Clarice Lispector Figuras da escrita



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Quando se fala da recepção do primeiro livro de Clarice Lispector não se pode deixar de ter em conta o acontecimento que foi a atribuição a esse romance de um prêmio de mérito para obras de estreia — o Prêmio Graça Aranha. A estreante já se encontrava no estrangeiro (em Nápoles) quando lhe foi atribuído o prêmio relativo ao ano de 1943, o que é, aliás, referido num dos primeiros jornais a dar a notícia (A Manhã, 13 de Outubro de 1944). Mas o facto de a autora se encontrar longe do país não significou, de modo algum, que tivesse desacompanhado as reacções suscitadas pela publicação do seu texto. Muitos anos mais tarde, quando lhe perguntam se Perto do Coração Selvagem causou impacto junto da crítica, ela exclama pernambucanamente: "Virgem Maria, se causou", para acrescentar que sua irmã (Tânia Kaufman) lhe recortava as críticas que se acumularam numa espécie de "livro grosso" (cf. entrevista no Museu da Imagem e do Som, 20 de Dezembro de 1976).

Compulsando e analisando o modo como, na imprensa, se repercutiram as notícias da atribuição deste prêmio, detenhamo-nos no seu significado e no que o livro representou do ponto de vista de uma mudança de cenário no panorama da literatura brasileira contemporânea. Importa assinalar, primeiro que tudo, a atenção prestada ao acontecimento, pois que deparamos com uma notável continuidade na freqüência com que as notícias ou comentários vão saindo, primeiro nos jornais do Rio de Janeiro e depois ecoando em outras cidades e Estados ¹. Note-se seguidamente os termos enfáticos com que essas notícias são transmitidas. O prêmio faz aceder a
1 Compulsámos as notícias saídas nos seguintes jornais: A Manhã (Rio de Janeiro), 13 de Outubro de 1944; A Manhã, 14 de Outubro; Correio da Noite (Rio de Janeiro), 14 de Outubro de 1944; A Manhã, 15 de Outubro; Jornal do Comércio (Recife), 17 de Outubro; Diário de Pernambuco (Recife), 18 de Outubro; Estado da Bahia (Salvador), 18 de Outubro; Folha Carioca (Rio de Janeiro), 18 de Outubro; O Estado de S. Paulo (São Paulo), 19 de Outubro de 1944; Diário (Belo Horizonte), 21 de Outubro de 1944.

autora ao processo de canonização que fica em aberto e que verdadeiramente se efectuará anos depois, na década de sessenta (após a publicação de dois volumes excepcionais: um livro de contos, Laços de Família, e um romance, A Paixão segundo G.H.). Mais tarde, na década de 80, logo após a morte da autora, consumar-se-á o definitivo processo de entronização, que coincide com uma cada vez maior internacionalização da obra e a que não será de todo alheio o apoio rendido por um influente domínio da crítica nestes anos: a chamada crítica feminista².



