Como Eu Era Antes de Você (Pré-venda)



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Jojo Moyes - Como Eu Era Antes de Você
"Um livro magistral, com personagens carismáticos, verossímeis c absolutamente convincentes. I .ou e Will vão conquistar o coração dos leitores como fizeram Km ma e Dcx.de Um dia"

Tbe Indcpcndcnt

Como ^^era antes de





JOJO MOYES

autora dc A ÚLTIMA CARTA DE AMOR A


Como era antes de

JOJO MOYES

Tradução de Beatriz Horta

Copyright © Jojo Moyes, 2012

TÍTULO ORIGINAL Me Before You

TRADUÇÃO Beatriz Horta

REVISÃO Milena Vargas

REVISÃO DE EPUB Juliana Pitanga

GERAÇÃO DE EPUB

Intrínseca

E-ISBN

978-85-8057-326-8 Edição digital: 2013



Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA INTRÍNSECA LTDA.

Rua Marquês de São Vicente, 99, 3° andar

22451-041 - Gávea

Rio de Janeiro - RJ

Tel./Fax: (21) 3206-7400



www.intrinseca.com.br







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Para Charles, com amor





2007


Quando ele sai do banheiro, ela está acordada, recostada nos travesseiros e folheando os prospectos de viagem que estavam ao lado da cama. Usa uma camiseta dele e seu cabelo comprido está despenteado de uma maneira que o faz lembrar da noite anterior. Ele fica parado, desfrutando da breve recordação enquanto enxuga seu próprio cabelo com uma toalha.

Ela levanta os olhos do prospecto e faz um beicinho. É um pouco velha para isso, mas eles estão juntos há pouco tempo e ainda é bonitinho.



  • A gente precisa mesmo fazer algo que envolva escalar montanhas ou se pendurar em ribanceiras? É a primeira vez que vamos tirar férias juntos para valer e não há uma única viagem nesses folhetos que não envolva se atirar de algum lugar ou — ela finge tiritar de frio — usar casacos de fleece.

Ela joga os folhetos na cama e estica os braços bronzeados acima da cabeça. A voz está rouca, prova de que dormiram pouco.

  • Que tal um spa de luxo em Bali? Poderíamos ficar deitados na areia... passar horas sendo paparicados. ter longas noites relaxantes.

  • Não posso ter esse tipo de férias. Preciso de atividade.

  • Como se jogar de aviões.

  • Não critique até que tenha experimentado.

Ela fica amuada.

  • Se você não se importar, acho que vou continuar criticando.

A camiseta dele está ligeiramente úmida em sua pele. Ele passa um pente pelo cabelo, liga o celular e dá uma olhada na lista de recados que surge imediatamente na telinha.

  • Muito bem, preciso ir — diz ele. — Tome seu café da manhã. — Inclina-se sobre a cama para beijá-la. Ela tem um cheiro morno, perfumado e muito sensual. Ele inala o aroma de sua nuca e, por um instante, perde o rumo dos pensamentos quando ela o envolve pelo pescoço com os braços, puxando-o para a cama.

  • Ainda vamos viajar no fim de semana?

Ele se desvencilha, relutante.

  • Depende do que acontecer nessa reunião. Por enquanto, tudo está meio no ar.

Pode ser que eu ainda tenha de ir a Nova York. Que tal jantar num lugar bacana na quinta-feira, para compensar? Você escolhe o restaurante. — Sua jaqueta de motoqueiro está pendurada atrás da porta, ele a pega.

Ela estreita os olhos, pensativa.



  • Jantar com ou sem o Sr. BlackBerry?

  • Com quem?

  • O Sr. BlackBerry faz com que eu me sinta uma intrusa. — Ela faz beicinho de novo. — Parece que sempre tem uma terceira pessoa disputando sua atenção.

  • Vou colocá-lo no silencioso.

  • Will Traynor! — ela o repreende. — Você precisa desligar esse aparelho em algum momento.

  • Na noite passada eu desliguei, não foi?

  • Só sob enorme coação.

Ele sorri.

  • É assim que chamamos isso agora? — Ele calça os sapatos.

E o efeito que Lissa mantinha sobre sua mente se rompe. Ele joga a jaqueta de motoqueiro no braço e lança um beijo para ela ao sair.

O BlackBerry tem vinte e duas mensagens, a primeira delas enviada de Nova York às três e quarenta e dois da manhã. Algum problema legal. Will desce de elevador até o estacionamento no subsolo, tentando rememorar os acontecimentos da noite.



  • Bom dia, Sr. Traynor.

