Com a diferença tecer a resistência 3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero



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COM A DIFERENÇA TECER A RESISTÊNCIA

3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero

10 a 13 de outubro de 2017

Campina Grande, Paraíba



SIMPÓSIO TEMÁTICO Nº 26: DESCONSTRUINDO CATEGORIAS DE GÊNERO NO CAMPO LITERÁRIO
CONTOS MARAVILHOSOS E A NOVA REPRESENTAÇÃO FEMININA: REFLEXO DAS CONQUISTAS HISTÓRICAS FEMINISTAS NA LITERATURA

Camila Biel Menino1

I spent a good many years being told what I ought to think,

and how I ought to behave, and how I ought to write, even,

because I was a woman and men thought they had the right to

tell me how to feel, but then I stopped listening to them and

tried to figure it out for myself but they didn’t stop talking, oh,

dear no. So I started answering back. (CARTER)


O psicólogo Bruno Bettelheim afirma em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas que, sendo recontados através dos séculos, os contos foram ficando mais refinados e começaram a transmitir todos os tipos de significados, ou seja, passaram a conversar com todos os níveis da personalidade humana, falando tanto com a mente ingênua da criança, quanto com a mente experiente do adulto.

Essa linha da psicologia diz que os contos são formas de ensinar a criança a lidar com os problemas e enfrentar de modo firme as opressões inesperadas e muitas vezes injustas. Mas não é isso que acontece com aprincesa que dorme cem anos à espera de um príncipe que enfrenta uma floresta de espinhos e um dragão para despertá-la com um beijo.

Bettelheim explica que outro fator importante é o de identificação. A princesa sempre tem que ser a mais bonita, o príncipe ser sempre o mais forte e o mal ser representado de forma grotesca. E mais uma vez vemos que a representação feminina é sempre vista de duas formas, a princesa sendo bela e delicada e a bruxa feia e malvada. Na história da bela adormecida, as fadas sempre ofertam beleza, virtude, riquezas, mas nenhuma oferece um dom como inteligência, sabedoria, coragem ou força.
[...]desde cedo notará — pois as crianças são muito perspicazes — qual é o tipo de beleza que se valoriza. Verá nos filmes, nas revistas, na televisão. Verá que se valoriza a pele branca. Perceberá que o tipo de cabelo que se valoriza é o liso ou o ondulado, e é um cabelo que cai, em vez de ficar armado. Ela vai deparar com tudo isso, quer você queira ou não. (ADICHIE, 2015, p. 59)
A questão de identificação não tem somente sérios problemas com gênero, mas também étnicos e o que a sociedade define como bonito. A princesa sempre segue os rigorosos padrões de beleza, ou seja, a maioria são loiras, têm olhos claros e sempre são magras. A identificação precisa ocorrer com toda criança. Ainda existe pouca representatividade na figura dos heróis ou princesas quando se trata de outras etnias, por exemplo, o que causa uma série de problemas emotivos e de autoestima nas crianças.
“Elas [as princesas] também tinham lindos cabelos dourados, e Tiffany não. Seu cabelo era marrom, simplesmente marrom. Sua mãe dizia que era castanho ou, às vezes, castanho acobreado, mas Tiffany sabia que era marrom, marrom, marrom igual aos seus olhos. Marrom como a terra. E o livro trazia alguma aventura pra quem tinha olhos marrons e cabelo marrom? Não, não, não… só os loiros de olhos azuis e ruivos de olhos verdes ficavam com as histórias." (PRATCHETT, 2003 apud BREDER, 2013, p.5)
A doutora em psicologia clínica, psicossomática e psicologia hospitalar Maria Teresa Nappi Moreno afirma que, segundo a psicologia analítica, contos de fadas são formas simbólicas pelas quais a psique se manifesta e, a sua escrita reaviva processos inconscientes, facilitando a integração desses conteúdos psíquicos entre o inconsciente e o consciente, ou seja, os contos de fadas são como projeções do inconsciente coletivo.

A psicoterapeuta analítica, pesquisadora e escritora Marie-Louise von Franz explica em seu livro The Feminine in Fairy Tales que a mitologia e os contos conversam muito entre si, temos várias referências de mitos e deuses nas histórias como Branca de Neve e A Bela Adormecida, mas, com o passar dos anos e o avanço do cristianismo, essas referências se perderam e foram substituídas. Von Franz ainda afirma que não temos, no ocidente, representações metafísicas femininas na figura de deus e que ela é negligenciada, pois seu arquétipo é incompleto, nós temos a imagem de Maria, mas ela é incompleta. A religião e representação divina ocidental é exclusivamente masculina.


