Coletânea sobre teologia especializadas



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COLETÂNEA SOBRE TEOLOGIA ESPECIALIZADAS

Nesta Apostila:



  1. A Natureza da Teologia -2

  2. Teologia Bíblica e Teologia Sistemática -12

  3. Introducão ao Estudo da Teologia (sistemática) -16

  4. Teologia Sistemática ou Teologia Bíblica? -39

  5. História da Teologia Bíblica do NovoTestamento - 44

  6. História da Teologia Bíblica - 47

  7. O que é Teologia Prática? - 67

  8. Teologias das Migraçoes - 86

  9. Discursos sobre as religiões afro-brasileiras – 117

  10. Teologia e Religiões Afro-Brasileiras -133

Natureza da Teologia



Temas:

1.1. Definição e Objeto da Teologia.

1.2. Fé e Teologia.

1.3. A Teologia como ciência.

1.4. Método próprio da Teologia: as fontes teológicas.

1.5. Teologia positiva e Teologia especulativa.

1.6. Unidade da Teologia e pluralidade de disciplinas teológicas.

1.7. La Teologia e a missão da Igreja: inculturação da fé e evangelização. 



1.1. Definição e Objeto da Teologia.

a) Definição: o termo Teologia é de origem grego, e etimologicamente significa: tratado, ciência de Deus. O termo começa a ser utilizado pelos cristãos a partir de Eusébio de Cesaréia. A partir de então será entendida como a exposição metódica e estruturada da Revelação.

A Teologia trata de compreender e aprofundar nas verdades reveladas à luz da razão iluminada pela fé.

Ou melhor, a poderíamos definir como: a ciência em que a razão do crente, guiada pela fé teologal, se esforça para compreender melhor os mistérios revelados em si mesmos e em suas conseqüências para a existência humana.

b) Objeto: o interesse da Teologia se centra em Deus e na sua atividade salvadora em Cristo. É por definição uma ciência teocêntrica e trata a Deus sob a razão de deidade. Mas a Teologia não busca uma formulação da verdade divina em si mesma, mas sua exposição e desenvolvimento para os homens.

A Teologia se distingue da Teodicéia, que é o conjunto de conhecimentos que o homem pode chegar a ter de Deus sem ajuda da Revelação sobrenatural e se limita a estudar a existência, o ser e os atributos divinos. A ciência teológica estuda o ser de Deus, na medida em que pode ser alcançado. Não se esquece nunca que Deus é um mistério, não é um objeto do qual se possa dar informação como dos outros seres. Que a Teologia é a ciência de Deus significa que tudo se trata nela principalmente desde o ponto de vista divino. A distinção tradicional é a seguinte: 

1) Objeto material – é a realidade da que propriamente se ocupa a Teologia. O objeto é Deus e todas as realidades por Ele criadas e governadas por seu desígnio salvador. O objeto material primário ou principal é Deus e o objeto secundário são todas as coisas criadas enquanto ordenadas a Deus.

2) Objeto formal, indica o ponto de vista. Um é o objeto formal “quod”: o que é próprio de Deus.“Deus sub ratione Deitatis” e o objeto formal “quo” designa a luz intelectual sob a que o objeto é considerado. Neste caso, a razão iluminada ou guiada pela fé. 



1.2. Fé e Teologia.

Dizemos que às verdades da Revelação podemos aproximarmos através da fé, enquanto que os conteúdos da Revelação são críveis (ut credibilia); e por meio da Teologia enquanto essas verdades reveladas são inteligíveis (ut intelligibilia), como susceptíveis  de una compreensão cada vez maior.

A fé é assentir a uma verdade enquanto digna de ser crida. O próprio da Teologia é analisá-la. O motivo formal da fé é a autoridade de Deus que se revela; o da Teologia é a percepção da razão da inteligibilidade do crido. A fé é sempre pressuposto absoluto da Teologia. De modo que a Teologia deve ser feita desde dentro e a partir da fé, e é assim algo mais que uma simples reflexão racional sobre os dados da revelação. Por isso afirma Santo Agostinho:“intelligere ut credas, credere ut intelligas” (deves entender para crer e deves crer para entender).

