Claraboia



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Jô Soares
As esganadas

Romance


Para Flavinha,
Sempre

Ao amigo fraterno Hilton Marques,


Que, de novo,
Teve a paciência de ler e reler antes.
Obrigado.

Agradeço, pela valiosa colaboração.


nas pesquisas, a Paulo Scali, Bird Clemente,
Mario Sergio Cortella, Caio Franco,
Mário Eduardo Viaro, Darllan Donadio,
Derico Sciotti, Carla Camurati,
Paulo Vinicius Coelho, Luiz d.Rio,
Luiz Carlos Leal Prestes Junior,
Roger Ancilloti, Sergio Rabello Alves,
Cláudio Cerqueira Lopes,
e Antônio Sérgio Ribeiro, arquivo vivo
da nossa história. Também a Claudia Colossi,
amiga e fiel escudeira.

... (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira


Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira
[das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança,
e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa),
“Tabacaria”

Diariamente, a mulher gorda morre


uma série de pequenas mortes.
Shelley Bovey

Prólogo


Outono de 1938
“Atenção, muita atenção, amigo ouvinte da rádio prg-3, Tupi do Rio de Janeiro! A Capital Federal, conhecida pela tranquilidade que oferece a seus habitantes, enfrenta momentos de insegurança e mistério! Três jovens de conhecidas famílias da sociedade carioca sumiram sem deixar vestígios, num intervalo de poucos dias. O caso assemelha-se às tramas de fitas de suspense do cinema americano. Nosso estimado chefe de polícia, capitão Filinto Müller, promete uma breve solução para o caso. O eminente militar declarou que a presteza das investigações nada tem a ver com o fato das desaparecidas serem filhas de figuras proeminentes do Estado, pois, segundo ele, no governo democrático do presidente Getúlio Vargas todos os brasileiros são igualmente tratados.
“Essa informação chega aos vossos ouvidos numa gentileza do Elixir Phospho-Kola de Giffoni. Para fadiga mental, nervosa e muscular, o Phospho-Kola de Gif-foni é saboroso, granulado e glicerofosfatado. O Flash Phospho-Kola volta a qualquer momento com as últimas notícias. Quem vos fala diretamente dos estúdios da rua Santo Cristo é Rodolpho d’Alencastro.”
1

A gorda é a última freguesa a deixar o tradicional chá da tarde na confeitaria Colombo. Segue pela Gonçalves Dias em direção à rua do Ouvidor. Sua bata branca é amarelada pela infinita quantidade de molhos e caldos nela derramada. Farelos antiquíssimos apegam-se como náufragos desesperados aos babados da blusa. A gorda é bela. Bela e voraz. À porta da confeitaria, ainda segura meia fatia de torta de morango na mão esquerda, enquanto a direita envolve um enorme éclair de chocolate. A gorda gruda-se àquelas guloseimas como se delas dependesse sua vida. Ela é gorda, bela, voraz e gulosa.


Um dilema a aflige à medida que avança pela calçada estreita demais para ela: deveria terminar primeiro a torta ou, antes, abocanhar o éclair? Seus pequeninos olhos porcinos, indecisos, olham para os acepipes presos firmemente entre seus dedos roliços. Ela é gorda, bela, voraz, gulosa e indecisa.
Finalmente, trêmula e ofegante, numa antevisão gozosa dos prazeres que as ávidas papilas da sua língua sentiriam, a gorda atocha na boca o pedaço de torta. Mastiga e engole automaticamente, num movimento simultâneo aperfeiçoado por décadas de prática. Limpa a mão na saia cinza livrando-se dos restos do creme chantilly. As listas brancas sobre a saia formam a imagem grotesca de um quadro abstrato. Ela é gorda, bela, voraz, gulosa, indecisa e lambuzona.
A gorda chega à rua Primeiro de Março, agarrando o gigantesco éclair de chocolate com as duas mãos, como se fosse um imenso falo negro. Antes que desfira a primeira dentada na cobiçada iguaria, sua bisbilhotice é atiçada por um furgão branco fosco estacionado quase na esquina da rua. O que alerta a atenção da gorda são os diversos doces e bombons expostos numa grande prateleira que sai do veículo, e o cartaz empunhado por um homem ao lado onde se lê em letras garrafais:

degustação grátis!


prove os saborosos petiscos da pâtisserie doces finos e ajude-nos a escolher.
nenhuma experiência necessária.

