Conhecendo e imitando Dom Bosco, façamos dos jovens a missão da nossa vida Comentário do Reitor-Mor



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ESTREIA 2012


DIREÇÃO GERAL DAS OBRAS DE DOM BOSCO
Via della Pisana 1111 - 00163 Roma

O Reitor Mor

Conhecendo e imitando Dom Bosco,
façamos dos jovens a missão da nossa vida
Comentário do Reitor-Mor

Tradução: Dom Hilário Moser



Eu sou o Bom Pastor.
O Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11)

Caríssimos Irmãos


Filhas de Maria Auxiliadora
Todos os Membros da Família Salesiana
Jovens

Iniciamos há pouco o triênio de preparação para o bicentenário do nascimento de Dom Bosco. Este primeiro ano nos oferece a oportunidade de nos achegarmos mais a ele a fim de conhecê-lo melhor e mais de perto. Se não conhecermos Dom Bosco e não o estudarmos, não poderemos compreender seu caminho espiritual e suas opções pastorais; não poderemos amá-lo, imitá-lo e invocá-lo; em particular, será difícil hoje inculturar seu carisma nos diversos contextos e nas diferentes situações. Somente reforçando nossa identidade carismática poderemos oferecer à Igreja e à sociedade um serviço aos jovens que seja significativo e abundante de frutos. Nossa identidade encontra sua referência imediata na figura de Dom Bosco; nele, a identidade se torna crível e visível. Por isso, o primeiro passo que somos convidados a dar no triênio de preparação é precisamente o conhecimento da história de Dom Bosco.



1. Conhecimento de Dom Bosco e dedicação aos jovens

Somos convidados a estudar Dom Bosco e, através das vicissitudes de sua vida, conhecê-lo como educador e pastor, fundador, guia e legislador. Trata-se de um conhecimento que leva ao amor, à imitação e à invocação.


