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Contra capa:



Num passado que se perdia na bruma dos tempos, uma raça misteriosa, a que se chamava simplesmente “Os Outros”, deixara à humanidade um legado precioso que era simultaneamente um grande desafio; uma passagem assinalada para alcançar as estrelas inexploradas. E a humanidade utilizou essa passagem para colonizar o sistema da estrela Phoebus, mas deixou inexplorado tudo o que restava da galáxia...

Num ambiente político conturbado, a grande nave Emissário utiliza a passagem pára uma viagem de exploração. Mas, quando regressa, os governantes da União mandam aprisionar a nave e deter a tripulação, ao mesmo tempo que proíbem qualquer futura exploração do espaço...

Apenas um homem, um colono de Deméter, consegue aperceber-se da situação e empreende uma ação desesperada para salvar o presente e acautelar o futuro...
POUL ANDERSON


O AVATAR I

Título original: The Avatar

Tradução de Américo de Carvalho

Capa: estúdios P. E. A.

© 1978 by Poul Anderson

Publicado por acordo com Scoot Meredith Literary Agency, Inc.,

845 Third Avenue, Nova Iorque, N. J. 10022.

Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda.


Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, eletrônico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização prévia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrição de pequenos textos ou passagens para apresentação ou crítica do livro. Esta exceção não deve de modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva à transcrição de textos em recolhas antológicas ou similares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são passíveis de procedimento judicial

Editor: Francisco Lyon de Castro

Edição n.° 35 011/2856

Execução técnica:

Gráfica Europam, Lda.,

Mira-Sintra Mem Martins

AGRADECIMENTOS

A máquina T não é inteiramente um produto da minha imaginação. O seu princípio básico foi descrito por F. J. Tipler na Physical Review, vol. D-9, n.° 8 (15 de Abril de 1974), pp. 2203-6; em Physical Review Letters, vol. 37, n.° 14 (4 de Outubro de 1976), pp. 879-82; e na sua tese Causality Violatibn in General Relativity (Universidade de Maryland, 1976). De modo nenhum é Tipler responsável pela utilização que faço da sua teoria, em particular porque me afastei consideravelmente do seu modelo matemático.

A idéia de vida numa pulsar provém, por sua vez, de uma entrevista com Frank Drake na revista Astronomy de Dezembro de 1973, pp. 5-8, assim como de uma conferência que ele fez na sessão de 1974 da Associação Americana para o Progresso da Ciência. Também Drake é um cientista de reputação feita. Apresenta esta noção apenas como qualquer coisa de altamente especulativo, na melhor das hipóteses. Além disso, é possível que eu tenha cometido sérios erros técnicos, pelos quais ele não é responsável.

Os meus agradecimentos a ambos por me terem permitido aproveitar das suas concepções. Resta-me esperar que estas tenham sido aqui representadas sem grandes deformidades.

Algumas partes dos capítulos II e XXIII apareceram, com forma ligeiramente diferente, no número do Outono de 1977 do Isaac Asimovs Science Fiction Magazine, numa história intitulada “Joelle”, copyright @ 1977 de Davis Publications, Inc.

A citação no capítulo IV é do poema “Sussex” de Rudyard Kipling. Figura na Edição Definitiva dos Versos de Rudyard Kipling, publicada por Doubleday & Co., e foi feita com o prévio acordo daquela editora.

Por sugestões e esclarecimentos fornecidos e, de uma maneira geral, pela ajuda que me prestaram, estou especialmente grato a Karen Anderson, Mildred Downey Broxon, Víctor Fernández-Dávila, Robert L. Forward, Larry J. Friesen, David G. Hartwell e Sandra Miesel. Várias são as coisas boas do livro que se devem a eles. As más, essas, tão todas da minha lavra.
Poul Anderson

I
Eu era uma bétula, esbelta na minha brancura no meio de um prado, mas não tinha nome para aquilo que eu era. As minhas folhas bebiam energia da luz do Sol, que perpassava através delas e lhes fixava o verde resplandecente. As minhas folhas dançavam ao vento, que tirava melodias dos meus ramos como se eles fossem uma harpa. Mas eu não via nem ouvia. Os dias, já a encurtar, deram-me um tom de mel-queimado; a geada acabou por me desfolhar, deixando-me nua; a neve estendeu-se em torno de mim durante a minha longa sonolência. Depois Orion perseguiu a sua presa para além deste firmamento e o Sol dirigiu-se para o Norte para brilhar sobre mim e me despertar. Mas de nada disto eu tinha percepção.

