ColeçÃo romance e psicanálise



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NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS

hannah green

romance e psicanálise



2? EDIÇÃO

COLEÇÃO ROMANCE E PSICANÁLISE


Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS

Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos

de Robert Lindner

Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA

Operalores e Coisas

de Bárbara Brien

Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart

Volume 4 - O FILHO DO AMOR

Um auto-retrato de Mary Hanes

Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green


NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS

Av. Paulista, n° 2518 - Térreo

Telefone: (0xx11) 3258-8599


emporiopaulista@terra.com.br

HANNAH GREEN


NUNCA LHE PROMETI

UM JARDIM DE ROSAS


Coleção Romance e Psicanálise

Direção

Jayme Salomão


IMAGO EDITORA LTDA.
Rio de Janeiro

Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright © 1964 by Hannah Green

Editoração

Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira

Tradução: Jayme Benchimol

Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes

Capa: Renato Sérgio Brando

1974


Direitos para a língua portuguesa adquiridos

por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana

330 - 10? andar - Tel.: 255-2715, Rio de Janeiro,

que se reserva a propriedade desta tradução.

Impresso no Brasil Printed in Brazil
PARA MINHAS MÃES

O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessando curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com suas tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silêncio com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasperavam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovisor e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significava ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina continuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço desesperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam fazendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região maravilhosa.

Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai.

- Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma. Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuciosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento sentia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porque era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio.

- Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. Se ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É importante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descontração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando a esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconhecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele instante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e desgracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezesseis anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil.

Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no rosto familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botões: ”Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Eles não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!”

A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: ”Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal.” E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor restaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima com a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminhando sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-se mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encostaram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja importância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar.

Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-se de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e espontaneidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escutar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, mesmo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não fosse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse

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significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília noturna, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: - Por que a estamos mandando embora?



- Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendida rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede.

- Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início.

- O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz.

- Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde imprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança!

- Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tivermos confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Lister diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou resolutamente a fixar os olhos na parede.

Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enquanto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão.

No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma espécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmulas e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum passado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si mesmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os desejava, despojados de emoção ou sentimento.

Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas no quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam parte de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de

Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num sono profundo, sem sonhos, repousante.

Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar para sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos deuses e dos habitantes, normalmente tão exigentes, de Yr.

Viajaram durante algumas horas, percorrendo uma região mesclada de reflexos, dourados e castanhos, e as ruas salpicadas de sol dos pequenos vilarejos. Foi então que a mãe perguntou: - Onde é o desvio, Jacob?

Em Yr, uma voz clamou das profundezas do Poço: Inocente! Inocente!

Num instante desfez-se toda aquela sensação de liberdade. Déborah Blau foi impetuosamente tragada pelo choque de dois mundos. Houve, como em todas as outras vezes, um dilaceramento silencioso, fantástico. No universo onde se sentira até há pouco radiante, o sol cindiu-se no céu, a terra entrou em erupção, seu corpo foi despedaçado, os dentes e os ossos se fragmentaram em mil pedaços. Enquanto isso, no outro universo, habitado por fantasmas e sombras, um carro tomava um desvio lateral e penetrava numa estrada que desembocava num prédio de tijolos vermelhos, muito antigo. Em estilo vitoriano, cercado de árvores, seu aspecto era bastante decadente. Fachada ideal para um manicômio. Quando o carro parou diante da portaria, Déborah ainda estava atordoada pelo choque. Foi difícil saltar, e mais ainda subir condignamente as escadas de acesso ao prédio, onde aguardavam os médicos. Havia grades em todas as janelas. Déborah sorriu: ”Ótimo! Não poderia ser melhor!”

Ao ver as grades, Jacob Blau ficou lívido. Não havia mais como se iludir: aquilo não era nem ”clínica de repouso” nem ”tratamento de convalescência”. A verdade impunha-se nua, gélida como o ferro das grades. Esther tentou alcançá-lo em pensamento: - Não devíamos contar com isso? Por que essa surpresa?

