Comunidades nossa senhora da esperançA



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COMUNIDADES NOSSA SENHORA DA ESPERANÇA

Movimento de Apoio Espiritual, Religioso e Vivencial para

Viúvas, Viúvos e Pessoas Sós






ELES AJUDARAM A ESCREVER
A HISTÓRIA DA IGREJA


APRESENTAÇÃO
Companheiros e companheiras de caminhada nas CNSE
PAZ E BEM.
"Eles ajudaram a escrever a história da Igreja" nos apresenta a vida e o empenho de alguns homens e mulheres que, de modo heroico, lutaram, cada um a seu modo, a fim de implantar o cristianismo num mundo paganizado, criando valores e dando testemunho em tudo o que praticaram.
Nestas apostilas, de modo singelo e simplificado, apresentamos Antão, Agostinho, Bento, Domingos de Gusmão, Francisco de Assis, Clara de Assis, Inácio de Loyola e Teresa de Ávila. Todos eles viveram na Idade Média, período obscuro e decadente, consequência da queda do Império Romano e da invasão dos bárbaros. Suas vidas não foram fáceis... Mas, todos eles, alentados pelo desejo de servir a Deus, com coragem e ousadia, entregaram suas vidas e, na conquista de seus ideais, ajudaram a escrever a história da Igreja. Eles, religiosos fundadores de monastérios, conventos, de ordens, congregações, implantaram a espiritualidade cristã numa sociedade que vinha do paganismo e, na Alta Idade Média, uma Europa infestada de heréticos que andavam na contramão da cristandade.
Além de divulgadores dos ideais cristãos e humanitários, foram eles defensores dos mais desvalidos, da justiça social, da igualdade das nações e raças e exemplos de vida despojada... Foram eles os primeiros a estabelecer a santidade do trabalho, a lutar contra a escravidão, a valorizar o papel da mulher na estrutura social... Foram eles defensores da liberdade intelectual, os primeiros educadores e fundadores de universidades e institutos científicos, os guardiões dos livros e obras de arte contra o ataque dos invasores... Enfim, foram eles que preservaram a cultura religiosa, científica e técnica da qual somos herdeiros.
Podemos indagar: o que levou esses homens e mulheres a conquistar tanta ousadia e criatividade para levar adiante suas metas, a ponto de exercer extraordinária influência até os dias de hoje?

A resposta vocês vão encontrar lendo a vida de cada um dos santos aqui mencionados. Como já dissemos, todos eles ouviram o chamado do Senhor, se despojaram e, com fé e confiança, entregaram suas vidas.


Pedindo a intercessão de Nossa Senhora da Esperança, desejamos a todos proveitosa leitura.

Maria Célia Ferreira de Laurentys




SUMÁRIO

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 02
Sugestão para o Estudo do Tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 05
Santo Antão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 06
Santo Agostinho de Hipona . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
São Bento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
São Domingos de Gusmão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

São Francisco de Assis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Santa Clara de Assis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Santo Inácio de Loyola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
Santa Teresa de Ávila . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78
Livros consultados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89

SUGESTÃO PARA O ESTUDO DO TEMA

A cada mês, ler todo o capítulo a ser apresentado durante a reunião.


Estudo do tema durante a reunião mensal do grupo:

1º) - Em casa, grifar a frase, ou o parágrafo, ou um fato, sobre a vida singular do santo, segundo o capítulo estudado.


2º) - Ler, em conjunto, a biografia do santo.

3º) – Partilhar, em grupo, a razão pela qual escolheu a parte grifada.

4º) – Em relação ao capítulo estudado, qual a virtude ou qualidade do santo você destaca?

NOTA: Se possível, trazer algo sobre a vida do santo estudado: uma oração, um fato de sua vida, um milagre atribuído ao santo...


SANTO ANTÃO



O Santo do Deserto

O Santo Precursor do Monaquismo

(251 – 356)
SANTO ANTÃO
BIOGRAFIA

A celebração eucarística do dia 17 de Janeiro põe em destaque a graça que Deus concedeu a Santo Antão de levar na solidão uma vida heroica. Costuma-se dizer que a santidade é a caridade vivida em forma eminente e que propõe uma convivência com os outros. Contudo, o santo que a Igreja celebra nesse dia, desde o século IV, como uma das figuras mais populares da hagiografia cristã, amou a solidão como forma de amor a Deus, serviço pela oração e bom exemplo para o próximo. Aliás, ele teve muitas oportunidades de conviver com os irmãos no ideal eremítico.

