implantação do Protestantismo no Brasil, Kalley foi médico, pastor e escritor. Como médico, atendeu a todos, sobretudo aqueles das classes menos favorecidas. Além disso, a imprensa tornou-se sua principal aliada, um veículo adequado para propagar o protestantismo, objetivando alcançar toda a população possível. Foi por meio do recurso impresso que Kalley conseguiu divulgar e informar aos brasileiros sobre a nova religião, pois a população tendo acesso à palavra impressa alcançaria de forma mais fácil novos fiéis, conscientizando-os sobre o conhecimento bíblico. Isto permitiu a aproximação das ideias do cristianismo protestante, que se consolidou também através do trabalho de publicação nos jornais, podendo-se firmar definitivamente o que conhecemos atualmente por protestantismo.

Kalley tornou-se agente da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (BFBS) somente em meados da década de 50 do século XIX, vendendo e distribuindo livros e folhetos, visitando casas e lojas, conversando sobre o sagrado. Realizou reuniões e cultos domésticos, com os objetivos de firmar grupos com interesses comuns, consolidar amizades e conformar redes de sociabilidade.

Estudar a ação de um sujeito ou grupo exige executar uma análise habilidosa, procurando capturar as representações de uma cultura em suas entranhas e compreendê-la em sua estranheza e originalidade sobre as várias formas de pensar e agir de uma sociedade, pois
a biografia intelectual à maneira de Febvre é, de fato, a história da sociedade, atendendo a que situa os seus heróis simultaneamente como testemunhas e produtos dos condicionamentos coletivos que limitam a livre invenção individual. (...) a uma história dos sistemas de crenças, de valores e de representações próprios de uma época ou de um grupo, (...) história das mentalidades (CHARTIER, 1990, p. 39).

O desempenho estratégico de Kalley e de seus colaboradores contribuiu para forjar novos hábitos e tradições na época, assim como a circulação e apropriação de novas idéias que, registradas nos impressos, tiveram fundamental importância no contexto da época para a implementação de uma cultura protestante num país católico. Em pouco tempo de ação os resultados começaram a surgir. Por exemplo, a senhora Gabriela Carneiro Leão foi uma das primeiras pessoas a aceitar a nova doutrina religiosa, o protestantismo. Esta, por sua vez, era uma mulher de classe alta, irmã do Marquês do Paraná e avó de Nicolau S. do Couto Esher, escritor cristão e fundador do jornal O Cristão. Esta informação nos permite perceber a influência social que Kalley procurou cultivar em sua atuação no Brasil.

A partir dos anos 50 dos Oitocentos, o Brasil seria o próximo destino a ser escolhido por Kalley para desenvolver suas atividades missionárias. Nesse período já havia a ação de outros protestantes, que atuavam com o objetivo de disseminar o Protestantismo no estrangeiro. A exemplo do Rev. James Cooley Fletcher, agente da Sociedade Bíblica Americana (SBA), o qual atuou como um forte articulador da questão religiosa, e que através da necessidade de novos mensageiros, solicitou ao seu superior, R. Baird, o envio de dois ou três madeirenses para o auxiliarem no trabalho evangélico.

Uma vez que, a Constituição Federal não permitia a prática de cultos em língua estrangeira. Assim, R. Baird convidou Kalley para trabalhar no Brasil, pois tinha conhecimento do desempenho de Kalley em Portugal. Dessa forma, no ano de 1855, o casal Kalley resolveu dar continuidade ao trabalho missionário em terras estrangeiras, dessa fez entre brasileiros.

Com o propósito de desenvolver atividades de evangelização entre os brasileiros, o casal Kalley, vinculado à Igreja Congregacional, persistiu na busca de novos convertidos, desenvolvendo um trabalho que possibilitou posteriormente a formação de diversas comunidades protestantes, tais como presbiterianas, metodistas, batistas e outras.

Em meio a suas atividades, publicou folhetos de propaganda religiosa em jornais do Rio de Janeiro e principalmente no Correio Mercantil. Entre as pessoas com quem teve amizade estava o imperador D. Pedro II, que fez visitas cordiais ao casal, e até mesmo quando Kalley esteve doente. Foi ministro evangélico, indivíduo importante para a inserção do protestantismo no Brasil e em Portugal em meados do século XIX.