Catholicism has at least the Virgin Mary as an archetypal representant of femininity, but this feminine archetypal image is incomplete because it encompasses only the sublime and light aspects of the divine feminine principle and therefore does not express the whole feminine principle. (VON FRANZ, 1972, p. 1)
Já em lugares com uma estrutura matriarcal, como no sul da Índia, as mulheres têm uma confiança natural desde sempre. Elas sabem que são diferentes dos homens de um jeito natural, mas que não são inferiores a eles em nenhum aspecto.
In a matriarcal structure, such as in South India, women have natural confidence in their own womanhood. They know their importance and that they are different from men in a special way, and that this does not imply any inferiority. Therefore they can assert their human existence and being in a natural way. (VON FRANZ, 1972, p. 4)
Se formos pensar nos personagens nos vários tipos textuais, a figura masculina sempre teve várias camadas, ele podia cometer alguns deslizes, mas ele sempre era o herói, já a mulher não. A mulher só tinha dois estereótipos: ou ela era a moça que era boa, delicada, que ajudava a todos e não cometia erros, normalmente essa personagem sofria muito, mas era salva e ficava com o herói no final, pois era digna de seu amor, ou então era a vilã, a que prejudicava a princesa e seduzia o mocinho para tirar algum proveito e levá-lo a perdição.

Von Franz diz que “se observarmos os arquétipos femininos de comportamento percebemos que é muito provável que elas tenham sido criadas por homens e, portanto, não representam a ideia de feminilidade do ponto de vista de uma mulher e sim do que Jung, pai da psicologia analítica, chama de anima, ou seja, a feminilidade do homem” (VON FRANZ, 1972, tradução nossa). Muitas mulheres são influenciadas até hoje pela projeção da anima masculina, pois elas têm medo de não serem desejadas ou serem abandonadas por serem como elas realmente são e, se alguma delas foge do comum, do estereótipo formado ao longo dos anos de como essa figura feminina deve se comportar, acaba causando um choque, destoando de uma forma até mesmo negativa dos demais. A mulher é sempre a mais afetada pela anima. Quando lemos os contos de fadas, a figura da Cinderela, da Branca de Neve e da Bela Adormecida nada mais são do que ideias de feminilidade construídas séculos atrás por homens.


Uma rainha pode acabar se revelando uma heroína, se uma princesa precisar ser salva. (GAIMAN, A BELA E A ADORMECIDA, 2013)
Em 2013 Neil Gaiman escreveu o livro A Bela e a Adormecida (The Sleeper and the Spindle), onde Branca de neve, às vésperas de seu casamento, abandona seu reino e lidera os anões em uma missão para salvar uma princesa enfeitiçada.

On the eve of her wedding, a young queen sets out to rescue a princess from an enchantment. She casts aside her fine wedding clothes, takes her chain mail and her sword and follows her brave dwarf retainers into the tunnels under the mountain towards the sleeping kingdom. This queen will decide her own future -- and the princess who needs rescuing is not quite what she seems. (NEIL'S WORK - THE SLEEPER AND THE SPINDLE..., Harper Collins website, 2013)


Vemos uma mudança significativa na narrativa da princesa que, ao morder uma maçã envenenada, cai em um sono profundo. No Conto original de Branca de Neve a beleza é o fator primordial. A rainha má tem inveja, pois a menina é a mais bela do reino, o caçador não a mata pois fica encantado com sua beleza. Já com os anões é ainda pior, pois eles só permitem que a moça fique com eles se ela fizer os serviços domésticos. Por fim, o príncipe a vê já sem vida e pede aos anões para leva-la embora com ele, pois queria ficar admirando sua beleza mesmo a garota aparentar estar morta. Branca de Neve não tem voz, nunca lhe é perguntado o que ela realmente deseja, ela sempre está em estado de coma e permanece assim mesmo quando consegue desengasgar-se da maçã, ou, em versões mais conhecidas, com o beijo do príncipe encantado. Já no conto de Gaiman, a princesa assume as rédeas de sua vida. Vemos Branca de neve como uma rainha que comanda, dá ordens, tem voz no reino onde vive e fala de igual para igual com os homens. Quando os anões contam sobre a maldição que está se alastrando, a Rainha não pensa duas vezes e veste sua armadura para salvar seu reino.
– Sinto dizer, mas não haverá casamento amanhã – declarou a rainha.

