Comédia Conjugal Anne Cavaliere



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Comédia Conjugal

Anne Cavaliere




Desesperada, Olivia Grant olha alternadamente ora para o estonteante desconhecido que faria passar por seu marido, ora para a amiga e antiga rival que se aproxima. Por que fora inventar aquela mentira tola sobre o casamento feliz?

Agora, porém é muito tarde. A amiga avança, o homem lhe sorri. Só lhe restam duas alternativas: ou continua com a farsa e apresenta o famoso “marido”, ou confessa a verdade.

Para sua surpresa, o estranho a enlaça de maneira provocante e a chama de querida!



Disponibilização: Priscila

Digitalização: Joyce

Revisão: Andréa



CAPÍTULO I
Olívia Grant já estava cansada de andar de um lado para o outro no bar do hotel, atraindo olhares masculinos. Usava um vestido negro bem decotado, que lhe ressaltava o castanho-acobreado dos cabelos e o corpo bem-feito. Na verdade, beirava o limite da impaciência. Há duas horas estava ali e ainda não encontrara nenhum homem que se parecesse com o tipo que procurava.

Não que não fosse uma mulher atraente. Longe disso. Oito pretendentes haviam se aproximado dela desde as seis e meia, o que podia ser considerado um recorde para qualquer con­quistador. No entanto, nenhum deles correspondera ao que procurava. Já estava aflita, certa de que o segurança do hotel em breve a procuraria por considerar sua conduta reprovável.

Restando-lhe apenas quinze minutos de seu tempo dispo­nível, Olívia alegrou-se ao ver, no fundo do bar, um homem que atendia exatamente as suas expectativas. Era sua última esperança.

Estava sozinho, bebericando uma cerveja e assistindo ao jogo de futebol americano que passava na tela de televisão. Havia um lugar vago a seu lado, e ela dirigiu-se diretamente para ele.

Ao aproximar-se, notou que sua provável vítima devia ser um homem de negócios em viagem. Vestia um terno azul-marinho que, embora não parecesse novo, era da melhor qualidade. A gravata escura, frouxa no colarinho, indicava que estava relaxando, após um dia exaustivo. O homem tinha um ar aborrecido, como de quem sabia que teria uma noite solitária pela frente e que preferia passá-la assistindo a um jogo de futebol no bar lotado do hotel do que num quarto vazio. Talvez ele considerasse sua proposta uma forma diferente de passar a noite. E, sem dúvida, teria uma história divertida para contar aos amigos quando voltasse.

Aos trinta e dois anos de idade, Olívia já conhecia bem o sexo oposto. Mas caçar um homem num bar de hotel não era definitivamente seu estilo. Dizia a si mesma que era uma atriz, e que não havia nada de mais em interpretar um papel na vida real; mas, na prática, não era muito fácil. Enfim, consciente de que não tinha tempo a perder, respirou fundo e arriscou:

— Por favor, este lugar está ocupado? — perguntou ao homem distraído.

Ele olhou-a com indiferença e respondeu:

— É todo seu.

Olívia sentou-se e lançou-lhe um sorriso convidativo. Ele retribuiu ao sorriso de uma forma não muito encorajadora e voltou a concentrar-se no jogo. Era mais atraente de perto do que de longe, Olívia pensou.

Ela refletiu por um instante e olhou ao redor. Não havia nenhum outro "candidato" possível em vista, e só faltavam quinze minutos para as nove horas. Ou ela arranjava um homem para acompanhá-la até a recepção do hotel rapidamente, ou saía do hotel pela porta mais próxima e pegava o primeiro vôo para Nova York.

Depois de todos aqueles anos, ainda era uma questão de orgulho entre ela e Marsha Carmichael. Fora muito longe com aquela situação ridícula e agora não podia voltar atrás.

— A senhora está servida? — perguntou-lhe o garçom.

— Gim-tônica, por favor — pediu, automaticamente, mas logo se arrependeu. Daquele jeito, não levaria adiante seus planos. — Um momento, mudei de ideia! — falou, virando-se para o homem a seu lado. — A cerveja que o senhor está to­mando parece ótima. Quero uma dessas também.

Novamente o desconhecido a examinou em silêncio. Intima­mente satisfeita, Olívia concluiu que, pelo menos, ele parecia estar interessado nela.

