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“A minha intenção é ir à Terra e falar com várias pessoas que eu conheço, em especial com a família Rueda. Isto será feito com toda a discrição para evitar possíveis alarmes. Entretanto vocês podem aguardar a bordo, na nau. Oficialmente são apenas uma tripulação a operar a Chinook para os seus fretadores. E talvez tudo fique por aqui, pelo que nos diz respeito. Talvez as pessoas com quem vou contactar possam fazer o resto. Muito gostava que assim fosse. Mas se tal não acontecer ... Bem, a minha mulher preveniu-vos, não é verdade? Não faço a mínima idéia do que acontecerá. Vou utilizar os meus trunfos de harmonia com as cartas do adversário, e se fizer má jogada vocês perdem também.

Brodersen apontou para eles a ponta do cachimbo antes de enchê-lo. E prosseguiu:

— Não sei se ainda restam nos livros quaisquer leis sobre a pirataria. Vocês podiam ficar sujeitos a elas. Escutem. Se isto vai além do que vocês contavam, façam-me um último favor e digam-mo. Entendido? Eu ponho-vos oficialmente fora da questão. Deixo exarado no livro de bordo que vocês protestaram. Manter-vos-ei sob as mais ligeiras restrições e deixar-vos-ei partir no primeiro lugar seguro que cada qual queira escolher. Concordam? Digam a vossa opinião.

Calcou o tabaco e acendeu-o enquanto esperava. Seguiu-se o silêncio.

— Era o que eu imaginava — disse ele, na devida altura. — A oferta fica em aberto enquanto seguirmos sem novidade. Uma vez, porém, que alguém nos ataque, será demasiado tarde para voltarmos atrás. Compreendido?

Irei eu matar quem recuar sob o fogo ... entre estes meus amigos? Sim, tem de ser. E invocarei a lei do espaço em minha defesa, a menos que todo este safari provenha de um terrível erro da minha parte. Nesse caso, terei o destino que os meus antepassados reservavam aos bandidos.

A ventilação funcionava a toda a velocidade. O fumo dava à língua de Brodersen uma sensação calmante.

— Por mim, é tudo — observou ele. — Perguntas? Comentários? Protestos?

— Sim — disse Martti Leino, inclinando-se para a frente, num movimento que fez salpicar a cerveja da caneca que segurava na mão. Em tom duro, perguntou: —E o que está a fazer aqui a bordo Miz Mulryan?



Era de esperar. Brodersen estudou-o antes de responder. O irmão mais novo de Lis não se parecia com ela, apresentando mais traços do ramo Ladogan da sua ascendência: pequeno, atarracado, nariz achatado, um contorno ligeiramente asiático na face, com cabelos lisos muito pretos e olhos azuis um tudo-nada oblíquos. A sua jovialidade habitual tinha desaparecido por completo.

— Foi quem me escondeu depois de eu fugir — disse Brodersen..— Sem ela, eu teria de ficar em qualquer lugar habitado, com risco de ser reconhecido. E sobretudo ela vai ser a nossa médica.

— Ela?

Era um sarcasmo sem disfarces.



— Trabalha no Santo Henoch e está perfeitamente à altura de cuidar de nós no caso, por exemplo, de ferimentos. Além disso, pode desempenhar as funções de contramestre. — Brodersen inclinou a cabeça e rematou: — Temos trabalho adequado para ela.

Leino lançou um olhar de poucos amigos a Caitlín, que permanecia sentada, mãos cruzadas sobre os joelhos, e lhe dirigiu um leve sorriso de conciliação.

— Sim, não há dúvida que a trará sempre muito ocupada. E evidente! — retorquiu ele.

— Calma! — pediu Weisenberg.

Brodersen empertigou-se e pôs nas suas palavras as chicotadas cáusticas do soldado-aristrocrata:

— Basta, Sr. Leino. Se tiver alguma queixa contra alguém, incluindo o comandante, queira formulá-la de maneira precisa. De contrário, trate a sua colega de bordo com o respeito que ela merece.

O homem recostou-se na cadeira como se tivesse recebido um soco no estômago. Pu-lo no seu lugar com rudeza, não foi assim? — concluiu Brodersen. Mesmo que eu tivesse perdido a cabeça por causa da Pegeen, preciso de ser comedido.