E no entanto eu tudo registrrava, porque vivia. Cada célula dentro de mim sentia de maneira secreta como o céu reluzia primeiro em todo o seu esplendor e depois mergulhava na quietude, como o ar soprava em vendaval ou uivava ou me acariciava num sonho, como a chuva caía fria a tamborilar, como a água e os vermes abriam caminho até às minhas raízes penetrantes, como as avezitas pipilavam no ninho onde eu lhes dava abrigo e tremiam, como a erva e o dente-de-leão me envolviam num amplexo, e como o húmus reverdecia enquanto a Terra avançava na sua rota por entre as estrelas. Cada novo ano que findava deixava gravado um anel no meu corpo, a lembrar a sua passagem. Embora não tivesse consciência disso, eu estava ainda em Criação e fazia parte dessa Criação. Embora não compreendesse, eu sabia. Era Árvore.

II
Quando a Emissário transpôs a passagem e Febo brilhou de novo sobre ela, metade daquela dúzia de tripulantes que tinham sobrevivido estava reunida na sua sala comum, juntamente com o passageiro vindo de Beta. Após tão longa ausência, queriam acompanhar as fases deste regresso nos maiores écrans que tinham e participar de uma cerimônia, num brinde com o último vinho que restava a bordo, bebendo-o com votos de boa chegada. O pessoal que estava de serviço juntou-se aos colegas, fazendo ouvir as suas vozes pelos intercomunicadores. Salud, Proost, Skal. Banzai. Saúde. Zdoroviye. Prosit. Mazel tov. Santé. Viva. Aloha — disse cada um do ponto onde se encontrava.

Do seu posto ao computador, Joelle Ky murmurou, em nome daqueles que tinham ficado para trás para todo o sempre,Zivio por Alexander Vlantis, Kan bei por Yuan Chichao, Cheers por Christine Burns. Não acrescentou nada em seu próprio nome. Refletiu em como estava a ficar sentimental, e desejou no seu íntimo que ninguém a tivesse ouvido. Ficou a olhar num pequeno écran que estava ali para lhe fornecer elementos visuais no caso de serem necessários. No meio dos instrumentos de medição e controlo, do equipamento emissor e receptor que enchia a cabina, o écran abria-se como uma janela sobre p mundo.

O “mundo” ali significava o “universo”. A amplificação foi ajustada no um, mostrando simplesmente aquilo que se poderia ver a olho nu. No entanto, as estrelas brilhavam em tal quantidade e com tal esplendor — diamante puro, safira, topázio, rubi — que as trevas em redor e muito para além pareciam um cálice a envolvê-las. Mesmo no Sistema Solar, Joelle não podia ter descoberto constelação nenhuma tão densa. Contudo, a configuração da Via Láctea pouco tinha mudado em comparação com as noites por cima de Nova Iorque. Com aquele brilho gelado como guia, deparou com uma luminosidade vermelha, que era M31; e teria parecido igual em Beta também, pois é irmã de toda a nossa galáxia.

Todavia, Joelle quis de repente ter diante dos olhos uma imagem mais familiar. A necessidade do reconforto que isso lhe daria surpreendeu-a, a ela, holoteta, para quem tudo quanto é visível não passava de um manto a cobrir a realidade. Os últimos oito anos terrestres deviam ter-lhe penetrado na alma mais fundo do que ela pensava. Sem querer esperar as horas, talvez mesmo os dias, até poder ver o Sol de novo, fez deslizar os dedos pelo teclado que ali estava diante dela, dirigindo o foco para Febo. Pelo menos tinha-o vislumbrado ao partir e vira inúmeras fotografias dele durante a vida.

