Com a diferença tecer a resistência 3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero



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COM A DIFERENÇA TECER A RESISTÊNCIA

3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero

10 a 13 de outubro de 2017

Campina Grande, Paraíba

Simpósio Temático nº 18:

Como Pedra Atirada na Água: diálogos entre Michel Foucault, Teoria Queer e as dinâmicas sociosexopolíticas contemporâneas
A discussão de gênero na escola através da arte: reflexões
Antônio Alex Pereira de Sousa1

Anna Maria de Lira Pontes2


"Tua piada homofóbica não foi engraçada".

W.S.
O Brasil tornou-se uma referência mundial negativa por apresentar altos índices de preconceito de gênero e mortes por homofobia, muitas vezes cruéis, como o caso da Travesti Dandara em Fortaleza/CE e de uma travesti de 16 anos em João Pessoa/PB3. Neste contexto, é imprescindível o fomento à discussão de gênero e, consequentemente, de maneiras de se combater essa violência, que ocorre verbal ou fisicamente, bem como através da falta de políticas públicas que ofereçam oportunidades de emprego e vida digna a estes (as) cidadãos (dãs).

A importância da discussão de gênero nas escolas brasileiras torna-se mais urgente quando verificamos as polêmicas que surgem em torno do assunto, dividindo opiniões e bancadas políticas. Contudo, recente pesquisa Ibope, encomendada pela Organização não governamental "Católicas pelo Direito de Decidir" e publicada pela revista Huff Post Brasil, indica que
[...] 72% concordam total ou em parte que professores promovam debates sobre o direito de cada pessoa viver livremente sua sexualidade, sejam elas heterossexuais ou homossexuais.

Já 84% concordam totalmente ou em parte que professores discutam sobre a igualdade entre os sexos com os alunos. O nível de apoio varia de acordo com algumas variáveis, como idade, escolaridade, classe social e religião (FERNANDES, 2017).


Apesar desses números que mostram a necessidade do debate de gênero nas escolas, há muito a ser trabalhado dentro delas, para que haja uma convivência mais harmoniosa e pela real valorização dos direitos humanos. Os dados sobre bullying e preconceitos em escolas são alarmantes, como comprova a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada em 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE).
Pesquisa realizada em 501 escolas públicas de todo o país, baseada em entrevistas com mais de 18,5 mil alunos, pais e mães, diretores, professores e funcionários, revelou que 99,3% dessas pessoas demonstram algum tipo de preconceito étnico-racial, socioeconômico, com relação a portadores de necessidades especiais, gênero, geração, orientação sexual ou territorial. (POVO, 2009)
Observa-se, dentro das escolas, a gênese e evolução de variadas formas de preconceitos, conforme dados acima. Estes preconceitos partem dos diversos sujeitos e compõem exatamente o oposto do que, por concepção, se espera de um ambiente escolar. Pois, apesar de configurado como um lugar diverso em pessoas e experiências, nem sempre o debate e a desconstrução de preconceitos são postos à prova.

Em muitos casos, os próprios estudantes - por suas próprias demandas - promovem a conversa, o combate aos preconceitos e, entre outros, a própria discussão de gênero. Neste ínterim, o trabalho em questão reflete sobre uma iniciativa de discussão de gênero nascida a partir da manifestação artística discente dentro do espaço escolar. Trata-se de uma apresentação de dança num evento muito comum nas escolas secundaristas, a Semana Cultural, que se transformou numa bandeira e ponto de luta contra os preconceitos por parte de alunos (as) dentro de uma escola de ensino médio da rede pública estadual no município de Fortaleza, Ceará. Passamos, então, a compreender o objeto de análise deste trabalho e que ele oferece para pensarmos a discussão de gênero dentro do espaço escolar.


A SEMANA CULTURAL E AS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS DISCENTES

A Semana Cultural é uma atividade pedagógica bastante comum nas escolas públicas estaduais do município de Fortaleza4. Define-se como um conjunto de atividades (artísticas, científicas, de conhecimentos gerais e, entre outros, pesquisa) que os(as) estudantes realizam para somar os pontos e, deste modo, alcançarem uma nota, que ocorre, geralmente, na forma de disputa entre equipes5. De acordo com a temática votada ou determinada pela escola, são realizadas tarefas diversas, tais como: Dança, desfile, musical, esquete, estande (apresentação científica), poesia, soletração, quiz, fotografia e, entre outros, produção de vídeos. O corpo discente, dividido em equipes, escolhe, organiza e planeja as atividades que irão executar.