Nasceu Antão em 251 naquele Egito que, nos séculos III e IV da era cristã, contava com comunidades cristãs bastante numerosas, vigorosas e ativas, contando inclusive com a sede patriarcal de Alexandria, que uma tradição diz ter sido fundada por São Marcos.

Antão pertencia a uma família cristã, através da qual se formou nas virtudes evangélicas da oração, pureza dos costumes, amor à mortificação. Com vinte anos perdeu os pais, que lhe deixaram uma discreta fortuna. Numa celebração eucarística ouviu as palavras do Evangelho: "Se queres ser perfeito vai, vende os teus bens e dá-os aos pobres e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me.”(Mt19,21) Antão aplicou a si, de forma radical, esse conselho e começou uma vida de asceta; retirando-se para um deserto não muito longe de sua casa, entregou-se a uma vida de oração, de trabalho e de penitências.

Desde os primeiros tempos do cristianismo, mesmo na época apostólica, começou a manifestar-se em certos cristãos o desejo de praticar os conselhos evangélicos no retiro e na solidão. Durante as perseguições romanas, aumentou o número daqueles que, abandonando a família e tudo o que possuíam, retiravam-se para lugares solitários, mesmo como fuga das perseguições, conforme o conselho de Jesus: "Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra" (Mt 10, 23). Mas tratava-se de casos isolados.

Com Santo Antão a vida eremítica evoluiu, aos poucos, na forma cenobítica e depois monástica. De fato, vendo-se muito procurado, mudou sua habitação mais para o interior do deserto, estabelecendo-se numa gruta abandonada. Mesmo assim, a fama de sua santidade atraiu admiradores e seguidores. Seus discípulos viviam uma forma embrionária da vida comunitária: cada qual tinha sua cabana isolada, mas viviam sob a direção espiritual de Santo Antão. Por uma terceira vez, aspirando a uma maior solidão, ele internou-se a três dias de caminho no deserto. Viveu então dezoito anos ininterruptos de solidão.

A experiência do deserto, escolhida por Antão, foi uma forma de ascese cativante, seguida por muitos outros discípulos, tanto no Egito como na Ásia Menor. Contudo, mesmo na solidão, Antão foi procurado pelo clero e por magistrados em busca de conselho ou de consolo. Ele não se sentia alheio às lutas que afligiam a Igreja de seu tempo. Visitou Alexandria durante a perseguição de Diocleciano, a fim de consolar e fortalecer os cristãos na fé e mais tarde tomou defesa do bispo de Alexandria, Atanásio, perseguido e caluniado pelos arianos.

Esta vida eremítica não ficou isenta de provações e tentações. Antão recorria às armas da oração, da confiança em Deus e se entregava à penitência.

Sentindo a morte se aproximar, chamou seus discípulos e dirigiu-lhes os últimos conselhos: "Lembrai-vos dos meus ensinamentos e do meu exemplo. Evitai o veneno do pecado e conservai íntegra a vossa fé. Vivei na caridade como se tivésseis de morrer a cada dia."

Morreu em 356 com 105 anos de idade.



Extraído do livro "O Santo do Dia", de Dom Servilio Conti, I.M.C.
A VIDA SINGULAR DE SANTO ANTÃO
"As tentações de Santo Antão" por mais de 1500 anos cativaram muitos adeptos e admiradores. Elas serviram de inspiração para poetas, pintores e escritores. Começando pelos mestres da escola bizantina e chegando aos contemporâneos, muitos foram os que emprestaram sua arte para perpetuar a vida desse santo, envolta em fatos extraordinários, aparições, milagres e muitas e muitas lendas também.

Atanásio, bispo de Alexandria, o conheceu pessoalmente e sobre ele deixou escritos mais consistentes que mostram a personalidade, o caráter e a singular vida de Santo Antão, com seu extraordinário poder de fascinação.