Voltando ao prêmio Graça Aranha, e ao seu impacto na imprensa, considerem-se as principais implicações dessa atribuição e atente-se no que em tais notícias é veiculado. Insiste-se na qualidade do prêmio, que traz consigo a caução dos nomes anteriormente contemplados 3, e destaca-se o mérito do galardão pelo acerto em autores que vêm dando mostras de uma qualidade que não faz desmerecer o nome do prêmio.4 E não deixa de ser notado em algumas dessas notícias (ao apontarem-se nomes) um facto que já merecera atenção numa das primeiras críticas (virá à memória o que escreveu Álvaro Lins): o estar-se perante um romance escrito por uma mulher. Por isso se vai deparar com o nome de Clarice ao lado do nome de Raquel de Queiroz, a outra mulher que também fora premiada com o mesmo galardão (cf. A Manhã de 13 Outubro). Num artigo de informações gerais e de opinião sobre a actualidade cultural brasileira publicado nesse Outubro de 1944, também em A Manhã, e assinado com as iniciais J.B., ao fazer-se um contraponto relativamente aos acontecimentos ocorridos nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, entre outras notícias, lê-se a dada altura, em termos verdadeiramente encomiásticos:
2 Sobre os caminhos que vão da consagração ao processo de canonização vd. o texto de Benjamin Abdala Júnior e de Samira Youssef Campedelli "Vozes da Crítica", incluído na edição crítica de A Paixão segundo G.H., Paris/Brasília, Association Archives de Ia littérature latino-américaine, des Caraíbes et africaine du XX- siècle/DF: CNPq, 1988, pp. 196-206. Aí os autores reenviam para o artigo de Benedito Nunes publicado na revista Colóquio/Letras n.° 70: "Benedito Nunes [...] em artigo publicado em Portugal, observa que a receptividade da obra de Clarice Lispector passou por duas fases distintas. Uma primeira corresponde à sua 'descoberta' por críticos e escritores. Só numa segunda fase, que se inicia com a colectânea de contos Laços de Família (1959), é que essa obra ultrapassará o reduzido círculo que inicialmente atingia. Reunindo sete contos inéditos e seis outros anteriormente publicados sob o título Alguns Contos (1952), a coletânea acima mencionada despertou interesse por seus romances — O Lustre (1946) e A Cidade Sitiada (1949) — e criou expectativas em torno de sua obra subseqüente".
3 Cf. A Manhã de 13 e de 15 de Outubro e ainda A Folha Carioca de 18 de Outubro.
4 Vejam-se, por exemplo, as notícias em A Manhã, 13 de Outubro, e Folha Carioca, 18 de Outubro. Entre os laureados encontramos referidos nessas páginas os escritores Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge de Lima, Jorge Amado, Murilo Mendes, Érico Veríssimo, Viana Moog, João Alphonsus Guimarães.
Enquanto isto acontece, a Fundação Graça Aranha concede o prêmio tão ambicionado à maior estreia feminina de todos os tempos na literatura brasileira. Clarice Lispector, autora de "Perto do Coração Selvagem", com o seu livro belo, é laureada, e nunca houve tanta justiça na concessão de um prêmio literário.
Outro vector implicado na atribuição deste prêmio é algo inerente às próprias regras seleccionadoras: a modernidade patente no texto vencedor. Em A Manhã de 15 de Outubro retoma-se a notícia do Prêmio Graça Aranha que nos dias anteriores já tinha vindo a ser destacada pelo jornal. E, tal como nos artigos anteriormente publicados no mesmo jornal, os elogios não são regateados — "trata-se de um livro magnífico de estreia", pode ler-se. Para além de se insistir no aspecto atrás referido — a valia que o prêmio comportava, um prêmio cujo nome traz consigo, pelos antecedentes, um forte potencial na realização do auspicioso voto ("todos os que, até hoje, o mereceram se tornaram figuras de relevo nas letras brasileiras") —, apontava-se a condição prescrita no próprio regulamento do prêmio: as obras vencedoras deveriam evidenciar o "espírito moderno", "significando as idéias avançadas em literatura e arte". Alia-se a essa idéia do "espírito moderno" o sentido de novidade, de surpresa, que este texto de Clarice Lispector suscitou:
Chegou uma força nova da nossa ficção Clarice Lispector. Não houve melhor estreia em 1943. Foi com um romance rico de substância humana que nos surpreendeu a escritora creio que então adolescente, quasi desconhecida então, autora apenas de meia dúzia de contos e artigos divulgados em revistas. Ela nos trouxe qualquer coisa de importante, senão de essencial, às nossas letras de ficção.
Ao apresentarem a autora recém-revelada, pode-se dizer que estas palavras constituem uma brevíssima síntese que, de certo modo, condensa aquilo que nos outros textos foi dito. Trata-se de um texto assinado por Valdemar Cavalcanti, publicado na Folha Carioca de 18 de Outubro, texto que, estando próximo de alguns dos atrás referidos (ou sublinhados) nos pontos que trata, se distingue dos outros pela forma como os apresenta. Aponta para a justiça que foi feita na escolha recaída sobre o nome de Clarice Lispector, tece louvores ao prêmio pelo modo correcto como tem sido atribuído e põe igualmente em destaque (como o fizeram outros articulistas) alguns dos nomes galardoados. Por fim, o augúrio: "O prêmio de 1943 foi concedido a uma escritora que cedo estará, ao meu ver, entre as de maior prestígio nos círculos intelectuais do país. Deu-se todo o relevo a uma obra significativa do nosso momento literário".

No mesmo jornal A Manhã que, no dia 13 de Outubro desse ano de 1944, dera amplo destaque ao que se diz ser um prêmio para "os livros de estréia, com um acentuado caracter de originalidade, valendo assim menos como uma consagração do que como um estímulo", no dia seguinte, sob o título de "Um poeta inédito", pode ler-se um artigo que curiosamente vem assinado por Lúcio Cardoso, o amigo que sugerira a Clarice para nome do livro as palavras de Joyce de que ela tanto gostava. O artigo fecha com uma saudação ao poeta que se estreia (Élcio Xavier — que não terá "vicejado" tanto quanto o destino que Lúcio Cardoso lhe augurou): "Gostaria de, no momento de fechar este artigo, saudar no poeta prestes a estrear, mais um companheiro dessa geração que já nos apresentou um Ledo Ivo, uma Clarice Lispector e um Fernando Sabino". Palavras que, no enquadramento e nos termos circunstanciais da recensão, não deixando de servir a amizade, traduzem, ao mesmo tempo, o propósito consagrador (ou canonizador) na individuação relevadora que o indefinido comporta (em 1944, uma Clarice Lispector...).