Pusera já o capacete na cabeça e estava completada a ligação com o computador, com o banco de memória e com os instrumentos de bordo. Um instante depois de ter desejado aquela zona do céu, já a tinha calculado. Para si tratava-se de uma operação banal: era como saber onde pôr a mão para tirar uma ferramenta ou deduzir donde vinha um som. Nada de misterioso naquilo.

A cena mudou para um setor diferente. Apareceu um disco, ligeiramente maior do que o Sol observado da Terra ou da Lua, um pouco mais amarelo, tipo G5. A luminescência fotosférica, dez por cento superioras recebida pela Terra, havia sido automaticamente atenuada para evitar que a operadora se sentisse ofuscada. As intensidades menores permaneciam com o seu brilho natural. Assim, Joelle descobriu pontos na superfície, fulgores no limbo, nácar da coroa, tênues traços de luz zodiacal. Sim, pensou ela, Febo.tem a mesma beleza do meu Sol. Centrum não, e só agora sinto quanto me fazia falta esta beleza.

Os dedos de Joelle avançaram, à procura de uma vista de Deméter. Era problema que ela podia ter solucionado simplesmente com o seu cérebro, sem recorrer a mais nada. Acabada agora a viagem que fizera, a Emissário flutuava junto da passagem. E mantinha-se numa posição Lagrange 4 em relação ao planeta, na mesma órbita do que ele mas com 60° de avanço. A escova de captação devia meramente deslizar ao longo da eclíptica para encontrar o que Joelle pretendia.

A uma distância de 0,81 unidades astronômicas, sem ampliação Deméter parecia-se com as estrelas que o rodeavam, mais brilhantes do que a maior parte delas e mais azul do que algumas. Estás aí, Dan Brodersen? —perguntava Joelle a si mesma. E depois concluía: Sim, deves estar. Andei lá por fora oito anos, enquanto se passavam escassos dos vossos meses. Quantos, ao certo? Nem sei. Fidélio não pode dizer com precisão.

Uma chamada geral do capitão Langendijk veio interromper-lhe o devaneio. “Atenção, por favor. Os nossos radares registrram a presença de duas naves. Uma, naturalmente, é a nave oficial de vigilância e está a emitir sinais para entrar em comunicação conosco . Vou ligá-la ao intercomunicador, mas peço que não interrompam a conversa nem façam barulho desnecessário. Melhor será eles não saberem que vocês estão a ouvir.”

Por um momento Joelle sentiu-se surpreendida. Porque haveria o capitão Langendijk de tomar precauções daquelas? Como se o regresso da Emissário não pudesse ser motivo de regozijo para toda a espécie humana! Donde viria aquela nota de tensão na sua voz? A resposta feria-a no seu íntimo. Joelle tinha-se mantido indiferente a questões partidárias. Essas questões quase não existiam para ela. Uma vez, porém, recrutada para esta tripulação, não podia deixar de ouvir falar de disputas e de intrigas. Brodersen tinha-lhe explicado os fatos um tanto sombriamente, e eles haviam com freqüência sido objeto de conversa em Beta. Um forte grupo de pressões dentro da humanidade nunca vira com bons olhos aquela expedição e não se iria agora sentir nada satisfeita com o seu êxito.

Duas naves, ambas provavelmente em órbita em torno da máquina T. A segunda deve ser de Dan.

— Fala Thomas Archer, a comandar a nave de vigilância Faraday da União Mundial — anunciou uma voz de homem. O seu espanhol era carregado, como o de Joelle. — Identifiquem-se.

— Willem Langendijk, a comandar a nave de exploração Emissário — respondeu o capitão. — Estamos de regresso ao Sistema Solar. Podemos dar início às manobras?

— O quê? Mas ...

Percebia-se que Archer estava visivelmente espantado. Acabou por articular:

— Bem, parece não haver dúvidas... Mas toda a gente supunha que vocês tinham partido para uma viagem de anos!

— E partimos.

— Não. Eu assisti à vossa passagem. Foi, vejamos, há cinco meses, quando muito.

— Essa agora! Quer dizer-me em que data estamos? E a hora?