Antão nasceu em torno do ano 251 na aldeia de Coma, hoje chamada Quemã- el-Arune, no Egito. Era filho de pais coptas, que possuíam terras de plantio às margens do Nilo, berço da agricultura. Eram ricos, mas trabalhavam arduamente, e, como lavradores, dependiam dos caprichos do grande rio, ora com suas margens áridas e arenosas, exigindo irrigação, ora alagado pelas enchentes que fertilizavam a terra, transformando-a num vasto lago. Quando as águas baixavam, era hora do plantio. Rapidamente toda a paisagem se transformava num belíssimo campo cultivado, cujos trigais balançavam, ondulantes, ao sopro do vento. As colheitas dependiam das enchentes do misterioso rio... Alguns anos abundantes, outras vezes mais escassas.

O jovem Antão trabalhava de sol a sol com o pai. Era um rapaz de notável estatura, compleição robusta, pele tisnada pelo sol, grandes olhos negros e rosto bem torneado. Como o pai e todos os seus antepassados, Antão conhecia bem todas as variações do Nilo, mas tanto ele como sua família e vizinhos não sabiam de onde vinham aquelas águas, ora tão abundantes, ora tão escassas... Essas águas lhes ofereciam a possibilidade de plantar e colher o alimento cotidiano. Acreditavam que, ano após ano, Deus andava sobre aquelas águas benfazejas e misteriosas, abençoando todo o esforço e o trabalho dos lavradores. Através do Nilo eles sentiam a manifestação da onipotência de Deus. A simplicidade de sua fé, como a de todos os camponeses egípcios - os felás -, estava ligada à peculiaridade da cristandade copta, isto é, dos primitivos habitantes do Egito.

O pai de Antão criou o filho de acordo com sua própria piedade, inata e incondicional: a doutrina de Cristo não podia ser posta em discussão. Portanto, o saber mundano, como o era cultivado pelos gregos do seu tempo, constituía uma grande ameaça e punha em risco a própria salvação. Para preservar a pureza de Antão, ele não foi mandado à escola e cresceu analfabeto. Sua bagagem espiritual vinha dos ensinamentos do padre da igreja local e era baseada nas leituras da Bíblia Copta e na vida piedosa de seu pai e de sua família. Na adolescência, Antão sentiu-se atraído pelas belas moças felás que, com suas vestes provocantes e seu andar sedutor, deixavam-no fascinado. Os outros rapazes se aproximavam das jovens, mas Antão, obediente aos conselhos do pai, voltava para casa e punha-se em oração para tornar-se digno da graça de Deus.

Antão tinha vinte anos quando num pequeno espaço de tempo perdeu o pai e a mãe. Herdou toda a riqueza paterna. Continuou seu trabalho e com a intenção de multiplicar a herança recebida, juntava, dracma por dracma, tudo o que ganhava. Cerca de seis meses após o falecimento de seus pais, estando Antão na Igreja ouviu dos lábios do padre o texto de Mateus (Mt 19, 16-20)



-"Mestre, o que devo fazer para possuir a vida eterna? Jesus respondeu: -"Se queres entrar na vida eterna guarda os mandamentos". Disse-lhe o jovem:

- "Cumpri tudo isso. O que me resta fazer?" Jesus respondeu: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.”

Aquelas palavras ditas ao jovem rico da Galileia arrebataram o coração do jovem rico de Coma. Antão foi-se dali e vendeu todos os seus bens. Para sua única irmã deu uma quantia razoável e todo o resto repartiu com os pobres. Agora, o rico herdeiro tornara-se pobre com os pobres.

Havia no Egito daquela época cristãos que, fugindo das perseguições do imperador romano Décio, viviam sua fé em lugares mais sossegados. Um deles, muito piedoso e temente a Deus, tecia cestos e esteiras de folhas de palmeira para bancar seu sustento e vivia numa choupana pouco distante da periferia de Coma. Com ele Antão aprendeu a opor-se às tentações mundanas, a frugalidade da alimentação e a dominar seus apetites sensuais através da oração, do jejum e do trabalho manual. Envolto numa capa de pelo de carneiro e totalmente despojado de bens terrenos, Antão deixou sua Coma natal e foi em direção ao deserto. Encontrou um sarçal e resolveu nele abrigar-se. Sua vontade era estar longe de todas as tentações mundanas para que pudesse começar sua vida de imperturbável devoção. Mas essa mudança tão drástica de uma vida de abundância para uma existência de total privação tornou-se quase insustentável. As recordações de sua vida passada com seus campos de trigo e seus rebanhos, a beleza sedutora e sensual das jovens felás que tanto o fascinavam, o dinheiro que lhe proporcionava uma vida farta, tudo isso o atormentava sobremaneira, porque, na verdade, sentia falta de seus dias passados. Diante dessas lembranças carregadas de sedução, punha-se a rezar e entregava-se ao trabalho manual. Os pensamentos tentadores tinham que ser expulsos de seu coração. Tornou-se mais rigoroso em seus jejuns, mais dedicado ao trabalho artesanal e mais devotado às suas orações. Nessas ocasiões de tentação, com frequência, se flagelava.