Da série de artigos que aparece associada à notícia do prêmio, refira-se ainda o texto de Otávio de Freitas Júnior intitulado "Duas estréias", publicado no diário O Estado de S. Paulo de 19 de Outubro de 1944. O artigo, como se pode ver pelo título, vai falar da estreia de dois nomes que se iriam afirmar no panorama da literatura brasileira, a qual, segundo o autor, vinha atravessando um período de "relativa depressão". Destaca entre as revelações um livro de ficção, Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector, e um livro de poesia da autoria de Ledo Ivo. O texto sobre Clarice reproduz integralmente um artigo publicado no jornal do Rio de Janeiro A Manhã, de 13 de Maio de 1944.

A notícia relativa ao prêmio Graça Aranha continua a ser divulgada em vários órgãos da imprensa, sempre em termos elogiosos, mesmo quando duas linhas repetem o lugar comum do êxito, como lemos, por exemplo, no Diário, jornal de Belo Horizonte (21 de Outubro de 1944): "O prêmio 'Graça Aranha' de 1943 foi merecidamente concedido ao esplêndido romance de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem."

Procurou acompanhar-se num traçado mais ou menos contínuo tudo aquilo que, sobre a revelação da escritora, e associado à atribuição do Prêmio Graça Aranha, foi surgindo na imprensa nesse Outubro de 1944. Poder-se-á dizer desse mês — pelo modo entusiástico como se projectou a notícia — que constitui o mês da consagração. Mas o terreno vinha sendo preparado. Importa que nos detenhamos num exemplo que, do ponto de vista dos mecanismos de funcionamento do campo literário (nos procedimentos conducentes à estabilização da canonicidade), parece bastante elucidativo. Trata-se da publicação na imprensa dos resultados de um inquérito. Os dados estatísticos apresentados permitem alargar a visão do que foi a efectiva recepção de Perto do Coração Selvagem, ao mostrar que o livro não passou despercebido a um público de leitores não tão restrito quanto se poderia supor. O inquérito sobre "os melhores livros de 1943" foi realizado pela Folha Carioca, tendo os resultados sido apresentados na edição de 3 de Maio de 1944. A partir das perguntas que haviam sido colocadas ("Qual o melhor romance de 1943? Qual o melhor livro de contos de 1943? Qual a melhor tradução de 1943?") os votos para o melhor romance dão o primeiro lugar a Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector. Será interessante verificar e confrontar os números apresentados:

Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector - 457 votos; Terras do Sem Fim, Jorge Amado - 378; Fogo Morto, José Lins do Rego - 312; A Quadragésima Porta, José Geraldo Vieira - 166; Dias Perdidos, Lúcio Cardoso - 74; O Agressor, Rosário Fusco - 67; Fronteira Agreste, Ivan Pedro de Martins - 8; Marco Zero, Oswald de Andrade - 6.

Sobre os termos que noticiaram o acontecimento, interessa assinalar a nota que refere o caracter aberto da votação: "O clichê reproduz um flagrante da última operação de votos populares, levada a efeito ontem, às 16 horas, na redação desta folha, perante crescido número de pessoas, inclusive vários intelectuais". O quadro que encabeça os resultados traz o seguinte título: "Votação popular". Não sendo possível reconstituir o verdadeiro horizonte cultural e sociológico que está na base dos resultados, atente-se na insistência sobre o caracter "popular" da votação: desse modo se legitima a "legibilidade" do livro perante um público mais ou menos alargado.5 No mesmo jornal também se apresentam os votos de alguns conhecidos intelectuais que destacam o livro de Clarice Lispector: João Donas Filho, Euryalo Cannabrava, Xavier Placer, Andrade Muricy, Edgar Mata Machado, Hélio Pellegrino. Entre pequeníssimos depoimentos convalidadores, assinalem-se os do escritor Lúcio Cardoso e do crítico Francisco Assis Barbosa 6.


5 Esse sentido do alcance "popular" do voto pode ser facilmente contraditado pelos dados de que se dispõe relativamente às tiragens do livro. Note-se que só 20 anos depois é que no Brasil se publica uma segunda edição do romance (Francisco Alves, 1963). O que não deve deixar de ser tido em conta é a possibilidade de o resultado do inquérito ter de algum modo influenciado o resultado do prêmio.