— Mas vocês ...

— Se faz favor.

Joelle podia bem imaginar como a cara chupada de Langendijk se alongava para sublinhar a sua insistência.

Archer leu alto as indicações de um cronômetro. Joelle confirmou pelo banco de memória a leitura exata do relógio quando ela e os seus camaradas haviam acabado de traçar a rota e se punham em marcha através do espaço--tempo para o seu destino desconhecido. A subtração deu um intervalo de vinte semanas e três dias. Joelle poderia com a mesma facilidade ter calculado quantos segundos ou microssegundos haviam passado na vida de Archer, mas ele apenas tinha dado a informação arredondada para o minuto mais próximo.

— Obrigado! — disse Langendijk. — Para nós passaram cerca de oito anos terrestres. Acontece que a máquina T é na verdade uma espécie de máquina de tempo, assim como um meio de transporte no espaço. Os Betanos — os seres que nos indicaram o caminho — calcularam a nossa viagem para que regressássemos muito perto da data em que havíamos partido.

Fez-se silêncio. Joelle notou que estava consciente do ambiente que a rodeava com mais intensidade do que o usual. Na queda livre, a nave conservava a ausência de peso, mantendo-se como que a planar. Era uma sensação agradável que fazia lembrar os sonhos de vôo de há muito, quando era novinha. (Depois disso, os sonhos haviam mudado com a sua maneira de sentir e com a sua alma, à medida que se tornava holoteta.) O ar de um ventilador parecia um murmúrio a acariciar-lhe as faces. Trazia consigo um ligeiro odor a floresta verdejante, produzido por produtos químicos em reconversão, e, na fase actual de variabilidade necessária para a saúde, uma sensação de friúra e um aroma forte, subliminal, de íons. Joelle sentia nos ouvidos o martelar possante do coração. E, sim, uma impressão no pulso esquerdo havia-se tornado em dor persistente. Joelle sentia-se à beira da artrite, e o tempo passava, o tempo passava. Provavelmente nem mesmo os outros podiam modificar aquilo ...

— Bem — disse Archer em inglês. — Com mil diabos! Sejam bem--vindos de regresso. Como estão vocês?

Langendijk mudou para a mesma língua, na qual se sentia um pouco mais à vontade e que era, de fato, usada a bordo da Emissário quase com a mesma freqüência que o espanhol.

— Perdemos três pessoas. Mas quanto ao resto, capitão, pode crer, as notícias que trazemos são verdadeiramente espantosas. Além de estarmos ansiosos por voltar para casa — e o senhor compreenderá isso —, temos pressa também em dar a conhecer a nossa história à União.

— E vocês...

Archer deteve-se, como se tivesse receio de formular a pergunta. Muito possivelmente tinha receio. Joelle ouvia-lhe a respiração pesada, antes de se decidir.

— E vocês encontraram os Outros?

— Não. O que encontramos foi uma civilização avançada, uma civilização não humana mas amiga, em contacto com um grande número de mundos habitados. Nessa civilização estão desejosos também de estabelecer estreitas relações conosco . Oferecem aquilo que a minha tripulação e eu consideramos serem condições fantasticamente boas. Não, não sabem mais do que nós a respeito dos Outros, a não ser quanto às restantes passagens que eles aprenderam a utilizar. Mas nós, as próximas gerações de homens, teremos muito que fazer para assimilar o que os Betanos nos proporcionarem.

“Escute agora, capitão. Compreendo que o senhor gostaria que lhe contássemos tudo, mas levaria dias. E, de qualquer modo, temos instruções para não nos demorarmos. O Conselho da União Mundial confiou-nos uma tarefa e exige que a ele façamos o primeiro relato do que vimos. É razoável, não? Nestas circunstâncias, pedimos que nos dê passagem a fim de seguirmos já, diretos, para o Sistema Solar.