Santo Anselmo de Canterbury entendia a Teologia como “fides quarens intellectum”; a fé que busca entender, não por curiosidade, mas por amor e veneração ao mistério. O crente não discute a fé, mas mantendo-la firme busca dar razões do por que da fé.

Portanto, a Teologia é desenvolvimento da dimensão intelectual do ato de fé. É uma fé reflexiva, fé que pensa, compreende, pergunta e busca. Trata de elevar, dentro do possívelcredere ao nível do intelligere. O Teólogo se apóia no conhecimento de Deus pela fé, na razão humana e nas suas descobertas certas. Então, com tudo isto, o Teólogo tenta ordenar e interpretar os dados que são objeto de fé, de modo que se veja sua unidade tal como Deus o dispôs. 

1.3. A Teologia como ciência.

Para mostrar o caráter científico da Teologia, antes é necessário delimitar o conceito de ciência. Ao longo da história se deu diversos modos de entender a ciência.

Se entendemos por ciência somente aquele disciplina caracterizada por una aproximação à verdade (com um método e um poder sobre o real) ligado a una exatidão dirigida e verificada por una experimentação, certamente a Teologia não é uma ciência, já que o científico seria somente o verificável.

Mas se entendemos como ciência aquela disciplina que pode provar um objeto com um método próprio e possa desembocar em condiciones que se possam comunicar a outros; neste sentido se poderia falar de ciência canônica, ciência bíblica e ciência teológica.

Os maiores esforços para fundamentar o caráter científico da Teologia se deu ao longo do século XIII e Santo Tomás de Aquino se destaca dentro dos grandes expoentes de seu caráter científico.

Santo Tomás adota o conceito aristotélico de ciência e trata de demonstrar que não é alheio à Teologia, baseando-se em dois argumentos:

1. Normalmente a ciência tem evidência de seus princípios. Mas há ciências cujos princípios vem de outras ciências superiores que conseguem demonstrar a evidência daqueles princípios. Portanto, há ciências que se baseiam em uns princípios dados por outras ciências superiores, sendo evidentes em tais ciências. Aquelas ciências se chamam ciências subordinadas.

A Teologia é uma destas ciências subordinadas que se baseiam em uns princípios, cuja evidência não a demonstra a Teologia: são as verdades de fé. Sem dúvidas, há uma ciência, superior à Teologia, para a qual os princípios sim são evidentes: é a ciência de Deus. Com efeito, a visão direta dos mistérios, existe em Deus e nos bem-aventurados, com quem a fé nos põe em comunhão.

Concluímos que a Teologia é uma ciência, uma ciência subordinada à ciência de Deus.

2. Também tem razão de ciência quando consegue construir racionalmente o revelado, onde determinadas verdades se apresentam ligadas umas a outras como a seu princípio. Quer dizer, a Teologia é uma ciência porque há verdadeiras conclusões que partem de uns princípios, de modo que resulte que ambas (conclusões e princípios) sejam igualmente reveladas. Portanto, é ciência porque obtêm umas conclusões a partir de uns princípios revelados.

Se chega a conclusões para além do revelado formalmente por una elaboração teológica. Se isto não fosse assim, não poderíamos sair do Kerigma e perderíamos uma grande quantidade de verdades secundárias que partem de um desenvolvimento racional da revelação e que, portanto, também são verdades.

A Teologia identifica e tem em conta os princípios revelados dos que parte na sua reflexão; circunscreve com precisão no seu campo de estudo; procura ater-se a uma metodologia rigorosa e cada vez melhor comprovada em sua coerência interna; se esforça em mostrar a homogeneidade e a exatidão no modo de derivar os dados obtidos a partir dos princípios; os conhecimentos que obtêm são comunicáveis de maneira sistemática. 