Para nós, membros da Família Salesiana, sua figura deve ser o que São Francisco de Assis foi e continua a ser para os franciscanos, ou Santo Inácio de Loyola para os jesuítas, quer dizer, o fundador, o mestre de espírito, o modelo de educação e evangelização, sobretudo o iniciador de um Movimento de ressonância mundial, capaz de propor à atenção da Igreja e da sociedade, com extraordinária força de impacto, as necessidades dos jovens, sua condição, seu futuro. Pois bem, como fazer isso sem recorrer à história, que não é guardiã de um passado já perdido, mas de uma memória viva que está dentro de nós e que nos interpela em função da atualidade?
A abordagem de Dom Bosco, feita com métodos próprios da pesquisa histórica, leva-nos a compreender melhor e a medir sua grandeza humana e cristã, sua genialidade operativa, seus dotes educativos, sua espiritualidade, sua obra: essas realidades serão compreensíveis somente se estiverem profundamente radicadas na história da sociedade em que viveu. Ao mesmo tempo, dispondo de um conhecimento mais aprofundado do seu percurso histórico, tornamo-nos sempre mais conscientes da intervenção providencial de Deus na sua vida.
Nesse estudo histórico não há nenhuma intenção de rejeitar a priori as respeitabilíssimas imagens de Dom Bosco que gerações de Salesianos, Filhas de Maria Auxiliadora, Salesianos cooperadores e membros da Família Salesiana elaboraram, isto é, do Dom Bosco que eles conheceram e amaram; o que existe e deve existir é a apresentação e a reinterpretação de uma imagem de Dom Bosco que seja atual, que fale ao mundo de hoje, que use uma linguagem renovada.
A imagem de Dom Bosco e da sua ação devem ser reconstruídas com seriedade a partir do nosso horizonte cultural: da complexidade da vida hodierna, da globalização, da cultura pós-moderna, das dificuldades da pastoral, da diminuição das vocações, da vida consagrada hoje “posta em questão”. As mudanças radicais ou de época, como as chamava meu predecessor padre Egídio Viganò, nos obrigam a rever essa imagem e a repensá-la sob outra luz, tendo em vista a uma fidelidade que não seja repetição de fórmulas e obséquio formal à tradição. A importância histórica de Dom Bosco deve ser pesquisada não só nas suas “obras” e em alguns seus elementos pedagógicos relativamente originais, mas particularmente na sua percepção, concreta e afetiva, da importância universal, teológica e social do problema da juventude “abandonada”, e na sua grande capacidade de transmitir essa percepção a numerosos grupos de colaboradores, benfeitores e admiradores.
Ser fiéis a Dom Bosco significa conhecê-lo em sua história e na história do seu tempo, em fazer nossas suas inspirações e em assumir suas motivações e opções. Ser fiéis a Dom Bosco e à sua missão significa cultivar em nós um amor constante e forte dos jovens, especialmente dos mais pobres. Esse amor nos leva a dar uma resposta às suas necessidades mais urgentes e profundas. Como Dom Bosco, nós nos sentimos tocados pelas suas situações de dificuldades: pobreza, trabalho infantil, exploração sexual, falta de educação e de formação profissional, inserção no mundo do trabalho, falta de autoconfiança, medo perante o futuro, perda do sentido da vida.
Com afeto profundo e amor desinteressado, procuramos estar no meio deles de forma discreta e autorizada, oferecendo propostas válidas para seu caminho, para suas opções de vida e sua felicidade presente e futura. Nisso tudo nos tornamos seus companheiros de caminhada e guias competentes. Em particular, procuramos compreender seu novo modo de ser; muitos deles são “nativos digitais” (“digital natives”), que por meio das novas tecnologias buscam experiências de mobilização social, possibilidades de desenvolvimento intelectual, recursos de progresso econômico, comunicação instantânea, oportunidades de protagonismo. Também nesse campo queremos compartilhar sua vida e seus interesses: animados pelo espírito criativo de Dom Bosco, nós, educadores, nos aproximamos deles como “migrantes digitais” (“digital immigrates”), ajudando-os a superar a distância (“gap”) geracional em relação aos pais e ao mundo dos adultos.
Cuidamos deles ao longo de todo o seu caminho de crescimento e maturação, dedicando-lhes nosso tempo e nossas energias, e estando no meio deles nas fases que vão da infância à juventude.
Cuidamos deles quando situações difíceis, como a guerra, a fome, a falta de perspectivas os levam ao abandono da própria casa e da sua família, e eles de repente se veem sozinhos a enfrentar a vida.
Cuidamos deles quando, depois do estudo e da qualificação, buscam ansiosamente um primeiro emprego e se esforçam por inserir-se na sociedade, às vezes sem esperança e sem perspectivas de êxito.
Cuidamos deles quando estão construindo o mundo dos seus afetos, sua família, particularmente acompanhando seu caminho de noivado, os primeiros anos de matrimônio, o nascimento dos filhos (cf. CG26, 98.99.104).
De modo especial, temos a peito preencher o vazio mais profundo da sua vida, ajudando-os na busca de sentido e, sobretudo, oferecendo-lhes um roteiro de crescimento no conhecimento e na amizade com o Senhor Jesus, na experiência de uma Igreja viva, no compromisso concreto para viver sua vida como uma vocação.
Eis, portanto, o programa espiritual e pastoral para o ano 2012:
Conhecendo e imitando Dom Bosco,
façamos dos jovens a missão da nossa vida
Numerosos grupos da Família Salesiana já estão em sintonia com esse empenho que nos enriquecerá a todos, a fim de voltarmos nossos olhos para Dom Bosco, nosso Pai. Caminhemos, porém, sempre mais juntos como Família.

2. Redescobrir a história de Dom Bosco

Dom Bosco, à distância de mais de um século de sua morte, continua a interessar a muita gente em muitos países. Ele é considerado uma figura significativa, mesmo fora do ambiente salesiano. Embora, por força da necessidade, já tenham desaparecido as amplificações que afetaram sua figura durante muitos decênios e que impressionaram o imaginário coletivo, Dom Bosco continua a ser um personagem de notável grandeza e de alto apreço. Longa sequência de papas e cardeais, bispos e sacerdotes, estudiosos católicos e não católicos, políticos de ideologias diversas, na Itália, na Europa e no mundo, reconheceram e reconhecem Dom Bosco como portador de uma mensagem moderna, profética, historicamente condicionada, mas aberta a muitas projeções atuais, virtualmente disponível para vastos espaços e tempos.

