Como água, para chocolate



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COMO ÁGUA, PARA CHOCOLATE
Laura Esquivel
Edições ASA
Láura Esquivel nascéu na Cidade do México,

em, 1950. Em_1985 começou a trabalhar para o cinema, escrevendo o guião da película

Chido Guán, El Tacos de Oro, com o qual

obteve uma nomeação da Academía

de Ciências e Artes Cinematográficas do México para o Prémio Ariel 
Como Água para 

Chocolate foi o seu primein) romance. A ASA publícou também, de sua  autoria, A Lei do

Amor e íntimas Suculências.
COMO água PARA CHOCOLATE
Romance de Entregue mensais, com receitas,

amores e remédios caseiros


TRADUZIDO DO ESPANHOL (MÉXICO) PORCRIS77NA RODRIGUEZ
TRADUÇÃO REVISTA POR
ELENA PIATOK

DE MATTOS Adida Cultural da Embaixada do México em Portugal


ASA
TíTULO ORIGINAL
COMO AGUA PARA CHOCOLATE

1989. Laura Esquivel


ILUSTRAÇÃO DA SOBRECAPA
Detalhe da ilustração de CAROLIA
para a edição original mexicana
o Editor agradece à embaixada do México em Portugal toda a colaboração prestada para a edição e lançamento do presente livro.

1.1 edição: Maio de 1993

20a edição: janeiro de 2001
Depósito legal 15928800 ISI3N 972 41 1198 9
Reservados todos os direitos
ASA Editores 11 S.A.
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DELEGAÇÃO EM LISBOA
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Para a mesa e para a cama uma só vez se chama


ínDICE
Capítulo I
janeiro .................................................................................... 9
Capítulo II
Fevereiro .............................................................................. 27
Capítulo III
Março ................................................................................... 45
Capítulo IV
Abril ..................................................................................... 63
Capítulo V
Maio ..................................................................................... 81
Capítulo VI
junho .................................................................................... 99
Capítulo VII
julho ................................................................................... 113
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Capítulo VIII


Agosto ...... 133
Capítulo IX
Setembro .. 151
Capítulo X
Outubro .... 169
Capítulo XI
Novembro .... 189
Capítulo XII
Dezembro .... 207
Glossário ........ 227
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CAPÍTULO I


JANEIRO
TORTAS DE NATAL
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INGREDIENTES


1 lata de sardinhas
1/2 de chorizo
1 cebola Orégãos
1 lata de chiles serranos
10 teleras
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MODO DE FAZER:


A cebola tem de ser picada miudinha. Sugiro lhes que ponham um bocadinho de cebola na moleirinha a fim de evitar o incómodo lacrimejar que acontece quando a cortamos. O aborrecido de chorar quando picamos cebola não é o simples facto de chorar, mas sim às vezes começarmos, ou melhor, ficarmos picados, e já não conseguirmos parar. Não sei se já vos aconteceu, mas a mim, para dizer a verdade, já. Vezes sem conta. A Mamã dizia que era por eu ser tão sensível à cebola como Tita, a ~a tia avó.

Dizem que Tita era tão sensível que quando ainda estava na barriga da minha bisavó chorava e chorava quando esta picava cebola; o choro dela era tão forte que Nacha, a cozinheira da casa, que era meio surda, o ouvia sem se esforçar. Um dia os soluços foram tão fortes que fizeram com que o parto se adiantasse. E sem que a minha bisavó tivesse tempo para dar um ai, Tita chegou a este mundo prematuramente, em cima da mesa da cozinha, entre os cheiros de uma sopa de aletria que estava a ser cozinhada, do tomilho, do louro, dos coentros, do leite fervido, dos alhos e, é claro, da cebola. Como poderão imaginar, a costumeira


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nalgada não foi necessária pois Tita nasceu a chorar de antemão, talvez por saber que o seu oráculo determinava que nesta vida lhe estava negado o casamento. Contava Nacha que, Tita foi literalmente empurrada para este mundo por uma torre impressionante de lágrimas que se derramaram pela mesa e pelo chão da cozinha.

À tarde, já quando o susto tinha passado e a água, graças ao efeito dos raios do sol, se tinha evaporado, Nacha varreu o resto das lágrimas que tinha ficado sobre a laje vermelha que cobre o chão. Com este sal encheu um fardo de cinco quilos que utilizou para cozinhar durante bastante tempo. Este inusitado nascimento foi determinante para o facto de Tita sentir um imenso amor pela cozinha, sendo a maior parte da sua vida ali passada, praticamente desde que nasceu, pois quando tinha dois dias de idade, o pai, ou seja, o meu bisavô, morreu de enfarte. A Mamã Elena, com o choque, ficou sem leite. Como naquele tempo não havia leite em pó nem nada que se parecesse, e não conseguiram encontrar ama em lado nenhum, viram se num verdadeiro sarilho para matar a fome da menina. Nacha, que sabia tudo acerca da cozinha

  e muito mais coisas que agora não vêm ao caso,   ofereceu se para tomar conta da alimentação de Tita. Ela considerava-se a mais capacitada para formar o estômago da inocente criaturinha apesar de nunca ter casado nem ter tido filhos. Nem sequer sabia ler nem escrever, mas acerca de cozinha tinha conhecimentos tão profundos como as melhores. A Mamã Elena aceitou com agrado a sugestão pois já tinha que chegasse com a tristeza e a enorme responsabilidade de conduzir correctamente o lar. para poder dar a seus filhos a alimentação e a educação que mereciam, para ainda por cima ter de se preocupar em nutrir devidamente a recém nascida.
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Portanto, desde esse dia, Tita mudou se para a cozinha e entre atoles e chás cresceu saudável e vistosa. Percebe se, assim, o facto de ter desenvolvido um sexto sentido relativamente a

tudo o que se refere a comida. Por exemplo, os seus hábitos alimentares estavam condicionados ao horário da cozinha: quando de manhã Tita sentia o cheiro dos feijões já cozidos, ou quando a meio do dia lhe cheirava que a água já estava pronta para depenar as galinhas, ou quando à tarde se cozia o pão para o jantar, ela sabia que tinha chegado a hora de pedir os seus alimentos.

Às vezes chorava em vão, como quando Nacha picava cebola, mas como as duas sabiam a razão dessas lágrimas, não as levavam a sério. Inclusivamente convertiam se em motivo de divertimento, a tal ponto que durante a sua infância Tita não percebia muito bem a diferença entre as lágrimas do riso e as do choro. Para ela, rir era uma maneira de chorar.

Confundia igualmente o prazer de viver com o de comer. Não era fácil para uma pessoa que conheceu a vida através da cozinha entender o mundo exterior. Esse gigantesco mundo que começava na porta da cozinha que dava para o interior da casa, porque aquilo que fazia fronteira com a porta traseira da cozinha e que dava para o pátio, para a horta, para o quintal, pertencia lhe completamente, dominava o. Totalmente ao contrário das irmãs, a quem este mundo atemorizava e que consideravam cheio de perigos incógnitos. Achavam as brincadeiras dentro da cozinha absurdas e arriscadas, no entanto, um dia Tita convenceu as de que era um espectáculo fabuloso ver como bailavam as gotas de água quando caíam sobre o comal muito quente.

Mas enquanto Tita cantava e sacudia ritmicamente as mãos molhadas para que as gotas de água se precipitassem sobre o comal e "dançassem", Rosaura permanecia num canto, pasmada


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com o que observava. Em contrapartida, Gertrudis, como tudo em que íntervíesse o rítmo, o movímento ou a música, sentiu se fortemente atraída pela brincadeira e integrou se com intusiasmo. então Rosaura não teve outro remédio senão tentar

fazer o mesmo, mas como quase não molhou as mãos e fê-lo com tanto medo, não conseguiu o efeito desejado. Tita então procurou ajudá la aproximando lhe as mãos do comal. Rosaura resistiu e esta luta não parou senão quando Tita, muito aborrecida lhe largou as mãos e estas, por inércia, caíram sobre o comal ardente. Além de ter levado uma valente tareia, Tita ficou proibida de brincar com as irmãs dentro do seu mundo. Então Nacha converteu se na sua companheira de divertimento. juntas dedicavam se a inventar jogos e actividades sempre relacionadas com a cozinha. Como no dia em que viram na praça da vila um senhor que formava figuras de animais com balões compridos e lembraram-se de repetir o mecanismo mas utilizando pedaços de chouriço. Armaram não só animais conhecidos como ainda inventaram alguns com pescoço de cisne, patas de cão e calda de cavalo, para citar só alguns.

o problema surgia quando tinham de os desfazer para fritar o chouriço. A maior parte das vezes Tita recusava se. A única maneira em que acedia voluntariamente a fazê lo era quando se tratava de elaborar as tortas de Natal, pois adorava-as. Então, não só deixava que desfizessem um dos seus animais, como observava alegremente enquanto se fritava.

É preciso ter o cuidado de fritar o chouriço para as tor tas, em fogo muito lento, para que desta maneira fique bem cozido, sem dourar excessivamente. Quando está pronto retira se do lume, incorporam se lhe as sardinhas, a que anteriormente já se retirou o esqueleto. É necessário, também, raspar com uma faca as
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manchas negras que têm sobre a pele. juntamente com as sardinhas misturam~se a cebola, os pimentos picados e o orégão moído. Deixa-se repousar a preparação antes de rechear as tortas.

Tita tinha um prazer enorne neste passo pois enquanto o recheio repousa é muito agradável sentir o cheiro que exala, pois os cheiros têm a característica de reproduzir tempos passados juntamente com sons e cheiros nunca igualados no presente. Tita gostava de fazer uma grande inalação e viajar juntamente com o fumo e o cheiro tão peculiar que sentia até aos recônditos da sua memória.

Foi em vão que procurou evocar a primeira vez que cheirou uma destas tortas sem resultado, porque talvez tivesse sido antes de ela nascer. Talvez a estranha combinação das sardinhas com o chouriço tivesse chamado tanto a sua atenção que a fez decidir se a renunciar à paz do éter, escolher a barriga da Mamã Elena para que fosse sua mãe e desta maneira fazer parte da família De La Garza, que comia de forma tão deliciosa e que preparava um chouriço tão especial.

No rancho da Mamã Elena a preparação do chouriço era um autêntico rito. Com um dia de antecedência era preciso começar a descascar alhos, a limpar chiles e a moer especiarias. Todas as mulheres da família tinham de Participar: a Mamã Elena, as suas filhas Gertrudis, Rosaura e Tita, Nacha a cozinheira e Chencha a criada. Sentavam se de tarde à mesa da sala de jantar e entre conversas e brincadeira o tempo voava até começar a escurecer. Então a Mamã Elena dizia:

  Por hoje, acabámos isto.

Dizem que para bom entendedor meia palavra basta, e por isso depois de ouvirem esta frase todas sabiam o que tinham de fazer. Primeiro levantavam a mesa e depois dividiam os trabalhos:
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uma recolhia as galinhas, outra tirava água do poço e deixava-a pronta para ser utilizada ao pequeno almoço e outra encarregava se da lenha para o fogão. Nesse dia não se passava a ferro nem se bordava nem se cosia roupa. Depois iam todas para os seus quartos ler, rezar e dormir. Numa dessas tardes, antes de a mamã Elena dizer que já podiam levantar a mesa, Tita, que contava então quinze anos, anunciou com voz tremente que Pedro Muzquiz queria vir falar com ela...

  E acerca de quê quer esse senhor falar comigo? Disse a Mamã Elena depois de um silêncio interminável que apertou a alma de Tita.

Com uma voz que mal se ouvia respondeu:

  Não sei.

A Mamã Elena lançou lhe um olhar que para Tita encerrava todos os anos de repressão que tinham flutuado sobre a família e disse:

  Pois vale mais que o informes que se é para pedir a tua mão, que não o faça. Perderia o seu tempo e far me ia perder o meu. Sabes muito bem que por seres a mais nova das mulheres cabe te a ti cuidares de mim até ao dia da minha morte.

Dizendo isto, a Mamã Elena pôs se lentamente de pé, guardou os óculos dentro do avental e em jeito de ordem final repetiu

  Por hoje, acabámos isto!

Tita sabia que dentro das normas de comunicação da casa não estava incluído o diálogo, mas mesmo assim, pela primeira vez na vida tentou protestar contra uma ordem da mãe:

  Mas é que eu acho que...


  • Tu não achas nada e acabou se! Nunca, durante gerações ninguém na minha família protestou contra este costume e não vai ser uma das minhas filhas a fazê lo.



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Tita baixou a cabeça e com a mesma força com que as suas lágrimas caíram sobre a mesa, assim caiu sobre ela o seu destino. E a partir desse momento ela e a mesa souberam que não podiam modificar nem um bocadinho a direcção dessas forças desconhecidas que as obrigavam, a uma, a partilhar com Tita a sua sina, recebendo as suas amargas lágrimas desde o momento em que nasceu, e a outra a assumir esta absurda determinação.

No entanto, Tita não estava conforme. Uma grande quantidade de dúvidas e inquietações acudiam à sua mente. Por exemplo, gostaria de saber quem é que teria iniciado esta tradição familiar. Seria bom fazer saber a essa engenhosa pessoa que no seu perfeito plano para garantir a velhice das mulheres tinha um pequeno erro. Se Tita não podia casar nem ter filhos, quem é que ia então cuidar dela quando chegasse à senilidade? Qual era a solução acertada nestes casos? Ou seria que não se esperava que as filhas que ficavam a cuidar das mães sobrevivessem muito tempo depois do falecimento das suas progenitoras? E onde é que ficavam as mulheres que se casavam e não podiam ter filhos, quem é que se encarregaria de tomar conta delas? E mais, queria saber, quais foram as investigações levadas a cabo para concluir que a filha mais nova era a mais indicada para velar pela sua mãe e não a filha mais velha? Alguma vez se tomara em conta a opinião das filhas em causa? Era lhe permitido, pelo menos, já que não podia casar se, conhecer o amor? Ou nem sequer isso?

Tita sabia muito bem que todas estas interrogações tinham de passar irremediavelmente a fazer parte do arquivo de perguntas sem resposta. Na família De La Garza obedecia se e ponto final. A Mamã Elena, ignorando a, por completo, saiu muito enfadada da cozinha e durante uma semana não lhe dirigiu a palavra.

O reatamento desta semicomunicação teve origem quando,
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ao revistar os vestidos que cada uma das mulheres tinha estado a coser, a Mamã Elena descobriu que mesmo sendo o mais perfeito aquele que Tita confecionara, não o tinha alinhavado antes de o coser.

  Parabéns   disse lhe  , os pontos estão perfeitos, mas não o alinhavaste, pois não?

  Não   respondeu Tita, espantada por ela ter suspendido a lei do silêncio.

  Então vais ter de o desmanchar. Alinháva lo, cose-o novamente e depois vens ter comigo para que o reviste. Para que não te esqueças que o desleixo e a mesquinhice têm caminho duplo.

  Mas isso é quando nos enganamos e a senhora foi a própria a dizer ainda agora que o meu era...

  Vamos começar outra vez com a rebeldia? já tinhas feito o suficiente com essa de te teres atrevido a coser quebrando as regras.

  Perdoe me, mãezinha. Não volto a fazer.

Tita conseguiu com estas palavras acalmar a zanga da Mamã Elena. Tinha posto muito cuidado ao pronunciar o "mãezinha no momento e com o tom adequado. A Mamã Elena achava que a palavra mamã parecia falta de respeito, e por isso obrigou suas filhas desde crianças a utilizarem a palavra "mãezinha, sempre que se lhe dirigissem. A única que resistia a isto ou que pronunciava a palavra num tom inadequado era Tita, e por causa disso tinha levado uma infinidade de bofetadas. Mas, naquele momento como conseguira dizê lo tão bem! A Mamã Elena sentia se confortada com o pensamento de que talvez estivesse a conseguir dobrar o carácter da mais nova das suas filhas. Mas, infelizmente acarinhou esta esperança por muito pouco tempo, pois no dia
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seguinte apareceu lá em casa Pedro Muzquiz acompanhado do senhor seu pai com a intenção de pedir a mão de Tita. A presença dele na casa causou um grande desconcerto. Não esperavam a sua visita. Dias antes, Tita mandara um recado a Pedro pelo irmão de Nacha pedindo lhe que desistisse dos seus propósitos. Aquele jurou que o tinha entregado ao senhor Pedro, mas a verdade é que eles apareceram lá em casa. A Mamã Elena recebeu os na sala, comportou se de uma forma muito amável e explicou lhes a razão pela qual Tita não se podia casar.

  Claro que se o que lhes interessa é que Pedro se case, ponho à sua consideração a minha filha Rosaura, só dois anos mais velha do que Tita, mas está totalmente disponível e preparada para o casamento...

Ao ouvir estas palavras, Chencha por pouco entornava por cima da Mamã Elena a bandeja com café e bolachas que tinha levado à sala para aconchegar o senhor Pascual e o filho. Desculpando se, retirou se apressadamente para a cozinha, onde estavam à sua espera Tita, Rosaura e Gertrudis para que lhes fizesse um relatório pormenorizado do que acontecia na sala. Entrou atrapalhadamente e todas interromperam imediatamente os seus trabalhos para não perderem uma só das suas palavras.

Encontravam se ali reunidas com o propósito de prepararem tortas de Natal. Como o seu nome o indica, estas tortas são con~ feccionadas durante a época natalícia, mas nesta altura estavam a fazê~las para festejar o aniversário de Tita. A 30 de Setembro faria

16 anos e queria celebrá los a comer um dos seus pratos favoritos.

  Então nã hã de lá ver? A sua mamã fala de estar preparada para o casamento como se fora um prato de enchiladas! E nem isso, porqu' ópois nã é a mesma coisa! Não se pode mudar uns tacos por umas enchiladas assim do pé para a mão!
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Chencha não parava de fazer este tipo de comentários enquanto lhes contava, à sua maneira, é claro, a cena que acabava de presenciar. Tita sabia até que ponto Chencha podia ser exagerada e mentirosa, por isso não deixou que a angústia se apoderasse dela. Recusava se a aceitar como sendo verdade o que acabava de ouvir. Fingindo serenidade, continuou a abrir as teleras para que as suas irmãs se encarregassem de as rechearem.

De preferência as teleras devem ser cozidas no forno em casa. Mas se não se puder o mais conveniente é encomendar na padaria umas teleras pequenas, pois as grandes não funcionam adequadamente para esta receita. Depois de recheadas metem se 10 minutos no forno e servem se quentes. O ideal é deixá las ao relento durante uma noite envolvidas num pano, para que o pão fique impregnado da gordura do chouriço.

Quando Tita estava a acabar de envolver as tortas que iriam comer no dia seguinte, a Mamã Elena entrou na cozinha para as informar que tinha aceitado que Pedro se casasse, mas com Rosaura.

Ao ouvir a confirmação da notícia, para Tita foi assim como se o Inverno lhe tivesse entrado no corpo de repente e à força. era tal o frio e tão seco que lhe queimou as faces e pô-las vermelhas, vermelhas, como a cor das maçãs que tinha à sua frente. Este frio esmagador iria acompanhá la durante muito tempo sem que ninguém o pudesse atenuar, nem mesmo quando Nacha lhe contou o que tinha ouvido quando acompanhava o senhor Pascual Muzquiz e o filho até à entrada do rancho. Nacha caminhava à frente, procurando diminuir o passo para ouvir melhor a conversa entre pai e filho. O senhor Pascual e Pedro caminhavam lentamente e falavam em voz baixa, reprimida pelo aborrecimento.
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  Por que  é que fizeste aquilo, Pedro? Caimos no ridículo ao aceitar o casamento com Rosaura. onde é que está então o amor que juraste a Tita? Já não tens palavra?

  Claro que tenho, mas se lhe negassem a si, de uma forma sem apelo, casar com a mulher que ama e a única saída que lhe deixassem para estar perto dela fosse casar se com a irmã, não tomaria a mesma decisão que eu?

Nacha não conseguiu ouvir a resposta porque o Pulque, o cão do rancho, desatou a correr, a ladrar a um coelho que confundiu com um gato.

  Então vais te casar sem sentir amor?

  Não, papá, caso me sentindo um imenso e imorredoiro amor por Tita.

As vozes tornavam se cada vez menos perceptíveis pois eram apagadas pelo barulho que os sapatos faziam ao pisarem as folhas secas. Foi estranho Nacha, que naquele tempo já estava mais surda, dizer que tinha ouvido a conversa. Tita agradeceu lhe na mesma o facto de ela lho ter contado, mas isto não modificou a atitude de frio respeito que desde então mostrou para com Pedro. Dizem que o surdo não ouve, mas compõe. Talvez Nacha só tivesse ouvido as palavras que todos calaram. Nessa noite foi impossível para Tita conciliar o sono; não sabia explicar o que sentia. Que pena naquela época não se terem ainda descoberto os buracos negros no espaço porque assim ter lhe ia sido muito mais fácil compreender que sentia um buraco negro no meio do peito, por onde escorria um frio infinito.

Cada vez que fechava os olhos conseguia reviver muito claramente as cenas daquela noite de Natal, um ano atrás, em que Pedro e a sua família tinham sido convidados pela primeira

vez para jantar em sua casa e o frio agudizava se. Apesar do
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tempo decorrido, ela conseguia lembrar se perfeitamente dos sons, das cores, do roçagar do seu vestido novo sobre o chão recém  encerado; o olhar de Pedro sobre os seus ombros... Aquele olhar! Ela caminhava para a mesa levando uma bandeja com doces de gemas de ovo quando o sentiu, ardente, a queimar~lhe a pele Virou a cabeça e os seus olhos encontraram se com os de Pedro. Nesse momento compreendeu perfeitamente o que deve sentir a massa de uma filhó ao entrar em contacto com o óleo a ferver.

Era tão real a sensação de calor que invadia todo o seu corpo que perante o medo de que, como a uma filhó, lhe começassem a brotar borbulhas por todo o corpo,   na cara, no ventre, no coração, nos seios   Tita não conseguiu sustentar esse olhar e baixando os olhos atravessou rapidamente o salão até ao extremo oposto, onde Gertrudis movia nos pedais da pianola a valsa ojos de juventud. Depositou a bandeja em cima de uma mesinha de centro, bebeu distraidamente um cálice de licor de Noyó que encontrou no caminho e sentou se ao pé de Paquita Lobo, vizinha do rancho. O facto de pôr distância entre Pedro e ela de nada lhe valeu; sentia o sangue a correr abrasadoramente nas suas veias, Um intenso rubor cobriu lhe as faces e por mais esforços que fizesse não conseguiu encontrar um sítio onde pousar o olhar. Paquita reparou que ela tinha algo de estranho e mostrando grande preocupação interrogou a:

  Está uma maravilha o licorzinho, não está?

  Diga?

  Acho te muito distraída, Tita. Sentes te bem?



  Sim, muito obrigada.

  • já tens idade suficiente para beberes um bocadinho de licor em ocasiões especiais, minha marota, mas diz lá, já tens autorização da tua mama para o fazeres? Porque acho te agitada



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e nervosa.   e acrescentou em jeito de pena   será melhor que não bebas mais, não vás dar espectáculo.

Não lhe faltava mais nada! Que Paquita Lobo pensasse que estava bêbeda. Não podia permitir que ficasse com a menor dúvida ou expunha se a que ela fosse contar tudo à sua mamã. O terror que tinha da mãe fê la esquecer se por momentos da presença de Pedro e tentou por todos os meios convencer Paquita da lucidez do seu pensamento e da sua agilidade mental. Contou lhe algumas anedotas e bagatelas. Inclusivamente ofereceu lhe a receita do Noyó, que tanto a inquietava. Este licor fabrica se pondo quatro onças de caroço de alperce e meia libra de caroço de damasco num azumbre de água, durante vinte e quatro horas, para que a pele amoleça; depois tira se lhe a pele, partem~se e põem se em infusão em dois azumbres de aguardente, durante quinze dias. Depois procede se à destilação. Depois de se terem diluído perfeitamente duas libras e meia de açúcar desfeito em água juntam se quatro libras de flor de laranjeira, forma se a mistura e filtra se. E para que Paquita não ficasse com nenhuma dúvida relativamente à sua saúde fisica e mental recordou lhe, assim de passagem, que a equivalência do azumbre é de 2,016 litros, nem mais nem menos.



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