6 Lúcio Cardoso: "—Em 1943, vi vários romances: os dos srs. José Lins do Rego, Jorge Amado, José Geraldo Vieira, Érico Veríssimo, Tasso da Silveira e Rosário Fusco. Mas confesso que o que mais me agradou foi o da sra. Clarice Lispector. O que não quer dizer que não tenha gostado de alguns dos citados acima, exceto, é claro, o do sr. Jorge Amado, de que não gostei absolutamente. Deste modo, não há dúvidas quanto ao meu voto. Está dado a Perto do Coração Selvagem".

Francisco Assis Barbosa: "—Apareceram em 1943 alguns dos melhores momentos da nova literatura moderna: "Fogo Morto", "Terra do sem Fim" e "Marco Zero", especialmente. Além disso "Perto do Coração Selvagem" da sra. Clarice Lispector revelou-nos um temperamento singular, uma escritora de grande valor".


Ora, se Outubro foi mês de consagração (com a atribuição de um prêmio) e se o terreno vinha sendo preparado, como acabámos de notar, com o exemplo do inquérito da Folha Carioca, pode ver-se como posteriormente à atribuição do prêmio se impõe a consolidação do nome no campo literário, isto após um ano em que não restou no calendário um mês em que o espaço branco marcasse uma ausência de referências ao livro. Retomem-se algumas notícias desse final de ano de 44. Merecerá destaque um texto da autoria de Jorge de Lima com o título "Romances de Mulher", publicado na Gazeta de Notícias (1 de Novembro de 1944). Há uma afirmação extremamente importante neste artigo, segundo a qual, o livro de Clarice veio, literalmente, "deslocar o centro de gravitação era que [...] estava girando por uns vinte anos, o romance brasileiro". Trata-se de uma afirmação que sublinha o estatuto da diferença instaurado com o aparecimento do romance de estreia da autora, estatuto esse que, perspectivado em termos contextuais, implica uma mudança de paradigma e leva simultaneamente a que na afirmação repetida se faça história. Ou melhor, concretiza-se o modo de entrar no cânone da história literária: como ruptura (nitidez, brilho, destacabilidade) num horizonte baço, o da configuração igualitária do romance dominante, do romance que tende a tipificar, ou nivelar a partir de ingredientes tipificadores, no caso, a pretensão de demarcar categorias como as da brasilidade em cenários mais ou menos obrigatórios 7. Aos romances do sertão, Jorge de Lima contrapõe uma categoria de romances urbanos também brasileiros. Na abertura do seu texto o poeta extravasa o entusiasmo relevando algumas das qualidades (diferenças) do romance estreante, causas que contribuem para a referida deslocação: "o seu enorme talento de escritora está no aproveitamento de um acervo imenso de trivialidades domésticas, de realidades banais cotidianas de que consegue extrair um livro simples, honesto, vivido..."

Nas notícias dos jornais continuam a encontrar-se no mês seguinte ecos da atribuição do prêmio, mas já se vislumbrando nelas um recorte que acentua a sedimentação. Isso pode ser constatado em notícias que surgem mesmo sem assinatura. No D. Casmurro (4 de Novembro de 1944), jornal em que Clarice já havia colaborado, facto que não deixa de ser referido na notícia que a apresenta como "a jovem e já famosa autora de Perto do Coração Selvagem", refere-se a aceitabilidade na recepção do romance premiado




7 Atente-se a este propósito no que dissera Ledo Ivo no já citado texto publicado na Folha do Norte (Belém) a 26 de Janeiro de 1944: "Dirão que falta a Clarice Lispector um senso de objetividade e de reportagem que para muitos constitui uma das qualidades básicas do romance. Mas não é um romance de costumes, não tem boto do Amazonas ou pé de goiaba como personagens principais".

tanto por parte da crítica como do público mais vasto: o romance "mereceu as mais elogiosas referências da crítica e o mais franco acolhimento do público ledor do país". Quase um mês após ter escrito sobre a autora de Perto do Coração Selvagem, Valdemar Cavalcanti publica novamente na Folha Carioca (16 de Novembro de 1944) outro artigo sobre Clarice, incidindo agora na questão das influências. Fala da aparente facilidade em as classificar e identificar e chama a atenção para os equívocos que daí podem advir. Tudo vem a propósito de uma indicação aparecida na crítica que detectava "com unanimidade, a influência de Joyce". Valdemar Cavalcanti argumenta a partir das palavras da escritora, que denega essa influência. Talvez assim seja; no entanto, o crítico esquece quão enganosas podem ser as indicações dos autores.