— Calma, calma! — repetia Weisenberg. — Deixemos as palavras desagradáveis, por favor. Não é este o momento para elas. Miz Mulryan, seja bem-vinda à nossa nave. — As rugas cavaram-se em torno do seu sorriso.

— Eu não esperava de maneira nenhuma compartilhar o meu trabalho de contramestre.

— Estou-lhe muito grata — suspirou ela, e deixou pousar nele por mais uns segundos um olhar ardente. Weisenberg era um homem de estatura média, descarnado, anguloso, com uma saliente maçã-de-adão, pequenos olhos castanhos por baixo de espessas sobrancelhas. Por hábito, usava boné escocês a cobrir o cabelo branco, cortado rentinho, assegurando àqueles que inquiriam que desempenhava as funções de mecânico-chefe da nave.



Também eu lhe estou agradecido, Phil, procurava exprimir o comandante. Era provavelmente desnecessário. Os Weisenbergs e os Brodersens eram velhos amigos.

Susanne Granville pousou a mão ao de leve no ombro de Caitlín.

— Sim, seja bem-vinda — disse ela no seu inglês com acento francês.

— Há-de compreender que os astronautas têm horror a pessoal sem experiência. Não é assim, Martti? Mas estas coisas, estou convencida, poderá aprendê-las rapidamente. Se a puder ajudar, diga-me. Peço-lhe.



Belo gesto de Su, quando ela é tão apagada e Pegeen tão maravilhosa, foi o pensamento que passou por Brodersen. Conteve-se. Que diabo estou eu para aqui a magicar? Su é uma excelente moça, e é tudo.

Zarubayev levantou a mão. O atirador era um homem alto, sólido, com aparência de magro. Cabelo louro a cair até aos ombros e uma barbicha, ambos fora de moda em Deméter, salvo na área da sua residência em Novy Mir, serviam de quadro a uma expressão tolstoiana.

— E quanto a exercícios de combate? — perguntou ele.

— Como? — rosnou Brodersen.

— O senhor disse que devíamos estar preparados para combater, se fôssemos às estrelas. “Meramente no caso de ser necessário”, foram as suas palavras. Temos portanto armas já montadas como as da Emissário, e certo número de outras mais pequenas. Agora o senhor fala de um possível reencontro. Pirataria foi o que disse.

— Espere um momento — protestou Stefan Dozsa.

— Não, deixe-o continuar — disse Brodersen ao imediato.

— Capitão — respondeu Dozsa no seu próprio acento —, não tenho objeções a levantar à idéia, mas apenas à linguagem. Aprendi em rapaz que o Estado é o inimigo natural do povo. Se aceitarmos a sua semântica, perdemos meia batalha. Nós não somos piratas: somos libertadores.

Caitlín sentiu-se excitada. A emoção dava uma tonalidade especial à sua voz:

— O senhor está a falar com fanatismo. O meu país lembra-se muito bem. Pode crer, muito bem.

Dozsa riu. Era um homem -trigueiro, um pouco para o gordo, com olhos de amêndoa numa cara larga, um tanto achatada.

— Chame-nos polícia privada, então. Ou evangelistas. Ou lunáticos. Talvez até seja esta a melhor designação. Piratas, não. Os piratas lutam com a ganância do dinheiro.

— Diga da sua justiça, Sergei — pediu Brodersen.

— Julgo que devíamos ter instrução e treino com armas pequenas — declarou Zarubayev. — Não há dúvida que toda a gente a bordo sabe atirar, mas só o senhor e eu, capitão, estivemos no Comando de Paz e aprendemos técnicas de combate. De combate no espaço, também. Podemos ser os instrutores. Temos diante de nós alguns dias antes de chegarmos à máquina T, mais alguns dias ainda para chegarmos da passagem solar à Terra. E quem pode dizer quantos mais dias para além disso? Tempo suficiente para exercitarmos os outros em meia dúzia de princípios, para ganharmos um pouco de prática.

— Bem... — murmurou Brodersen, despegando as ancas apoiadas à mesa de jogo. — Não vamos procurar complicações.

— Um pouco de treino não faz mal a ninguém — volveu Dozsa. — Nesta viagem, a maior parte de nós não vai ter muito com que se ocupar. Eu receberia de braços abertos uma coisa destas que me ajudasse a preencher as horas de folga. E os restantes? — Lançou um olhar a Leino, ali sentado, impassível. — Talvez isso ajude a sentirmo-nos todos mais unidos.