Enquanto esperavam, Esther Blau procurava todas as formas de se mostrar jovial. Exceto pelas janelas gradeadas, a sala parecia qualquer outra sala de espera, e ela aproveitou para tro-

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çar das revistas antiquíssimas que estavam por ali. De repente, ouviram no fundo do corredor o ranger metálico de uma chave na fechadura - pelo som devia ser imensa - e Jacob retesouse de novo, sobressaltado, gemendo baixinho: - Não, ela não, nossa Debbizinha. . . E não percebeu o olhar implacável que cintilou no rosto da filha.

O médico percorreu o corredor e, antes de entrar na sala, compôs uma expressão grave. Era um homem corpulento e atarracado, de modos bruscos. Entrou e sentiu logo a angústia que pairava no ar, quase palpável. O prédio era antigo, um lugar realmente assustador. Sua missão consistia em afastar a menina o mais rápido possível e tranqüilizar suficientemente os pais para que consentissem em deixá-la, convictos de que tinham feito o que era certo.

Quantas vezes, naquela mesma sala, pais, maridos ou esposas no último minuto, rejeitavam com repugnância a pavorosa realidade da doença. Agarravam o parente, coitado, com seus olhos esgazeados, e o levavam embora de novo. Era medo, ou uma justa impressão negativa ou - e nisto seus olhos perscrutaram de novo o casal - aquele grão híbrido de ciúme e ódio que sempre os impedia de interromper a longa sucessão de misérias uma geração após a sua. Procurou mostrar-se compadecido, mas sem leviandade. Pouco depois, chamou uma enfermeira para conduzir a menina ao interior do hospital. Ela parecia uma vítima em estado de choque; quando a levaram dali, sentiu a dor em que os pais se revolviam.

Depois de prometer que ainda se despediriam dela antes de partir, o médico os conduziu à secretaria para que preenchessem os formulários de praxe. Quando voltou a vê-los, após as despedidas, pareciam também em estado de choque. ”Que coisa dolorosa ter que se amputar de uma filha”, pensou.

Jacob Blau não era um homem dado a exames introspectivos, nem tinha o hábito de revolver o passado para pesar e medir sua configuração. Julgava a esposa, em certos momentos, uma mulher excessivamente voraz, moendo e remoendo suas paixões num discurso interminável. Contudo, invejava-a um pouco. Ora, também ele amava a filha, embora nunca tivesse declarado esse amor. Também ele desejava ouvir confidencias

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e, no entanto, jamais fora capaz de se abrir. Era natural que nenhum dos seus o procurasse para confidencias. Acabara de deixar a filha mais velha naquele lugar sombrio, cheio de trancas e grades. No momento da despedida, ela se mostrara bastante ansiosa, e se afastara dele recusando o beijo. Aparentemente, não quisera aceitar qualquer consolo de sua parte, encolhendo-se todas as vezes em que procurou tocá-la. Homem de temperamento forte, precisava agora explodir com alguém, extravasar sua raiva. Mas a raiva vinha de tal modo imbuída de compaixão, de medo e de amor, que não teve como se libertar dela. E seu enorme desgosto não fez senão despertar sua velha e caprichosa úlcera.



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Levaram Déborah para um quartinho modesto, onde ficou até que se desocupassem os chuveiros. Ali também foi vigiada: uma mulher, placidamente sentada em meio às nuvens de vapor, não parou de observá-la enquanto tomava banho. Déborah executou obedientemente todas as instruções, procurando manter o braço esquerdo ligeiramente voltado para dentro, de modo a esconder as duas cicatrizes em seu pulso. Já acomodada à nova rotina, voltou para o quarto, onde teve que responder a algumas perguntas sobre sua vida. O médico que as fazia, num tom sardônico, pareceu-lhe insatisfeito. Era óbvio que ele não ouvia a algazarra, os clamores, os rugidos que ressoavam dentro dela.