1.4. Método próprio da Teologia: as Fontes Teológicas.

O método que a Teologia utiliza costuma desenvolver em três etapas: (1) fixar os dados da Revelação; (2) determinar as questões que esses dados suscitam, em si mesmos ou em relação com a experiência de fé do homem e do mundo; (3) reflexão sobre os dados. De modo que a Teologia se encontra com uma variedade de opções metodológicas concretas.

O método teológico deve partir de uma reta concepção da Teologia como fé que busca entender, o qual exige por sua vez a realidade de Deus que atua na história. Deve reconhecer dessa forma a capacidade da razão para conhecer a Verdade e penetrar o sentido último das coisas com a ajuda divina. E deve aceitar una filosofia que aceite a realidade do mundo.

A concepção e aplicação adequada do método teológico pode ser dirigida pelos seguintes critérios:

- Não existe um paradigma metodológico único que possa ou deva ser considerado a forma científica da Teologia.

-Todo método teológico compreende o auditus fidei e o intellectus fidei.

-Todo método contêm aspectos falíveis e provisórios, que, chegado o momento, devem ser superados. Costuma progredir por enriquecimento do anterior ou pela substituição de esquemas operativos.

- No método teológico não se pode separar, formal e aceticamente, modo e objeto. Ambos são correlativos e inseparáveis.

- O objeto não é nunca na Teologia um produto do método.

- O método teológico inclui necessariamente a consideração da incidência da doutrina cristã na vida do crente, da comunidade e da sociedade eclesial.

O teólogo sem esquecer a idéia de Mistério que preside suas investigações, deve dar atualidade ao experimentado diretamente pelos discípulos de Jesus. Se insere por isso no caminho da Tradição e tenta logo re-expressar a Verdade fundamental que tomou da Igreja. Encontra assim resposta a questões antigas, reformula outras, e outras são eliminadas por serem consideradas vazias.

 As fontes da Teologia são a Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja e o Magistério autêntico. De algum modo pode considerar-se também a História.

1. A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus, enquanto escrita por inspiração do Espírito Santo[2]. “A Escritura deve ser a alma da Teologia” e é a base das afirmações teológicas. Por isso a exegese torna possível um aprofundamento e um rejuvenescimento da Teologia.

Sem dúvida, a S.E. deve estar unida à Tradição para entregar o reto sentido dos textos.

2. La Tradição reflete a vida intelectual, orante e litúrgica da Igreja. É anterior à Escritura mesma e mantêm com ela una profunda relação. Está formada por um conjunto de testemunhos que dão a razão da fé da Igreja.

A Tradição e a Escritura estão estreitamente unidas, manam da mesma fonte. A Igreja no retira exclusivamente da Escritura a certeza do revelado, porque a Tradição recebe a Palavra de Deus (recomendada por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos) para que eles (iluminados pelo Espírito) a conservem, exponham e difundam.

Os lugares onde podemos encontrá-la são os escritos dos Santos Padres, Atas dos mártires, autores místicos, ensinamentos das conferências episcopais, a legislação canônica, sensus fidelium etc.

3. Magistério. Ao Magistério foi conferido o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, oral o escrita, e o exerce em nome de Jesus Cristo.

Em virtude do mandado recebido de Cristo e por um dom especial do E.S, o Magistério tem a missão de conservar o depósito da fé em toda sua integridade. Protege-o do erro e julga com autoridade as interpretações da revelação que oferece a Teologia e ele mesmo oferece considerações e desenvolvimentos entorno à fé.

Assim, a Tradição, a S.E., e o Magistério estão tão unidos que nenhuma pode subsistir sem os outros.

Por último, ainda que o recurso à História não é propriamente uma fonte, é certo que pode ajudar muito enquanto que pode colaborar a entender melhor como essas verdades se interpretam e vivem dentro da Igreja com o transcurso do tempo.