A discussão generalizou-se. Depois de se chegar a acordo sobre a proposta e sobre alguns pormenores que dela resultavam, surgiram mais assuntos. Haviam-se passado duas horas quando Brodersen deu por finda a conversa com a tripulação. Os que não estavam de serviço podiam ainda ter ficado na sala comum, mas ninguém ficou.

À saída, Weisenberg murmurou:

— Vou ver o que posso fazer deste Martti, Dan, mas o assunto é realmente consigo. Não é assim?

— Ufa! — exclamou Brodersen quando ficou sozinho com Caitlín. Ela pegou-lhe nas mãos.

— Pobre de ti! Não restam dúvidas, não é nada agradável ser-se comandante. Tenho razão no que digo?

Brodersen levantou um canto da boca e respondeu:

— Também não hás-de achar muito divertido ser contramestre, minha querida. A tarefa é um pouco mais complexa do que cozinhar e tratar da despensa, embora isto não te deixe mãos a medir. Tu distribuis os gêneros,

manténs os registros em dia, olhas para que a carga não se desequilibre ... Melhor seria que eu começasse desde já a ensinar-te. Caitlín aproximou-se ainda mais dele.

— É assim tanta pressa? — perguntou ela.

— Receio que sim. Caitlín suspirou:

— Ah, bem! Mais tarde! •— e fez um gesto para o écran perto dela. — Ali, ao longe, há também sempre um “mais tarde”, enquanto vivemos. Não é assim, meu amor?

Brodersen não respondeu, pois estava com os olhos presos nela, tendo como fundo as estrelas.


XIII
Eu era um grande e soberbo salmão, mas não tinha palavras para grandeza nem para orgulho. Eu era-os. Os meus flancos luziam com o azul do aço, o meu ventre espelhava o branco da prata, mas tudo quanto conhecia de metais era um anzol que eu tinha mordido e que havia dilacerado a minha carne até que dele me libertei. Eu era um com a água, e sempre o tinha sido. Nos primeiros dias da minha vida, ela ondeava e sussurrava à minha volta enquanto eu me enroscava no cascalho e a sombra de um lúcio deslizava entre centelhas amarelas da luz solar. Mais tarde a água cresceu, formou cachão, acariciou-me, envolveu-me, à medida que eu me lançava rio abaixo para o mar. Quando a água se tornou salgada, despertou em mim um pressentimento que eu já tivera no ovo, e pulei cheio de alegria, através de uma catarata repleta de esplendor. O ar cravou então um fino gume através das minhas guelras. Depois, durante anos sem conta vagueei pelo mar, cacei, apanhei, cravei os dentes na suavidade a debater-se, e exultei.

Mas por fim? como trazida pelo vento, surgiu uma fragrância que despertou em mim nostalgia, e lancei-me com todo o vigor para o recanto donde tinha vindo.

Éramos muitos. Éramos muitos a subir um rio que rugia contra nós, embora se animasse de vida com o cintilar dos nossos corpos. Éramos nós agora a presa. Morríamos e morríamos. Mas não havia dúvida de que cada morte trazia consigo o mesmo júbilo que os vivos sentiam. Atingi o meu objetivo. A vida cantava dentro de mim.

Na paz de uma lagoa encravada nas montanhas escavei com a cauda no cascalho que outrora me havia albergado, e abri uma cova para os meus próprios filhos. Eu não compreendia que era assim que eles iriam nascer — eu teria comido qualquer deles se os encontrasse —, e no entanto nesse momento eu amava-os. E agora ele procurava por mim, ele. Foi o momento mais alto da minha vida.

Havia muito que eu estava preparado para morrer. Foi então que chegou o Enviado e pegou em mim, levando-me para a Unidade. Eu era Peixe.