O centenário da sua morte, o sesquicentenário da fundação da Congregação Salesiana, a atual preparação do bicentenário do seu nascimento e outras ocasiões específicas favoreceram uma abundante produção de livros e jornais. Ao lado de estudos e pesquisas de alto nível científico surgiram também estudos mais modestos, que deram motivos a reservas interpretativas baseadas em premissas críticas infundadas e em análises históricas insuficientes.
De fato, Dom Bosco é uma figura poliédrica, que não pode ser reduzida a simples fórmulas ou a títulos jornalísticos; é uma personalidade complexa, feita de realidades ordinárias e excepcionais, de projetos concretos ideais e hipotéticos, de um estilo cotidiano de vida e ação, e ao mesmo tempo de especiais relacionamentos com o sobrenatural. Uma figura desse quilate não pode ser compreendida adequadamente a não ser na sua multiplicidade de facetas e de dimensões; do contrário, a apresentação parcial de um ou de alguns aspectos, quem sabe confundidos consciente ou inconscientemente com um perfil completo, corre o risco de falsificar a sua fisionomia.
Às vezes, podemos ficar perplexos diante de obras em que a apologética e a descrição superficial de Dom Bosco ocupa espaço demasiado, nas quais a exaltação da sua figura predomina em prejuízo da verdade do personagem, facilmente circunscrito a estereótipos aos quais jamais se pode reduzir Dom Bosco. Isso vale particularmente neste momento histórico em que se multiplicam as vidas dos santos, escritas com uma nova criteriologia. De fato, um novo tipo de hagiografia adquiriu atualmente maior vigor, baseando-se em interpretações históricas fundadas e numa renovada leitura teológica da experiência espiritual dos Santos. Por isso, faço votos que se prepare uma moderna “hagiografia” de Dom Bosco; enquanto ela deve basear-se em recentes estudos históricos, tem como objetivo suscitar o amor a ele, a imitação da sua vida, o desejo de percorrer seu mesmo caminho espiritual; idêntico desejo vale para uma nova hagiografia destinada aos jovens.

3. Motivações para o estudo da história de Dom Bosco

Numerosos são, sem dúvida, os motivos que nos levam a estudar Dom Bosco. Precisamos conhecê-lo como nosso Fundador, porque isso é exigido pela nossa fidelidade à instituição a que pertencemos. Precisamos conhecê-lo como Legislador, enquanto somos obrigados a observar as Constituições e os Regulamentos propostos por ele diretamente ou por meio de seus sucessores. Devemos conhecê-lo como Educador, para que possamos viver o Sistema Preventivo, riquíssimo patrimônio que ele nos deixou. Devemos conhecê-lo, em particular, como Mestre de vida espiritual, dado que nós, como seus filhos e discípulos, haurimos nossa espiritualidade da sua; de fato, ele nos ofereceu uma chave de leitura do Evangelho; sua vida é para nós um critério para realizar o seguimento do Senhor Jesus de forma típica. Sobre isso escrevi uma carta aos irmãos salesianos, em janeiro de 2004, “Contemplar Cristo com o olhar de Dom Bosco” (ACG 384).


Hoje cresce em nós a consciência do risco que estamos correndo, se não fortalecermos os liames que nos unem a Dom Bosco. O conhecimento histórico fundamentado e afetivo ajuda a manter vivos esses liames; a formação inicial e permanente deve favorecer os estudos salesianos. Já passou mais de um século desde a morte de Dom Bosco; morreram todas as gerações que direta ou indiretamente tiveram contato com ele e com quem o tinha conhecido pessoalmente. Aumentando a distância cronológica, geográfica e cultural em relação a ele, diminui sempre mais aquele clima afetivo e aquela proximidade, mesmo psicológica, que tornavam Dom Bosco e seu espírito espontâneo e familiar à simples visão do seu retrato. O que nos foi transmitido pode perder-se; o liame vivo com Dom Bosco pode romper-se. Se desaparecer a referência ao nosso Pai comum, ao seu espírito, à sua praxe, aos seus critérios inspiradores, não teremos mais direito de cidadania na Igreja e na sociedade como Família Salesiana, dado que nos encontraremos sem raízes e sem nossa identidade.
Além disso, manter viva a memória da própria história é garantia de possuir uma sólida cultura; sem raízes não há futuro. Por isso, a organização da memória histórica e a possibilidade de usufruí-la têm notável importância enquanto apelo às raízes comuns que nos estimulam a repensar os problemas do momento presente com uma consciência mais madura a respeito do nosso passado. Apesar das transformações históricas e das inevitáveis mudanças, isso nos dá garantia de que nossa Família continuará a ser a portadora do carisma das origens e a guardiã vigilante e criativa de uma tradição fecunda.
Obviamente, a consciência do passado não deve tornar-se condicionamento. É preciso saber discernir criticamente o significado histórico essencial de eventuais redundâncias gratuitas e interpretações subjetivas infundadas; dessa forma, se evitará atribuir historicidade carismática a reconstruções que pouco têm a ver com a “verdadeira história”. Esse modo de fazer história, às vezes, é utilizado para evitar o sério problema da reconstrução do contexto histórico. Também na interpretação da história de Dom Bosco é preciso dispor de um sadio discernimento. Sempre vale também para nós a advertência do Papa Leão XIII: o historiador nunca deve dizer nada de falso, nem calar nada de verdadeiro. Se um santo tem algum ponto fraco, é preciso reconhecê-lo com lealdade. O relevo dado às imperfeições dos santos tem a tríplice vantagem de respeitar a exatidão histórica, de sublinhar o absoluto de Deus e de encorajar a nós, pobres vasos de argila, mostrando-nos que também no herói de Cristo o sangue não era água.
A necessidade e a urgência de um conhecimento profundo e sistemático de Dom Bosco foram sublinhadas nas últimas décadas pelos documentos oficiais e pelas intervenções autorizadas dos meus dois predecessores. Eu mesmo, na carta do final de 2003 (ACG n. 383), me expressei nos seguintes termos:

Dom Bosco conseguiu ser jovem e, por isso, de tanto estar no meio dos jovens, pôr-se em sintonia com o futuro[...] Na experiência de Valdocco, é claro que houve um amadurecimento da missão e, como consequência, uma passagem da alegria de ‘ficar com Dom Bosco’ a ‘ficar com Dom Bosco para o bem dos jovens’, de ‘ficar com Dom Bosco para o bem dos jovens de forma estável’ a ‘ficar com Dom Bosco para o bem dos jovens de forma estável com votos’. Ficar com Dom Bosco não exclui a priori a atenção aos tempos que o modelaram e condicionaram; requer, porém, viver com seu empenho suas opções, sua dedicação, seu espírito de empreendimento e de vanguarda. […] Tudo isto faz de Dom Bosco um homem fascinante e, no nosso caso, um pai a amar, um modelo a imitar e também um santo a invocar... Nós percebemos que quanto mais aumenta a distância entre nós e o Fundador, mais real se torna o risco de falar de Dom Bosco com base em ‘lugares comuns’, histórias, sem um verdadeiro conhecimento do nosso carisma. Daqui a urgência de conhecê-lo por meio da leitura e do estudo; de amá-lo afetiva e efetivamente como pai e mestre por causa da sua herança espiritual; de imitá-lo, procurando configurar-nos a ele, fazendo da Regra de vida nosso projeto pessoal. Este é o sentido do retorno a Dom Bosco – a que convidei a mim mesmo e toda a Congregação desde a minha primeira ‘boa-noite’ – por meio do estudo e do amor que procura compreender, para iluminar nossa vida e desafios atuais. Junto com o Evangelho, Dom Bosco é nosso critério de discernimento e nossa meta de identificação”.
Meu desejo não está muito longe das reflexões do padre Francesco Bodrato, primeiro inspetor na Argentina, que, em 5 de março de 1877, numa carta aos seus noviços, escrevia:
“Quem é Dom Bosco? Vocês querem que eu o diga? Sim, eu vou dizer a vocês quem ele é de verdade, do jeito que aprendi e ouvi de outros. Dom Bosco é o nosso pai; pai extremamente carinhoso e terno. Todos nós que somos seus filhos dizemos isso. Dom Bosco é um homem providencial ou um homem da Providência dos tempos: é o que dizem os verdadeiros sábios. Dom Bosco é o homem da filantropia: é o que dizem os filósofos. Eu concordo com tudo o que dizem dele, mas digo que Dom Bosco é verdadeiramente aquele amigo que a Sagrada Escritura qualifica como um grande tesouro. Pois bem, nós encontramos esse verdadeiro amigo e esse grande tesouro. Maria Santíssima nos iluminou para que pudéssemos conhecê-lo e Deus nos concede a graça de tê-lo como nosso. Por isso, ai de quem o perder. Se vocês soubessem, meus caros irmãos, quantas pessoas têm inveja de nós por causa disso […] E se vocês concordam comigo em crer que Dom Bosco é o verdadeiro amigo de que fala a Sagrada Escritura, então devem ter o máximo cuidado para conservá-lo sempre e para copiá-lo na própria vida” (F. Bodrato, Epistolario. Aos cuidados de B. Casali. Roma, LAS, 1995, p. 131-132).
Não sem motivo o proêmio e os artigos 21, 97, 196 das Constituições atuais da Congregação Salesiana nos apresentam Dom Bosco como “guia” e “modelo”, e as próprias Constituições são definidas como “testamento vivo”. Expressões análogas se encontram também na regra de vida dos outros grupos da Família Salesiana. Para todos nós que olhamos para Dom Bosco como nosso ponto de referência, ele continua a ser o fundador, o mestre de espírito, o modelo de educação, o iniciador de um Movimento de ressonância mundial, capaz de despertar na Igreja e na sociedade, com uma força impactante, a atenção às necessidades dos jovens, à sua realidade, ao seu futuro. Não podemos deixar de perguntar-nos se hoje a nossa Família ainda constitui essa força; se ainda temos aquela coragem e aquela fantasia que foram de Dom Bosco; se na aurora do terceiro milênio ainda somos capazes de assumir suas posições proféticas em defesa dos direitos do homem e dos direitos de Deus.
Indicadas as necessidades e a urgência do conhecimento e do estudo de Dom Bosco para a Família Salesiana, para cada grupo, comunidade, associação e pessoa, o caminho ainda está por ser feito; o caminho indicado ainda não é o caminho percorrido. Toca a cada um individuar os passos, as modalidades, os recursos, as etapas e as oportunidades para que esse empenho seja realizado ao longo deste ano. Não podemos chegar à celebração do bicentenário sem conhecer melhor Dom Bosco.