Ela enfia na boca o éclair de uma só vez e se aproxima daquele Eldorado gastronômico sem saber que se avizinha da sua última tentação.


««»»
O homem é magro. Mais do que magro. Esquálido, seco, macilento. Serviria perfeitamente de modelo para uma caricatura da Morte, porém sua ligação com Tânatos superava o traço de qualquer desenhista. Herdara do pai a funerária Estige, denominação do rio que separava os mortos dos vivos na mitologia grega. Sua mãe, Odília Barroso, possuidora de um senso de humor discutível, o batizara de Caronte, como o barqueiro encarregado da travessia das almas. O pai, Olavo Eusébio, concordara. Olavo sujeitava-se a todos os caprichos da mulher.
Localizada à rua Real Grandeza, perto do cemitério São João Batista, a Estige é, sem dúvida, a mais prestigiosa da cidade. Seus carros sofisticados e caixões de luxo conferem status a simples exéquias. As salas especiais para velórios rivalizam com os suntuosos salões de baile do Rio de Janeiro.
Caronte é alto, muito alto. Vestido de negro, com cabelos longos e ralos, ele parece ainda mais emaciado. De uma palidez cadavérica, sua pele fenecida confunde-se com a dos defuntos que costuma transportar. Lavara e vestira seu primeiro cadáver aos treze anos.
Quando Caronte completou dezessete, o pai, contrariando a esposa pela única vez na vida, o enviou à Alemanha. Durante um ano, ele estudou com Friedrich Berminghaus, professor do Colégio Real de Química e diretor do Departamento de Anatomia da Universidade de Munique. Lá, aprendeu tudo sobre tanatopraxia, a moderna técnica de embalsamamento que preserva a aparência natural do corpo, minimiza as alterações fisionômicas e permite que o velório se estenda além das tradicionais vinte e quatro horas.
Berminghaus fora discípulo de August von Hofmann, descobridor do formaldeído. Esse aprendizado teve seu preço. Na ânsia de aperfeiçoar-se, Caronte se descuidava no uso do formol. Trabalhava horas a fio, obsessivamente, manipulando sem a proteção necessária os frascos. Os produtos causavam-lhe feridas na pele e provocavam um prurido intermitente. Berminghaus o prevenira amiúde do perigo:
— Vorsicht, Caronte! Das ist sehr gefährlich!
— Kein Problem, Herr Doktor...
Como desde a infância Caronte tinha dentes, cabelos e unhas frágeis, e manchas pardas espalhadas pelo corpo, as quais ocultava com o uso de camisas de gola alta e mangas longas, ele não dava muita atenção às alterações causadas pela química. Depois de terminar o curso, Caronte voltou para o Rio. Trouxe com ele as mazelas que o acompanhariam para sempre: chagas no corpo, irritação nas mucosas e distúrbios no sistema nervoso. Não se importava. Para ele, a morte era um meio de vida.
A funerária Estige passara de pai para filho desde a Guerra do Paraguai. Seu bisavô enriquecera devido a um contrato feito com o governo, sem licitação, intermediado pela namorada de um funcionário ligado ao gabinete do Ministério da Guerra. Tal contrato cedia exclusividade para o funeral dos soldados não identificados mortos no conflito. O escândalo da negociata fora abafado quando a imprensa descobriu que havia um número maior de enterros do que de combatentes mortos.