Cristão fervoroso, Deus era uma realidade, uma experiência viva na existência de Antão. Os mandamentos divinos regiam sua vida e, ao Criador, Antão desejava entregar toda a sua conduta, toda a sua obediência, toda a pureza de sua fé. Adversário de Deus, o demônio era também uma realidade concreta, um ser real e tangível. A luta de Antão com o demônio era constituída de elementos que desafiam a racionalidade... Ela, no entanto, pode ser explicada dentro da "lógica visual" de um homem que tinha a capacidade de enxergar tudo aquilo em que acreditava. Lendas e milagres, visões sagradas e divinas, aparições demoníacas, tentações sensuais, eram acontecimentos tão reais como tudo o que acontecia no seu cotidiano. Na verdade, essas tentações, tão reais para ele, eram conflitos humanos, tal como acontece com todo aquele que deseja obedecer aos apelos de sua natureza mais elevada: o conflito entre a tentação carnal e a conquista do aperfeiçoamento espiritual.

Antão havia renunciado ao mundo, mas o demônio agora estava a tentá-lo na solidão do deserto. Numa de suas tentações, durante a noite viu chegar uma jovem felá, formosa e sedutora. Carregava na cabeça um pote d'água e deixava aparecer o pescoço e os seios. Deitou-se por baixo do sarçal e ali ficou. Procurando não olhar, Antão orou a noite inteira e nos primeiros raios da aurora a visão desapareceu. Exausto, Antão viu que tinha vencido mais uma cilada do demônio, que constantemente o atormentava. Antão não era o primeiro nem o último ser humano a acreditar nas artimanhas do demônio. Tanto Jó, como Jesus e muitos outros, conheciam as tentações de Satanás. Para vencer o "príncipe do mundo" ele chegou à conclusão de que deveria deixar o reino dos vivos e mudar-se para o reino dos mortos. Decidiu deixar seu abrigo sob o sarçal e mudar-se para um túmulo, totalmente isolado do mundo dos seres vivos.

Para todo cidadão egípcio, o túmulo tinha um peso muito mais significativo do que entende a nossa civilização. A vida terrena era um caminhar peregrino em direção à vida eterna. O abrigo terrestre era somente um lugar de repouso para o viajante, mas o túmulo significava a "mansão de eternidade". Verdadeira cidade dos mortos, os túmulos eram cavados na rocha da montanha, próximos ao deserto líbio. Pesados blocos de granito isolavam as "mansões de eternidade" do mundo dos vivos. Durante muitos séculos ninguém tinha ousado entrar naquele lugar pertencente aos que jaziam em sua morada eterna. Para lá Antão se encaminhou, levando consigo um amigo que pudesse fechar-lhe a entrada, deixando somente uma fresta para que ele pudesse receber algum alimento vindo de fora. Quando Antão chegou, às apalpadelas, na escura sala subterrânea, ouviu uma voz colérica que lhe perguntou: - "Que estás fazendo aqui no reino pertencente aos mortos? Como ousas fazer o que vivente algum jamais ousou? Essa voz parecia vir do reino dos espíritos diabólicos. Como Antão apenas rezasse, em resposta àquela voz tenebrosa, o diabo convocou todos os animais infernais para destruírem as paredes da sala. Nesse momento uma luz radiante iluminou o lugar e desapareceram todas aquelas imagens tenebrosas. Antão reconheceu que aquela luz vinha do céu. Então disse: -"Por que não vieste mais cedo para ajudar-me, Senhor? "Ouviu uma voz que vinha da luz: - "Antão, eu estava junto de ti todo o tempo. Estava a teu lado e vi tua luta; e porque enfrentaste virilmente teu inimigo, sempre haverei de proteger-te."