4. Função atualizadora da história

Para alcançar esses objetivos não é suficiente que a grandeza de Dom Bosco esteja presente na consciência de cada um de nós. É condição indispensável conhecê-lo bem, para além do simpático anedotário que envolve nosso querido Pai, e da literatura edificante com que gerações inteiras se formaram. Não se trata de andar à procura de receitas fáceis para enfrentar, como Família, a “crise” atual da Igreja e da sociedade, mas de conhecê-lo profundamente, de modo que possa ser “atualizado” na aurora deste terceiro milênio, na fermentação cultural em que vivemos, nos diversos países em que trabalhamos. É necessário um conhecimento de Dom Bosco que se alimente da contínua tensão entre nossas interrogações a respeito do presente e a pesquisa de respostas que provenham do passado; somente assim poderemos ainda hoje inculturar o carisma salesiano.

Deve-se prestar atenção ao fato de que no momento das “viradas da história”, um Movimento carismático pode crescer e desenvolver-se somente sob a condição de que o carisma fundacional seja “reinterpretado vitalmente” e não permaneça como um “fóssil precioso”. Os Fundadores fizeram a experiência do Espírito Santo num preciso contexto histórico; por isso, é necessário determinar os elementos contingentes da sua experiência, dado que a resposta a uma situação histórica bem determinada vale até quando dura tal contingência. Em outras palavras, as “perguntas” da comunidade eclesial de hoje e as do atual contexto sociocultural não podem ser consideradas como algo “estranho” à nossa pesquisa histórica; esta deve determinar o que é transitório e o que é permanente no carisma, o que deve ser abandonado e o que deve ser assumido, o que é distante do nosso contexto e o que lhe é afim.

Não é possível fazer essa atualização sem nos servirmos da história, que – como já disse – não é a guardiã de um passado já perdido, mas de uma memória que vive em nós, ou seja, em função da atualidade. Uma atualização feita ignorando os progressos da ciência histórica é uma operação falsamente útil. Da mesma forma, não levam a grandes resultados, nem históricos nem atualizadores, as pesquisas e as leituras conduzidas de forma diletante, sem hipóteses claras, métodos adequados e sólidos instrumentos de trabalho, fora de um pensamento historiográfico vivo e atual. A historiografia comporta uma contínua revisão crítica de juízos elaborados, uma revisão necessária, ao passo que devemos reconhecer que o passado não pode ser considerado só como um monumento destinado à admiração, precisamente porque ele está ligado de forma profunda à pessoa de quem se deseja conhecer.