Se a dada altura tudo nos pode parecer absolutamente previsível (do êxito de uma estreia à atribuição de um prêmio), mais do que um simples traçado descritivo importa lançarmos sobre o momento um foco que se pretenda incidência clarificadora, de modo a podermos perceber a sua luminosa intensidade e avaliar em todos os ângulos o impacto (significação e conseqüências) do aparecimento deste livro. Aquele que, nas palavras de Antônio Cândido, era um livro que faltava8. Em 1960 ainda perduram os ecos desse extraordinário êxito que foi o do primeiro livro; veja-se o que se lê nas palavras de apresentação que antecedem uma entrevista concedida por Clarice Lispector ao Jornal de Letras no mês de Setembro:
Clarice Lispector apareceu à luz de um sucesso barulhento com seu primeiro livro "Perto do Coração Selvagem" (Editora "A Noite"). Não temos memória de estreia tão sensacional que colocasse em lugar de tanto destaque um nome, há pouco, completamente desconhecido.
Trata-se de uma idéia contrária à veiculada por Eduardo Portella num artigo publicado por essa altura no Jornal do Comércio, a 9 de Outubro desse mesmo ano, e citado por Olga de Sá, que convalida a opinião deste consagrado crítico, o que não corresponde de modo algum à verdade; se houve, como vimos, surpresa e estranhamento, de modo nenhum se pode falar em silêncio, e muito menos em falta de previsibilidade por parte da maioria da crítica, em 1944, face ao novo valor revelado, como pretende Olga de Sá: "Viu bem Eduardo Portella, quando escreveu a respeito da


8 Cf. Cristina Ferreira Pinto: "Lispector é, claro, o elemento que faltava. Antônio Cândido em um dos primeiros ensaios críticos sobre a autora, comenta a falta de 'aprofundamento [da] expressão literária' na prosa brasileira, falta que Clarice Lispector, segundo ele, vem suprir" (Pinto, 1990: 81).
estréia de Perto do Coração Selvagem: II 'A incompreensão, quando não a indiferença, cercou aquele aparecimento silencioso e esquivo'. Raríssimos críticos adivinharam a promessa, que o livro significava" (Sá, 1979: 228). Uma tendência generalizada que se foi cristalizando através das histórias literárias continua a prevalecer em muitos estudos sobre Clarice Lispector: a exclusiva referência a alguns poucos nomes da crítica quando se impõe a apresentação de um quadro retrospectivo da revelação da autora. Assim, fica mais ou menos implícito que o seu aparecimento como escritora é indissociável da caução dada por dois nomes maiores da crítica brasileira à época, Sérgio Milliet e Álvaro Lins, assim como pela voz do conceituado jovem Antônio Cândido. Não querendo minorar o relevo que efectivamente deve ser concedido ao impacto decorrente dos juízos propostos por estes críticos, que aliás não deixaremos de citar, importa assinalar a extraordinária projecção do conjunto de resenhas e notas saídas na imprensa a seguir à publicação do livro — e não parece que devam ser necessariamente lidas em função de um prolongamento ou anuição face ao Diktat autorizado de um Milliet ou de um Lins. Procure-se, deste modo, mostrar com algum pormenor o que foi essa extraordinária recepção de Perto do Coração Selvagem, revelando alguns textos pouco conhecidos entre os que foram publicados até ao mês de Outubro de 1944. Antes de mais, convém repetir o que atrás foi referido: não houve um único mês em que nos jornais brasileiros não tivesse saído algum texto sobre o livro da novel autora 9.

9 Veja-se uma espécie de mapa das datas de publicação dos textos rastreados: 1943 - Adonias Filho ("Perto do Coração Selvagem", Folha do Norte, 31.12). 1944: Janeiro - Ledo Ivo ("O país de Lalande", Folha do Norte, 26.01); Guilherme Figueiredo ("O sentimento da palavra", O Diário de Notícias, 23.01) Breno Accioly ("Um romance selvagem" O Jornal, 30.01); Sérgio Milliet (15.01); Fevereiro - Dinah Silveira de Queiroz ("A verdade na República das Letras", Jornal de Alagoas, 27.02 - cf, referências na conversa com Edgar Proença: "Um minuto de palestra...", O Estado do Pará, 20.02); Lauro Escorei ("Perto do Coração Selvagem", Diário da Bahia, 9.02); Álvaro Lins (Fev. 44: "A experiência incompleta: Clarice Lispector"); Março - Reinaldo Moura ("Clarice Lispector", Correio do Povo, 23.03; atente-se nas cartas que Reinaldo Moura dirigiu a Clarice - peça importante para se perceber que não foi só devido a nomes como os de Sérgio Milliet e de Álvaro Lins que se impôs a presença de Clarice, tal como vem sendo divulgado em muitas das histórias literárias e em estudos que tratam da obra da autora); Dirceu Quintanilha ("Clarice Linspector [sic] e um monumento do passado", Dom Casmurro, 11.03); Lúcio Cardoso ("Perto do coração selvagem", Diário Carioca, 12.03) Eliezer Burla ("Perto do coração selvagem", O Jornal, 31.03); Abril - Luiz Delgado ("Uma alma diante da vida", Jornal do Comércio, Recife, 22.04); Maio - Otávio de Freitas Júnior ("Perto do Coração Selvagem", A Manhã, 13.05); Junho - Antônio Cândido ("Língua, pensamento, literatura", 25.07); Julho - Antônio Cândido (16.07); Agosto - Martins de Almeida ("Perto do Coração Selvagem", O Jornal, Rio de Janeiro, 06.08); Oscar Mendes ("Um romance diferente", O Diário, Belo Horizonte, 6. 08); Setembro - Ary Andrade (Set. 44). Além destes, rastreámos um texto de Paulo Mendes Campos com data não encontrada.