XIV
Deméter diminuiu rapidamente no céu, reduzindo-se de um mundo para um globo, para uma pequenita foice azul, para um ponto a brilhar no meio de uma infinidade de outros pontos. A tripulação tomou os seus postos por turnos. Tinha sobretudo de estar bem atenta ao que pudesse surgir, quando a Chinook seguia num vôo inteiramente automático como este. Só o trabalho da contramestre era diferente. Enquanto esta, muito satisfeita, se ocupava da cozinha, preparando a primeira refeição da viagem que não seria simplesmente retirada da despensa e aquecida, Brodersen estava sentado nos aposentos do comandante sem mais nada que fazer a não ser permanecer acessível. A sua cabina interior era de tamanho confortável e bem mobilada: cama de casal (uma cama de dobrar durante o dia, para dar mais espaço), cadeiras, armário, cômoda, lavabo, estantes, mesa, terminais de dados e de comunicações, lava-louça, aquecedor de pratos, uma pequena geleira, écrans para captar imagens tanto do exterior como do interior. Num suave murmúrio, os ventiladores mantinham o ar continuamente em circulação, sempre puro apesar do cachimbo de Brodersen. Na fase em que se encontrava do seu ciclo de temperatura e ionização, o ar tinha um aroma parecido ao do cair da noite. As divisórias, de um cinzento-pálido, raiadas de azul, estavam sem quadros, as estantes sem livros, todo o alojamento sem quase nada de pessoal, pois não houvera possibilidade de trazer senão aquilo que Brodersen e Caitlín tinham nas mochilas. No entanto, aquele apartamento podia-se tornar cheio de vida sempre que eles quisessem, pois se encontrava no banco de memória da nave uma boa porção de toda a cultura do gênero humano.

Brodersen sabia que devia fazer uma sesta e aproveitar uma boa tirada de sono depois de jantar. Havia muito que não descansava. Extenuado, não podia mais. O tabaco só por si não o acalmava, e no espaço recorria muito pouco ao álcool e ao haxixe. Resolveu renovar velhos conhecimentos. Puxando pelas alavancas nos braços da sua cadeira, abriu as câmaras de vácuo que a mantinham contra as variações da aceleração e deslocou-a para a frente dos terminais, onde o peso do seu corpo a fixou de novo ao chão. Depois de marcar num quadro os códigos de referência e de os estudar por uns momentos, deu início à Quinta Sinfonia de Beethoven no sistema de áudio e a “Trinta e Seis Vistas de Fuji”, de Hokusai, na parte vídeo, a intervalos que iria regular manualmente e instalou-se de novo. Talvez a seguir um Monet ou mesmo um Van Vogh, pensou ele, ou então nenhum quadro mas ... hum ...um pouco de Kipling. Há anos que não leio “Soldiers Three”.

Isto era quase tão exotérico quanto o seu gosto artístico exigia. Brodersen considerava-se a si mesmo um homem prosaico, embora não desprezasse os prazeres da Terra — tais como os finos manjares que Caitlín e Lis, assim como a maior parte das mulheres apetitosas sabiam preparar — ou outras subtilezas. Os seus pais haviam tido o cuidado de lhe darem uma sólida instrução, mas o seu espírito ficara perfeitamente pragmático até entrar para o Comando de Paz. Despertou nele então o desejo de compreender melhor aquilo com que deparava em volta da Terra e mais além. Isso levou-o a ler muito de história, antropologia e disciplinas afins, que por sua vez despertaram nele o desejo de conhecer os grandes criadores. A sua primeira mulher tinha encorajado nele aquele interesse e a segunda estava ainda a fazer o mesmo.

“Não sou um intelectual”, observava por vezes. “Prefiro os pensadores.” No entanto, tinha dotado a Universidade de Eópolis com uma cadeira de humanidades. A espécie precisava de ser preservada, para compreender e apreciar a sua própria herança ... à face dos Outros, no conjunto do cosmo.

Estava a começar a sentir os músculos do pescoço e das espáduas a descontraírem-se quando tocaram à porta. Diabo! Maçadas ainda! O comandante está sempre disponível. Ergueu o corpo e dirigiu-se para a cabina exterior. Era pequena, estritamente um sólido gabinete, e só tinha de especial as complicadas ligações eletrônicas para o centro de comando. Já sentado à secretária, carregou no botão para abrir. A porta deslizou, deixando-lhe ver um pouco do corredor que rodeava aquele piso onde estava alojada a tripulação.

Era Martti Leino. Avançou pé ante pé e, como se estivesse a recitar um ritual bem planeado, lançou-se numa fórmula muito polida de cortesia:

— Solicitava-lhe uma entrevista em privado, comandante — articulou ele.



Claro, eu já sabia que havia de acontecer.