De novo Archer permaneceu sem dizer palavra. Seria aquilo mais do que surpresa nele? Num gesto automático, Joelle recorreu aos circuitos exo-instrumentais da nave. Foi logo submersa por uma avalancha de informações. Não era uma percepção completa, mas, tanto quanto possível, como era fácil e ditoso compreender agora aquele cosmos no seu todo e sentir-se viver em uníssono com ele! Resistindo, Joelle concentrou-se apenas no radar e nas informações de navegação. Numa fração da sua própria pulsação, calculou como apanhar a Faraday no seu écran.

Não havia qualquer razão especial para isso. Joelle sabia muito bem qual o aspeto da nave de vigilância: um cilindro cinzento a terminar em ponta cônica, concebido de modo a poder descer em planetas, a poder lançar mísseis e raios. Mergulhado na luminosidade, e completamente diferente da enorme e frágil esfera eriçada de equipamento que era a Emissário. Quando a imagem mudou, Joelle não a ampliou para tornar a nave visível a um milhar de quilômetros. Em vez disso, prenderam-lhe a atenção dois globos pouco luminosos, vermelho e verde, que entraram no seu campo visual, num fundo de estrelas. Tratava-se de balizas à volta da máquina T. Tinham sido os Outros que as haviam colocado ali. Os órgãos de percepção de Joelle, agora reforçados, indicaram-lhe que uma terceira baliza devia também estar visível no receptor. E viu-a. Tinha uma coloração ultravioleta.

Ouviu vagamente Archer:

— ... quarentena? E Langendijk:

— Bem, se eles insistem. Mas andamos em Beta, de um lado para o outro, durante oito anos. E trouxemos um betano conosco . Ninguém apanhou doença nenhuma. Pinski e Carvalho, os nossos biólogos, estudaram o assunto e dizem-me que é impossível transmitirmos qualquer infecção. Também são improváveis mutações bioquímicas.

Atraída pelos pontos luminosos, Joelle deixou por completo de ouvir o que se dizia. Oh! Com certeza que algum dia ela, holoteta, poderia falar de cérebro para cérebro com os que tinham instalado aquele equipamento, se alguma vez os encontrasse.

Contudo, que fariam eles dela, e isto talvez em mais de um sentido da frase? Até o aspeto físico poderia provavelmente não lhes ser de todo indiferente. Era singular o que estava a fazer naquelas circunstâncias, mas, pela primeira vez em quase uma década, Joelle Ky olhou de repente para o seu corpo como um organismo de carne viva, palpitante, e não como maquinaria.

Com 58 anos (da Terra), aquele corpo de um metro e setenta e cinco conservava-se esguio, um tanto para o magro. A pele era um pouco pálida, apenas com ligeiras rugas. Nisso e nos zigomas salientes conservavam os seus genes um pedaço da história que o seu nome também lembrava. Joelle tinha nascido na América do Norte, naquilo que restara dos antigos Estados Unidos antes de eles se federarem com o Canadá. Os seus traços eram delicados, com grandes olhos pretos. O cabelo, outrora escuro, arrepanhado logo por baixo das orelhas, era agora da cor do ferro. Vestida com o uniforme de trabalho da nave, um fato-macaco com bastantes bolsos e fechos, só raramente usava qualquer coisa mais elegante.

Esboçou um sorriso. Que idiota que sou! Se qualquer coisa há de seguro a respeito dos Outros, é que nenhum deles me chegará um dia afazer a corte! E vai fazer-ma Dan, ali em De meter? Outro absurdo! Não esqueçamos que em Beta fiquei oito anos mais velha do que ele.

De qualquer maneira, estes pensamentos despertaram nela a lembrança de Eric Stranathan, o primeiro e único homem pelo qual sentiu amor verdadeiramente profundo. Ao cabo de um quarto de século — mais o tempo que ela tinha andado nesta missão —, Eric surgia-lhe de novo como se estivesse ali diante dos seus olhos. Sentou-se em frente dela numa canoa no lago Luísa, no meio das montanhas, a respirarem os dois o ar dos pinhais, sob um céu nocturno quase tão vasto como aquele que nesse momento se estendia à volta da Emissário. E, levantando os olhos ao alto, Joelle murmurou:

— Como vêem os Outros isto? Que significa para eles?