Em 2016, a temática da Semana Cultural, na escola onde ocorreu fato analisado, foi a Volta ao mundo, a partir do local onde estava, no caso, o próprio bairro. Em reunião sobre o evento composta por gestão, professores e representantes de sala, foram delimitadas as regiões estrangeiras a serem analisadas: a África, a Europa e a América Latina. Além de estudar essas localidades, os estudantes deveriam observar como elas influenciaram o Brasil e, mais especificamente, o bairro em que a escola se localiza. Vale ressaltar que a escola é uma referência para a comunidade, e que a maioria dos (as) estudantes também mora no bairro onde ela está localizada.

Ressaltamos, aqui, a importância dos professores, gestão e estudantes neste processo, pois ao definirem que a organização do evento fosse organizada em conjunto aumenta-se a possibilidade da efetivação do ideal democrático num plano micro.

As equipes foram separadas por série (1º, 2º, 3º ano do ensino médio). As apresentações, deste modo, eram por equipes compostas pelas turmas de cada série. Por exemplo, as turmas do 2º ano do respectivo turno compunham uma equipe. A equipe que criou a atividade analisada ficou com a América Latina e, para tanto, desenvolveram as atividades a partir deste assunto. Analisaremos, neste trabalho, a atividade artística da dança.

Partindo desses pressupostos, os alunos do 2º ano escolheram trechos de músicas latinas, influenciados de seriados como Rebeldes, e de músicas de artistas brasileiros diversos com grande público jovem. Os (as) estudantes dançaram ao som de Sim ou não, Ginza e Show das Poderosas, de Anitta e participações; Olha a explosão, de Mc Kevinho; Malandramente, de Dennis e Mc's Nandinho & Nego Bam; Chantaje, de Shakira; Tempos Modernos, de Lulu Santos e a música Viado, da cantora Valesca Popozuda. A coreografia foi organizada envolvendo a junção de recortes das músicas citadas e foi planejada e ensaiada com ajuda de uma coreógrafa.

Para falar da dança e da questão dos preconceitos no ambiente escolar, foram entrevistados três estudantes integrantes desta tarefa6, além da própria observação e análise dos (as) pesquisadores. A música de Valesca Popozuda, segundo estudantes entrevistados, norteou a coreografia. Após planejamentos e ensaios, a dança acabou por configurar-se como um manifesto contra preconceitos.

A ideia geral da dança foi a de que todos poderiam ser felizes e fazer parte da festa, seja gordo/magro, negro/branco, homossexual/heterossexual, entre outros. Cada trecho de música e os passos de dança eram voltados para a questão da alegria, houve uma pequena "passeata" com a bandeira LGBT e um beijo entre dois alunos. Ao final, houve uma espécie de "tomada" do pátio pelos estudantes do 2º ano (além daqueles que compunham a dança) compondo a "festa".


OS DIVERSOS ATORES DO ESPAÇO ESCOLAR AS POSSIBILIDADES DE RESISTÊNCIA

A análise do caso apresentado pode seguir dois caminhos: verificação da escola como espaço no qual o respeito à diferença ainda é incipiente, mesmo que o debate tenha se elevado; observação da juventude, nas mais diversas minorias, como população que reflete a realidade que está submetida, traçando estratégias de resistência e criando outras formas de sociabilidade.

A entrevista com estudantes participantes da atividade cultural da dança girou em torno de como convivem no ambiente escolar e o(s) porquê (s) da elaboração de uma dança contra preconceitos, bem como sua repercussão. Nas falas dos estudantes P.H e L.K. foi registrado que se sentem presos dentro da escola por não poderem se expressar da maneira que querem, ser o que eram, e quebrar tabus existentes na escola. W.S. afirmou não ter passado por preconceitos, mas comenta sobre piadas de cunho homofóbico. O estudante W.S. também registra que as músicas escolhidas tinham o objetivo de tocar em temas debatidos atualmente, como a homofobia e feminismo. Como por exemplo, a música o Show das Poderosas na dança, segundo ele, problematiza também o empoderamento da mulher. Segundo P.H. e L.K., todos estudantes envolvidos na dança foram favoráveis à coreografia.