— Sim, senhor — volveu Brodersen, e fechou a porta. — Diga-me apenas: desde quando precisa a minha tripulação de ser tão protocolar para comigo, para já não falar do meu próprio cunhado? — Acenou com a mão: — Puxe por uma cadeira. Qualquer delas.

O homem, ainda novo (37 anos demeterianos), obedeceu com movimentos irregulares. Corava e empalidecia, com as feições a modificarem-se-lhe. A respiração era aos repelões. %

— Mas você parece o profeta Naum, todo comprometido — observou Brodersen. — Ponha-se à vontade. Uma vez que não fuma, quer tomar alguma coisa?

— Não.

— Então diga lá.



— Você já sabe.

Como aquela cara ali diante dele permanecia bem atenta, Leino explicou:

— Aquela sua fêmea.

O rapaz não está descontrolado de todo, apercebeu-se Brodersen. Bem. Detesto que ele lhe chame qualquer nome que não me deixe uma alternativa.

Saboreou o gosto picante do seu cachimbo, enquanto ia escolhendo as palavras. A voz, essa manteve-se macia:

— Quer referir-se a Miz Mulryan? Para sua orientação, devo dizer-lhe que ela não é fêmea de ninguém. E senhora de si mesma. Se você pensa de maneira diferente, tente arrastá-la para qualquer caminho que ela já não tenha escolhido.

— Ela veio para aqui... descaradamente ... consigo.

— E será assunto que interesse a mais alguém a não ser a nós mesmos?

— A Lis, seu sacana! — gritou Lein. Levantou-se até meio, punhos cerrados. Voltou depois a encostar-se na cadeira e colou os queixos.

— É evidente: quando eu disse “nós mesmos” queria referir-me de fato a “nós mesmos”. Lis sabe, e não se importa.

— Ou será demasiado altiva e demasiado leal para exprimir aquilo que sente? Conheço-a há mais tempo e melhor do que você, Daniel Brodersen.



Há mais tempo, sim, pensou o capitão. Melhor? Pode ser, também. A família na fazenda de Trollberg era grande. Sete filhos. Lis a primeira, Martti o quinto. Para mais, uma enorme região inculta a rodeá-la. Partilhavam todo o trabalho e o prazer e a descoberta e por vezes o perigo, o que os tinha unido estreitamente. Por quaisquer razões obscuras, os laços entre ambos foram sempre particularmente fortes. Quando Martti chegou a Eópolis para estudar engenharia nuclear, tinha-se Lis divorciado, e partilhavam os dois o mesmo apartamento. Ela foi trabalhar para a Chehalis, tornou-se cada vez mais imprescindível e atraente para o seu chefe ... e em tom amigável recusou as suas propostas, o que era bastante raro, até que por fim se casaram. Porque ela assim o quis, o irmão foi padrinho do modesto casamento.

— Deixe-me lembrar-lhe que sou marido de Lis há quase dez anos — observou Brodersen, com serenidade.— Não lhe parece que isso me permite compreendê-la melhor do que você em certos aspetos?

— Dez anos, sete da Terra. Não há um ditado na Terra acerca da comichão dos sete anos?

A expressão de Leino era a de uma criança em ar de desafio.

— Quer insinuar qualquer ligação ocasional?

Brodersen continha a sua cólera. A confissão sardônica agitava-se dentro dele, pois já tivera várias ligações ocasionais. Desnecessário deixar transparecer aquilo. Inclinou-se para diante, braços apoiados na mesa, cachimbo na mão direita com a extremidade virada para o seu interlocutor, e agitou-se um pouco.

— Marti — retorquiu ele. — Escute. Escute bem. Você não sentiu ainda, evidentemente, que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Ia apostar em como lá chegará, mas isso não interessa de momento. 0 que agora nos interessa aos dois é isto: a sua irmã aprova este entendimento que existe entre Caitlín e eu. Lis e Caitlín Mulryan são excelentes amigas. — Exagero um pouco, mas evidentemente porque nós os três só raras vezes nos encontramos juntos. Por certo que elas são boas amigas, e mais amigas se hão-de tornar. — Se não quiser acreditar na minha palavra, dou-lhe licença para lho perguntar, a Lis, quando regressarmos. Está bem?