Ela mandou buscar um mapa do reino, identificou as aldeias mais próximas às montanhas, enviou mensageiros para ordenar aos habitantes que as evacuassem e se dirigissem para o litoral, ficando, do contrário, sujeitos à ira imperial. Ela mandou buscar o primeiro-ministro e informou-lhe que ele ficaria responsável pelo reino na sua ausência, e que deveria se esforçar ao máximo para manter tudo intacto e no seu devido lugar. (GAIMAN, 2013, p. 21)


Nota-se, com o uso dos verbos “mandar” e “ordenar”, o poder que a rainha tem em seu reino, ela se faz ouvir e é respeitada. O segundo ministro e todos de seu séquito seguem suas ordens, caso contrário, ficam sujeitos à sua ira. Ela também é uma pessoa estudada, que conhece seu reino e sua geografia, ela mesma lê os mapas, identifica os lugares e traça como um general um plano para livrar as aldeias mais próximas da maldição que está se aproximando.

Ela mandou buscar o noivo, pediu-lhe que não fizesse cena; disse que ainda se casariam, mesmo ele sendo apenas um príncipe, e ela, uma rainha, e fez cócegas no belo queixo dele, e beijo-o até que ele abrisse um sorriso. Ela mandou buscar a cota de malha.

Ela mandou buscar a espada. Ela mandou buscar mantimentos e o cavalo, e em seguida cavalgou palácio afora, em direção ao leste. (GAIMAN, 2013, p. 21)
O jeito como a rainha trata o príncipe é uma inversão de papéis que a sociedade sempre impôs aos gêneros. Vemos uma mulher dizer para um homem não fazer cena, para não se preocupar que ainda haverá casamento mesmo ele estando em uma posição social inferior a ela. Aqui, é a mulher que está em uma situação de poder superior ao homem e é ela cancela o casamento para salvar quem quer que esteja em perigo.
– Bem – disse o terceiro. – Alguém precisa fazer as honras.

– Eu faço – disse a rainha, baixinho.

Ela aproximou o rosto da mulher adormecida. Seus lábios cor de carmim tocaram a boca cor-de-rosa da outra num beijo prolongado e intenso. (GAIMAN, 2013, p. 49)
Branca de Neve, depois da longa jornada em busca do reino da princesa adormecida, cumpre o papel que sempre foi designado ao homem e desperta naturalmente a princesa com um beijo.

Outro diferencial é a história da Bela adormecida. Ao invés de enfeitiçar a princesa, pois não foi convidada para o batizado da princesinha, aqui no conto de Gaiman a feiticeira quer a imortalidade. Ela rouba a juventude e beleza da princesa, trocando de lugar com ela, para poder viver para sempre e ter poder absoluto.

Na história de Gaiman, todas as ações são feitas por mulheres. Os anões acompanham Branca de Neve, mas eles só servem como ajudantes, toda a história se desenrola por causa da rainha, da princesa enfeitiçada e a bruxa. No fim, o anão avisa que se eles seguirem para o oeste em direção às montanhas, eles estariam de volta ao reino e o casamento poderia ser realizado, mesmo com um pouco de atraso, mas Branca de Neve vai para o caminho oposto, “para longe do pôr do sol e das terras que conheciam[...]” (GAIMAN, 2013).
Existem escolhas, pensou ela quando já estava sentada ali por algum tempo. Existem sempre escolhas.

Ela fez uma. (GAIMAN, 2013, p. 66)

A escrita de Angela Carter também renova o espírito dos contos maravilhosos e traz várias discussões sobre dominação, sexualidade e o feminino. “A autora não faz “versões” de contos de fadas tradicionais. Sua intenção era, antes, a de “extrair o conteúdo latente das histórias tradicionais e usá-lo como ponto de partida de novas histórias” [como ela mesma dizia]” (LISBOA, A., 2017)
Carter opera uma espécie de reformulação dos contos de fadas, bebendo na fonte de seu rico imaginário para se libertar das amarras de uma tediosa ficção inglesa em que, ainda em suas palavras, “as pessoas bebem chá e cometem adultério”. (LISBOA, A., 2017, p. 7)
A partir da coletânea lançada em 1979, a ficção de Angela Carter é considerada feminista, uma representação da superação feminina sobre a repressão masculina. “Contudo, críticos como Patrícia Dunker e Robert Clark, consideram o tratamento dado por Carter tanto em sua ficção quanto nos textos de não ficção, como o caso do ensaio The Sadeian Woman, contrários aos preceitos de uma agenda feminista”. (RODRIGUES, T., 2012)

The Bloody Chamber foi duramente criticada por Patrícia Dunker pelo uso de elementos eróticos que, segundo a crítica, utiliza a linguagem da sexualidade masculina. Para ela, a autora encara a sensualidade feminina simplesmente como uma resposta aos apelos masculinos. (DUNKER, 1984, p.6 apud RODRIGUES, T., 2012, p. 31)


Segundo Robert Clark, um leitor desavisado não percebe a crítica feita por Carter e acaba vendo no trabalho dela mais uma representação do sistema patriarcal que oprime a figura feminina e acaba perdendo a real intenção de denúncia desse sistema que o texto realmente possui.

