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De Como Ganhar O Mundo E Ser Ganho Por Ele



Edson Vidigal

Foi quando o destino embarcado num trem, deslizando em trilhos, me despejou na calçada da estação. De um lado, o mar salpicado de luzes – e não eram estrelas caídas, eram os navios. Do outro, a avenida, os paralelepípedos pavimentando o chão, outros trilhos – e não eram do trem, eram dos bondes, trilhos urbanos singrando a cidade.

O aprendizado da infância, difícil, mas alegre, em Caxias, não cabia na mala de pinho, pintada de preto, forrada de papelão, que eu carregava. Dentro da mala, só os livros e os cadernos da escola e a única muda de roupa, uma calça curta azul e uma camisa branca, aliás a farda do colégio.

Não era só isso o que eu carregava.

Carregava também incontáveis megatons de esperanças e de liberdades. Não sabia direito se o mundo me ganhava ou se eu é que ganhava o mundo. Só sabia que os meus olhos não podiam mais olhar como menino e que, por mais que aprendesse histórias, muito mais precisava saber sobre esta cidade. A cidade iria ter muito a ver com a minha vida.

Foi aí que os meus passos, enfim tão livres quanto a minha vontade, me entregaram às ruas, às ladeiras, às praças, aos coretos, às sacadas dos sobrados e das igrejas, aos palanques das oposições, aos jornais das oposições, às diferenças culturais da poesia sem rimas, à boêmia das serestas sem bebedeiras, às mesas cativas nos salões de dança da zona do meretrício, o sorvete no bar do Hotel Central, o sanduíche de pernil no Moto Bar, o refresco de pega-pinto na Fonte Maravilhosa, o pastel crocante no Café Pequim.

Na primeira manhã depois daquela viagem de trem, o dia inteiro correndo em trilhos, Codó, Coroatá, Timbiras, Catanhede, Rosário, tantas estações e paradas, quanto mundo novo ali dentro do trem, a cearensada fugindo da seca para as águas do Mearim, as fagulhas da maria-fumaça invadindo as janelas como se fossem mutucas tirando a paz do sono na viagem; na primeira manhã depois daquela viagem de trem, depois da noite insone na calçada alta do lado de fora da estação, antes que o primeiro bonde passasse, atravessei a rua e fui ao Dormitório Timbira, em frente, onde deixei por um dia a minha mala.

Sem aquele peso, as mãos livres como os passos, andei tanto e me deslumbrei tanto com esta cidade que nem tive fome. Na Rua de Santana, esquina com a Rua Antônio Rayol, rua de ladeira que descamba para o antigo Mercado Central, em frente à fábrica do Guaraná Jesus, que ficava na outra esquina, havia o Bar 1º de Janeiro, onde consegui meu primeiro emprego. O dono era um espanhol aculturado chamado Jaime. A mulher dele me parecia tão hostil e indiferente que até esqueci seu nome.

Não tinha eu ainda nem catorze anos e já trabalhava como garçom naquele bar da Rua de Santana. Meu salário? Nem me lembro. Não me interessava tanto. O mais importante é que tinha agora onde dormir e dormia lá no bar e tinha onde comer e comia e comia lá no bar e tinha onde banhar e me banhava no bar.

Foi uma experiência rica e sofrida. Antes que o sol acordasse fazendo dia, eu já estava pronto. Varria o salão, preparava o café na máquina, checava a louça, os pães, a manteiga, a geladeira que tinha que estar abastecida. A memória ainda guarda esquecida no paladar o gosto estranho da primeira Cola-Jesus.

Depois descia a ladeira da rua Antônio Rayol com a mulher do espanhol para o Mercado Central. Ela ia comprando e eu carregando a cesta com as compras. Às vezes eram duas cestas e eu, negando para os outros que ainda era um menino e sentindo em mim mesmo que ainda o era, subia aquela ladeira mal suportando o peso das cestas. Depois, aberto o bar, minha jornada tinha manhã, tarde e noite naquele território de poucos metros quadrados. Andava léguas sem sair do lugar, acossado pela paisagem das mesmas paredes, mesmas portas, mesmas ruas, mesmas caras.

Humores diversos da freguesia despejavam-se, uns pesados, outros não, sufocando a paz inquieta do menino garçom. De todas as experiências profissionais, a que mais me tocou e mais me doeu foi essa, de garçom. Todo mundo despeja no garçom a sua acidez quanto ao mundo. Quem se achar devedor de penitências eficazes para a purgação de grandes pecados que arrume um emprego de garçom. Decerto que terá carimbado, com antecedência, seu passaporte para o céu.