Olavo Eusébio Barroso se enforcou no lustre da sala de jantar no dia em que completou cinquenta anos. Envergava a mesma sobrecasaca antiga das cerimônias fúnebres. Não deixou carta ou bilhete, mas Caronte sabia que o suicídio era o resultado de anos sofrendo passivamente o domínio autoritário da mulher.
Caronte queria se livrar da funerária e ingressar no recém-fundado Conservatório Brasileiro de Música. Antes de ser obrigado a participar dos negócios da família, seu sonho de infância era ser maestro. Aprendeu a tocar piano de ouvido numa velha pianola encostada no porão de casa e sabia de cor a obra dos grandes clássicos. Na Alemanha, assistia a todos os concertos da Münchner Philharmoniker e adorava as óperas de Wagner no Festival de Bayreuth, cidade próxima a Munique. Quando participou sua intenção à mãe, Odília olhou-o com desprezo e respondeu lacônica: “Nem pensar. Gastamos muito dinheiro na sua educação”.
Caronte odiava a mãe. Destilava por ela um ódio figadal desde a sua festa de aniversário de dez anos, quando, em vez do bolo, ela pôs na sua frente um prato com meio mamão enfeitado com as velas. O menino famélico soprou e odiou. Ao contrário dele, Odília era gorda. Muito gorda. Imensa. Parou de se pesar quando sua compleição obesa, de um metro e setenta de altura, acusou cento e quarenta quilos numa balança de armazém. Seu rosto era lindo, de uma beleza clássica. Começara a engordar depois da gravidez do único filho. Não fosse o excesso de peso, seu corpo suscitaria a inveja das antigas amigas do liceu. A mãe tinha medo de que seu filho engordasse. Um pânico desnecessário, porque Caronte herdara as características físicas do pai, magro como ele. O metabolismo acelerado do menino queimava as tortas e pastéis deglutidos às escondidas antes mesmo que ele terminasse de ingeri-los. Apesar dos apelos inúteis do pai, nada convencia Odília. Ela mantinha o filho sob dieta rigorosa. Cada prato minguado de legumes que a tirana lhe empurrava goela abaixo açulava o ódio que ele nutria pela mãe obesa. O que agravava essa tortura eram os cardápios portugueses que ela mesma planejava com esmero, usando receitas originais de sua avó natural da região do Minho. Odília costumava dizer ao prepará-los: “É o meu passatempo favorito. Melhor que fazê-los, só comê-los!”, e desfechava uma gargalhada assustadora, sacudindo seu triplo queixo em cascata.
Foi num desses dias, ao ver a mãe aprontando uma bacia de Ovos Moles d’Aveiro, que Caronte decidiu matá-la.
A morte de Odília foi considerada acidental. Na verdade, o “acidente” havia sido provocado por um empurrão do filho. O corpo fora encontrado no chão liso da cozinha como se ela tivesse escorregado e batido com a base do crânio na quina do forno, quando preparava um imenso Pudim Abade de Priscos. Antes de chamar a polícia, Caronte debruçou-se sobre o fogão e sorveu avidamente a calda caramelada do pudim mesclada ao sangue da mãe. Um espasmo sacudiu todo o seu corpo e a nódoa escura que se alargava na frente das suas calças revelava o fruto de um orgasmo incontrolável.
Um dia, Caronte vê uma gorda na rua lambendo um cone de sorvete. O rosto lindo lembra-lhe a mãe. Servindo-se da ponta da língua como um lagarto, a gorda desempenha movimentos ágeis e lascivos em torno da bola gelada. Com perícia, ela evita que as gotas escorram pelos dedos gorduchos. É quando Caronte percebe que jamais se livrará da mãe, a não ser que a mate sempre, sempre. Resolve assassiná-la novamente em cada gorda que encontrar. A partir de então, ele só vive para vê-la morrer. Começa a temporada de caça às gordas.