Alguns artigos dão conta de um processo (uma evolução) no que diz respeito às reacções que neles são explicitadas: é o que acontece com Martins de Almeida (Agosto de 44), que começa por falar do livro Perto do Coração Selvagem como de algo que lhe é absolutamente desconhecido e enuncia os reflexos do seu próprio percurso de leitura — da desconfiança à surpresa e à impregnação.

O primeiro lugar que vemos ser repetido, à saciedade, em quase todos os textos é o da novidade em si; a diferença, sob diversos ângulos, constitui o que mais infinitamente marca o contacto com o livro, seja sob a forma de deslumbramento causado pela descoberta (Adonias Filho, Dezembro de 43), seja pela pura manifestação do entusiasmo ou aberta adesão e louvor (Ledo Ivo, Janeiro de 44). A novidade estende-se, então, em algumas das linhas que vão ser escritas, à estranheza que envolve a personalidade e o nome revelados. A propósito, recorde-se a gralha tipográfica que atinge o modo como o próprio nome figura num artigo publicado no D. Casmurro de 11 de Março. É no texto de Dirceu Quintanilha que vemos, logo no título, o nome escrito com mais um n: "Linspector". Dinah Silveira de Queiroz (Fevereiro de 44) vai falar no "caso da estreia" de Lispector e vai afirmar tratar-se de uma "contribuição tão original" para a literatura brasileira; na sua leitura a novidade acentua-se como algo muito forte e perturbante: uma "afirmação tão rara de personalidade". Mais à frente, colocando o romance estreado em confronto com o que era na época o panorama literário, torna a insistir: "Fica-nos, entretanto, desde já a sua esquisita personalidade, a mais rara personalidade literária no nosso mundo das letras".

A novidade manifesta leva os articulistas a assinalar com grande ênfase a distância com que a escritora se demarcava face a tudo o que existia (Luiz Delgado, Abril de 44). Essa demarcação é evidenciada em diversos planos. Assim, uma escrita que se diferencia na maneira de contar, na maneira de dar a conhecer as personagens, de apresentá-las em mais de uma dimensão, diferença que, de acordo com Oscar Mendes (6 de Agosto), num artigo intitulado justamente "Um romance diferente", se projecta no domínio da expressão de sentimentos e sensações, alguns dos quais quase inexplicáveis na nossa língua. É notável a atenção concedida aos planos da estruturação, da composição e dos efeitos retórico-estilísticos. Por exemplo, Reinaldo Moura (23 de Março de 1944), que começa por dar conta da surpresa de que foi alvo pelo inesperado (a partir do mais exterior dos sinais, a capa cor-de-rosa, num romance que se revelará o mais afastado possível daquilo a que a cor reenviava, isto é, ao próprio "romance cor-de-rosa"), passa a sinalizar os efeitos da surpresa também num plano, digamos, propriamente técnico: da perspectivação, integração e classificação genológica. O crítico vai questionar sobretudo o facto de o texto se integrar no âmbito do gênero romanesco. Lúcio Cardoso (12 de Março de 44), fazendo eco do que circula (objecções que tem ouvido, do lado da doxa) sobre o não ser "um romance no sentido exato da palavra", vai valorizar o ar diferente de "coisa agreste" e estranha, evidenciando a novidade formal do texto. Veja-se ainda o que relativamente ao plano composicional é dito por Martins de Almeida (Agosto de 44); o crítico reporta-se ao que é apresentado "em lugar da forma comum de exposição". Mais à frente vai dizer que o romance "apresenta as personagens debruçadas sobre a própria vida interior, sem o fio de uma narração horizontal, sem a articulação de situações em forma usual de enredo".

Noutros artigos continua a insistir-se na estranheza do romance pelo facto de este ir contra o que convencionalmente dominava. E vão-se disseminando as referências a alguns pontos da técnica romanesca, como acontece com o que escreve Paulo Mendes Campos ao insistir na idéia de não estarmos perante um romance bem comportado ou tradicional, onde nada chocaria o leitor. Pelo contrário. Foge da técnica habitual, é romance difícil, romance sem concessões ao gosto da maioria. Otávio de Freitas Júnior (Maio de 44), reportando-se ao distanciamento de Perto do Coração Selvagem face à literatura de feição social, afirma a sua singularidade ao nível da expressão, com particular destaque para a utilização da técnica do monólogo interior.