Então, o garçom desfilou uma série de marcas de cerveja, nacionais e importadas, mas nenhuma pareceu-lhe interessante. Na realidade, ela não suportava cerveja, e não tocava numa desde que acabara o colegial.

— Qual a marca da sua cerveja? — perguntou a seu vi­zinho.

— É importada. Chama-se Beer.

— Gostei do nome. Quero uma dessas também — Olívia falou para o garçom.

Olhou de novo para sua vítima e viu que continuava exa­minando-a. "Talvez não esteja acostumado a ser abordado por uma mulher", pensou, mas aquela explicação não era muito plausível, pois, embora ele não fosse um ideal de beleza, tinha um charme todo especial, que uma mulher dificilmente deixaria de notar.

Sua expressão era franca e aberta, o que indicava ser do tipo de pessoa muito violenta quando agredida, mas extrema­mente carinhosa com as pessoas de quem gostava. Tinha o rosto largo, as maçãs da face elevadas, o queixo proeminente e o nariz levemente arqueado. Os dentes eram muito brancos e perfeitamente retos, e o sorriso tão atraente... Quando se dava ao luxo de mostrá-lo, o que até então fora raro. Aquilo não era um bom sinal, na opinião dela.

A cerveja chegou e Olívia, mostrando um entusiasmo que não sentia, exclamou:

— Saúde!

O gosto era o mesmo de sua adolescência, ou seja, terrível. Parecia água com sabão, e mais um pouco de removedor de tinta para dar a cor. Sentia ânsia só de encostar o copo gelado nos lábios, mas controlou-se heroicamente. Olhou para o novo amigo e teve a nítida sensação de que ele adivinhara suas sensações e que se controlava para não rir.

Ela enxugou os lábios delicadamente com o guardanapo, tentando remover o bigode de espuma que a cerveja deixara. Ele a fitava, como se esperasse que ela fosse dizer alguma coisa.

— É uma boa cerveja — ela comentou, finalmente. — Tem razão.

Ele continuava olhando para ela. "Não vai ser fácil", ela pen­sou. Entre todos os homens do hotel, tinha que escolher justamente um do tipo silencioso e fechado? Olhou para o relógio. Fal­tavam menos de dez minutos para ir embora. Tinha que ser rápida.

— Como está o jogo? — Olhou para a tela da televisão, onde uma massa de corpos, braços e pernas masculinas se misturavam.

Olívia não entendia nada de futebol americano, nem tinha a mínima vontade de aprender. Era um esporte violento e absurdo. Não entendia por que aqueles homens recebiam salá­rios tão altos para correr de um lado ao outro do campo, tentando se agredir um ao outro. Para ela, todos deviam ser presos por provocar desordem, isso sim.

— Ótimo. Os cowboys perderam dez jardas num pênalti, mas conseguiram dois saques e três interceptações nos últimos quinze minutos — informou, e ela pôde reconhecer na voz o entusiasmo dos verdadeiros torcedores, embora aquilo soasse como uma língua estrangeira. Se ele não tivesse os olhos fixos na tela, dificilmente deixaria de perceber a expressão de es­panto em seu rosto.

Na tela, a bola voou, e um gigante de número trinta e três a pegou e saiu correndo feito um demônio pelo campo. Dois outros gigantes, do time oposto, pelo que Olívia podia entender, corriam atrás do primeiro, finalmente pulando sobre ele e jo­gando-o no chão. O número trinta e três valentemente apertou a bola contra o peito, para impedir que os demais a tomassem. Um apito soou, e Olívia sentiu o estômago revirar só de assistir à cena.

— Esse cara tem as maiores mãos da América — o homem comentou.

— As mãos dele são mesmo fantásticas — concordou, e levou novamente o copo aos lábios, fingindo tomar um pequeno gole.

— Gosta de futebol? — Seus olhos eram castanhos, com pequenos reflexos dourados.

— Sou apaixonada. Dificilmente perco um jogo.

— É mesmo? — Ele dirigiu-lhe um de seus raros sorrisos e duas covinhas apareceram em suas faces. Ele seria perfeito, melhor do que tinha o direito de esperar, Olívia reconheceu. — Que clube? — Ela era sócia do Clube Sierra e da Liga das Mulheres... Mas eles estavam falando de futebol!

Ele sorriu e pegou alguns amendoins no balcão do bar, colo­cando-os na boca. Depois, explicou:

— Você deve ter um time favorito, não é?