Os estudantes entrevistados demostram, a partir de fatos, as dificuldades de convivência na escola, citando, por exemplo, as brincadeiras direcionadas à orientação sexual. Ressaltam ainda o "olhar torto" dos próprios alunos e o tratamento diferenciado para práticas comuns entre os heterossexuais, como mostra W.S., ao registrar as opiniões ouvidas sobre o intitulado beijo gay existente na dança: discentes elogiando e outros questionando "Qual a necessidade disso?". Fato reforçado por P.H. e L.K., que questionaram o fato de que, pouco tempo antes da apresentação, havia um casal heterossexual beijando-se na frente do pátio, mas apenas o chamado beijo gay, presente na dança, foi criticado.

Na entrevista, os alunos ressaltam a importância da discussão de gênero dentro da escola. Observamos isso na resposta dada por L.K. quando questionados, ao final da entrevista, se desejariam passar alguma a mensagem a mais. L.K. ressalta a necessidade de mais momentos para se debater a questão de gênero com todos na escola, pois "...a gente é muito minimizado, esse assunto na escola (...) eles não debatem muito sobre isso. Fala aquele pouquinho e pronto, acabou."

Ainda nas entrevistas, estudantes mostram suas estratégias de poder ao registrarem que ensaiavam em segredo por acreditarem na possibilidade de repreensão, o que ocorreu pouco antes da apresentação, quando houve uma reclamação por integrante da gestão escolar sobre o uso do termo "viado" devido ao receio de que homossexuais sentirem-se atingidos.

Com o objetivo de atingir um público específico a partir de uma prática de resistência e questionamento das regras morais estabelecidas, os discentes traçaram mecanismos de luta e tornaram-se um contra-poder dentro do espaço escolar. A coreografia também se tornou uma bandeira. E, juntamente com ela, uma mensagem sobre respeito às diferenças e ao outro. "Todos" poderiam, enfim, participar da festa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dentre as diversas questões aqui consideradas, ressaltamos o papel protagonista dos jovens estudantes ao problematizarem a questão de gênero a partir dos próprios eventos escolares, tendo a arte como mecanismo central para sua efetivação.

Gestores e professores que pretendem levar a suas instituições de ensino o debate acerca da questão de gênero têm neste trabalho uma série de possibilidades. A primeira é observar que a arte, como potência das potências criadoras do pensamento, cria afetos que possibilitam um deslocamento nos indivíduos e, num plano mais amplo, nas estruturas, como a escolar.

Alunos e professores podem observar que atividades acadêmicas e culturais, como a Semana Cultural, podem se transformar em espaços de resistências e mudanças de paradigmas, além de momentos de real efetivação do ideal democrático que respeito os direitos de todos os sujeitos e possibilitem de modo efetivo a participação na tomada de decisões, fomentando um reconhecimento e valorização do outro, principalmente do dos diferentes sujeitos e espaço escolar.

Para os professores que pretendem levar para a sala de aula o problema levantado pelos estudantes, observamos que a questão da homofobia e do feminismo colocada na dança são possibilidades de se trabalhar. A própria música Viado, presente na coreografia, sofreu uma censura nas redes sociais, especificamente no Youtube que, no período de seu lançamento, determinou que somente maiores de 18 anos pudessem ver o vídeo clipe. A partir disso, poder-se-ia perguntar o que é censura na atualidade? Quais as regras definem isso? A partir de quais parâmetros e argumentos?

Enfim, a partir de um caso que poderia passar despercebido aos olhos do senso comum, inclusive de professores, pode-se verificar uma prática de resistência, atitudes criativas e lutas pela igualdade e enfretamento a violência, que fomentam a construção um ambiente escolar efetivamente democrático, bem como cidadãos éticos, que analisam suas atitudes e a forma como tratam os outros.