— Primeiro, o que são eles? — perguntou Eric por sua vez. — Animais que evoluíram mais do que nós? Máquinas que pensam? Anjos que habitam em volta do trono de Deus? Seres, ou um ser, de uma espécie que nunca imaginamos e nunca poderemos imaginar? Ou o quê? Há mais de cem anos que os Humanos andam a fazer a si mesmos esta pergunta.

Joelle mostrou-se confiante:

— Haveremos de saber um dia.

— Por meios holotéticos? — perguntou Eric.

— Talvez. Ou por meio sabe-se lá de quê? Mas estou convencida de que haveremos de conseguir. Tenho de acreditar nisso.

— Pode ser que não queiramos. Cheguei à conclusão de que nunca mais voltaríamos de novo a ser os mesmos, e esse preço poderia ser demasiado elevado.

Joelle estremeceu:

— Quer isso dizer que haveríamos de renunciar a tudo o que temos aqui?

— E a tudo o que somos. Sim, é possível.

Aquele jovem alto e magro pôs-se a mexer o corpo, balouçando o barco. E continuou:

— Quanto a mim, não queria. Sinto-me tão feliz como estou, neste momento!

Passou-se isto na noite em que se tornaram amantes.

... Joelle sentiu um frêmito. E se eu parasse com os meus devaneios? Se fosse razoável? Estou obcecada pelos Outros, sei isso. Ver o trabalho deles de novo, não ao serviço de estrangeiros mas de humanos, deve ter feito brotar em mim uma fonte de energia. Mas Willem tem razão. Os Betanos devem ser suficientes para ocuparem muitas gerações da minha raça. Será que os Outros sabem isso? Previram-no?

Joelle sentiu-se um pouco confusa ao notar que a sua atenção se tinha desviado do intercomunicador durante alguns minutos. Não era dada a introspecção nem a sonhar acordada. Talvez aquilo tivesse sucedido por estar ligada ao computador. Nessas ocasiões, um operador tornava-se no maior matemático e lógico do mundo, sem comparação com nenhum outro que houvesse existido na Terra antes de se ter aperfeiçoado a conjunção. Mas o operador continuava a ser um mortal, repleto de estultícia dos mortais. Suponho que o meu hábito de profunda concentração enquanto permaneço neste estado se apoderou já de mim. Uma vez que não estou habituada a entregar-me a emoções, perdi o hábito.

Ela tinha uma noção periférica de que se estava a discutir qualquer coisa. Pondo-se à escuta, ouviu Archer, que remascava:

— Muito bem, capitão Langendijk. Ninguém previa que vocês regressassem assim tão cedo. Ou mesmo que regressassem, para ser-lhe franco. Portanto, não tenho ordens concretas a vosso respeito. Mas os meus superiores deram-me instruções gerais.

— Ah, sim? — exclamou o comandante da Emissário. — E que dizem essas instruções?

— Vejamos: certas pessoas altamente colocadas estão muito preocupadas por qualquer coisa mais do que por vocês trazerem um ser estranho para a Terra. O fato é que nem sabem o que podem vocês trazer convosco. Olhe: eu não vou dizer que um monstro se apoderou da vossa nave e que esse monstro pretende agora passar pelo capitão Langendijk, ou qualquer coisa de paranóico no mesmo gênero.

— Espero que não! A verdade é que os Betanos — nome que nós lhes demos, é claro —, os Betanos não são apenas amigos. Estão desejosos também de nos conhecerem melhor. Essa a razão por que tratarão conosco em condições incrivelmente favoráveis. Eles querem estreitar as relações ainda mais.

Desconfiado, Archer perguntou:

— E como?

— Levaria longo tempo a explicar. Há qualquer coisa de vital que eles esperam saber de nós.

Aquilo fez espécie a Joelle: Qualquer coisa que eu ainda não sei ta saberei.

A voz de Archer arrancou-a àquele pensamento:

— Bom, talvez. Embora eu pense que isso ainda reforça o ponto de vista de que ninguém pode dizer quais serão as conseqüências ... para nós. E a União Mundial não é lá muito estável, o senhor sabe. Tenciona fazer o seu relato diretamente ao Conselho?



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