Conheci também, menino ainda, a submissão do emprego doméstico em casas de família e até em lugares onde não havia família. Em troca de um lugar para armar à noite a minha rede o menino que eu era trabalhou em muitas coisas. Até que meus olhos e pernas, reclamando mais liberdades soltaram a minha voz pela ruas juntando-me aos verdureiros, aos padeiros e aos outros pregoeiros matinais, gritando as manchetes, tentando atrair as pessoas para lhes vender o pão da alma, os jornais que eu carregava.

Ter sido jornaleiro em São Luís, naquele tempo, foi ótimo. Logo me acostumei com aquelas madrugadas nas redações, a rapaziada, bem disposta, esperando o jornal sair da oficina. Antes de sair às ruas, eu lia tudo. Muitas vezes me atrasava e quando chegava aos pontos dos bondes, outros já haviam passado à minha frente.

Os jornais das Oposições – Jornal do Povo, o Combate e Jornal Pequeno – vendiam mais. O que eu ganhava, como comissão pelas vendas, ao fim da faina, garantia no máximo um copo de caldo de cana e um pão na Garapeira do Guará, no Abrigo Novo, na Praça João Lisboa. Mas tinha uma cama garantida na Casa do Pequeno Jornaleiro, criada por D. Darcy Vargas e mantida pelos frades, colada à Igreja do Carmo, no coração do mundo, que era naquele tempo a Praça João Lisboa. Eu gostava daquilo.

À noite eu ficava xeretando as rodas de políticos e de intelectuais, que se formavam em torno do relógio da Praça e ali conheci gente importante e fiquei amigo dos grandes como Bernardo Almeida, José Chagas, Bandeira Tribuzi, Neiva Moreira, Evandro Sarney, Alexandre Costa, amigo de infância do meu pai em Caxias e que até então nada sabia a meu respeito. Depois foi que, levado por Evandro, conheci José Sarney. Todos se mantém eternos no panteão da memória, inoxidáveis pela minha amizade, gratidão e respeito.

Foi Ribamar Bogeá, do Jornal Pequeno, quem primeiro acreditou que eu podia ser jornalista. Num concurso para quem trouxesse primeiro a melhor reportagem, deu a cada candidato a mesma pauta. Era um caso comum de contrabando de café. Meus concorrentes foram longe, ao Porto da Estiva, atrás da notícia. Eu fui à casa do Delegado da Alfândega, que me ajudou contando tudo.

No dia seguinte, eu ainda jornaleiro pelas ruas, gritando forte a manchete do Jornal Pequeno – “Contrabando de Café no Porto de Estiva”. O texto, na verdade, não era meu. Baseado nas minhas anotações, Bogeá o escreveu. O curioso é que começaria assim – “Edson Vidigal, o mais jovem repórter do Jornal Pequeno...” E eu morria de medo de ser descoberto aqui. Não queria ser mandado de volta para Caxias. Para ser dono da minha vida, senhor da minha dignidade, preferia aquilo tudo, vivendo como um fugitivo, a ter que voltar.

Por isso que escondi dos outros, por muito tempo, que eu era um Vidigal. Falei desse meu medo a Bogeá e ele então se acumpliciou. A reportagem começava assim – “Edson Carvalho, o mais jovem repórter do Jornal Pequeno...” Eu estava tão feliz naquele anonimato disfarçado, vendo as pessoas lendo o meu nome, que nem discuti salário com Bogeá quando ele me ofereceu o novo emprego.

Por algum tempo ainda fiquei na dupla militância de jornaleiro e de jornalista para não perder o direito à cama na Casa do Pequeno Jornaleiro, no Largo do Carmo. Do Jornal Pequeno passei para o Jornal do Povo, de Neiva Moreira, e de lá para o Diário da Manhã, sob Bernardo Almeida. Depois para o Jornal do Dia, de Alberto Aboud, sob o comando de Walbert Pinheiro. E o demais dessa história já contei num ensaio sobre duas décadas da nossa imprensa, que O Estado do Maranhão publicou numa edição especial dos seus 30 anos, sob o título “Havia Brilho nas Redações”.

Foi João Mohana, que saíra daqui médico e voltara padre, quem ficou insistindo comigo para eu não ser autodidata. Eu gostava de ouvir suas previsões sobre o meu futuro. Posso dizer que até agora não errou nada. Pena que um câncer o tenha vencido. Eu lera todos os seus livros. Sem ter completado, ainda, o curso primário, inscrevi-me para o exame de admissão ao Ginásio, no Ateneu Teixeira Mendes.

