Cobertura jornalística em finais de mandato



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Cobertura jornalística em finais de mandato: uma análise da circunstância brasileira
Antonio Albino Canelas Rubim (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da Universidade Federal da Bahia – CULT-UFBA). rubim@ufba.br
Leandro Colling (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da Universidade Federal da Bahia - CULT-UFBA). colling@ufba.br
Resumo: O trabalho analisa a cobertura jornalística dos principais meios de comunicação brasileiros no período referente ao final dos mandatos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (1998) e Luiz Inácio Lula da Silva (2005-2006). O texto também trata da cobertura realizada nas campanhas eleitorais e tenta explicar porque Lula continuou com expressiva votação após o grande volume de informações negativas ao seu governo e partido.
Abstract: This paper analyzes the journalistic coverage provided by Brazil's main media during the periods corresponding to the end of the presidential terms of Fernando Henrique Cardoso (1998) and Luiz Inácio Lula da Silva (2005-2006). The paper also studies the media coverage during the electoral campaigns and attempts to explain why Lula continued to win a considerable percentage of votes despite the large amounts of negative information on his government and his party.
Introdução

Hoje a bibliografia brasileira sobre comunicação e política é relativamente ampla. Ela foi levantada, organizada e disponibilizada por Antonio Albino Canelas Rubim no sítio do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (www.cult.ufba.br). Os estudos sobre mídia e eleições presidenciais são um dos seus eixos mais expressivos. Recentemente, Colling (2006) defendeu tese de doutoramento sobre os estudos realizados no país acerca do tema mídia e eleições presidenciais no período pós-Ditadura Militar, englobando os experimentos de 1989, 1994, 1998 e 2002. Anteriormente estes dois autores já haviam publicado uma análise acerca do tema (Rubim e Colling, 2005).

Estes trabalhos apontam que a bibliografia disponível, infelizmente, não contempla a existência de estudos dedicados às relações entre mídia e governo / governabilidade. Neste caso, a bibliografia é escassa. A ausência de uma bibliografia especializada acerca da cobertura da imprensa nos finais de mandatos presidenciais no Brasil obriga este trabalho a recorrer à bibliografia existente sobre mídia e eleições presidenciais de 1998 e 2002 para, em seguida, analisar a cobertura da imprensa ao final do mandado do presidente Lula.
1. 1998: a primeira reeleição no Brasil

Em 1998, pela primeira vez o Brasil viveu uma reeleição presidencial. Até então ela era vetada por dispositivo constitucional. O presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) dedicou parte significativa de seu primeiro mandato para alterar a Constituição e aprovar tal expediente no Congresso Nacional.

A reeleição propicia a situação de se conviver como um ator do processo eleitoral que ocupa dois papéis, simultânea e ambiguamente, em uma preocupante duplicidade de candidato e governante. Esta dupla exposição certamente introduz uma desigualdade, competitiva e de acionamento de recursos, não desprezível no processo eleitoral, distorcendo a democracia.

Tal desigualdade tornou-se ainda mais gritante porque a legislação eleitoral – no Brasil sempre casuística, porque deliberada a cada eleição – reduziu o tempo do horário eleitoral gratuito de televisão e rádio de 60 para 45 dias e diminuiu ainda mais a campanha ao “definir” os dias da semana destinados obrigatoriamente à campanha presidencial. Tem-se assim uma exposição rádio-televisiva sumamente restringida para a disputa presidencial.

Além disso, as forças políticas dominantes, ligadas a FHC, agiram deliberadamente para circunscrever a disputa eleitoral a apenas duas candidaturas efetivas: FHC e Lula. Com isto se buscava evitar a possibilidade de um segundo turno.

Na época, parte da imprensa denunciou, inclusive com base em declarações de parlamentares, a compra de votos pelo governo para conquistar a alteração constitucional. A Folha de São Paulo foi um destes jornais. Apesar da indiscutível relevância do tema em um cenário político de disputa eleitoral e da atual propensão da mídia pela cobertura de escândalos, a imprensa não deu a devida importância ao assunto e não o investigou. Em virtude desta atitude complacente da mídia, o tema deixou, com rapidez, a agenda.