Com a ajuda de sua esposa Sarah, produziu e publicou hinos sagrados para serem cantados nos cultos diários, os quais também foram utilizados como recurso pedagógico nas escolas dominicais. A primeira edição dos Salmos e Hinos no Brasil foi publicada em 1861 pela Tipografia Laemmert, pioneira do mercado livreiro e tipográfico brasileiro, seis anos após a sua primeira edição na Tipografia Laemmert de Londres.

Fundou a Igreja Evangélica Fluminense, em 11 de julho de 1858, resultado de apenas três anos de ação. O casal permaneceu no país por aproximadamente 21 anos, decidindo retornar à Escócia, seu país de origem, por motivos de saúde; e como forma de retribuição e respeito, denominou sua nova moradia de “Campo Verde”, em homenagem ao Brasil (ROCHA, 1941).

Para consolidar a missão no Brasil, Kalley contou com o apoio de muitas pessoas, mas em especial do colportor e amigo madeirense Francisco da Gama, que realizava todo o trabalho de evangelização na cidade do Rio de Janeiro, no período em que Kalley decidiu morar em Petrópolis. Eles mantinham contato através de cartas, das quais Gama descrevia os relatórios referentes à venda e distribuição gratuita dos impressos protestantes, como também realizava pedidos quando necessário, além de relatar dias de cultos e os embates ocasionados por católicos. Gama foi um sujeito de fundamental importância na consolidação do trabalho missionário de Kalley, atuando e servindo seriamente, substituindo seu dirigente quando este estava enfermo.

Uma das principais atividades do casal Kalley foi realizar uma prática educacional através do modelo de escolas dominicais, produzindo bons frutos a favor do protestantismo no Brasil, pois atendia também ao público menor. As escolas eram gratuitas e abertas a todos, crianças, jovens, adultos e negros. Eram divididas em classes para as crianças, os jovens e os adultos, cujas aulas eram ministradas por Sarah Kalley, que instruía em língua portuguesa, utilizando como recursos pedagógicos diversos impressos religiosos, práticas de cantigas através de hinos sacros e principalmente estudo e aplicação da Bíblia em vernáculo, tornando-se o principal material didático nessas escolas. Tendo em vista sua experiência em outros países, Kalley tinha uma visão que divergia no que diz respeito às práticas educativas do Brasil.

A educação no município da Côrte não mostrava muito adiantamento. O estado mantinha 26 escolas primárias, sendo 17 para meninos, com 909 alunos, e 9 para meninas com 555 alunas. A instrução particular era dada em 97 casas, das quais 51 eram para meninos, com 2.864 alunos, e 46 para meninas com 1.626 alunas. Havia também algumas escolas secundárias e acâdemias, com um total de 300 estudantes (ROCHA 1941, p. 26).

A classe dos negros era dirigida por Kalley, e aqueles que puderam participar viram nesse ato a oportunidade de serem incluídos no meio sócio-cultural dos letrados. Contudo, não somente os negros puderam ser alfabetizados; diversas pessoas pertencentes a diversas classes e de origens nacionais ou estrangeiras também o foram, através do trabalho de colportagem, das reuniões domiciliares, sendo importantes estratégias que encontraram para propagar e preparar as regiões do país para a inserção de suas futuras instituições, seja de cunho religioso ou educacional. Segundo Nascimento (2007, p. 18), como resultado do trabalho inicial de Kalley, até 1934 existiam 3.912 escolas dominicais com 14.832 professores e 166.164 alunos.

A escola dominical teve origem na Inglaterra, fundada por Robert Raikes em 1781. No Brasil, esse modelo pedagógico foi iniciado por Kalley, que originou resultados aos quais resistem até os dias atuais, em aspectos de marco denominacional e através de objetivos que se firmaram possíveis de atuação. Foram atividades que possibilitaram a inserção e incentivo de práticas de leituras às diversas classes da sociedade, assim como a inclusão dos negros na participação das reuniões e até das escolas dominicais, o que ocasionou alguns problemas, pois essas pessoas tinham que abandonar o trabalho aos domingos para se dedicarem ao estudo da Palavra do Senhor, aborrecendo dessa forma os seus donos, os senhores de engenho e donos de fazendas que não aceitavam essa ideia.