O segurança sai de seu cubículo. O lugar é à prova de intempéries, embora ali não haja intempéries das quais se proteger. Às vezes, Will imagina o que o segurança faz lá embaixo, de madrugada, olhando fixamente para a televisão do circuito interno e para os para-lamas reluzentes de carros de sessenta mil libras que jamais ficam sujos.

Ele enfia os ombros na jaqueta de couro.



  • Como está o tempo lá fora, Mick?

  • Horrível. Está chovendo canivetes.

Will para.

  • É mesmo? Não dá para ir de moto?

M ick balança a c abeç a.

  • Não, senhor. A menos que tenha um bote inflável. Ou esteja querendo morrer.

Will olha para a moto e tira a jaqueta. Não importa o que Lissa pense, ele não é o

tipo de homem que corre riscos desnecessários. Abre o porta-capacete da moto e guarda a jaqueta lá dentro, tranca o compartimento e joga as chaves para Mick, que pega-as precisamente com uma das mãos.



  • Passe por debaixo da porta do meu apartamento, pode ser?

  • Sem problemas. Quer que eu chame um táxi?

  • Não. Não faz sentido nós dois nos molharmos.

Mick aperta o botão do portão automático e Will sai, acenando em agradecimento. A manhã está escura e trovejante a seu redor, o tráfego no centro de Londres já está intenso e lento apesar de ainda ser sete e meia. Ele levanta o colarinho em volta do pescoço e segue a passos largos pela rua até o cruzamento, onde é mais provável que consiga um táxi. As ruas estão escorregadias por causa da água, a luz cinzenta se reflete nas poças da calçada.

Will amaldiçoa intimamente outros engravatados ao enxergá-los na beira do meio- fio. Desde quando Londres inteira acorda tão cedo? Todos tiveram a mesma ideia.

Enquanto pensa no melhor lugar para se posicionar, o celular toca. É Rupert.


  • Estou chegando. Estou tentando pegar um táxi.

Ele vislumbra um táxi livre se aproximando pelo outro lado da rua e começa a ir em sua direção, desejando que ninguém mais o tenha visto. Um ônibus passa roncando, seguido de um caminhão que freia de maneira estridente, impedindo-o de ouvir o que Rupert diz.

  • Não estou ouvindo, Rupe — grita, por sobre o barulho do trânsito. — Você vai precisar repetir. — Meio isolado em uma ilha de trânsito, com o tráfego fluindo por ele como uma correnteza, vê a luz alaranjada sobre o capô do táxi, indicando que o veículo está desocupado, e estica a mão livre, na esperança de que o motorista consiga vê-lo através da chuva forte.

  • Você precisa ligar para Jeff em Nova York. Ele ainda está acordado, à sua espera. Tentamos falar com você na noite passada.

  • Qual é o problema?

  • Um empecilho legal. Duas cláusulas que eles estão protelando por causa de duas alíneas. assinatura. papéis. — A voz é abafada por um carro que passa, os pneus silvando na água.

  • Não entendi.

O táxi o viu. Está reduzindo a marcha, esguichando um fino borrifo de água à medida que anda mais devagar do outro lado da rua. Will percebe que o homem mais adiante diminui o passo, desapontado, ao perceber que não alcançará o táxi a tempo. Ele tem uma íntima sensação de vitória.

  • Escute, peça a Cally para colocar a papelada na minha mesa — grita. — Chego em dez minutos.

Olha para os dois lados, então baixa a cabeça ao dar os últimos passos para atravessar a rua em direção ao táxi, já com o destino "Blackfriars" na ponta da língua. A chuva se infiltra pelo espaço entre o colarinho e a camisa. Ele vai chegar ao escritório ensopado só por ter andado aquele pedacinho na chuva. Talvez precise mandar a secretária comprar outra camisa.

  • E temos de resolver essa questão importante antes que Martin chegue.

Ele olha em direção ao chiado, o som rude e estridente de uma buzina. Vê a lustrosa lateral do táxi negro diante de si, o motorista já abaixando o vidro, e pelo canto do olho nota algo que não distingue direito, que está vindo para cima dele numa velocidade incrível.

Ele se vira e, nesse milésimo de segundo, percebe que a coisa vem em sua direção, que não há como sair da frente. Surpreso, abre a mão e o BlackBerry cai no chão. Ouve um grito que talvez seja seu. A última coisa que vê é uma luva de couro, um rosto dentro de um capacete, o choque nos olhos do homem refletindo o dele próprio. Há uma explosão quando tudo se parte em pedaços.

E então não há na da.