Caronte é agora rico e independente. Pode fazer o que quiser do seu tempo. Descobre que é dotado de ouvido absoluto, a capacidade de identificar cada uma das notas da escala cromática. Estuda música e aprende a tocar, com facilidade, todos os instrumentos de corda. O piano é o seu predileto. Para que a chacina das vítimas relembrasse de forma indelével a morte de Odília, atrairia cada uma delas com as receitas portuguesas da mãe. Pratica intensamente, em segredo, até se transformar num confeiteiro e mestre-cuca melhor que muitos profissionais do ramo. Pela primeira vez na vida, come.
Um dos carros funerários exclusivos da sua agência é de 1931 e tem uma característica original. Caronte é o único no Brasil a ter esse modelo. A inovação consiste numa larga porta dupla lateral para a entrada do caixão, a qual não se dá mais pela porta traseira. Uma prancha móvel sobre trilhos gira para fora, fazendo uma curva em direção à calçada, o que facilita a colocação do ataúde sem expor os carregadores ao trânsito. É sobre essa prancha que Caronte dispõe as iscas irresistíveis.
««»»
Seu nome é Cordélia e não Gordélia, como a chamavam as coleguinhas do primário. Fartavam-se de rir do trocadilho com a crueldade inocente típica das crianças. Cordélia Casari tem trinta e cinco anos e é gulosa desde menina. Sua avó italiana costumava dizer durante as refeições, quando ela se empapuçava de nhoque: “Não seja esganada, menina! Che pecatto, così bella e così ghiottona...”. Cordélia vem correndo com a rapidez que seus passos curtos permitem. As coxas roliças roçam uma na outra prenunciando uma assadura incômoda. Ela não liga. Não é a primeira vez que isso acontece. Depois, em casa, tratará com unguento sua pele em carne viva.
O rosto habitualmente sisudo de Caronte se abre num largo sorriso. Parece o riso morto das máscaras de Carnaval. A boca se rasga de orelha a orelha, deixando à mostra dentes perfeitos e de uma alvura excessiva, características peculiares às falsas dentições. Sua voz é sedutora e aveludada quando ele convida:
— Será que a senhorita nos daria a honra de submeter os nossos doces ao seu delicado paladar? É grátis, sirva-se à vontade...
A gorda, tomada por um fervor quase religioso, se acerca da prateleira de doces. Chega-se aos pulos, como um passarinho seduzido pela serpente. Sua indecisão se manifesta de novo:
— São tantos, meu Deus, e tão lindos!
Ela se inclina para cheirá-los, as narinas pulsando de prazer. A rua está deserta, não há por que se acanhar. Cordélia lambe o chantilly que cobre uma torteleta de morango. É nesse instante que Caronte a derruba sobre a prateleira esmigalhando os doces. Antes que ela se dê conta, ele tapa seu nariz repleto de creme com o lenço empapado em clorofórmio. Em segundos, ele cobre o corpo inerme com a mortalha que traz dobrada no banco da frente, guarda o cartaz na bolsa do carro e empurra a presa desmaiada para dentro do furgão. A carga gira nos trilhos como os bondes nos terminais. Ele senta-se ao volante e acelera a limusine mortuária, sinistro como o Caronte mitológico, singrando com sua carga pelo sombrio rio Estige.
2