Grandes debates tinha Antão com o demônio, mas ele não se deixava atemorizar com a presença de fantasmas que tudo faziam para intimidá-lo. Nessas ocasiões de tão grande tormento, Antão redobrava seu rigor ascético. Ficava em absoluto jejum durante dias e procurava não dormir, pois sabia que uma concentração mais rigorosa de sua alma iria ajudá-lo a combater as investidas demoníacas. Quando se tornou evidente que os fantasmas e as zombarias sempre fracassavam, o diabo começou a usar métodos mais drásticos: atacar e machucar o corpo já tão enfraquecido de Antão. Nada disso fez esmorecer a vontade férrea de Antão. Ele saiu vitorioso em todas as batalhas contra a tentação.

Os acontecimentos do túmulo constituem o período mais importante na formação da santidade de Antão. Saiu de lá quando contava 36 anos, deixando para trás 16 anos que gastara somente na luta contra o demônio. Agora seu objetivo era o solitário e longínquo monte Pispir, no deserto. Antes de subir o monte, contratou uma pessoa para levar-lhe uma provisão de pão, duas vezes ao ano. O pagamento seria com os cestos de palma que ele fazia. Lá também foi importunado o tempo todo por uma multidão de demônios zombeteiros, ameaçadores, barulhentos. Eram tantos que iam e vinham... Até parecia que ali fosse a morada deles.

Certa vez um rapazinho que fora levar os pães ouviu uma tremenda barulheira; pensou que o eremita estivesse sendo atacado por bandidos. Preocupado, olhou por uma abertura nas ruínas e, qual não foi seu espanto: Antão estava sozinho e rezando tranquilamente. Voltando ao povoado chamou diversos companheiros para ver o que estava acontecendo no alto do monte. Todos ouviram o barulho infernal. Chamaram Antão que saiu de seu alojamento e assim se explicou: -"Não tenham receio! Se um homem tem conhecimento de seus meios, os diabos não podem lhe fazer dano algum. Aqueles são demônios que falam e ameaçam, mas uma oração fervorosa basta para embaraçá-los."

Esse fato mudou a vida de Antão, que a partir dali tornou-se o santo que tinha conseguido vencer o eterno inimigo do homem. Sua história foi se espalhando e em pouco tempo caravanas e mais caravanas, vindas de perto e de longe, chegavam ao monte Pispir. Multidões daqueles que buscavam Deus vinham de todos os lugares, para ficar e aprender com Antão o segredo de sua vitória sobre o demônio.

Durante décadas, Antão esteve em contato apenas com seres sobrenaturais. Agora, aos quarenta e quatro anos, achava-se novamente em contato com seres mortais. Durante anos lutou para defender sua alma contra as ciladas do demônio; agora tornara tarefa sua libertar as almas dos outros das garras do diabo. Com sua vida de oração, jejum, penitência e trabalho aprendeu como superar as tentações dos sentidos e abrir o caminho que leva em direção a Deus.

O deserto tornou-se um centro de vida, onde, sob a direção de Antão, muitos homens fervorosos, desejosos de imitar seu modo de viver, levavam vida ascética. Depois de permanecer um certo tempo com seus discípulos, Antão os deixou para viver numa gruta mais distante. Desejava levar uma existência totalmente dedicada ao convívio celestial. Ele precisava dessa paz para ouvir a voz de Deus e depois voltar ao convívio com seus discípulos, agora em torno de 5.000, que adotaram livremente sua rigorosa disciplina. Foram tempos mais tranquilos...

Mais uma vez a vida de Antão tomou novos rumos, levando-o ao contato com o mundo dos homens. Era o ano de 311 quando foi procurado por um habitante de Alexandria pedindo-lhe ajuda para encorajar os cristãos perseguidos, torturados e martirizados por causa de sua fé. Sentindo que agora o demônio aproveitava-se da fraqueza dos homens, Antão concordou em ir até Alexandria. Pôs-se a caminho, depois de tantos anos vividos na solidão do deserto. Nos seus sessenta e um anos, era um homem pálido, alto, magro, cabelos desgrenhados. Seu traje era uma pele de carneiro que lhe cobria todo o corpo e na mão direita levava um grande cajado. Andou... Andou até chegar às muralhas de Alexandria. Para ele que só conhecia sua pequena Coma, a mais populosa e bela cidade do Oriente causou-lhe estupefação. Alexandria era a segunda cidade mais importante do Império Romano. Andou por toda a cidade e onde houvesse cristãos lá aparecia ele para lhes oferecer suas palavras encorajadoras:

- "Sede fortes na fé. Aquele que padece conquistará. Se fordes condenados aqui, sereis absolvidos no céu." Durante um ano permaneceu em Alexandria e nenhuma autoridade teve coragem de importuná-lo ou tratar com desrespeito aquele homem de fé e coragem inquebrantáveis. Era o ano de 312 e Constantino - o grande Imperador romano - pelo Édito de Milão, concedia aos cristãos toda proteção e o direito de professar livremente sua fé em público.