Não se deve minimizar o fato de que a história de Dom Bosco não é somente “nossa”, mas é história da Igreja e história da humanidade. Portanto, ela não deveria estar ausente da historiografia eclesiástica e civil de cada país, tanto mais que a salesiana é uma história feita de interações dinâmicas, de liames de dependência e colaboração e, às vezes, de embates com o mundo social, político, econômico, eclesial e religioso, educativo e cultural. Ora, não se pode pretender que “os outros” levem em consideração nossa “história”, nossa “pedagogia”, nossa “espiritualidade”, se nós não oferecermos a eles modernos instrumentos de conhecimento. O diálogo com os outros só pode ocorrer se tivermos o mesmo código linguístico, os mesmos instrumentos conceituais, as mesmas competências, o mesmo profissionalismo; caso contrário, ficaremos à margem da sociedade, longe do debate cultural, ausentes dos lugares onde se encaminham as soluções dos problemas do momento. A exclusão do debate cultural em curso em cada país determinaria também a insignificância histórica dos Salesianos, a sua marginalização social, a ausência da nossa oferta de educação. Por isso, faço votos de um renovado empenho na preparação de pessoas qualificadas para o estudo e a pesquisa no campo da história salesiana.
A literatura salesiana, a editoria salesiana, a pregação salesiana, as circulares dos responsáveis nos diversos níveis, as comunicações internas à Família Salesiana, devem estar à altura da situação. A tradicional popularidade da literatura salesiana, a própria divulgação, não podem significar superficialidade de conteúdo, desinformação, repetição de um passado sem credibilidade. Quem tem o dom ou o dever ou a oportunidade de falar, de escrever, de formar, de educar os outros, tem a obrigação de atualizar-se constantemente a respeito do conteúdo de seus discursos e de seus escritos. Os instrumentos de trabalho da comunicação popular devem ser de qualidade e da máxima credibilidade possível.
O estudo de Dom Bosco é a condição para poder comunicar seu carisma e propor sua atualidade. Sem conhecimento não pode nascer o amor, a imitação e a invocação; tanto mais que só o amor leva ao conhecimento. Trata-se, portanto, de um conhecimento que nasce do amor e conduz ao amor: um conhecimento afetivo.

5. Mais de cem anos de historiografia “a serviço do carisma”

A produção historiográfica salesiana em mais de cento e cinquenta anos de vida percorreu um caminho notável, passando dos primeiros modestos perfis biográficos de Dom Bosco dos anos setenta do século XIX, às biografias encomiásticas, inspiradas numa leitura teológica, anedótica e taumatúrgica da sua vida e da sua obra, que a partir da década de oitenta e no século XX afora teve grande difusão.

Os momentos solenes da beatificação e da canonização de Dom Bosco estiveram obviamente na origem de uma série de escritos e opúsculos de caráter espiritual e edificante. Analogamente, para o âmbito pedagógico, se poderia falar a respeito da rica série de escritos e debates sobre Dom Bosco educador, depois da introdução do Método Preventivo de Dom Bosco nos programas escolásticos dos Institutos de formação do professorado primário da Itália.

No imediato pós-guerra e nos anos cinquenta, as novas gerações salesianas começaram a expressar certa inquietação a respeito da literatura hagiográfica do passado. Surgia a exigência de uma hagiografia do Fundador que não tivesse como objetivo somente a edificação e a apologia, mas a verdade da figura em todos os seus múltiplos aspectos: isto é, uma hagiografia que se situasse no contexto da história e, como tal, assumisse todas as tarefas, os deveres, os endereçamentos. Impunha-se, de certa forma, a necessidade de sair do círculo já consolidado para promover uma revisitação da história de Dom Bosco filologicamente captada e avaliada nas fontes, historicamente conduzida segundo métodos atualizados. Devia-se ultrapassar a ótica própria dos primeiros Salesianos, que indubitavelmente era providencialista, teológica, taumatúrgica, na qual as realidades do ambiente e as forças operativas do tempo tendiam a desaparecer.


Essas perspectivas de estudo e aprofundamento da figura de Dom Bosco, que havia tempo vinham despontando, receberam forte impulso por parte do convite do Concílio Vaticano II de retornar às genuínas realidades humanas e espirituais das origens e do Fundador, para a necessária renovação da vida consagrada (cf. Perfectae Caritatis, Ecclesiae Sanctae). Tudo isso exigia como condição indispensável o conhecimento dos dados históricos. Sem uma sólida referência às raízes, a atualização corria o risco de se tornar uma intervenção arbitrária e incerta. E, assim, no novo clima cultural da década de setenta, através de pressupostos, endereçamentos, métodos, instrumentos de pesquisa da atualidade, compartilhados pela pesquisa historiográfica mais séria, aprofundou-se o conhecimento do patrimônio hereditário de Dom Bosco, rico em acontecimentos e orientações, significados e virtualidades. Individuou-se o significado histórico da mensagem, definiram-se os inevitáveis limites pessoais, culturais, institucionais que, quase paradoxalmente, prefiguravam e prefiguram ainda as condições de vitalidade no presente e no futuro.


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