No vácuo do Mundo Intermediário onde se achava, entre Yr e o Agora, o Coletor começava a dar sinais de vida. Em breve, eles a estariam maldizendo e insultando, tomando-a igualmente distante de seus dois mundos. Lutava contra essa iminência como uma criança que, esperando a punição, a antecipa ferindo-se selvagemente. Começou por responder a verdade às primeiras perguntas do médico. Agora pouco importava que a chamassem de sonsa e mentirosa. Dentro dela cresceu um pouco a algazarra, e Déborah conseguiu distinguir algumas das palavras que se formavam. Não havia nada no auarto que pudesse distrair sua atenção. Para se defender contra a onda que ameaçava tragá-la, contava apenas com o Aqui, com aquele médico frio de cademo de notas na mão, ou então com Yr, seus campos dourados e seus deuses. Ah, mas Yr também possuía regiões de terror e desespero. Déborah já não sabia mais para qual dos reinos de Yr havia passagem. Os médicos que a ajudassem.

Ergueu os olhos para aquele que estava sentado ali, prestes a desaparecer em meio à algazarra, e disse: - Contei toda a verdade sobre essas coisas que o senhor perguntou. Vai me ajudar agora?

- Isso depende de você - respondeu secamente, fechou o cademo e saiu.

- Um especialista! zombou Anterrabae, O Deus Cadente.

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- Deixa eu ir com você - ela implorou, caindo, caindo, junto com ele, porque também ele caía etemamente.



- Que assim seja! - E seus cabelos, ardendo em chamas, ondulavam levemente na queda interminável.

Naquele dia e no seguinte, Déborah vagueou pelas planícies de Yr, imensas extensões de terras nuas, onde os olhos se perdiam no espaço infinito.

Déborah estava profundamente agradecida aos Poderes que lhe haviam concedido tamanha misericórdia. Os últimos meses tinham sido dificílimos de suportar: tanto frio, tanta dor e tanta cegueira em Yr. Agora, tal como no mundo, sua imagem passeava e respondia, perguntava e agia; Ela - não mais Déborah, e sim uma pessoa com um nome apropriado para uma habitante das planícies de Yr - cantava, dançava e entoava hinos rituais, louvando a brisa acariciante que varria a imensa ravina.

Para Jacob e Esther Blau a volta para casa não foi mais fácil do que a ida ao hospital. Embora Déborah já não estivesse em sua companhia, a possibilidade de dizerem aquilo que realmente queriam dizer se mostrava menor do que antes.

Esther julgava conhecer Déborah melhor que o marido. A seu ver, não fora a tentativa infantil de suicídio que dera início àquele ciclo interminável de médicos e decisões. Sentada no carro ao lado do marido, a vontade que tinha era de dizer a ele que se sentia de certa forma aliviada com aquele incidente, aquele gesto tolo e teatral de cortar os pulsos. A suspeita, que vinha se arrastando há tanto tempo, de que havia alguma coisa profunda e terrivelmente errada, finalmente se concretizara num fato. A xícara, cheia de sangue até o meio, que encontraram no chão do banheiro, dera consistência a todas as suas impressões nebulosas e a seus temores vagos. No dia seguinte, levaram a menina ao médico. Gostaria agora de mostrar a Jacob todas as coisas que ele desconhecia, mas tinha certeza de que não poderia fazer isso sem magoá-lo. Voltou-se para ele, vendo-o dirigir com os olhos fixos na estrada, a fisionomia contraída: - Poderemos visitá-la dentro de um mês ou dois, disse.

Puseram-se então a construir a história que contariam aos amigos e aos parentes mais afastados, ou àqueles cujos preconceitos impediriam de aceitar a simples idéia de um hospital psi-



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quiátrico na família. A estes, falariam qualquer coisa a respeito de uma escola. Quanto a Suzy, que no mês anterior tantas vezes escutara a palavra ”doente”, e que, mesmo antes disso, vinha se mostrando inteiramente desnorteada, diriam alguma coisa sobre anemia ou fraqueza e um sanatório especial para convalescença. A papai e mamãe, diriam, para tranqüilizá-los, que estava tudo bem. .. tratava-se apenas de uma clínica de repouso. Embora eles soubessem das recomendações do psiquiatra, Jacob e Esther teriam que amenizar um pouco a descrição do lugar omitindo especialmente o grito lancinante vindo de uma das janelas gradeadas, que haviam escutado quando saíam, e que os fizera estremecer da cabeça aos pés. Ao escutar aquilo, Esther não pôde mais sufocar as dúvidas que a assaltavam. O grito ficaria trancafiado em seu coração, como Déborah Naquele Lugar.