Antão voltou para sua vida ascética no deserto e, apesar de afastado do mundo, a fama de sua santidade ultrapassara o Egito, sua terra natal, toda a Ásia Menor e alcançara Roma, o centro do mundo.

Um dia chegou uma pomposa comitiva trazendo mensagem de Constantino. Nela, o Imperador pedia os conselhos de Antão a respeito de como governar no verdadeiro espírito de Nosso Senhor. "Praticai a humildade e desprezai o mundo. Lembrai-vos que no dia do Juízo tereis de prestar contas de todos os vossos atos", foi a resposta do humilde santo ao mais poderoso Imperador dos romanos.

Diante da quantidade de gente e curiosos que queriam estar com o santo, um dia não o encontraram na caverna onde morava. Ele havia fugido e se juntara a uma caravana de beduínos, os nômades do deserto. Com eles Antão ficou até chegar ao monte Colzin, quando, achando uma gruta e uma fonte, resolveu parar. Ali viveu por vinte anos de sossego e total entrega a Deus.

No ano de 325, diante das ameaças do arianismo, defendido por Ário, que negava a divindade de Jesus Cristo (homoi-ousion) e apoiado por uma legião de cristãos, ouvia-se a voz de Atanásio que mostrava o Cristo como Deus (homo-ousion). Foi tão acirrada a contenda, que Constantino convocou um concílio, o Concílio de Nicéia, para resolver o assunto. A heresia de Ário foi derrubada, mas os arianos continuaram defendendo sua tese e muitos dentro da Igreja também não se afastaram dela.

Depois de muitas buscas, Antão foi achado em seu refúgio no ano de 358 e levado a Alexandria para dar seu testemunho de fé. Nos seus noventa anos, com a barba branca que lhe chegava aos pés, na Basílica de Alexandria, imponente o santo disse diante de todos: -"Eu O vi." Havia tanta convicção em seu testemunho que os ouvintes, comovidos, caíram de joelhos e se puseram a rezar. Terminada sua missão em Alexandria, voltou à sua caverna no deserto, onde era seu lugar. Habituou-se a ficar à porta da caverna e do alto do monte contemplar a vasta paisagem que se descortinava, numa profunda e reverente gratidão ao Criador. O temor a Deus que sempre o acompanhou, transformou-se em amor a Deus, Criador de todas as coisas. Um dia, saindo de sua caverna para ir até a cisterna matar a sede, compreendeu que aquela água era uma mensagem divina de graça e fertilidade. Teve a visão de uma terra cultivada à porta de sua caverna e a interpretou como um chamado de Deus: "Lavra minha terra".

Antão tinha 100 anos quando ganhou de alguns peregrinos instrumentos e sementes para arar e plantar. Com a pá cavou um buraco próximo da cisterna e depois cavou regos por onde a água foi passando e molhando a terra ressequida. Lançou as sementes e não demorou muito começaram a nascer folhas e grãos. Com os grãos fez a farinha e com a farinha fez o pão. Renascia o lavrador de Coma, agora com a assinatura do santo, lavrador de Deus. Embora idoso, Antão tinha a vitalidade de jovem: seu corpo continuava ereto, os passos eram firmes, a voz ressonante.

Apesar de seu vigor na idade de 105 anos, Antão sentiu a proximidade da morte. Como um pai amoroso, chamou seus discípulos queridos para deles se despedir. Vieram todos os habitantes do deserto: cenobitas, anacoretas, eremitas... O santo, despedindo-se de cada um, pediu-lhes que perseverassem na devoção a Deus. Era o dia 17 de janeiro de 358 quando Antão entregou sua alma a Deus.

O abandono do mundo realizado por Antão inspirou o movimento monástico dos séculos posteriores. A importância cultural e ascética que conventos e monastérios da Idade Média irradiavam, encontraram suas origens nas cavernas do deserto com o extraordinário exemplo de Santo Antão.




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