— Bem... Sou de Nova York, então não podia deixar de torcer pelo... — Olívia não conseguia lembrar sequer o nome de um time de Nova York. — Pelo time da casa — concluiu, de modo não muito convincente.

— Que senso cívico! — A voz dele soou um pouco zom­beteira.

Antes de ter a chance de se enrolar um pouco mais, um barulho enorme tomou conta da tela da televisão, e ambos voltaram-se para ver o que acontecia. O número trinta e três corria novamente pelo campo, driblando inteligentemente os que procuravam impedi-lo, até alcançar o final do campo com a bola em um dos braços. Até Olívia sabia que ele marcara ponto. O bar todo comemorava, conjuntamente com as pessoas no estúdio.

— Meu Deus, você viu esse homem correr? Deve ter feito umas oito jardas, pelo menos! — O homem levantou-se da ca­deira e a segurou pelo braço, excitado com o jogo. Tocara-a sem pensar, mas ela pôde sentir naquele toque sua força.

— Foi mesmo magnífico — concordou, contagiada pelo entusiasmo dele. O placar apareceu na tela, e Olívia então constatou que os dois times estavam empatados. — Olhe, mais outra jogada dessas e eles vão ficar com mais pontos.

— Com mais gols, você quer dizer?

— Isso mesmo. Eu vivo trocando as palavras. — Sorriu e pegou alguns amendoins, nervosa.

— Você não entende nada de futebol, não é mesmo? — ele observou.

Sentindo-se encurralada, Olívia confessou:

— Não sei nem dizer quantos times estão jogando, para ser sincera.

Olhou para ele, um pouco assustada. Ele não estava mais sorrindo, embora não estivesse exatamente sem sorrir.

— E você também não gosta de cerveja, não é? — Apontou para o copo, praticamente intacto.

— Para mim, é a mesma coisa que sabonete líquido.

Ele riu.


— Agora estamos chegando a algum lugar.

— Ah, é?


— Eu sabia que havia algo de diferente desde o momento em que entrou no bar.

— Como assim?

— Bem, você não está vestida para tomar cerveja e comer amendoins.

— Que observador você é! — Realmente, seu vestido de seda preta caríssimo, os brincos de diamante e o anel de ônix e diamante que usava não combinavam com o ambiente sofis­ticado, mas esportivo do bar. — Mas acho que está prestes a chegar a conclusões erradas.

— Com um vestido desses, ninguém se engana. — Olhou-a de cima a baixo, como se a avaliasse.

— Obrigada — Olívia agradeceu com frieza, pegou o casa­co de pele de cobra, que também custara uma fortuna, e se levantou. Como pudera pensar que aquele plano maluco podia funcionar? Pelo menos com aquele homem não funcionaria. Aliás, nunca tivera um instinto eficiente na hora de escolher homens.

— Partindo tão cedo? Logo agora, que as coisas começavam a ficar interessantes...

— Infelizmente, para mim o tempo já se esgotou — ela murmurou, tirando algumas notas da bolsa para pagar a conta.

— Tem certeza de que não quer mais nada para beber? Um gim-tônica, quem sabe?

Ele estava tentando parecer gentil, e aquela mudança de ati­tude pegou-a de surpresa. Mesmo achando que ele interpretara mal suas intenções — provavelmente achara que tinha como profissão abordar homens sozinhos em hotéis —, era defini­tivamente um homem atraente.

— Sinto muito, mas tenho que encontrar uns velhos amigos, e já estou atrasada. — "Para enfrentar um dos piores momen­tos da minha vida", acrescentou em silêncio.

— Rever velhos amigos? Boa desculpa. Quem sabe teremos uma outra chance para nos conhecermos melhor, não é? Aliás, meu nome é Jonas Harper.

— O meu é Olívia Grant — disse apressada, louca para sair dali o mais rápido possível. Ao menos até decidir se enfren­taria Marsha e Brad sozinha ou se esconderia no quarto. Nenhuma das alternativas parecia interessante no momento, mas deixar Marsha encontrá-la ali à caça de um homem era que não podia deixar acontecer.

Quando olhou novamente para Jonas, ele a olhava com curiosidade.

— Até logo, Olívia. Divirta-se.

— Obrigada, e felicidades. — Virou-se sobre seus saltos altos e começou a caminhar em direção à porta.