Rio de Janeiro, verão de 31. Tobias Esteves desembarca do celebrado navio inglês Alcantara, da Royal Mail Steam Packet Company. Veio na segunda classe do luxuoso transatlântico graças aos seus contatos com o despachante da Royal Mail em Lisboa. Sendo um dos mais importantes da chamada Rota de Ouro e Prata, com uma velocidade média de dezessete nós, o Alcantara liga a Europa à América do Sul em quinze dias, transportando mais de dois mil passageiros. Entre os da primeira classe encontram-se dois membros da realeza, o príncipe de Gales e o duque de Kent, que seguem para Montevidéu, onde acontece a Exposição do Império Britânico.


Inspector da polícia portuguesa durante oito anos, Tobias Esteves é afastado do cargo quando confessa sua participação no falso suicídio do mago inglês Aleister Crowley. Crowley, um farsante de reputação internacional, vem a Lisboa para conhecer o poeta Fernando Pessoa, com quem se corresponde sobre horóscopos. Pessoa, fascinado pelo oculto, se encanta com os textos do Mestre Therion, pseudônimo do pretenso feiticeiro.
Crowley passa por momentos difíceis. Expulso da França em 1929, procurado pela polícia em Londres, o aventureiro resolve desaparecer. Escolhe Pessoa como cúmplice para esse fantástico efeito de ilusionismo.
O empulhador chega a Lisboa em setembro de 1930 e é recebido no porto pelo poeta. Aleister sai como uma figura fantasmagórica do nevoeiro que encobre o cais. Envolto numa longa capa negra, parece gigantesco diante da minguada estatura do poeta.
No Hotel de l’Europe, Crowley explica a Pessoa por que tem de forjar seu suicídio: vários governos da Europa querem eliminá-lo por considerarem suas práticas de taumaturgia extremamente poderosas. Outros querem assassiná-lo porque receiam que ele seja um espião trabalhando para os alemães como agente duplo. Precisa desaparecer sem deixar vestígios.
Apaixonado por mistérios, Pessoa entusiasma-se pela farsa rocambolesca e quer ajudar na trama, porém não sabe como levá-la a efeito. Lembra-se, então, de Tobias Esteves. A amizade de Fernando Pessoa por Tobias vem das tardes infindáveis gastas nos cafés do Rossio discutindo sobre nada ou coisa nenhuma. Há anos ele é fascinado pela inteligência linear do detective, que soluciona os casos mais intrincados usando a lógica dedutiva simples. Seu pensamento não deixa margem a divagações abstratas ou emocionais. Para ele, o “ser ou não ser” do Hamlet é coisa de maricas. Tem uma tremenda intuição. Quando desconfia de um suspeito, cria um silogismo capcioso durante o interrogatório: “Ouve lá. Nenhum ser humano é inocente. Tu és um ser humano. Logo, não és inocente; portanto, és culpado”. A tática confunde o interpelado. Se tiver praticado o crime, geralmente confessa. Tamanho é o afeto do poeta, que ele homenageia a objetividade do policial no poema “Tabacaria”, do heterônimo Álvaro de Campos: “... Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica...”.
Pessoa marca um encontro, para as quatro horas da tarde do dia seguinte, com Crowley e Tobias, no café Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço. O detective sabe, com certeza, como criar um falso suicídio.
A pontualidade não é o melhor atributo do inspector de polícia Tobias Esteves. Meia hora depois das quatro ele surge do outro lado da praça. Vem radiante no seu passo de marreco, balançando o corpanzil. Tobias é gordo. Hábil cozinheiro, sua afeição por doces e outros quitutes se manifesta na circunferência. Coleciona receitas de todas as regiões do país. Nunca deixa de criar ocasiões para oferecer a si mesmo lautas refeições. O feitio rechonchudo do detective de estatura média engana os criminosos que tentam fugir subestimando-lhe a agilidade e a forma física. Aos vinte e oito anos, Esteves é fruto típico da raça lusitana: pele morena, fartos cabelos negros encaracolados que penteia para a esquerda e cuja rebeldia ele amansa com uma camada de brilhantina. Cultiva vastos bigodes de pontas reviradas, tradição familiar, e procura vestir-se com discrição. A única concessão feita à vaidade é o uso de um alfinete de gravata de ouro em forma de ferradura herdado do pai. O “alfacinha”, como são chamados os nascidos em Lisboa, acena para Pessoa com seu guarda-chuva e se aproxima do café.
São agora três em volta da mesa no Martinho da Arcada. Fernando Pessoa convocou seu amigo, o jornalista Ferreira Gomes, para ajudar no enredo do sumiço fictício. Bebericam aguardente Águia Real, a preferida do poeta. Pessoa saúda o detective como de hábito:
— Ah! Finalmente chegaste, ó Esteves sem metafísica!
Ao que o policial retruca com outro verso do poeta:
— Como também disseste, “a metafísica é uma consequência de estar maldisposto”... mas vamos ao que interessa. Por que esta convocação extraordinária?
Pessoa apresenta o mago ao detective e explica o problema. De início, Esteves não quer participar da charada. Como policial, teme pela repercussão do caso. Depois de muito relutar, acaba sendo convencido pelo amigo e sugere a melhor opção para executar o projeto. Nas rochas perto de Cascais, onde o mar se choca com violência, existe um buraco em que as águas formam um redemoinho perigoso. Segundo os guias turísticos, “ali o oceano se precipita rugindo”. O lugar é conhecido como “Boca do Inferno”. Esteves propõe que o jornalista Ferreira Gomes entregue à polícia um bilhete suicida que teria sido achado no local. Crowley adora a ideia. Escreve o bilhete de próprio punho, como se tivesse se matado pelo amor da amante.
Certamente os conjuradores não podiam imaginar a repercussão do caso. A notícia espalhada por Ferreira Gomes sai nos jornais de Lisboa, Paris e Londres. As primeiras páginas dos diários estampam o episódio com o título em letras garrafais:

o mistério da boca do inferno



Para dar maior credibilidade ao “suicídio”, o inspector Tobias Esteves, amador praticante de mergulho livre, dotado de um fôlego espantoso, propõe-se a vasculhar a área submarina e acaba sendo encarregado das investigações. Ao ressurgir das águas qual rotundo Netuno, Esteves afirma que nada encontrou.
Crowley desaparece furtivamente pela fronteira espanhola e vai para a Alemanha. Fernando Pessoa é interrogado pela polícia e conta a verdade: tudo não passou de um embuste sugerido por Aleister Crowley, que continua vivo e gozando de boa saúde. Ferreira Gomes admite sua participação na fraude.
Diante da dimensão alcançada pelo episódio, Esteves declara seu envolvimento na tramoia. “Foi só uma grande piada”, diz ele ao chefe de polícia. O chefe não acha a menor graça. Para desgosto do poeta, o inspector Tobias Esteves é licenciado sine die.
Tobias passa a ser objeto de chacota de toda Lisboa. Ao chegar em casa, encontra bilhetes suicidas enfiados por baixo da porta: “Não posso viver sem ti!”; “Ó Esteves, já que não tenho a tua boca escaldante, vou me atirar na Boca do Inferno!”. Quando passa pelas ruas da Baixa, é a mesma coisa. “Lá vai o xuí galhofeiro!”, gritam, usando a gíria portuguesa para policial, e se escondem atrás das esquinas.
Cansado de tanto deboche, Tobias despede-se dos amigos e resolve ir tentar a vida no Brasil. Tem um tio que é dono de uma confeitaria no Rio de Janeiro. Nicolau Tocha-Tarelho é irmão solteiro de sua mãe e não tem herdeiros. Por várias vezes convidou o sobrinho para associar-se a ele. Agora, com a indenização recebida pelo seu afastamento da polícia, Esteves aceita o convite.
Seis anos depois, na primavera de 37, quando Getúlio Vargas decreta o Estado Novo fechando o Congresso, Tocha-Tarelho morre de um enfarte fulminante, deixando o negócio para o sobrinho. O espírito empreendedor de Tobias Esteves havia transformado a pequena loja de Botafogo na rede Regalo Luso, com dez filiais espalhadas pelos bairros e por todo o país. Tobias é agora um homem rico, não mais “o português da padaria”. Além da panificação, o que faz a diferença são os doces e pratos portugueses que ele passa a distribuir para os restaurantes e confeitarias da cidade. Doces esses que fazem as delícias das gordas do Rio de Janeiro.
««»»
Fim de tarde. Uma chuva miúda cai sobre a cidade. O furgão funerário segue pela rua Elpídio Boamorte. Os poucos passantes que ocupam as calçadas estranham a alta velocidade do automóvel. Afinal, é de supor que o principal ocupante daquele veículo não tenha mais pressa de chegar a algum compromisso.
Da janela do albergue São Genésio, na esquina da Francisco Bicalho, uma senhora faz o sinal da cruz ao ver o rabecão passar.
Ignorando a eventual indiscrição dos transeuntes, Caronte acelera em direção ao enorme depósito no final da rua. Trata-se de um antigo matadouro comprado depois da morte dos pais. Há um compartimento especial, construído por ele. Ali, Caronte criou seu necrotério particular, equipado com todos os instrumentos necessários. Nas prateleiras, garrafas contendo líquidos juntam-se a facas e bisturis de diversos tamanhos. A mesa de metal usada para autópsias ocupa o espaço antes utilizado para o abate e esquartejamento dos animais. O local conserva os ganchos e carretilhas onde estes eram pendurados. No chão, sulcos feitos no cimento permitiam que o sangue escoasse durante a retirada das vísceras. Uma cozinha guarnecida de utensílios modernos e um piano Pleyel de cauda inteira arrematam a visão surrealista do ambiente.
Caronte arrasta a gorda adormecida do carro até a mesa, deixando o rastro adocicado do seu vômito. O clorofórmio provocou-lhe a náusea, e ela lançou uma mescla de glacês e chocolates.
Com o guincho usado para mover os caixões, Caronte iça o peso morto até a mesa. Amarra o corpo estático da vítima com as correias de couro ali fixadas. Agora, tudo está pronto para satisfazer sua fantasia. Antes, deve acordá-la. É necessário que a obesa presencie tudo. Tira da prateleira um frasco de amônia e, destampando o vidro, aproxima-o das narinas de Cordélia.


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