 1.5. Teologia Positiva e Teologia Especulativa.

A Teologia positiva é a ciência do conteúdo integral da Revelação, que tenta determinar e traçar toda a história documental do objeto crido em sua revelação, sua transmissão e sua proposição. Deseja conhecer o corpo ou a forma externa do dado revelado, com o estilo metódico e exaustivo que é próprio das ciências positivas. Faz isso para chegar a uma inteligência mais profunda da Palavra de Deus.

Trata de responder à seguinte pergunta, qual é exatamente a verdade revelada por Deus? Procura determinar e estabelecer o que Deus revelou e como o revelou, se o fez diretamente o indiretamente, de modo explícito o implícito, com expressões obscuras ou claras. E porque as doutrinas reveladas não se encontram sempre com a mesma nitidez, costuma ser necessário um trabalho de interpretação de termos e expressões.

Teologia especulativa: aprofunda nas verdades reveladas, mostra sua inteligibilidade, a conexão e harmonia que reina entre elas, servindo-se da ajuda das ciências humanas.

- Leva a uma compreensão mais funda do dado revelado. Mas não deve ser confundida com uma simples especulação; não é a aplicação de uma filosofia técnica à compreensão da doutrina revelada mas a Teologia especulativa cai sob o controle e ob a luz do mistério de salvação. Não é uma super-estructura da Teologia positiva, senão o pensamento especulativo se encontra englobado na Teologia positiva. O dado de fé não é unicamente o ponto de partida; é o princípio vital que a anima ao longo de todo seu recorrido de reflexão crente.

A possibilidade da Teologia especulativa se fundamenta numa epistemologia realista: a doutrina revelada pressupõe que a mente humana se ordena à verdade e é capaz de conhecer a Deus de maneira limitada e certa.

Para isso, tem grande importância o tema da analogia. Permite-nos falar de Deus de modo que nosso linguagem tenha sentido. Algo podemos dizer de Deus ainda que Ele não pode ser explicado univocamente.

A Teologia especulativa possui duas grandes tarefas: compreender e organizar o dado revelado.

1. Compreende o melhor possível o dado revelado. Não quer dizer que os mistérios possam ser demonstrados o assimilados como si fossem dados totalmente evidentes. Mas que é a busca do sentido preciso que se encerra na fé e a relação dos mistérios entre si.

2. Trabalho sistemático: a Teologia procura expor com rigor os preâmbulos da fé (mostrar que a fé, ainda que não seja evidente, não é absurda). Apresentar una síntese dos mistérios da fé (de modo que se mostre o melhor possível a unidade e a coerência da doutrina revelada). E relacionar seus dados e conclusões com o mundo da ciência e da cultura. 

1.6. Unidade da Teologia e Pluralidade das Disciplinas Teológicas.

A unidade de fé e Teologia não só é compatível com uma diversidade de disciplinas, mas também com a existência de modos diversos de levar a cabo o trabalho teológico na Igreja. A Teologia pode e deve ser uma e plural ao mesmo tempo. A riqueza e a profundidade do mistério revelado é tanta que não pode ser exposta num único sistema teológico.

Pode se dizer que o pluralismo teológico encontra seu fundamento na Sagrada Escritura, de modo que a pluralidade teológica se encontra presente no Cristianismo. O uso de instrumentos conceituais e filosóficos específicos determinou  também Teologias diferentes e por isso a Teologia cristã apresenta ao longo da história abundantes manifestações de pluralismo.

A unidade da Teologia dentro da pluralidade de suas disciplinas está garantida pelo fato de que todas têm o mesmo objeto formal que é Deus que se revela em Cristo.

A divisão das diferentes disciplinas teológicas foi aparecendo progressivamente. Podemos dividir em três grupos:

A. Disciplinas histórico-bíblicas:

1. História – estuda a influencia da Revelação no mundo depois de Cristo.

2. Ciências bíblicas – investigam a produção da Revelação divina, sua história e seu conteúdo na Sagrada Escritura.

B. Teologia Sistemática:

1. A Teologia Dogmática – expõe sistematicamente as realidades nos são manifestadas na Palavra de Deus. Trata as verdades fundamentais da fé.