Ao sair, seus olhos encontraram à distância a fonte de seus problemas, Marsha Mott Carmichael: sua ex-colega de quarto na faculdade e ex-melhor amiga, e esposa de um empresário muito bem-sucedido e a mulher que roubara seu noivo duran­te o último ano de faculdade.

Não se encontravam há dez anos, e por muito tempo Olívia não pensava mais no que acontecera. Mas naquela tarde, quando Marsha a encontrara na recepção do hotel, tagarelando sobre o sucesso de Brad, os filhos, as propriedades, os antigos instintos de competição em relação à Marsha vieram à tona.

No fundo, a conversa que tiveram fora a de duas antigas rivais que conheciam muito bem as fraquezas uma da outra. Olívia saíra-se muito bem, exagerando no seu sucesso. Fizera um quadro maravilhoso de sua vida em Manhattan e das novelas em que trabalhava, omitindo que fora para San Diego, no sul da Califórnia, atrás de emprego, e que sua personagem estava prestes a ser morta por causas não-naturais, pondo um fim a seu contrato.

Mas Marsha não ouvira nada daquilo. Olívia mostrara sua vida como o sonho dourado que qualquer dona-de-casa aborre­cida do Meio-Oeste americano gostaria de viver. O jogo ficara equilibrado por algum tempo, cada uma pintando o paraíso que era sua vida, até que Marsha decidira fazer aquela per­gunta, calculada justamente para humilhá-la. Até aquele mo­mento, ela se esquecera de como Marsha podia ser venenosa quando estava perdendo. A pergunta saíra junto com um sorriso amarelo:

Me conte, querida... Você já se casou? — Olívia, que controlava perfeitamente suas emoções até então, ficara subitamente corada. Olhara bem dentro das lentes de contato azuis da sua adversária e fizera o que qualquer outra mulher teria feito na sua situação: mentira.

Depois de Brad Carmichael, muitos homens quiseram casar com ela, mas, por um motivo ou outro, ela nunca aceitara. Nunca considerara embaraçoso ser solteira, e muitas pessoas conhecidas inclusive invejavam sua liberdade. Mas, quando Marsha fizera a pergunta, o assunto tomara outra dimensão. Afinal de contas, Marsha fora a grande vencedora da corrida por Brad Carmichael.

A primeira mentira fora fácil. Imaginar o marido ideal fora muito divertido para Olívia. O problema agora era criá-lo em carne e osso. Se estivesse em Nova York, simplesmente teria telefonado para um de seus vários amigos e pedido ajuda. Mas a realidade era que estava numa cidade estranha, onde não conhecia ninguém. Aliás, jamais teria aceito por sua própria vontade aquele convite de Marsha para tomar um drinque com ela e Brad, mas a ex-amiga de alguma forma a levara a aceitar. Ela sempre dava um jeito de convencer os outros de fazer o que não queriam.

Em defesa própria, Olívia só podia alegar insanidade tem­porária. Depois que a poeira assentara, a única saída decente seria telefonar para Marsha e dar uma desculpa qualquer para não precisar ir. Ou partir do hotel, deixando na portaria uma nota de desculpa. Chegara mesmo a escrever algumas notas, mas jogara todas no lixo, uma a uma. A tentação de se mostrar de braços dados com um homem másculo e masculino — mesmo que apenas por cinco minutos — fora muito grande. Olívia agora percebia o quanto se iludira pensando que poderia persuadir alguém a interpretar o papel de marido para ela.

Enfim, Marsha já a vira, e Olívia, como um animal acuado, consciente de que caíra na armadilha do caçador, a observava, inerte, percorrer o caminho que as separava. Porém, de repente, reagiu, e, seguindo seus instintos, percorreu o caminho de volta até Jonas e bateu-lhe no ombro.

Ele a olhou surpreso e, com uma ponta de sarcasmo nos olhos, brincou:

— Não conseguiu ficar longe, não é?

— Tenho que lhe pedir um favor — falou rápido, trope­çando nas palavras.

— Pensei que era isso que queria quando se sentou aqui pela primeira vez — murmurou.

— Não é o que você está pensando... — Olívia enrubesceu.

— Só acho que você está muito atrapalhada. De uma forma muito charmosa, é claro.

Pare de me interromper, está bem? Eu preciso de um homem... — ela ofegava, extremamente nervosa.