Logo na primeira série, calouro portanto, a imprudência política de concorrer à Presidência do Grêmio Cultural Machado de Assis, que a tradição reservava sempre aos alunos do último ano, da quarta série. Ia animado na campanha quando o Professor Solano Rodrigues, Diretor e dono do Colégio, me deu o golpe. Estimulou uma dissidência nas minhas fileiras e a vitória que despontava fácil se resumiu a fragorosa derrota. Quem estava do outro lado? Gastão Veira, meu amigo até hoje.

Ativo na oposição e articulado com as lideranças dos outros colégios, não perdia os congressos e reuniões da UMES na Rua do Passeio e são desse tempo as lideranças de Milson Coutinho no Liceu Noturno, de Luis Rocha na Academia de Comércio, Marconi Caldas e Manoel Ribeiro no Liceu Diurno, João Batista Ericeira e Pedro Dantes Rocha Neto, no Maristas, dentre outros que não me lembro agora. Na segunda série, no ano seguinte, foi a grande virada. Derrotamos o candidato do Diretor, um rapaz metido a bonito, conhecido como Serra, que fazia sucesso com as meninas.

A cúpula da UMES recomendou que o movimento estudantil tivesse em cada Município um candidato a Vereador, nas eleições municipais de 1962. Foram eleitos, dentre outros, Luiz Rocha na Capital; Nonato Cruz, em Barra do Corda e eu em Caxias. Quando irrompeu o golpe militar de 1964, o primeiro mandato cassado no Maranhão foi meu. Fui dos primeiros a ser preso. Por muitos anos não me deram sossego.

Depois de ter sido preso pela segunda vez, fui para São Paulo com uma bolsa de estudos obtida através do dr. Luis Magno Portela Passos, um engenheiro de muito prestígio na cidade e com boas amizades fora do Estado. Concluído o curso, que incluía Direito Social com o Professor Cesarino Junior, na USP, resolvi passar um Western para Marconi Caldas informando o dia e a hora da minha chegada aqui em São Luís.

O avião fazia escala em Brasília e lá estavam José Sarney, Clodomir Milet, Henrique La Rocque, Alexandre Costa, todos embarcando para São Luís. Sarney tomou um susto quando me viu. “Estás voltando para ser preso outra vez?”. Duvidei dele, liguei para Celso Bastos, que dirigia a sucursal do Jornal do Dia. Ele confirmou. Eu era o número seis da lista que o Exército mandara para os jornais. D. Kyola, mãe de Sarney, que vinha também, ficou aflita. Me lembrei da minha mãe que me dizia – “enfrente a mentira, fique com a verdade; quem não deve, não teme”.

Contra a opinião de todos, decidi seguir a viagem de volta a São Luís. Quando o avião aterrizou vi pela janela que uma ambulância entrava na pista. Deu para ler – Prefeitura Municipal de Paço do Lumiar. Ao pé da escada, dois loucos – Marconi Caldas, filho do Desembargador Tácito Caldas e Rui Almada Lima, filho do Desembargador Artur Almada Lima. Amizades de colégio, sendo que o Rui era meu amigo de infância, em Caxias. Três das suas irmãs – Consuelo, Berenice e Irenice – tinham sido nossas professoras no Grupo Escolar Gonçalves Dias. Seu pai, o Desembargador, era Juiz em Caxias quando fui candidato a Vereador. Deu dinheiro para minha campanha. A primeira vez que precisei reconhecer a firma no cartório foi ele, o Desembargador Almada Lima, quem abonou minha assinatura. Tito Soares, dono do cartório, me mostrou outro dia.

A família Caldas tinha um sítio em Paço do Lumiar onde em companhia do Desembargador e D. Violeta passávamos, Marconi e eu, alegres fins de semana. Aconteceu que meu cabograma fora interceptado e os militares mandaram uns agentes me prender no aeroporto na hora em que eu chegasse. Marconi e Rui ficaram sabendo, foram a Paço do Lumiar, que fica na ilha de São Luís, não muito longe do aeroporto, pediram a ambulância e me resgataram.

Fiquei duas semanas escondido na casa do Desembargador Tácito Caldas enquanto ele próprio redigia petições e outros papéis que foram encaminhados a um advogado, o dr. Olavo Oliveira, Senador pelo Ceará, contratado pelo meu tio, Bianor, casado com minha tia Lacy, irmã de meu pai. Os subversivos do Maranhão eram processados e julgados pela Auditoria Militar, em Fortaleza.