Uma outra denúncia recorrente também não conseguiu mobilizar a mídia e ser devidamente investigada pela imprensa. Trata-se do escândalo acerca dos amplos processos de privatização implementados durante o Governo FHC, com destaque para o do sistema de telecomunicações. A relevância dos processos de privatização não só deriva da envergadura das empresas privatizadas – Sistema Telebrás, Embratel etc –, mas também do fato de tal processo ter ocorrido sintomaticamente em um ano eleitoral e ter envolvido muitos interesses das empresas de comunicação. Neste caso, apesar da publicação de algumas reportagens e artigos esporádicos, a imprensa praticamente silenciou sobre a gravidade dos escândalos.

Em resumo, a imprensa, no período anterior às eleições de 1998, apesar da emergência de fortes denúncias de escândalos de corrupção envolvendo o Governo FHC, não assumiu uma atitude jornalística de tematizar e investigar tais escândalos. Preferiu, pelo contrário, silenciar sobre eles. Deste modo, a mídia agiu em total sintonia com os interesses do governo. A capacidade demonstrada pelo Governo FHC de impedir todas as instalações de Comissões Parlamentares de Inquérito – CPIs deve ser atribuída não só à articulação de sua base parlamentar, mas igualmente a esta “atuação suave” da imprensa nestes e em outros casos em que a oposição e a sociedade se mobilizaram para exigir investigações. A atitude da mídia pode ser explicada, dentre outras, por hipóteses como: 1. apoio ideológico da maior parte da mídia ao modelo neoliberal em curso e ao Governo FHC; 2. interesses da mídia em jogo nos processos de privatização e 3. dependência econômica da mídia ao governo, seja através de financiamentos e empréstimos, seja pela via da publicidade, pois o Estado nacional é o maior anunciante no país.

Assim, a intervenção do campo das mídias se fez, antes de tudo, em total sintonia com as forças dominantes do campo político. A adesão da mídia foi indiscutível na cobertura da fase final do Governo FHC e também na competição eleitoral. A tradição governista de parte da mídia outra vez se realizou. Mais que isto, ficou patente uma afinidade ideológica entre setores dominantes na política e boa parcela da mídia em torno do Plano Real e das proposições neoliberais para o Brasil. Esta afinidade eletiva não derivava, entretanto, exclusivamente de uma convicção ou afiliação ideológica, mas de uma crônica dependência da mídia ao Estado e dos interesses das empresas de comunicação na privatização de estatais, especialmente do ramo das telecomunicações, coincidentemente realizada no ano eleitoral.

Colling (2000) analisou o Jornal Nacional (JN), da Rede Globo, nos seis meses que antecederam a segunda vitória de FHC e concluiu que o telejornal enquadrou temas da mesma forma que o governo federal e, por conseguinte, que a candidatura FHC. A crise econômica, por exemplo, foi explicada para os telespectadores como uma crise internacional. Na venda da Telebras apenas foram destacados os benefícios que ela traria para a população. O governo federal não foi responsabilizado por não prever o impacto social da seca no Nordeste. O desemprego foi sempre reportado como um problema mundial e, além disso, existente porque o próprio desempregado não teria a formação necessária para ingressar no mercado de trabalho. Os problemas da educação deveriam ser resolvidos pela comunidade e pelos pais dos alunos. Por fim, o tema da eleição presidencial foi silenciado e, quando apareceu, ela foi dada como já definida em favor de FHC.

Guazina (2001) examinou o JN e o Jornal da Record (JR) nos meses de março a agosto de 1998 e também concluiu que os enquadramentos dos dois telejornais coincidiam com os do governo federal e da candidatura FHC. Miguel (2002) analisou 72 edições do JN, de 13 de julho a 3 de outubro de 1998, o que totaliza 12 semanas e praticamente 28 horas. Neste período, o principal telejornal da televisão brasileira dedicou apenas 1h16min34seg para a cobertura das eleições. O pesquisador também defende que, ao invés de informações, profundo silêncio sobre a eleição e as (graves) questões nacionais.
2. Mídia e eleições 2002

A eleição de 2002 foi disputada em dois turnos. Do primeiro turno participaram seis candidatos, dentre eles Lula (PT), José Serra (PSDB), Anthony Garotinho (PSB) e Ciro Gomes (PPS). Foram para o segundo turno os candidatos Lula e Serra. Na segunda rodada eleitoral, tem-se seguinte resultado, com a vitória de Lula com a maior votação de um político na história do país até hoje:




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