2. A Teologia Moral – interpreta cientificamente as normas práticas contidas na Revelação.

3. A Teologia Espiritual: estuda a vida cristã como realidade dinâmica. Preocupa-se da relação do homem com Deus.



C. Teologia Práctica:

1. Liturgia – descreve o modo no qual a obra de Cristo é atualizada na Igreja.

2. Direito Canônico – expõe a ordem dado por Cristo à Igreja enquanto povo de Deus.

3. Teologia Pastoral – explica a arte de formar os homens conforme a seu caráter de filhos de Deus e de levá-los até a plenitude celestial.

Previa a estes três grupos está a Teologia Fundamental (disciplina que mostra o fato da Revelação, demonstrando também a racionalidade da Fé). 

1.7. A Teologia e a missão da Igreja: inculturação da fé e evangelização.

A piedade e a formação estão muito unidas entre si e com o apostolado. “Não é ciência em absoluto, se não tem nenhum valor para a piedade (…) e carece de valor toda piedade em que falta a capacidade de discernimento da ciência” (São Gregório Magno).

Este estudo, aprofundamento na ciência teológica, tem também um grande valor evangelizador, como se recordou no último Concilio no Decreto sobre o Ecumenismo. Pois ao aprofundar no revelado se põe mais de manifesto o atrativo e o valor da verdade sobre Deus, o homem e o mundo, que só a Igreja Católica possui completamente e sem mescla de erro. Toda a Teologia, para que seja autêntica, deve ser essencialmente evangelizadora, pois só em obediência ao mandado de Cristo a Igreja pode levar aos homens de hoje a luz da fé. O estudo sério e científico da fé é Teologia, posta ao serviço da Evangelização.

A Igreja em sua missão evangelizadora encontra-se com diversas manifestações culturais, que deve purificar e adotar aqueles valores legítimos que resultam ser eficazes para a transmissão da verdade revelada.



Teologia Bíblica e Teologia Sistemática

diferenciações e observações

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Enquanto cânon, a Bíblia é o livro sagrado do cristianismo. Uma biblioteca especial que encerra os pronunciamentos de profetas, sábios, salmistas, teólogos e redatores reais, legisladores, e uma série de personagens históricos. Há entre eles representantes da corte, do templo e do povo. Tratar a Bíblia como Palavra de Deus não deve diminuir o interesse por esses personagens como indivíduos que viveram em determinado tempo e lugar, sujeitos a determinadas concepções da vida, do mundo e de Deus. Cremos que falaram movidos pelo Espírito Santo (1 Pd 1,21), e que o que escreveram constitui Escritura (2 Tm 3,16), mas essas afirmações teológicas não devem impedir que aqueles mesmos autores sagrados sejam ouvidos naquilo que eles mesmos tinham a dizer ali e então. É justamente o que eles falaram que constitui a Palavra de Deus.

 

 

Teologia Bíblica como interesse pela teologia dos autores bíblicos



 

 

É quando o leitor da Bíblia se pergunta pelo sentido das palavras dos próprios escritores bíblicos que se apresenta o tema da Teologia Bíblica. A Teologia Bíblica está preocupada em prestar atenção às afirmações dos autores bíblicos, de acordo com seu tempo e lugar. Como os escritores bíblicos não viveram todos no mesmo lugar nem no mesmo momento, está atenta às suas diferenças de opinião teológica. Será se um legislador pensa como um profeta? Um salmista tem as mesmasconcepções teológicas que um sábio? Não é difícil compreender que um escritor do ano 1.200 a.C. que viva nos primeiros anos da formação do que então viria a se tornar Israel, pense de forma diferente de outro escritor que viva cerca de 550 a.C., quando Israel já deixara de ser uma nação livre.