2009

São cento e cinquenta e oito passos entre o ponto de ônibus e minha casa, mas é possível esticar esse número para cento e oitenta se você não estiver com pressa, ou, por exemplo, se estiver usando sapatos de plataforma. Ou se estiver com os sapatos que você comprou num brechó e que possuem borboletas nos dedos e nunca ficam bem presos nos calcanhares, o que explica por que custaram a pechincha de uma libra e noventa e nove centavos. Virei a esquina na nossa rua (sessenta e oito passos) e logo pude ver a casa — uma casa geminada de quatro quartos numa sequência de outras casas geminadas de três e quatro quartos. O carro de papai estava do lado de fora, o que significava que ele ainda não tinha ido para o trabalho.

Às minhas costas, o sol se punha atrás do castelo Stortfold, sua sombra escura escorrendo pela colina feito cera derretida para me engolir. Quando eu era pequena, costumávamos fazer com que nossas sombras alongadas participassem de tiroteios, nossa rua era o O.K. Corral. Em outro dia, eu poderia contar tudo o que vivi nessa rua: onde papai me ensinou a andar de bicicleta sem rodinhas; onde a Sra. Doherty, com sua peruca torta, fazia bolos galeses para nós; onde Treena, aos onze anos, prendeu a mão numa cerca viva e perturbou um ninho de vespas nos fazendo correr aos gritos por todo o trajeto até o castelo.

O triciclo de Thomas estava jogado no meio do caminho e, ao fechar o portão atrás de mim, eu o arrastei até a entrada e abri a porta. O calor me atingiu com a força de um air bag. Mamãe é torturada pelo frio e mantém a calefação ligada o ano inteiro. Papai está sempre abrindo janelas, reclamando que ela vai nos levar à falência. Ele diz que nossa conta de luz é maior que o PIB de um pequeno país africano.



  • É você, querida?

  • Sou eu. — Pendurei minha jaqueta no gancho, lutando para conseguir um espaço no meio das outras.

  • Eu quem? Lou? Treena?

  • Lou.

Da porta da sala, olhei ao redor. Papai estava de bruços no sofá, o braço enfiado entre as almofadas, como se elas estivessem tentando engoli-lo. Thomas, meu sobrinho

de cinco anos, o observava atentamente logo atrás.

  • Lego. — Papai virou-se para mim, o rosto vermelho devido ao esforço. — Não sei por que eles fazem as malditas peças tão pequenas. Você viu o braço esquerdo de Obi- Wan Kenobi?

  • Estava em cima do aparelho de DVD. Acho que ele trocou o braço do Obi pelo do Indiana Jones.

  • Bom, aparentemente Obi não pode ter braços bege agora. Temos de achar os braços pretos.

  • Eu não me preocuparia. Darth Vàder não arranca o braço dele no segundo episódio? — Apontei para minha bochecha para Thomas dar um beijo. — Cadê a mamãe?

  • No andar de cima. Veja o que eu achei! Uma moeda!

Olhei para cima bem a tempo de escutar o conhecido ranger da tábua de passar. Josie Clark, minha mãe, jamais se senta. É uma questão de honra. Era conhecida por ficar numa escada do lado de fora pintando as janelas, parando de vez em quando para acenar, enquanto o restante de nós jantava rosbife.

  • Você pode achar o bendito braço para mim? Thomas está me obrigando a procurar por isso há meia hora e preciso me arrumar para o trabalho.

  • Você está no turno da noite?

  • Sim. São cinco e meia.

Dei uma olhada no relógio.

  • Na verdade, são quatro e meia.

Ele retirou o braço de baixo das almofadas e estreitou os olhos para conferir o relógio de pulso.

  • E o que você está fazendo em casa tão cedo?

Balancei a cabeça vagamente, como se não tivesse entendido a pergunta direito, e entrei na cozinha.

Vovô estava sentado na cadeira ao lado da janela, completando um sudoku. O assistente social nos tinha dito que o jogo seria bom para melhorar a concentração dele, que ajudaria nisso depois dos derrames. Desconfio de que eu era a única a perceber que ele apenas preenchia os quadradinhos com o primeiro número que lhe viesse à cabeça.



  • Oi, vovô.

Ele me olhou e sorriu.

  • Quer uma xícara de chá?

Ele balançou a cabeça e abriu um pouco a boca.

  • Uma bebida gelada?

Ele anuiu.

Abri a porta da geladeira.



  • Não tem suco de maçã. — Disse, e então me lembrei de que suco de maçã era muito caro. — Quer um pouco de Ribena?

Ele balançou a cabeça.

  • Água?