Leino remascou:

— Não. Porque ela iria sem dúvida nenhuma mentir — e caiu no seu dialeto de origem —-, para o defender a si, a quem jurou fidelidade, escondendo de mim as suas mágoas.

Brodersen cravou os olhos nele:

— Você também me conhece um pouco. Pensa a sério que sou o tipo de querer deliberadamente ferir a minha mulher?

Leino mordeu o lábio. O rapaz procura ser razoável, pensou Bordersen. Está a reconsiderar.

Acabados os estudos, também Leino havia ido trabalhar para a Chehalis. Se assim se pode dizer, aquilo era nepotismo ao inverso, pois Deméter tinha uma falta crônica de técnicos experientes. A unida medida de favor que Brodersen tinha mostrado, por sua vez, havia sido destacá-lo para alguns projetos no espaço — exploração, prospecção, estabelecimento de bases mineiras num asteróide e num cometa — em que também ele, Brodersen, havia participado. Não o teria feito se Leino não fosse competente. Os humanos consolidam estreitas relações entre si em tais condições.

O comandante aprofundou a sua vantagem:

— Nem Lis nem eu vemos nisto qualquer coisa de desleal. Use da sua imaginação. Há um milhão de diferentes infidelidades que um esposo monógamo pode cometerem relação ao outro, e muitos deles as cometem. Mesquinha crueldade. Negligência. Esquivar-se à parte que a cada um cabe na responsabilidade. Simples baixeza, desprezível e vexatória, ano após ano. Desonestidade, em certos casos mais extremos. E assim seguidamente. Você tem razão, a sua irmã não se sentaria tranqüila para julgamento — para um autêntico julgamento. Acalme-se, portanto. Você teve uma surpresa, e nada mais. Acabará por venceria.

— A humilhação — objetou Leino. —Andar assim a exibir em público a sua amante.

O cachimbo de Brodersen estava a apagar-se. Ele recostou-se, espicaçou o fogo, esboçou um sorriso contrafeito e replicou:

— Nos tempos que vão correndo? Vejamos, estou de acordo em que Lis e eu somos excepcionais. Fazemos o melhor que podemos para manter em recato os nossos casos privados.

— Os vossos casos? — repontou Leino. — E você gostava que ela lhe fizesse o mesmo a si?

Brodersen escolheu os ombros:

— E maior e vacinada. Além disso, não creio que Lis me engane. De qualquer maneira, Caitlín veio para bordo numa situação de emergência. Só com a ajuda dela podíamos estar a caminho. E nenhum de nós, elas ou eu, nenhum de nós tem muita vantagem em ser hipócrita.

Isso, pensou ele, no que se refere a mim próprio, pode ser a minha mais refinada hipocrisia até hoje. Bem, um homem totalmente sincero seria um monstro.

O tom de censura estava a atenuar-se. Acabou de todo quando Leino se pôs de pé bruscamente, mãos crispadas ao alto, rosto contraído, e gritou:

— Significa isso, seu porco imundo, que você também corromperia a Lis? Estou-me a marimbar para o que se passa consigo. Mas, por Deus que a criou a ela, você há-de tirar as unhas da alma de Lis.

O instinto levou Brodersen a responder:

— Silêncio! — Deu à voz o peso necessário. E continuou: — Fique sentado. É uma ordem.

Os astronautas aprendem logo desde a primeira hora que uma nave cheia de vidas humanas depende da imediata obediência, Leino cedeu. Salvo o ventilador e o seu respirar pesado, nada mais se ouviu no gabinete durante um momento, momento esse que Brodersen mediu até reatar, em voz pausada: — Martti, irmão de Lis, escute-me. Você falou do orgulho dela. Você admira-lhe também a inteligência. Então que diabo o leva a supor que pudesse ser corrompida? Simplesmente, Lis escolheu seguir caminho um pouco diferente daquele que você desejaria para ela. Se está preocupado com a fidelidade de sua irmã, com a sua moral, então porque não levantou a mínima objeção quando ela se divorciou do primeiro marido? Lis havia-lhe feito, a ele, um juramento sobre a Bíblia, lembre-se disso. O primeiro marido é da Santa República do Ocidente.

Leino olhava fixamente, de boca aberta.

— Porque você sabia que, apesar de ele ter um cérebro impressionante, não passa de um arrogante fideputa, sem consideração nenhuma para com os outros. E de uma delicadeza de vistas confrangedora.



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