— Está me passando uma cantada? Gosto desse tipo de mulher. Elas normalmente dividem a conta.

— É só por alguns minutos...

— É uma mulher de negócios muito ocupada, então?

— Preciso de um homem para fazer de conta que é meu marido. Não posso explicar agora, é uma longa história.

Jonas olhou para a mulher à sua frente. Era realmente um "pedaço" de mulher, e sua beleza era realçada pelo contraste entre o cabelo vermelho despenteado e a pele lisa, sem uma sarda. Mas não conseguia entender o que se passava.

— Posso imaginar — respondeu finalmente.

— Duvido. — Olívia olhou por cima dos ombros. Marsha estava a apenas alguns passos de distância. Angustiada, mur­murou: — Oh, não, já é tarde!

— Pensei ter visto vocês dois escondidos aqui no bar e vim até aqui. Devíamos ter nos encontrado na recepção às nove horas, não é? — Marsha cumprimentou-os, sorrindo.

Olívia desejava ardentemente que o chão se abrisse sob seus pés e a engolisse de uma vez. Mas não teria tanta sorte. Agora era muito tarde para voltar para o quarto e se esconder. Só tinha duas alternativas: ou inventar mais uma grande men­tira para explicar a ausência de seu "marido", ou falar a verdade. Fugir para longe também era uma possibilidade. No entanto, tinha a impressão de que Marsha correria atrás dela, como acontecia nos seriados de televisão.

— Marsha, já são nove horas? — Olívia olhou para o reló­gio, tentando ganhar tempo.

Jonas olhava de uma mulher para a outra. Sua intuição lhe dizia que aquela ruiva não desistiria com facilidade. Sempre tivera uma queda pelos derrotados — e especialmente por ruivas. Sem pensar nas consequências de seus atos, levantou-se e enlaçou possessivamente a cintura delgada de Olívia e de­clarou:

Desculpe pelo atraso, Marsha, mas Olívia não conseguiu me arrancar do jogo, não é, querida? — falou, com a voz mais charmosa possível.

Incrédula, Olívia voltou-se lentamente para o estranho, que respondeu a seu olhar perplexo com uma piscada de olhos. Não era tão alto quanto pensara, mas, de qualquer forma, era um homem charmosíssimo.

— Você não me falou o nome de seu marido quando nos encontramos hoje, Olívia. Tenho certeza de que me lembraria — desculpou-se com doçura.

— Ah, não?... Sinto muito... Marsha, este é... meu marido, Jonas Harper.

Jonas sorriu, mostrando as covinhas e os dentes brancos e perfeitos. Marsha correspondeu ao sorriso, estendendo-lhe a mão.

— Prazer em conhecê-la, Marsha — ele falou, educada­mente.

— O prazer é todo meu. Olívia me falou tão pouco sobre você...

Jonas olhou para sua "esposa" com um pequeno sorriso na ponta dos lábios.

— Olívia é assim mesmo. Gosta de fazer sempre um pouco de mistério.

— Fico muito feliz em conhecê-lo. Aliás, não entendo por que nós três, Olívia, Brad e eu, passamos tanto tempo sem nos ver. Hoje vai ser uma data muito especial para nós, não é, Olívia?

— Com toda a certeza — respondeu, com alegria forçada.

— Estava justamente dizendo a Brad que me parece aquele filme... Não consigo lembrar o nome agora. Você sabe, aquele em que velhos colegas de faculdade se reencontram após não sei quantos anos.

— Deve ter sido horrível — Olívia comentou, baixinho.

— Como? — Marsha não escutara, devido ao barulho do bar.

— Deve ter sido emocionante — Jonas consertou, diploma­ticamente, ainda que não conseguisse entender direito o que se passava entre as duas mulheres.

— Foi mesmo — Marsha concordou.

— Onde está Brad? — Olívia interrompeu.

— Está esperando pela gente no restaurante. — A amiga olhou o relógio que, Olívia imaginava, devia ter custado o preço de sua hospedagem naquele hotel. — Aliás, é melhor irmos, pois Brad odeia esperar, não é mesmo, Olívia?

Sem esperar resposta, encaminhou-se para a saída do bar. Ao chegarem à recepção, se separaram, pois era impossível andarem juntos naquela multidão. Livres de Marsha, Olívia pediu a Jonas:

— Espere um minuto, já ia esquecendo um detalhe. — Abriu a bolsa e tirou um par de alianças, colocando uma delas no anular da mão esquerda. A outra estendeu para Jonas e esclareceu: — Esta é a sua.