A Dra. Fried ergueu-se da cadeira e foi até a janela de onde se descortinavam os pavilhões do hospital, um pequeno jardim e logo adiante o pátio onde os intemos costumavam passear. Olhou o relatório que tinha nas mãos. Àquelas três páginas datilografadas contrapunham-se as conferências que não poderia dar, os escritos que seria obrigada a negligenciar, e as supervisões que seria forçada a recusar caso decidisse aceitar a nova paciente. Gostava muito de trabalhar diretamente com doentes. A própria doente facultava-lhe analisar a sanidade como poucos ”sãos” seriam capazes de fazer. Impossibilitados de amar, de conviver e de se comunicar, geralmente manifestavam sua carência com uma paixão intensa, pura e fascinante.

Há momentos - lembrou-se com pesar - em que o mundo parece ser mil vezes mais doente do que aqueles que esse mesmo mundo intema em suas instituições. Recordou-se de Tilda, intemada num hospital psiquiátrico na Alemanha, na época em que do outro lado dos muros estava Hitler: qual dos lados era o mais são? Tilda, com suas crises de fúria destruidora, sempre amarrada às camas, alimentada pelas veias, freqüentemente submetida à força, tinha, apesar de tudo, os seus momentos de extraordinária lucidez. Lembrava-se bem de uma vez em que Tilda, atada à cama, erguera para ela os olhos e com um sorriso que procurava ser gentil, dissera: - Oh, entre por

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favor querida Doutôra. A senhora chegou bem a tempo de presenciar o chá tranqüilizante da paciente e o fim do mundo. Tilda e Hitler não existiam mais. Agora, havia muito a ensinar aos médicos que saíam das escolas com uma vivência limitada. Seria justo iniciar o tratamento individual de pacientes, sabendo-se que qualquer progresso real poderia exigir anos, enquanto dezenas de milhares de pessoas chamam, escrevem e telefonam implorando ajuda? Sorriu, percebendo que se deixava levar pela vaidade, vício que denunciara numa de suas aulas como o pior inimigo do médico, depois da doença do paciente. Ora, se para Deus eram importantes as individualidades, por que não para ela? Sentou-se, abriu a pasta, e começou a ler o relatório.



BLAU, DÉBORAH F. 16 anos, Hosp. Prev.: nenhum. Dl AG. INICIAL: ESQUIZOFRENIA

1 - Testes: Os testes evidenciam um quociente de inteligência (140-150) elevado, embora ocorram distorções nas amostragens resultantes da doença. Várias questões mal interpretadas, de maneira excessivamente subjetiva. Reação inteiramente subjetiva à entrevista e aos testes. Os testes de personalidade revelam comportamento tipicamente esquizofrênico, com componentes compulsivos e masoquistas.

2 - Entrevista (inicial): De início, a paciente parecia bem orientada e lógica nos seus pensamentos, mas com o desenrolar da entrevista, a lógica começou a ruir, ela passou a demonstrar extrema ansiedade diante de tudo o que pudesse ser interpretado como correção ou crítica. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador com sua perspicácia, utilizando-a como uma formidável defesa. Em três ocasiões diferentes, riu inoportunamente: a primeira, quando declarou que a hospitalização resultará de uma tentativa de suicídio; as duas outras, por ocasião de perguntas relativas à data do mês. À medida que prosseguia a entrevista, sua atitude foi mudando. Começou a falar alto, citando episódios casuais de sua vida que considerava responsáveis por sua doença. Mencionou uma operação aos cinco anos de idade, cujos efeitos foram traumáticos, uma babá cruel, etc. Os incidentes não tinham relação entre si, nem se incluíam em qualquer padrão. Subitamente, em meio à narrativa de um acon-

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tecimento, a paciente avançou, dizendo em tom acusador: - Eu disse a verdade sobre essas coisas; e agora, vai me ajudar? Consideramos recomendável encerrar a entrevista.