Ninguém me fale sobre o incalculável valor de um habeas corpus porque foi mediante habeas corpus que eu fui tirado da prisão e livre em definitivo do processo, acusado de crime contra a Segurança Nacional.

Ninguém me fale sobre infância difícil, sobre os meninos de rua, sobre a necessidade de mais escola pública porque na escola pública eu estudei, do primário à universidade. Eu sei mais que muitos sobre o desemprego, sobre a deficiência do sistema de saúde, sobre a incipiência das nossas estradas, sobre o quanto nosso Povo lucraria se os nossos rios voltassem a ser navegáveis.

Não me reclamem contra a impunidade porque eu sei que a causa não é só a morosidade do Judiciário. Tem origem também na cumplicidade dos poderosos. Sobre a violência urbana, eu também sei. Problemas no campo, luta pela terra? Eu vi, eu vivi, eu também sei.

Somos hoje no Maranhão quase cinco milhões de brasileiras e brasileiros. Mais da metade, algo em torno de três milhões, tem título de eleitor. São 467.621 na Capital. E 2.519.612 no interior. Já somamos mais de 300 Prefeituras e Câmaras Municipais. Em nossas instituições formais – Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público – as pessoas quase não se entendem (ou se entendem até demais). Quero dizer, quanto a uma junção de esforços numa cruzada eficaz contra a impunidade, a favor da Justiça Social e da Paz.

Eis aqui uma informação terrível, a nos impor uma reflexão diuturna. “Os brasileiros são o povo que atualmente menos acredita na democracia como a melhor forma de governo entre todos os habitantes da América Latina”. O número – 35% não querem saber de democracia. Por que será?

Não é difícil responder. Associando a palavra “democracia” com a palavra “políticos”, as pessoas não querem mais saber, na verdade, não é da democracia, que nós, aliás, ainda nem consolidamos no realmente, resumidos que andamos sempre aos formalmente. Elas estão cansadas é dessa mentirada sobre os dinheiros públicos, da crescente substituição do trabalho sério e corajoso pela encenação falaciosa do marketing político. Há que se restabelecer a credibilidade nas ações de Estado. Só que isso depende da legitimidade dos que governam e dos que legislam.

Já está passando da hora de se pensar num novo futuro para o Maranhão. A força que me passa a certeza desta afirmação não é estranha. Emerge das multidões ainda abaixo da linha da pobreza, que nos colocam no último lugar em qualidade de vida no vagaroso comboio da Federação.

A força que vai mover a nós todos no enfrentamento dos novos desafios, está solta por aí, como diria o poeta, “ela vai chegar na asa de um avião ou no bico de um pássaro daqui.”. Tem tudo a ver com esta cidade de São Luís, que nos seduz e nos inunda de esperanças e que nos ganha como oxigênio de suas lutas. E que se derrama inteira neste plenário, pela ação e pela voz de Vossas Excelências.

Daquela viagem de trem, a mala de pinho, pintada de preto, guardada por um dia na Hopedaria Timbira, em frente à estação; daquele primeiro emprego, no Bar 1º Janeiro, na Rua de Santana, esquina com Antonio Rayol; dos pregões de jornaleiro, um desses pregões imortalizados por João do Vale - “Jornal do Povo descobriu outro roubo”; do medo de ser descoberto por causa do sobrenome e ser mandado de volta para Caxias; dos anos de trabalho nas redações varando noites e amanhecendo com as manhãs; da humilhação da fome, da fuga ao relento, da injustiça do cárcere e da cassação; da vibração e dos arroubos dos palanques às vitórias nas urnas; da alegria de ganhar o mundo e ser ganho por ele; andar, rodar, penar, vencer, voltar.

Vocês não têm idéia do quanto me sinto agora tão pequeno para acolher tanta emoção. Por tamanha honra que me dão. E que prometo retribuir em renovados compromissos. Pela causa da democracia. Pela causa da Justiça Social e da Paz. Pela causa que, eu sei, será sempre de todos nós. Por um novo futuro, tudo pela melhoria das condições de vida no nosso Maranhão.

Lembrando John Kennedy em frente ao muro de Berlim, que disse – “Eu também sou um cidadão berlinense”. Peço licença para inflar mais ainda o meu orgulho e dizer – “Eu também sou um Cidadão da Cidade de São Luís. A partir de agora eu também sou um Cidadão São-Luisense.” Muito obrigado.



Homenagem na Câmara Municipal de São Luís do Maranhão, em 19 de maio de 2000




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