REFERÊNCIAS

DODSWORTH-MAGNAVITA, Alexey. Identidade gay e os preconceitos que cerceiam a intolerância - o olhar de Foucault e Deleuze.Revista Filosofia (São Paulo), São Paulo, Brasil, p. 14 - 23, 10 maio 2008.

FERNANDES, Marcella. 84% dos brasileiros apoiam discutir gênero nas escolas, diz pesquisa Ibope. In: HuffPostBrasil.Disponível em: . Acesso em 02.07.2017.

FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade. 1ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. 21 ed. Rio de janeiro: Edições Graal, 2011.

G1 CE [sítio insitucional] Travesti Dandara foi apedrejada e morta a tiros no Ceará, diz secretário. In: G1 Ceará. 07/03/2017, atualizado em 08/03/2017. Disponível em: < http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/03/apos-agressao-dandara-foi-morta-com-tiro-diz-secretario-andre-costa.html>. Acesso em 19.07.2017.

GESTÃO ESCOLAR [sítio institucional] O que dá para aprender com o caso do aluno que senta no colo do namorado. In: Gestão Escolar. 21 de Junho 2017. Disponível em: . Acesso em 18.07.2017.

LDB. Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Disponível em . Acesso em 15/04/2015.

MISKOLCI, Richard. A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização. Revista Sociologias, Porto Alegre, ano 11, nº 21, jan./jun. 2009, p. 150-182.

PBHOJE [sítio institucional]. Sargento preso suspeito de matar travesti em João Pessoa confessa que ‘matou por não gostar de homossexual’. In: PbHoje. 11/07/2017, atualizado em 12/07/2017. Disponível em: . Acesso em 19.07.2017.

PHHOJE [sítio institucional] Travesti é assassinada a tiros em João Pessoa e suspeito é ex-sargento da PM conhecido por agredir homossexuais. In: PbHoje. 09/07/2017. Disponível em: . Acesso em 19.07.2017.

POVO, Gazeta do. Pesquisa comprova que preconceito atinge 99,3% do ambiente escolar no Brasil. In: Gazeta do Povo. 17.06.2009. Disponível em: . Acesso em 02.07.2017

R7 [sítio institucional]. Novo clipe de ValescaPopozuda é censurado pelo YouTube. In: R7. 05.11.2016. Disponível em: . Acesso em 20.07.2017.

YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos / Robert K. Yin; trad. Daniel Grassi - 2.ed. -Porto Alegre : Bookman, 2001.



1Professor de Filosofia da Faculdade Ratio. Professor de filosofia da educação básica pela Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Licenciado em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará. Especialista em Filosofia pela Universidade Estácio de Sá e mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. E-mail: alexsousa.filosofia@gmail.com.

2Professora de história da educação básica pela Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Licenciada em História pela Universidade Federal da Paraíba e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela mesma universidade. E-mail: annamaria.lira@gmail.com.

3 A travesti Dandara foi assassinada com fortes agressões e disparo de arma de fogo em 15 de fevereiro de 2017 no bairro do Bom Jardim, Fortaleza-CE, com vídeo de sua morte exibido em redes sociais. Já a travesti de 16 anos foi assassinada com tiros de arma de fogo em 08 de julho de 2017 na Praça do Conjunto dos Funcionários II, zona sul de João Pessoa-PB. O suspeito do crime teria confessado que assim o fez por “não gostar de homossexual”, conforme matéria de jornal local (PbHoje, 2017).

4 A Semana Cultural é um evento previsto no calendário de várias escolas da rede pública estadual no Ceará, geralmente ao final do ano letivo.

5 Na escola em questão a Semana Cultural confere apenas nota, excluindo-se o caráter competitivo do evento. A nota é atribuída conforme participação, elaboração e execução das atividades propostas por parte dos(as) estudantes.

6 Os nomes dos (as) estudantes não serão divulgados por questões éticas, pois ainda são adolescentes e alunos do terceiro ano do ensino médio na devida escola. Foram entrevistados três estudantes, todos (as) eles (as) idealizadores, criadores e participantes da dança na própria escola em 23 de junho de 2017. Serão tratados aqui como W.S., P.H. e L.K.


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