Porém, muitos estudiosos discordam do ponto de vista de Dunker. Para a doutora em Letras e autora do livro "Mulher e Deusa: a construção do feminino em Fireworks de Angela Carter”, Cleide Rapucci, “Wisker vê a crítica de Patrícia Dunker como deficiente no reconhecimento do humor e da recusa por parte de Angela Carter em fornecer uma solução ideal para um mundo sem as estruturas patriarcais em seus romances. Já Merja Makinen (1992) considera que a natureza subversiva e o erotismo dos textos carterianos situam a força e o perigo de suas narrativas”. (RODRIGUES, T., 2012).


A violência e a agressão dos primeiros romances deram lugar à sátira e à explosão dos estereótipos culturais, celebrando a habilidade das mulheres em sobreviver, escapando sãs e salvas das ideologias sexistas. (RODRIGUES, T., 2012, p. 32)
Adriana Lisboa no prefácio de A Câmara Sangrenta lançada pela editora Dublinense em uma tiragem exclusiva aos assinantes do clube de livros TAG – Experiências Literárias diz que:
Algumas feministas de sua época dedicavam-se a denunciar a misoginia dos contos de fadas tradicionais; Carter subverteu-os, fazendo com que as mulheres de suas histórias abraçassem a própria sexualidade e tomassem as rédeas de seu próprio destino. (LISBOA, A., 2017, p. 7)
Criticada ou não, o fato é que Angela Carter foi uma mulher que dedicou sua vida a não só denunciar os contos de fadas, mas abraçou o gênero e deu nova vida a eles. Um exemplo disso é o conto que dá título ao livro. A história faz referência ao conto Barba Azul, onde um aristocrata assustador, casado já seis vezes, desposa a sétima esposa. Ninguém sabe o que aconteceu com as outras seis, que sumiram misteriosamente, o que deixa a família da nova esposa muito preocupada. Quando o homem sai de viagem, deixa com a mulher um molho de chaves e a alerta que ela pode ir em qualquer parte da casa, menos a sala que a chave menor abre. Porém a mulher começa a ficar curiosa sobre o que tem dentro da sala misteriosa e acaba entrando lá escondida, descobrindo assim o segredo do marido: o chão da sala está repleto de sangue e os corpos das seis outras esposas estão penduradas na parede. A moça sai desesperada e tranca a sala, mas não percebe que a chave acabou ficando manchada de sangue. Dias depois o homem retorna e descobre que ela havia desobedecido suas ordens, cego de raiva, ele tenta matá-la, mas a moça é salva por seu irmão, que chega repentinamente.

A história de Carter, apesar de seguir o mesmo enredo que o original, apresenta algumas peculiaridades interessantes. Logo no começo a protagonista diz que está feliz por ser esposa, mas está triste por deixar de ser a filha. Essa parte mostra uma profundidade na personagem que nunca é explorada, essa dualidade de sentimentos, as dúvidas e preocupações de um passo novo em sua vida.

[...] me transportava através da noite para longe de Paris, para longe da minha infância, para longe da quietude branca e enclausurada do apartamento da minha mãe, rumo ao território inescrutável do casamento.[...] E em meio ao meu triunfo nupcial, senti uma pontada de dor da perda, como se tivesse, quando ele colocou a aliança de ouro em meu dedo, de algum modo deixado de ser filha dela por me tornar esposa dele. (CARTER, 1979, p. 15)
O homem, que na história de Carter não tem nome, foge da descrição feita por Perrault. Enquanto em Barba Azul ele é um homem assustador e feio, o antagonista de Angela Carter, apesar de ser mais velho, é descrito como um homem sedutor, culto, misterioso, alguém capaz de chamar a atenção das mulheres. Fica claro o que Carter quer nos dizer, não precisamos de uma figura feia, não é o sobrenatural que devemos temer, “mas sim com os naturais e recônditos barbas azuis, misturados socialmente, que destilam sistematicamente sua acreditada virilidade magnânima”. (MONTE, 2014).