Importa mostrar como da leitura do conjunto dos textos que na altura foram publicados se destrinça uma série de recorrências que podem ser agrupadas em blocos que configuram assinaladas zonas de incidência. Essas zonas de incidência da parte da primeira crítica, se bem que revelem algum impressionismo, são decisivas no que respeita à radiografia daquelas que virão a ser linhas fundamentais na escrita clariciana. Por exemplo: o lirismo, o universo feminino, o interior e as sensações, o destaque concedido à personagem central, o fragmentarismo, mas também o equilíbrio na construção.

Afirma Lúcio Cardoso (Março de 44): "Nesta estranha narrativa, onde o romance se esfuma para se converter muitas vezes numa rica cavalgada de sensações, a poesia brota como uma fonte nova e pura". Lúcio, o amigo que mais directamente está ligado ao aparecimento do primeiro livro da escritora revelada, dá seguidamente conta do testemunho pessoal aludindo à existência de poemas de Clarice. Este dado pode, de algum modo, ser condicionante, pois outro crítico, Ary Andrade (Setembro de 44), alude a uma poesia de Clarice que lera no início de 40 para deduzir que o romance de agora é, por conseqüência, também ele poesia ("voz que marca. Voz que fica. E poesia também, poesia que muita gente gostaria de poder assinar"). É interessante ler o gesto rasurador que a posteriori Clarice impõe, numa necessidade de afastar certo tipo de rotulações fáceis do tipo poesia = sentimentalismo. Numa curiosa entrevista concedida a O Pasquim de 3 a 9 de Junho de 1974 pode ler-se:
Olga Savary — Você já escreveu poesia, Clarice?

C. — Não.

O.S. — Nem tentou?

C. — Nunca.

Sérgio Augusto — Nem quando adolescente?

O.S. — Porque o teu texto é muito poético.

C. — Mas não sou poética.
Ora, o que é marcante no conjunto das primeiras críticas é a associação que se estabelece entre o lirismo, assinalado no livro em questão, e a prevalência da intuição, da sensibilidade, dos sentidos. Essa indissociabilidade, apresentada através da imagem dos relâmpagos ou da inundação, pretende assinalar uma força, uma autenticidade de que o livro dá conta. Enfim, pretende-se vincar a "verdade" de uma expressão lírica que não se situa no estrito plano formal do mero jogo de palavras l0.

Linha recorrente na primeira crítica é também o reenvio ao universo feminino, referência que encaixa no quadro das estranhezas que se assinalam. É que, apesar de já haver romances "femininos" na literatura brasileira, este parecia querer diferenciar-se também quanto a esse aspecto. Naturalmente são feitas aproximações (e aqui encontramo-nos face a outra zona de incidência que se reporta ao âmbito das influências): Ledo Ivo, por exemplo, sublinha a filiação em Virgínia Woolf (e note-se como não é só Álvaro Lins a apresentar este dado, nem sequer o primeiro). Lúcio Cardoso (Março de 44), após um enquadramento geracional, centra-se nos nomes femininos fazendo um paralelo, quanto à importância, com o nome de Raquel de Queiroz e com a revelação que foi O Anjo. Claro que se faz uma demarcação relativamente ao âmbito (não a colectividade mas o individualismo...). Na apresentação do mundo clariciano apresentado no romance que se estreia, Lúcio Cardoso fala de "um mundo essencialmente feminino". Devem contudo destacar-se, a este respeito, as palavras (decididas) de Oscar Mendes em Agosto de 44:


Não se trata de um romancinho de estréia para merecer o nome de escritora e andar assim com uma auréola de intelectual. É uma experiência estilística muito séria e é, principalmente, uma descida bem profunda nesse mistério da alma feminina que vem dando dor de cabeça a todos os homens, desde que o mundo é mundo e Adão se viu com uma companheira ao lado. Cenas como a do diálogo entre Joana e Lídia somente um escritor de dotes excepcionais pode realizá-las. E Clarice Lispector é bem algo de excepcional, no quadro de nossas letras femininas.
10 "E quando essa análise falha, vale-se ela da intuição em relâmpagos rápidos... E aqui penetramos cm pleno domínio da poesia" (Oscar Mendes, Agosto de 44); "a poesia é mais uma qualidade de sensibilidade do que um jogo lírico de palavras" (Lauro Escorei, Fevereiro de 44); "a ponta de um sentir pouco a pouco poroso à corrente lírica que inunda aquelas páginas" (Martins de Almeida, Agosto de 44).