Como ele não tomasse nenhuma atitude, impacientou-se:

— São meus brincos favoritos, portanto não os perca. Tomara que consiga colocar no formato original, depois. Não vai colocar?

— É necessário? Muitos homens não usam aliança.

— Eu devia ter adivinhado que você era desse tipo. Prova­velmente, você tem uma mulher de verdade e doze filhos em algum lugar, não é?

— Não seja ridícula. Claro que eu não tenho. Mas, se lhe faz feliz, coloco a aliança. — Tentou colocá-la, mas não conseguiu.

— Deixe-me ajudá-lo. — Olívia pegou novamente o brinco, alargou-o e o colocou no dedo de Jonas.

Admirado, ele olhou para a bolsa de Olívia e perguntou:

— Será que você também tem um Juiz de Paz aí dentro?

— Que gracinha! Pelo menos, agora está tudo pronto.

— A questão é: pronto para quê?

— Não se preocupe, você está ótimo. E obrigada por me ajudar, prometo que não vai durar muito.

— Pode ser absurdo, mas estou achando isso muito divertido.

— Fico feliz em saber que pelo menos alguém está se diver­tindo. Aliás, você não precisava exagerar nos abraços.

— Você não está querendo demais? Deve dar-se por feliz por ter encontrado alguém disposto a participar desta comédia!

— Tem razão, desculpe. É que encontrar essas pessoas de­pois de todo esse tempo me deixou abalada.

— Está desculpada. Muitos casais discutem. Isso não quer dizer necessariamente que tenhamos um mau casamento. Mas, afinal de contas, quem são Marsha e Brad? Percebi que se conhecem desde a faculdade, mas sei que tem alguma coisa a mais. Não quer me dizer?

— É uma longa história, eu lhe conto depois — Olívia prometeu, apertando o passo.

Jonas segurou-a pela cintura, para fazê-la parar, sem ser rude, nem exatamente gentil.

— Por que não me conta agora, em umas vinte palavras? Acho que tenho o direito de saber alguma coisa sobre o que está se passando, querida.

Olívia afrouxou o passo e explicou, olhando para o chão:

— Marsha era minha colega de quarto e minha melhor ami­ga. Brad, seu marido, era meu noivo. Entendeu?

— Acho que sim... — Jonas ficou quieto por alguns ins­tantes digerindo as informações. Não estava errado em ajudar aquela mulher, no final das contas. — É divertido.

— O quê? Minha colega de quarto roubar meu noivo?

— Não, não é isso. Foi muito feio da parte dela, mas isso acontece a toda hora. O interessante é que pedi para me ex­plicar em vinte palavras, e você conseguiu. Aliás, com o que você trabalha? É importante que eu saiba, caso se fale nisso.

— Sou atriz e trabalho em novelas. No momento, estou pen­sando em novos projetos ou, em outras palavras, estou pro­curando emprego.

— Atriz! Devia ter adivinhado! Você não inventou nada de impressionante sobre mim para a sua amiga? Não disse que era dono de um poço de petróleo, ou algo assim? — Olívia olhou para ele com um súbito interesse.

— Você tem um poço de petróleo?

— Claro que não!

— Bem, não é culpa minha — ela falou, num tom de voz sentido. — Eu não disse nada ainda sobre a sua profissão, então você pode dizer o que quiser. Mas o que você faz, real­mente?

— Trabalho com propaganda e marketing. Tinha um sócio, mas atualmente trabalho sozinho.

— Marketing? Bem, é um começo.

Jonas a olhou. Tinham alcançado a entrada do restaurante e podiam ver Marsha e Brad acenando de uma mesa.

— Bem, vamos lá — Olívia falou, segurando Jonas pelo braço.

Estava tão nervosa que tinha até dificuldade de caminhar. Lidar com Marsha já era terrível e, ao se aproximar da mesa, percebeu que não estava ainda preparada para encontrar Brad.

Mas não havia tempo para pensar naquilo. Chegaram à mesa, e um homem loiro, levemente grisalho nas têmporas, levantou-se para recebê-los, sorrindo. Subitamente, Olívia ficou grata por ter o braço firme de Jonas a seu lado.




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