Ele fez que sim e murmurou alguma coisa que poderia ser um obrigado quando lhe entreguei o copo.

Minha mãe entrou na cozinha carregando um enorme cesto de roupas lavadas e cuidadosamente dobradas.



  • São suas? — perguntou, exibindo ostensivamente um par de meias.

  • São de Treena, eu acho.

  • Também pensei que fossem dela. Cor estranha. Devem ter ficado junto com o pijama cor de ameixa do seu pai. Você chegou cedo. Vai a algum lugar?

  • Não. — Enchi um copo com água da torneira e bebi.

  • Patrick vem aqui mais tarde? Ele ligou para cá de manhã. Você desligou seu celular?

  • Hum.

  • Ele falou que está tentando marcar as férias de vocês. Seu pai disse que ele viu alguma coisa sobre isso na TV. Vocês querem ir para onde? Ipsos? Calipso?

  • Skiathos.

  • É, isso. Você precisa verificar o hotel com muito cuidado. Faça isso pela internet. Ele e seu pai viram algo no noticiário da hora do almoço. Parece que estão fazendo uns sites, oferecendo pacotes pela metade do preço, e você só fica sabendo quando chega lá. Papai, quer uma xícara de chá? Lou não ofereceu uma para você? — Ela colocou a chaleira com água para esquentar e olhou para mim. Finalmente deve ter percebido que eu não disse nada. — Você está bem, querida? Está tão pálida.

Colocou a mão na minha testa como se eu tivesse bem menos que meus vinte e seis anos.

  • Acho que não vamos tirar férias.

A mão da minha mãe ficou imóvel. O olhar dela tinha aquela coisa meio raio x desde quando eu era criança.

  • Você e Pat estão com algum problema?

  • Mãe, eu...

  • Não estou querendo me intrometer. É que vocês estão juntos há tanto tempo. É muito natural que as coisas se compliquem de vez em quando. Quer dizer, eu e seu pai, nós.

  • Fui demitida.

Minha voz cortou o silêncio. As palavras ficaram ali, no ar, esmorecendo na pequena cozinha por muito tempo após o som ter sumido.

  • Você o quê?

  • Frank vai fechar o café. Amanhã. — Estendi a mão com o envelope meio

molhado que, em estado de choque, eu havia apertado ao longo de todo o trajeto para casa. Todos os cento e oitenta passos desde o ponto de ônibus. — Ele pagou os três meses do seguro.

O dia tinha começado como outro qualquer. Todo mundo que eu conhecia detestava manhãs de segunda-feira, mas eu nunca me incomodei. Gostava de chegar cedo ao The Buttered Bun, ligar a enorme máquina de chá, trazer os caixotes de leite e pão do depósito e conversar com Frank enquanto nos preparávamos para abrir.

Gostava do calor abafado com aroma de bacon que havia no café, das pequenas rajadas de ar frio quando a porta se abria e se fechava, do murmúrio das conversas e, quando estava tudo calmo, do rádio de Frank tocando baixinho no canto. Não era um lugar moderninho, as paredes eram cobertas de fotos do castelo da colina, as mesas ainda ostentavam tampos de fórmica e o cardápio era o mesmo desde que comecei lá, exceto por algumas mudanças nos tipos de chocolate servidos no balcão e pela inclusão de brownies e bolinhos de chocolate na bandeja de bolos gelados.

Mas, acima de tudo, eu gostava dos clientes. Gostava de Kev e de Angelo, os encanadores que vinham quase todas as manhãs e brincavam com Frank perguntando de onde vinha a carne que ele servia. Gostava da Sra. Dente-de-leão, apelidada assim por causa da cabeleira branca, que comia ovo com fritas de segunda a quinta-feira e se sentava para ler os jornais de distribuição gratuita, bebendo duas xícaras inteiras de chá de um jeito único. Sempre me esforçava para conversar com ela. Desconfiava de que fosse a única conversa que a velhinha tinha durante todo o dia.

Gostava dos turistas, que paravam em seu caminho, indo e vindo do castelo; das crianças agitadas do colégio que davam uma passada lá depois das aulas; dos habitues dos escritórios que ficavam do outro lado da rua; e de Nina e Cherie, as cabeleireiras que sabiam quantas calorias tinha cada produto que oferecíamos em The Buttered Bun. Nem os clientes chatos, como a mulher ruiva, que gerenciava a loja de brinquedos e reclamava do troco pelo menos uma vez por semana, me incomodavam.

Testemunhei o início e o fim de relacionamentos naquelas mesas; pais divorciados entregando e recebendo os filhos de seus ex-cônjuges; o alívio culpado dos que não suportavam cozinhar e o prazer secreto dos aposentados diante de um café da manhã com frituras. Todo tipo de pessoa frequentava aquele lugar e a maioria partilhava algumas palavras comigo, fazendo piadas e comentários por cima das canecas de chá fumegantes. Papai sempre dizia que jamais sabia o que sairia da minha boca, mas lá no café isso não importava.

Frank gostava de mim. Era calado por natureza e dizia que eu animava o lugar.

Para mim, era como ser garçonete de bar, mas sem a chatice dos bêbados.



Até que, naquela tarde, depois que o movimento do almoço terminou e o café ficou vazio por um breve período, Frank, limpando as mãos no avental, saiu de trás da chapa do fogão e virou a pequena placa de Fechado para a rua.

  • Ai, ai, Frank, eu já disse a você. O salário-mínimo não inclui horas-extra. — Frank era, como dizia papai, esquisito como um gnu azul. Olhei para ele.

Ele não estava sorrindo.

  • Oh-oh. Não coloquei de novo sal no pote de açúcar, coloquei?

Ele estava torcendo um pano de prato com as duas mãos e eu nunca o vira mais desconfortável. Supus, num lampejo, que alguém tivesse reclamado de mim. Então ele fez sinal para eu me sentar.

  • Desculpe, Louisa — disse, depois de me contar. — Vou voltar para a Austrália. Meu pai não está bem e parece que o castelo vai mesmo começar a servir seus próprios lanches. Tem um aviso na parede.

Acho que fiquei lá sentada, literalmente de boca aberta. Frank então me entregou o envelope e respondeu minha pergunta antes que ela saísse da minha boca.

  • Sei que nunca tivemos, você sabe, um contrato formal ou algo do tipo, mas eu não quero deixá-la na mão. No envelope tem três meses de salário. Fechamos amanhã.

— Três meses! — explodiu papai, quando mamãe colocou uma xícara de chá adoçado nas minhas mãos. — Bom, é generoso da parte dele, já que ela trabalhou como escrava naquele lugar nos últimos seis anos.

  • Bernard. — Mamãe lançou-lhe um olhar de aviso, indicando Thomas com a cabeça. Meus pais cuidavam dele depois da escola até Treena voltar do trabalho.

  • Que diabo ela deve fazer agora? No mínimo, poderia ter sido avisada com mais de um dia de antecedência.

  • Bom. ela simplesmente vai ter de arrumar outro emprego.

  • Não tem outra porcaria de emprego, Josie. Você sabe tão bem quanto eu. Estamos numa maldita recessão.

Mamãe fechou os olhos por um instante, como se estivesse se controlando antes de falar.

  • Ela é uma garota inteligente. Vai achar alguma coisa. Tem um currículo consistente, não tem? Frank vai escrever uma boa carta de referências.

  • Ah, grande coisa. "Louisa Clark é muito boa em passar manteiga na torrada e excelente com o velho bule de chá."

  • Obrigada pelo voto de confiança, pai.

  • Só estou dizendo.

Eu sabia o verdadeiro motivo da preocupação de papai. Eles dependiam do meu salário. Treena ganhava quase nada na floricultura. Mamãe não podia trabalhar, pois tinha de cuidar do vovô e a pensão dele era mínima; papai estava sempre tenso em relação a seu emprego na fábrica de móveis. Fazia meses que o patrão vinha resmungando sobre um possível corte de pessoal. Em casa, comentava-se sobre dívidas, sobre a ilusão dos cartões de crédito. Dois anos antes, um motorista sem seguro destruíra o carro de papai e, de certa maneira, foi o que bastou para pôr abaixo o instável edifício que eram as finanças de meus pais. Meu modesto salário vinha sendo um pequeno pilar no orçamento doméstico, suficiente para ajudar a cuidar de nossa família a cada semana.

  • Não vamos nos precipitar. Amanhã ela pode ir ao Centro de Trabalho e ver quais são as ofertas. Ela tem o suficiente para se sustentar, por enquanto. — Eles falavam como se eu não estivesse ali. — E é inteligente. Você é inteligente, não é, querida? Talvez possa fazer aulas de digitação. Trabalhar em um escritório.

Eu me sentei enquanto meus pais discutiam que trabalhos eu poderia conseguir com minhas poucas qualificações. Operária de fábrica, especialista em ferramentas mecânicas, passadora de manteiga. Pela primeira vez naquela tarde, tive vontade de chorar. Thomas me olhava com seus grandes olhos redondos e, sem dizer nada, me deu a metade de um biscoito babado.


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