 

Costuma-se dividi-la em Teologia Bíblica do Antigo do Novo Testamentos. A JUERP publicou dois livros muito bons sobre esse tema: Teologia do Antigo Testamento - questões fundamentais no debate atual e Teologia do Novo Testamento, de G. F. Hasel. Uma Teologia Bíblia do Antigo Testamento está interessada em pensar sobre os conceitos teológicos  dos autores do Antigo Testamento, e como os relacionavam à vida em todas as suas dimensões (social, política, econômica, religiosa, sexual, cultural, etc.). Por sua vez, a Teologia Bíblica do Novo Testamento  está interessada em ouvir os pronunciamentos teológicos dos autores do Novo Testamento. Claro está que se tratam de obras teológicas distantes no tempo. Ambas as Teologias Bíblicas sabem que, por mais comum que lhes seja o substrato cultural e religioso, as expressões teológicas do Antigo e do Novo Testamentos possuem peculiaridades que não podem ser negligenciadas. Mesmo dentro de um e de outro há peculiaridades que precisam ser observadas.

 

Se a levarmos a sério, chegaremos à conclusão de que a Teologia Bíblica não tem apenas um discurso. Numa palavra: cada livro da Bíblia possui sua própria maneira de compreender a vida, o mundo e Deus. Muitas vezes, por se tratarem de livros compostos por coleções de textos de vários escritores, um mesmo livro da Bíblia pode conter perspectivas diferentes sobre a vida, o mundo e Deus. Portanto, a Teologia Bíblica sempre prestará atenção àquele pronunciamento teológico específico registrado naquele texto bíblico que o teólogo examina. Cada autor bíblico representa um fenômeno histórico-social independente, muitas vezes relacionado a outros autores, a outros textos, a outros fenômenos histórico-sociais. Faz sentido, porque, a rigor, a tradição afirma que foram homens que falaram movidos pelo Espírito Santo. O que quer que tenham falado, está escrito. Ler o que falaram aqueles homens, compreender o que disseram, como criam, em que criam, por que criam e o que faziam com suas crenças é tarefa da Teologia Bíblica. São as delícias da Teologia Bíblica... que deve ser crítica e honesta consigo mesma.

 

 

Teologia Sistemática como sistematização teológica dos dogmas cristãos



 

 

Contudo, Teologia Bíblica não é a única forma com que os homens têm pensado a Bíblia. Na verdade, nem é a mais antiga. Por incrível que possa parecer, a preocupação com aquilo que diziam os autores bíblicos é mais recente do que a preocupação com o sistema teológico sustentado pela igreja.

 

Historicamente, o dogma cristão tornou-se mais relevante do que as formulações teológicas dos autores bíblicos. O sistema teológico cristão acabou tornando-se uma espécie de descrição da verdade, nos moldes do sistema cultural greco-romano onde foi gerado. R. B. Zuck tem publicado pela Vida Nova um livro chamado A Interpretação Bíblica. Ali se descreve como nos dois primeiros séculos do cristianismo a igreja criou um sistema de interpretação bíblica e sistematização teológica baseado na alegoria, na tradição e na autoridade. Zuck chega a afirmar que se dizia (Justino) que "o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos. Mas essa pertinência (...) era percebida por meio da alegorização" (p. 39). Mas a única alegorização correta, dizia-se também (Ireneu), "é o da fé, preservada nas igrejas mediante a sucessão apostólica" (p. 40). No auge da definição do sistema, Tertuliano defendia que a autoridade da igreja devia impor-se às alegorizações não conformes à regra de fé (p. 40).

 

Parece que Zuck pensa descrever uma outra igreja. O sistema alegoria-tradição-autoridade teria durado apenas até a Reforma (p. 51). Se Zuck pensa realmente assim, parece incorrer em dois equívocos: primeiro, o processo de criação do sistema não pertence à história de outra igreja (cf. Compromisso. JUERP. 4/2001, p. 5.); segundo, a Reforma adotou o mesmo modelo sistemático. Não é de se estranhar que o primeiro movimento da Reforma seja por isso mesmo conhecido como Ortodoxia Protestante.

 



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