Uma paisagem de sensações: assim nos poderíamos referir à obra de Clarice Lispector. É mais ou menos isto o que, à época da saída do primeiro livro, já vem dizendo Martins de Almeida (Agosto de 44), quando se reporta a uma "vegetação espessa de sensações" aí encontrada. Segundo o crítico, o método, que se impõe pela diferença, está neste livro ao serviço de uma certa forma de despojamento, de alheamento, que serve, por seu turno, a circulação de sensações: "prosa nua e descolorida, sem retratos físicos, quase sem meio ambiente", onde numa amálgama de planos se cruzam indistintamente as sensações do passado e do presente. Praticamente todos os críticos insistem nessa tônica. Paulo Mendes Campos afirma que o romance de Clarice "se filia na linha dos romances puramente introspectivos, dos romances que não pretendem mais que um mergulho nas fontes selvagens da consciência". Anota-se que a temática central é o homem, "os meandros mais profundos do ser humano: força surpreendente e introspecção" (Lauro Escorei), e repete-se a dominância dos "abismos interiores" (Luiz Delgado) ou a força que vem do "emaranhado do mundo interior" e dos "movimentos subterrâneos" (Reinaldo Moura). É interessante ver como em alguns destes textos se chama a atenção para um ponto que se revelará decisivo na unidade profunda que configurará a especificidade da obra clariciana: a referência ao informe (que, como veremos, constitui uma das mais pregnantes figurações da escrita). Martins de Almeida insiste no facto de ser determinante no romance a captação daquilo que dificilmente é perceptível (onde, melhor que em qualquer outro lugar, pensamos que se figurará a captação daquilo que é afinal o trabalho da escrita). E Oscar Mendes diz que a "experiência mais interessante e mais curiosa do livro de Clarice Lispector [é] seu esforço de exprimir em nossa língua todo aquele mundo informe de sensações, de sentimentos, de paixões, de leves estados de alma...", mundo informe que, como muito bem sublinha, está próximo do inumano.

Sem pretender um levantamento exaustivo de exemplos retirados dessas grandes zonas de incidência na crítica aparecida na imprensa até Outubro de 44, refira-se ainda o modo como inevitavelmente os críticos se reportam à centralidade da personagem Joana. Em concreto, Oscar Mendes, quando fala das marcas da diferença do romance e quando afirma que nada há no livro de pitoresco e excepcional que acentue essa diferença, acrescenta que a excepcionalidade se liga à personagem principal: "ela que vive a seu modo e não ao modo de todo o mundo". Há nesta leitura um ponto particularmente interessante: como que em mise en abyme, aquilo que viria a ser o impacto do livro — a sua estranheza — é o que acontece com o modo de ser de Joana face aos outros. "Por isso faz sofrer. Na maior parte das vezes causa apenas espanto e repulsa também, porque desvenda certos recantos escusos de seu ser, que a disciplina social não consente que se mostrem plenamente".

Se no livro o efeito de centramento na figura da personagem principal é óbvio, ver-se-á, como não deixa de apontar Martins de Almeida, que esse efeito não se projecta num unidireccionado ensimesmamento: o que prevalece é uma focagem estilhaçada. Isto, aliás, articula-se com uma outra característica assinalada: o fragmentarismo. Dinah Silveira de Queiroz apresenta uma observação muito justa ao falar de Perto do Coração Selvagem, observação que doravante irá aplicar-se à escrita que está para chegar: "toda a literatura de Clarice Lispector pode ser cortada à vontade, em pedacinhos, porque muito mais que o todo importa o detalhe".

Por fim, aponte-se mais um vector consensual em grande parte dos textos manuseados: o sentido do equilíbrio que dialecticamente interage com o estilhaçamento observado. E mais uma vez comecemos por relevar as palavras de Lúcio Cardoso que, ao falar do perfeito modo como a escritora consegue captar o mundo, afirma: "não há dúvida de que estamos diante de uma singular personalidade, que sabe captar do mundo exterior e interior, e muitas vezes da sua fusão, uma visão perfeita". O sentido do equilíbrio é assinalado em diversos níveis. Insiste-se na articulação entre o plano da inteligência (a intelectual) e o da sensibilidade (a intuitiva) (cf. Lauro Escorei e Martins de Almeida). Luiz Delgado destaca a adequação verificada entre a forma de expressão ("indisciplinada") e os "conflitos de indagação interior" que com essa forma se pretendem traduzir. O domínio da expressão é enfatizado: Adonias Filho aponta o equilíbrio da composição e Ledo Ivo refere-se ao "milagre de equilíbrio" e a uma "engenharia perfeita".




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