No período de 1856 a 1859, Kalley realizou vários pedidos de impressos à Sociedade Bíblica Britânica para distribuí-los em território brasileiro, totalizando aproximadamente 1.791 Bíblias, das quais 95 eram escritas em alemão, 18 em inglês, duas em italiano, uma em hebraico; 2.310 Novos Testamentos, dos quais 971 eram escritos em português, 120 em alemão, 12 em francês, seis em italiano, 10 em espanhol e um em grego. Preparou e imprimiu folhetos, tais como, “A Cobra de Bronze” e “O Remédio Eficaz para os doentes mais desesperados”; redefiniu o antigo tratado – “O que é a Bíblia?”; traduziu o livro “A Viagem do Cristão” ou “O Peregrino”, obra original de João Bunyan, e publicou-a na íntegra no Correio Mercantil, jornal do Rio de Janeiro. Este foi o primeiro ato memorável de propaganda protestante no Brasil, visto que, lançando mão da imprensa diária, ampliava assim um círculo maior de leitores. Em 14 de dezembro de 1858, foram encaminhados para a cidade sergipana de Laranjeiras 300 folhetos da ‘Divina Autoridade’, seis impressos sobre a Bíblia, 20 sobre o Novo Testamento, 20 exemplares da Viagem do Cristão e mais 160 folhetos que não foram especificados (MAZÊO E NASCIMENTO, 2008b, p. 6).

Publicou vários folhetos em O Correio Mercantil e em O Christão, jornais do Rio de Janeiro, além da publicação de hinos e traduções da Bíblia, os quais eram utilizados também nos cultos domésticos e nas aulas da escola dominical. Autêntico, preocupou-se em manter contato com a população, conversando sobre a importância do Evangelho e apresentando os impressos para que as pessoas pudessem adquirir.

Em 1856, Kalley enviou para o amigo Gama, que se encontrava na capital carioca, uma caixa contendo 12 Bíblias, 48 Novos Testamentos e 10 folhetos da “Divina Autoridade” e parte do Novo Testamento. No mesmo ano, Gama recebeu mais 51 Novos Testamentos e, como as Bíblias foram rapidamente vendidas, solicitou a compra de outra remessa, o que nos possibilita perceber os resultados da consolidação do protestantismo que estava tomando forma no Brasil Império.

Kalley também fez alguns pedidos de impressos protestantes à Livraria da Rua das Janelas Verdes, de Lisboa, com o objetivo de suprir o que pensava ser necessário para o Brasil. Encomendou 800 exemplares dos folhetos Divina Autoridade e, Quero ter, e concluiu a preparação do folheto Viagem do Cristão para ser publicado em Londres, satisfazendo assim o desejo de muitos leitores do Correio Mercantil.

Este intelectual atuou como médico, missionário, pastor, escritor, polemista e educador; foi um verdadeiro articulador, planejando suas ações e agindo estrategicamente para alcançar um único objetivo: evangelizar as pessoas através da doutrina evangélica protestante.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados levantados demonstram que os impressos protestantes foram importantes ferramentas de trabalho para a ação desses reformadores, utilizando-os com o objetivo de inserir e difundir a nova religião, tendo sido o principal veículo de divulgação de suas ideias, permitindo, assim, a definitiva inserção do protestantismo no Brasil.

Foi através dos impressos que as pessoas iletradas puderam não somente ter conhecimento da Bíblia, como também ser alfabetizadas, visto que na época somente aqueles pertencentes às classes mais abastadas tinham acesso à instrução escolar. E desta forma, aqueles que pertenciam à população desfavorecida eram incluídos em várias atividades da sociedade, assim como da possibilidade de aprender a ler e escrever.