A cena que a autora monta para contar sobre a noite de núpcias do casal também é muito importante. A moça, virgem, sente o desejo de se entregar ao marido, mas também sente medo, vergonha. A protagonista precisa lidar com a dualidade novamente de sentimentos. Quando os dois ficam a sós, o marido mostra um lado que ela desconhecia “seus movimentos me pareciam deliberadamente grosseiros e vulgares”. (CARTER, 1979). O quarto também a assusta, a cama toda espelhada recria a ideia de haver mais pessoas no local e a luz do dia também a deixa envergonhada. Carter recria uma cena animalesca, agressiva e bem gráfica para contar sobre da primeira vez da protagonista. “Uma dezena de maridos empalava uma dezena de noivas[...]” (CARTER, 1979). Mais uma vez vemos a crítica sobre a dominação masculina, a falta de sensibilidade que muitos homens têm quando se trata de sexo, a objetificação do corpo feminino sem pensar no prazer da mulher.


Ele estava deitado ao meu lado, tal qual um carvalho derrubado, a respiração pesada, como se tivesse lutado comigo. No curso dessa luta unilateral, eu tinha visto sua compostura mortal quebrar como um vaso de porcelana arremessado contra a parede; eu o ouvira gritar e blasfemar no instante do orgasmo; e sangrara. E talvez eu tivesse visto o seu rosto sem a máscara, ou talvez não. Estava, contudo, toda desgrenhada após a perda da minha virgindade. (CARTER, 1979, p. 32)
Quando a mãe liga para perguntar como a filha está, essa se mostra um pouco descontente e então a grande mudança no conto começa. Quem salva a moça da morte é a mãe, que é colocada em posição de poder, de grandeza e ira. A escrita detalhada de Carter coloca mais uma vez uma cena gráfica, onde a mãe é comparada a uma deusa e é a grande heroína do conto.
Em seu aniversário de dezoito anos, minha mãe tinha dado cabo de um tigre devorador de homens que devastara as aldeias nas colinas ao norte de Hanói. Agora, sem um momento de hesitação, ela levantou a arma do meu pai, mirou e acertou uma única e irrepreensível bala na cabeça de meu marido. (CARTER, 1979, p. 67)
Pensando nas de várias conquistas, históricas ou particulares de cada dia, nos dias atuais a mulher está cada vez mais assumindo o protagonismo de sua própria história. A princesa não espera o príncipe salvá-la, uma rainha liberta um reino inteiro e uma mãe sela o cavalo, empunha a espada e salva a filha da morte.

REFERÊNCIAS

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: Um manifesto. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. 94 p.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 63 p.

BEAUVOIR, Simone De. O segundo sexo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 935 p.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 16 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 448 p.

CARTER, Angela. A câmara sangrenta. 1 ed. Porto Alegre: Dublinense, 2017. 224 p.

COLASANTI, Marina. Mais de 100 histórias maravilhosas. 1 ed. São Paulo: Global, 2015. 429 p.COLASANTI, Marina. Mais de 100 histórias maravilhosas. 1 ed. São Paulo: Global, 2015. 429 p.

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Contos dos irmãos grimm. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. 315 p.

FRANZ, Marie-Louise Von. The feminine in fairy tales. 1 ed. Boston: Shambhala; Revised ed. edition, 2001. 225 p.

GAIMAN, Neil. A Bela e a Adormecida. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2015. 69 p.

MACHADO, Ana Maria; BORGES, Maria Luiza X. De A.. Contos de fadas: de Perrault, Grimm, Andersen e outros. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. 284 p.

MONTE, CARLOS EDUARDO. A REESCRITA IRÔNICA DE ANGELA CARTER: “O QUARTO DO BARBA-AZUL”. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara, como requisito para obtenção do título de Mestre em Letras, Araraquara, 2014. undefined. Disponível em: . Acesso em: 08 jul. 2017.

NEIL GAIMAN. The sleeper and the spindle. Disponível em: . Acesso em: 18 jul. 2017.

RODRIGUES, Talita ANNUNCIATO. IDENTIDADES EM MOVIMENTO: a representação feminina e as relações de gênero na obra de Angela Carter. Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutora em Letras (, Assis, jul. 2. Disponível em: . Acesso em: 08 jul. 2017.

WWW.YOUTUBE.COM. 14 Contos de Fadas e a Psicologia Junguiana. Disponível em: . Acesso em: 01 jul. 2017.

WWW.YOUTUBE.COM. Interpretação dos contos de fadas na abordagem junguiana. Disponível em: . Acesso em: 01 jul. 2017.

YOUTUBE.COM.BR. Sociologia - Movimento Feminista. Disponível em: . Acesso em: 01 jul. 2017.




1 Graduada em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Sagrado Coração (camila.bielm@gmail.com)


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