3 - História familiar - Nasceu em Chicago, Illinois. Outubro, 1932. Amamentada até o oitavo mês. Uma irmã, Susan, nascida em 1937. Pai, Jacob Blau, contador, cuja família emigrou da Polônia em 1913. Parto normal. Aos cinco anos de idade, a paciente sofreu duas operações para extirpar um tumor no aparelho urinário. Dificuldades financeiras obrigaram a família a se mudar para a casa dos avós, nos subúrbios de Chicago. A situação melhorou, mas o pai adoeceu: úlcera e hipertensão. Em 1942, a guerra forçou-os a mudar para a cidade. A paciente não se ambientou bem, tendo sido ridicularizada pelos colegas de escola. Puberdade fisicamente normal. Aos 16 anos, contudo, a paciente tentou suicídio. Há antecedentes de hipocondria na família, mas, exceto o tumor, a saúde tem sido boa.

A doutôra virou a página e examinou por alto as diversas avaliações estatísticas de fatores de personalidade e os resultados dos testes. Déborah seria sua paciente mais jovem. Abstraindo as considerações relativas à individualidade da pessoa em questão, talvez fosse interessante descobrir se uma menina com tão pouca experiência de vida poderia lucrar com a terapia. E como seria o trabalho: mais fácil ou mais difícil? O que decidiu a questão foi, enfim, a idade da menina: graças a isso o relatório acabou prevalecendo sobre os compromissos com reuniões e os artigos por escrever.

- Aber wenn wir. . . Ah, se conseguirmos. . . - murmurou, forçando-se a evitar a língua matema - quantos belos anos de vida ainda pela frente. . .

Voltou a se concentrar nos fatos e nos números. Um relatório semelhante levara-a, certa vez, a comentar com o psicólogo do hospital: - Algum dia precisamos descobrir um teste que também nos mostre onde está a saúde.

O psicólogo respondeu que poderiam saber isso por meio do hipnotismo, do ametil e do pentotal.

- Discordo - retrucou a Dra. Fried. - Essa força que se mantém oculta é um segredo profundo demais. Mas no fundo, no fundo, é nossa única aliada.

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Durante um bom tempo - exatamente quanto, segundo os critérios da Terra, ela não saberia dizer - Déborah esteve em paz. O mundo lhe exigia pouco, o que reforçava sua convicção de que a causa de tantas agonias no reino de Yr se originavam de pressões exteriores. Algumas vezes, inclusive, conseguia ficar em contacto com a ”realidade”, a partir de Yr, como se a ruptura existente entre ambos não fosse mais do que uma névoa muito tênue. Nesses momentos, passava a se chamar Januce, porque se sentia como a Juno das duas faces - cada uma voltada para cada mundo. O primeiro incidente na escola ocorreu exatamente quando, por um deslize, deixou escapar esse nome. Estava vivendo naquele dia conforme o Calendário Secreto (em Yr não se media o tempo da mesma forma que no mundo) quando, de repente, retcomou ao Calendário Pesado. Sobreveio uma sensação tão maravilhosa e onisciente de transição, que Déborah não resistiu ao ímpeto de anotar, no cabeçalho da folha de aula, as palavras JANUCE AGORA, A professora, vendo-as, perguntou: - Déborah, o que foi que você escreveu no papel? O que significa essa palavra, Januce? E ficou ali, parada junto à carteira, aguardando a resposta.



Déborah sentia renascer dentro de si como que os terrores de algum pesadelo remoto, e o ambiente luminoso e saudável da sala de aula se desvanesceu completamente. Olhou ao redor e descobriu que só era capaz de perceber os objetos em seus contornos, tudo estava envolto em tonalidades cinzas, sem qualquer dimensão de profundidade. As coisas se tomaram planas, como num quadro. As palavras inscritas no papel simbolizavam a passagem do tempo de Yr para o da Terra. Surpreendida, porém, em plena transição, Déborah teria que responder agora pelos dois mundos. Só que responder implicava em descortinar o horror em toda a sua plenitude - um horror do qual não teria acordado racionalmente. Por isso, mentira e dissimulara, o coração sufocando de medo. Perigos desse gênero deveriam ser, a partir de então, evitados a todo custo. Naquela mesma noite, os personagens do Grande Coletor afluíram em massa ao Mundo Intermediário - deuses e demônios vindos

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de Yr e sombras da Terra - e decidiram erguer sobre seus reinos um Censor que se interpusesse entre as palavras e as ações de Déborah e assim protegesse o segredo da existência de Yr.



com o correr dos anos, o poder do Censor cresceu assustadoramente, até que, recentemente, terminou por impor sua presença em ambos os mundos, e com tamanha severidade que, algumas vezes, nenhuma palavra e nenhuma ação lhe escapavam. Um nome sigiloso segredado por descuido, um sinal eventualmente escrito, um raio de luz que penetrasse na região oculta, para sempre poderiam destruir Déborah e seus dois mundos.