As ações aqui apresentadas possibilitam-nos perceber a importância desse grupo protestante no processo de civilização, moralidade e educação, no processo de alfabetização das massas populares, independentemente de crença, raça ou etnia, dando oportunidades a todos, até mesmo à classe trabalhadora que sofria com a marca da escravidão, trabalhando arduamente durante a semana a fim de reservar os domingos para as aulas dominicais e reuniões domiciliares, com o desígnio de aperfeiçoar o conhecimento moral e civil por meio da utilização da Bíblia.

Considerando o recorte temporal, torna-se relevante afirmar que a ação desenvolvida por esses seguidores da fé protestante foi de grande valia para a história das práticas educacionais no Brasil, uma vez que eles agiram como articuladores de saberes e formadores de um novo modelo cultural e social.

Percebe-se ainda que ao darem início a essas ações na história da evangelização e da educação brasileira, nem tudo ocorreu como o previsto. Vários embates e conflitos ocorreram para impedir que o protestantismo se expandisse, por meio dos mecanismos e estratégias de atuação da Igreja Católica. O grupo protestante organizava-se para, principalmente, formar uma nova sociedade crítica, participativa e conhecedora de seus direitos. No entanto, naquele período, mesmo com tantas iniciativas e mudanças, em algumas cidades a população era coagida a queimar suas bíblias ou qualquer tipo de impresso religioso que fosse originada das crenças do protestantismo.

Este estudo desenvolve-se num processo de descoberta e de construções por meio de ‘retalhos’ que aos poucos dão luzes a hipóteses acerca da problemática. Ele visa compreender melhor a história na sua complexidade de fatos passados e, para além disso, detectar aspectos que vão inquietando a importância e a contribuição dessa ação estratégica, que foi iniciada há menos de 200 anos, mas de cujos resultados podemos desfrutar até hoje, visando ao crescimento econômico, educacional e moral no Brasil oitocentista.



REFERÊNCIAS
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: Enciclopédia Einaudi – Memória-História. Porto: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. V.1, 1984, p. 95-106.

MAZÊO, Priscila Silva e NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. Sociedades Bíblicas e impressos protestantes como condutores de idéias e preceitos religiosos e educacionais. In: Anais Eletrônicos do Seminário: O Núcleo de Pós-Graduação em Educação e a pesquisa educacional. São Cristóvão: UFS, 2009.

NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. A Escola Americana: origens da educação protestante em Sergipe (1886-1913). São Cristóvão: Grupo de Estudos em História da Educação/NPGED/UFS, 2004.

NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. Imprensa protestante nos Oitocentos. Projeto de Pesquisa. Aracaju: Unit/PPED, 2007a.

NASCIMENTO, Ester F. Vilas-Bôas C. do. Educar, curar, salvar. Uma ilha de civilização no Brasil tropical. Maceió: UFAL; Aracaju: Unit, 2007b.

NÓVOA, Antônio (Org.). Profissão professor. Porto: Porto Editora, 1991.

ROCHA, João Gomes da. Lembranças do passado. Ensaio histórico do e desenvolvimento do trabalho evangélico no Brasil, do qual resultou a fundação da ‘Igreja Evangélica Fluminense’, pelo Dr. Robert Reid Kalley. Primeira fase – 1855 a 1864. Vol. 1. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Publicidade Ltda., 1941.



ROCHA, João Gomes da. Lembranças do passado. Ensaio histórico do início e desenvolvimento do trabalho evangélico no Brasil, do qual resultou a fundação da ‘Igreja Evangélica Fluminense’, pelo Dr. Robert Reid Kalley. Primeira fase – 1855 a 1864. Vol. 2. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Publicidade Ltda., 1944.



1 O mascate carregava sempre consigo uma sacola ou cesta comprida, aberta e sua frente, pendurada no pescoço, com almanaques, livros e folhetos. Por causa dessa sacola portátil ao pescoço, é que os franceses denominaram-no colporteur (NASCIMENTO, 2007, p. 8).

2 Até o momento, esta pesquisa não detectou o Estado a que Rocha (1941) refere-se quando denomina “Rio Grande”.

3 A fonte utilizada para a coleta desses dados não permitiu a identificação de alguns dados, deixando lacunas.


4 A fonte utilizada impossibilitou a identificação de algumas áreas de atuação.


Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal