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Psicologia Junguiana – Sombra - / 25 -

SOMBRA




  1. INTRODUÇÃO


Muitas coisas que nós considerávamos bênçãos tornam-se maldições; a larga estrada estreitou-se, a luz escureceu e, nas trevas a santa em nós, tão bem cuidada e tratada, encontrou a pecadora.

Nosso fascínio pela luz, nosso vivo otimismo em relação aos resultados, minha fé implícita em relação aos outros, nosso compromisso com a meditação e com um caminho de iluminação, tudo isso deixou de ser uma graça salvadora e tornou-se uma sutil maldição, um estranhado hábito de pensar e sentir que parecia trazer-nos face a face com o seu oposto, com o sofrimento de ideais fracassados, com o tormento da ingenuidade, o lado escuro, com o do Diabo.

Mas o lado escuro aparece sob muitos disfarces. Nosso confronto com ele, na meia-idade, foi chocante e devastador, uma terrível desilusão. Antigas e íntimas amizades pareciam se debilitar e romper, privadas da vitalidade e da elasticidade. Nossos pontos fortes começaram a se fazer sentir como fraquezas, obstruindo o crescimento em vez de promovê-lo. Ao mesmo tempo, insuspeitadas aptidões adormecidas despertaram e vieram à superfície, destruindo a auto-imagem com a qual nós havíamos nos acostumado.
1.1 A apresentação da sombra

A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. À medida que nos identificamos com as características idéias de personalidade, tais como polidez e generosidade, que são encorajadas pelo nosso ambiente. Ao mesmo tempo, vamos enterrando na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à nossa auto-imagem, como a rudeza e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida.

Muitas forças estão em jogo na formação da nossa sombra e, em última análise, determinam o que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores, clérigos e amigos criam um ambiente complexo no qual aprendemos aquilo que representa comportamento gentil, conveniente e moral e, aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso.

A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definido o que é eu e o que é não-eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra.

Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo ego e exilados na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana, no entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos.
1.2 A rejeição da sombra

Não podemos olhar diretamente para esse domínio oculto. A sombra é, por natureza, difícil de ser aprendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta, como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida.

Por essa razão, em geral vemos a sombra indiretamente, nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais seguro observa-la. Quando reagimos de modo intenso a uma qualidade qualquer, quer seja: preguiça, estupidez, sensualidade, espiritualidade, etc., de uma pessoa ou grupo, e nos enchemos de grande aversão ou admiração, essa reação talvez seja a nossa sombra se revelando. Nós nos projetamos ao atribuir essa qualidade à outra pessoa, num esforço inconsciente de bani-la de nós mesmos, de evitar vê-la dentro de nós.

A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não desenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra... até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.




1.3 O encontro com a sombra

Embora não possamos fitá-la diretamente, a sombra surge na vida diária. Descobriu-se que as pessoas destituídas de senso de humor tenham uma sombra muito reprimida; em geral, é a sombra que ri das piadas. Podemos observa-la da seguinte maneira no dia-a-dia:

1.3.1 Nos nossos sentimentos exagerados em relação aos outros:

- “Eu simplesmente não acredito que ele tenha feita isso!”

- “Não consigo entender como ela é capaz de usar isso!”

1.3.2 No feedback negativo que recebemos que nos servem de espelhos:

- “Já é a terceira vez que você chega tarde sem me avisar.”

- “É inadmissível conviver com essa pessoa, nossa como fala!”

1.3.3 Nas interações em que continuamente exercemos o mesmo efeito

perturbador sobre diversas pessoas diferentes:

- “Eu e o João achamos que você está sendo desonesto”

- “Esses políticos são corruptos e incorrigíveis ladrões”

1.3.4 Nos nossos atos impulsivos e não-intencionais:

- “Puxa, desculpe, eu não quis dizer isso!”

- “Desculpe-me, não me expressei corretamente, não é bem isso que queria dizer”

1.3.5 Nas situações em que somos humilhados:

- “Estou tão envergonhada com o jeito que ele me trata”

- “Puxa!, não merecia ouvir isso, faço tanto

1.3.6 Na nossa raiva exagerada em relação aos erros alheios:

- “Ela simplesmente não consegue fazer seu trabalho!”

- “Nossa, ela simplesmente estava fora de si!”

- “Puxa, como pode, perdeu totalmente o controle!”

Em momentos como esses, quando somos dominados por fortes sentimentos de vergonha ou de raiva, ou quando descobrimos que nosso comportamento é inaceitável, é a sombra que está irrompendo de um modo inesperado. E em geral ela retrocede com igual velocidade; pois encontrar a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para a nossa auto-imagem.

Encontrar a sombra pede uma desaceleração do ritmo da vida, pede que ouçamos as indicações do nosso corpo e nos concedamos tempo para estar a sós, a fim de podermos digerir as mensagens misteriosas do mundo oculto.


1.4 A sombra coletiva

Hoje em dia, defrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana toda vez que abrimos um jornal ou ouvimos o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a nossa moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva.

A sombra coletiva, a maldade humana, nos encara de praticamente todas as partes: ela salta das manchetes dos jornais, vagueia pelas ruas sem lar, dorme no vão das portas, entoca-se nas chamativas sex-shops das nossas cidades, desvia o dinheiro do sistema financeiro, corrompe os políticos famintos de poder e perverte os sistema judiciário, conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos, vende armamentos a líderes ensandecidos1 e repassa os lucros a insurgentes reacionários, por canos ocultos, despeja a poluição em nossos rios e oceanos, com invisíveis pesticidas, envenena o nosso alimento.

Enquanto a maioria das pessoas e grupos vive o lado socialmente aceitável da vida, outras parecem viver as porções socialmente rejeitadas pela vida. Quando essas últimas tornam-se objeto de projeções grupais negativas, a sombra coletiva toma a forma de racismo, de busca de “bode expiatório” ou de criação do “inimigo”.

Ao longo da história, a sombra tem surgido, através da imaginação humana, como um monstro, um dragão, um Frankenstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um homem tão vil que não podemos nos espelhar nele, ele está tão distante de nós quanto uma górgona. Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido, então, um dos propósitos básicos da arte e da literatura. Como disse Nietzshe: “Temos arte para que a realidade não nos mate.”

A projeção também pode ajudar a explicar a imensa popularidade dos filmes e romances de terror. Através de uma representação simbólica do lado da sombra, nossos impulsos para o mal podem ser encorajadas, ou talvez aliviados, na segurança do livro ou da tela.


1.5 Conhece-te a ti mesmo

Em tempos remotos, o ser humano reconhecia as diversas dimensões da sombra: a pessoal, a coletiva, a familiar e a biológica.

“Conheça-te a ti mesmo”, tem ampla aplicação neste livro. Conheça tudo sobre você mesmo, aconselhavam os sacerdotes do deus da luz, Apolo, poderíamos dizer: Conheça especialmente o lado escuro de você mesmo.
1.6 Nada em excesso

Vivemos numa época de excessos críticos: gente demais, crime demais, exploração demais, poluição demais, armas nucleares demais. Esses são excessos que podemos reconhecer e condenar, mesmo que nos sintamos impotentes para fazer algo a respeito.

Os cenários podem parecer-se a estes: quando sentimos um desejo excessivo, nós o lançamos na sombra e depois o passamos ao ato sem nenhuma preocupação pelos outros; quando sentimos fome excessiva, nós a lançamos na sombra e depois nos empanturramos, nos embebedamos e evacuamos, tratando o nosso corpo como lixo, quando sentimos um anseio excessivo pelo lado mais elevado da vida, nós o lançamos na sombra e depois o buscamos através de gratificações instantâneas ou de atividades hedonísticas, como abuso de drogas ou de álcool, enfim a lista continua; vemos o crescimento dos excessos da sombra por todos os lados:

1.6.1 Num impulso descontrolado para conhecer e dominar a natureza, que se

expressa na imoralidade da ciência e na união desregrada entre os negócios e a tecnologia;

1.6.2 Numa pretensiosa compulsão de ajudar e curar os outros, que se expressa

na distorção e na co-dependência do papel dos profissionais da área de saúde e na cobiça de médicos e companhias farmacêuticas;

1.6.3 No ritmo acelerado e desumanizado do mercado de trabalho, que se

expressa na apatia de uma força de trabalho alienada, na obsolescência não-planejada, causada pela automação, e na arrogância do sucesso;

1.6.4 Na maximização do crescimento e expansão de negócios, que se expressa

nas aquisições fraudulentas de controle acionário, no enriquecimento ilícito, no uso privilegiado de informações confidenciais e no colapso do sistema de financiamento habitacional;

1.6.5 Num hedonismo materialista, que se expressa no consumo exacerbado,

na propaganda enganosa, no desperdício e na poluição devastadora;

1.6.6 No desejo de controlar a nossa vida íntima, que é incontrolável por sua

própria natureza, que se expressa no narcisismo generalizado, na exploração pessoal, na manipulação dos outros e no abuso de mulheres e crianças;

1.6.7 E no nosso incessante medo da morte, que se expressa na obsessão com

a saúde e a forma física, dietas, medicamentos e longevidade a qualquer preço.
Esses aspectos da sombra atingem toda a nossa sociedade, no entanto, algumas soluções que foram experimentadas para curar o nosso excesso coletivo podem ser ainda mais perigosas que o problema. Jung atentou a questão ao afirmar que; “ingenuamente, esquecemos que por debaixo do nosso mundo racional jaz um outro enterrado. Não sei o que a humanidade ainda terá de sofrer até que ouse reconhece-lo.”
Se não agora, quando?

Para proteger-nos da maldade humana que essas forças inconscientes de massa podem representar, dispomos de uma única arma: maior conscientização individual. Se deixarmos de aprender ou se deixamos de agir com base naquilo que aprendemos com o drama do comportamento humano, perdemos nosso poder, enquanto indivíduos, de alterar a nós mesmos e, assim, salvar o nosso mundo; sim o mal estará sempre conosco, contudo as conseqüências do mal não refreado não precisam ser toleradas.


1.7 A aceitação da sombra

O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o nosso senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das nossas atitudes conscientes e as nossas profundezas inconscientes.

Um relacionamento correto com a sombra nos oferece um presente valioso: leva-nos ao reencontro de nossas potencialidades e talentos enterrados. Através do trabalho com a sombra, expressão que cunhamos para nos referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um relacionamento criativo com a sombra, pode:


      1. Chegar a uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem realmente somos;

      2. Desativar ass emoções negativas que irrompem inesperadamente na nossa vida cotidiana;

      3. Nos sentir mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos sentimentos e atos negativos;

      4. Reconhecer as projeções que matizam as opiniões que formamos sobre os outros;

      5. Curar nossos relacionamentos através de um auto-exame mais honesto e de uma comunicação direta;

      6. e, usar a nossa imaginação criativa, através de sonhos, desenhos, escritas e rituais, para aceitar o nosso eu reprimido.

Talvez, com isso, talvez também possamos, desse modo, evitar acrescentar nossa sombra pessoal à densidade da sombra coletiva.





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