Na Terra, a vida do hospital prosseguia normalmente. Déborah trabalhava na oficina de artesanato, aliviada por saber que também o mundo tinha esconderijos a oferecer. Aprendeu a fabricar cestos, aceitando todas as instruções, embora sem dispensar os modos impacientes e ásperos. Sabia que nenhuma de suas companheiras de trabalho gostavam dela. As pessoas, aliás, jamais gostaram dela. Certa vez, uma menina grandalhona de sua ala veio convidá-la para jogar tênis, e o choque repercutiu até o fundo de Yr. Ainda voltou a ver algumas vezes o médico do cademinho, e soube que se tratava do ”administrador da ala”, a quem cabia conceder os ”privilégios” - etapas análogas às do mundo normal - como, por exemplo, sair do quarto pela manhã, jantar na companhia dos outros, passear no pátio, e por último, sair do próprio hospital e ir sozinha a um cinema ou fazer compras. Cada uma dessas etapas constituía um privilégio e possuía uma certa conotação de recompensa que, curiosamente, parecia se exprimir em termos de distância. O médico permitiu que Déborah passeasse sem restrições no pátio, mas não fora do hospital. Déborah comentaria depois com a tal grandalhona, que se chamava Carla: - Pois é, veja só, eu tenho cem metros quadrados de sanidade! Se havia unidade de medidas, tais como homens-hora, anos-luz, por que não sanidademetro?

Carla consolou-a: - Não se preocupe! Logo você receberá mais privilégios. Se você se esforçar bastante com o seu médico, eles vão aliviar um pouco a barra. O que eu não sei é quanto tempo vou ficar aqui. Já se passaram três meses. E, imediata-

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mente, ambas pensaram nas mulheres lá do final da ala: todas tinham mais de dois anos de hospital.



- As pessoas saem algum dia daqui? - perguntou Déborah. - Quer dizer, ficam boas e então saem?

- Não sei - respondeu Carla. Resolveram perguntar a uma enfermeira.

- Não sei! - foi a resposta. - Não estou aqui há tanto tempo assim.

Ressoaram ao mesmo tempo um grunhido de Lactamaeon, o deus Negro, e a risada zombeteira do Coletor: a síntese de todas as imagens de professoras, parentes, colegas de escola, etemamente reunidos em segredo para julgá-la e atormentá-la para sempre.



Para sempre, menina maluca! Para sempre, menina preguiçosa!

Mais tarde, uma das enfermeiras estagiárias se aproximou de Déborah, que estava deitada, os olhos fixos no teto.

- Vamos, é hora de se levantar - disse ela, com uma voz vacilante e assustada, que denunciava sua inexperiência. Fazia parte de um novo grupo de estagiários cumprindo um período de treinamento psiquiátrico no hospital. Déborah suspirou e se levantou obediente, pensando consigo mesma: Ela deve ficar atônita com a densidade de loucura com que sou capaz de impregnar esse quarto.

- Venha comigo - disse a estudante. - A doutôra quer vê-la. Ela é uma das chefes aqui, uma médica muito famosa, por isso devemos nos apressar, Srta. Blau.

- Ora, já que ela é tão boa assim, vou pôr os sapatos! - respondeu Déborah, observando divertida a expressão de surpresa da moça e o esforço que fazia para reprimir o olhar de desaprovação. Ela devia ter recebido instruções para ocultar todo e qualquer sentimento mais intenso, como ódio, medo ou prazer.

- Você devia ficar agradecida - disse a estagiária. - Já é muita sorte ser recebida por ela.

- Conhecida e amada por loucos do mundo inteiro! - ironizou Déborah. - Vamos!

A enfermeira destrancou a porta da ala e, em seguida, a




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